O que aconteceu com a igreja quando o Império Romano do Ocidente desmoronou? Quem levou o evangelho aos povos que os romanos chamavam de bárbaros? O que os mosteiros têm a ver com o fato de a Bíblia ter chegado até nós?
O que esta aula cobre. Três séculos e meio, de 451 a 800: o período em que morreu um mundo e a igreja pariu outro. Em 476, o último imperador romano do Ocidente foi deposto, e, no meio das ruínas, a igreja tornou-se uma das poucas instituições capazes de sobreviver com presença em toda parte.
Os bispos se tornaram, à força das circunstâncias, defensores das cidades e administradores da misericórdia. A cena que simboliza a época ocorreu em 452, quando o bispo de Roma, Leão Magno, saiu desarmado ao encontro de Átila, rei dos hunos, e o persuadiu a poupar a cidade. Havia perigo espiritual nisso (a igreja assumindo funções de Estado, o bispo de Roma acumulando poder), mas é preciso fazer justiça: naquele colapso, foi a igreja que alfabetizou, arbitrou, alimentou e manteve acesa a memória da civilização.
Situando-se na história
Linha do tempo (451-800)
452
Leão e Átila
O bispo de Roma sai desarmado ao encontro do rei dos hunos e o persuade a poupar a cidade.
476
Queda de Roma
O último imperador do Ocidente é deposto. O império se desfaz em reinos bárbaros; a igreja fica de pé.
c. 432-461
Patrício na Irlanda
O ex-escravo volta como missionário ao povo que o escravizara. A Irlanda convertida vira base missionária do Ocidente.
529
Monte Cassino
Bento de Núrsia funda o mosteiro e escreve sua Regra: oração, trabalho e Escritura. Ora et labora.
590-604
Gregório Magno
O melhor homem que ocupou a sé romana: reforma o clero, escreve a Regra Pastoral e envia a missão à Inglaterra (597).
622-732
Ascensão do Islã
Da Hégira à batalha de Poitiers: Síria, Palestina, Egito, norte da África e Espanha passam ao domínio islâmico.
716-754
Bonifácio
O monge inglês evangeliza os germanos, derruba o carvalho de Thor e morre mártir segurando um livro dos evangelhos.
800
Carlos Magno
Coroado imperador pelo papa no Natal. Nasce a cristandade medieval, tema da próxima aula.
Parte 1
Os monges: uma reação de radicalidade
O monasticismo nascera no Egito do século terceiro, quando homens como Antão venderam tudo (Mt 19.21) e partiram para o deserto em busca de uma vida de oração. Não por acaso, o movimento explodiu justamente quando a perseguição acabou: com a igreja cheia de convertidos por conveniência, os mais sérios buscaram no deserto a radicalidade que o batismo em massa havia diluído.
O monasticismo foi, em sua raiz, um protesto de santidade contra o cristianismo nominal. No Ocidente, quem deu forma duradoura ao movimento foi Bento de Núrsia (c. 480-547). Sua Regra, escrita para o mosteiro de Monte Cassino, é um manual de sabedoria prática e equilíbrio: nada de heroísmos ascéticos, mas um dia ordenado por oração comunitária, trabalho manual e leitura da Escritura, sob um abade que deve ser mais pai que juiz. O lema que resume a vida beneditina: ora et labora, ora e trabalha.
Meça a dívida que temos com esses homens: nos séculos em que a Europa mal sabia ler, foram os copistas dos mosteiros que preservaram, letra por letra, as Escrituras latinas e grande parte da literatura cristã antiga no Ocidente (na longa transmissão do texto bíblico somam-se a eles os escribas judeus e os copistas do Oriente cristão). Os mosteiros foram também as escolas, os hospitais, as pousadas e os celeiros experimentais da época. O ideal tinha seus desvios (a fuga do mundo pode virar fuga da missão), mas negar sua contribuição seria ingratidão histórica.
Parte 2
Os missionários: a fé alcança os povos
A obra mais gloriosa desse período foi missionária, e ela partiu quase toda dos mosteiros.
Patrício (c. 389-461)
Sequestrado adolescente por piratas irlandeses e escravizado seis anos na Irlanda, onde aprendeu a orar. Fugiu, voltou à Britânia, e então Deus fez o inimaginável: chamou-o a voltar, como missionário, ao povo que o escravizara. A Irlanda convertida tornou-se, por dois séculos, a grande base missionária do Ocidente. Dela saiu Columba (563) para fundar em Iona a comunidade que evangelizaria a Escócia.
Agostinho de Cantuária (597)
Enviado por Gregório Magno com quarenta companheiros para evangelizar os anglo-saxões da Inglaterra. As instruções de Gregório impressionam pela sensibilidade: não destruir os templos, mas consagrá-los; não arrancar de uma vez os costumes do povo, mas conduzi-lo passo a passo.
