EvangelizaçãoAula 11

Classes e bandas wesleyanas

“Confessem, portanto, os seus pecados uns aos outros e orem uns pelos outros, para serem curados.”Tiago 5.16 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Tg 5.13-20; Gl 6.1-5; At 2.42-47; Hb 10.24-25

Perguntas norteadoras

Três perguntas antes de começar

Esta é a aula em que evangelização e discipulado deixam de ser dois assuntos.

1

Quem são as pessoas que amam você a ponto de orar por você todos os dias?

E elas oram para que você seja semelhante a Cristo?

2

Elas estão dispostas a lhe fazer perguntas difíceis?

E se preocupam com você a ponto de adverti-lo quando você não anda semelhante a Cristo?

3

Se a resposta for “ninguém”, o que isso diz da sua vida cristã?

Wesley diria que diz muito — e que o problema não é seu, é do arranjo em que você vive.

Tese da aula: Wesley jamais evangelizava uma pessoa para abandoná-la à própria sorte, à mercê do inimigo. Ele exortava seus assistentes: preguem em todos os lugares e ocasiões possíveis e organizem tantas classes quantas forem possíveis — mas não ousem pregar sem organizar novas classes. Evangelização e discipulado eram a mesma obra.

Parada 1

A regra que Wesley deu, e por quê

O projeto dos encontros não era organizacional. Era obediência a dois mandamentos.

Repare que a justificativa não é crescimento numérico, nem estratégia de retenção, nem eficiência administrativa. É santidade. Os grupos existiam para que as pessoas de fato mudassem — e para que ninguém mudasse sozinho.

Wesley seguiu o modelo de Jesus, que dedicou mais tempo à formação do seu pequeno grupo de discípulos do que às multidões. Jesus formou “pescadores de homens” (Mt 4.19) e levou os seus seguidores a outro nível. Para produzir eficazmente discípulos que fazem discípulos intencionalmente, é preciso capacitá-los para ensinar a outros.

Parada 2

Sociedades, classes e bandas

Três níveis, com funções distintas. Confundi-los é o erro mais comum de quem tenta copiar o modelo hoje.

Nível 1

A sociedade

Representava o total dos membros metodistas em determinado local. O equivalente hoje seria uma igreja local, comunidade ou ponto de pregação. Era onde se ouvia a pregação e se liam publicamente as Regras Gerais.

Nível 2

A classe

Todas as pessoas que mostrassem interesse em filiar-se a uma sociedade metodista tinham de entrar numa classe. De dez a quinze pessoas reunindo-se semanalmente, com o sério compromisso de promoverem o mútuo crescimento espiritual, aprendendo o que evitar e o que buscar, e fazendo bom uso dos meios de graça. Era o nível de entrada, não o de elite: ninguém era membro sem estar numa classe.

Nível 3

A banda

Grupos com poucas pessoas, mais maduras, onde uma cuidava da outra como num discipulado um a um. Era ali que se faziam as perguntas mais duras. Voluntária, e para quem quisesse ir mais fundo.

O que a classe era

Abertura, repreensão e graça

Nas classes, as pessoas estavam abertas para confessarem seus vícios e pecados, abertas também à repreensão, para vencerem suas fraquezas com o apoio de Cristo e da comunidade da fé, numa atmosfera de amor, graça e misericórdia — onde os líderes também confessam seus pecados. Esse último detalhe é o que separa uma classe wesleyana de um tribunal religioso.

Tg 5.16; Gl 6.2

Parada 3

Como as reuniões funcionavam

A dinâmica desses grupos era marcada pela troca de experiências a partir de perguntas mútuas frequentemente repetidas. Havia compromisso de obedecer às Regras Gerais, lidas com regularidade diante de toda a sociedade. O líder compartilhava também a sua experiência pessoal, com os seus altos e baixos.

Regra 1

Reunir-se uma vez por semana

Frequência inegociável. Encontro mensal não sustenta responsabilidade mútua: dá tempo demais para a vida se acomodar entre uma conversa e outra.

Regra 2

Chegar pontualmente

E começar exatamente na hora, com os que estiverem presentes, com cânticos e oração. Não se esperava quem atrasava — o que, por si só, ensinava algo.

