Ministério e LiderançaLição

Por que a Igreja ordena mulheres

“Não há judeu nem grego; não há escravo nem liberto; não há homem nem mulher; porque todos vocês são um em Cristo Jesus.”Gálatas 3.28 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Gl 3.26-29; Jl 2.28-29; Rm 16.1-16

Para começar

Duas perguntas que não podem ser adiadas

Este é um debate entre cristãos sinceros, que leem a mesma Bíblia e querem obedecer ao mesmo Senhor. Vamos tratá-lo assim.

A Escritura proíbe a mulher de pregar — ou proíbe a desordem?

Dois textos de Paulo mandam a mulher calar-se na igreja. O mesmo Paulo, na mesma carta, pressupõe mulheres orando e profetizando na assembleia. O que fazemos com isso?

Se o Espírito concede o dom, pode a Igreja negar o reconhecimento?

Quando Deus dota e chama uma mulher para o ministério pastoral, e a igreja constata o fruto, com que autoridade recusamos a ordenação?

A objeção contrária, na sua forma mais forte: Paulo escreve “não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem” (1Tm 2.12), e fundamenta a proibição não na cultura de Éfeso, mas na ordem da criação — “porque Adão foi formado primeiro” (1Tm 2.13). Sendo assim, a restrição não seria local nem temporária: seria permanente, porque a criação é permanente. Some-se que Jesus escolheu doze homens, e que a Igreja passou dezenove séculos sem ordenar mulheres.

É um argumento sério, e quem o defende merece resposta séria — não caricatura. O que pretendo mostrar é que ele não sobrevive a três testes: o do conjunto da Escritura, o da coerência hermenêutica e o do que o Novo Testamento efetivamente registra que as mulheres faziam.

Argumento 1

Criação, queda e restauração

Toda a discussão depende de uma pergunta anterior: a subordinação da mulher pertence à ordem da criação, ou entrou no mundo com o pecado?

1

A sujeição aparece depois da queda

Só em Gn 3.16, no anúncio das consequências do pecado, é que se lê “ele a governará”. Repare no gênero da frase: ela está na mesma lista dos espinhos, do suor e da dor — descreve o mundo quebrado, não o mundo como Deus o quis. Ler ali um mandamento permanente é transformar maldição em estatuto.

2

Cristo restaura o princípio

Quando lhe perguntaram sobre o divórcio, Jesus não argumentou a partir do que a dureza do coração havia consolidado; voltou ao começo: “desde o princípio não foi assim” (Mt 19.8). Esse é o método. O Evangelho não santifica os efeitos da queda; desfaz o que o pecado torceu.

B. T. Roberts resume assim a tese que atravessa o seu livro: o homem e a mulher foram criados iguais; na queda a mulher foi sujeitada ao marido como castigo; e Cristo repromulgou a lei primitiva e restaurou a relação original de igualdade entre os sexos. Se isso está certo, então defender a subordinação permanente da mulher é defender a permanência de uma consequência do pecado dentro da igreja da graça.

Argumento 2

O texto-chave, e o que ele realmente diz

Gálatas 3.28 é a chave de leitura de toda a questão. E o modo como se costuma esvaziá-lo revela mais do que se pretende.

“Não há judeu nem grego; não há escravo nem liberto; não há homem nem mulher; porque todos vocês são um em Cristo Jesus.”Gálatas 3.28 · NAA

A objeção mais comum é que o versículo trata apenas de salvação: homem e mulher seriam “um” só no modo de serem salvos, e estender isso a ministério seria acrescentar ao texto. Roberts responde com um argumento que considero decisivo.

Por que a leitura “só salvação” não se sustenta

Ninguém nunca duvidou que a mulher fosse salva

Em todas as ofertas de salvação do Novo Testamento, a mulher jamais é mencionada em separado. Nenhuma vez. “Quem crer e for batizado será salvo” sempre a incluiu, e nunca houve disputa sobre isso. Se Gálatas 3.28 tratasse só de salvação, mencionar a mulher seria supérfluo — o versículo estaria resolvendo um problema que não existia.

Já quanto ao grego e ao escravo, havia disputa real

Foi preciso uma visão do céu para convencer Pedro de que um gentio podia ser salvo (At 10). Se o propósito do versículo fosse apenas soteriológico, a lista teria parado no grego e no escravo. Paulo acrescenta “homem nem mulher” porque está afirmando outra coisa: a abolição, em Cristo, dos privilégios fundados em nacionalidade, condição social e sexo.

