Uma Só Carne · Curso para CasaisAula 4

Comunicação: a arte de se fazer um

“Todo homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar.”Tiago 1.19 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Tg 1.19-26; Ef 4.25-32; Pv 15.1-4

Para começar

Dois mundos aprendendo a conversar

Casamento é o encontro de duas histórias, dois temperamentos, duas criações. O milagre de “uma só carne” passa, no dia a dia, pela boca e pelos ouvidos.

A falta de comunicação, as palavras duras e cruéis, a carência de palavras amigas e de elogios em particular e em público: poucas coisas desgastam tanto um casamento. E o contrário também é verdade: “a resposta branda desvia o furor” (Pv 15.1) e “a língua serena é árvore de vida” (Pv 15.4). Nesta aula, vamos mapear os atritos comuns, identificar os venenos que envenenam a conversa e aprender os antídotos bíblicos.

O mapa

As áreas de atrito de todo casal

Precisamos aprender a lidar um com o outro. Reconhecer o terreno já é meio caminho: nenhuma dessas áreas é exclusividade do seu casamento.

Temperamentos diferentes: reagimos de modos distintos diante do mesmo fato.
Feridas da alma: traumas e dilemas interiores; é preciso conhecer a história do cônjuge e ser sensível a ela.
Criação e hábitos arraigados: toalhas e roupas jogadas, padrões de limpeza e organização.
Gostos diferentes e a supervalorização do irrisório: a tempestade no copo d’água (o ronco, por exemplo).
Decisões unilaterais: trocar de emprego, comprar, mudar, e comunicar depois. O ideal é profunda participação mútua nas decisões.
Finanças: prioridades de gasto, dívidas, estilo de vida além da renda (1Tm 6.8; Fp 4.11-12).
Famílias e amigos: intromissões e limites (tratamos na Aula 3).
Sexo e afeto, negligência, vícios, ciúmes, mentiras: áreas que pedem conversa franca e, quando necessário, ajuda pastoral.

O alerta

Os quatro venenos da conversa

O pesquisador John Gottman e seus colaboradores, depois de décadas de observação de milhares de casais, identificaram quatro padrões de comunicação que, se instalados, predizem a ruína do relacionamento; chamaram-nos de “quatro cavaleiros”. Aqui os chamamos de quatro venenos, e a Escritura os conhecia muito antes.

1

Crítica global

Não é a queixa pontual (“fiquei chateada porque você se atrasou”), mas o ataque ao caráter (“você é sempre egoísta”). Generaliza, rotula, condena a pessoa em vez de tratar o fato.

2

Desprezo

Sarcasmo, deboche, revirar de olhos, apelidos que rebaixam, imitar o cônjuge diante dos filhos ou de visitas. É o veneno mais letal de todos: fala de cima para baixo.

3

Defensividade

Nunca reconhecer erro, devolver toda queixa com outra queixa, fazer-se sempre de vítima. A conversa vira placar, e ninguém sai do lugar.

4

Muro de pedra

Fechar-se, sair da conversa, punir com silêncio por dias. O silêncio punitivo é uma das “raposinhas” que devastam a vinha (Ct 2.15). Atenção: nem todo afastamento é punição; há quem fique sobrecarregado na discussão e precise genuinamente de pausa. A diferença é a pausa anunciada, com combinação de volta.

“Nenhuma palavra torpe saia da boca de vocês, mas apenas a que for boa para edificação” (Ef 4.29). Desprezar o cônjuge com a língua é demolir a própria casa (Pv 14.1).

O remédio

Os antídotos bíblicos

Cada veneno tem antídoto, e todos eles já estavam em Efésios 4 e Tiago 1.

Contra a crítica global: a queixa mansa e específica. “Falem a verdade cada um com o seu próximo” (Ef 4.25), tratando o fato, sem julgar o caráter: “eu me senti assim quando aconteceu isso”, em vez de “você é sempre…”.
Contra o desprezo: a honra deliberada. “Prefiram-se em honra uns aos outros” (Rm 12.10). Elogiar em particular e em público, agradecer o que o outro faz, tratar o cônjuge diante dos filhos como quem trata um tesouro.
Contra a defensividade: a humildade de reconhecer a própria parte. Somos humildes para admitir os nossos erros ou sempre nos justificamos? Comece a resposta com o que você errou, não com o que o outro fez.
Contra o muro de pedra: a pausa com hora de volta. “Irem-se e não pequem; não se ponha o sol sobre a ira de vocês” (Ef 4.26). Pausar quando a conversa esquenta é sábio; sumir é castigo. Combinem quando retomarão: “preciso me acalmar; voltamos à conversa quando estivermos mais tranquilos, ainda hoje”, e cumpram o combinado.

