Cartas · 1727–1739
Estou plenamente convencido de que não tinha fé, a não ser a fé de um demônio, aquela sombra que habita na cabeça, não no coração.
Da carta a William Law, 1738
Antes de ser o incansável fundador do metodismo, John Wesley (1703–1791) foi um jovem estudioso em Oxford, um filho que escrevia à mãe e ao pai, um irmão em busca da paz da alma. Reunimos aqui dez cartas dos seus anos formativos e do momento decisivo da sua vida, a chamada “grande virada” de 1738, quando passou de uma religião de esforço a uma fé viva no sangue de Cristo.
Elas vão da mocidade em Oxford (a plano de estudos e disciplina de vida escritos à mãe) à célebre recusa de suceder o pai como reitor de Epworth (“Duas mil almas! Não vejo como homem algum possa cuidar de cem”); das cartas candentes ao místico William Law, a quem cobra por nunca o ter dirigido à fé justificadora, às cartas ao irmão Charles no calor do avivamento. Uma janela para o coração de um homem que buscou a Deus com raro ardor, e o encontrou.
As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA).
Em breve receberei o meu grau de mestre. Como, a partir de então, estarei menos tomado por afazeres que não são da minha escolha, tracei para mim mesmo um plano de estudos do qual não pretendo, ao menos por alguns anos, me afastar. Já me converti inteiramente à sua opinião de que há muitas verdades que não vale a pena conhecer. A curiosidade, de fato, poderia ser justificativa bastante para gastarmos algum tempo com elas, se tivéssemos meia dúzia de séculos de vida pela frente; mas me parece grande desperdício empregar boa parte da pequena porção que agora nos é concedida naquilo que não nos rende retorno mais rápido nem mais seguro.
Há dois dias eu lia uma disputa entre aqueles célebres mestres da controvérsia, o bispo Atterbury e o bispo Hoadly, mas confesso que fui tão imprudente a ponto de interromper a leitura no meio. Não consegui enxergar que a dignidade do fim fosse proporcional à dificuldade de alcançá-lo, e julguei que o trabalho de vinte ou trinta horas, ainda que eu tivesse certeza de êxito (o que não tinha), seria mal recompensado por aquela importante informação: se o bispo Atterbury havia ou não compreendido mal o bispo Hoadly.
Há cerca de um ano e meio, escapei de uma roda de amigos às oito da noite com um jovem de quem era íntimo. Enquanto caminhávamos por uma nave da igreja de St. Mary, à espera do funeral de uma moça que ambos conhecíamos, perguntei-lhe se de fato se considerava meu amigo; e, se sim, por que não me faria todo o bem que pudesse. Ele começou a protestar, mas eu o interrompi, pedindo que me atendesse numa única coisa, que ele não podia negar estar em seu próprio poder: que me desse o prazer de torná-lo um cristão inteiro, do que eu sabia que ele já estava meio persuadido; e que não poderia me fazer maior gentileza, como ambos ficaríamos plenamente convencidos quando chegasse a nossa vez de seguir aquela jovem à sepultura.
Ele ficou extremamente sério e conservou algo dessa disposição desde então. Anteontem completou quinze dias que morreu, de tísica. Eu o vi três dias antes de falecer e, no domingo seguinte, prestei-lhe o último bom serviço que aqui me era possível, pregando o seu sermão fúnebre, o que fora o seu desejo em vida. Sou, querida mãe, o seu filho dedicado e afetuoso.
Ao menos uma vantagem o meu grau me trouxe: agora estou livre, e em grande medida o estarei por algum tempo, para escolher a minha própria ocupação. E como creio conhecer melhor do que ninguém as minhas deficiências, e quais delas mais precisam ser supridas, espero que o meu tempo renda melhor do que quando não estava tanto à minha disposição.
No próximo sábado pretendo começar uma vida inteiramente nova quanto à administração das minhas despesas, diferente do que tenho feito até aqui. Espero receber então certa quantia, e tenciono cobrar de imediato todas as contas dos meus credores (para que não cresçam por ficarem paradas, como às vezes acontece), e daí em diante não confiar em homem algum, seja de que ofício ou ramo for, a ponto de deixar que ele confie em mim.
