Diário de Charles Wesley › Capítulo 15
Diário · Na linguagem de hoje

Capítulo 15

1748 · A missão na Irlanda

[Continuação do capítulo anterior.] Mandei um irmão visitar a mulher condenada à morte. Ele me contou que ela havia sido visitada por um sacerdote católico romano. Quando ele lhe pediu que orasse à Virgem Maria, ela respondeu: “Tenho um Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1Jo 2.1). O capelão oficial da prisão também esteve com ela pela primeira vez, e ela lhe explicou a razão da esperança que havia nela.

Soube pelo carcereiro que tinha chegado uma suspensão da execução e que se esperava um perdão. Temi que isso pudesse interromper a obra de Deus nela, mas me surpreendi agradavelmente ao encontrá-la cheia de temor e aflição com a notícia. “Ah”, disse-me ela, “tenho medo de que, se a minha vida for poupada, eu me afaste de Deus. Sei que ele teria misericórdia de mim se eu morresse agora.” Conversando mais, percebi sinais muito reconfortantes. Algumas de suas palavras foram: “Há dois dias senti uma mudança que não consigo descrever. Meu coração está tão aliviado, minha angústia e tristeza desapareceram por completo. E, de noite, quando oro ao meu Salvador, sinto um conforto e uma confiança tão estranhos que não posso expressar. Certamente Deus perdoou os meus pecados.” Acreditei nela, mas não demonstrei nada, esperando que a obra se comprovasse por si mesma; apenas a exortei a vigiar e orar, para que não viesse a cair daqueles bons começos.

Terça-feira, 1º de março

Encontrei a mulher, libertada de suas correntes, tanto na alma quanto no corpo. Ela se lançou aos meus pés e exclamou: “Ah, senhor, depois de Deus, foi o senhor quem salvou a minha alma. Encontrei misericórdia quando esperava o juízo. Estou salva por um milagre de misericórdia.”

À noite preguei sobre aquela palavra tão importante: “Está consumado” (Jo 19.30), e Deus confirmou o que pregou. Um recebeu o perdão. Um homem e uma mulher testemunharam que o haviam recebido na última pregação. O poder do Senhor esteve de modo admirável na Sociedade. Perguntei: “Quem o tocou?”, sem duvidar de que alguns já haviam recebido a cura. Um, e outro, e mais outro deram bom testemunho. Nossa irmã Blamires declarou, com grande esforço, que naquele momento encontrou poder para crer, e abençoou o dia em que me viu pela primeira vez. Outros falaram do mesmo modo; e por último Thomas Barnes me contou que havia recuperado o seu perdão enquanto eu repetia: “Há alegria no céu por um pecador que se arrepende” (Lc 15.7), e assim por diante. O número das testemunhas naquela noite foi nove.

Quarta-feira, 2 de março

Na casa da senhora Gilmore, uma dissidente devota, encontrei três outros da mesma comunhão, que haviam sido justificados recentemente sob a Palavra.

Sábado, 5 de março

Mostrei aos pobres presidiários de Newgate o que deveriam fazer para serem salvos. Havia um homem que eu muitas vezes observava, profundamente tocado pela Palavra e extremamente solícito em me atender. Era o carrasco, meio convertido pela mulher condenada, e que demonstra a mais profunda reverência por ela. Dei-lhe vários dos nossos livros, que ele leu e releu. De religião, é papista.

Domingo, 6 de março

Não me lembro de termos tido bênção maior do que a desta noite na Sociedade. Perto de vinte pessoas declararam a manifestação do Espírito que então lhes foi concedida.

Segunda-feira, 7 de março

Conversei com onze deles que haviam recebido um sentido claro do perdão. Outro voltou para casa justificado, enquanto eu falava sobre Jacó lutando com o anjo.

Terça-feira, 8 de março

Meu irmão desembarcou e se reuniu com a Sociedade; Deus confirmou a palavra do seu mensageiro.

Quarta-feira, 9 de março

Passei uma hora reconfortante conversando com alguns outros que recentemente entraram no tanque. Um foi gerado de novo nesta noite pela palavra do seu poder (Is 53).

Quinta-feira, 10 de março

Mais três receberam a cura.

Sexta-feira, 11 de março

Meu texto de manhã foi: “O Espírito e a noiva dizem: Vem!” (Ap 22.17). Depois de grandes lutas, uma pessoa foi levada a clamar: “Ele veio! Ele veio! Eu o tenho, eu o tenho agora, no meu coração!” Um desconhecido, que estava de chapéu na cabeça na escadaria, com todos os sinais de descaso, exclamou, em grande espanto: “Senhor, tem misericórdia de mim! Que é isto?”, e saiu correndo como se o vingador estivesse em seu encalço.

Outra testemunhou que havia encontrado favor havia pouco tempo, ela que, dias antes, era uma pecadora terrível, uma prostituta comum. Mas está lavada! Queira Deus que ela persevere!

Domingo, 13 de março

Em nosso jardim, convidei-os mais uma vez para a grande ceia. Muitas lágrimas foram derramadas na despedida; contudo, foi um pranto abençoado, porque esperamos nos reencontrar diante do grande trono branco.

Segunda-feira, 14 de março

O vento, virando totalmente contra nós, deu-me a oportunidade de pregar de novo na rua Ship. Ouvi que nossa irmã Preston fora ontem aliviada do seu fardo enquanto cantava. Nesta noite, M. Gilmore recebeu o amor de Deus derramado em seu coração. Um mês atrás ela era uma opositora fervorosa, mas, arriscando-se a me ouvir por curiosidade, o Senhor aplicou a sua Palavra e a despojou de uma só vez de toda a sua justiça própria, da sua fé de mera adesão e das suas boas obras. Ela chorou por ele, até que agora Jesus a recebeu entre as suas testemunhas.

Domingo, 20 de março

Depois de uma semana de reclusão por causa de uma dor de dente, às duas horas deste dia entrei no barco-correio com J. Haughton.

Segunda-feira, 21 de março

Às três horas desembarcamos no Head. Passei a noite com muita dor.

