Três homens, uma trilha
Um mercador de Lyon, um professor de Oxford e um pregador de Praga chegaram, separados por séculos e países, às mesmas conclusões. Por quê?
“E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará.”João 8.32 · NAA
Para começar
A Reforma Protestante caiu do céu em 1517, ou Deus vinha preparando o terreno há séculos? Quem foram os homens que, muito antes de Lutero, pregaram a autoridade suprema da Escritura e a Bíblia na língua do povo, e o que lhes custou isso?
Um mercador de Lyon, um professor de Oxford e um pregador de Praga chegaram, separados por séculos e países, às mesmas conclusões. Por quê?
Que fio liga um mártir tcheco queimado em 1415 ao coração “estranhamente aquecido” de John Wesley em 1738? A resposta fecha esta aula.
O que esta aula cobre. Os três últimos séculos medievais, de 1200 a 1500, quando a cristandade atingiu ao mesmo tempo seu esplendor intelectual e sua decadência espiritual, e Deus acendeu as luzes que anunciavam a alvorada.
Situando-se na história
c. 1173
O mercador de Lyon vende tudo (Mt 19.21), paga traduções da Escritura e sai a pregar. Nascem os valdenses.
1215
Formaliza o dogma da transubstanciação e consolida o sistema penitencial medieval, em cujos abusos posteriores estará um dos estopins da Reforma.
1309-1417
Setenta anos de papado sob a coroa francesa; depois, dois e até três “papas” excomungando-se. A Europa pergunta: onde está a verdadeira igreja?
c. 1382
Do círculo de Wycliffe sai a primeira Bíblia completa em inglês, espalhada pelos pregadores lolardos.
1415
Com salvo-conduto anulado, Jan Hus é queimado vivo, morrendo a cantar. Da sua semente nascerá a Unidade dos Irmãos (1457).
c. 1455
A Bíblia impressa com tipos móveis: ideias agora se multiplicam mais rápido do que fogueiras podem queimá-las.
1453
Sábios gregos fogem ao Ocidente com manuscritos; o humanismo grita “ad fontes”, de volta às fontes.
1498
O frade que pregou arrependimento contra a corrupção de Florença e do papa sobe à fogueira. O sistema já não suporta seus próprios profetas.
Parte 1
O século 13 foi o meio-dia da cristandade. As universidades fervilhavam; as catedrais góticas subiam; Tomás de Aquino (1225-1274) erguia na Suma Teológica a mais ambiciosa síntese entre fé e razão já tentada; e Francisco de Assis (1182-1226) redescobria a pobreza evangélica, devolvendo à cristandade opulenta a imagem esquecida do Cristo pobre.
Mas embaixo do esplendor, a estrutura rachava. Em 1215, o IV Concílio de Latrão formalizou o dogma da transubstanciação. Paralelamente, desenvolveram-se ao longo da Idade Média o sistema penitencial e a doutrina das indulgências, numa teologia sacramental em que, na prática, a graça parecia depender inteiramente da mediação clerical. Os abusos posteriores desse sistema, inclusive a exploração financeira das indulgências, seriam um dos estopins da Reforma.
E o próprio papado, ápice do sistema, desmoralizou-se aos olhos de todos: setenta anos em Avinhão como capelania da coroa francesa (1309-1377) e, na sequência, o Grande Cisma do Ocidente (1378-1417), com dois e depois três “papas” excomungando-se mutuamente. A Europa inteira se perguntava: se há três vigários de Cristo se maldizendo, onde está a verdadeira igreja? A pergunta abriu os ouvidos para os homens desta aula.
Parte 2
Por volta de 1173, um rico mercador de Lyon chamado Pedro Valdo ouviu a história de um santo que largou tudo, e foi ao evangelho conferir. Leu Mt 19.21 (“vá, venda tudo o que você possui, dê aos pobres… depois, venha e siga-me”), e fez exatamente isso.