Querida mãe, falo do que sei: consigo explicar facilmente por que sou pequeno e fraco, quando, não fosse um estranho concurso de acasos (assim chamados na linguagem dos homens), muito provavelmente seria justamente o contrário; posso rastrear sem dificuldade a sabedoria e a misericórdia da Providência ao me destinar essas imperfeições. (Ainda que, e se eu não pudesse? Pois, enquanto olho através de um espelho, só posso esperar ver obscuramente.) Mas aqui é que estava a dificuldade: por que a Bondade Infinita permitiria que eu contraísse um hábito de pecado, antes mesmo de eu o saber pecaminoso, o qual tem sido um espinho no meu lado desde então? "Como poderei eu compreender esses teus caminhos?" Tão bem, que estou de fato persuadido de que, não fosse aquele hábito pecaminoso, dificilmente eu teria adquirido qualquer grau de algum hábito virtuoso. Não é isto o dedo de Deus? Certamente ninguém mais poderia extrair tanto bem do mal! Certamente foi misericórdia não atender à minha oração!
O convívio de uma ou duas pessoas, de quem talvez a senhora já me tenha ouvido falar (espero que nunca sem gratidão), foi o que primeiro me tirou o gosto pela maioria dos outros prazeres, a ponto de eu os desprezar em comparação com aquele. Desde então dei mais um passo: desprezá-los por completo. E estou no presente tão pouco afeiçoado até mesmo à companhia (o mais elegante entretenimento depois dos livros) que, a menos que as pessoas tenham um modo peculiar de pensar, sinto-me muito melhor sem elas. Creio ser esta a disposição assentada da minha alma: preferir, ao menos por algum tempo, um retiro que me apartasse de todo o mundo à posição em que agora me encontro. Não que ela me seja de modo algum desagradável; mas imagino que seria mais proveitoso estar num lugar onde eu pudesse firmar ou implantar na minha mente os hábitos que quisesse, sem interrupção, antes que passe a flexibilidade da juventude, do que permanecer onde, em meio a muitas vantagens, sofro o incômodo de estar quase necessariamente exposto a tanta impertinência e vaidade.
Propuseram-me há pouco uma escola em Yorkshire, a quarenta milhas de Doncaster, sobre a qual pensarei mais quando se souber se poderei tê-la ou não. A ela vai anexado um bom salário, de modo que, em um ano, é provável que todas as minhas dívidas fossem pagas e eu ainda tivesse dinheiro adiantado. Mas o que mais me fez desejá-la foi a descrição assustadora, como a chamam, que alguns cavalheiros conhecedores do lugar me fizeram ontem: "A cidade (Skipton, em Craven) fica num pequeno vale, tão espremida entre dois montes que mal se chega a ela por qualquer lado; de modo que pouca companhia se pode esperar de fora, e dentro não há nenhuma." Eu ficaria, portanto, inteiramente livre para conversar com a companhia da minha própria escolha, que por isso mesmo traria comigo; e uma companhia igualmente agradável, onde quer que me fixasse, não me custaria menos.
O texto do sermão que preguei no domingo seguinte à morte do Sr. Griffith foi: "Agora que morreu, por que jejuaria eu? Poderei eu fazê-lo voltar? Eu irei a ele, porém ele não voltará para mim" (2Sm 12.23). Nunca dei tanto motivo para suspeitar de que a minha doutrina não concordava com a minha prática, pois uma doença e uma dor de estômago, acompanhadas de forte disenteria que me acometeu no dia em que ele foi sepultado, alteraram-me tanto em três dias, e me deixaram tão pálido e magro, que os que me viam não podiam deixar de notá-lo.
Uma carta de minha irmã Emily, diz-me meu irmão, foi trazida aos meus aposentos outro dia; mas, onde quer que o rapaz a tenha deixado, não consegui pôr os olhos nela desde aquele dia até hoje.
Ando cheio de afazeres, mas encontrei um modo de escrever sem tomar tempo algum deles: basta levantar-me uma hora mais cedo pela manhã e recolher-me da companhia uma hora mais tarde à noite, o que se pode fazer sem inconveniente algum. Meu irmão tomou de mim o outro lado da folha. Sou, querida mãe, o seu filho afetuoso e dedicado.
