História da IgrejaAula 5

Monges e missionários: a fé alcança os povos

“E o que você ouviu de mim diante de muitas testemunhas, confie a homens fiéis, que sejam também capazes de instruir outros.”2 Timóteo 2.2 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Mt 28.18-20; 2Tm 2.1-7; Jr 29.4-7

Para começar

Quando o mundo caiu, a igreja ficou de pé

O que aconteceu com a igreja quando o Império Romano do Ocidente desmoronou? Quem levou o evangelho aos povos que os romanos chamavam de bárbaros? O que os mosteiros têm a ver com o fato de a Bíblia ter chegado até nós?

O que esta aula cobre. Três séculos e meio, de 451 a 800: o período em que morreu um mundo e a igreja pariu outro. Em 476, o último imperador romano do Ocidente foi deposto, e, no meio das ruínas, a igreja tornou-se uma das poucas instituições capazes de sobreviver com presença em toda parte.

Os bispos se tornaram, à força das circunstâncias, defensores das cidades e administradores da misericórdia. A cena que simboliza a época ocorreu em 452, quando o bispo de Roma, Leão Magno, saiu desarmado ao encontro de Átila, rei dos hunos, e o persuadiu a poupar a cidade. Havia perigo espiritual nisso (a igreja assumindo funções de Estado, o bispo de Roma acumulando poder), mas é preciso fazer justiça: naquele colapso, foi a igreja que alfabetizou, arbitrou, alimentou e manteve acesa a memória da civilização.

Situando-se na história

Linha do tempo (451-800)

452

Leão e Átila

O bispo de Roma sai desarmado ao encontro do rei dos hunos e o persuade a poupar a cidade.

476

Queda de Roma

O último imperador do Ocidente é deposto. O império se desfaz em reinos bárbaros; a igreja fica de pé.

c. 432-461

Patrício na Irlanda

O ex-escravo volta como missionário ao povo que o escravizara. A Irlanda convertida vira base missionária do Ocidente.

529

Monte Cassino

Bento de Núrsia funda o mosteiro e escreve sua Regra: oração, trabalho e Escritura. Ora et labora.

590-604

Gregório Magno

O melhor homem que ocupou a sé romana: reforma o clero, escreve a Regra Pastoral e envia a missão à Inglaterra (597).

622-732

Ascensão do Islã

Da Hégira à batalha de Poitiers: Síria, Palestina, Egito, norte da África e Espanha passam ao domínio islâmico.

716-754

Bonifácio

O monge inglês evangeliza os germanos, derruba o carvalho de Thor e morre mártir segurando um livro dos evangelhos.

800

Carlos Magno

Coroado imperador pelo papa no Natal. Nasce a cristandade medieval, tema da próxima aula.

Parte 1

Os monges: uma reação de radicalidade

O monasticismo nascera no Egito do século terceiro, quando homens como Antão venderam tudo (Mt 19.21) e partiram para o deserto em busca de uma vida de oração. Não por acaso, o movimento explodiu justamente quando a perseguição acabou: com a igreja cheia de convertidos por conveniência, os mais sérios buscaram no deserto a radicalidade que o batismo em massa havia diluído.

O monasticismo foi, em sua raiz, um protesto de santidade contra o cristianismo nominal. No Ocidente, quem deu forma duradoura ao movimento foi Bento de Núrsia (c. 480-547). Sua Regra, escrita para o mosteiro de Monte Cassino, é um manual de sabedoria prática e equilíbrio: nada de heroísmos ascéticos, mas um dia ordenado por oração comunitária, trabalho manual e leitura da Escritura, sob um abade que deve ser mais pai que juiz. O lema que resume a vida beneditina: ora et labora, ora e trabalha.

Parte 2

Os missionários: a fé alcança os povos

A obra mais gloriosa desse período foi missionária, e ela partiu quase toda dos mosteiros.

