Profecias do Antigo TestamentoAula 10

Daniel 2 e 7: a pedra e o Filho do Homem

“Nos dias destes reis, o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído.”Daniel 2.44

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Dn 2.31-45; 7.9-14; Mc 1.14-15

Para começar

Dois sonhos, uma história

Encerramos o curso com as duas visões que carregam a teologia bíblica do Reino: a estátua de Daniel 2 e as feras de Daniel 7. São a mesma história dos impérios humanos, vista de dois ângulos.

Vista de baixo

Nabucodonosor sonha com uma estátua colossal e deslumbrante: ouro, prata, bronze e ferro. É como os impérios se veem: grandiosos, brilhantes, imponentes.

Vista do céu

Daniel vê os mesmos impérios como feras que sobem do mar revolto: predadores devorando predadores. É como Deus os vê.

E, nas duas visões, a história desemboca no mesmo lugar: um Reino que não vem de mãos humanas e que jamais será destruído.

Daniel 2

A estátua e a pedra

Quatro impérios se sucedem: a cabeça de ouro é a Babilônia (Dn 2.38); depois vêm o Império Medo-Persa, a Grécia e, por fim, Roma, o reino de ferro.

Então entra em cena o elemento decisivo: “uma pedra foi cortada, sem auxílio de mãos, feriu a estátua nos pés… e a pedra que feriu a estátua se tornou grande montanha, que encheu toda a terra” (Dn 2.34-35). E o próprio Daniel data o acontecimento:

“Mas, nos dias destes reis, o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído… esmiuçará e consumirá todos estes reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre” (Dn 2.44).

“Sem auxílio de mãos”: o Reino não nasce de política, exército ou conspiração humana. “Nos dias destes reis”: dentro da era dos impérios da estátua, cujo último é Roma. A profecia marca o endereço e a época do Reino de Deus.

O cumprimento

“O tempo está cumprido”

Nos dias do Império Romano, um galileu anuncia: “O tempo está cumprido, e o Reino de Deus está próximo; arrependam-se e creiam no evangelho” (Mc 1.15).

Jesus não apenas anunciou a proximidade; declarou a chegada: “Se eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o Reino de Deus sobre vocês” (Mt 12.28). E descreveu a natureza do Reino de um modo que frustrava as expectativas: “Não vem o Reino de Deus com visível aparência… porque o Reino de Deus está entre vocês” (Lc 17.20-21); “O meu Reino não é deste mundo” (Jo 18.36).

A pedra cresce como cresce uma semente. As parábolas de Mateus 13 mostram o Reino se estabelecendo de modo paulatino, como o grão de mostarda que se torna árvore e o fermento que leveda toda a massa. Sal, luz e fermento: participação discreta, mas eficaz. O sal está na comida, e ninguém diz “que sal gostoso”; a luz está no ambiente, e ninguém aplaude a luz; o fermento permeia a massa sem aparecer. Assim o Reino avança na era presente.

Já e ainda não

O mistério do Reino

O estabelecimento do Reino não de modo abrupto, como uma erupção, mas gradual, como um grão de mostarda, foi surpreendente e até frustrante para os discípulos, que esperavam um Messias que restaurasse o reino de Israel de modo visível e incontestável.

O mistério se desvenda em Cristo: o Filho do Homem glorioso de Daniel 7 é, ao mesmo tempo, o Servo Sofredor. “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos” (Mc 10.45). A entrada triunfal foi num jumentinho; o trono foi alcançado pela cruz; a coroa era de espinhos. O próprio Pedro, logo depois de confessar o Messias, escandalizou-se com a cruz (Mt 16.21-23), porque cogitava das coisas humanas.

O cristão vive nessa tensão: caminha à sombra da cruz e à luz da ressurreição. A batalha decisiva já foi ganha; a luta continua até a Segunda Vinda, como vimos desde a Aula 1.

Daniel 7

O Filho do Homem

Na visão noturna, depois das feras, tronos são postos e o Ancião de Dias se assenta. E então: “eis que vinha com as nuvens do céu um como o Filho do Homem, e dirigiu-se ao Ancião de Dias… Foi-lhe dado domínio, e glória, e o reino, para que os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem; o seu domínio é domínio eterno, que não passará” (Dn 7.13-14).

“Filho do Homem” tornou-se o título favorito de Jesus para si mesmo. E, no momento mais solene do seu julgamento, diante do sumo sacerdote, ele reivindicou exatamente esta visão: “Vocês verão o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu” (Mt 26.64). Foi por essa declaração que o condenaram; e é essa declaração que o Apocalipse ecoa: “Eis que ele vem com as nuvens, e todo olho o verá” (Ap 1.7).