Agradeço-lhe pelos seus pensamentos sobre o Zelo, e à minha irmã Emily pelos dela sobre… não sei bem o quê. De todo modo, estou persuadido de que eram muito bons. Meu amor às minhas outras irmãs; eu deveria ter dito, também ao meu irmão Charles.
Os efeitos da minha última viagem, creio eu, me tornarão mais cauteloso quanto a me ausentar de Oxford por qualquer tempo no futuro, ao menos enquanto eu tiver alunos a cuidar, o que provavelmente durará ainda um ano ou dois. Um dos meus jovens cavalheiros me disse, ao voltar, que estava cada vez mais receoso de singularidade; outro, que lera um excelente escrito do Sr. Locke que o convencera do mal de se dar valor à autoridade. Ambos concordaram que observar a quarta-feira como jejum era uma singularidade desnecessária, pois a Igreja Católica (isto é, a maioria dela) há muito revogara, por costume contrário, a determinação que outrora dera a respeito. Um terceiro, que não pôde ceder a esse argumento, foi convencido por uma febre e pelo Dr. Frewin. Os nossos vinte e sete comungantes em St. Mary reduziram-se, na segunda-feira, a cinco; e, no dia anterior, o último dos alunos do Sr. Clayton que ainda continuava conosco me informou que não pretendia mais reunir-se a nós.
O meu insucesso, como o chamam, parece ser o que espantou a todos, como quem foge de uma casa que desaba. No domingo, considerei a coisa um pouco mais de perto e imaginei que todas as más consequências da minha singularidade se reduziam a três: diminuição de fortuna, perda de amigos e perda de reputação. Quanto à minha fortuna, bem sei, ainda que talvez outros não saibam, que eu não poderia ter suportado maior do que a que tenho; e, quanto àquela desculpa tão plausível para desejá-la, "enquanto tenho tão pouco, não posso fazer o bem que gostaria", pergunto: "Você pode fazer o bem que Deus quer que faça? Então basta! Não procure mais." Quanto aos amigos, eram ou frívolos ou sérios. Se sérios, restam os que são ainda mais sérios, os quais os outros antes teriam estorvado do que ajudado no serviço que nos prestaram e ainda prestam. E se me disserem: "Mas estes também podem deixá-lo, pois não são mais firmes do que os outros eram", primeiro, duvido do fato; depois, ainda que o fizessem, esperamos que apenas nos ensinassem uma lição mais nobre e mais difícil do que até aqui. "Melhor é buscar refúgio no Senhor do que confiar no homem" (Sl 118.8). E, quanto à reputação, embora seja um glorioso instrumento para promover o serviço do nosso Mestre, há algo melhor do que ela: um coração limpo, um olhar simples, uma alma cheia de Deus! Justa troca, se, pela perda da reputação, pudermos comprar o mais ínfimo grau de pureza de coração! Rogamos que a senhora, minha mãe, e o senhor não cessem de trabalhar conosco, para que, seja o que for que percamos, ganhemos isto; e para que, havendo provado deste bom dom, contemos todas as demais coisas como esterco e refugo em comparação com ele. Sou, prezado pai, o seu filho dedicado e afetuoso.
Prezado senhor,
1. A autoridade de um pai e o chamado da Providência são coisas de natureza tão sagrada, que uma questão em que ambos de algum modo se acham envolvidos merece a mais séria consideração. Fico, pois, grandemente obrigado ao senhor pelo cuidado que teve de pôr a nossa em clara luz, a qual pretendo agora examinar mais largamente, com toda a atenção de que sou capaz.
2. Concordo inteiramente que "a glória de Deus, e os diferentes graus de promovê-la, devem ser a nossa única consideração e o nosso único norte na escolha de qualquer modo de vida"; e, por conseguinte, que tudo se resume a este único ponto: se devo preferir a vida no colégio [universitário] ou a de reitor de uma paróquia. Não digo que a glória de Deus deva ser a minha primeira ou a minha principal consideração, mas a minha única; pois tudo o que nela não se acha implicado é de todo sem peso: diante dela, tudo se desvanece, é menos que o pó da balança.
