EvangelizaçãoAula 10

Os leigos e o sacerdócio universal

“Vocês, porém, são raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus, para anunciar as virtudes daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.”1 Pedro 2.9 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: 1Pe 2.4-10; Ef 4.11-16; At 8.1-4; 1Co 12.4-27

Perguntas norteadoras

Três perguntas antes de começar

Chegamos ao ponto em que este curso deixa de falar do seu esforço individual e passa a falar da igreja inteira.

1

Quem faz o ministério?

O pastor faz e os membros ajudam? Ou os membros fazem e o pastor prepara?

2

Sacerdócio universal significa que todos são pastores?

Se não significa isso, o que significa exatamente?

3

E se capacitássemos os leigos como capacitamos os pastores?

Imagine o resultado. O metodismo primitivo não precisou imaginar: fez.

Tese da aula: uma igreja pastorcêntrica acaba deixando de ser cristocêntrica. Cristo reparte dons, promovendo a democratização do ministério. Afirmar o sacerdócio universal da Igreja não é o mesmo que dizer que todos são pastores — é dizer que ninguém está dispensado da missão.

Parada 1

Na igreja primitiva não havia essa distinção

Quando se pergunta quem eram os evangelistas da igreja primitiva, a resposta desmonta boa parte do nosso arranjo atual.

Eram os apóstolos e os homens “ordenados”, evangelistas itinerantes, presbíteros, pastores, teólogos e filósofos — e também missionários informais. Não havia distinção entre ministros de tempo integral e leigos quanto à responsabilidade de difundir o evangelho por todos os meios possíveis, e também não havia distinção entre os sexos nessa questão. Eles tinham descoberto um tesouro e queriam reparti-lo com outras pessoas, usando toda a sua capacidade.

Atos 8.4 é explícito: com a perseguição, “os que foram dispersos iam por toda parte pregando a palavra”. Os apóstolos, diz o versículo 1, ficaram em Jerusalém. Ou seja: quem espalhou o evangelho foram exatamente os que não eram os líderes oficiais.

Parada 2

Como a missão foi sendo confiscada

O que era de todos foi, aos poucos, concentrado em poucos. Um modelo centralizador se instalou, e ele tem quatro pilares.

Pilar 1

O clero

Surge uma classe separada, detentora do ministério. Os demais passam de participantes a assistidos. A palavra “leigo” — que no Novo Testamento vem de laos, o povo de Deus — vira sinônimo de quem não entende do assunto.

Pilar 2

O templo

A fé se concentra num edifício sagrado. O que acontece fora dele deixa de ser considerado ministério — e a casa, a rua e o trabalho perdem o estatuto de campo missionário.

Pilar 3

O culto

A vida cristã se resume ao ato litúrgico, ao qual se assiste. Participar vira estar presente.

Pilar 4

O dia

A fé fica confinada a um dia da semana. Os outros seis viram território neutro — e é justamente neles que estão as pessoas que precisamos alcançar.

Faça o teste na sua igreja: quanto do orçamento, da agenda e da atenção pastoral está voltado para o que acontece dentro do templo, no domingo, conduzido por profissionais? Não há maldade nisso — há inércia de um modelo antigo, que sobrevive em igrejas que jamais se diriam clericais.

Parada 3

A Reforma ergueu a bandeira — e parou no meio

Lutero recuperou a doutrina. A prática, essa demorou mais três séculos.

A Reforma ergueu a bandeira do sacerdócio universal de todos os crentes. Mas, na prática, o clericalismo continuou prevalecendo: mudou-se o nome do ofício, manteve-se a estrutura. O povo continuou assistindo, agora em outra língua e com outra teologia.

Parada 4

Wesley, Maxfield e uma mãe decisiva

A virada prática veio de um homem que, no início, era contra ela.

A princípio, Wesley era contra a pregação leiga — sentimento semelhante ao de um sacerdote judeu que visse alguém que não fosse da tribo de Levi ministrando ao altar. Mas o número de convertidos cresceu tanto que se tornou imprescindível que ele buscasse ajuda para a supervisão deles. Tinha de ter auxiliares leigos, pois o número de pastores era insuficiente.

Quanto mais os críticos escarneciam da origem humilde e da educação insuficiente daqueles primeiros pregadores leigos do metodismo, mais se evidenciava a grandeza do seu trabalho: milhares de vidas transformadas — bêbados tornados homens sóbrios, ladrões tornados homens honestos, prostitutas tornadas mulheres castas.

Ele não improvisou

Wesley tinha muito interesse no desenvolvimento intelectual dos seus assistentes leigos, exortando-os sempre a se dedicarem aos estudos e, sempre que possível, reunindo-se com um grupo para lhes transmitir conhecimentos. Insistia que fossem leitores, e os repreendia asperamente quando os achava negligentes de seus livros.

E foi além do seu tempo

Contrariando a opinião geral da sua época, Wesley autorizou que as mulheres pregassem — o que abriu portas para que a Igreja Metodista viesse a ordenar mulheres ao ministério pastoral.

A vossa capacidade na pregação não aumenta. É a mesma hoje que era há sete anos. É viva, mas não profunda. Tem pouca variedade; não tem largueza de pensamento. Somente a leitura pode remediar isto, junto com a meditação e a oração diárias. […] Determinai uma certa parte de cada dia para o exercício particular. […] Quer gostais quer não, lede e orai diariamente. É em abono da vossa vida. Não há outro meio; de outra maneira estareis vos ocupando com trivialidades durante toda a vida, e sereis pregador bonito, mas superficial.

Guarde a lição dupla: Wesley confiou tarefa aos leigos e exigiu deles preparo sério. Delegar sem capacitar não é sacerdócio universal — é abandono com nome bonito.