Terça-feira, 22 de março

Montei a cavalo rumo à casa do nosso irmão Jones. Era uma manhã clara e ensolarada; o vento moderado e a nosso favor. Cheguei à casa do meu guia às nove e, às três, cheguei à barca de Baladon, tendo mandado J. Haughton adiante, para Chester. O vento agora estava mais forte e mais contra nós, soprando bem no meu rosto inchado. Sobrecarregamos o pequeno barco velho, de modo que

Crepuit sub pondere cymba / futilis, et multam accepit rimosa paludem. [Citação latina, corrompida no original; VERIFICAR NO ORIGINAL.]

(Ou seja: a barca frágil rangeu sob o peso e, cheia de frestas, embarcou muita água do brejo.) Voamos sobre as asas do vento até chegarmos ao canal. Ali o balanço foi tão violento que o meu cavalo novo começou a empinar, tentando se lançar à água. Segurei-o com a pouca força que eu tinha; mas, havendo um remo entre nós dois, eu não tinha apoio firme e não conseguia controlá-lo à distância. A rebeldia dele assustou o outro cavalo, que começou a escoicear e derrubou o nosso irmão. Vi o perigo: se o meu cavalo pusesse a pata por cima da borda do barco, este viraria, e eu não tinha força para impedir. Veio-me à mente: “Terá Deus me trazido através do mar para eu me afogar aqui?” Olhei para o alto e, naquele instante, o cavalo parou quieto, e assim permaneceu até chegarmos à margem.

Fui cedo para a cama em Caernarvon e consegui um pouco de descanso.

Quarta-feira, 23 de março

Fui convencido pelo irmão Jones a só partir depois das sete. A chuva contínua e o vento cortante batiam em cheio no meu rosto. Cavalguei o dia todo em grande sofrimento e tive uma noite inquieta e dolorosa em Tan-y-bwlch.

Quinta-feira, 24 de março

Resolvi seguir direto para Garth, percebendo que a minha força jamais aguentaria mais três dias de cavalgada. Às cinco parti debaixo de chuva forte, que continuou o dia inteiro. Passamos por perigos das águas. Eu estava esgotado quando chegamos, à noite, a uma pequena aldeia. Não havia fogo na choupana miserável. Um irmão nos providenciou um pouco, pregou uma tábua na nossa janela e nos ajudou a nos deitar. Não descansei mais do que na noite anterior.

Sexta-feira, 25 de março

Montei a cavalo de novo às cinco, ainda com a chuva nos acompanhando. Às oito, fui consolado pela presença do senhor Philips, em Llanidloes. O tempo piorou. O vento violento lançava a chuva pesada em cheio no nosso rosto. Cavalguei até não poder mais; caminhei a última hora; e às cinco desabei em Garth. Todos vieram correndo cuidar de mim. Recuperei-me um pouco e, às sete, fiz uma tentativa débil de pregar. Logo me puseram na cama. Tive uma noite terrível, pior do que nunca.

Sábado, 26 de março,

e nos cinco dias seguintes, fui atormentado por dores fortes, apesar de todos os recursos usados para removê-las. Meus curtos intervalos foram preenchidos com conversas, oração e cânticos.

Domingo, 3 de abril

Pela bênção divina sobre os cuidados carinhosos dos meus amigos, recuperei força suficiente para ler as orações e ministrar o sacramento à família.

Segunda-feira, 4 de abril

A senhora Gwynne me levou para passear em sua carruagem, e senti a minha força voltar visivelmente.

Terça-feira, 5 de abril

Ela me conduziu a Builth. Montei a cavalo às três. O senhor Gwynne e a senhorita Sally me acompanharam na primeira hora. Depois segui sozinho, cansado, mas amparado. As acomodações na hospedaria não eram das melhores. Fiquei acordado, sem descanso, até a meia-noite, esperando ter de voltar, como eu prometera em caso de recaída. Mas, perto da manhã, adormeci e acordei muito revigorado às cinco.

Sábado, 9 de abril

À noite, com a ajuda evidente de Deus, cheguei em segurança ao Foundery.

Domingo de Páscoa, 10 de abril

Uni-me aos meus irmãos, neste dia e nos sete seguintes, para anunciar a morte do Senhor; e ele nunca nos mandou embora de mãos vazias.

Almocei na casa do advogado Glanvil, um tição recentemente arrancado do fogo.

Quinta-feira, 14 de abril

Encontrei outro pobre publicano, o Coronel G., que acabou de entrar no reino e transborda do seu primeiro amor.

Sábado, 16 de abril

Ministrei o sacramento à nossa irmã King, indescritivelmente feliz diante da aproximação da morte.

Terça-feira, 19 de abril

Eu havia comunicado ao meu irmão, ainda na Irlanda, as minhas intenções embrionárias, as quais ele nem se opôs, nem incentivou muito. Era então apenas um pensamento distante e inicial, sem probabilidade de vir a se tornar uma proposta; pois eu não dera a menor indicação, nem à senhorita Gwynne, nem à família. Hoje cavalguei até Shoreham e abri todo o meu coração ao senhor Perronet. Sempre tive medo do casamento, embora nunca tivesse cogitado dele, por muitos anos, desde que comecei a pregar o Evangelho. Mas, dentro do último ano, este pensamento se impôs: “Como saberei se é melhor para mim casar ou não?” Certamente é melhor agora do que mais tarde; e, se não agora, que garantia tenho de que não o farei depois? Deve ser agora, ou nunca.

O senhor Perronet me encorajou a orar e a esperar por uma abertura da Providência. Expressei as diversas indagações do meu coração em muitos hinos sobre essa importante ocasião.

Sexta-feira, 22 de abril

A senhora Colvil esteve na capela. Falei sobre o fariseu e o publicano. O poder e a bênção de Deus tornaram a Palavra eficaz e derrubaram tudo diante de si.

Quarta-feira, 27 de abril

Meu texto foi: “Muitos são os que dizem: Quem nos mostrará o bem?” (Sl 4.6), e assim por diante. O Senhor esteve poderosamente presente no seu poder de despertar.

Sexta-feira, 29 de abril

A senhora Rich me levou ao Dr. Pepusch, cuja música muito nos entreteve, e a conversa ainda mais.

Domingo, 1º de maio

O cálice da bênção foi a comunhão do seu sangue; o pão partido, o do seu corpo, aos seus discípulos, na capela.