3. E, de fato, enquanto todas as outras considerações não fossem postas de lado, eu nunca poderia chegar a uma determinação clara. Enquanto o meu olhar não fosse simples, toda a minha mente estava cheia de trevas. Ao passo que, enquanto posso manter o olhar simples e fixo firmemente na glória de Deus, não tenho mais dúvida do caminho por onde devo ir do que do brilhar do sol ao meio-dia (cf. Mt 6.22).
4. Aquele modo de vida mais tende à glória de Deus no qual podemos promover ao máximo a santidade em nós mesmos e nos outros. Digo em nós mesmos e nos outros, por estar plenamente convencido de que estes jamais podem ser separados.
6. Por santidade não entendo o jejum (como o senhor parece supor), nem a austeridade corporal, nem qualquer outro meio externo de aperfeiçoamento, mas a disposição interior a que todos estes servem: a renovação da alma à imagem de Deus. Refiro-me a um hábito completo de humildade, mansidão, pureza, fé, esperança e amor a Deus e ao próximo.
7. A primeira dessas vantagens é o convívio diário com os meus amigos. Não conheço outro lugar debaixo do céu onde eu possa ter sempre à mão meia dúzia de pessoas quase do meu próprio modo de pensar e empenhadas nos mesmos estudos: pessoas despertadas para a convicção plena e viva de que têm apenas uma obra a fazer sobre a terra. Ter tal número de tais amigos velando constantemente sobre a minha alma, e, conforme a ocasião, administrando repreensão, conselho ou exortação, com toda a franqueza e toda a brandura, é uma bênção que ainda não encontrei cristão algum a desfrutar em qualquer outra parte do reino.
8. Outra bênção inestimável, que aqui desfruto em maior grau do que em qualquer outro lugar, é o recolhimento. Tenho não só tanta, mas tão pouca companhia quanto me apraz.
10. A isenção de cuidados tenho-a como a vantagem que vem logo após a isenção de companhia inútil, e por isso nociva. E também esta desfruto aqui em maior perfeição do que jamais poderei esperar em outra parte. Ouço falar de tal coisa como os cuidados deste mundo, e leio a respeito deles, mas não os conheço. Para me convencer de quanto isto ajuda à santidade, não me seria preciso melhor autoridade do que a de são Paulo: "Quisera que estivésseis livres de preocupações… para vos consagrardes ao Senhor sem distração" (cf. 1Co 7.32,35).
11. Sou muito consciente de que não seria capaz de desviar sequer uma das mil tentações que de imediato me assaltariam [numa paróquia]. Não poderia manter a minha posição, não, nem por um mês, contra a intemperança no dormir, no comer e no beber; contra a irregularidade no estudo; contra uma mornidão geral nos afetos e uma negligência nas ações; contra a moleza e a autocomplacência, diretamente opostas à disciplina e à dureza que convêm a um soldado de Jesus Cristo. Não posso, portanto, deixar de observar que a questão não diz respeito meramente a graus de perfeição, mas à própria essência e existência dela. O ponto é este: se hei de, ou não, operar a minha salvação; se hei de servir a Cristo ou a Belial.
12. E o que ainda mais aumenta o meu temor deste estado por experimentar é que, uma vez nele entrado, sejam os seus inconvenientes maiores ou menores, quando ali eu estiver, ali terei de ficar. Se este modo de vida algum dia se mostrar menos vantajoso, tenho quase contínuas ocasiões de deixá-lo; mas, quaisquer dificuldades que surjam naquele, previstas ou imprevistas, não há como voltar atrás, tampouco como se retorna do sepulcro.
17. "Mas Epworth é esfera de ação ainda maior; ali eu teria o cuidado de duas mil almas." Duas mil almas! Não vejo como homem algum vivo possa cuidar de cem. Ao menos eu não poderia. Porque o peso que já tenho sobre mim é quase mais do que sou capaz de suportar; devo eu aumentá-lo dez vezes? As montanhas que eu erguesse só esmagariam a minha própria alma, tornando-me de todo inútil aos outros.