Bonifácio (c. 675-754)
Um século depois, a Inglaterra evangelizada retribuiu: o monge inglês tornou-se o apóstolo dos povos germânicos, derrubou o carvalho sagrado de Thor diante da multidão atônita e morreu mártir, aos quase oitenta anos, segurando um livro dos evangelhos diante da espada.
Guarde o padrão, porque ele é bíblico e permanente: o evangelho avança quando alcançados se tornam alcançadores. A Britânia evangelizou Patrício, Patrício evangelizou a Irlanda, a Irlanda evangelizou a Escócia, Roma evangelizou a Inglaterra, a Inglaterra evangelizou a Alemanha. É a corrente de 2Tm 2.2 operando entre nações inteiras.
Parte 3
Gregório Magno e o papado nascente
Gregório (540-604), o bispo de Roma que enviou a missão à Inglaterra, merece parada à parte. Monge que não queria o cargo, assumiu uma Roma faminta e sitiada, organizou o abastecimento, negociou com os lombardos, reformou o clero e escreveu a Regra Pastoral, manual sobre o cuidado de almas que serviu de espelho para pastores por mil anos.
Chamava a si mesmo “servo dos servos de Deus” e repreendeu por escrito o patriarca de Constantinopla por usar o título de “bispo universal”, que Gregório considerava anticristão.
Sou franco na avaliação: Gregório foi um dos bispos de Roma mais dignos e pastoralmente influentes da história, e sua época marca ao mesmo tempo a consolidação de uma instituição, o papado medieval, que concentraria progressivamente poderes que o Novo Testamento jamais atribuiu a um único bispo (1Pe 5.1-4; Mt 23.8-12). A história seguinte mostrará esse poder crescendo, corrompendo-se e, por fim, provocando os clamores de reforma que estudaremos nas aulas 7 e 8.
Parte 4
O desafio do Islã
Em 622, enquanto monges copiavam salmos na Europa, Maomé migrava de Meca para Medina. Um século depois, seus seguidores haviam conquistado a Síria, a Palestina, o Egito, todo o norte da África e a Espanha.
As terras de Agostinho, Cipriano e Atanásio, o coração intelectual do cristianismo antigo, passaram ao domínio islâmico; as igrejas que restaram viraram minorias toleradas mediante tributo, e minguaram ao longo dos séculos. Em 732, Carlos Martel derrotou uma força omíada perto de Poitiers, episódio que a memória europeia transformaria em símbolo da contenção do avanço na Europa Ocidental. O conjunto dessas perdas foi o maior recuo territorial da história do cristianismo.
Fatores do colapso no norte da África
Igrejas divididas por cismas intermináveis (donatistas e católicos ainda se digladiavam) e pouco enraizadas nas línguas dos povos locais caíram e não se levantaram.
Fatores da sobrevivência no Egito
A igreja copta, enraizada no povo e na língua local, sobreviveu sob pressão até hoje. A lição é séria: igreja dividida e sem raiz no povo não resiste à tempestade.
E fique o alerta que os cruzados esqueceriam depois: a espada não é resposta cristã ao Islã; o testemunho, o amor e a paciência dos mártires são (Mt 26.52).
Fontes primárias
Vozes do período
Regra de São Bento · Prólogo · c. 530
As primeiras palavras da Regra
“Escuta, filho, os preceitos do mestre e inclina o ouvido do teu coração; acolhe de bom grado a exortação de um pai amoroso e cumpre-a com eficácia, para que voltes, pelo labor da obediência, àquele de quem te afastaste pela desídia da desobediência.”
Confissão de Patrício · séc. V
Patrício, sobre si mesmo
“Eu, Patrício, pecador, o mais rústico e o menor de todos os fiéis, e desprezível aos olhos de muitos, tive por pai o diácono Calpúrnio. […] Tinha eu então dezesseis anos. Não conhecia o verdadeiro Deus, e fui levado cativo para a Irlanda com muitos milhares de pessoas, conforme merecíamos, porque nos havíamos afastado de Deus e não guardávamos os seus preceitos.”
Regra Pastoral 2.1 · c. 590
Gregório Magno, sobre o pastor de almas
“O guia das almas seja puro no pensamento, exemplar na ação, discreto no silêncio, útil na palavra, próximo de cada um pela compaixão e, mais que todos, dado à contemplação; companheiro humilde dos que fazem o bem e firme, pelo zelo da justiça, contra os vícios dos que pecam.”
A ponte wesleyana
Wesley, o “método” e a santidade social
Pode parecer distante do metodismo uma aula sobre monges, mas a conexão é íntima. O apelido “metodista” nasceu como zombaria aos jovens do Clube Santo de Oxford, que viviam por regra e método: horários de oração, leitura bíblica, jejum às quartas e sextas (herança direta da igreja antiga), visita a presos e pobres.
