Abraão · Aula 2Lição

Bênção para todas as famílias da terra

“Em você serão benditas todas as famílias da terra.”Gênesis 12.3 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Gn 11.1-9; Gn 12.1-3; Rm 11.17-24; Ef 2.11-22

Para começar

Por que Deus escolheu um povo?

Certa vez alguém me fez a seguinte pergunta: por que foi que Deus escolheu um povo em detrimento dos demais?

Respondi dizendo que Deus, ao escolher Israel, não o fez em detrimento, mas em favor de todas as demais nações da terra. As raízes da formação do povo hebreu são descentralizadoras e missionárias, pois ele nasceu recebendo o apelo de beneficiar todos os demais povos com a mesma bênção com que foi contemplado por Deus.

Abraão foi abençoado por Deus para se tornar uma bênção para todas as demais famílias da Terra (Gn 12.3). Ele não deveria represar a bênção em si mesmo ou na própria família. Deus é criador de todos, ama a todos e oferece graça e bênçãos a todos os povos, línguas e nações.

A chave literária

O padrão dos onze primeiros capítulos

Observa-se um padrão nas narrativas registradas nos onze primeiros capítulos de Gênesis. Cada uma das quatro narrativas principais traz quatro elementos.

As quatro narrativas

A queda de Adão e Eva · o crime de Caim · o dilúvio · a torre de Babel.

Os quatro elementos

Descrição do pecado · discurso de Deus · castigo · manifestação da graça.

O padrão está bem explícito nas três primeiras narrativas. No episódio de Babel, porém, vemos a descrição do pecado, ouvimos o discurso de Deus e percebemos o castigo, que culminou em distanciamento, estranhamento e inimizade entre as nações. Mas onde está o quarto elemento? Onde está a graça de Deus? Cadê a cura para as nações?

Com Abraão se inaugura a história da salvação. Até então, o que parecia prevalecer era o pecado e a maldade humana, como se vê na Queda, em Caim, no dilúvio e em Babel, trazendo muita maldição (Gn 3.14, 17; 4.11; 5.29; 8.21; 9.25). Agora, com Abraão, esboça-se um período de bênção, graça e redenção. É digno de nota que, em Gênesis, a história da desgraça humana culmine em Babel, e que seja de Babel que Deus chame Abraão para dar início à história da salvação.

O contraste

Babel e Abraão, lado a lado

Quatro contrastes que o texto arma de propósito.

Quem sobe e quem desce

Em Babel, homens pretendem alcançar os céus de baixo para cima, por méritos próprios. No chamado de Abraão, é Deus quem desce até ele.

Poder e fraqueza

Em Babel, a soberba dos que pretendem dominar o mundo pelo poder e pelo conhecimento tecnológico (Gn 11.3). Abraão, em sua fraqueza, ousa acreditar na promessa de que seria pai.

Quem faz o nome

Os homens de Babel dizem: “tornemos célebre o nosso nome” (Gn 11.4). A Abraão, é Deus quem diz: “engrandecerei o seu nome” (Gn 12.2).

Dividir e abençoar

A torre divide as nações. Deus chama Abraão para formar uma nação cuja missão principal é tornar-se canal de bênção para todas as demais (Gn 12.3).

Já em Gênesis

A bênção começa a transbordar

O restante do livro relata como isso começa a se cumprir através de Abraão e da sua descendência.

Abençoa Ló e liberta cidades

Abraão é descrito abençoando Ló, que formará uma nação, e também libertando cinco cidades das mãos de seus opressores (Gn 13; 14).

Intercede por Sodoma e Gomorra

Não podemos esquecer de que Abraão intercedeu por cidades que não eram a sua (Gn 18).

Profeta para um rei estrangeiro

Deus diz a Abimeleque a respeito de Abraão: “ele é profeta e intercederá por você, e você viverá” (Gn 20.7).

Um pagão reconhece a bênção

Labão confessa a Jacó: “Descobri por meio de adivinhações que o Senhor Deus me abençoou por causa de você” (Gn 30.27).