26. Estas são parte das minhas razões para preferir permanecer (até que melhor me informem) na posição em que Deus me colocou. Quanto ao rebanho confiado ao seu cuidado, que por tantos anos o senhor diligentemente alimentou com o leite puro da Palavra, confio em Deus que o seu labor não será em vão, nem para o senhor nem para eles. E aquele que cuidou das pobres ovelhas antes de o senhor nascer não as esquecerá quando o senhor partir.
Prezado irmão, se preciso disputar, prefiro disputar com você a fazê-lo com qualquer outro homem vivo, porque se pode fazê-lo com tão pouco gasto de tempo e de palavras. A questão está agora reduzida a um único ponto, e todo o argumento cabe num só silogismo: "Nem a esperança de fazer maior bem, nem o temor de algum mal devem afastá-lo daquilo a que você se comprometeu; ora, você se comprometeu a assumir a cura de uma paróquia; logo, nem essa esperança nem esse temor devem afastá-lo disso." A única dúvida que resta é se eu me comprometi ou não a tanto. Você pensa que sim, na minha ordenação, "diante de Deus e do seu Sumo Sacerdote"; eu penso que não. Reconheço, porém, que não sou o juiz próprio do juramento que então fiz, sendo certo, e admitido por todos, que "o verdadeiro sentido das palavras de um juramento, bem como o modo e a extensão da sua obrigação, não se determinam por quem o presta, mas por quem o exige." [N. do T.: Wesley enuncia primeiro a máxima em latim e em seguida a traduz ele mesmo, como aqui se reproduz.] Portanto, não sou eu, mas o Sumo Sacerdote de Deus, diante de quem contraí aquele compromisso, quem deve julgar da sua natureza e extensão.
Assim, no correio seguinte ao recebimento da sua carta, remeti a questão inteiramente a ele, propondo-lhe esta única pergunta: se eu, na minha ordenação, me havia comprometido a assumir a cura de uma paróquia ou não. A resposta dele diz o seguinte: "Não me parece que, na sua ordenação, você se tenha comprometido a assumir a cura de qualquer paróquia, contanto que possa, como clérigo, servir melhor a Deus e à sua Igreja na sua posição atual ou em alguma outra." Ora, de que posso, como clérigo, servir melhor a Deus e à sua Igreja na minha posição atual, tenho toda a evidência razoável. Sou, prezado irmão, o seu mais afetuoso amigo e irmão.
Prezado irmão, alegro-me muito com o ânimo com que agora escreve, e confio que há no seu coração não só brandura, mas amor. Se assim é, você virá a conhecer esta doutrina, se é de Deus, ainda que talvez não pelo meu ministério.
Até esta hora você tem incorrido num ignoratio elenchi. [N. do T.: expressão latina da lógica, "ignorância da questão", isto é, refutar coisa diversa da que está em causa.] A sua certeza e a minha são tão diferentes quanto a luz e as trevas. Refiro-me a uma certeza de que estou agora num estado de salvação; a sua, a uma certeza de que perseverarei nele. A própria definição do termo elimina a sua segunda e a sua terceira observações. Quanto à primeira, faço notar:
Primeiro: nenhuma espécie de certeza (que eu saiba), nem de fé, nem de arrependimento, é essencial à salvação dos que morrem na infância.
Segundo: creio que Deus está pronto a dar a todos os verdadeiros penitentes que se refugiam na sua graça gratuita em Cristo um senso mais pleno do perdão do que tinham antes de cair. Sei que isto é verdade de vários; se são casos de exceção, não sei.
Terceiro: pessoas de constituição melancólica e sombria, a ponto de certo grau de loucura, eu as conheci, num instante (chame-se a isso milagre, não discuto), trazidas a um estado de paz e alegria firmes e duradouras.