Parada 5

Efésios 4: o que os pastores existem para fazer

O texto que reorganiza tudo — e que é lido com frequência, mas raramente aplicado.

“E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo” (Ef 4.11-13).

O que o texto diz

Os ministros preparam; os santos fazem a obra do ministério. O pastor é treinador, não jogador solitário. O crescimento vem “pelo que cada junta suprime, segundo a justa cooperação de cada parte” (v. 16).

O que costumamos fazer

Os ministros fazem a obra; os santos assistem e avaliam a qualidade. O crescimento depende do desempenho de um. E quando ele adoece, sai ou falha, a igreja para.

Consequência

O pastor precisa reconhecer suas limitações

Ele não tem todos os dons nem todas as respostas. Cristo reparte dons por todo o corpo, e “precisamos uns dos outros” (1Co 12.21). Uma igreja em que só uma pessoa ministra não é uma igreja obediente com um líder dedicado: é uma igreja com um membro trabalhando e muitos atrofiados.

Ef 4.11-16

Parada 6

O que muda quando a igreja leva isso a sério

Na Igreja há reunião e dispersão. A igreja se faz presente no mundo através de cada membro — e o leigo precisa ser capacitado a fazer discípulos que se tornarão discipuladores.

Mudança 1

O domingo passa a servir a semana

A reunião existe para equipar a dispersão. A pergunta que orienta o culto deixa de ser “o povo gostou?” e passa a ser “o povo saiu preparado para segunda-feira?”.

Mudança 2

Capacitação deixa de ser privilégio do clero

Imagine o resultado de capacitarmos os leigos como capacitamos os pastores. Curso de Bíblia, de aconselhamento básico, de evangelização, de liderança de grupo — não como conteúdo devocional, e sim como formação de verdade, com leitura exigida, como Wesley fazia.

Mudança 3

Todo membro tem um ministério nomeado

Não “ajudar quando precisar”, e sim uma responsabilidade concreta, com nome e prestação de contas — dentro ou fora dos muros. Boa parte deve ser fora.

Mudança 4

A cadeia continua

Não basta formar quem faz: é preciso formar quem forma. “E as coisas que me ouviu dizer na presença de muitas testemunhas, confie a homens fiéis que sejam também capazes de ensinar a outros” (2Tm 2.2) — quatro gerações num só versículo.

Duas perguntas para você responder hoje: quem está discipulando você? A quem você está discipulando? Se as duas respostas forem “ninguém”, a cadeia de 2Timóteo 2.2 está partida em você — e o conserto começa com um convite a uma pessoa. A Aula 11 mostra como Wesley organizou isso em escala.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Você tem um Paulo e um Timóteo? Se não tem, o que impede?Ver resposta sugerida
As respostas costumam ser previsíveis, e todas têm solução. “Não tenho quem me discipule”: raramente é falta de gente disponível — é falta de pedido. A maioria dos irmãos mais maduros nunca foi convidada e diria sim. Escolha alguém que você respeita, peça uma conversa por mês e leve perguntas prontas. “Não me sinto preparado para discipular alguém”: discipulado não é aula; é caminhar junto meio passo à frente. Se você está no capítulo cinco e a pessoa no dois, você tem o que oferecer. Além disso, ninguém fica pronto esperando: você aprende discipulando. “Não tenho tempo”: costuma significar que a agenda está tomada por atividades de manutenção da estrutura da igreja. Vale examinar o que dá mais fruto — uma reunião a menos por mês, uma pessoa a mais na sua vida. “Não sei por onde começar”: comece pelo material deste curso, uma aula por encontro, com as tarefas feitas de verdade. Marque quatro encontros; se der certo, continue.
Um irmão pergunta: “se todos são sacerdotes, para que serve o pastor?” Como responder?Ver resposta sugerida
Comece corrigindo a premissa escondida na pergunta: sacerdócio universal não significa que todos são pastores. Significa que todo crente tem acesso direto a Deus por Cristo (Hb 4.14-16; 10.19-22), oferece sacrifícios espirituais e anuncia as virtudes daquele que o chamou (1Pe 2.5,9). É sobre acesso e responsabilidade, não sobre ofício. Depois, mostre o que o pastor é, segundo Efésios 4.11-13: alguém dado por Cristo para preparar os santos para a obra do ministério. Ou seja, o ministério pastoral não desaparece com o sacerdócio universal — ele muda de função. Deixa de ser o executor de tudo e passa a ser o formador de todos, o que é uma tarefa maior, não menor. Acrescente que os dons são repartidos por todo o corpo (1Co 12.4-11): o pastor não tem todos os dons nem todas as respostas, e precisa dos outros tanto quanto eles dele. E feche com o alerta da aula: uma igreja pastorcêntrica acaba deixando de ser cristocêntrica — quando tudo depende de um homem, é sobre ele que a comunidade se organiza, e não sobre Cristo.

Para casa e próxima aula

Tarefas

1) Responder por escrito às duas perguntas: quem é o seu Paulo e quem é o seu Timóteo. Se faltar algum, fazer o convite nesta semana. 2) Listar os dons e as capacidades que você percebe em três irmãos da sua igreja que hoje não exercem nenhum ministério — e conversar com um deles a respeito. Traga na Aula 11.

Aula 11

Classes e bandas wesleyanas: como Wesley organizou o discipulado em grupos pequenos, as perguntas que faziam uns aos outros, por que as classes declinaram e o que dá para recuperar hoje. Ir para a Aula 11 →

Curso de Evangelização · Igreja Metodista Livre do Brasil. Texto redigido com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.