Quinta-feira, 5 de maio

Batizei Elis. Cart no rio, em Cowley; e ela lavou todo o seu pecado e a sua tristeza.

Terça-feira, 10 de maio

Cheguei a Bristol, um pouco machucado por uma queda.

Sexta-feira, 20 de maio

Na vigília, falei sobre Jacó lutando com o Anjo; e muitos foram estimulados a se apegar ao Senhor, como ele fez.

Domingo, 22 de maio

A multidão inteira chorou ao ouvir como Jesus os amava, enquanto eu insistia na pergunta comovente dele: “Não lhes importa isto, todos vocês que passam pelo caminho?” (Lm 1.12).

Quinta-feira à tarde, 26 de maio

Parti para Londres e, no sábado, cheguei lá. A primeira boa notícia que ouvi, de M. Boult, foi que a nossa velha amiga, a senhora Sparrow, finalmente partiu no Senhor.

Terça-feira, 31 de maio

Acompanhei os restos mortais dela até a sepultura.

Domingo, 5 de junho

Cumpri o último pedido da minha amiga, pregando o sermão do seu funeral, sobre Mq 7.8: “Não te alegres a meu respeito, inimiga minha; ainda que eu tenha caído, levantar-me-ei; ainda que eu more nas trevas, o Senhor será a minha luz.” Falei tão livremente das suas faltas quanto das suas virtudes: o seu amor pelo mundo e a sua vitória final sobre ele. Os ouvintes pareceram profundamente comovidos.

Sexta-feira, 10 de junho

Voltei a Bristol.

Domingo, 12 de junho

Preguei a vários milhares de pessoas no pomar, com grande vigor, tanto de corpo quanto de espírito.

Quinta-feira, 16 de junho

Visitei os irmãos em Cardiff, Lanmaes, Cowbridge, etc., e os exortei a fortalecer o que ainda restava.

Segunda-feira, 20 de junho

Voltei com Kitty Jones para Bristol. O senhor Gwynne e a senhorita Sally chegaram lá um pouco antes de mim; até que,

Sábado, 25 de junho,

eu os levei para conhecer os meus amigos cristãos, sobretudo os meus principais, em Kingswood.

Domingo, 26 de junho

Na Palavra, no sacramento e no ágape, o Senhor tornou as nossas almas como um jardim regado.

Terça-feira, 28 de junho

Bastante esgotado por ter examinado as classes, revigorei-me muito cantando com a senhorita Burdock e com Sally.

Quinta-feira, 30 de junho

Fui consolado, em meio a todas as nossas provações, por aquela bendita promessa: “Farei passar esta terça parte pelo fogo” (Zc 13.9).

Parti com o senhor Gwynne e a filha dele, para visitar a igreja em Londres. Preguei em Bath com grande liberdade e levei comigo a nossa fiel irmã Naylor.

Sábado, 2 de julho

Hospedei os meus companheiros de viagem no Foundery.

Domingo, 3 de julho

Fui a campo, e não fui enviado à guerra à minha própria custa.

Na capela preguei: “Considero que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados” (Rm 8.18), e assim por diante. Tanto agora quanto à noite, tivemos um grande espírito de contrição entre nós.

Terça-feira, 5 de julho

Levei os meus hóspedes à casa da senhora Blackwell e à de Dewal, em Lewisham; e de lá ao meu digníssimo amigo em Shoreham.

Sexta-feira, 15 de julho

Meu texto na vigília foi: “O que a vocês digo, digo a todos: vigiem” (Mc 13.37). Sentimos grande reverência na presença do nosso Senhor.

Segunda-feira, 18 de julho

Batizei por imersão o bom e velho M. Pearce, às quatro da manhã.

Terça-feira, 19 de julho

Levantei-me às três e chamei os nossos amigos. O Senhor nos concedeu um grande livramento, como sinal do seu favor. Mary Naylor havia fechado a porta do quarto e deixado a chave por dentro. Sally queria pegar algo lá dentro, e M. Naylor teria a dispensado; mas, como Sally continuava insistindo, ela chamou o empregado para arrombar a porta. Ele disse que iria primeiro ver os cavalos e depois voltaria. Ela insistiu que ele o fizesse imediatamente, o que ele fez; e encontraram o lençol em chamas, porque Molly havia deixado cair o pavio queimado de uma vela. Se o homem tivesse demorado, o Foundery inteiro poderia ter sido consumido pelas chamas.

Parti às quatro com o senhor Gwynne e Sally. Às onze, em Windsor, o meu cavalo me atirou com violência por cima da sua cabeça. Meu companheiro caiu em cima de mim. Os anjos da guarda nos ampararam em suas mãos, de modo que nenhum de nós se feriu. Contemplei o Castelo e o Palácio com indiferença. Nenhuma vista, esperamos, nos satisfará, a não ser a que Moisés teve do monte Pisga. Às sete chegamos a Reading; e preguei em grande fraqueza física.

Quarta-feira, 20 de julho

O meu antigo desejo de escapar da vida me dominou o dia inteiro. Às três chegamos a Oxford; passeamos pelos colégios; encontramos um pobre servitor de St. John’s, James Rouquet, que não se envergonha de confessar a Cristo diante dos homens. Preguei à noite sobre “Vocês são as minhas testemunhas” (Is 43.10) e me hospedei com o nosso velho amigo, o senhor Evans.

Quinta-feira, 21 de julho

Ministrei o sacramento à senhora Neal (uma que recebeu a expiação ao ler o meu sermão diante da Universidade) e tive doce comunhão com o nosso Senhor e os seus membros.

Sexta-feira, 22 de julho

Às cinco montei a cavalo com o senhor Gwynne, Sally e M. Boult. Chegamos a Cirencester antes das duas. Preguei num pátio a partir de: “Os resgatados do Senhor voltarão e virão a Sião com júbilo” (Is 35.10), e assim por diante. Fui traspassado por desejos de redenção completa, que irromperam em lágrimas e palavras, comovendo os ouvintes da mesma forma. De boa vontade eu teria largado o corpo naquela hora.

