Quem?
Quem são as pessoas que estão sendo atraídas?
“Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia.”João 6.44 · NAANota: no grego, helkō, “atrair”, como a própria NAA traduz o mesmo verbo em Jo 12.32.
Para começar
Poucos capítulos da Bíblia foram tão puxados para dentro do debate sobre predestinação quanto João 6.
Quando Jesus diz que o Pai “dá” pessoas a Ele (v.37), que ninguém pode vir se o Pai não o “atrair” (v.44) e que ninguém vem se não lhe for “concedido” pelo Pai (v.65), o leitor calvinista sente que encontrou ali, em três versículos, a espinha dorsal da graça irresistível e da eleição incondicional. E é honesto reconhecer: à primeira vista o texto parece dar razão a ele. Se você já entra no capítulo com a moldura pronta, cada uma dessas três palavras se encaixa como peça de um quebra-cabeça calvinista.
O objetivo deste estudo é mostrar que essa moldura não vem do texto, vem de fora dele. E que, lida no contexto do próprio Evangelho de João, começando por João 5 e terminando na oração de João 17, a passagem sustenta com muito mais naturalidade a leitura arminiana e wesleyana: a de que a graça de Deus realmente vai à frente, realmente capacita, realmente é indispensável, mas não anula a responsabilidade de quem ouve nem arrasta ninguém contra a própria vontade.
Vamos por partes.
Parada 1
Todo o peso do capítulo recai sobre três verbos que Jesus usa: o Pai dá (v.37), atrai (v.44) e concede (v.65).
O calvinismo e o arminianismo não discordam sobre a existência desses verbos, discordam sobre três perguntas que o texto não responde de forma explícita e que cada lado responde a partir de pressupostos anteriores:
Quem são as pessoas que estão sendo atraídas?
O que exatamente significa “atrair”?
Em que sentido é verdade que “ninguém pode vir” a Jesus?
Repare que a divergência não está nas palavras de Jesus, está nas respostas que trazemos para dentro delas. O calvinista responde: quem é atraído são os eleitos, ainda incrédulos e espiritualmente mortos; atrair é regenerar por dentro, antes e independentemente da fé; e “ninguém pode vir” significa uma incapacidade total herdada de Adão, que só a regeneração unilateral remove. Dadas essas três respostas, a conclusão calvinista é inevitável. O problema é que nenhuma das três está escrita no capítulo. Elas são pressupostas.
A leitura wesleyana responde de outro modo, e é isso que vamos desenvolver. Mas para respondermos bem, precisamos voltar um capítulo.
Parada 2
Jesus não começou a falar de “vir a Ele” no capítulo 6. Ele já vinha dizendo isso, e as palavras do capítulo 5 preparam o terreno.
“Vocês examinam as Escrituras, porque julgam ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim. Contudo, vocês não querem vir a mim para ter vida.” (Jo 5.39-40)
Guarde bem esse “vocês não querem”. Jesus está diante de homens que estudavam as Escrituras com afinco, que buscavam a vida eterna, e que ainda assim não vinham a Ele. E o motivo que Jesus aponta não é uma incapacidade decretada, não é um “vocês não podem porque não foram eleitos”. É “vocês não querem”. A recusa é da vontade deles.
Isso muda tudo. Se a rejeição estivesse fundada num decreto eterno que os deixou de fora, a censura de Jesus seria vazia, quase cruel: por que repreender alguém por não fazer o que Deus soberanamente decidiu que ele jamais poderia fazer? A repreensão só faz sentido moral se eles de fato podiam ter vindo e escolheram não vir.
Repare ainda na ordem que Jesus estabelece: eles precisam vir a Ele para terem vida (Jo 5.40). Não é “primeiro recebam vida, depois venham”. É “venham, para terem vida”. A vida é consequência de vir, não pré-requisito de vir. Segure essa ordem, porque ela vai reaparecer como o ponto decisivo do capítulo 6.
E há uma frase no mesmo discurso que funciona como chave de leitura para tudo o que vem depois:
“Porque, se vocês, de fato, cressem em Moisés, também creriam em mim; pois ele escreveu a meu respeito.” (Jo 5.46)
Aqui está o critério que Jesus mesmo oferece. Quem realmente ouviu Moisés, quem realmente aprendeu com as Escrituras, reconheceria o Filho quando Ele aparecesse. A fé em Moisés e a fé em Cristo estão na mesma linha, são o mesmo movimento de coração diante do mesmo Deus. Quem tinha ouvido o Pai nos profetas viria ao Filho sem dificuldade. Quem não tinha, tropeçaria também no Filho.