Não se pode aplicar a mesma frase em dois pesos

É contrário a qualquer princípio sadio de interpretação dizer que o versículo dá ao grego os mesmos direitos que ao judeu num sentido pleno, e à mulher os mesmos direitos que ao homem num sentido bem mais estreito. Se ele abre o ministério a homens de todas as nações, abre às mulheres exatamente o mesmo.

Um detalhe que costuma escapar. A igreja usou este mesmo versículo para desmontar a escravidão. Ninguém hoje diria que “não há escravo nem liberto” valia apenas para o modo de ser salvo, e que no mais o escravo continuava escravo. Fazemos com a terceira cláusula o que já nos recusamos a fazer com a segunda.

Argumento 3

O Espírito foi derramado sobre os filhos e sobre as filhas

Se a pregação depende de dom, e o dom vem do Espírito, então a pergunta decisiva é: sobre quem o Espírito foi prometido?

“Depois disso, derramarei o meu Espírito sobre todas as pessoas. Os filhos e as filhas de vocês profetizarão… Também sobre os servos e sobre as servas derramarei o meu Espírito naqueles dias.”Joel 2.28-29 · NAA

Pedro cita exatamente esse texto no dia de Pentecostes para explicar o que estava acontecendo (At 2.17-18). Não é uma promessa para o futuro remoto: é a certidão de nascimento da Igreja. E ela nomeia as filhas e as servas.

1

Não se profetiza de boca fechada

Profetizar, em Paulo, não é adivinhar o futuro: “quem profetiza fala aos seres humanos, edificando, exortando e consolando” (1Co 14.3). Ora, edificar, exortar e consolar são exatamente os fins do ministério da Palavra. Se as mulheres profetizavam — e profetizavam —, as mulheres pregavam.

2

E profetizavam na assembleia

Na mesma carta em que manda as mulheres calarem-se, Paulo dá instruções sobre como elas devem se apresentar “ao orar ou profetizar” (1Co 11.5). Ninguém regula o traje de quem está em silêncio. A regra pressupõe a prática.

A linha das profetisas atravessa toda a Escritura

Miriã

Chamada profetisa e colocada por Miqueias, ao lado de Moisés e Arão, entre os que Deus enviou para conduzir Israel (Êx 15.20; Mq 6.4).

Débora

Profetisa e juíza, à frente do povo inteiro, com autoridade civil e espiritual reconhecida por todos, inclusive por Baraque (Jz 4.4-9).

Hulda

Quando o Livro da Lei foi achado, o rei Josias não mandou consultar Jeremias nem Sofonias, que eram seus contemporâneos: mandou consultar Hulda — e a palavra dela moveu uma reforma nacional (2Rs 22.14-20).

Ana

No templo, reconhece o Messias recém-nascido e “falava a respeito do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém” (Lc 2.36-38). É pregação, no sentido mais próprio da palavra.

As quatro filhas de Filipe

Já na igreja do Novo Testamento, quatro mulheres solteiras que profetizavam, registradas sem uma linha de ressalva (At 21.9).

Repare no que isso significa para o argumento da “ordem da criação”. Se a subordinação da mulher fosse uma norma permanente fundada na criação, Deus teria violado a própria norma cada vez que colocou a sua palavra na boca de uma profetisa — inclusive quando a fez julgar Israel e corrigir um rei.

Argumento 4

O que as mulheres de fato faziam na igreja apostólica

Antes de discutir o que Paulo teria proibido, convém olhar para o que Paulo elogiou. Em Romanos 16, de vinte e cinco pessoas saudadas, cerca de um terço são mulheres — e nenhuma delas aparece em posição decorativa.

1

Maria Madalena

A primeira pessoa a ver o Ressuscitado e a primeira a ser enviada a anunciá-lo aos apóstolos (Jo 20.17-18). Numa cultura em que o testemunho da mulher não valia em juízo, Deus escolheu justamente mulheres como testemunhas oculares do fato que sustenta a fé cristã.

2

Priscila

Junto com Áquila, expôs a Apolo “com mais exatidão o Caminho de Deus” (At 18.26) — ou seja, ensinou doutrina a um pregador eloquente. E em quatro das seis menções o nome dela vem antes do nome do marido, algo tão incomum na época que só se explica pelo destaque do seu ministério.

3

Febe

Paulo a chama diakonos da igreja de Cencreia — a mesma palavra que noutros lugares se traduz “diácono” e “ministro” — e prostátis, termo de patrocínio e liderança (Rm 16.1-2). Ela é, muito provavelmente, quem levou a Roma a carta que carregava toda a teologia paulina.

