História da IgrejaAula 7

Luzes na escuridão: Valdo, Wycliffe, Hus e os pré-reformadores

“E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará.”João 8.32 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: At 5.27-32; Gl 4.4; Gl 6.7-10

Para começar

A Reforma caiu do céu?

A Reforma Protestante caiu do céu em 1517, ou Deus vinha preparando o terreno há séculos? Quem foram os homens que, muito antes de Lutero, pregaram a autoridade suprema da Escritura e a Bíblia na língua do povo, e o que lhes custou isso?

1

Três homens, uma trilha

Um mercador de Lyon, um professor de Oxford e um pregador de Praga chegaram, separados por séculos e países, às mesmas conclusões. Por quê?

2

Um fio secreto

Que fio liga um mártir tcheco queimado em 1415 ao coração “estranhamente aquecido” de John Wesley em 1738? A resposta fecha esta aula.

O que esta aula cobre. Os três últimos séculos medievais, de 1200 a 1500, quando a cristandade atingiu ao mesmo tempo seu esplendor intelectual e sua decadência espiritual, e Deus acendeu as luzes que anunciavam a alvorada.

Situando-se na história

Linha do tempo (1200-1500)

c. 1173

Pedro Valdo

O mercador de Lyon vende tudo (Mt 19.21), paga traduções da Escritura e sai a pregar. Nascem os valdenses.

1215

IV Latrão

Formaliza o dogma da transubstanciação e consolida o sistema penitencial medieval, em cujos abusos posteriores estará um dos estopins da Reforma.

1309-1417

Avinhão e o cisma papal

Setenta anos de papado sob a coroa francesa; depois, dois e até três “papas” excomungando-se. A Europa pergunta: onde está a verdadeira igreja?

c. 1382

A Bíblia de Wycliffe

Do círculo de Wycliffe sai a primeira Bíblia completa em inglês, espalhada pelos pregadores lolardos.

1415

Hus em Constança

Com salvo-conduto anulado, Jan Hus é queimado vivo, morrendo a cantar. Da sua semente nascerá a Unidade dos Irmãos (1457).

c. 1455

Gutenberg

A Bíblia impressa com tipos móveis: ideias agora se multiplicam mais rápido do que fogueiras podem queimá-las.

1453

Queda de Constantinopla

Sábios gregos fogem ao Ocidente com manuscritos; o humanismo grita “ad fontes”, de volta às fontes.

1498

Savonarola

O frade que pregou arrependimento contra a corrupção de Florença e do papa sobe à fogueira. O sistema já não suporta seus próprios profetas.

Parte 1

Esplendor em cima, rachaduras embaixo

O século 13 foi o meio-dia da cristandade. As universidades fervilhavam; as catedrais góticas subiam; Tomás de Aquino (1225-1274) erguia na Suma Teológica a mais ambiciosa síntese entre fé e razão já tentada; e Francisco de Assis (1182-1226) redescobria a pobreza evangélica, devolvendo à cristandade opulenta a imagem esquecida do Cristo pobre.

Mas embaixo do esplendor, a estrutura rachava. Em 1215, o IV Concílio de Latrão formalizou o dogma da transubstanciação. Paralelamente, desenvolveram-se ao longo da Idade Média o sistema penitencial e a doutrina das indulgências, numa teologia sacramental em que, na prática, a graça parecia depender inteiramente da mediação clerical. Os abusos posteriores desse sistema, inclusive a exploração financeira das indulgências, seriam um dos estopins da Reforma.

E o próprio papado, ápice do sistema, desmoralizou-se aos olhos de todos: setenta anos em Avinhão como capelania da coroa francesa (1309-1377) e, na sequência, o Grande Cisma do Ocidente (1378-1417), com dois e depois três “papas” excomungando-se mutuamente. A Europa inteira se perguntava: se há três vigários de Cristo se maldizendo, onde está a verdadeira igreja? A pergunta abriu os ouvidos para os homens desta aula.

Parte 2

Os valdenses: a Palavra na língua do povo

Por volta de 1173, um rico mercador de Lyon chamado Pedro Valdo ouviu a história de um santo que largou tudo, e foi ao evangelho conferir. Leu Mt 19.21 (“vá, venda tudo o que você possui, dê aos pobres… depois, venha e siga-me”), e fez exatamente isso.

Pagou a tradução de porções da Escritura para a língua do povo e saiu a pregar com seus companheiros, os “pobres de Lyon”. O arcebispo os proibiu: pregar era monopólio do clero. Eles responderam com At 5.29, “antes, importa obedecer a Deus do que aos homens”, e foram excomungados (1184): na primeira fase, não por heresia doutrinária, mas por pregarem sem licença (as divergências doutrinárias maiores vieram depois).