Parada 3
O capítulo 6 abre com o milagre da multiplicação dos pães (Jo 6.1-14). Uma multidão come, se farta, e passa a seguir Jesus. Mas Jesus expõe o motivo real daquela procura:
“Em verdade, em verdade lhes digo que vocês estão me procurando não porque viram sinais, mas porque comeram os pães e ficaram satisfeitos.” (Jo 6.26)
A multidão do capítulo 6 não é, em grande parte, uma multidão de buscadores sinceros. É uma multidão de barriga cheia. Eles queriam pão, não o Pão. Queriam um rei que resolvesse a fome e talvez expulsasse Roma, não um Messias que falasse de entregar a própria carne. Esse detalhe importa muito para entender quem, no capítulo, resiste e por quê.
Jesus então desloca a conversa da fome física para a fome espiritual e se apresenta como o pão da vida (Jo 6.35). E é dentro desse discurso, para essa audiência específica, que aparecem os versículos difíceis. Não podemos arrancá-los desse chão e transformá-los num tratado abstrato sobre o decreto eterno de Deus sobre toda a humanidade. Jesus está falando com aqueles judeus, naquela circunstância, sobre por que uns O reconhecem e outros O rejeitam.
Parada 4
Antes de chegarmos aos textos que dividem, precisamos ouvir o que Jesus declara abertamente sobre a vontade do Pai:
“De fato, a vontade de meu Pai é que todo aquele que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia.” (Jo 6.40)
“Todo aquele.” A vontade declarada de Deus, dita em voz alta, sem mistério, é que todo aquele que vê e crê tenha vida. Não uma parcela previamente selecionada, não um grupo secreto. A oferta é aberta.
Aqui já surge uma tensão interna para o calvinismo. Se existe uma vontade oculta de Deus que salva só alguns por decreto irresistível, então a vontade declarada em João 6.40 seria uma segunda vontade, mais ampla, que na prática Deus não pretende cumprir para a maioria. O texto wesleyano prefere levar a sério a vontade que Jesus de fato declarou: Deus quer que todo aquele que crê seja salvo, e organizou a salvação em torno do crer. A condição está posta às claras, e é a fé.
Parada 5
Agora sim, os textos centrais. Vamos lê-los juntos:
Jo 6.37
“Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora.”
Jo 6.44
“Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia.”
Nota: no grego, helkō, “atrair”, como a própria NAA traduz o mesmo verbo em Jo 12.32.
Jo 6.65
“E prosseguiu: Por causa disto é que falei para vocês que ninguém poderá vir a mim, se não lhe for concedido pelo Pai.”
Coloque ao lado desses três o versículo que Jesus encaixa exatamente no meio:
“Está escrito nos Profetas: ‘E todos serão ensinados por Deus.’ Portanto, todo aquele que ouviu e aprendeu do Pai, esse vem a mim.” (Jo 6.45)
Note a simetria: aqueles que vêm a Cristo são os que o Pai dá (v.37), os que o Pai atrai (v.44), os que ouviram e aprenderam do Pai (v.45), e aqueles a quem é concedido (v.65). Quatro maneiras de descrever o mesmo grupo. E há uma pergunta que resolve boa parte do debate: quem são essas pessoas?
Diante dessa pergunta, o caminho se bifurca.
Os atraídos são incrédulos eleitos. Por causa da depravação total herdada da Queda, eles seriam “pecadores mortos” e “inimigos de Deus”, incapazes de qualquer movimento em direção a Cristo. A atração, então, seria uma regeneração interna e unilateral: Deus muda o coração do eleito, dá-lhe vida nova, e só então esse coração passa a crer. A fé é efeito da regeneração, e a regeneração é obra irresistível de Deus sobre quem Ele secretamente escolheu. Nesse esquema, “ouvir e aprender do Pai” é reinterpretado como sinônimo dessa regeneração secreta.
