Profecias do Antigo TestamentoAula 11

Gênesis 12 e 15: as promessas a Abraão

“Abençoarei os que te abençoarem… e em ti serão benditas todas as famílias da terra.”Gênesis 12.3

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Gn 12.1-9; 15.1-21; Rm 4.13-17; Gl 3.6-29; Hb 11.8-16

Para começar

A raiz de todas as promessas

Depois da queda e da confusão de Babel, Deus recomeça a história da redenção chamando um único homem: “Saia da sua terra… e você será uma bênção” (Gn 12.1-2).

Na Aula 1, vimos a primeira profecia: o descendente da mulher que esmagaria a serpente (Gn 3.15). Em Gênesis 12, essa promessa ganha endereço: o Descendente virá pela família de Abraão. Praticamente tudo o que os profetas anunciam depois, terra, povo, bênção, reino, é desdobramento do que Deus jurou a este homem.

E há um detalhe que Paulo considera decisivo: a promessa foi dada e crida antes da circuncisão e séculos antes da lei. “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi atribuído para justiça” (Gn 15.6; Rm 4.9-13). O pai de todos os crentes foi justificado do mesmo modo que nós: pela fé.

Gênesis 12 e 15

As três promessas

O juramento de Deus a Abraão, selado na aliança de Gênesis 15, tem três fios.

1

Uma terra

“À sua descendência darei esta terra” (Gn 12.7; 15.18). O fio mais disputado, e o que o Novo Testamento mais alarga, como veremos.

2

Uma descendência

Numerosa como as estrelas (Gn 15.5), mas concentrada num Descendente (Gl 3.16). A promessa tem alvo antes de ter multidão.

3

Uma bênção universal

“Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.3). Paulo chama isso de evangelho antecipado: “a Escritura… preanunciou o evangelho a Abraão” (Gl 3.8).

Repare no alcance do terceiro fio: desde o início, o alvo da eleição de Abraão nunca foi um privilégio fechado, mas uma bênção aberta a todas as famílias da terra. A eleição é para a missão.

O alvo

O Descendente é Cristo

Paulo lê a promessa com precisão de gramático: “Ora, as promessas foram feitas a Abraão e ao seu descendente. Não diz: e aos descendentes, como se falando de muitos, porém como de um só: e ao teu descendente, que é Cristo” (Gl 3.16).

As promessas feitas a Abraão pertencem ao seu Descendente por excelência, e nele se cumprem. E o monte Moriá já pregava isso: quando Abraão esteve prestes a sacrificar o filho da promessa, Deus interveio e proveu o substituto (Gn 22.8-14). Ali, em figura, Deus apontava para o Verdadeiro Filho da Promessa, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, o Descendente que pisaria a cabeça da serpente, cumprindo a promessa feita no Éden.

A família

Os da fé são filhos de Abraão

“Sabei, pois, que os da fé é que são filhos de Abraão… De modo que os da fé são abençoados com o crente Abraão” (Gl 3.7-9).

A promessa é para toda a descendência de Abraão, o que inclui os gentios que são filhos da fé, e não somente os que receberam a lei (Rm 4.16-17). É através dos filhos espirituais de Abraão que se cumpre a promessa de que ele seria pai de muitas nações. E Paulo arremata: “Se vocês são de Cristo, também são descendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa” (Gl 3.29).

Por isso não há dois povos de Deus. A Igreja nasceu como o remanescente crente de Israel, e os gentios foram acrescentados à mesma oliveira (Rm 11.17). Há muito mais continuidade do que descontinuidade (Ef 2.18-20; 3.6): não houve mudança no plano de Deus, mas revelação progressiva. O verdadeiro herdeiro de Abraão é o que tem fé no Messias prometido.

O fio disputado

E a terra? Herdeiro do mundo

É aqui que o dispensacionalismo concentra a sua leitura: a promessa da terra exigiria a posse perpétua da Palestina pelo Israel étnico. O Novo Testamento responde alargando, e muito, o mapa.

“Não foi por intermédio da lei que a Abraão ou a sua descendência coube a promessa de ser herdeiro do mundo, e sim mediante a justiça da fé” (Rm 4.13).

Paulo não encolhe a promessa da terra; ele a expande do território para o mundo, o mundo renovado, a nova terra, a Nova Jerusalém, uma nova Canaã. E Hebreus revela que os próprios patriarcas já liam assim: Abraão, Isaque e Jacó habitaram em tendas na terra prometida, “como em terra alheia”, porque aguardavam “a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e edificador” (Hb 11.9-10).

O que os patriarcas não fizeram

Não trataram Canaã como o cumprimento final. “Morreram na fé, sem ter obtido as promessas, vendo-as de longe… confessando que eram estrangeiros e peregrinos” (Hb 11.13).

