História da IgrejaSérie 2 · Aula 8

A igreja global hoje e as lições de vinte séculos

“Lembrem-se dos seus guias, que pregaram a vocês a palavra de Deus. Considerem atentamente como terminou a vida deles e imitem a fé que tiveram. Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre.”Hebreus 13.7-8 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Hb 13.1-8; Mt 28.16-20; Ap 7.9-12

Para começar

A última aula, e a próxima página

Chegamos ao fim de dezesseis aulas e vinte séculos. Onde a igreja de Jesus está hoje? O que a ameaça e o que a impulsiona? E, olhando para trás, de Pentecostes até aqui, que lições permanentes essa longa história entrega a quem vai escrever a próxima página, isto é, a nós?

O que esta aula cobre. O retrato da igreja global no início do século 21: a fé que mudou de hemisfério, a igreja perseguida, os desafios do nosso tempo (secularismo, nominalismo digital, prosperidade, analfabetismo bíblico), a comunhão metodista livre mundial, e as dez lições de vinte séculos que fecham as duas séries.

Parte 1

O retrato: uma fé do sul, jovem e sob pressão

O cristianismo segue sendo a maior fé do mundo: cerca de 29% da humanidade em 2020, segundo o Pew Research Center (outras bases demográficas estimam um pouco mais); mas seu rosto mudou. O crente típico de hoje não é um europeu de catedral: é uma mulher africana, asiática ou latino-americana, de igreja simples e fé custosa.

A África, novo coração numérico

Em 1900, o cristianismo africano era pequeno; hoje a África abriga mais cristãos que qualquer outro continente, com igrejas que evangelizam, sofrem e enviam. As profecias de morte do cristianismo esqueceram de consultar o Sul Global.

A Ásia que ora

A igreja chinesa, esmagada em 1949, emergiu das casas aos muitos milhões; a Coreia do Sul virou potência missionária; a Índia, o Irã e o mundo muçulmano veem conversões silenciosas em escala inédita, quase sempre sob perseguição.

A América Latina evangélica

Em um século, o continente católico viu nascer um povo evangélico que já passa de cem milhões de pessoas, o Brasil à frente. Crescimento com glórias e com feridas, como esta aula dirá sem rodeios.

O norte que esfriou

A Europa das catedrais vazias e a América do Norte em secularização aceleram o que a série viu tantas vezes: cristandade cultural morrendo, e nichos de fé viva renascendo dentro dela, muitas vezes por mãos de imigrantes do sul: a missão fez o caminho de volta.

Parte 2

Os desafios do nosso tempo

Cada época da série teve seus inimigos: arenas, heresias, espadas, tronos. Os nossos raramente rugem; eles seduzem, distraem e diluem.

Secularismo e indiferença

O adversário do norte global (e das elites do sul) já não persegue: acha a fé irrelevante. Responde-se a isso como os apologistas do século 2: razão preparada, vida que intriga, comunidade que abraça (1Pe 3.15).

Nominalismo digital

A nova cristandade não é territorial, é virtual: fé de perfil e de conteúdo consumido, sem igreja, sem mesa, sem submissão mútua. Vinte séculos respondem: não existe cristianismo sem corpo (At 2.42; Hb 10.24-25).

A prosperidade como falso evangelho

A versão tropical da venda de indulgências: bênção tarifada, fé como investimento, o pobre explorado justamente por quem diz falar por Deus. Contra ela valem Lutero (a tese 62: o verdadeiro tesouro da igreja é o evangelho da graça) e Roberts (o evangelho é para os pobres, não contra eles).

Analfabetismo bíblico e ansiedade doutrinária

Nunca houve tantas Bíblias e tão pouca Escritura no coração. O resultado é um povo maduro em opiniões e infantil em doutrina, presa fácil de qualquer vento (Ef 4.14). O antídoto é o de sempre: Escritura ensinada, catecismo, pequenos grupos, hinos com conteúdo.

Parte 3

A comunhão metodista livre no mundo

A pequena igreja fundada em Pekin em 1860 tornou-se uma comunhão mundial: a Igreja Metodista Livre está presente em dezenas de países, e há muito tempo a maioria dos seus membros vive fora dos Estados Unidos, com forte presença na África e na Ásia, e obra consolidada na América Latina, o Brasil incluído, como vimos na aula passada.