Os atraídos são os que já andavam com Deus, as ovelhas do Pai, os que criam em Moisés e nos profetas. Jesus mesmo definiu quem são: “todo aquele que ouviu e aprendeu do Pai, esse vem a mim” (Jo 6.45). Quem já tinha ouvido e aprendido do Pai não precisava de uma segunda operação secreta para reconhecer o Filho, precisava apenas da revelação do Filho por meio da proclamação. Como Jesus disse no capítulo anterior, “se vocês, de fato, cressem em Moisés, também creriam em mim” (Jo 5.46). Por que alguém que já cria em Moisés precisaria de uma regeneração especial para então crer em Jesus? A atração, nessa leitura, é a mensagem messiânica que o Pai deu ao Filho para pregar, uma mensagem desenhada para ofender o orgulhoso e atrair o humilde.
O ponto que quero destacar é que a palavra “regeneração” não aparece em João 6. Nenhuma vez. O calvinismo importa esse conceito de fora e o instala no coração do texto, e depois insiste que não trouxe nada externo para o capítulo. Mas trouxe. Trouxe justamente a peça que faz o quebra-cabeça fechar do seu jeito.
Parada 6
O versículo 45 é a chave interpretativa que o próprio Jesus coloca na mão do leitor, e por isso merece atenção demorada.
“Está escrito nos Profetas: ‘E todos serão ensinados por Deus.’ Portanto, todo aquele que ouviu e aprendeu do Pai, esse vem a mim.” (Jo 6.45)
Jesus cita os profetas (a referência é Is 54.13) e define o movimento em duas etapas encadeadas: primeiro a pessoa ouve e aprende do Pai, depois ela vem ao Filho. A vinda ao Filho é o fruto de ter ouvido e aprendido do Pai. E o que é ouvir e aprender do Pai? É buscar as verdades de Deus nas Escrituras, é submeter-se à orientação divina, é aquele estudo diligente que Jesus reconheceu nos judeus de João 5, com uma diferença decisiva: aqui a pessoa não só estuda, ela aprende, quer dizer, se deixa ensinar de verdade e obedece.
Essa é a razão de a atração não ser um raio arbitrário que cai sobre um número fechado de eleitos. A atração passa pelo ouvido e pelo coração de quem se dispôs a ouvir. Deus ensina a todos (“todos serão ensinados por Deus”), e vem ao Filho aquele que de fato ouviu e aprendeu. Os que se recusaram a ouvir Moisés e os profetas, esses tropeçaram no Filho, exatamente como Jesus tinha previsto.
Repare como isso amarra o capítulo 5 com o capítulo 6. Em João 5, os que “não querem vir” (Jo 5.40) são os que não ouviram de verdade o Pai. Em João 6, os que “vêm” são os que ouviram e aprenderam do Pai (Jo 6.45). É a mesma lógica, o mesmo Evangelho, a mesma teologia do começo ao fim.
Parada 7
Chegamos ao ponto em que a leitura wesleyana diz algo que precisa ser dito com todas as letras, porque é aqui que ela se distingue tanto do calvinismo quanto de certas formas mais rasas de arminianismo.
Nós, wesleyanos, não dizemos que o ser humano vem a Cristo pelas próprias forças, como se a graça fosse dispensável e bastasse a boa vontade natural. Não. Levamos a sério o “ninguém pode” de João 6.44. Ninguém, deixado a si mesmo, no puro estado caído, tem em si a capacidade de vir. A vinda depende de Deus ir à frente. O nome que a tradição wesleyana dá a esse ir à frente é graça preveniente, a graça que previne no sentido antigo da palavra, isto é, que vem antes, que precede, que antecipa e capacita.
Foi assim que o próprio João Wesley comentou este versículo:
Está tudo ali, em uma frase. A graça é primeira (ela vai à frente, o ser humano não a inicia). A graça é real (ela dá poder, capacita de fato). E a graça é resistível (fortes e doces moções, mas que se pode resistir). O calvinista acerta ao dizer que a atração é indispensável e sobrenatural. Ele erra ao dizer que ela é irresistível e que age só sobre um número fixo de eleitos. O que Wesley enxerga no texto é uma graça que abre a porta a quem estava trancado, e ainda assim deixa que a pessoa atravesse ou recuse a soleira.
E há um detalhe exegético que sela a questão a favor de Wesley: o verbo grego de João 6.44, helkō (que a NAA traduz por “trouxer” ali e por “atrairei” em Jo 12.32), reaparece em João 12.32, e ali o alcance é universal.
