Cartas sobre as missões · 1784–1786
“As almas valem mais do que o ouro.”
Da carta a William Black, 15 de outubro de 1784
Como se planta o evangelho num campo novo? Wesley já passava dos oitenta anos quando escreveu estas cartas, e o mundo metodista havia mudado. Terminada a Revolução Americana, a obra crescia depressa do outro lado do Atlântico e alcançava terras frias como a Nova Escócia e a Terra Nova. Ali trabalhavam dois pioneiros: William Black, jovem pregador que Wesley segurou no campo em vez de deixá-lo cruzar o mar para estudar, e Freeborn Garrettson, “um homem segundo o próprio coração de Wesley”, enviado de Halifax para plantar sociedades entre gente dispersa.
Nestas três cartas vê-se a mente missionária de Wesley em ação. Ele fixa o alvo — “faça tudo o que puder por um bom Senhor” — e o método: unir logo os despertados, ensinar-lhes bem as regras, não arrotear mais terra do que se pode cultivar, amar a Igreja em vez de disputá-la. E, no meio de tudo, o coração pastoral: pressionar os novos crentes a prosseguir para a plena santificação, alcançável agora pela simples fé. Um cuidado ao ler: o zelo missionário de Wesley nunca foi presunção de que todos, no fim, serão salvos. O evangelho é oferecido a todos e alcança quem o recebe pela fé; a graça convida, mas pode ser resistida. Missão, para ele, é justamente por isso urgente — porque as almas, que “valem mais do que o ouro” (cf. Mt 16.26), precisam ouvir e crer.
Fica o exemplo para a nossa própria vocação missionária: ir com ousadia, mas com sabedoria; ganhar pessoas, mas firmá-las; e medir o êxito não pelo tamanho da obra, mas pelo número dos que passam a andar com Deus.
— Bispo Ildo Mello
Meu querido irmão, uma carta sua, tempos atrás, me deu esperança de encontrá-lo na Inglaterra, pois você parecia desejoso de passar aqui uma temporada para progredir nos estudos. Mas, como agora entrou num estado diferente, não creio que nos veremos neste mundo. De todo modo, você tem aí um largo campo de ação, sem precisar peregrinar até a Europa. A sua paróquia atual já é ampla o bastante — a Nova Escócia e a Terra Nova. Não o aconselho a ir além. Nas outras províncias há pregadores em abundância; eles podem lhe ceder quatro pregadores mais facilmente do que você pode ceder um a eles.
Não me alegra saber que o senhor Scurr pretende deixar a Nova Escócia rumo ao Sul: é sair de um lugar onde faz muita falta para outro onde não é necessário. Ainda que ganhasse com isso dez mil libras, seria um péssimo negócio — partindo do princípio, que você e eu compartilhamos, de que as almas valem mais do que o ouro. A paz esteja com todos vocês!
— John Wesley
Meu querido irmão, o Dr. Coke fala de você num dos seus diários; de modo que, embora eu não o conheça de vista, o seu caráter não me é estranho. Assim que puder, mande-me um relato mais detalhado das suas experiências e viagens. Não é improvável que Deus abra um caminho para você visitar a Inglaterra — o que poderia lhe render mais força e mais luz. É coisa desejável que os filhos de Deus partilhem uns com os outros a sua experiência, e isso costuma ser mais proveitoso quando pode ser feito cara a cara. Até que a Providência abra o caminho para você conhecer a Europa, faça na América tudo o que puder por um bom Senhor.
Alegro-me de que você e o irmão Cromwell tenham empreendido esse trabalho de amor: a visita à Nova Escócia. Não duvido de que agem em pleno acordo com aquele punhado de irmãos que estavam quase sozinhos até vocês chegarem. O mais sábio será tornar todos os que desejam unir-se plenamente familiarizados com o plano metodista, e acostumá-los, desde o início, à observância cuidadosa de todas as nossas regras. Que nenhum deles se contente em ser cristão pela metade. O que quer que façam, façam-no com todas as forças (Ec 9.10); e, assim que algum deles encontrar a paz com Deus, o melhor é exortá-lo a prosseguir para a perfeição (Hb 6.1). Quanto mais forte e vigilantemente você insistir para que todos os crentes aspirem à plena santificação — como algo alcançável agora, pela simples fé —, mais toda a obra de Deus prosperará. A paz de Deus esteja com o espírito de vocês!
— John Wesley
Meu querido irmão, você tem grande motivo para agradecer a Deus por deixá-lo ver o fruto do seu trabalho. Sempre que alguém desperta, você faz bem em uni-lo logo aos demais. Mas não o aconselho a avançar depressa demais. Não é prudente arrotear mais terra do que se pode cultivar, nem pregar em mais lugares do que você e os seus irmãos consigam atender com regularidade. Pregar uma vez num lugar e nunca mais raramente faz algum bem; só alerta o inimigo e o deixa mais de sobreaviso contra um primeiro assalto.
Onde quer que haja o culto da Igreja, não aprovo que se marque uma reunião na mesma hora; pois amo a Igreja da Inglaterra e quero ajudá-la, não combatê-la, em tudo o que puder. Entregando você Àquele que é poderoso para guiá-lo e fortalecê-lo em todas as coisas, sou o seu afeiçoado amigo e irmão.
— John Wesley
Traduções para o português a partir de The Letters of the Rev. John Wesley, A.M. (ed. John Telford, 1931), domínio público, cartas de 1784–1786. As cartas a William Black e a segunda a Freeborn Garrettson são apresentadas em trecho. Referências bíblicas na versão NAA (Nova Almeida Atualizada), abreviadas ao padrão brasileiro. Edição em português: Bispo José Ildo Swartele de Mello.