O rosto global da nossa família confirma o retrato desta aula: somos hoje uma igreja majoritariamente do sul, jovem, missionária e, em vários países, perseguida. E os compromissos de Pekin viajaram bem: evangelho aos pobres, santidade de coração e vida, liberdade diante dos poderes, mulheres e homens servindo em todos os ministérios.

Para acompanhar a família: a página Nossa História e as páginas dos concílios neste site trazem o retrato brasileiro; e o portal da igreja apresenta os contadores da obra nacional e mundial. Você não é membro de uma igrejinha local: é parte de uma comunhão que canta a Cristo em dezenas de línguas.

Parte 4

Dez lições de vinte séculos

Se as dezesseis aulas tivessem de caber numa página, seria esta. Dez lições que, como cristãos armínio-wesleyanos, extraímos de vinte séculos de história:

1. Cristo edifica a sua igreja

Ela sobreviveu a Nero, aos cismas, às pestes, aos totalitarismos e aos próprios cristãos. “As portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18) não é otimismo: é histórico.

2. A Escritura acima de tudo

Toda reforma verdadeira, de Irineu a Lutero, de Wycliffe a Wesley, foi um retorno à Palavra como juíza de tudo. Toda decadência começou quando algo (tradição, trono, líder, experiência) subiu acima dela.

3. O sangue é semente

De Policarpo à Guanabara, da Boêmia à China: a perseguição raramente conseguiu destruir a igreja, e muitas vezes purificou e fortaleceu o seu testemunho; a acomodação fez mais estragos do que as arenas.

4. O abraço do poder sufoca

De Constantino a Canossa, das cruzadas aos palanques: a história mostra, repetidas vezes, o preço de trocar a liberdade profética pela dependência do poder. A igreja tem um só Senhor.

5. Cristianismo de nascença não salva

Cristandade medieval, ortodoxia morta, estatística evangélica: a fé não se herda nem se declara; nasce-se de novo (Jo 3.3).

6. Deus reacende pelo pequeno

Um mosteiro, um colégio de piedade, uma classe de doze, três imigrantes num cafezal: os avivamentos nunca começaram por maiorias, começaram por restos fiéis (Zc 4.10).

7. Santidade é amor, e vai à rua

De Basílio a Halle, de Wesley a Roberts: a fé viva sempre construiu orfanato, libertou escravizado, alfabetizou pobre. Santidade que não termina no próximo não é santidade (Mt 22.37-39).

8. A graça é para todos

Dos pais antigos a Armínio e Wesley: Deus quer que todos sejam salvos (1Tm 2.4). A igreja erra sempre que encolhe o alcance da cruz, na doutrina ou na prática.

9. A fé se transmite de pessoa a pessoa

João a Policarpo, Böhler a Wesley, Nishizumi a Emerenciano: a corrente de 2Tm 2.2 nunca quebrou, e o próximo elo é você.

10. Deus não perde a hora

Trezentos anos de Hus a Aldersgate; três séculos da Guanabara a Kalley. A fidelidade planta; o calendário é de Deus (Gl 6.9; Gl 4.4).

Vozes que atravessaram os séculos

Uma nuvem de testemunhas

Para encerrar, ouça de novo, lado a lado, as vozes que esta série reuniu, e note como vinte séculos confessam a mesma fé.

O envio

A próxima página é sua

A história da igreja não terminou na aula passada nem nesta: ela continua sendo escrita, e o Autor continua o mesmo. Você e a sua igreja local são, literalmente, o capítulo em andamento.

Hebreus junta as duas coisas que estas séries tentaram fazer: “Lembrem-se dos seus guias, que pregaram a vocês a palavra de Deus. Considerem atentamente como terminou a vida deles e imitem a fé que tiveram” (Hb 13.7); e, na frase seguinte, o segredo de toda a história: “Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre” (Hb 13.8). Os guias passam; o Senhor permanece. Foi assim que uma sala em Jerusalém virou um povo em todas as nações; e é assim que a fé chegará, por mãos como as suas, aos que ainda não a ouviram.