“E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim.” (Jo 12.32)
O mesmo atrair que em 6.44 recai sobre as ovelhas fiéis de Israel antes da cruz, em 12.32 se estende a todos depois da cruz. Se “atrair” significasse arrastar irresistivelmente à salvação, então João 12.32 provaria o universalismo, todos seriam salvos, o que nem calvinistas nem arminianos aceitam. Logo, “atrair” não pode significar arrastar irresistivelmente. Significa capacitar, mover, cortejar a vontade de quem ainda pode dizer sim ou não. É precisamente a graça preveniente, oferecida antes a um grupo e depois ao mundo, sempre eficaz para habilitar, nunca coercitiva para forçar.
Aqui, aliás, a leitura wesleyana enriquece o argumento não-calvinista mais comum. Algumas leituras não-calvinistas tomam o “atrair” de João 6 apenas como a mensagem dirigida a quem já era fiel, e deixam a impressão de que essas pessoas já tinham em si a disposição, quase sem necessidade de graça. Wesley não concede isso. Mesmo naqueles judeus fiéis, o que os fez ouvir e aprender do Pai já era graça de Deus operando antes. Ninguém ouve o Pai sem que o Pai primeiro fale e abra o ouvido. A responsabilidade humana é real, mas ela responde a uma graça que sempre chega primeiro. Essa é a marca wesleyana: nem monergismo irresistível, nem semipelagianismo que dispensa a graça, mas graça preveniente que capacita e espera a resposta livre.
Parada 8
O ponto sobre o qual o debate de fato gira é a ordem das coisas.
O calvinismo precisa que a regeneração venha antes da fé, porque só assim o morto pode crer. A leitura wesleyana sustenta a ordem inversa, que é a ordem que as Escrituras de fato apresentam: a graça preveniente capacita, a pessoa crê, e então recebe a vida.
Volte ao que Jesus disse: “vocês não querem vir a mim para ter vida” (Jo 5.40). Vir primeiro, ter vida depois. E o Evangelho de João declara seu próprio propósito exatamente nessa ordem:
“Estes, porém, foram registrados para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenham vida em seu nome.” (Jo 20.31)
“Crendo, tenham vida.” A vida vem por meio do crer, não antes dele. Se a regeneração (que é vida nova) tivesse de vir antes da fé, João estaria sendo desleixado toda vez que fala de “vida” como resultado de crer. Mas João não é desleixado. Ele é consistente: quem crê recebe vida, e não o contrário.
Para salvar esse esquema, o calvinismo é forçado a criar uma distinção artificial: haveria uma “vida” regeneradora anterior à fé, e depois uma “vida eterna” recebida pela fé, como se fossem duas coisas diferentes. Mas a vida regenerada não é justamente vida eterna? Onde o texto separa essas duas vidas? Essa divisão não vem de João, vem da necessidade de encaixar a regeneração antes da fé. Quando o texto precisa ser dobrado para caber na doutrina, é sinal de que a doutrina não saiu do texto.
Vale ainda lembrar como o próprio Calvino tratou João 6.29, “A obra de Deus é esta: que vocês creiam naquele que ele enviou”. Calvino recusou a leitura de que a fé aqui seria um dom irresistivelmente infundido; entendeu que Jesus fala do que Deus requer de nós, não do que Deus produz sozinho dentro de nós, e advertiu que “estão enganados os que inferem daqui que a fé é dom de Deus” nesse sentido mecânico (Calvino, Comentário ao Evangelho de João, ad Jo 6.29). Isto é, nem o pai do calvinismo forçou esse versículo tanto quanto alguns dos seus herdeiros forçam hoje.
Parada 9
Falta responder à terceira pergunta: em que sentido “ninguém pode vir”?