Regra 3

Falar o verdadeiro estado da alma

Cada um, em ordem, de forma livre e clara, devia falar o verdadeiro estado de sua alma, com as faltas que cometera em pensamento, palavra ou ação, e as tentações que sentira desde o último encontro.

Regra 4

Orar por cada pessoa

Para terminar cada encontro, realizava-se uma oração adequada ao estado de cada pessoa presente. Não uma oração geral: uma oração por nome e por situação.

Regra 5

Começar por quem quer falar

Deixava-se falar primeiro quem desejasse falar do próprio estado, e depois se pedia aos demais que falassem do estado de suas almas, pecados e tentações.

Regra 6

Visita semanal do líder

Os líderes deviam visitar semanalmente os membros, perguntando sobre a condição de suas almas. O cuidado não parava na reunião.

O que se esperava do participante: uma radical abertura para a avaliação mútua. Esse é o ponto em que quase toda tentativa contemporânea de recuperar as classes falha — não pela estrutura, e sim pela recusa da abertura.

Parada 4

As perguntas

Elas assustam, e é bom que assustem. Foram feitas a milhares de pessoas comuns durante décadas — e mudaram uma nação.

1Perguntas para admissãofeitas antes de alguém entrar+

1. Já recebeu o perdão dos seus pecados? 2. Já tem paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo? 3. Já tem o testemunho do Espírito de Deus com o seu espírito, de que você é filho de Deus? 4. O amor de Deus foi derramado em seu coração? 5. Existe algum pecado, por dentro ou por fora, dominando a sua vida? 6. Você deseja ser informado dos seus defeitos? 7. Você deseja ser informado de todas as suas falhas? 8. Você deseja que cada um de nós diga, de tempos em tempos, tudo o que está em nosso coração a seu respeito? 9. Considere: você deseja que devamos dizer-lhe tudo o que pensamos, tudo o que ouvimos, que lhe diga respeito? 10. Você deseja que, ao fazer isto, cheguemos o mais perto possível para ajudá-lo a cortar todo pecado que está no fundo do seu coração? 11. É o seu desejo e projeto ser, em qualquer ocasião, inteiramente aberto, de modo a falar tudo o que está em seu coração, sem exceção, sem disfarce e sem reserva?

Repare no cuidado: a pergunta 9 começa com “Considere!”. Wesley não queria adesão apressada. Queria consentimento informado.

2Perguntas feitas em todas as reuniõesnas bandas, entre os mais maduros+

1. Você cometeu pecados desde o nosso último encontro? 2. Quais tentações você tem encontrado? 3. Como você enfrentou a tentação? 4. Você tem dúvida de que alguma coisa que você pensou, disse ou fez pode ser pecado?

Quatro perguntas, semana após semana, ano após ano. Nenhuma novidade metodológica — apenas constância. A quarta pergunta é a mais fina: ela abre espaço para as zonas cinzentas, que é onde o caráter costuma ceder.

3Por que isso não vira legalismoa diferença está em quem pergunta e por quê+

Vira legalismo quando as perguntas medem desempenho e produzem vergonha; permanece evangélico quando pressupõem a graça e produzem confissão. Três marcas garantiam isso entre os metodistas: a adesão era voluntária e consentida de antemão; o líder também confessava, o que impedia a formação de juízes; e a atmosfera era declaradamente de amor, graça e misericórdia. Retire qualquer uma das três e o grupo azeda em poucas semanas.

Parada 5

Whitefield e Wesley: a diferença que o tempo revelou

Um caso que vale por um tratado inteiro sobre evangelização.

Whitefield

Era melhor pregador que Wesley — nisso não há controvérsia. Multidões enormes, conversões incontáveis. No entanto, quando morreu, não deixou grupos de discipulado para conservar e multiplicar os convertidos que havia ganhado.

Wesley

Organizava classes onde quer que pregasse. Depois da sua morte, o metodismo cresceu ainda mais. Em 1850, um terço da população dos Estados Unidos era metodista.

Parada 6

Por que as classes declinaram

Não foram extintas por decreto. Foram sendo esvaziadas por processos que continuam operando entre nós.

