História da IgrejaSérie 2 · Aula 6

O século 20: pentecostalismo, guerras e o evangelho global

“Não apaguem o Espírito. Não desprezem as profecias. Examinem tudo e fiquem com o que é bom.”1 Tessalonicenses 5.19-21 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: 1Ts 5.16-22; At 2.1-21; Jo 10.22-30

Para começar

O século mais rápido da história da igreja

Em 1900, a maioria esmagadora dos cristãos vivia na Europa e na América do Norte; em 2000, a maioria vivia na África, na Ásia e na América Latina. O que aconteceu no meio? De onde veio o pentecostalismo, que em cem anos alcançou centenas de milhões? E como a igreja se portou diante das duas guerras mundiais e dos regimes totalitários?

O que esta aula cobre. De 1900 a 2000: a Rua Azusa e o pentecostalismo (com suas raízes no movimento de santidade), a conferência de Edimburgo, a igreja diante dos totalitarismos, o evangelicalismo de Billy Graham e Lausanne, e o grande deslocamento do cristianismo para o sul do mundo.

Situando-se na história

Linha do tempo (1900-2000)

1906

Rua Azusa

Em Los Angeles, sob o pregador negro William Seymour, filho de ex-escravizados, explode o avivamento que dará forma mundial ao pentecostalismo.

1910

Edimburgo

A conferência missionária mundial sonha “a evangelização do mundo nesta geração”: um congresso ainda quase todo ocidental, sem as vozes das igrejas jovens que o próprio século faria crescer.

1910-1915

Os Fundamentos

Uma série de fascículos reafirma as doutrinas fundamentais diante do modernismo teológico; o rótulo “fundamentalista” seria cunhado em 1920, por Curtis Lee Laws.

1914-1945

As duas guerras

A “Europa cristã” produz as maiores carnificinas da história e sai delas espiritualmente devastada.

1934

Barmen

A Igreja Confessante alemã declara que a igreja pertence a Cristo, não ao Führer. Bonhoeffer, um de seus mestres, será executado em 1945.

1949

Los Angeles

A cruzada de Billy Graham projeta o evangelicalismo do pós-guerra: fiel à Escritura, aberto à cooperação, voltado à evangelização de massas.

1974

Lausanne

O congresso mundial de evangelização, com forte voz do sul global, reafirma evangelho bíblico e responsabilidade social juntos. O Pacto de Lausanne está publicado neste site.

2000

O sul global

Na virada do milênio, o centro de gravidade do cristianismo já mora no Sul Global: África, Ásia e América Latina.

Parte 1

Azusa: o pentecostalismo e suas raízes wesleyanas

O pentecostalismo não caiu do céu sem genealogia: nasceu, em grande medida, do ventre do movimento de santidade que estudamos na aula passada, incorporando também outras correntes revivalistas (como a ênfase de Keswick no poder do Espírito) e a rica herança espiritual afro-americana, visível no próprio Seymour. A busca de uma experiência transformadora posterior à conversão, os acampamentos, os testemunhos, a oração fervorosa: tudo isso era solo de santidade wesleyana. A novidade foi identificar essa experiência com o batismo no Espírito evidenciado pelo falar em línguas (At 2.4).

Em 1906, num galpão da Rua Azusa, em Los Angeles, sob a liderança de William Seymour, pregador negro e filho de ex-escravizados, o avivamento explodiu e correu o mundo: por três anos, cultos diários, negros e brancos, homens e mulheres, pobres e ricos juntos, num tempo de segregação racial; e dali partiram missionários e visitantes que levaram a chama a dezenas de países, inclusive, como veremos na próxima aula, ao Brasil, já em 1910-1911.

O que reconhecer com alegria

O pentecostalismo devolveu à igreja global a expectativa do sobrenatural, alcançou os pobres como poucos movimentos na história, cresceu até as centenas de milhões e é hoje parte imensa da família evangélica, inclusive no Brasil.

O que discernir com a Escritura

Nossa tradição wesleyana crê e ora pela plenitude do Espírito, mas não condiciona essa plenitude a uma evidência única, e prova todo fenômeno pela Palavra e pelo fruto (1Ts 5.19-22; Gl 5.22-23; 1Co 12-14). E lamenta os desvios posteriores de parte do movimento, sobretudo a teologia da prosperidade, que troca a cruz por barganha, e contra a qual falaremos na aula final.

