Cartas de consolo · 1781–1782

Cartas de Consolo

“Não existe acaso no mundo: a sorte é apenas outro nome para a Providência — só que encoberta.”

Da carta a Ann Bolton, 1781

Antes de ler

Quem procura Wesley polemista talvez se surpreenda com o Wesley que consola. Diante da aflição e da perda, ele não minimizava a dor nem oferecia frases feitas: apontava para a mão firme de Deus por trás de tudo. Reunimos aqui três cartas dessa ternura. Numa, ensina que nada acontece por acaso — que até as circunstâncias mais duras são guiadas por “infinita sabedoria e bondade” e servem para nos conformar a Cristo. Noutra, lembra a uma irmã em provação que “Deus é fiel” e não permite tentação acima das forças. E, na terceira, escrevendo sobre a morte de um jovem cheio de utilidade, confessa com humildade o limite da razão diante do mistério: “só nos resta admirar e adorar.”

É a esperança que atravessa todas elas: um pouco mais, e Deus “enxugará dos nossos olhos toda lágrima”. Não um consolo que nega o luto, mas o que o atravessa firmado na Providência e na promessa da ressurreição.

— Bispo Ildo Mello

Nada acontece por acaso

A Ann Bolton (“Nancy”) · Londres, 2 de janeiro de 1781

Minha querida Nancy, é um grande passo rumo à resignação cristã convencer-se plenamente daquela grande verdade: que não existe tal coisa como o acaso no mundo; que a “sorte” é apenas outro nome para a Providência — só que uma Providência encoberta. A um acontecimento cuja causa não aparece, costumamos dizer que “vem por acaso”. Ah, não! Ele é guiado por uma mão que não erra; é o resultado de infinita sabedoria e bondade. Assim são todas as circunstâncias aflitivas que a acompanharam, em sucessão quase constante, desde a infância. Aquele que “aperfeiçoou pelos sofrimentos o Autor da nossa salvação” (Hb 2.10) chamou você a andar pelo mesmo caminho, e para o mesmo fim: para que “aprenda a obediência” — uma obediência mais plena e interior, uma conformidade mais perfeita com a morte dele — “pelas coisas que sofre” (Hb 5.8).

Não tenho objeção alguma a que você passe um pouco de tempo com os nossos queridos amigos em Caerleon; creio que pode servir tanto para confirmar a sua saúde do corpo quanto para refrescar o seu espírito. E não duvido de que, por seu intermédio, Deus reavive neles a resolução de se entregarem inteiramente a ele. Um pouco mais, e ele “enxugará dos seus olhos toda lágrima; e não haverá mais tristeza, nem clamor, nem dor” — mas você ouvirá a grande voz do céu que diz: “Eis o tabernáculo de Deus com os homens; e Deus mesmo estará com eles e será o seu Deus!” (Ap 21.3-4). Continue a amar e a orar por, minha querida Nancy, o seu sempre afeiçoado irmão.

— John Wesley

Deus é fiel na provação

A Mrs. Barton · Londres, 6 de novembro de 1781

Minha querida irmã, sempre me alegro de ter notícias suas, sobretudo quando você me diz que Deus tem sido bom para com você. Confio que ele ainda lhe reserva bênçãos maiores, a você e ao pequeno rebanho de Beverley. Continuem, você e o seu marido, de mãos dadas, avivando o dom de Deus que há em vocês e correndo, com resignação e paciência, a carreira que lhes está proposta.

Vocês encontraram — e sem dúvida ainda encontrarão — múltiplas tentações; mas já tiveram prova cabal de que “Deus é fiel, e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; antes, com a tentação, dará também o escape, para que a possais suportar” (1Co 10.13). Ah, espera, pois, no Senhor! “Sê forte, e ele confortará o teu coração; espera no Senhor” (Sl 27.14). Sou, minha querida irmã, o seu afeiçoado irmão.

— John Wesley

Diante da morte, admirar e adorar

A Hester Ann Roe (“Hetty”) · Bristol, 1º de outubro de 1782 (trecho)

Minha querida Hetty, você fez muito bem em enviar-me um relato tão pormenorizado da última enfermidade e da feliz morte de Robert Roe. Isso pode incitar muitos a correr, com mais ânimo e paciência, a carreira que lhes está proposta. Que a nossa querida srta. Ritchie tenha chegado a Macclesfield justamente nessa hora foi um belo exemplo da Providência divina — não poderia ter vindo em ocasião mais oportuna.

A retirada de um instrumento tão útil quanto o seu falecido primo, em meio — ou antes, na aurora — da sua utilidade (especialmente sendo tão grande a seara e tão poucos os obreiros fiéis), é um daqueles atos da economia divina que deixam para trás a nossa razão: as nossas mentes estreitas não os conseguem compreender. Só nos resta admirar e adorar. Vivamos, pois, o dia de hoje. Sou, com todo o afeto, o seu.

— John Wesley

Traduções para o português a partir de The Letters of the Rev. John Wesley, A.M. (ed. John Telford, 1931), domínio público, cartas de 1781–1782. A carta a Hester Ann Roe é apresentada em trecho. Referências bíblicas na versão NAA (Nova Almeida Atualizada), abreviadas ao padrão brasileiro. Edição em português: Bispo José Ildo Swartele de Mello.

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