O calvinismo lê “não pode” como uma incapacidade inata, total, herdada de Adão, que atinge todo ser humano desde o nascimento e da qual só a regeneração unilateral liberta. Mas repare no que Jesus diz sobre por que aqueles judeus específicos não podiam crer. João é quem nos explica, mais adiante, citando o mesmo Isaías:
“Por isso, não podiam crer, porque Isaías disse ainda: ‘Cegou os olhos deles e endureceu-lhes o coração, para que não vejam com os olhos, nem entendam com o coração, e se convertam, e sejam por mim curados.’” (Jo 12.39-40)
Preste atenção na razão. Não está escrito que eles não podiam crer por causa do pecado de Adão. Não está escrito que Deus os criou incapazes desde o ventre. Está escrito que houve um endurecimento, e no fluxo do Evangelho esse endurecimento é resposta à rebeldia persistente deles. Eles se recusaram a ouvir Moisés, se recusaram a ouvir as Escrituras, foram ficando insensíveis, e por fim Jesus passa a lhes falar em parábolas e palavras duras que os fazem tropeçar. O “não podem” deles é um “não podem mais”, resultado de um “não quiseram” repetido.
É o que a tradição chama de endurecimento judicial, e ele tem duas marcas que o distinguem do decreto calvinista. Primeira, é condicional: veio como juízo sobre a incredulidade deles, não como decreto anterior ao nascimento. Segunda, no fundo não é absolutamente irreversível pela graça, tanto que o mesmo Jesus, mesmo aos que não criam, ainda apontava para as obras que fazia como evidência que deveriam considerar:
“Se não faço as obras do meu Pai, não acreditem em mim. Mas, se faço, e vocês não creem em mim, creiam pelo menos nas obras, para que vocês possam saber e compreender que o Pai está em mim e que eu estou no Pai.” (Jo 10.37-38)
Ora, por que Jesus mandaria os incrédulos considerarem as evidências dos milagres se eles fossem absoluta e definitivamente incapazes de qualquer resposta? A própria exortação pressupõe que ainda havia um caminho de volta para quem baixasse a guarda da rebeldia.
E há uma prova externa de que essa incapacidade não é a condição universal de todo ser humano desde Adão: Jesus se volta para os gentios. Se o “não podem ver” fosse apenas a herança adâmica pesando igualmente sobre todos, não faria sentido Jesus contrastar aquele Israel endurecido com as nações que ainda ouviriam. O endurecimento de João 12 diz respeito àquele Israel julgado por sua rebeldia obstinada, não a um decreto genérico contra a humanidade inteira.
Parada 10
Um dos usos mais frequentes de João 6 e João 17 no debate é tratar “aqueles que o Pai me deu” como se fôssemos nós, os cristãos de hoje, os eleitos de todos os tempos. Vale examinar isso com o texto na mão, porque aqui o contexto é implacável.
Siga a linguagem de “dar”. Em João 6.39, Jesus diz: “a vontade de quem me enviou é esta: que eu não perca nenhum de todos os que ele me deu”. Quem são “todos os que me deu”? O próprio João responde, quando conta a prisão de Jesus:
“Ele disse isso para se cumprir a palavra que tinha dito anteriormente: ‘Não perdi nenhum dos que me deste.’” (Jo 18.9)
E o que era esse “perder”, nesse contexto? Não era perder a salvação num sentido abstrato. Era perder para a espada, para a prisão, para a violência daquela noite. Jesus protegeu fisicamente os seus para que a missão fosse cumprida, e o “não perdi nenhum” se refere a eles, os apóstolos, com a única exceção do “filho da perdição” (Jo 17.12), Judas. Ou seja, os “dados” de João 6.39 e João 17 são, em primeiro lugar, aquele grupo concreto dos discípulos que andavam com Jesus.
A oração de João 17 confirma isso de modo que dispensa acrobacia. Depois de orar por eles, Jesus faz a distinção mais clara possível:
“Não peço somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por meio da palavra que eles falarem.” (Jo 17.20)
Esses somos nós. Nós somos os que creem “por meio da palavra deles”, os apóstolos. Jesus separa em duas categorias: “estes” (os dados, os apóstolos) e “aqueles que vierem a crer por meio da palavra deles” (nós). Não podemos ser, ao mesmo tempo, os “dados a Jesus” e os que creem na pregação dos que foram dados a Jesus. As duas coisas se excluem no próprio texto.
Uma varredura honesta do Evangelho mostra que quase todas as vezes em que Jesus fala dos que o Pai “lhe deu”, o alvo é aquele círculo original: João 6.39, 10.29, 17.2, 17.6, 17.9, 17.11, 17.12, 17.24, 18.9. Forçar 6.37 e 6.39 a falarem de nós, entregues a Jesus para que creiamos, é ler o texto a partir de uma necessidade doutrinária, não a partir do seu sentido no contexto original. Isso não nos diminui: nós pertencemos a Cristo, somos suas ovelhas, mas nos tornamos ovelhas ao crer na palavra apostólica, não fomos ovelhas antes de crer. Como Paulo diz, “se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8.9). Nós passamos a ser d’Ele quando cremos, não antes.