Parte 2

A igreja diante dos totalitarismos

O século 20 pôs a igreja diante de ídolos com exército: o nazismo, o comunismo ateu e os nacionalismos divinizados. E a igreja se dividiu entre os que se dobraram, os que se calaram e os que confessaram.

Na Alemanha de Hitler, os “cristãos alemães” puseram a suástica no altar. A minoria fiel formou a Igreja Confessante e, em Barmen (1934), declarou que a igreja ouve uma só voz, a de Jesus Cristo, e não pode reconhecer outras “verdades” e outros senhores. Dietrich Bonhoeffer, pastor e teólogo dessa resistência, que denunciara a “graça barata” (perdão sem arrependimento, batismo sem discipulado, comunhão sem cruz), foi preso e executado em abril de 1945, semanas antes do fim da guerra.

Sob os regimes comunistas, do leste europeu à China, milhões de crentes conheceram prisão, vigilância e morte; e a igreja aprendeu de novo as lições da Série 1: a fé sobrevive na clandestinidade, o sangue continua sendo semente, e a igreja chinesa, esmagada em 1949, emergiria décadas depois maior do que nunca. O século 20, que se anunciava como o século do progresso, produziu um número imenso de mártires cristãos, e a igreja perseguida continua sendo, hoje, parte enorme da igreja real.

Parte 3

Fundamentos, Graham e Lausanne

Dentro do protestantismo, o século travou uma batalha interna decisiva. Diversas correntes da teologia liberal, herdeiras do racionalismo e do historicismo, reinterpretaram a autoridade da Escritura, os milagres, a expiação e a ressurreição; nas suas expressões mais radicais, restava do cristianismo pouco além de ética e sentimento religioso. A reação veio em camadas.

Os Fundamentos (1910-1915)

Fascículos distribuídos aos milhões reafirmaram o essencial: a inspiração da Escritura, o nascimento virginal, a expiação, a ressurreição, os milagres. O rótulo “fundamentalista” foi cunhado logo depois (1920, pelo batista Curtis Lee Laws) como título de honra, e mais tarde azedou em isolamento e beligerância em parte do movimento.

Billy Graham e o novo evangelicalismo

Do pós-guerra emergiu um evangelicalismo firme na Escritura e aberto à cooperação: as cruzadas de Graham (de 1949 em diante) pregaram a conversão pessoal a mais gente do que qualquer pregador da história, com integridade pessoal que atravessou décadas sem escândalo.

Lausanne (1974)

O congresso mundial de evangelização, com John Stott entre os redatores e forte voz do sul global, soldou o que nunca deveria ter se separado: evangelização e responsabilidade social, ambas como dever cristão, sem confundir uma com a outra. O Pacto de Lausanne está publicado neste site, na seção de recursos.

Parte 4

O grande deslocamento: o evangelho muda de endereço

O fato mais importante do século passou quase despercebido dos jornais: o centro de gravidade do cristianismo deslocou-se para o Sul Global. As sementes das missões (aulas 4 e 5 desta série) germinaram; as igrejas nacionais amadureceram, sofreram, cresceram; e na virada do milênio a maioria dos cristãos do mundo já vivia na África, na Ásia e na América Latina.

O que isso significa para nós: o Brasil deixou de ser campo missionário para ser também base missionária; o crente típico do mundo hoje não é um europeu de catedral, é uma mulher africana ou latino-americana de igreja simples; e as perguntas do sul (pobreza, perseguição, espiritismo, prosperidade) passaram a pautar a teologia global. A Igreja Metodista Livre acompanhou o movimento: nascida americana, é hoje uma comunhão mundial presente em dezenas de países, com a maioria dos seus membros fora dos Estados Unidos, inclusive no Brasil, como a próxima aula contará.

Fontes primárias

Vozes do século 20

A ponte wesleyana

A família wesleyana no século 20

O século 20 espalhou a família de Wesley pelo mundo e a pôs à prova. As igrejas de santidade (a Metodista Livre entre elas) atravessaram o século mantendo o tripé que esta série inteira construiu: a Escritura como autoridade final (com os Fundamentos, contra o liberalismo, mas sem o isolamento beligerante), a santidade de coração e vida (herança de Wesley e Roberts), e a missão integral (evangelho e misericórdia juntos, na linha que Lausanne reafirmou).