Meu caro irmão, toda a questão gira principalmente, se não totalmente, em torno de um fato. Você nega que Deus opere agora esses efeitos, ou ao menos que os opere de tal maneira. Eu afirmo ambas as coisas, porque ouvi esses fatos com os meus ouvidos e os vi com os meus olhos. Vi (tanto quanto se pode ver) muitíssimas pessoas mudadas num momento, do espírito de horror, temor e desespero para o espírito de esperança, alegria e paz; e de desejos pecaminosos, que até então reinavam sobre elas, para um puro desejo de fazer a vontade de Deus. São fatos de que tenho sido, e quase diariamente sou, testemunha ocular ou auricular. Quanto ao que creio ou sei a respeito de visões e sonhos (com base na mesma evidência, quanto à subitaneidade e à realidade da mudança), sei isto: que em várias pessoas essa grande mudança do poder de Satanás para Deus se operou, seja durante o sono, seja durante uma forte representação, aos olhos da mente, de Cristo, na cruz ou na glória. Este é o fato. Julgue-o cada um como quiser. Mas que tal mudança então se operou, mostra-se não apenas pelas lágrimas que derramaram, ou pelos suspiros, ou por cantarem salmos (como fez o seu pobre correspondente com a mulher de Oxford), mas por todo o teor da vida deles, de muitos modos ímpia até então, e dali por diante santa, justa e boa.
Você viu aquele que era um leão até então e agora é um cordeiro? O que era beberrão e agora é exemplarmente sóbrio? O que era devasso e agora abomina os próprios apetites da carne? Estes são os meus argumentos vivos para o que afirmo: que Deus, agora como outrora, concede remissão dos pecados e o dom do Espírito Santo. Se não é assim, sou achado falsa testemunha; mas, de todo modo, dou e darei testemunho das coisas que vi e ouvi.
Já não espero rever o seu rosto em carne. Não que eu creia que Deus o dispensará ainda, mas creio que quase terminei a minha carreira. Ah, que eu seja achado nele, não tendo justiça própria!
> Quando eu houver visto o teu Cristo prometido > e o tiver estreitado no abraço da minha alma, > de posse então da tua salvação, > possa eu, Senhor, partir em paz. > > (When I Thy promised Christ have seen, / And clasp'd Him in my soul's embrace, / Possess'd of Thy salvation then, / Then may I, Lord, depart in peace.)
A grande bênção de Deus seja sobre você e os seus. Sou, prezado irmão, o seu irmão sempre afetuoso e agradecido.
Espero permanecer aqui algum tempo, talvez tanto quanto estiver no corpo.
Reverendo senhor, é em obediência ao que julgo ser o chamado de Deus que eu, tendo em minha própria alma a sentença de morte, tomo a liberdade de escrever ao senhor, de quem tantas vezes desejei aprender os primeiros rudimentos do evangelho de Cristo.
Se o senhor é nascido de Deus, aprovará este propósito, ainda que executado com fraqueza. Se não, hei de me entristecer pelo senhor, não por mim. Pois, assim como não busco o louvor dos homens, tampouco me importo com o desprezo, seja do senhor, seja de quem quer que seja.
Por dois anos (mais particularmente) venho pregando conforme o modelo dos seus dois tratados práticos; e todos os que me ouviram reconheceram que a lei é grande, admirável e santa. Mas, tão logo tentaram cumpri-la, descobriram que ela é alta demais para o homem, e que "pela prática da lei nenhum ser vivente será justificado" diante de Deus (cf. Rm 3.20).
Para remediar isso, exortei-os, e a mim mesmo me animei, a orar com fervor pela graça de Deus e a usar todos os demais meios de obter essa graça que o Deus totalmente sábio ordenou. Contudo, tanto eles como eu nos convencíamos cada vez mais de que esta é uma lei pela qual o homem não pode viver, pois a lei que está em nossos membros milita continuamente contra ela, levando-nos a um cativeiro cada vez mais profundo à lei do pecado (cf. Rm 7.23).
Sob esse jugo pesado eu poderia ter gemido até a morte, se um homem santo, a quem Deus há pouco me dirigiu, ao ouvir a minha queixa, não me houvesse respondido de imediato: "Crê, e serás salvo. Crê no Senhor Jesus Cristo de todo o teu coração, e nada te será impossível. Esta fé, tanto quanto a salvação que ela traz, é dom gratuito de Deus. Mas busca, e acharás. Despe-te das tuas próprias obras e da tua própria justiça, e refugia-te nele; pois todo aquele que a ele vem, de modo nenhum será lançado fora" (cf. At 16.31; Jo 6.37).