José abençoa o Egito

Os últimos capítulos de Gênesis contam a história de José, que se tornou grande e poderoso a ponto de abençoar o Egito e muitas outras nações vizinhas.

O outro lado

O privilégio traz responsabilidade

Eis a grande vocação do povo de Deus. Mas não podemos esquecer de que tal privilégio traz consigo uma enorme responsabilidade.

Zacarias mostra o percurso inteiro, e vale acompanhá-lo em três passos.

O que Deus havia pedido

“Julguem segundo a verdade e sejam bondosos e misericordiosos uns com os outros. Não oprimam a viúva, nem o órfão, nem o estrangeiro, nem o pobre” (Zc 7.9-10). Repare que o estrangeiro está na lista. O povo chamado para abençoar as nações foi encarregado de cuidar justamente de quem vinha de fora.

O que eles fizeram

“Porém eles não quiseram atender e, rebeldes, me viraram as costas e taparam os ouvidos” (Zc 7.11). Endureceram o coração para não ouvir a lei nem as palavras enviadas pelos profetas.

O que veio depois

“Com uma tempestade, eu os espalhei por todas as nações que eles não conheciam” (Zc 7.14). A ironia é do próprio texto: quem não quis cuidar do estrangeiro acabou espalhado entre estrangeiros.

Jeremias diz o mesmo com outras palavras: “Em todos os lugares para onde os dispersarei, serão objeto de deboche, de provérbio, de escárnio e de maldição” (Jr 24.9). As Escrituras do Antigo e do Novo Testamento revelam que os descendentes de Abraão, de um modo geral, acabaram negligenciando a sua missão.

Vale aplicar isso a nós antes de aplicar a Israel. Uma igreja que recebe a bênção e a represa em si mesma repete o erro, e não aprende com ele.

Mas a última palavra não é o castigo. Ao mesmo povo, o mesmo profeta diz: “Casa de Judá e casa de Israel, assim como vocês foram uma maldição entre as nações, assim agora eu os salvarei, e vocês serão uma bênção. Não tenham medo! Pelo contrário, sejam fortes!” (Zc 8.13). O aviso e a promessa estão lado a lado.

É Gênesis 12.3 acontecendo. As nações não vêm por argumento nem por conquista: vêm porque viram Deus no meio do povo dele. Guarde esta cena, porque a seção seguinte mostra o mesmo movimento em Pentecostes.

A continuidade

Israel, Cristo e a Igreja

Mas Deus sempre cumpre as suas promessas.

Já nos primórdios, Deus havia prometido que nasceria quem pisaria a cabeça da serpente (Gn 3.15). Isso tem a ver com a promessa de que em Abraão haveria bênção para todas as famílias da terra, pois o Cristo é descendente de Abraão e nasceu para desfazer as obras do maligno e iluminar o mundo inteiro.

Israel, de um modo geral, não reconheceu Jesus como o Messias prometido (Jo 1.10-12). Então os gentios recebem o Cristo e são enxertados na oliveira (Rm 11.17-24). Repare que não existem duas oliveiras, mas somente uma. Jesus disse: “Eu sou a videira verdadeira” (Jo 15.1). Videira e oliveira são símbolos notórios de Israel; Jesus está afirmando ser o Israel verdadeiro.

Por essa razão Paulo diz aos cristãos gentios que antes estavam sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, e que agora foram aproximados pelo sangue de Cristo, que dos dois fez um, derrubando a parede de separação, para que já não sejam estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos e família de Deus, coerdeiros e coparticipantes da promessa (Ef 2.12-19; 3.6). E conclui: se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão e herdeiros segundo a promessa (Gl 3.28-29).

Por tudo isso Paulo pode declarar que os que têm fé é que são filhos de Abraão, e que as promessas foram feitas a Abraão e ao seu descendente, que é Cristo (Gl 3.7, 16; cf. Rm 4.10-18).

Os que estiverem firmes nessa pedra principal, quer judeus, quer gentios, pois “Deus não trata as pessoas com parcialidade” (Rm 2.11), é que agora são chamados de raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus (1Pe 2.4-10). É interessante notar que Pedro está citando ali uma promessa dirigida a Israel em Êxodo 19.5-6. Pedro estava convicto de que era através da Igreja que tal palavra tinha o seu cumprimento, e por isso ousou dirigi-la à Igreja.