Da história para a vida

Aplicação pastoral

1

Prove tudo, retenha o bom

Diante de todo fenômeno espiritual, o método wesleyano é o de 1Ts 5.19-22: não apagar o Espírito, não desprezar, e provar tudo pela Escritura e pelo fruto. Nem ceticismo que seca, nem credulidade que engole tudo.

2

Um só Senhor, nenhuma suástica no altar

Barmen vale para toda geração: quando qualquer projeto de poder (partido, governo, ideologia) pedir o altar da igreja, a resposta confessante é a mesma: a igreja ouve uma só voz (Jo 10.27; At 5.29).

3

Graça cara

Bonhoeffer denunciou a graça barata: perdão sem arrependimento, batismo sem discipulado. A graça que salva de graça custou a cruz e chama ao discipulado (Lc 9.23). Igreja crescida em número e barata em graça é o risco brasileiro por excelência.

Fixação

Cartões de memorização

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Avaliação

Teste o que você aprendeu

Dez questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe: errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Barmen recusou a suástica no altar. No Brasil de hoje, de que formas concretas partidos e projetos de poder (de qualquer lado) tentam ocupar o altar evangélico, e como uma igreja local se mantém confessante sem se tornar omissa?Ver resposta sugerida
As formas concretas são conhecidas de qualquer pastor honesto: palanque no púlpito em ano eleitoral, candidatos “ungidos” apresentados no culto, listas de “candidatos da igreja”, pregação que baptiza integralmente a agenda de um partido, e a recíproca: financiamentos, cargos e acessos oferecidos em troca de rebanho. A resposta confessante tem dois lados inseparáveis. Contra a captura: o púlpito pertence a Cristo; nenhum candidato prega, nenhuma sigla é endossada, e o pastor que deseja candidatar-se deixa primeiro o púlpito. Contra a omissão: Barmen não calou a igreja, soltou-lhe a voz; a igreja confessante fala sim de justiça, corrupção, mentira, aborto, violência e pobres, a partir da Escritura, doa a quem doer, inclusive ao partido que os membros preferem (At 5.29). O critério prático: se a sua pregação “profética” só incomoda o lado que a sua igreja já não gosta, não é profecia, é militância com verniz. E ensine o povo: cristãos votam, servem e disputam eleições como cidadãos; a igreja, como igreja, tem um só Senhor e um só palanque, a cruz (Jo 18.36).
Bonhoeffer denunciou a “graça barata”. Onde a graça foi barateada na experiência evangélica brasileira, e como pregar graça cara sem cair no legalismo?Ver resposta sugerida
O barateamento brasileiro tem catálogo: conversões por impulso sem discipulado algum (decisões contadas, vidas não acompanhadas); batismos-relâmpago sem catecumenato; membresia sem pacto nem disciplina; “determinações” de bênção sem arrependimento; e a versão comercial: graça vendida em campanhas, correntes e trocas, que já não é graça (Rm 11.6). Graça cara se prega mantendo juntas as duas metades de Bonhoeffer: é graça (nada a pagar, tudo recebido, Ef 2.8-9) e é cara (custou a cruz e chama a tomar a cruz, Lc 9.23). Na prática pastoral: volte o catecumenato antes do batismo (a igreja antiga levava até dois anos; podemos levar meses); vincule membresia a pacto claro de vida e classe; pregue arrependimento como parte do evangelho, não como apêndice; e restaure a disciplina eclesiástica restauradora (Gl 6.1; Mt 18.15-17), que quase desapareceu. O antídoto contra o legalismo está na ordem: nunca pregar o custo como preço da aceitação (isso é mérito), sempre como resposta à aceitação já dada (isso é discipulado). O legalista diz “faça para ser aceito”; a graça barata diz “foi aceito, não faça nada”; o evangelho diz “foi aceito de graça: agora venha, morra e viva” (Rm 12.1).

Para casa e próxima aula

Para aprofundar. Leia o Pacto de Lausanne, publicado neste site, e 1 Tessalonicenses 5 com as Notas de Wesley: o método bíblico do discernimento.

Na próxima aula, a história chega ao nosso chão: “O evangelho no Brasil (1500-2000)”: dos mártires da Guanabara aos nossos dias, incluindo a chegada da Igreja Metodista Livre em 1928.

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. Trechos de fontes históricas traduzidos dos originais em domínio público com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.