Por onde Jesus começava?
Com a samaritana Ele começou pedindo água. Com Nicodemos, respondendo teologia. Com Zaqueu, convidando-se para almoçar. Há um padrão nisso?
“Vendo as multidões, teve compaixão delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor.”Mateus 9.36 · NAA
Perguntas norteadoras
Se o evangelho é um só, por que Jesus nunca abordou duas pessoas do mesmo jeito?
Com a samaritana Ele começou pedindo água. Com Nicodemos, respondendo teologia. Com Zaqueu, convidando-se para almoçar. Há um padrão nisso?
Conquistar a atenção antes de falar é estratégia legítima ou jogo de sedução?
Existe hora de não dizer? Jesus disse que há — e a frase que Ele usou incomoda.
Tese da aula: antes de comunicar é preciso cativar a atenção, e é preciso lidar com sabedoria e sensibilidade com as barreiras e os preconceitos que existem entre o comunicador e a pessoa que está sendo evangelizada. Isso não é técnica de venda: é o que a encarnação nos ensinou.
Parada 1
Vale começar pelo contraexemplo, porque ele é mais comum do que gostaríamos.
Presenciei uma cena, um tanto grotesca, da tentativa de uma irmã de evangelizar um jovem dentro de um ônibus. A senhora falava em alto e bom som para um jovem que se mostrava profundamente incomodado e constrangido com aquela conversa, tanto que ele havia se voltado para a janela dando as costas para a mulher que, insensível a ele, continuava disparando frases destrambelhadamente, num ataque de pura verborragia em sua descuidada tentativa de cumprir a sua parte na Grande Comissão.
Não faltou zelo àquela irmã. Faltou o que Jesus tinha de sobra: a capacidade de perceber a pessoa diante de si. Não basta falar, é preciso primeiro conquistar a atenção. É preciso cativar com amor e simpatia.
O princípio da encarnação
Ele não anunciou o Evangelho lá de cima: o seu amor o levou a descer à Terra para se identificar conosco e estar próximo, mostrando verdadeiro amor e conquistando nossa amizade e confiança. Amor, que leva à amizade e a identificar-se com simpatia, mostrando verdadeiro interesse, é a chave para a evangelização.
Jo 1.14; Jo 20.21
Parada 2
João 4 é o texto mais completo do Novo Testamento sobre abordagem pessoal. Repare que Jesus não chegou despejando um caminhão de boas novas.
Movimento 1
Jesus “tinha de passar por Samaria” (Jo 4.4) — uma necessidade que não era geográfica, já que os judeus contornavam a região. Encontro não acontece por acaso: alguém precisa mudar de rota.
Movimento 2
“Dê-me de beber” (v. 7). Começou colocando-se em posição de necessidade, não de superioridade. Quem pede ajuda desarma; quem chega oferecendo salvação, ameaça.
Movimento 3
Judeu falando com samaritana, homem falando com mulher, rabino falando com aquela mulher. Ele sabia dos conflitos entre judeus e samaritanos, e a sua atitude foi, em primeiro lugar, simpática e surpreendente, na direção da quebra dessas barreiras.
Movimento 4
Da água do poço para a água viva (v. 10-14). Estabeleceu uma ponte do conhecido para o desconhecido, usando o que já estava na mão dela.
Movimento 5
“Vá, chame o seu marido” (v. 16). Não passou pano no pecado, e também não a expôs. A verdade veio, e veio sem desprezo.
Movimento 6
Ela desviou para a controvérsia do monte contra Jerusalém (v. 20). Jesus respondeu de fato — e conduziu a resposta de volta ao essencial: adoração em espírito e em verdade.
Movimento 7
“Eu o sou, eu que falo com você” (v. 26). Toda a conversa caminhava para cá. Cativar não é um fim: é o caminho até o momento de dizer quem Ele é.
Resultado: ela largou o cântaro e virou evangelista da própria cidade (v. 28-30,39). Vinte minutos de conversa bem conduzida alcançaram o que nenhuma pregação de rua alcançaria ali.
Parada 3
Paulo, em Atenas (At 17), mostra a mesma sabedoria e sensibilidade — agora diante de um público que não compartilhava nada da sua bagagem religiosa.
Estando no Areópago repleto de ídolos pagãos, ele anuncia o Evangelho a todos chamando a atenção para um altar que ali se encontrava, dedicado ao “Deus Desconhecido”, e passa a falar em nome desse tal Deus Desconhecido do panteão grego, apresentando-o como Jesus Cristo. É interessante notar também que Paulo chega a mencionar uma frase de um poeta grego (v. 28). Ele sabia estabelecer pontes do conhecido para o desconhecido, como fez Jesus falando a partir da água conhecida para uma água que a mulher samaritana não conhecia.
Com o público judeu (At 13)
Paulo começa pela história de Israel e pelas Escrituras, porque o ouvinte as reconhece como autoridade. Vai direto às promessas cumpridas.
