EvangelizaçãoAula 9

Evangelização e missão integral

“O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo fato de que ele me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos.”Lucas 4.18 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Lc 4.16-21; Tg 2.14-26; Mt 25.31-46; Cl 1.13-20

Perguntas norteadoras

Três perguntas antes de começar

Uma pergunta que divide igrejas há um século: a missão da igreja é salvar almas ou transformar a sociedade?

1

Ação social é evangelização?

É a mesma coisa, é isca para a mensagem, ou é outra coisa com valor próprio?

2

Existe evangelho “só espiritual”?

Ou o evangelho que salva a alma sem tocar o corpo, o bolso e a rua já é um evangelho mutilado?

3

Por que isso é assunto nosso?

Porque foi um latino-americano que mudou o rumo dessa conversa no mundo inteiro — e porque o metodismo nasceu assim.

Tese da aula: a missão da igreja é integral, pois deve estar comprometida com todo o conselho de Deus, levando em conta a pessoa na sua totalidade, bem como o contexto no qual ela vive. A missão veste a roupa da encarnação. Isso não dilui a evangelização: impede que ela seja mutilada.

Parada 1

Um divórcio de cem anos

Nem sempre foi assim. A separação entre anunciar e servir é recente, e nasceu de uma briga.

No começo do século XX, parte do protestantismo passou a concentrar-se na reforma social e deixou de lado a conversão pessoal — o chamado evangelho social. A reação conservadora foi igualmente radical: para não parecer liberal, muita gente abandonou toda ação social, que passou a ser vista como sintoma de fé fraca. As duas metades de uma mesma missão viraram bandeiras opostas, e cada lado passou a acusar o outro de trair o evangelho.

O resultado prático é conhecido: igrejas que anunciam e não servem, e organizações que servem e não anunciam. Quem paga a conta é o mundo, que recebe metade de cada.

Parada 2

O que o Pacto de Lausanne declarou

Quatro afirmações do Pacto, com as suas consequências práticas.

Declaração 1

Desafiados pela tarefa inacabada

Os signatários se declararam desafiados pela tarefa inacabada da evangelização, crendo que o evangelho é a boa nova de Deus para todo o mundo, e decidiram-se a fazer discípulos de todas as nações. A prioridade da evangelização não foi abandonada — foi reafirmada.

Declaração 2

Contra o evangelho mutilado

O Pacto toma posição contra um evangelho mutilado e contra um conceito estreito da missão cristã. A evangelização deve ser vista como algo inseparável da responsabilidade social e política.

Declaração 3

Contra a mundanalidade na evangelização

O documento critica a adulteração da mensagem, a manipulação dos ouvintes por meio de técnicas de pressão e a preocupação exagerada com as estatísticas. Números não são o critério do Reino.

Declaração 4

Estilo de vida simples

Devemos aceitar o dever de desenvolver um estilo de vida simples, a fim de contribuir mais generosamente tanto para a ajuda material como para a evangelização. É um apelo para que voltemos o nosso rosto para um mundo sofredor.

Repare na ordem das coisas: Lausanne não trocou evangelização por ação social. Reafirmou a evangelização e recusou separá-la da vida real. É essa a diferença entre missão integral e evangelho social.

Parada 3

A contribuição de René Padilla

Padilla não pediu menos evangelização. Pediu uma evangelização que levasse a sério tanto a pessoa quanto o mundo em que ela vive.

Ele denuncia a falta de valorização das dimensões mais amplas do evangelho, que resulta em uma evangelização que concebe o indivíduo como uma unidade autônoma — um Robinson Crusoé a quem o chamado de Deus chega na solidão de sua ilha. Mas o mundo real é hostil a Deus e está escravizado pelos poderes das trevas.