Da história para a vida

Aplicação pastoral final

1

Adote um século

Escolha o período que mais falou com você nestas dezesseis aulas e aprofunde-se nele por um ano: leia as fontes, ensine numa classe, conte aos seus filhos. Igreja sem memória repete os erros que já pagou caro (Hb 13.7).

2

Escolha o seu elo

A corrente de 2Tm 2.2 só continua se cada geração escolher, pelo nome, a quem entregar a fé. Defina nesta semana: quem é o seu Timóteo, e quando vocês começam?

3

Ore pela igreja inteira

Pelo irmão perseguido da Nigéria, pela igreja doméstica chinesa, pela catedral vazia da Europa, pela periferia brasileira. Quem estudou vinte séculos não tem mais o direito de orar pequeno (Jo 17.20-21).

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o conteúdo. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Dez questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe: errar aqui também ensina.

0 de 10 respondidas

Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Das dez lições de vinte séculos, qual é a que a sua igreja local mais precisa ouvir neste momento, e que passo concreto decorreria de levá-la a sério nos próximos doze meses?Ver resposta sugerida
O exercício exige coragem diagnóstica, porque cada lição denuncia uma doença específica: se a igreja vive de eventos e estatísticas, a lição 5 (nascer de novo) pede que se volte a pregar conversão e a contar discípulos, não públicos; se anda fascinada por candidatos e poder, a lição 4 manda desatar o altar de todo palanque; se o povo não abre a Bíblia, a lição 2 cobra um plano real de ensino (catecismo, classes, leitura anual acompanhada); se ninguém é discipulado pelo nome, a lição 9 pede a criação de duplas e classes neste semestre; se há desprezo pelos pobres, a lição 7 aponta para o teste de Roberts. O método prático: leve as dez lições ao conselho da igreja, vote qual grita mais alto, e transforme-a em um único alvo anual com data, responsável e verificação. Igreja que tenta consertar tudo não conserta nada; a história avançou por comunidades que ouviram uma palavra e obedeceram a ela (Ap 2-3: a cada igreja, uma carta específica).
“Considerem atentamente como terminou a vida deles e imitem a fé que tiveram” (Hb 13.7). Ao fim de vinte séculos de retratos, que tipo de fim de vida você está construindo agora, e o que precisa mudar hoje para terminar como os que você admira?Ver resposta sugerida
A pergunta de Hebreus é retroativa: olha-se o fim para corrigir o meio. Note o padrão dos fins que a série mostrou: Policarpo terminou fiel porque servira 86 anos antes do estádio; Wesley terminou dizendo “Deus está conosco” porque meio século antes escolhera os campos em vez do conforto; Roberts terminou pregando porque nunca fizera da mágoa profissão; Carey ditou um epitáfio de verme agarrado à graça porque vivera quarenta anos de obscuridade fecunda. Nenhum fim bonito foi improvisado: todos foram colheita de decisões antigas e repetidas. Traga isso para o presente com três perguntas de auditoria: se eu morresse este ano, o que as pessoas imitariam de mim, e é isso que quero deixar? que hábito atual, mantido por mais vinte anos, estraga o meu fim (amargura alimentada, tela sem medida, oração adiada, dinheiro amado)? e que prática dos que admiro posso começar nesta semana, pequena e repetível (a classe, o culto doméstico, o Timóteo, a intercessão pelos perseguidos)? O fim se escreve agora, uma fidelidade pequena por vez; e a promessa que sustentou todos eles sustenta você: “Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre” (Hb 13.8).

Fim das duas séries, e um começo

Você concluiu as duas séries: dezesseis aulas, vinte séculos, dos apóstolos aos nossos dias. Se começou por aqui, volte ao início: a página da série traz as dezesseis aulas em ordem, cada uma com quiz, cartões e PDF.

Para continuar estudando: as Lições deste site, as obras de John Wesley, os hinos de Charles, as obras de B. T. Roberts e a nossa história. Que as próximas páginas sejam escritas com a mesma fé dos pioneiros.

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. Trechos de fontes históricas traduzidos dos originais em domínio público com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.