O que os patriarcas esperavam

“Aspiram a uma pátria superior, isto é, celestial. Por isso, Deus… lhes preparou uma cidade” (Hb 11.16). A mesma esperança da Igreja: “a nossa pátria está nos céus” (Fp 3.20).

Por isso, transformar a posse da terra do Oriente Médio em artigo de fé profético é encolher a promessa que Deus expandiu. As promessas territoriais não apontam para um pedaço de terra, mas para a pátria celestial que o próprio Abraão esperava, da qual Cristo é o herdeiro, e nós, os coerdeiros.

Aplicação

Coerdeiros com Cristo

“Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo” (Rm 8.17).

Tudo o que foi prometido a Abraão desemboca em quem está em Cristo: a justificação pela fé, a família de todas as nações, a herança que vai muito além desta vida. Os crentes, judeus e gentios, já estão assentados com Cristo nos lugares celestiais (Ef 2.6) e já têm “chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial” (Hb 12.22). A nossa vocação é celestial (Hb 3.1).

E a eleição continua sendo para a missão. Se em Abraão seriam benditas todas as famílias da terra, o povo de Abraão não pode viver fechado em si. Ser filho de Abraão é carregar bênção para os outros: a mesma lógica de “vocês são o sal da terra e a luz do mundo” (Mt 5.13-14).

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe. Errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Abraão creu numa promessa que só veria “de longe” (Hb 11.13) e caminhou a vida inteira como peregrino. O que a fé dele corrige na nossa pressa por cumprimentos imediatos?Ver resposta sugerida
Corrige a régua com que medimos a fidelidade de Deus. Abraão recebeu a promessa, esperou vinte e cinco anos por Isaque, e morreu sem possuir da terra mais do que um túmulo em Macpela (Gn 23), sem por isso concluir que Deus falhou; ele entendeu que a promessa era maior do que o prazo dele (Hb 11.13-16). Nossa geração mede a fé em semanas: se a resposta não vem logo, muda-se de igreja, de oração ou de Deus. A fé de Abraão ensina o contrário: quem crê num Deus eterno pode receber respostas que atravessam gerações, e a parte que nos cabe é a obediência de hoje (“saiu, sem saber para onde ia”, Hb 11.8). Pastoralmente, isso consola quem planta sem ver colheita: talvez a sua oração seja respondida nos seus filhos, como a de Abraão foi respondida em Cristo (Gl 3.16). Peregrino não é quem não tem pátria; é quem sabe onde ela fica (Fp 3.20).
Como conversar, com mansidão, com um irmão que trata a posse da terra pelo Israel moderno como cumprimento obrigatório da promessa a Abraão?Ver resposta sugerida
Comece pelo que há de bom: ele quer levar a promessa a sério e ama a fidelidade de Deus; nada disso precisa ser apagado. Depois faça o caminho dos textos, em três paradas. Primeira: quem é o herdeiro da promessa? “E ao teu descendente, que é Cristo” (Gl 3.16); a discussão sobre a herança começa pelo Herdeiro. Segunda: qual é o tamanho da herança? Paulo diz “herdeiro do mundo” (Rm 4.13); o Novo Testamento não encolhe a promessa para um território, ele a expande para a nova criação. Terceira: o que o próprio Abraão esperava? “A cidade que tem fundamentos” (Hb 11.10); se reduzimos a promessa ao mapa do Oriente Médio, esperamos menos do que o próprio Abraão esperava. Encerre com Romanos 11: o cuidado de Deus com Israel continua, e a nossa parte é oração e humildade (“não se glorie contra os ramos”, Rm 11.18), não palpite geopolítico. Divergir de uma leitura profética não é desamar Israel; é desejar-lhe a herança maior (Rm 10.1).

Para ver e rever

A aula em vídeo

Se você preferir ouvir o argumento inteiro de uma vez, esta exposição do Bispo Ildo percorre o mesmo caminho da lição.

Herdeiros das promessas feitas a Abraão · Bispo Ildo Mello. Veja também, no mesmo canal: A vocação de Abraão, Exercendo a fé de Abraão e Quando Deus irá cumprir as promessas territoriais?

Para casa e próxima aula

Para aprofundar. Esta aula nasceu do estudo Promessas feitas a Abraão cumprindo-se em Cristo, do Bispo Ildo Mello, que você pode ler e compartilhar em página própria.

Tarefas

Ler Gênesis 12.1-9, 15.1-21 e Gálatas 3.6-29, anotando cada promessa e onde o Novo Testamento a colhe; e escrever, em poucas linhas, a resposta à pergunta: quem é o herdeiro da promessa, e qual é o tamanho da herança?

Aula 12

2Samuel 7 e o trono de Davi: a promessa dinástica, o anúncio do anjo a Maria e a leitura que Pedro faz em Pentecostes: o trono cumprido na ressurreição e exaltação de Jesus. Ir para a Aula 12 →

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA) e Almeida Revista e Atualizada (RA). · Bispo Ildo Mello