Parte 3

Wycliffe, a estrela da alva

John Wycliffe (c. 1330-1384) era o mais respeitado teólogo de Oxford quando o Grande Cisma o convenceu de que o sistema estava podre na cabeça. Sua resposta foi radical na raiz: se os papas falham, qual é a autoridade infalível? A Escritura.

No tratado Sobre a verdade da Sagrada Escritura (1378), defendeu que a Bíblia é a suprema autoridade, pela qual papas, concílios e tradições devem ser julgados, e não o contrário. Dessa raiz brotaram as consequências: contestou a transubstanciação, as indulgências, a riqueza do clero, e ensinou que a verdadeira igreja é o corpo dos que pertencem a Deus, não a hierarquia visível.

E tirou a conclusão prática que o tornaria imortal: se a Escritura é a autoridade suprema, o povo precisa dela em sua própria língua. Do seu círculo saiu, por volta de 1382, a primeira Bíblia completa em inglês, copiada à mão e espalhada por pregadores itinerantes pobres, os lolardos, que iam de aldeia em aldeia lendo e pregando.

Wycliffe morreu em paz em 1384, mas o Concílio de Constança o condenou postumamente, e em 1428 seus ossos foram desenterrados, queimados, e as cinzas lançadas ao rio Swift. Um cronista antigo viu nisso uma parábola: o rio levou as cinzas ao mar, e como as águas, a doutrina de Wycliffe se espalhou pelo mundo. A história o chamaria de “estrela da alva da Reforma”.

Parte 4

Jan Hus: a verdade até a fogueira

Os escritos de Wycliffe viajaram de Oxford a Praga na bagagem de estudantes tchecos, e encontraram ali um pregador à altura deles: Jan Hus (c. 1372-1415), reitor da universidade e pregador da Capela de Belém, onde pregava em tcheco, não em latim, para milhares.

Hus abraçou o essencial de Wycliffe: Cristo, e não o papa, é o cabeça da igreja; a Escritura é a autoridade final; a venda de indulgências é mercadejar o que Deus dá de graça. Excomungado, seguiu pregando, protegido pelo povo.

Convocado ao Concílio de Constança, recebeu do imperador Sigismundo um salvo-conduto, garantia de ida e volta em segurança. Confiou, foi, e foi preso à chegada; o salvo-conduto foi anulado sob o princípio de que promessa feita a herege não obriga. Meses de cárcere, interrogatórios e exame das suas proposições não lhe arrancaram a retratação: ele repetia que se retrataria de bom grado, se alguém o convencesse pela Escritura de que estava errado. O concílio, porém, partia do princípio de que as teses já estavam condenadas e exigia retratação; o processo ficou muito longe de um debate aberto entre iguais.

Parte 5

Deus prepara o palco

Enquanto os pré-reformadores semeavam, a providência arrumava o palco para a colheita.

1453: a queda de Constantinopla

Sábios gregos, cuja migração para a Itália já vinha de décadas, fugiram em maior número levando manuscritos; o humanismo, com seu lema ad fontes (“de volta às fontes”), pôs os eruditos a estudar grego e a comparar o Novo Testamento original com a Vulgata. As diferenças que encontraram abalaram certezas seculares.

c. 1455: a imprensa de Gutenberg

Pela primeira vez na história, ideias podiam se multiplicar mais rápido do que fogueiras podiam queimá-las. Wycliffe foi contido porque seus livros eram manuscritos; Lutero seria incontível porque os dele saíam às milhares das prensas.

1498: Savonarola

Em Florença, o frade que pregara arrependimento contra a corrupção dos poderosos e do papa Alexandre VI subia à fogueira: último aviso de que o sistema já não suportava nem seus próprios profetas.

Quando um monge alemão pregar 95 teses numa porta em 1517, nada ali será novidade absoluta. Valdo já vivera o evangelho da pobreza; Wycliffe já erguera a Escritura acima do papa; Hus já morrera por isso. A Reforma não foi um raio em céu azul; foi a colheita de dois séculos de semeadura regada com sangue. (E uma nota de honestidade: chamamos esses homens de “pré-reformadores” por conveniência didática; não eram protestantes nascidos antes da hora, mas homens medievais que apontaram na direção que a Reforma seguiria.) Deus não tem pressa, e não perde a hora (Gl 4.4).

Fontes primárias

Vozes dos pré-reformadores

A ponte wesleyana

De Hus a Wesley: o fio da meada

Prometi mostrar o fio que liga esta aula à nossa tradição, e ele é histórico, não figura de linguagem.