Causa 1

A concorrência dos avivamentos

As reuniões de classe tiveram de competir com as reuniões de avivamento, nas quais a conversão evangélica passou a ser pregada muito mais como uma experiência imediata, instantânea e altamente emocional, em vez de um processo gradual e mediado pela disciplina, como o promovido pelo metodismo primitivo.

Causa 2

O deslocamento da santidade

Houve prejuízo para a prática da santidade exterior, social e gradual, desenvolvida sob a mútua disciplina das classes, e ênfase crescente na santificação interior, individual e instantânea. A santidade em amor cedeu paulatinamente lugar à busca de santidade de poder, comprometendo o processo de responsabilidade mútua e comunitária pela santidade de coração e vida.

Causa 3

A concorrência institucional

Competição crescente das novas organizações da igreja envolvidas com o rápido crescimento do empreendimento missionário no estrangeiro, muitas delas de caráter para-eclesiástico.

Causa 4

A ênfase na educação cristã

O trabalho da Escola Dominical e dos grupos societários passou a ocupar o espaço da classe — com uma diferença decisiva: transmite-se conhecimento, mas não se exige obediência nem prestação de contas.

Causa 5

Individualismo e intimismo

Reduziram praticamente por completo o elemento de corresponsabilidade mútua e comunitária pelo crescimento em santidade de coração e vida, mediante a prática disciplinada, no mundo do cotidiano, das obras de misericórdia e de piedade que eram produto das classes.

Parada 7

O que dá para recuperar hoje

Não se trata de encenar o século XVIII. Trata-se de recuperar o que foi perdido, com a linguagem de agora.

1

Deixar de apenas transmitir conhecimento

E passar a requerer obediência a Cristo. A pergunta do encontro deixa de ser “o que você entendeu?” e passa a ser “o que você fez com o que entendeu na semana passada?”.

2

Adesão voluntária e informada

Diga desde o começo o que o grupo é e o que será perguntado. Quem entra sabendo, permanece; quem entra sem saber, some no terceiro encontro.

3

Semanal, pequeno, pontual

De cinco a doze pessoas, uma vez por semana, com hora para começar e para terminar. Constância vale mais que intensidade.

4

O líder também se abre

É a única garantia contra o grupo virar tribunal. Se o líder nunca confessa nada, ninguém confessará de verdade.

5

Porta aberta para os de fora

Grupo fechado vira clube em seis meses. Cada classe deve ter cadeira vazia e o hábito de convidar — é aqui que esta aula reencontra a Aula 3.

6

Multiplicar, não engordar

Formar um novo líder e dividir, em vez de crescer até virar plateia. Wesley não deixava pregar sem organizar novas classes.

Os pequenos grupos são como sementes do Reino de Deus que germinam e impactam o mundo ao seu redor. Podemos pensar em algo como uma revolução espiritual de caráter pactual, através da radicalização de suas ações e palavras, comprometidas com os valores do Evangelho do Reino, para que a Igreja possa, com autoridade, desafiar o espírito de pecado e injustiça que tem dominado a sociedade em geral.

Parada 8

Um roteiro concreto de reunião

Antes do roteiro, uma delimitação: os grupos pequenos de que estamos falando não são três coisas que costumam usar o mesmo nome.

1

Não é grupo de estudo

O conceito de salvação pela educação produz palavras sem ação. Aprende-se muito e não se muda nada.

2

Não é grupo de oração

Tende a se tornar elitista, na medida em que exclui quem não está em determinado nível espiritual.

3

Não é grupo de tarefas

Reunido para executar atividades — trabalho com crianças, EBF, escalas. Necessário, mas é outra coisa.

O que se busca é um grupo caracterizado por comunhão constante. Um exemplo prático: a Pastora Adélia iniciou uma igreja em Nova York com três pessoas e, em cinco anos, já eram quinhentas e quarenta. As reuniões seguiam este padrão de uma hora e cinco minutos:

5 minutos

Pondo em dia as conversas

O tempo de chegar, respirar e saber como cada um está. Não é perda de tempo: é o que torna o resto possível.

2 minutos

Oração inicial

Curta e objetiva, entregando o encontro a Deus.