Sábado, 23 de julho

Parti às quatro e meia; havia cavalgado quatro milhas quando o cavalo da senhora Boult, andando no terreno mais plano, caiu e lhe quebrou o braço. Nós a levamos a uma hospedaria ali perto e mandamos J. Griffith de volta em busca de um cirurgião. Às sete a deixamos, com o braço imobilizado e a mente firmada em Cristo, e chegamos a Bristol no frescor da noite.

Domingo, 24 de julho

Levantei-me das minhas tábuas às quatro. Levei Sally a Kingswood. Comecei o sacramento com oração fervorosa e muitas lágrimas, que quase me impediram de ler a liturgia. Rompi em oração repetidas vezes. Nossos corações eram como cera derretida. Ministrei às nossas irmãs Robertson e Nutter, gravemente machucadas por terem caído dentro de uma cova; contudo, elas não quiseram perder o sacramento.

Recebi cartas de Cork, chamando-me insistentemente para lá. Meu coração ficou de pronto disposto, e recebi a minha missão. Unimo-nos em oração fervorosa pelo êxito. Preguei uma terceira e uma quarta vez na estrutura ainda em obras da nossa casa, com força sobrenatural.

Terça-feira, 26 de julho

Almocei em Fishponds com o fiel Felix Farley. À noite preguei no pomar a muitas almas sérias. Havia ali uma carruagem com a senhora Knight, a senhorita Cheyne, o senhor Edwin e Sir William Bunbury. Este último me reconheceu como seu antigo colega de escola, à luz do dia, e não se envergonhou de participar de coração dos nossos hinos.

Quarta-feira, 27 de julho

Eles compareceram de novo, enquanto eu expunha a parábola do bom samaritano.

Quinta-feira, 28 de julho

Visitei primeiro a senhorita Cheyne e depois a senhora Knight, nas Termas. Ambas concordaram com a verdade. Esta última mandou chamar o irmão dela, o meu velho amigo Robinson, de Christ-Church. Ele me convocou a defender os pregadores leigos e teria gostado de me levar a confessar que fomos nós que os enviamos. Declarei o fato tal como é: que, quando Deus enviava alguém e o confirmava com repetidas conversões, então nós não ousávamos rejeitá-lo. Ele falou com muita franqueza e conserva a sua antiga afeição por mim.

Sexta-feira, 29 de julho

Preguei em frente ao salão de assembleias, para o público mais refinado com que já fui honrado. As damas em suas carruagens foram surpreendentemente pacientes, enquanto eu lhes dizia que “uma só coisa é necessária” (Lc 10.42). Um criado que se comportou de modo grosseiro foi detido por Sir W. Bunbury e entregue a um oficial de justiça. Alguns jovens oficiais causaram tumulto, mas eu os repreendi e os silenciei.

Corri, com força renovada, para a estrutura em obras da nossa sala, e continuei pregando, cantando e me alegrando até a meia-noite.

Domingo, 31 de julho

Batizei uma mulher em Kingswood e tremi diante da descida do Espírito Santo. Todos os presentes foram, em maior ou menor grau, sensíveis a isso, especialmente a pessoa batizada. Unimo-nos na Ceia do Senhor e tivemos a sua presença infalível. E o mesmo aconteceu em nosso primeiro ágape na sala nova. Por duas horas percebemos a presença de Cristo no meio de nós.

Segunda-feira, 1º de agosto

Partimos às cinco rumo a Garth; pernoitamos em Abergavenny.

Terça-feira, 2 de agosto

À tarde, a senhora Gwynne nos recebeu com cordial boas-vindas.

Quinta-feira, 4 de agosto

Cavalguei com Sally até as Termas e preguei, no salão de assembleias, à nobreza, ao clero e a outros, convidando-os à felicidade suprema da religião.

Domingo, 7 de agosto

Como a igreja de Maesmynis era pequena demais, preguei no adro sobre o prometido Espírito de graça e de súplicas. Seus consolos refrescaram as nossas almas, e ainda mais abundantemente no sacramento que se seguiu.

Segunda-feira, 8 de agosto

O senhor Gwynne, com a senhorita Sally e Betsy, acompanhou-me até Llanidloes. Preguei com grande liberdade. O povo simples recebeu a Palavra com lágrimas de alegria. Despedi-me com lágrimas dos meus queridíssimos amigos e segui a cavalo com o senhor Philips até Machynlleth.

Terça-feira, 9 de agosto

Das três da manhã às oito da noite, estive na estrada. Tive doce comunhão com os meus amigos em oração.

Quarta-feira, 10 de agosto

Deixei Caernarvon às cinco. Encontrei o barco prestes a partir, cheio de bois indóceis. Esperei uma hora pela sua volta, tempo que passei em oração fervorosa pelos meus amigos. Perto das sete, desembarquei numa região estranha e labiríntica, onde não consegui nenhum guia ou orientação, embora perdesse o caminho a todo instante. Por fim, a Providência me enviou alguém que entendia inglês e cavalgou várias milhas fora do seu caminho para me pôr no meu. Dei-lhe alguns conselhos e livros, que ele recebeu com gratidão.

Continuei no caminho certo enquanto foi impossível sair dele, e nada além disso. Segui às cegas pelas areias, especialmente algumas perto da cidade, onde, se o mar tivesse estado alto, eu teria dado fim a todas as minhas jornadas. Passei por vários navios e atravessei os canais, até que o meu cavalo, sem cuidado ou orientação minha, me trouxe a Holyhead pouco depois das duas.

Ali soube que o barco havia partido às dez daquela manhã. Foi uma prova para a minha paciência, e quase desejei ter ficado com os meus amigos, em vez de esperar aqui até sábado, o mais cedo que qualquer barco-correio poderia sair. Todos os barcos estão do outro lado.

Logo enxerguei o propósito de Deus. Ele me arranjou tempo para o recolhimento, no qual posso tanto escrever quanto orar por aqueles que me são tão caros quanto a minha própria alma.

Passei a hora de oração entre as rochas, apresentando os meus amigos diante do trono. Por volta das seis, adormeci, com o corpo oprimindo a alma; mas, mesmo assim, a minha comunhão com eles não foi interrompida. Alguns vizinhos se juntaram a nós na minha hospedagem particular, para a oração em família.