O diagnóstico

O problema do ser humano no mundo não é simplesmente que ele cometa pecados isolados ou ceda à tentação de vícios particulares. É, antes, que está aprisionado dentro de um sistema que o condiciona para que absolutize o relativo e relativize o absoluto — um sistema cuja auto-suficiência o priva da vida eterna e o submete ao juízo de Deus.

A consequência

A proclamação do evangelho que não toma a sério o poder do inimigo tampouco poderá tomar a sério a necessidade dos recursos de Deus para a luta. Evangelização ingênua produz convertidos indefesos.

A saída, para Padilla, é cristológica. O credo mais antigo da igreja é “Jesus é o Kyrios” (At 2.36) — e a obra de Deus em seu Filho não pode ser reduzida a uma limpeza da culpa do pecado: é também um traslado ao Reino messiânico que em Cristo se fez presente por antecipação (Cl 1.13). A salvação em Cristo envolve tanto o perdão dos pecados (1Jo 1.9) como a vitória sobre o mundo (1Jo 5.4).

Parada 4

Dois perigos, e um só remédio

Deus tem chamado do mundo um povo para si, enviando-o novamente ao mundo para estender o seu Reino. Nessa dupla operação moram dois riscos simétricos.

1

Conformar-se ao mundo

A igreja adota os valores, os métodos e as ambições do mundo em que vive — e perde exatamente aquilo que tinha para oferecer. Sinais: sucesso como critério, marketing no lugar da mensagem, poder no lugar do serviço. É contra isso que Paulo adverte em Romanos 12.2.

2

Isolar-se do mundo

A igreja se protege da contaminação afastando-se de tudo — e some. Sinais: agenda inteiramente interna, linguagem própria, nenhum vínculo com o bairro, desconfiança de qualquer causa pública. Jesus orou justamente contra isso: “não peço que os tires do mundo” (Jo 17.15).

O remédio é o mesmo dos dois lados: a encarnação. Jesus entrou no mundo sem pertencer a ele e sem se ausentar dele. “Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês” (Jo 20.21) — dentro, sem se dissolver; distinto, sem se esconder.

Parada 5

Como isso fica na prática

Missão integral não é um programa a mais na agenda da igreja. É um jeito de fazer o que já se faz.

Princípio 1

Servir sem cobrar retorno

O serviço não é isca. Se você ajuda esperando presença no culto, a pessoa percebe — e você acabou de transformar amor em transação. Sirva também quem nunca vai se converter (Lc 6.35).

Princípio 2

Não servir calado

O outro erro. Se a igreja distribui cesta básica e ninguém jamais ouve por que, ela virou uma ONG religiosa. Palavra e obra se explicam mutuamente (Tg 2.14-17; Rm 10.14).

Princípio 3

Tratar a pessoa inteira

Quem chega com fome, dívida, dependência química ou violência doméstica não é “um caso social” à parte da evangelização. É uma pessoa, e o evangelho fala com ela toda.

Princípio 4

Enxergar o sistema, não só o indivíduo

Ajudar a família endividada é misericórdia; perguntar por que tantas famílias do bairro estão endividadas é justiça. As duas coisas são bíblicas (Mq 6.8), e a segunda costuma ser evitada por dar mais trabalho.

Princípio 5

Estilo de vida simples

O compromisso de Lausanne: viver com menos para dar mais, tanto para a ajuda material quanto para a evangelização. É a parte do documento que menos se cita — e que mais custa.

Parada 6

Isso não é novidade: é herança wesleyana

Antes de Lausanne, e por dois séculos, o metodismo já vivia isso — sem chamar de missão integral.

Wesley pregava conversão pessoal e, na mesma semana, organizava sociedades de socorro, dispensários de remédios, empréstimos a pequenos trabalhadores, escolas para filhos de mineiros e campanha contra a escravidão. Para ele não havia contradição: a santidade é sempre social, e o amor a Deus se prova no amor ao próximo. A última carta que escreveu foi para encorajar Wilberforce na luta contra o tráfico de escravos.