O cotidiano

Os pequenos acenos que constroem (ou destroem)

A comunicação do casal não se decide apenas nas conversas difíceis, mas nos incontáveis momentos pequenos de todo dia.

Um comenta algo que leu; o outro levanta os olhos do celular, ou não. Um estende a mão no sofá; o outro percebe, ou não. A pesquisa com casais mostra que os que permanecem juntos são os que respondem à imensa maioria desses pequenos acenos, enquanto os que se separam os ignoram na maior parte das vezes; e que os casamentos estáveis mantêm, mesmo nos momentos de conflito, uma predominância marcante de interações positivas sobre as negativas.

A Escritura chama isso de não desprezar as raposinhas (Ct 2.15) e de vencer o mal com o bem (Rm 12.21): o tempo excessivo no celular, a indiferença e a falta de elogios derrubam a vinha aos poucos; os toques, os bilhetes, o interesse genuíno e as palavras de graça a reconstroem aos poucos. “A morte e a vida estão no poder da língua” (Pv 18.21), e também no poder da atenção.

Para o casal

Para conversar a dois

Escolham um momento calmo. Nesta conversa, é proibido usar as palavras “sempre” e “nunca”.

1. Dos quatro venenos (crítica global, desprezo, defensividade, muro de pedra), qual é a minha tentação mais frequente? (Cada um confessa o seu, não o do outro.)
2. Que aceno meu você mais gostaria que eu percebesse? E que horário do nosso dia poderia virar o nosso momento de conversa sem telas?
3. Existe algum assunto que temos evitado por medo de briga? Marquem dia e hora para conversar sobre ele usando os antídotos desta aula.

Exercício da semana: pratiquem o teste da escuta uma vez por dia: um fala por dois minutos sobre o seu dia; o outro repete o essencial com as próprias palavras até ouvir “é isso”; depois troquem. Parece simples; poucas disciplinas mudam tanto um casamento.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe. Errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Meu cônjuge não faz o curso comigo e não muda o jeito de falar. Adianta eu mudar sozinho?Ver resposta sugerida
Adianta, e muito, ainda que não seja garantia de transformação do outro. Primeiro, porque a obediência a Deus não é condicionada à reciprocidade: “no que depender de você, tenha paz com todos” (Rm 12.18), e Pedro fala expressamente do cônjuge ganho “sem palavra alguma, por meio do procedimento” do outro (1Pe 3.1-2). Segundo, porque a dinâmica da conversa é um sistema: quando um para de devolver crítica com crítica e responde com brandura, o ciclo perde combustível (“a resposta branda desvia o furor”, Pv 15.1); é impressionante o que muda quando muda um. Terceiro, porque o seu crescimento tem valor diante de Deus independentemente do resultado (Cl 3.23). Dito isso, mudar sozinho não significa aceitar tudo calado: queixas legítimas continuam sendo apresentadas, com mansidão e especificidade. E persevere em oração: a graça que está trabalhando em você sabe o caminho do coração do outro.
Pausar uma discussão não é fugir dela? Como usar bem a pausa?Ver resposta sugerida
A diferença está no compromisso de volta. Fugir é o muro de pedra: sair, calar por dias, punir com ausência, deixando o outro falando com a parede. Pausar é sabedoria: quando o coração dispara e as palavras começam a ferir, “tardio para falar, tardio para se irar” (Tg 1.19) recomenda interromper antes do estrago. A pausa cristã tem três marcas. É anunciada: “preciso de um tempo para me acalmar”; nunca é silêncio que simplesmente cai. Tem prazo combinado: “voltamos à conversa quando estivermos calmos, ainda hoje”, e o combinado se cumpre, à luz de “não se ponha o sol sobre a ira” (Ef 4.26), que nos proíbe de engavetar a raiva de um dia para o outro. E tem propósito: usar o intervalo para orar e se examinar (“Senhor, qual é a minha parte nisso?”), não para montar a acusação final. Usada assim, a pausa não interrompe a comunicação; salva-a.

Para casa e próxima aula

Para aprofundar. Medite em Efésios 4.25-32 e Tiago 1.19-26 e, sobre as raposinhas que devastam a vinha, em Cantares 2.15.

Tarefas

Praticar o teste da escuta diariamente; e cada um vigiar, durante a semana, o próprio veneno confessado na conversa a dois, substituindo-o pelo antídoto correspondente.

Aula 5

Conflitos, perdão e reconciliação: o que fazer quando brigamos, as dez diretrizes de Romanos 12 e o poder das brasas vivas. Ir para a Aula 5 →

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA) e Almeida Revista e Atualizada (RA). · Bispo Ildo Mello