Parada 11
Um estudo honesto apresenta o argumento mais forte do outro lado antes de julgar. Vejamos as objeções calvinistas que mais pesam, e como a leitura wesleyana responde. Toque em cada uma para abrir a resposta.
Parada 12
Há um último fio que amarra tudo e que o calvinismo tem dificuldade de explicar. O Evangelho de João fala de duas atrações distintas, e só a leitura wesleyana consegue acomodar as duas sem redundância.
Antes da cruz · Jo 6.44
A primeira é a atração do capítulo 6, antes da cruz, sobre as ovelhas fiéis de Israel, os que já tinham ouvido e aprendido do Pai. A estratégia de Jesus naquele momento não era ainda revelar-se abertamente a todas as nações; foi só depois da ressurreição que Ele mandou pregar o evangelho a toda criatura (Mt 28.18-20). Portanto, no tempo de João 6, Deus não estava atraindo a todos indistintamente, estava atraindo ao Filho os que já eram seus dentro de Israel.
Depois da cruz · Jo 12.32
A segunda é a atração do capítulo 12, depois da cruz, universal: “atrairei todos a mim” (Jo 12.32). Aqui a atração se abre ao mundo, por meio da pregação global do evangelho.
Se a atração de João 6 já fosse a operação irresistível e definitiva que o calvinismo imagina, a atração universal de João 12.32 seria supérflua, uma repetição sem função. Mas nas Escrituras nada é supérfluo. As duas atrações se distinguem porque descrevem dois momentos: primeiro a transferência das ovelhas fiéis de Israel para o Messias (foi disso que João Batista falou ao dizer “convém que ele cresça e que eu diminua”, Jo 3.30), depois a oferta estendida a toda a humanidade a partir da cruz. Uma teologia da graça resistível abriga as duas com folga. A graça irresistível tropeça na segunda.
Síntese
Recolhendo os fios, o quadro que emerge de João 5 a 17 é coerente e inteiro, e é profundamente wesleyano.
Deus vai à frente. Ninguém busca, ouve ou vem sem que a graça preveniente do Pai chegue primeiro, abra o ouvido e mova o coração. O “ninguém pode vir” de João 6.44 é levado a sério, e não relativizado. Mas essa graça capacita sem coagir. Ela é forte e doce, e ainda assim resistível, como Wesley a descreveu. Quem ouve e aprende do Pai vem ao Filho; quem endurece o coração contra o Pai tropeça no Filho, e o endurecimento que se segue é juízo sobre a rebeldia, não decreto anterior ao nascimento.
A ordem é sempre a mesma, e é a ordem que o próprio João declara: crer para ter vida, não receber vida para depois crer (Jo 20.31). A fé, ela mesma resposta à graça, vem antes da regeneração, que é o dom e o privilégio de quem se une a Cristo pela fé, para que Deus venha habitar no crente da nova aliança (1Co 3.16).
E a oferta é aberta. “Todo aquele que vir o Filho e nele crer” (Jo 6.40) tem a vida eterna. Não há um número secreto trancado no decreto de Deus. Há uma vontade declarada em voz alta, uma cruz erguida para atrair a todos, e um evangelho pregado ao mundo inteiro. A salvação continua condicionada à fé em Cristo, essa é a condição que o texto põe às claras, e é por isso que a rejeição de quem ouve e recusa é, de fato, responsabilidade de quem recusa.
Fixação
Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, e errar aqui também ensina.
0 de 5
Para pensar e conversar
Tarefas
Ler João 5 e João 6 inteiros (NAA), de uma vez, marcando cada ocorrência de “vir a mim”, “crer” e “vida”, e anotando a ordem em que aparecem; e reler João 17 identificando as duas categorias da oração: “estes” e “os que vierem a crer por meio da palavra deles” (Jo 17.20).
Continue estudando
Este estudo conversa diretamente com a lição sobre Romanos 9, o outro grande texto do debate. Estudar Romanos 9 → Veja também o curso de Soteriologia Wesleyana →
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Bispo Ildo Mello