Cartas de correção a pregadores · 1760–1777

Cartas de Correção a Pregadores

“Dai-me cem pregadores que a nada temam senão ao pecado e a nada desejem senão a Deus.”

Da carta a Alexander Mather, 6 de agosto de 1777

Antes de ler

O que faz de alguém, de fato, um pregador? Wesley amava os seus pregadores — e justamente por isso os corrigia sem rodeios. Reunimos aqui três cartas, escritas ao longo de dezessete anos, a três homens diferentes, cada uma tocando um nervo distinto: a mente, a língua e o coração. Não são afagos; são repreensões fraternas, do tipo que só se dirige a quem se leva a sério.

A John Trembath (1760), Wesley aponta o dedo para a raiz de uma pregação que não crescia: a falta de leitura. “Raramente conheci um pregador que lesse tão pouco”; por isso o sermão dele era “vivo, mas não profundo”. A Samuel Furly (1764), o problema é o oposto — erudição a mais: manda o jovem talentoso largar o estilo rebuscado e falar “com as palavras mais comuns, pequenas e fáceis”, porque o ofício é salvar almas, não impressionar. E a Alexander Mather (1777), o velho grito contra a mornidão: pregadores que se tornaram “moles, enervados, temerosos” não abalam coisa alguma — Deus quer homens que não temam nada senão o pecado.

São palavras duras, e é bom ler com honestidade. Wesley não poupava a si mesmo do mesmo padrão — a Furly ele diz “você e eu”. O alvo não é talento perfeito, mas fidelidade; e nada disso é evangelho de mérito: o pregador, como todo mundo, é salvo pela graça, mediante a fé. Mas a graça, quando é real, torna a pessoa séria. Minha convicção, ao entregar estas cartas, é que o diagnóstico ainda corta: quem ensina ou prega, em qualquer tempo, ou lê e cresce ou permanece raso; ou fala com clareza ou desperdiça o fôlego; ou arde diante de Deus ou esfria pouco a pouco. Leia como quem se deixa examinar — e não como quem examina os outros.

— Bispo Ildo Mello

Leia — ou permanecerá raso

A John Trembath · 17 de agosto de 1760

Meu caro irmão, alguns dos nossos irmãos me falaram de certos boatos a seu respeito — que você andaria desperdiçando os seus bens, bebendo sem moderação e lesando a gente pobre. Estou convencido de que eram enganos. Alegro-me de que você esteja resolvido a frequentar a pregação com mais constância e a evitar aqueles passatempos e distrações que ofendem os seus irmãos; e também a fugir da conversa leviana e fútil, comportando-se em toda companhia com a seriedade e a utilidade que convêm a um pregador do evangelho.

O que muito o prejudicou no passado — e, receio, até hoje — é a falta de leitura. Raramente conheci um pregador que lesse tão pouco. E talvez, por descuidá-la, você tenha quase perdido o gosto por ela. Daí o seu talento na pregação não aumentar: está igual ao que era há sete anos. É vivo, mas não profundo; há pouca variedade, não há amplitude de pensamento. Só a leitura pode suprir isso, junto com a meditação e a oração diária. Você faz grande mal a si mesmo ao omiti-la. Nunca poderá ser um pregador profundo sem ela, tampouco um cristão inteiro.

Ah, comece! Reserve alguma parte de cada dia para os exercícios particulares. Você pode adquirir o gosto que ainda não tem: o que a princípio é enfadonho depois se torna agradável. Goste ou não, leia e ore diariamente. É pela sua vida; não há outro caminho; do contrário, você será um homem fútil todos os seus dias e um pregador bonitinho e superficial. Faça justiça à sua própria alma; dê-lhe tempo e meios para crescer. Não a deixe passar fome por mais tempo. Tome a sua cruz (Mt 16.24) e seja cristão por inteiro.

— John Wesley

Fale com palavras simples

A Samuel Furly · 15 de julho de 1764 (trecho)

Meu caro irmão, a clareza, em especial, é necessária para você e para mim, porque temos de instruir gente do mais simples entendimento. Por isso, nós, acima de todos, ainda que pensemos como os sábios, devemos falar com o povo comum. Devemos usar sempre as palavras mais comuns, pequenas e fáceis — desde que puras e próprias — que a nossa língua oferece.

Quando eu já era membro da Universidade havia uns dez anos, escrevia e falava mais ou menos como você faz agora. Mas, quando falava à gente simples no Castelo ou na cidade, notava que ficavam de boca aberta, olhando sem entender. A concisão, que hoje me é quase natural, dá a dose de força suficiente; e, se percebo alguma expressão empolada, ponho-a para fora sem dó. Você é ministro de Cristo, que fala e escreve para salvar almas (cf. 1Co 9.22). Tenha sempre esse fim diante dos olhos, e nunca usará de propósito uma palavra difícil.

— John Wesley

Homens que a nada temam senão o pecado

A Alexander Mather · Bristol, 6 de agosto de 1777 (trecho)

Não, Aleck, não! Temo que muitos dos nossos pregadores se tenham tornado moles, enervados, temerosos da vergonha, do esforço e da dificuldade — sem aquele espírito que Deus deu a Thomas Lee em Pateley Bridge, ou a você em Boston.

Dai-me cem pregadores que a nada temam senão ao pecado e a nada desejem senão a Deus, e não me importa nem um fio de palha que sejam clérigos ou leigos: só esses abalarão as portas do inferno (cf. Mt 16.18) e edificarão o reino dos céus sobre a terra. Mas cristãos apenas de nome nunca fizeram, nem farão, semelhante obra.

— John Wesley

Traduções para o português a partir de The Letters of the Rev. John Wesley, A.M. (ed. John Telford), domínio público: cartas a John Trembath (17 de agosto de 1760), a Samuel Furly (15 de julho de 1764, trecho) e a Alexander Mather (6 de agosto de 1777, trecho). Fonte digital: Wesley Center Online. Referências bíblicas na versão NAA (Nova Almeida Atualizada), abreviadas ao padrão brasileiro. Edição em português: Bispo José Ildo Swartele de Mello.

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