Não é à toa que Jesus escolhe doze apóstolos, em alusão às doze tribos, e que o céu seja descrito como Nova Jerusalém, nome bem apropriado para o novo Israel de Deus.

Uma ressalva necessária. Dizer que não existem dois povos de Deus não significa que Deus tenha esquecido ou abandonado Israel. A esperança e a promessa em relação a Israel é que venha a ser enxertado de volta na mesma árvore em que agora estão os gentios (Rm 11.23-24).

O reverso

Pentecostes desfaz Babel

A Igreja é o mistério de Deus (Ef 3.4-6) que engloba todos os povos, formando um só corpo, com um só Senhor (Ef 4.4-5).

Percebe-se nitidamente a continuidade entre a missão de Israel (Gn 12.3) e a missão da Igreja: “vão e façam discípulos de todas as nações” (Mt 28.19-20); “serão minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até os confins da terra” (At 1.8).

Em Babel

A confusão das línguas e a divisão das nações. Cada um deixa de entender o outro.

Em Pentecostes

Uma mensagem compreendida por todos os povos, promovendo conversões e a unidade sob o senhorio do descendente de Abraão, que é o Filho de Deus e o legítimo Rei de todas as nações.

O Apocalipse usa a palavra “nação” ou “nações” mais de vinte vezes. Redimidos de todas as nações adoram ao Senhor (Ap 5.9; 7.9) com o cântico ao “Rei das nações” (Ap 15.3-4). E o Senhor disse que é necessário que o evangelho seja pregado a todas as nações, e só então virá o fim (Mt 24.14).

Aplicação

Nada de crentes de arquibancada

Desde o Antigo Testamento observa-se a grande preocupação de Deus com todos os povos.

O mesmo que nos disse “vinde a mim” também nos disse “ide por todo o mundo”. Jesus orou ao Pai para que não fôssemos tirados do mundo, pois Ele tem um plano para nós aqui, uma grande missão.

Pergunta para a igreja local

Quem, fora dos nossos muros, é hoje mais abençoado por existirmos? Se a resposta demorar, o diagnóstico já veio.

Pergunta para cada um

A bênção que recebi está represada em mim, na minha família e no meu grupo, ou está transbordando para alguém que não pode me retribuir?

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, e errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Quem, fora dos muros da sua igreja, é hoje concretamente mais abençoado pelo fato de ela existir?Ver resposta sugerida

A pergunta é deliberadamente concreta. Não vale responder “a comunidade” em geral. Vale nomear: quais pessoas, quais famílias, quais serviços.

Abraão foi abençoado para ser bênção, e a história de Gênesis mostra isso se cumprindo de forma verificável: ele abençoa Ló, liberta cidades, intercede por Sodoma, é reconhecido por Abimeleque e por Labão. A bênção deixou rastro fora da família.

Se a lista da sua igreja demorar a sair, o diagnóstico já veio. E a saída não é culpa, é começar por um nome só.

Como responder a quem diz que a Igreja tomou o lugar de Israel e que Deus o descartou?Ver resposta sugerida

Primeiro, reconheça o que há de verdadeiro na preocupação: a Escritura afirma que Deus é fiel e não volta atrás nos seus dons e chamado (Rm 11.29). Quem teme uma leitura de descarte está protegendo algo legítimo.

Depois mostre a imagem que o próprio Paulo escolheu, que não é de substituição, e sim de enxerto na mesma oliveira (Rm 11.17-24). Uma árvore só. Os ramos naturais que foram cortados podem ser enxertados de volta, e Paulo diz que Deus é poderoso para fazê-lo.

Portanto: não são dois povos, mas também não é abandono. E cuidado com o tom, porque essa conversa já produziu muito desprezo na história da Igreja. Responda com mansidão e temor (1Pe 3.15-16).

Bênção para todas as famílias da terra · Do artigo “Vocação Universal da Igreja: o legado de Abraão”, do Bispo Ildo Mello.