Quinta-feira, 11 de agosto

Passei o dia na minha câmara de profeta, ou refúgio, entre as rochas. Apenas à noite subi a montanha e vaguei por um deserto de rochas com os meus inseparáveis amigos.

Sexta-feira, 12 de agosto

Foi mais um dia sólido, que passei em recolhimento; concedi apenas meia hora, depois do culto público, ao senhor Ellis, o ministro, incentivando-nos mutuamente ao amor e às boas obras.

Sábado, 13 de agosto

Embarquei num mar muito agitado, que nos encharcou por completo enquanto lutávamos para alcançar o navio. Às onze zarpamos. Deus nos enviou um vento do seu tesouro, o mais favorável que poderíamos ter, o qual, às nove, nos trouxe suave e seguramente à baía de Dublin.

Domingo, 14 de agosto

Às cinco fui até a sala de pregação e lhes dei uma palavra de exortação e boas-vindas. Grande foi a nossa alegria, e a nossa fé e comunhão mútua no Espírito.

Reencontrei-os, e ao meu irmão, em St. Patrick’s. O número de comungantes havia aumentado muito desde a minha partida. Preguei em nosso jardim às duas. O poder do Senhor esteve presente como no princípio.

Encontrei toda a Sociedade cheia de vida, para nosso mútuo consolo: consolo que as palavras não conseguem exprimir.

O senhor Lunel não se deu por satisfeito enquanto eu não me hospedei sob o seu teto. Chorei com ele, que estava de luto, provado como Ezequiel: “Filho do homem, eis que, de um golpe, tirarei de ti o desejo dos teus olhos” (Ez 24.16). Ela morreu triunfante. Ele perdeu também o seu Benjamim; a criança acompanhou a mãe ao paraíso.

Terça-feira, 16 de agosto

Repreendi os negligentes e encorajei os que andavam ordenadamente. As orações deles, espero, me seguirão até Cork.

Quarta-feira, 17 de agosto

Parti sob chuva forte. O meu cavalo, o mais duro que já montei, sacudiu de mim todas as forças antes de eu chegar a Tyrrell’s-pass. Ali, a nossa irmã Fourer e os demais me receberam com muita alegria. Preguei sobre o sangue da aspersão e me reuni com a pobre Sociedade abandonada. Todos os nossos pregadores os haviam deixado para irem a Cork, onde agora está a porta mais aberta.

Quinta-feira, 18 de agosto

Cavalguei até Balliboy, onde um quacre hospitaleiro nos recebeu de braços abertos. Venci a minha grande relutância e preguei, na casa dele, sobre o Cordeiro de Deus que expia. Ele abriu a minha boca e o coração dos ouvintes.

Sexta-feira, 19 de agosto

Choveu o dia inteiro. A estrada era um lamaçal contínuo. Com muito custo cheguei a Roscrea por volta das dez. Alguns habitantes da cidade me pegaram quando eu já saía e exigiram a sua dívida do Evangelho. Uma multidão mista de papistas e protestantes encheu o mercado. Chamei-os (nunca com mais autoridade) a Jesus Cristo; depois segui cavalgando na chuva, alegrando-me com o meu companheiro encharcado. Às nove, com muito custo, chegamos a Cashel.

Ali tivemos pouca hospitalidade, sem meio de secar as roupas. Tirei o meu sobretudo e consegui dormir um pouco.

Sábado, 20 de agosto

Levantei-me com ânimo entre duas e três horas; vesti as roupas, bem molhadas e pesadas. Tivemos alguns intervalos de bom tempo e, às sete da noite, chegamos a Cork. Eu estava desejando descanso em alguma casa particular, quando o senhor Harrison, o impressor, veio e me convidou para a sua. Tomei um banho de suor e me levantei na minha hora de costume.

Domingo, 21 de agosto

Às cinco encontrei uma congregação de alguns milhares no pântano e falei a partir de Lc 24.46-47: “Assim está escrito que o Cristo havia de padecer”, e assim por diante. Eles devoraram cada palavra com uma avidez indescritível. Aconselhei todos a irem aos seus respectivos lugares de culto e eu mesmo fui a Christ-Church. É a maior igreja de Cork, e mesmo assim estava totalmente lotada. A comunhão nos ocupou até quase as dez.

Muito bem já foi feito neste lugar. A perversidade externa desapareceu, e a religião externa a substituiu. Raramente se ouvem palavrões nas ruas; as igrejas e os altares estão lotados, para espanto dos nossos adversários. Contudo, alguns do nosso clero e todos os padres católicos se esforçam miseravelmente para impedir o seu povo de nos ouvir.

Às cinco fui a campo de novo; mas raramente vi cena semelhante! Milhares e milhares esperavam havia horas, protestantes e papistas, ricos e pobres. O Senhor revestiu de muita força a minha alma, e também o meu corpo, para reforçar a palavra fiel: “que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores” (1Tm 1.15). Clamei atrás deles por uma hora, com toda a extensão da minha voz, sem, contudo, ficar rouco ou cansado. O Senhor, creio, tem muito povo nesta cidade. Duzentas pessoas já se juntaram numa Sociedade.

Segunda-feira, 22 de agosto

A congregação já estava no pântano antes de mim, perto de três mil almas amáveis, atentas e ainda não despertadas, a quem exortei a se arrependerem, para que os seus pecados fossem apagados.

Por ora, andamos em meio a honra e boa reputação. As pessoas mais importantes da cidade nos favorecem. Não é de admirar, então, que o povo simples esteja tranquilo. Andamos de um lado para outro pelas ruas, seguidos apenas pelas suas bênçãos. A mesma inclinação favorável se estende por toda a região. Aonde quer que vamos, recebem-nos como anjos de Deus. Se isto fosse durar, eu fugiria para salvar a minha vida na América.

Muitos se converteram dos seus pecados externos; e, se não fossem além disso, os santos deste mundo os apreciariam bastante. Quando se prega o poder da piedade, o perdão dos pecados, o dom do Espírito Santo, muitos se afastarão. Mas, por enquanto, a obra é muito superficial. Nem uma só pessoa justificada eu ainda encontrei.