Patrício (c. 389-461)

Sequestrado adolescente por piratas irlandeses e escravizado seis anos na Irlanda, onde aprendeu a orar. Fugiu, voltou à Britânia, e então Deus fez o inimaginável: chamou-o a voltar, como missionário, ao povo que o escravizara. A Irlanda convertida tornou-se, por dois séculos, a grande base missionária do Ocidente. Dela saiu Columba (563) para fundar em Iona a comunidade que evangelizaria a Escócia.

Agostinho de Cantuária (597)

Enviado por Gregório Magno com quarenta companheiros para evangelizar os anglo-saxões da Inglaterra. As instruções de Gregório impressionam pela sensibilidade: não destruir os templos, mas consagrá-los; não arrancar de uma vez os costumes do povo, mas conduzi-lo passo a passo.

Bonifácio (c. 675-754)

Um século depois, a Inglaterra evangelizada retribuiu: o monge inglês tornou-se o apóstolo dos povos germânicos, derrubou o carvalho sagrado de Thor diante da multidão atônita e morreu mártir, aos quase oitenta anos, segurando um livro dos evangelhos diante da espada.

Guarde o padrão, porque ele é bíblico e permanente: o evangelho avança quando alcançados se tornam alcançadores. A Britânia evangelizou Patrício, Patrício evangelizou a Irlanda, a Irlanda evangelizou a Escócia, Roma evangelizou a Inglaterra, a Inglaterra evangelizou a Alemanha. É a corrente de 2Tm 2.2 operando entre nações inteiras.

Parte 3

Gregório Magno e o papado nascente

Gregório (540-604), o bispo de Roma que enviou a missão à Inglaterra, merece parada à parte. Monge que não queria o cargo, assumiu uma Roma faminta e sitiada, organizou o abastecimento, negociou com os lombardos, reformou o clero e escreveu a Regra Pastoral, manual sobre o cuidado de almas que serviu de espelho para pastores por mil anos.

Chamava a si mesmo “servo dos servos de Deus” e repreendeu por escrito o patriarca de Constantinopla por usar o título de “bispo universal”, que Gregório considerava anticristão.

Parte 4

O desafio do Islã

Em 622, enquanto monges copiavam salmos na Europa, Maomé migrava de Meca para Medina. Um século depois, seus seguidores haviam conquistado a Síria, a Palestina, o Egito, todo o norte da África e a Espanha.

As terras de Agostinho, Cipriano e Atanásio, o coração intelectual do cristianismo antigo, passaram ao domínio islâmico; as igrejas que restaram viraram minorias toleradas mediante tributo, e minguaram ao longo dos séculos. Em 732, Carlos Martel derrotou uma força omíada perto de Poitiers, episódio que a memória europeia transformaria em símbolo da contenção do avanço na Europa Ocidental. O conjunto dessas perdas foi o maior recuo territorial da história do cristianismo.

Fatores do colapso no norte da África

Igrejas divididas por cismas intermináveis (donatistas e católicos ainda se digladiavam) e pouco enraizadas nas línguas dos povos locais caíram e não se levantaram.

Fatores da sobrevivência no Egito

A igreja copta, enraizada no povo e na língua local, sobreviveu sob pressão até hoje. A lição é séria: igreja dividida e sem raiz no povo não resiste à tempestade.

E fique o alerta que os cruzados esqueceriam depois: a espada não é resposta cristã ao Islã; o testemunho, o amor e a paciência dos mártires são (Mt 26.52).

Fontes primárias

Vozes do período

A ponte wesleyana

Wesley, o “método” e a santidade social

Pode parecer distante do metodismo uma aula sobre monges, mas a conexão é íntima. O apelido “metodista” nasceu como zombaria aos jovens do Clube Santo de Oxford, que viviam por regra e método: horários de oração, leitura bíblica, jejum às quartas e sextas (herança direta da igreja antiga), visita a presos e pobres.

