EvangelizaçãoAula 2

O evangelho que anunciamos

“Pois, antes de tudo, entreguei a vocês aquilo que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras.”1 Coríntios 15.3-4 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: 1Co 15.1-11; At 2.22-41; Rm 1.16-17; Cl 1.13-20

Perguntas norteadoras

Três perguntas antes de começar

Na Aula 1 vimos por que anunciar. Agora vem a pergunta mais incômoda: o que, exatamente, estamos anunciando?

1

Você saberia dizer em três minutos?

Sem jargão de igreja, sem versículo decorado solto — o que é o evangelho, para um vizinho que nunca entrou num templo?

2

Evangelho é notícia ou é conselho?

Relato do que Deus fez, ou instrução do que você deve fazer? A diferença muda tudo.

3

O que sobra quando se corta demais?

Existe um núcleo sem o qual a mensagem deixa de ser o evangelho. Qual é?

Tese da aula: o evangelho não é a soma de tudo o que a Bíblia ensina, nem um resumo de conselhos religiosos. É o anúncio de um acontecimento — Cristo morreu, foi sepultado, ressuscitou e reina — com uma resposta pedida: arrependimento e fé. Perder esse núcleo é pregar outra coisa com o mesmo nome.

Parada 1

Notícia, não conselho

A palavra grega euangelion não nasceu no vocabulário religioso. Era o termo do arauto que corria à cidade para anunciar uma vitória ou a subida de um novo rei ao trono.

Isso define o gênero da nossa mensagem. Conselho é instrução sobre o que você deve fazer; notícia é relato do que já foi feito. Toda religião do mundo dá conselhos — seja bom, medite, cumpra a lei, purifique-se. O cristianismo começa dando notícia: aconteceu algo fora de você, na história, que muda a sua situação diante de Deus.

Se fosse conselho

A pergunta seria “você está conseguindo?”. A resposta honesta seria não. E a religião viraria uma escada que ninguém sobe até o fim.

Sendo notícia

A pergunta é “você crê?”. E a fé não é um esforço a mais: é receber o que outro fez por você (Ef 2.8-9).

Parada 2

O que os apóstolos realmente pregavam

Quando se comparam os sermões de Atos com o resumo de 1Coríntios 15, aparece um esqueleto comum. Os estudiosos o chamam de kerigma — a proclamação.

Elemento 1

As promessas se cumpriram

“Segundo as Escrituras” (1Co 15.3). A pregação apostólica nunca começa do zero: mostra que a história de Israel desemboca em Jesus (At 2.16; At 3.18).

Elemento 2

Jesus de Nazaré, sua vida e obras

Um homem real, atestado por sinais, conhecido por quem ouvia (At 2.22; At 10.38). Não uma ideia religiosa, mas alguém que comeu, chorou e foi visto.

Elemento 3

Morreu pelos nossos pecados

A cruz não foi acidente nem fracasso: foi entrega, “pelo determinado desígnio e presciência de Deus” (At 2.23), em favor de outros (1Co 15.3; Rm 5.8).

Elemento 4

Ressuscitou, e há testemunhas

“A quem Deus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas” (At 2.32). Sem ressurreição não há evangelho, e sim consolo religioso (1Co 15.14,17).

Elemento 5

Foi exaltado e reina

Está à direita do Pai, Senhor de tudo (At 2.33-36; Ef 1.20-22). O evangelho anuncia um Rei em exercício, não um herói do passado.

Elemento 6

Ele derrama o Espírito e voltará

O Espírito é a prova de que a nova era começou (At 2.33); e há um dia marcado de juízo (At 17.31).

Resposta

Arrependam-se e creiam

Toda pregação apostólica termina com um chamado, não com uma informação (At 2.38; At 3.19; At 17.30).

Teste caseiro: pegue a última mensagem que você ouviu — ou pregou — e procure esses elementos. Se a cruz, a ressurreição e o chamado à resposta não aparecerem, foi uma boa palestra. Ainda não foi evangelho.

Parada 3

“Jesus é Senhor”: o credo mais antigo

Antes de haver Credo Apostólico, catecismo ou confissão, a igreja já tinha uma frase de três palavras: Kyrios Iesous — Jesus é Senhor (At 2.36; Rm 10.9; 1Co 12.3).

Vale prestar atenção no que essa confissão faz com a nossa evangelização. René Padilla observava que a obra de Deus em seu Filho não pode ser reduzida a uma limpeza da culpa do pecado: é também um traslado ao Reino messiânico que em Cristo se fez presente (Cl 1.13). A salvação em Cristo envolve tanto o perdão dos pecados (1Jo 1.9) quanto a vitória sobre o mundo (1Jo 5.4).