Passando pelo pântano às cinco, vi centenas de pessoas esperando ali pela Palavra; e me disseram que esse era o seu costume desde o princípio, e que, no domingo anterior, muitos estavam lá desde uma hora da madrugada.

Declarei, com auxílio divino: “Uma só coisa é necessária” (Lc 10.42). O Espírito que convence do pecado esteve presente. Ele feriu a dura rocha, e as águas jorraram. As sessões do tribunal trouxeram muitos forasteiros. Não os poupei, e eles suportaram a minha franqueza. Vários dos mais distintos, particularmente dois juízes, me agradeceram e me desejaram êxito.

Terça-feira, 23 de agosto

Esforcei-me por convencer os meus ouvintes da incredulidade. Cada vez mais gente desperta do sono. À noite, quase uma dúzia de clérigos compareceu. Quisera eu que todos os nossos irmãos nos fizessem a mesma justiça de nos ouvir antes de nos julgar.

Quarta-feira, 24 de agosto

Por conselho de um clérigo, fui apresentar meus respeitos ao bispo. Ele não estava no seu palácio. A governanta implorou por algumas palavras comigo. Ela tremia muito e se esforçava para falar; por fim me contou toda a sua vida. Desde os doze anos de idade, tivera conflitos violentos com o velho homicida. Ela parecia um vaso escolhido, uma que, como Obadias, servia a Deus desde a juventude. Disse-lhe o que lhe faltava: exatamente a fé e o perdão. Ela recebeu as minhas palavras com toda a prontidão de ânimo; pediu-me que lhe deixasse a oração que eu usara por ela; chorou e se alegrou; e me despediu com muitos agradecimentos e bênçãos.

À noite expus a passagem do cego Bartimeu, para um público tão distinto quanto qualquer um que já vi. Vários ministros de todas as denominações, a esposa do governador e muitos forasteiros compareceram, movidos por diversas razões. A Palavra não voltou vazia. Alguns do clero reconheceram que era a verdade.

Eu havia planejado reunir cerca de duzentas pessoas que deram os seus nomes para a Sociedade, mas tantas multidões se aglomeraram no antigo teatro que isso causou grande confusão. Percebi que, por enquanto, era impraticável ter uma Sociedade organizada.

Quinta-feira, 25 de agosto

Aqui há de fato uma porta aberta, como nunca se me abriu até agora. Mesmo em Newcastle o despertamento não foi tão geral. A congregação do domingo passado foi estimada em mais de dez mil pessoas. Por enquanto não há oposição declarada, embora o povo já tenha ouvido a Palavra por dois meses. Aliás, não é impossível que o amor deles dure mais dois meses, antes que alguns deles se levantem para nos fazer em pedaços.

Encontrei um juiz da vizinhança e tive muita conversa séria com ele. Ele parece ter grande estima pela religião e está decidido a usar toda a sua influência para promovê-la. Por uma hora e meia continuei chamando os pobres mendigos cegos a Jesus. Eles começam a clamar por ele de todos os lados; e devemos esperar ser repreendidos por isso.

Sexta-feira, 26 de agosto

Falei individualmente com os candidatos a uma Sociedade. Todos parecem despertos; nenhum, justificado. Mas quem desprezou o dia das coisas pequenas? (Zc 4.10). Esta é, não tenho dúvida, a semente de uma igreja gloriosa.

Fui visitar o bispo em Riverstown e fui recebido com grande afabilidade por ele e sua família. Depois do almoço, voltei a cavalo para Cork. Tomei chá com alguns quacres bem dispostos e tomei emprestado um volume das suas palavras de despedida no leito de morte: um testemunho permanente de que a vida e o poder de Deus estavam com eles no princípio; e assim poderiam estar de novo, se fossem humildes o bastante para confessar a sua carência.

Sábado, 27 de agosto

Conversei muito com o senhor C., um clérigo sensato e piedoso, alguém que era do meu agrado no seu amor pela nossa mãe desamparada. Ele é claro na doutrina da fé. Deu-me um relato encantador do bispo. Contudo, não acho bom para mim ser prestigiado pelos meus superiores. É uma armadilha e um fardo para a minha alma. O dia inteiro fiquei abatido por causa da minha conversa recente, e despojado de todo bom desejo, especialmente o de pregar. Às vezes o nosso trato com os grandes homens pode fazer bem, ou evitar o mal. Mas quão perigosa é a experiência! Quão fácil é ela enfraquecer as nossas mãos e nos levar a uma deferência e a um respeito indevidos às pessoas! Que o Senhor envie a eles por quem ele quiser enviar; mas que me esconda ainda na desonra ou na obscuridade.

Fui abordado na rua por um sacerdote romano, por causa de palavras que, segundo lhe disseram, um dos nossos pregadores falara contra ele. Tentei esclarecê-lo; mas ele estava exaltado demais e ansioso demais por exibir a sua erudição (na medida do seu latim) para ouvir a razão. Ainda assim, nos separamos sem chegar às vias de fato.

Domingo, 28 de agosto

Do sacramento matinal, fui à casa do senhor H., um advogado honesto; e com ele fui a Passage, cinco milhas de Cork. Ali o juiz P. nos recebeu e usou toda a sua autoridade para levar os demais a fazerem o mesmo. Ele mandou dizer ao sacerdote romano “que, se ele proibisse o seu povo de me ouvir, mandaria fechar a sua igreja e o mandaria para a cadeia por, no mínimo, um ano”. Vários dos pobres católicos se arriscaram a vir, depois que o juiz lhes assegurou que ele mesmo tiraria a maldição que o padre deles lhes havia lançado. Exortei a todos igualmente ao arrependimento para com Deus e à fé em Jesus Cristo; e apostei a minha própria salvação nisto: que aquele que crê, seja papista ou protestante, será salvo.

Voltei apressado para o pântano. Ao ver as multidões, pensei naqueles versos de Prior:

Então (ó pequenez da humanidade!), então de todos estes / Que o meu olhar dilatado com esforço abrange… [Verso de Matthew Prior, corrompido no original; VERIFICAR NO ORIGINAL.]

quão poucos reconhecerão os mensageiros de Deus quando a maré virar! Agora todos me receberam com uma avidez inexprimível. Falei sobre o bom samaritano e aproveitei a ocasião para defender os metodistas da mais vil das calúnias: a de que eles atacam o clero. Estendi-me sobre o respeito devido a eles; orei especialmente pelo bispo; e coloquei na consciência deles o dever de mencioná-los em todas as suas orações.