A Unidade dos Irmãos, nascida dos discípulos de Hus em 1457, sobreviveu clandestina a três séculos de perseguição na Boêmia e na Morávia. Em 1722, um punhado de refugiados morávios encontrou abrigo nas terras do conde alemão Zinzendorf, onde floresceu a comunidade de Herrnhut, um dos berços do movimento missionário moderno.

Em 1735, num navio rumo à Geórgia, um jovem clérigo anglicano chamado John Wesley viu morávios cantarem salmos em paz no meio de uma tempestade que apavorava a todos, e entendeu que eles tinham algo que ele não tinha. Foi um morávio, Peter Böhler, quem lhe ensinou em 1738 que a salvação é pela fé somente, recebida num instante; e foi numa reunião em Aldersgate, ouvindo a leitura do prefácio de Lutero à carta aos Romanos, que Wesley sentiu o coração “estranhamente aquecido”.

Da história para a vida

Aplicação pastoral

1

A Escritura acima de tudo

Valdo, Wycliffe e Hus caminharam pela mesma trilha: julgaram toda autoridade humana pela Palavra, e pagaram o preço. No dia em que costume, líder ou instituição julgam a Escritura em vez de serem julgados por ela, a igreja precisa de reforma, seja qual for o nome na fachada.

2

Fidelidade sem resultados visíveis não é fracasso

Hus morreu aparentemente derrotado; Wycliffe, condenado; Savonarola, queimado. Nenhum viu a Reforma. Deus trabalha em prazos que atravessam gerações. “Não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não desanimarmos” (Gl 6.9).

3

Valorize o que custou sangue

A Bíblia em português, aberta sobre a mesa da sua casa, é o resultado exato daquilo por que esses homens morreram. A honra que devemos a eles não é monumento, é leitura.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o conteúdo. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Dez questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe: errar aqui também ensina.

0 de 10 respondidas

Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Hus, Wycliffe e Savonarola morreram sem ver fruto visível do que plantaram. Que ministério ou obediência você está tentado a abandonar por não ver resultados, e o que esta aula diz sobre isso?Ver resposta sugerida
Nomeie a área com honestidade: um filho pródigo pelo qual se ora há anos, uma classe pequena, um trabalho de evangelismo que não cresce, uma igreja plantada que não deslancha. Depois aplique a régua da aula: o fruto da fidelidade não vence no placar do semeador; vence no calendário de Deus. Hus morreu em 1415; o avivamento que sua semente alimentou tocou Wesley em 1738, trezentos anos depois. A Escritura já dizia: um semeia, outro colhe, “para que se alegrem juntos o que semeia e o que colhe” (Jo 4.36-38), e Gl 6.9 promete ceifa “a seu tempo”, não ao nosso. Isso não dispensa avaliação honesta de métodos (fidelidade não é teimosia em fazer mal feito), mas muda o critério de permanência: a pergunta não é “está dando resultado?”, é “é isto que o Senhor me mandou fazer?”. Se for, continue. Você pode estar sendo o Hus de um avivamento que seus bisnetos verão.
“A honra que devemos aos que morreram pela Bíblia não é monumento, é leitura.” Faça um inventário honesto: quanto da sua semana passa com a Escritura aberta, e o que muda a partir de hoje?Ver resposta sugerida
O inventário precisa de números, não de impressões: some as horas de tela da semana (o celular informa) e compare com os minutos de Bíblia aberta. Para a maioria de nós o contraste é constrangedor, e é bom que seja: conviver com o constrangimento é o começo da mudança. Depois, um plano com três marcas concretas: horário fixo (a leitura “quando der” não acontece), plano definido (um evangelho inteiro, depois Atos, depois Romanos com as Notas de Wesley deste site; sem pular ao acaso) e registro simples (anotar num caderno uma frase por dia do que o texto disse). Some a isso a leitura em voz alta no lar, prática dos valdenses e dos lolardos: a Bíblia que custou sangue foi feita para ouvidos comuns, na mesa da cozinha. Um povo que deixa na estante a Escritura pela qual mártires arderam despreza, sem perceber, o preço que ela custou, e o Senhor que ela revela (Jo 5.39).

Para casa e próxima aula

Para aprofundar. Leia Gálatas 1 e Atos 5.17-42 com as Notas de John Wesley sobre o Novo Testamento. E leia o Diário de John Wesley, publicado neste site: as entradas de maio de 1738 contam o caminho até Aldersgate.

Na próxima aula, o desfecho da série: “A Reforma Protestante: Lutero, Calvino e a Reforma na Inglaterra (1500-1600)”.

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. Trechos de fontes históricas traduzidos dos originais em domínio público com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.