4

Evódia e Síntique

Paulo pede que sejam ajudadas porque “lutaram ao meu lado no evangelho” (Fp 4.2-3). O verbo é synēthleō, o de lutar ombro a ombro na arena. Elas prestaram a Paulo a mesma ajuda que Clemente prestou — e o conflito entre as duas preocupava o apóstolo porque a liderança delas era decisiva em Filipos.

5

Lídia e Ninfa

Igrejas se reuniam nas casas delas (At 16.15; Cl 4.15). A igreja primitiva nasceu em casas, onde se celebrava a Ceia e se ensinava a Palavra — e a dona da casa não era mera anfitriã. O mesmo vale para Maria, mãe de João Marcos, nomeada por si mesma em Atos 12.12-17.

6

Trifena, Trifosa, Pérside e Maria

Paulo diz que “trabalharam muito no Senhor” (Rm 16.6,12). O verbo kopiaō é o mesmo que ele usa para descrever o próprio trabalho de evangelizar e ensinar. Comentando o versículo, Adam Clarke conclui que “mulheres cristãs, tanto quanto homens, trabalhavam no ministério da palavra”.

A nota exegética que decide muita coisa

Some-se um argumento que Roberts extrai do próprio vocabulário: nas listas de dons e ofícios — apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres (Ef 4.11; 1Co 12.28) — em momento algum se diz que este ou aquele ofício é masculino. A distinção que tanto se defende simplesmente não aparece onde ela deveria estar.

Argumento 5

O ministério cristão não é sacerdócio

Boa parte da resistência à ordenação de mulheres se apoia, sem perceber, num modelo levítico que o Novo Testamento desmontou.

A observação de B. T. Roberts

Cento e cinquenta e uma vezes — e nenhuma delas

A palavra “sacerdote” aparece cento e cinquenta e uma vezes no Novo Testamento. Nem uma única vez é aplicada a um ministro cristão. Nem João, nem Pedro, nem Paulo, nem Tiago é jamais chamado sacerdote. A razão é teológica: sacerdote é quem oferece sacrifício pelos pecados de outros (Hb 5.1), e Cristo se ofereceu uma vez por todas (Hb 10.11-12).

A religião cristã não tem sacerdotes porque não tem mais sacrifício pelo pecado a oferecer. O sacrifício está completo.

Isso reorganiza o problema inteiro. No Antigo Testamento, de fato, nenhuma mulher foi sacerdotisa — mas várias foram profetisas. A exclusão do sacerdócio tinha razões cerimoniais: quem oferece sacrifício manuseia sangue e opera sob regras estritas de pureza ritual, e a lei mosaica considerava a mulher impura em períodos regulares. Se o ministério cristão não é sacerdócio, a razão da exclusão desapareceu junto com o altar.

O sacerdócio que o Novo Testamento reconhece é o de todo o povo: “vocês, como pedras que vivem, são edificados casa espiritual para serem sacerdócio santo” (1Pe 2.5); “vocês, porém, são raça eleita, sacerdócio real” (1Pe 2.9). E os sacrifícios desse sacerdócio estão especificados — o corpo (Rm 12.1), as boas obras (Hb 13.16) e o louvor (Hb 13.15) —, todos oferecidos por cada um em pessoa. Ninguém os oferece por ninguém.

Roberts observa o momento em que a coisa virou: quando os ministros da igreja antiga começaram a assumir prerrogativas sacerdotais, atribuíram à mulher um lugar inferior; e, à medida que essa apostasia avançou, excluíram-na de todo. A partir do século IV a igreja adotou de novo o modelo levítico, e as portas se fecharam. O protestantismo, no seu nascedouro, não fez questão de reabri-las.

Os argumentos desta seção estão desenvolvidos nos capítulos 4 e 15 de Ordenando Mulheres, de B. T. Roberts, disponível na íntegra no site.

Argumento 6

O que a Igreja faz quando ordena

Se ordenar fosse conferir um poder, a discussão seria outra. Mas não é isso que o Novo Testamento mostra.

1

Atos 6 — a ordenação modelo

Os apóstolos não escolheram os sete: convocaram a comunidade inteira e disseram “escolham entre vocês sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria” (At 6.3). A igreja elegeu, os apóstolos oraram e impuseram as mãos. O critério foi o dom já evidente, não o rito.