Wesley bebeu conscientemente da literatura de santidade que os mosteiros preservaram, e as sociedades, classes e bandas metodistas foram, em certo sentido, o que a Regra de Bento tentou ser: estrutura comunitária a serviço da santidade, disciplina como leito por onde corre a graça.
Mas Wesley corrigiu o desvio monástico num ponto decisivo, na fórmula famosa do prefácio dos hinos de 1739: o cristianismo é essencialmente uma religião social; transformá-lo em religião solitária é destruí-lo. Não há santidade senão santidade social. A santidade wesleyana não foge do mundo para o claustro; entra no mundo, prega ao ar livre, visita o cortiço e a mina. É a síntese desta aula: a seriedade do monge com a direção do missionário.
Da história para a vida
Aplicação pastoral
1
Sem pânico nas crises
Quando as instituições ruíram, os cristãos daquela época enterraram mortos, alimentaram famintos, ensinaram crianças e copiaram Escrituras. Crises de civilização são, para a igreja fiel, oportunidades de serviço em escala inédita (Jr 29.7).
2
Disciplina é canal de graça
Um povo sem regra de oração, leitura e jejum não resiste ao próprio século. Vale perguntar sem rodeios: qual é a sua regra? Que horários, leituras e práticas sustentam concretamente a sua comunhão com Deus?
3
Alcançados que alcançam
Patrício voltou como missionário à terra da sua escravidão; a Inglaterra recém-evangelizada enviou Bonifácio. A igreja brasileira, evangelizada por missionários de fora, deve o evangelho a quem ainda não o tem: a IMeL precisa formar e enviar, não apenas receber.
Fixação
Cartões de memorização
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Avaliação
Teste o que você aprendeu
Dez questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe: errar aqui também ensina.
0 de 10 respondidas
Para pensar e conversar
Perguntas para reflexão
“Qual é a sua regra?” Monges tinham horários de oração, trabalho e Escritura; os primeiros metodistas também. Desenhe, por escrito, uma regra de vida realista para a sua semana atual, e identifique o que hoje a impede.Ver resposta sugerida
Uma regra realista tem três marcas: é concreta (dia, hora, lugar, prática), é possível (começa pequeno: quinze minutos valem mais que uma hora imaginária) e é prestável (alguém sabe dela e pergunta por ela, como nas classes metodistas). Um esqueleto testado: oração ao acordar e ao deitar; leitura bíblica diária com plano definido (não ao acaso); um jejum semanal simples; culto e comunhão dominical inegociáveis; um serviço concreto ao próximo por semana. Os impedimentos costumam ser dois, e convém nomeá-los sem piedade: a tela (o tempo existe, está indo para o celular) e o mito da espontaneidade (esperar “vontade” para orar é como esperar vontade para trabalhar; disciplina é o leito por onde a graça corre). Escreva a regra, mostre a alguém, revise em um mês. O que não vira calendário não vira vida.
Um jovem da igreja diz: “quero servir a Deus de verdade, então vou me isolar do mundo: sair das redes, dos amigos não crentes, talvez até do trabalho”. À luz do monasticismo e da correção wesleyana, como orientá-lo?Ver resposta sugerida
Primeiro, honre o impulso: o desejo de radicalidade é precioso e raro, e foi ele que gerou o melhor do monasticismo. Não o apague; direcione-o. Depois, apresente a correção de Wesley: não há santidade senão santidade social; o cristianismo solitário se destrói, porque o amor, que é a essência da santidade, precisa de próximo (1Jo 4.20). Jesus orou explicitamente: “não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal” (Jo 17.15). O caminho prático une as duas coisas: retiros e disciplinas fortes (o momento monástico) a serviço de uma presença mais intensa no mundo (o momento missionário). Quanto a cortes, há podas legítimas e temporárias (um jejum de redes, o fim de amizades que arrastam para o pecado, cf. 1Co 15.33), mas fuga permanente do mundo é deserção do posto. A pergunta que organiza tudo: essa renúncia me aproxima das pessoas que Deus quer alcançar através de mim, ou me esconde delas?
Para casa e próxima aula
Para aprofundar. Leia Mateus 28.18-20 e 2 Timóteo 2 com as Notas de John Wesley sobre o Novo Testamento. A Confissão de São Patrício é curta, devocional e está em domínio público.
Na próxima aula: “A cristandade medieval e o cisma entre Oriente e Ocidente (800-1200)”: Carlos Magno, o Grande Cisma de 1054, as Cruzadas e as luzes que Deus manteve acesas.
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. Trechos de fontes históricas traduzidos dos originais em domínio público com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.