Agora, senhor, permita-me perguntar: como responderá ao nosso Senhor comum por nunca me haver dado este conselho? Nunca leu o senhor os Atos dos Apóstolos, ou a resposta de Paulo àquele que perguntou: "Que devo fazer para ser salvo?" Ou é o senhor mais sábio do que ele? Por que quase nunca o ouvi pronunciar o nome de Cristo, nunca de modo a fundar coisa alguma sobre a "fé no seu sangue"? Quem é este que lança outro fundamento? Se o senhor diz que aconselhou outras coisas como preparação para esta, que é isso senão lançar um fundamento abaixo do fundamento? Não é Cristo, então, o primeiro tanto quanto o último? Se o senhor diz que me aconselhou assim porque sabia que eu já tinha fé, em verdade nada sabia de mim; não discerniu de modo algum o meu espírito. Sei que não tinha fé, a não ser a fé de um demônio, a fé de Judas, aquela sombra especulativa, teórica e vazia, que habita na cabeça, não no coração. Mas que é isso comparado à fé viva e justificadora no sangue de Jesus, a fé que purifica do pecado, que nos dá livre acesso ao Pai, que nos faz "exultar na esperança da glória de Deus", ter "o amor de Deus derramado em nosso coração pelo Espírito Santo" que em nós habita, e "o próprio Espírito testemunhando com o nosso espírito que somos filhos de Deus" (cf. Rm 5.2,5; 8.16)?
Suplico-lhe, senhor, pelas misericórdias de Deus, que considere profunda e imparcialmente se a verdadeira razão de nunca me haver instado a isto não foi esta: que o senhor mesmo não a possuía; se não estava com a razão aquele homem de Deus que assim relatou um encontro recente que teve com o senhor: "Comecei a falar-lhe da fé em Cristo; ele se calou. Então começou a falar de assuntos místicos. Falei-lhe novamente da fé em Cristo; ele se calou. Então começou de novo a falar de assuntos místicos. Percebi de uma vez o seu estado." E um estado muito perigoso, no juízo daquele que sei ter o Espírito de Deus.
Mais uma vez, senhor, rogo-lhe que considere se a sua extrema aspereza, e o seu comportamento rude e azedo, ao menos em muitas ocasiões, podem de algum modo ser fruto de uma fé viva em Cristo. Se não, que o Deus de paz e de amor complete o que ainda lhe falta! Sou, reverendo senhor, o seu humilde servo.
Reverendo senhor, agradeço-lhe sinceramente um favor que não esperava, e atrevo-me a incomodá-lo mais uma vez.
Como preguei a vida toda; quão habilitado ou não eu estava para corrigir uma tradução de Kempis e traduzir-lhe um prefácio; se tenho agora, ou há quanto tempo tenho, uma fé viva; se sou a favor de separar dela a doutrina da cruz; qual é o seu estado ou os seus sentimentos; e se Peter Böhler falou a verdade no que disse quando duas pessoas, além de mim, estavam presentes, são circunstâncias das quais não depende a questão principal, que é esta e nenhuma outra: se o senhor alguma vez me aconselhou, ou me indicou livros que aconselhassem, a buscar primeiro uma fé viva no sangue de Cristo.
O senhor recorre a três fatos para provar que sim: (1) que pôs em minhas mãos a Theologia Germanica; (2) que publicou uma resposta ao Relato Singelo do Sacramento; e (3) que é governado, em tudo o que escreveu e fez, por estas duas máximas fundamentais do nosso Senhor: "Sem mim nada podeis fazer", e "Se alguém quer vir após mim, tome a sua cruz e siga-me" (Jo 15.5; Mt 16.24).
Admito os fatos, mas não a conclusão. Na Theologia Germanica lembro-me de algo sobre Cristo nosso Modelo, mas de nada expresso sobre Cristo nossa Expiação. A resposta ao Relato Singelo creio ser livro excelente, mas que não toca a questão. Aquelas duas máximas podem implicar, mas não expressam, a terceira: "Ele é a nossa propiciação, pela fé no seu sangue" (cf. Rm 3.25).