O fruto se via na vida concreta dos convertidos: bêbados tornados homens sóbrios, ladrões tornados homens honestos, prostitutas tornadas mulheres castas. Não era reforma social sem evangelho, nem evangelho sem consequência social. Era uma coisa só.

Nossa identidade

Por que a Igreja Metodista Livre se chama assim

O nome nasceu, entre outras razões, da recusa dos bancos alugados — a prática de cobrar pelos assentos, que separava ricos e pobres dentro do templo — e do compromisso abolicionista. A liberdade do nome não é abstrata: começou numa decisão concreta sobre quem senta onde, e sobre quem é gente. Evangelização e justiça nasceram juntas na nossa história.

Tg 2.1-9

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

A sua igreja pende para qual dos dois perigos: conformar-se ao mundo ou isolar-se dele? E você, pessoalmente?Ver resposta sugerida
Os sintomas ajudam a decidir. Conformidade: as metas da igreja se parecem com metas de empresa; o sucesso é medido por números e visibilidade; a linguagem do púlpito é a da autoajuda; o critério para decisões é o que funciona, não o que é fiel. Isolamento: a agenda semanal é toda interna; ninguém do bairro entraria sem se sentir estrangeiro; qualquer envolvimento com causas públicas soa suspeito; os membros não têm amigos fora. Note que dá para ter os dois ao mesmo tempo — uma igreja mundana nos métodos e isolada nas relações é mais comum do que parece. No plano pessoal, a pergunta mais reveladora é sobre a sua agenda e o seu dinheiro: onde você gasta o tempo livre e para onde vai o que sobra. Se tudo circula dentro do mesmo círculo, é isolamento; se as suas escolhas são indistinguíveis das de quem não crê, é conformidade. Escolha um ajuste concreto para os próximos três meses — um só, que você realmente vá fazer.
Um irmão diz: “ação social é coisa de igreja liberal; nossa missão é salvar almas”. Como responder dentro da nossa tradição?Ver resposta sugerida
Comece reconhecendo a preocupação legítima, porque ela tem base histórica: houve de fato igrejas que trocaram a conversão pessoal pela reforma social e terminaram sem evangelho para anunciar. Ele está guardando algo importante. Mas mostre que o remédio proposto adoece o outro lado. Primeiro, pelas Escrituras: Jesus define a sua missão em Lucas 4.18-19 incluindo pobres, cativos, cegos e oprimidos; Tiago diz que a fé sem obras é morta e dá exatamente o exemplo de quem passa fome (Tg 2.14-17); e o juízo de Mateus 25.31-46 pergunta por comida, roupa e visita. Segundo, por Lausanne: o Pacto reafirmou a prioridade da evangelização e recusou o evangelho mutilado — não é documento liberal, é o consenso evangélico mundial. Terceiro, pela nossa própria casa: Wesley pregava conversão e abria dispensário na mesma semana, e a Igreja Metodista Livre nasceu recusando os bancos alugados e o comércio de escravos. Feche com a distinção que resolve: não se trata de trocar uma coisa pela outra, e sim de recusar a separação. Alma sem corpo é fantasma; corpo sem alma é cadáver. O evangelho salva pessoas inteiras.

Para casa e próxima aula

Tarefas

1) Levantar o que a sua igreja local já faz de serviço ao bairro e verificar se, em cada ação, as pessoas chegam a ouvir por que aquilo é feito. Onde faltar palavra, propor uma forma natural de incluí-la. 2) Escolher uma necessidade concreta do seu bairro e conversar com dois irmãos sobre o que a igreja poderia fazer. Traga na Aula 10.

Aula 10

Os leigos e o sacerdócio universal: do modelo centralizador ao ministério repartido, de Wesley e Maxfield ao que muda quando a igreja capacita os leigos como capacita os pastores. Ir para a Aula 10 →

Curso de Evangelização · Igreja Metodista Livre do Brasil. Texto redigido com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.