Pagou a tradução de porções da Escritura para a língua do povo e saiu a pregar com seus companheiros, os “pobres de Lyon”. O arcebispo os proibiu: pregar era monopólio do clero. Eles responderam com At 5.29, “antes, importa obedecer a Deus do que aos homens”, e foram excomungados (1184): na primeira fase, não por heresia doutrinária, mas por pregarem sem licença (as divergências doutrinárias maiores vieram depois).
Parte 3
John Wycliffe (c. 1330-1384) era o mais respeitado teólogo de Oxford quando o Grande Cisma o convenceu de que o sistema estava podre na cabeça. Sua resposta foi radical na raiz: se os papas falham, qual é a autoridade infalível? A Escritura.
No tratado Sobre a verdade da Sagrada Escritura (1378), defendeu que a Bíblia é a suprema autoridade, pela qual papas, concílios e tradições devem ser julgados, e não o contrário. Dessa raiz brotaram as consequências: contestou a transubstanciação, as indulgências, a riqueza do clero, e ensinou que a verdadeira igreja é o corpo dos que pertencem a Deus, não a hierarquia visível.
E tirou a conclusão prática que o tornaria imortal: se a Escritura é a autoridade suprema, o povo precisa dela em sua própria língua. Do seu círculo saiu, por volta de 1382, a primeira Bíblia completa em inglês, copiada à mão e espalhada por pregadores itinerantes pobres, os lolardos, que iam de aldeia em aldeia lendo e pregando.
Wycliffe morreu em paz em 1384, mas o Concílio de Constança o condenou postumamente, e em 1428 seus ossos foram desenterrados, queimados, e as cinzas lançadas ao rio Swift. Um cronista antigo viu nisso uma parábola: o rio levou as cinzas ao mar, e como as águas, a doutrina de Wycliffe se espalhou pelo mundo. A história o chamaria de “estrela da alva da Reforma”.
Parte 4
Os escritos de Wycliffe viajaram de Oxford a Praga na bagagem de estudantes tchecos, e encontraram ali um pregador à altura deles: Jan Hus (c. 1372-1415), reitor da universidade e pregador da Capela de Belém, onde pregava em tcheco, não em latim, para milhares.
Hus abraçou o essencial de Wycliffe: Cristo, e não o papa, é o cabeça da igreja; a Escritura é a autoridade final; a venda de indulgências é mercadejar o que Deus dá de graça. Excomungado, seguiu pregando, protegido pelo povo.
Convocado ao Concílio de Constança, recebeu do imperador Sigismundo um salvo-conduto, garantia de ida e volta em segurança. Confiou, foi, e foi preso à chegada; o salvo-conduto foi anulado sob o princípio de que promessa feita a herege não obriga. Meses de cárcere, interrogatórios e exame das suas proposições não lhe arrancaram a retratação: ele repetia que se retrataria de bom grado, se alguém o convencesse pela Escritura de que estava errado. O concílio, porém, partia do princípio de que as teses já estavam condenadas e exigia retratação; o processo ficou muito longe de um debate aberto entre iguais.
Parte 5
Enquanto os pré-reformadores semeavam, a providência arrumava o palco para a colheita.
Sábios gregos, cuja migração para a Itália já vinha de décadas, fugiram em maior número levando manuscritos; o humanismo, com seu lema ad fontes (“de volta às fontes”), pôs os eruditos a estudar grego e a comparar o Novo Testamento original com a Vulgata. As diferenças que encontraram abalaram certezas seculares.
Pela primeira vez na história, ideias podiam se multiplicar mais rápido do que fogueiras podiam queimá-las. Wycliffe foi contido porque seus livros eram manuscritos; Lutero seria incontível porque os dele saíam às milhares das prensas.
Em Florença, o frade que pregara arrependimento contra a corrupção dos poderosos e do papa Alexandre VI subia à fogueira: último aviso de que o sistema já não suportava nem seus próprios profetas.