Com o público pagão (At 17)
Começa pela criação, pela consciência religiosa que eles já tinham e por um poeta que eles liam. Só depois chega ao juízo e à ressurreição.
Aplicação direta
Pode ser uma inquietação, uma perda, uma pergunta sobre o sentido da vida, uma música que ele ouve, um livro que ele leu. Comece por ali. Ninguém se converte no ponto em que você está: as pessoas começam a caminhar no ponto em que elas estão.
At 17.22-23
Parada 4
Destilando o que vimos, sobram cinco convicções que servem para qualquer conversa.
A atenção precisa ser conquistada, não exigida. Sem isso, a mensagem correta chega na hora errada e produz o efeito contrário.
Água, altar, poeta, profissão, dor. Construa a ponte a partir do terreno onde a pessoa já pisa.
Jesus rompeu barreiras com um gesto inesperado antes de dizer qualquer verdade. Uma gentileza fora do script vale mais que dez argumentos.
Jesus fez cerca de trezentas perguntas nos evangelhos. Pergunta convida; afirmação desafia. E a resposta que a pessoa mesma formula é a que fica.
Ponte que não leva a lugar nenhum é só simpatia. Toda a conversa caminha para a revelação de quem Ele é.
E o discernimento de quando não falar. Você nunca verá um exemplo de Jesus falando a pessoas desinteressadas. Ele não “dá as coisas santas aos cães nem lança as pérolas aos porcos” (Mt 7.6) — ou seja, não desperdiça as preciosas palavras do Evangelho. Diante de Herodes, que só queria espetáculo, Jesus não respondeu nada (Lc 23.9). Silêncio também é método, quando a pessoa não busca verdade, e sim diversão ou briga.
Parada 5
Três encontros, três estratégias — e o mesmo Cristo no fim.
Nicodemos · Jo 3
Veio de noite, com uma pergunta teológica. Jesus não elogiou o currículo: cortou direto no que faltava — “é necessário nascer de novo”. Com quem sabe muito, o caminho costuma ser desarmar a suficiência.
A samaritana · Jo 4
Veio ao meio-dia, sozinha, para fugir das outras mulheres. Jesus começou pedindo um favor e tratando-a como gente. Com quem carrega vergonha, o caminho é a dignidade antes da verdade.
Zaqueu · Lc 19
Subiu numa árvore porque queria ver e não ser visto. Jesus o chamou pelo nome e se convidou para a casa dele — diante do escândalo geral. Com quem se sente excluído, o caminho é a mesa.
Conclusão prática: não existe abordagem única. Existe atenção. Antes de decidir o que dizer, pergunte-se: essa pessoa está armada de argumentos, envergonhada, ferida, entediada ou faminta de sentido? A resposta muda o começo da conversa — nunca o seu destino.
Parada 6
Todos eles são cometidos por gente sincera. É isso que os torna perigosos.
A cena do ônibus. O sinal é simples: se a pessoa parou de responder, desviou o olhar ou virou o corpo, a conversa acabou há alguns minutos — e continuar só produz resistência. Pare, peça desculpa pelo excesso se for o caso, e deixe a porta aberta. Vale mais uma frase bem colocada hoje do que um sermão que encerra o assunto para sempre.
“Aceitar Jesus no coração”, “ser lavado pelo sangue”, “estar debaixo da unção”. Para quem está de fora, isso vai de incompreensível a bizarro. Paulo, em Atenas, citou um poeta grego; não exigiu que os gregos aprendessem hebraico. Traduza — e se não consegue traduzir, é sinal de que você mesmo ainda não entendeu.
É possível encurralar alguém e sair com a sensação de vitória, tendo garantido que aquela pessoa nunca mais toque no assunto com você. Nosso alvo não é o argumento vencido, é a pessoa conduzida com paciência até Jesus. Quando perceber que a conversa virou disputa, mude o tom: “olha, eu posso estar errado em vários pontos, mas isso aqui mudou a minha vida — posso te contar?”.
Acontece quando o objetivo deixa de ser a pessoa e passa a ser o número, a meta ou a consciência tranquila. As pessoas percebem — sempre. O Pacto de Lausanne criticou justamente a manipulação dos ouvintes por técnicas de pressão e a preocupação exagerada com estatísticas. Se você não teria aquela conversa caso ninguém jamais soubesse dela, o motivo provavelmente está errado.
Fixação
Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.
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Para pensar e conversar
Tarefas
1) Reler João 4 anotando os sete movimentos e identificar, na sua lista de oikos, uma pessoa para cada perfil: um Nicodemos, uma samaritana e um Zaqueu. 2) Descobrir qual é o “altar ao deus desconhecido” de uma dessas pessoas — a inquietação, a pergunta ou a perda por onde a conversa pode começar. Traga na Aula 5.
Aula 5
O seu testemunho pessoal: como contar a sua história em três minutos, o modelo de Paulo diante de Agripa e por que ninguém pode contestar aquilo que aconteceu com você. Ir para a Aula 5 →
Curso de Evangelização · Igreja Metodista Livre do Brasil. Texto redigido com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.