2

Atos 13 — e nem mesmo para Paulo

Em Antioquia o Espírito disse: “separem Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado”. Impuseram-lhes as mãos e os enviaram (At 13.1-3). A imposição de mãos deu a Paulo título para o ministério? De modo algum — Deus já o havia chamado, e autorização mais alta não existe.

Daí a conclusão: a função da igreja na ordenação não é criar nem conferir o dom do ministério, mas reconhecê-lo e autenticá-lo quando o Cabeça da Igreja já o concedeu. É exatamente o que diz o nosso Manual: a ordenação “é sempre, antes de tudo, uma atividade de chamamento e unção divinos” (Manual, §8000).

O argumento de Pedro, aplicado aqui

Enfrentando o contraditório

Respostas às nove objeções

Reuni as nove objeções que mais aparecem, cada uma na sua forma mais forte. Toque para abrir.

1“Não permito que a mulher ensine” (1Tm 2.11-12)+

É o texto decisivo para quem se opõe, e merece a resposta mais cuidadosa. Começo pela pergunta que ninguém escapa: por que só esta parte do parágrafo continua valendo?

O teste da coerência

Quem usa 1Timóteo 2 para impedir o ministério pastoral feminino deveria, pelo mesmo texto e pelo mesmo método, proibir as mulheres de usar aliança, ouro, pérolas e vestidos caros; proibir tranças no cabelo; e proibi-las de fazer perguntas num estudo bíblico, porque o texto manda que aprendam em silêncio. Deveria ainda ensinar que a mulher se salva “dando à luz filhos” (v. 15) — o que complica a vida das que nunca terão filhos. E, como o mesmo parágrafo determina que os homens orem “levantando mãos santas” em todo lugar (v. 8), deveria exigir que todos os homens orassem sempre de mãos erguidas.

Porventura os que condenam o ministério pastoral feminino oram sempre de mãos erguidas em todo lugar? Se não, que hermenêutica é essa, que trata parte do mesmo parágrafo como Palavra permanente para todas as gerações e outra parte como detalhe cultural?

O verbo que foi traduzido demais

O termo que a tradição verteu por “exercer autoridade” é authenteō, palavra rara, que ocorre uma única vez em todo o Novo Testamento. Ela não descreve a autoridade legítima, e sim o agir como déspota, o dominar. Dean Alford traduzia “nem dominar sobre”. E o despotismo é proibido também aos homens: “nem como dominadores dos que lhes foram confiados” (1Pe 5.3). Exercer autoridade legitimamente conferida não é usurpar autoridade.

E o destinatário

Timóteo estava em Éfeso, lidando com falsos mestres e com mulheres recém-saídas do paganismo, sem instrução nenhuma. O primeiro mandamento do parágrafo é notável e quase nunca citado: “a mulher aprenda”. Num mundo que negava educação às mulheres, isso já era uma revolução. Paulo não as está calando para sempre; está mandando que estudem antes de ensinar — o que ele exigiria de qualquer homem na mesma situação.

2“As mulheres fiquem caladas nas igrejas” (1Co 14.34-35)+

Três observações desmontam a leitura literal.

1. Nenhuma igreja aplica o texto ao pé da letra

Se aplicasse, não permitiria que as mulheres cantassem, porque cantar não é ficar calada; nem que orassem, pela mesma razão; nem que testemunhassem; nem que ensinassem na escola dominical, porque a declaração é geral; nem que escrevessem livros ou artigos religiosos, porque isso também é ensinar. Todos já concordam que estas palavras não devem ser tomadas literalmente — a discussão é só sobre onde parar.

2. O próprio Paulo já havia pressuposto o contrário

Três capítulos antes, na mesma carta, ele regula como a mulher deve se apresentar “ao orar ou profetizar” na assembleia (1Co 11.5). Não se legisla sobre o traje de quem está proibida de abrir a boca.

3. O assunto do capítulo é desordem, não gênero

1Coríntios 14 trata de confusão no culto: “Deus não é Deus de confusão” (v. 33). Ao homem também se ordena silêncio em certas circunstâncias — “se não houver intérprete, fique calado na igreja” (v. 28) —, e também aos profetas se exige sujeição: “os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas” (v. 32). Crisóstomo, comentando o versículo no século IV, entendeu exatamente assim: Paulo vinha contendo a perturbação das línguas e das profecias, e passou em seguida à desordem que vinha das conversas paralelas.

Repare ainda que Paulo não escreve “as mulheres” em termos gerais, mas “as vossas mulheres” — as daquela comunidade, contagiada por um espírito desordeiro que afetava homens e mulheres. A proibição era local e temporária.