"Mas como sou eu responsável por o senhor não ter tido essa fé?" Se, como dá a entender, o senhor discernia o meu espírito, então: (1) não me disse claramente que eu não a tinha; (2) nunca uma só vez me aconselhou a buscá-la ou a orar por ela; (3) deu-me conselhos próprios apenas de quem já a possui; (4) e conselhos que me afastavam ainda mais dela, quanto mais fielmente eu os seguia; (5) recomendou-me livros que não tinham tendência alguma a plantar essa fé, mas uma tendência direta a destruir as boas obras.
Ainda assim, "que a culpa se reparta entre o senhor e Kempis". Não: se entendi Kempis erradamente, cabia ao senhor, que discernia o meu espírito nesse engano, explicá-lo e corrigir-me.
Peço-lhe perdão, senhor, se disse algo desrespeitoso. Sou, reverendo senhor, o seu mais obediente servo.
Prezado irmão, até aqui Deus grandemente nos ajudou em todas as coisas. Um relato do povo daqui você não deve esperar senão quando estivermos face a face, quando espero que não mais nos separemos. Oh, que, depois de eu ter provado todas as coisas, eu seja capaz de distinguir plenamente as que diferem [N. do T.: no original, uma expressão grega, "discernir as coisas que diferem"], e que, não chamando ninguém de mestre, na fé, na prática e na disciplina, eu me apegue firmemente ao que é bom!
Saúde os nossos irmãos em Londres e em Oxford, um por um; e exorte-os a todos, em nome do Senhor Jesus, a que amem e estudem cada vez mais os oráculos de Deus; a que operem a sua salvação com temor e tremor (Fp 2.12), jamais imaginando que já a alcançaram, ou que já são perfeitos; jamais se enganando, como se tivessem agora menos necessidade do que antes de ser sérios, vigilantes e humildes de espírito; e, acima de tudo, a que usem de grande franqueza no falar, tanto uns com os outros quanto para com todos os homens.
Meu queríssimo irmão e amigo, encomendo-o à graça de Deus, para que seja cada vez mais renovado à imagem do seu Filho! Orem todos por mim sem cessar! Adeus!
Prezado irmão, a minha resposta aos que me perturbam é esta: Deus me manda fazer o bem a todos os homens; instruir os ignorantes, corrigir os ímpios, confirmar os virtuosos. Os homens me proíbem de fazê-lo na paróquia de outrem; isto é, na prática, de fazê-lo de todo. Se é justo obedecer aos homens antes que a Deus, julguem vocês (At 5.29).
"Mas", dizem eles, "é justo que você se sujeite a toda instituição humana por causa do Senhor." É verdade; a toda instituição humana que não seja contrária ao mandamento de Deus. Mas, se algum homem, bispo ou outro qualquer, determinar que eu não faça o que Deus me manda fazer, sujeitar-me a essa determinação seria obedecer aos homens antes que a Deus.
E para isto tenho um chamado ordinário e um extraordinário. O meu chamado ordinário é a minha ordenação pelo bispo: "Recebe tu autoridade para pregar a palavra de Deus." O meu chamado extraordinário é atestado pelas obras que Deus faz pelo meu ministério, as quais provam que ele está comigo, verdadeiramente, neste exercício do meu ofício.
Talvez isto se exprima melhor de outro modo: Deus dá testemunho, de maneira extraordinária, de que este meu exercício do chamado ordinário lhe é agradável.
Mas, e se um bispo o proibir? Não digo, como São Cipriano, que "é dever do povo separar-se de um bispo ímpio" [N. do T.: máxima latina de Cipriano de Cartago]. Mas digo: sendo Deus o meu auxílio, ainda assim a ele obedecerei; e, se por isso eu sofrer, faça-se a sua vontade. Adeus!
Traduções para o português a partir dos originais ingleses de John Wesley, em domínio público (entre as fontes: a seleção de Augustine Birrell, The Letters of John Wesley, e as edições clássicas de Wesley). Trechos assinalados como (trecho) são recortes de cartas mais longas. Referências bíblicas na versão NAA (Nova Almeida Atualizada), abreviadas ao padrão brasileiro. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.