10 minutos

Testemunhos

Podem envolver canções de adoração e gratidão, e palavras de apreço de uns pelos outros.

30 minutos

A Bíblia aberta, com três perguntas

O que o texto diz? O que significava? O que significa para nós hoje? A ideia é aprendermos juntos o que a Bíblia diz, com a forte intenção de obedecer e viver aquilo. Não é despejar conhecimento: é aprendizado mútuo.

10 minutos

O que você fez desde o último encontro

A supervisão. O grupo precisa se conhecer bem para exercer estímulo e fiscalização mútua, em amor. É aqui que a classe wesleyana reaparece, com outra roupa.

10 minutos

Oração específica por cada um

Pela vitória espiritual de cada pessoa sobre os empecilhos ao seu desenvolvimento e à sua santidade. Por nome, e não em bloco.

Os cultos de domingo eram momentos de congraçamento de todos os grupos, louvor e adoração. E os líderes dos grupos ministravam cuidado pastoral — tanto que já não se ouvia, com a mesma frequência, a frase “você tem um problema? Procure o pastor”.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Você aceitaria responder, toda semana, às quatro perguntas das bandas? O que a sua reação a essa pergunta revela?Ver resposta sugerida
Preste atenção ao seu primeiro impulso, porque ele é o dado mais honesto da aula. Se a reação foi medo ou vergonha: é sinal de que existe algo que você carrega sozinho — e carregar sozinho é justamente o que essas perguntas foram criadas para acabar. Nenhum grupo o obrigará a começar pelo pior; comece pelo que dá, e o resto vem quando a confiança existir. Se a reação foi “isso é invasão de privacidade”: vale distinguir. Invasão é quando alguém exige acesso à sua vida; classe wesleyana é quando você concede esse acesso, voluntariamente, a quem escolheu — por isso as onze perguntas de admissão existiam, e por isso a nona começava com “Considere!”. Se a reação foi “isso é legalismo”: talvez seja a sua experiência com algum grupo que media desempenho e produzia culpa. Compare com as três marcas: adesão voluntária, líder que também confessa, atmosfera de graça. Onde as três existem, o resultado é liberdade, não peso. Se a reação foi tranquilidade: ótimo — então a pergunta seguinte é por que você ainda não faz parte de um grupo assim.
“Nossa igreja já tem células e Escola Dominical; para que classes wesleyanas?” Como responder?Ver resposta sugerida
Comece reconhecendo o valor do que já existe: célula e Escola Dominical fazem coisas boas e necessárias, e ninguém precisa fechá-las. Depois mostre a diferença de função, que é o ponto. A Escola Dominical transmite conhecimento — e a aula acabou de mostrar que foi justamente a ênfase educacional que ocupou o espaço das classes, com uma perda específica: ensina-se muito e não se pergunta nada sobre a vida. A célula, na maioria dos modelos brasileiros, é evangelística e relacional: existe para acolher, multiplicar e alcançar — funções valiosas, mas que raramente incluem prestação de contas sobre pecado, tentação e obediência. A classe tem um propósito que nenhuma das duas cobre: responsabilidade mútua pela santidade de coração e vida, com perguntas repetidas semana após semana. Formule assim: “não é substituir, é acrescentar o que falta”. E proponha algo pequeno e verificável, em vez de uma reforma da igreja: quatro pessoas, uma hora por semana, seis meses, as quatro perguntas — e depois vocês avaliam juntos o que aconteceu. É exatamente como Wesley começou.

Para casa e próxima aula

Tarefas

1) Convidar de três a cinco irmãos para um grupo experimental de seis semanas, com as quatro perguntas das bandas, apresentando as regras com clareza antes de começar. 2) Verificar, na sua igreja, o que acontece com uma pessoa nas duas semanas seguintes à sua conversão — e anotar o que falta. Traga na Aula 12.

Aula 12

Do encontro ao discipulado: o plano pessoal e o plano da igreja local, a integração do novo convertido e a multiplicação que fecha o curso. Ir para a Aula 12 →

Curso de Evangelização · Igreja Metodista Livre do Brasil. Texto redigido com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.