3“Adão foi formado primeiro” — a ordem da criação (1Tm 2.13)+

Esta é a objeção mais forte, porque tenta ancorar a proibição fora da cultura. Quatro respostas.

1. A primogenitura não governa a Bíblia

Se ser formado primeiro conferisse autoridade permanente, o princípio deveria valer em toda a Escritura. Só que Deus o inverte sistematicamente: escolhe Isaque e não Ismael, Jacó e não Esaú, Judá e José e não Rúben, e Davi, o caçula de oito. A ordem de nascimento é justamente aquilo que Deus não trata como decisivo.

2. O argumento prova demais

Levado a sério, ele daria precedência aos animais, formados antes de Adão. E, se a anterioridade fundasse hierarquia permanente, Paulo teria de explicar por que ele mesmo escreve que “assim como a mulher veio do homem, também o homem nasce da mulher; e tudo vem de Deus” (1Co 11.12) — frase feita exatamente para impedir que alguém tire da ordem da criação uma conclusão de superioridade.

3. O parágrafo não está fundando um estatuto de ofício

Quem lê os versículos 13 e 14 como norma universal precisa ler o 15 do mesmo jeito, e aí terá de ensinar que a mulher se salva pela maternidade. Como ninguém ensina isso, todos já reconhecem que o parágrafo está fazendo outra coisa: respondendo a um problema concreto em Éfeso.

4. Gênesis não conhece essa hierarquia

No próprio relato da criação, a imagem de Deus e o mandato de dominar são dados aos dois (Gn 1.27-28), e a mulher é chamada “auxiliadora” com a mesma palavra que a Escritura aplica a Deus como socorro do seu povo (Sl 33.20). Auxiliar, ali, não é subordinar-se.

4“A mulher foi enganada” (1Tm 2.14)+

Se ter sido enganada desqualifica para o ensino, o princípio precisa valer parelho. Paulo teria de excluir do ministério toda a linhagem de Adão, que pecou de olhos abertos, sem sequer a desculpa do engano — e Paulo diz precisamente isso: “por um só homem entrou o pecado no mundo” (Rm 5.12). A responsabilidade que ele atribui à queda recai sobre Adão.

Além disso, a Escritura registra homens enganados em série — Aarão diante do bezerro, Salomão diante das mulheres estrangeiras, Pedro diante de uma criada — sem que ninguém proponha excluir os homens do ministério por isso.

A leitura mais coerente com o contexto é outra: em Éfeso havia mulheres sendo alvo e veículo de doutrina falsa, e Paulo recorre à figura de Eva como advertência viva. É pastoral, não ontológico. Ele nunca diz que a mulher é por natureza mais enganável; se dissesse, teria de explicar como confiou o ensino de Apolo a Priscila.

5“Jesus não escolheu nenhuma mulher entre os Doze”+

A pergunta tem uma resposta simétrica que costuma encerrar o assunto: se os gentios podem pregar, por que Jesus não escolheu nenhum gentio entre os Doze? Os doze eram judeus, todos eles. Se o exemplo obriga num caso, obriga no outro — e ninguém sustenta que o ministério seja privativo de judeus.

Os Doze correspondem às doze tribos de Israel; a escolha tem uma lógica de representação simbólica do novo povo de Deus, não de estabelecimento de requisitos permanentes de ofício.

E vale notar o silêncio inverso, que é significativo: em tudo o que já se escreveu contra o direito da mulher de ser ministra do Evangelho, jamais se citou uma única palavra de Jesus contra esse direito. Não existe. O que existe é o oposto — Jesus aplicou à mulher as mesmas exigências morais que ao homem, deixou Maria sentar-se aos seus pés na postura do discípulo (Lc 10.39), e confiou a uma mulher o primeiro anúncio da ressurreição.

6“O bispo deve ser marido de uma só mulher” (1Tm 3.2)+

A expressão visa a fidelidade conjugal num mundo de poligamia e concubinato, não o sexo do ministro. Lida como requisito de gênero, ela desqualificaria também todo homem solteiro e todo viúvo — e, na mesma lista, o requisito de “governar bem a própria casa, tendo os filhos sob submissão” excluiria os casais sem filhos.

O problema dessa leitura fica evidente no seu resultado: ela desqualificaria Paulo, que era solteiro e sem filhos, e Jesus, e Timóteo. Quando um método de interpretação exclui do ministério o autor do texto, o método é que precisa ser revisto.

Some-se que o grego usa formas masculinas como padrão genérico para listas desse tipo, exatamente como o português faz ao dizer “o candidato deve apresentar seus documentos” sem excluir candidatas.