Quando um monge alemão pregar 95 teses numa porta em 1517, nada ali será novidade absoluta. Valdo já vivera o evangelho da pobreza; Wycliffe já erguera a Escritura acima do papa; Hus já morrera por isso. A Reforma não foi um raio em céu azul; foi a colheita de dois séculos de semeadura regada com sangue. (E uma nota de honestidade: chamamos esses homens de “pré-reformadores” por conveniência didática; não eram protestantes nascidos antes da hora, mas homens medievais que apontaram na direção que a Reforma seguiria.) Deus não tem pressa, e não perde a hora (Gl 4.4).
Fontes primárias
Sobre a verdade da Sagrada Escritura · 1378
“A Sagrada Escritura é a suprema autoridade para todo cristão, e a regra de fé e de toda perfeição humana. […] Ainda que houvesse cem papas, e todos os frades se tivessem tornado cardeais, em matéria de fé sua opinião não deveria ser aceita senão na medida em que se funda na Escritura.”
Carta da prisão de Constança · junho de 1415
“Rogo-vos que vos ameis uns aos outros, não permitais que os bons sejam oprimidos pela violência e desejai a verdade a todos. […] Fiel cristão, busca a verdade, ouve a verdade, aprende a verdade, ama a verdade, dize a verdade, sustenta a verdade, defende a verdade até a morte, porque a verdade te libertará.”
Atas do Concílio de Constança · 1415
“Retratar-me-ei de boa vontade, se me ensinardes pela Escritura que errei. […] Não convém ao pobre que sou retratar-me de uma verdade que o Senhor me mandou pregar.”
A ponte wesleyana
Prometi mostrar o fio que liga esta aula à nossa tradição, e ele é histórico, não figura de linguagem.
A Unidade dos Irmãos, nascida dos discípulos de Hus em 1457, sobreviveu clandestina a três séculos de perseguição na Boêmia e na Morávia. Em 1722, um punhado de refugiados morávios encontrou abrigo nas terras do conde alemão Zinzendorf, onde floresceu a comunidade de Herrnhut, um dos berços do movimento missionário moderno.
Em 1735, num navio rumo à Geórgia, um jovem clérigo anglicano chamado John Wesley viu morávios cantarem salmos em paz no meio de uma tempestade que apavorava a todos, e entendeu que eles tinham algo que ele não tinha. Foi um morávio, Peter Böhler, quem lhe ensinou em 1738 que a salvação é pela fé somente, recebida num instante; e foi numa reunião em Aldersgate, ouvindo a leitura do prefácio de Lutero à carta aos Romanos, que Wesley sentiu o coração “estranhamente aquecido”.
Da história para a vida
Valdo, Wycliffe e Hus caminharam pela mesma trilha: julgaram toda autoridade humana pela Palavra, e pagaram o preço. No dia em que costume, líder ou instituição julgam a Escritura em vez de serem julgados por ela, a igreja precisa de reforma, seja qual for o nome na fachada.
Hus morreu aparentemente derrotado; Wycliffe, condenado; Savonarola, queimado. Nenhum viu a Reforma. Deus trabalha em prazos que atravessam gerações. “Não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não desanimarmos” (Gl 6.9).
A Bíblia em português, aberta sobre a mesa da sua casa, é o resultado exato daquilo por que esses homens morreram. A honra que devemos a eles não é monumento, é leitura.
Fixação
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Avaliação
Dez questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe: errar aqui também ensina.
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Para pensar e conversar
Para aprofundar. Leia Gálatas 1 e Atos 5.17-42 com as Notas de John Wesley sobre o Novo Testamento. E leia o Diário de John Wesley, publicado neste site: as entradas de maio de 1738 contam o caminho até Aldersgate.
Na próxima aula, o desfecho da série: “A Reforma Protestante: Lutero, Calvino e a Reforma na Inglaterra (1500-1600)”.
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. Trechos de fontes históricas traduzidos dos originais em domínio público com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.