Evangelizar não é oferecer uma experiência de libertação de sentimentos de culpa, como se Cristo fosse um superpsiquiatra e seu poder de salvar pudesse ser separado de seu senhorio. Evangelizar é proclamar Jesus Cristo como Senhor e Salvador.

Cuidado

Salvador sem Senhor não existe

Quando anunciamos só o Salvador, produzimos convertidos que querem os benefícios e recusam a autoridade. Quando anunciamos só o Senhor, produzimos moralistas cansados. As duas coisas estão na mesma confissão: “se você confessar com a sua boca que Jesus é Senhor e crer em seu coração que Deus o ressuscitou dos mortos, será salvo” (Rm 10.9).

Rm 10.9

Parada 4

A resposta que o evangelho pede

Notícia verdadeira exige resposta. E o Novo Testamento é bem específico sobre qual é.

1

Arrependimento

Mudança de mente que vira a vida de direção. “Arrependam-se e creiam no evangelho” (Mc 1.15); Deus “ordena a todas as pessoas, em todos os lugares, que se arrependam” (At 17.30).

2

Confiança que se entrega, não mera concordância. “Creia no Senhor Jesus e você será salvo” (At 16.31).

3

Confissão pública

A fé sai da boca e assume as consequências sociais (Rm 10.9-10; Mt 10.32).

4

Batismo e comunidade

“Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado” (At 2.38). Os três mil não viraram crentes avulsos: foram acrescentados (At 2.41-42).

Nota wesleyana: a oferta é para todos, e a graça de Deus vai adiante de nós preparando o coração de quem ainda nem procura (Jo 1.9; Tt 2.11). Mas graça preveniente não é salvação automática: ela capacita a resposta, não a substitui. A salvação continua sendo recebida pela fé (Ef 2.8).

Parada 5

Cinco atalhos que mutilam o evangelho

Nenhum deles nega a fé de frente. Todos cortam um pedaço e continuam usando o nome.

1A graça barataperdão sem discipulado+

É o Deus que sempre dá e nunca exige nada; feito sob medida para quem se rege pela lei do menor esforço. Nesse arranjo a cruz perde o escândalo: ela aponta para o sacrifício de Jesus por nós, mas não é chamado ao discipulado — é a cruz de Cristo, nunca a do discípulo. O Novo Testamento não conhece essa separação: “se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16.24). Perdão e senhorio chegam juntos, ou não chegou o evangelho.

2O evangelho como mercadoriaa fé que garante êxito+

Aqui o evangelho vira produto cuja aquisição garante ao consumidor os valores mais altos: êxito na vida e felicidade pessoal, agora e para sempre. “Aceitar a Cristo” passa a ser o meio de alcançar a boa vida sem custo algum. Padilla é direto: a manipulação do evangelho para obter êxito sempre conduz a uma escravização ao mundo e aos seus poderes. Paulo pregou um Cristo crucificado, escândalo para uns e loucura para outros (1Co 1.23) — não uma técnica de prosperidade.

3O evangelho puramente individualo convertido como Robinson Crusoé+

Uma evangelização que concebe o indivíduo como unidade autônoma — um Robinson Crusoé a quem o chamado de Deus chega na solidão da sua ilha. Some dessa conta o corpo de Cristo, some a responsabilidade social, some a realidade de que a pessoa vive dentro de um sistema que a condiciona. O evangelho salva pessoas, uma a uma, e as coloca num povo (1Pe 2.9-10) e num mundo a servir.

4O moralismoboas notícias trocadas por bons conselhos+

A pregação que termina sempre em “seja melhor”, “esforce-se mais”, “mude de vida” — sem nunca chegar ao que Cristo fez. É religião, e das mais cansativas. O comportamento cristão é fruto do evangelho, não a raiz dele: “somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras” (Ef 2.10) — nessa ordem.

5O evangelho encolhido pelo secularismouma religião antropocêntrica+

Muitos cristãos se curvam ao secularismo desenvolvendo uma religião antropocêntrica, que diz ao ser humano unicamente o que ele quer ouvir: que é dono de si mesmo, que o futuro da história está em suas mãos, que Deus só pode ser tolerado como algo impessoal e manipulável. É negação de um pressuposto básico da mensagem bíblica — o de que Deus transcende o universo e atua livremente nele.

Parada 6

Um só Salvador, um só evangelho

Em 1974, no Congresso Internacional de Evangelização Mundial, em Lausanne, a igreja evangélica mundial pôs por escrito o que crê a respeito da mensagem. Vale reter três afirmações.

Sobre a Bíblia

A mensagem se destina a toda a humanidade

A revelação de Deus em Cristo e na Escritura é imutável, e por meio dela o Espírito Santo fala ainda hoje. Não é patrimônio de uma cultura: é notícia para todos os povos.