7“A mulher deve ser submissa ao marido” (Ef 5.22)+

Aqui há uma confusão de planos: mesmo que a submissão conjugal fosse unilateral — e não é —, ela não diz nada sobre a autoridade de uma mulher numa congregação composta por homens e mulheres que não são o marido dela.

Mas o ponto principal é o versículo que abre o parágrafo e quase sempre fica de fora da citação: “sujeitando-se uns aos outros no temor de Cristo” (Ef 5.21). A submissão descrita ali é mútua, e é dentro dela que se explica o que o marido deve à esposa: entregar-se por ela como Cristo pela Igreja, o que é a exigência mais pesada do parágrafo.

No Reino, aliás, autoridade se define ao contrário do que se imagina. “Quem quiser tornar-se grande entre vocês seja o que serve” (Mt 20.26). O próprio Cristo lavou os pés dos discípulos e os chamou amigos. Onde há autoritarismo, o problema não é quem manda; é que ainda se está mandando do jeito errado.

8“São dezenove séculos de tradição contra isso”+

Concedo o fato, e ele merece peso. Mas peso não é veredito, e essa mesma igreja sustentou por séculos coisas que hoje ninguém defende.

A escravidão é o caso paralelo exato. A Igreja conviveu com ela, tolerou-a e chegou a sancioná-la durante a maior parte da sua história, usando textos bíblicos para isso. Foram os princípios da própria Escritura que, germinando, acabaram por derrubá-la — e o versículo decisivo foi o mesmo Gálatas 3.28. Quem aceita esse desfecho na segunda cláusula do versículo precisa explicar por que o rejeita na terceira.

Roberts localiza ainda quando e por que as portas se fecharam: à medida que os ministros assumiram prerrogativas sacerdotais, a mulher foi rebaixada; e, com a plena adoção do modelo levítico a partir do século IV, foi excluída de todo. A tradição contrária não vem dos apóstolos. Vem de uma clericalização que o Novo Testamento não conhece.

Vale lembrar também que a tradição não é unânime. Entre os Quacres, por mais de duzentos anos antes de Roberts escrever, a mulher teve os mesmos direitos que o homem. E o metodismo reconheceu pregadoras desde o século XVIII.

9“Isso é ceder ao espírito do século”+

Entendo a preocupação, e ela é legítima: a igreja realmente já dobrou o joelho a modas com roupagem de progresso. Só que a acusação não se aplica aqui, por duas razões.

A primeira é o método. No prefácio de Ordenando Mulheres, Roberts diz que evitou de propósito todo apelo ao sentimento e ao “espírito da época”, e fundamentou os seus argumentos principalmente na Palavra de Deus. Foi o que tentei fazer nesta aula: os argumentos são exegéticos e históricos, não sociológicos. Se estiverem errados, estarão errados por má leitura da Escritura — e é aí que devem ser refutados.

A segunda é a cronologia. Roberts publicou em 1891, quando nenhum “espírito da época” favorecia essa causa; ao contrário, ele perdeu a votação e morreu sem ver a mudança. Wesley reconheceu pregadoras no século XVIII. Não se trata de correr atrás do mundo; trata-se de uma convicção que o movimento wesleyano sustentou justamente quando o mundo pensava o contrário.

E o resultado não é diluição da fé, mas o seu contrário. Isto não é liberalismo; é libertação. “Se, pois, o Filho os libertar, verdadeiramente serão livres” (Jo 8.36).

Testemunho histórico

Uma convicção wesleyana, e antiga

O movimento wesleyano foi pioneiro na luta contra a escravidão e foi também o primeiro a reconhecer o ministério feminino. Não é novidade nossa; é herança.

c. 1761

Sarah Crosby

Numa reunião de classe em Derby aparecem duzentas pessoas em vez das poucas esperadas. Sarah Crosby fala a todas e depois escreve a Wesley, aflita, perguntando se havia errado. Wesley não a repreende: orienta-a a continuar, com prudência.

1771

Wesley e Mary Bosanquet

Mary Bosanquet escreve a Wesley defendendo por escrito o direito de pregar. A resposta dele, de 13 de junho de 1771, é o marco: Wesley reconhece que ela tem um chamado extraordinário — exatamente a categoria com que justificava os seus pregadores leigos, que também não eram ordenados pela Igreja da Inglaterra. Ou seja: onde Deus evidentemente chama, a regra ordinária cede.