Encerramento

Síntese: do Éden ao Reino eterno

Dez aulas até aqui, um único método: reconhecer o contexto, deixar a Bíblia interpretar a própria Bíblia e respeitar a linguagem dos profetas. E um único centro: Jesus Cristo.

Gênesis 3.15. A promessa entre os destroços: o Descendente que esmaga a serpente.
Isaías 65. Os novos céus e a nova terra, que Pedro e João colocam na consumação.
Zacarias 14. O Dia do Senhor, lido por Jesus, e o Rei sobre toda a terra.
Daniel 9. As Setenta Semanas cumpridas no Ungido, sem parêntese.
Isaías 17. Damasco: profecia tem endereço, e o fio conduz ao Emanuel.
Ezequiel 40–48. O templo da visão, cumprido em Cristo, na Igreja e na cidade sem santuário.
Joel 2. O Espírito derramado sobre toda a carne: “isto é o que foi dito”.
Jeremias 31. A Nova Aliança, servida no cálice, exposta em Hebreus.
Ezequiel 37. Os ossos que vivem e o único rebanho do único Pastor.
Daniel 2 e 7. A pedra que cresce e o Filho do Homem que vem com as nuvens.

“O seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído” (Dn 7.14). Maranata: vem, Senhor Jesus.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe. Errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

“Quem quiser ser o maior seja o servo de todos” (Mc 10.44). Onde o seu jeito de liderar e servir se parece mais com a estátua do que com a pedra?Ver resposta sugerida
A estátua é o modelo dos impérios: brilho, tamanho, imposição, poder que desce de cima esmagando. A pedra é o modelo do Reino: começa pequena, cresce sem alarde e vence sem mãos humanas. Jesus disse com todas as letras que entre os seus não seria como entre os grandes da terra, que dominam; o maior é o que serve (Mc 10.42-45), e ele mesmo lavou pés na véspera de receber a coroa de espinhos (Jo 13.5). O exame é concreto: eu busco cargos ou busco toalha? Minha autoridade em casa, na igreja e no trabalho produz medo ou produz vida? Meu incômodo com a discrição do Reino, a vontade de resultados visíveis e rápidos, não seria a velha expectativa da estátua? O poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza (2Co 12.9), e o tesouro anda em vasos de barro (2Co 4.7). Quem entendeu a pedra para de invejar a estátua.
Como responder, com mansidão, a quem ensina que o Reino foi adiado por causa da rejeição de Israel e só será estabelecido no milênio?Ver resposta sugerida
Faça o caminho dos próprios textos. Primeiro, Daniel 2.44 data o Reino: “nos dias destes reis”, os da era romana; adiar o Reino é mover a data que o próprio Daniel fixou. Segundo, Jesus declarou o cumprimento com verbos no presente: “o tempo está cumprido” (Mc 1.15), “é chegado o Reino de Deus sobre vocês” (Mt 12.28); e Paulo escreve a cristãos que já foram “transportados para o Reino do Filho do seu amor” (Cl 1.13). Um reino adiado não transporta ninguém. Terceiro, reconheça o que há de verdadeiro na expectativa do irmão: a manifestação plena e visível de fato ainda vem, quando o Filho do Homem vier com as nuvens (Dn 7.13; Mt 26.64). A resposta bíblica não é “o Reino já veio inteiro” nem “o Reino ainda não veio”; é o já e o ainda não: inaugurado na primeira vinda, consumado na segunda. Nisso, os dois podem se encontrar esperando juntos o mesmo Rei (2Tm 2.24-25).

Para casa e próxima aula

Para aprofundar. Esta aula nasceu do estudo O Mistério do Reino de Deus, “já e ainda não”, do Bispo Ildo Mello, que você pode ler e compartilhar em página própria.

Tarefas

Ler Daniel 2.31-45 e 7.9-27 ao lado de Marcos 1.14-15, Mateus 12.28 e Colossenses 1.13, anotando os verbos que indicam o Reino presente; e escrever, em meia página, o “já e ainda não” do Reino com as suas próprias palavras.

Aula 11

Gênesis 12 e 15, as promessas a Abraão: a raiz de todas as promessas, o Descendente que é Cristo e a herança que vai do território ao mundo renovado. Ir para a Aula 11 →

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA) e Almeida Revista e Atualizada (RA). · Bispo Ildo Mello