Eu havia marcado com parte da Sociedade um encontro numa casa particular; mas o povo se aglomerou de tal forma que não sobrou lugar para mim. Por enquanto, o amor deles impede que nos reunamos, tão eficazmente quanto o ódio deles o fará mais tarde.

Terça-feira, 30 de agosto

O senhor Stockdale me levou a Rathcormuck. O senhor Lloyd, o ministro, ofereceu-me a sua igreja; mas concordou comigo que seria melhor eu pregar ao ar livre, ou perderia todos os papistas. Eles acorreram, junto com os protestantes, ao mercado, onde os exortei fortemente ao arrependimento e à obediência da fé. O grande homem do lugar e a sua esposa empregam toda a sua autoridade para promover o cristianismo vivo e verdadeiro. O sacerdote romano está tão intimidado que não ousa proibir o seu povo de nos ouvir. Se todo magistrado da Irlanda fosse como este, que multidão de pobres católicos poderia ser convertida das trevas para a luz!

Quarta-feira, 31 de agosto

Em conversa particular, encontrei um que havia recebido o perdão no sacramento. Dois ou três outros foram justificados sob a Palavra. Mais outro na última segunda-feira.

Passei uma hora proveitosa com o senhor C. Ele se alegrou por eu ter pregado na sua paróquia no domingo passado. Se os nossos irmãos pensassem da mesma forma, como as suas mãos poderiam ser fortalecidas por nós! Mas devemos ter paciência, como ele observou, até que a própria coisa fale por si e, dissipada a névoa do preconceito, eles vejam claramente que todo o nosso desejo é a salvação das almas e a consolidação da Igreja da Inglaterra.

Conversei com uma pobre e inocente moça, que ouve a Palavra constantemente, mas com grande temor do sacerdote. Espero que, dentro de pouco tempo, ela tenha a coragem de julgar por si mesma e de salvar a sua própria alma, sem pedir licença a homem algum.

Convidei muitos pecadores no pântano àquele que lhes prometeu o descanso do perdão, da santidade e do céu. Eles parecem provar a boa palavra. Uma me disse, depois, que, desde o momento em que falei com ela no palácio, esperava a bênção a cada instante; e que estava certa, além de qualquer sombra de dúvida, de que a receberia. “Sinto”, disse ela, “que estou me apegando a Cristo continuamente. Estou tão leve, tão feliz, como nunca estive antes. Acordei, há duas noites, num tal arrebatamento de alegria, que pensei: ‘Certamente esta é a paz que eles pregam.’ Ela tem permanecido desde então. Meus olhos estão abertos. Vejo todas as coisas sob uma nova luz. Alegro-me sempre.” Não é esta a linguagem da fé, o clamor de uma alma recém-nascida? Orei por ela, para que o Senhor a confirmasse; e fiquei grandemente consolado com os consolos dela.

Quinta-feira, 1º de setembro

Encontrei-me pela primeira vez com a Sociedade recém-nascida, num antigo teatro. Vários estavam lá desde as duas da madrugada. Um recebeu o perdão durante a primeira oração de Jonathan Reeves. A presença do nosso Senhor consagrou o lugar. Expliquei a natureza da comunhão cristã. Deus uniu os nossos corações no desejo de conhecê-lo.

O povo está agora maduro para o Evangelho, que por isso preguei, a partir de Is 35, aos pobres e famintos que choravam. Ouvi que um recebeu a expiação na segunda-feira. Eis que vem uma multidão! O anjo desceu, a água foi agitada, e muitos estão prestes a entrar no tanque.

Falei com alguns que me disseram ter lesado os seus vizinhos no passado, e que agora a consciência não os deixa descansar enquanto não fizerem restituição. Pedi-lhes que dissessem aos prejudicados que fora esta pregação que os havia obrigado a fazer justiça.

Um pobre coitado me contou, diante da esposa, que vivera em embriaguez, adultério e todas as obras do diabo por vinte e um anos; que a espancava todos os dias durante esse tempo e nunca sentira remorso, até nos ouvir; mas que agora vai constantemente à igreja, trata a esposa com carinho e detesta o que é mau, especialmente os seus antigos pecados. Este é apenas um exemplo entre muitos.

Um vereador me ouviu esta noite, dentro de uma liteira coberta. Reuni-me com parte da Sociedade, que está plenamente convencida de que, sem o perdão presente, não pode ser salva.

Passei na casa do senhor C., que me contou ter travado uma grande batalha com os seus irmãos, os quais afirmavam com confiança: “Há uma declaração juramentada de que aquele seu irmão perverso fugiu com a esposa de outro homem em Athlone.” Alegrei-me com esse boato, como sinal de que o deus deste mundo está alarmado com o seu reino em perigo. Como ele e os seus servos hão de se enfurecer em breve! Até agora parecem adormecidos; mas as testemunhas de Jesus estão se levantando para despertá-los.

Indo para o pântano, alcancei a senhora N., que irrompeu numa forte confissão da fé que recebera ontem de manhã sob a Palavra. Não me admira que a filha dela diga que “ela ficou fora de si”. Seria tão fácil deter a maré quanto deter o testemunho dela. Ela cavalga sobre os altos da terra. Fala na plena certeza da fé; vive no espírito de triunfo. Uma das suas expressões foi: “Não caminho, mas voo; e sinto como se pudesse saltar por cima da lua.”

O pântano estava coberto de gente, ricos e pobres, poderosos e humildes. O Evangelho teve curso livre; nem uma palavra voltou vazia.

Um me seguiu e me disse que “havia encontrado o Senhor na Palavra naquela manhã”.

Conversei muito com a jovem já mencionada; e descobri que ela estava em Cristo antes de mim, mas o fato de ela não usar as minhas expressões me impedira de perceber isso. Algumas das suas palavras foram: “Desde o momento em que o senhor me falou do perdão, tenho orado por ele dia e noite, em contínua alegria. Estou indescritivelmente feliz. Todas as minhas tentações se foram. Piso sobre todo o poder do inimigo.