1787

Sarah Mallet

Wesley autoriza formalmente Sarah Mallet a pregar nas sociedades metodistas, desde que pregue a doutrina e observe a disciplina do movimento — as mesmas condições exigidas de qualquer pregador.

1860

Nasce a Igreja Metodista Livre

B. T. Roberts funda a IMeL em torno de um conjunto de liberdades: livre do escravismo, livre dos bancos alugados que separavam ricos e pobres no culto, livre para a ação do Espírito. A lógica que abriu os bancos é a mesma que abriria o púlpito.

1890

A derrota

No Concílio Geral, a proposta de ordenar mulheres é rejeitada por 41 votos a 37. Quatro votos.

1891

Ordenando Mulheres

Roberts responde à derrota com um livro inteiro. Dezessete capítulos de exegese, história e argumento, que se encerram com a tese que ele queria ver aprovada: “a nenhuma pessoa evidentemente chamada por Deus para o ministério do Evangelho, e devidamente qualificada para ele, deve ser recusada a ordenação por causa de raça, condição ou sexo”.

1893

Ele morre sem ver

Roberts falece dois anos depois da publicação, sem que a igreja que fundou tivesse mudado de posição.

1974

A igreja alcança o seu fundador

Oitenta e quatro anos depois daquela votação, a Igreja Metodista Livre aprova a ordenação plena de mulheres. Roberts estava certo; só estava adiantado.

Sobre demorar tanto. Não é confortável reconhecer que a nossa própria igreja levou quase um século para aceitar o que o seu fundador havia demonstrado pela Escritura. Mas registrar isso faz parte da honestidade da aula — e serve de advertência. O preconceito costuma chegar antes da exegese e depois se vestir com ela.

O livro completo está no site: Ordenando Mulheres, de B. T. Roberts (1891), com os dezessete capítulos e o prefácio do autor.

A minha posição

Onde eu fico

Não ordenamos mulheres porque os tempos mudaram, mas porque o Espírito continua chamando quem quer — e a Igreja não tem autoridade para recusar o reconhecimento a quem Deus já ungiu.

Diante da evidência exegética e do testemunho da igreja apostólica, defendo o ministério feminino com convicção, inclusive no seu ponto mais disputado: a ordenação pastoral e o exercício de autoridade na igreja local, no concílio e na conferência.

As mulheres representam hoje a maior parte da membresia ativa das nossas igrejas. Não devem ser caladas nem confinadas a um papel secundário. Devem ser reconhecidas e valorizadas como iguais, encorajadas a assumir o seu posto e a sua vocação lado a lado com os homens, em condições de igualdade.

O que a nossa disciplina já diz

E o que esta posição NÃO afirma

1

Não é desprezo pelos textos difíceis

1Timóteo 2 e 1Coríntios 14 são Escritura, e não os descartamos. Sustentamos que devem ser lidos no contexto em que foram escritos e em harmonia com o restante da Bíblia — o mesmo critério que todos já aplicam quando permitem que a mulher cante, ore e ensine crianças.

2

Não é dizer que toda mulher é chamada

Ordenar não é um direito de ninguém, homem ou mulher. É o reconhecimento de um chamado que precisa ser examinado, provado e confirmado pela igreja, com os mesmos critérios de dom, graça, doutrina e caráter exigidos de qualquer candidato.

3

Não é apagar as diferenças

Homem e mulher não são intercambiáveis, e a igualdade de que falamos não é uniformidade. É igualdade de valor, de acesso e de responsabilidade diante do mesmo Senhor.

4

Não é romper com quem discorda

Há irmãos fiéis, tementes a Deus e sérios no estudo da Escritura, que leem estes textos de outro modo. Defendo a minha posição com firmeza e os recebo como irmãos. “No essencial, unidade; no não essencial, liberdade; em tudo, caridade.”

Da doutrina à igreja local

Aplicação e diretrizes pastorais

Doutrina que não muda a prática vira ornamento. Se o que foi dito acima é verdade, algumas coisas precisam mudar na segunda-feira.

Chamar pelo nome do ofício

Quem foi ordenada é pastora, e deve ser tratada assim — no boletim, no convite, na apresentação do púlpito e na assinatura dos documentos. Meio-termo de linguagem é meio-termo de reconhecimento.

Abrir o púlpito, não só o corredor lateral

Ministério feminino não é o trabalho com crianças e com outras mulheres, embora também o seja. Se ela prega, que pregue no culto principal. Se ensina, que ensine a igreja inteira.