Wesley bebeu conscientemente da literatura de santidade que os mosteiros preservaram, e as sociedades, classes e bandas metodistas foram, em certo sentido, o que a Regra de Bento tentou ser: estrutura comunitária a serviço da santidade, disciplina como leito por onde corre a graça.

Da história para a vida

Aplicação pastoral

1

Sem pânico nas crises

Quando as instituições ruíram, os cristãos daquela época enterraram mortos, alimentaram famintos, ensinaram crianças e copiaram Escrituras. Crises de civilização são, para a igreja fiel, oportunidades de serviço em escala inédita (Jr 29.7).

2

Disciplina é canal de graça

Um povo sem regra de oração, leitura e jejum não resiste ao próprio século. Vale perguntar sem rodeios: qual é a sua regra? Que horários, leituras e práticas sustentam concretamente a sua comunhão com Deus?

3

Alcançados que alcançam

Patrício voltou como missionário à terra da sua escravidão; a Inglaterra recém-evangelizada enviou Bonifácio. A igreja brasileira, evangelizada por missionários de fora, deve o evangelho a quem ainda não o tem: a IMeL precisa formar e enviar, não apenas receber.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o conteúdo. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Dez questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe: errar aqui também ensina.

0 de 10 respondidas

Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

“Qual é a sua regra?” Monges tinham horários de oração, trabalho e Escritura; os primeiros metodistas também. Desenhe, por escrito, uma regra de vida realista para a sua semana atual, e identifique o que hoje a impede.Ver resposta sugerida
Uma regra realista tem três marcas: é concreta (dia, hora, lugar, prática), é possível (começa pequeno: quinze minutos valem mais que uma hora imaginária) e é prestável (alguém sabe dela e pergunta por ela, como nas classes metodistas). Um esqueleto testado: oração ao acordar e ao deitar; leitura bíblica diária com plano definido (não ao acaso); um jejum semanal simples; culto e comunhão dominical inegociáveis; um serviço concreto ao próximo por semana. Os impedimentos costumam ser dois, e convém nomeá-los sem piedade: a tela (o tempo existe, está indo para o celular) e o mito da espontaneidade (esperar “vontade” para orar é como esperar vontade para trabalhar; disciplina é o leito por onde a graça corre). Escreva a regra, mostre a alguém, revise em um mês. O que não vira calendário não vira vida.
Um jovem da igreja diz: “quero servir a Deus de verdade, então vou me isolar do mundo: sair das redes, dos amigos não crentes, talvez até do trabalho”. À luz do monasticismo e da correção wesleyana, como orientá-lo?Ver resposta sugerida
Primeiro, honre o impulso: o desejo de radicalidade é precioso e raro, e foi ele que gerou o melhor do monasticismo. Não o apague; direcione-o. Depois, apresente a correção de Wesley: não há santidade senão santidade social; o cristianismo solitário se destrói, porque o amor, que é a essência da santidade, precisa de próximo (1Jo 4.20). Jesus orou explicitamente: “não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal” (Jo 17.15). O caminho prático une as duas coisas: retiros e disciplinas fortes (o momento monástico) a serviço de uma presença mais intensa no mundo (o momento missionário). Quanto a cortes, há podas legítimas e temporárias (um jejum de redes, o fim de amizades que arrastam para o pecado, cf. 1Co 15.33), mas fuga permanente do mundo é deserção do posto. A pergunta que organiza tudo: essa renúncia me aproxima das pessoas que Deus quer alcançar através de mim, ou me esconde delas?

Para casa e próxima aula

Para aprofundar. Leia Mateus 28.18-20 e 2 Timóteo 2 com as Notas de John Wesley sobre o Novo Testamento. A Confissão de São Patrício é curta, devocional e está em domínio público.

Na próxima aula: “A cristandade medieval e o cisma entre Oriente e Ocidente (800-1200)”: Carlos Magno, o Grande Cisma de 1054, as Cruzadas e as luzes que Deus manteve acesas.

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. Trechos de fontes históricas traduzidos dos originais em domínio público com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.