Sobre Jesus

Há um só Salvador e um só evangelho

Todos têm algum conhecimento de Deus pela revelação geral na natureza, mas tal conhecimento não pode salvar (Rm 1.19-21). Cristo não fala igualmente através de todas as religiões e ideologias. Ele é o único caminho (Jo 14.6; At 4.12).

Sobre a missão

Evangelização e responsabilidade social andam juntas

O Pacto toma posição contra um evangelho mutilado e contra um conceito estreito da missão cristã — e critica a adulteração da mensagem, a manipulação dos ouvintes por técnicas de pressão e a preocupação exagerada com estatísticas. Voltaremos a isso na Aula 9.

Parada 7

Como dizer isso em três minutos

Um roteiro simples, para você adaptar às suas palavras. Não decore: entenda a lógica e conte do seu jeito.

Passo 1

Deus

Existe um Deus bom que criou tudo e criou você para viver em relação com Ele. Você não é acidente, e a sua vida tem dono e destino (Gn 1.27; Cl 1.16).

Passo 2

Nós

Todos nós viramos as costas para esse Deus e passamos a viver como donos de nós mesmos. O resultado está à vista, dentro e fora de nós: culpa, quebra, morte (Rm 3.23; Is 53.6).

Passo 3

Cristo

Deus não desistiu. O Filho veio, viveu a vida que devíamos viver, morreu a morte que merecíamos e ressuscitou. Isso aconteceu na história, e há testemunhas (1Co 15.3-6; Rm 5.8).

Passo 4

Você

Isso pede uma resposta: mudar de direção e confiar nele como Senhor. Quem faz isso é perdoado, recebe o Espírito e entra numa família (At 2.38; Rm 10.9).

Passo 5

Convite

“Faz sentido para você?” “Tem alguma coisa aí que te trava?” — pergunta é melhor que pressão. Deixe a porta aberta e a conversa continuar.

Um lembrete da Aula 1: esse roteiro não substitui o relacionamento. Ele serve para quando a porta se abre — e a porta costuma se abrir depois do café, não antes.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Releia o que você escreveu na tarefa da Aula 1 — a sua meia página explicando o evangelho. O que faltava? O que sobrava?Ver resposta sugerida
Confira contra o esqueleto do kerigma. Faltas mais comuns: a ressurreição (muita gente para na cruz e no perdão, mas sem ressurreição não há Senhor vivo nem esperança — 1Co 15.17); o senhorio (fala-se do Salvador que resolve problemas, e não do Rei a quem se entrega a vida); e o chamado à resposta (o texto informa, mas não convida). Sobras mais comuns: jargão que só a igreja entende (“aceitar a Jesus no coração”, “ser lavado no sangue”) e assuntos internos que não são o evangelho — dízimo, denominação, regras de conduta. Reescreva agora, num parágrafo, sem nenhuma palavra que o seu vizinho precise traduzir.
Alguém lhe diz: “toda religião leva a Deus, cada um no seu caminho”. Como responder com mansidão, sem arrogância e sem ceder no essencial?Ver resposta sugerida
Comece reconhecendo o que há de bom na intenção: quem diz isso quase sempre está defendendo respeito e paz entre as pessoas — e nisso está certíssimo. Depois, ofereça uma distinção: respeitar todas as pessoas é obrigação cristã; afirmar que todas as religiões dizem a mesma coisa é que não se sustenta, porque elas discordam entre si em pontos centrais (quem é Deus, o que há de errado com o ser humano, o que acontece depois da morte). Tratá-las como iguais é, no fundo, não levar nenhuma a sério. Em seguida, mostre o que é único: as religiões dão conselhos sobre como chegar a Deus; o evangelho dá notícia de um Deus que veio até nós e morreu por nós. Feche com humildade: “eu não sigo Jesus porque me acho melhor que ninguém — sigo porque fui alcançado por graça, e ela está oferecida a você também”. Tudo isso “com mansidão e temor” (1Pe 3.15), lembrando que o exclusivismo cristão nunca autoriza arrogância: quem foi salvo de graça não tem do que se gabar (Ef 2.8-9).

Para casa e próxima aula

Tarefas

1) Reescrever a sua explicação do evangelho em um parágrafo, seguindo os cinco passos, sem jargão religioso — e treiná-la em voz alta, cronometrando: deve caber em três minutos. 2) Ler os sermões de Atos 2.14-41 e Atos 17.22-34 e anotar as diferenças de abordagem entre um público judeu e um público pagão. Traga na Aula 3.

Aula 3

Evangelização como estilo de vida: o cotidiano como campo, a hospitalidade como método e por que abrir a porta da sua casa alcança mais gente do que qualquer campanha. Ir para a Aula 3 →

Curso de Evangelização · Igreja Metodista Livre do Brasil. Texto redigido com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.