Discernir e provar cedo

A igreja local é o lugar onde o chamado aparece primeiro. Pastores e juntas devem procurar ativamente as mulheres com dom evidente, dar-lhes oportunidade real de exercício, custear formação e encaminhá-las ao processo ministerial — em vez de esperar que elas insistam sozinhas contra a corrente.

Cuidar da remuneração e da carga

Igualdade que não chega ao orçamento não é igualdade. Mesma função, mesmos critérios de sustento, mesmas condições de trabalho e de descanso.

Ensinar a congregação

Muita resistência não é convicção teológica; é hábito. Uma série de estudos, uma classe de escola dominical e a leitura conjunta de Roberts resolvem boa parte do desconforto — porque a maioria das pessoas nunca ouviu os argumentos, só a conclusão.

Corrigir o autoritarismo, de qualquer lado

Nada do que se disse aqui autoriza o domínio de ninguém sobre ninguém. A regra continua sendo a sujeição mútua (Ef 5.21) e o serviço (Mt 20.26). No Reino de Deus não há lugar para autoritarismo — nem masculino, nem feminino.

Há uma cena que se repete em muitas das nossas igrejas: uma mulher com dom evidente, que ensina melhor do que a maioria, ocupada há vinte anos em tarefas que ninguém mais quer fazer, sem que jamais lhe tenham perguntado se Deus a chamou. Não é preciso hostilidade para produzir isso. Basta o silêncio. E o silêncio, nessa altura, já é uma resposta — só que é a resposta errada.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Na sua igreja local, quantas mulheres com dom evidente de ensino nunca foram sequer perguntadas se Deus as chamou?Ver resposta sugerida
Esta é a pergunta que separa a convicção declarada da convicção praticada. Quase nenhuma igreja hoje afirma em voz alta que a mulher não pode ministrar; muitas, porém, nunca perguntaram a nenhuma delas. O resultado prático é o mesmo da proibição — só que sem o custo de assumi-la.

Uma providência simples e verificável: fazer a pergunta. O pastor e a junta local listam nominalmente as mulheres da congregação com dom reconhecido de ensino, pregação ou liderança; procuram cada uma; oferecem oportunidade real de exercício no culto principal; e, onde houver chamado, encaminham ao processo ministerial com o mesmo cuidado e o mesmo custeio que se daria a um homem. Sem isso, continuamos afirmando no papel aquilo que negamos na agenda.

E vale ouvir o que elas responderem, inclusive quando a resposta for “ninguém nunca me disse que isso era possível”.

Um irmão sincero diz: “vocês colocam a cultura acima da Bíblia”. Como responder com mansidão?Ver resposta sugerida
Comece concordando com o que há de verdadeiro na preocupação dele: a Escritura é a nossa autoridade, e uma igreja que ajusta a doutrina ao gosto da época se perde. Nós afirmamos isso tanto quanto ele.

Depois, mova a conversa para o terreno certo, que é exegético. Pergunte, sem ironia, como ele lê o restante do mesmo parágrafo de 1Timóteo 2 — o ouro, as tranças, o vestuário, as mãos erguidas do versículo 8, a salvação pela maternidade do versículo 15. Não é armadilha: é mostrar que todos nós já interpretamos aquele texto no seu contexto, e que a discussão é sobre onde parar, não sobre respeitar ou não a Bíblia.

Some a isso o que o Novo Testamento registra: mulheres profetizando na assembleia (1Co 11.5), Priscila ensinando Apolo (At 18.26), Febe chamada diakonos (Rm 16.1), Júnia “notável entre os apóstolos” (Rm 16.7), e a promessa de Joel citada em Pentecostes sobre as filhas e as servas (At 2.17-18).

E termine onde Roberts terminou, lembrando que ele escreveu em 1891, contra o espírito da sua época, e perdeu. Se isto fosse modismo, teria nascido com o modismo. Nasceu antes. Defenda a sua posição com firmeza e receba o irmão como irmão.

Para casa

Tarefas

Ler Rm 16.1-16, Jl 2.28-29 e 1Tm 2.8-15 (NAA), anotando em duas colunas o que cada texto afirma sobre o que as mulheres faziam e o que lhes era pedido; e preparar, em meia página, a resposta que você daria a um membro que pergunta por que a nossa igreja ordena mulheres.

Leitura recomendada

Os dezessete capítulos de Ordenando Mulheres, de B. T. Roberts (1891), estão publicados na íntegra no site. Comece pelo prefácio do autor e pelo capítulo 6, que responde às objeções tiradas do Novo Testamento.

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Bispo Ildo Mello