“Desde os doze anos de idade tenho andado com Deus, e o encontrei em todos os meus caminhos, em cada lugar, ocupação e companhia. Em todas as minhas palavras sinto que ele me inspira. Desde a infância, ele tem sido o meu guia e instrutor. Quando eu quis falar com o bispo ou com outros, ele me conteve com este pensamento: ‘Carregarei todos os meus fardos até que o próprio Senhor me livre.’ Ele me ensinou a orar por muitas coisas que eu mesma não compreendia na hora de pedir, e só entendi plenamente quando as respostas vieram.

“Fui pressionada por esta pergunta: ‘Você seria capaz de morrer pelo Evangelho de Jesus Cristo?’ E, quando quis afastá-la, ela ainda me perseguia, e o Senhor insistia numa resposta. Enquanto eu estava sentada trabalhando, veio-me à mente: ‘Estes dedos nunca apodrecerão na sepultura: devo morrer pela verdade.’ Respondi: ‘Mas como pode ser, Senhor? Somos todos cristãos. Quem há para nos perseguir agora?’ Este pensamento ainda me persegue: que devo sofrer pelo meu Salvador; e eu lamentaria morrer na minha cama.”

Nunca senti palavras mais poderosas e penetrantes: elas traziam a sua própria evidência e não me deixaram lugar para duvidar do amor especial de Deus por esta alma. Também confirmaram a minha contínua expectativa de sofrimentos.

Sábado, 3 de setembro

Meu texto foi: “Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim” (Is 43.25). Senti, por assim dizer, o espírito deles se abater sob a palavra da graça.

Das seis às oito, atendi aos que queriam falar comigo. O primeiro que me abordou foi um pobre soldado, dizendo: “Ah, senhor, encontrei a bênção!” Perguntei: “Que bênção?” “Ora, a bênção que o senhor prega: o perdão dos meus pecados.” “Como sabe disso?” “Tenho certeza; não posso duvidar; sinto-o no meu coração.” “Quando e como o recebeu?” “Ontem de manhã, sob a Palavra. Lutei, e lutei muito, antes de conseguir me apegar a ele. Mas afinal me arrisquei em Cristo: enchi-me de ousadia e cri; e naquele instante todos os meus pecados me foram tirados, como se você tirasse o casaco das minhas costas. Fui para casa cheio de alegria, contei à minha esposa e a convenci a crer como eu. Ela começou a chorar e a orar por uma hora inteira; e então ela também recebeu. Minha mãe não está longe disso; só que, por medo de um pecado, não ousa se arriscar.”

A confissão simples dele foi confirmada pela esposa, que encontrou a pérola ao mesmo tempo que ele. O irmão dele a encontrou no domingo passado. Joyce Baily me informa que recebeu a bênção ontem de manhã, quando o Espírito lhe aplicou aquela palavra: “Peçam, e lhes será dado” (Mt 7.7).

Exortei alguns da Sociedade e os encontrei todos totalmente lançados em direção a Cristo.

Domingo, 4 de setembro

Expus a parábola do filho pródigo a milhares de pecadores atentos, muitos dos quais, estou certo, já estão de volta, e nunca descansarão enquanto não descansarem nos braços do seu Pai.

Segunda-feira, 5 de setembro

Mais pessoas, ouço dizer, foram acrescentadas à igreja. Duas no sacramento de ontem; duas na Sociedade. Uma me alcançou quando eu ia para a catedral e disse: “Encontrei algo na pregação, e não posso deixar de crer que é o perdão. Todos os meus pecados desapareceram de mim num só momento. Não consigo fazer nada além de orar e clamar: ‘Glória a Deus!’ Tenho uma tal certeza do seu amor como nunca tive. Piso todo pecado e toda tristeza debaixo dos meus pés.” Pedi-lhe que vigiasse e orasse, e esperasse coisas maiores do que estas.

Nosso velho senhor, o mundo, começa a se ressentir de que tantos desertem e escapem por completo das suas imundícies. Inúmeras histórias são inventadas para deter a obra, ou melhor, são repetidas, pois são as mesmas que ouvimos mil vezes, como também os cristãos primitivos: “toda espécie de perversidade é praticada na nossa Sociedade, exceto comer criancinhas”. Meu conselho ao nosso povo é: “Não lhes respondam uma palavra sequer.”

Os sacerdotes romanos agem de modo mais dissimulado, intimidando o seu rebanho com a ameaça de uma maldição. Ainda assim, alguns se arriscam a nos ouvir às escondidas.

Montei a cavalo rumo a Bandon, com o meu querido advogado e a esposa dele, que recentemente recebeu a Cristo, como a sua linguagem e a sua vida demonstram.

Na estrada compus o hino a seguir, para os católicos romanos da Irlanda:

“Shepherd of souls, the great, the good, / Thy helpless sheep behold, / Those other sheep dispersed abroad, / Who are not of this fold. / By Satan and his factors bound / In ignorance and sin, / Recall them through the Gospel sound, / And bring the outcasts in.

“Pastor das almas, o grande, o bom, / contempla as tuas ovelhas desamparadas, / aquelas outras ovelhas espalhadas por toda parte, / que não são deste aprisco. / Presas por Satanás e seus agentes / na ignorância e no pecado, / chama-as de volta pelo som do Evangelho / e traz para dentro os rejeitados.

“Strangers, alas! to thee and peace, / They cannot find the way, / But wander in the wilderness, / And on the mountains stray. / Why should they faint, unsaved, unsought, / With sure relief so nigh? / Why should the souls, whom thou hast bought, / For lack of knowledge die?

“Estranhos, ai!, a ti e à paz, / eles não conseguem achar o caminho, / mas vagueiam pelo deserto / e se extraviam pelos montes. / Por que desfaleceriam, não salvos, não buscados, / com o socorro certo tão perto? / Por que as almas que compraste / morreriam por falta de conhecimento?

“Cast up, cast up an open road, / The stumbling-block remove, / The sin that keeps them back from God, / And from thy pardoning love. / The hinderer of thy word restrain, / The Babylonish Beast, / The men who sell poor souls for gain, / Or curse whom thou hast bless’d;

“Abre, abre uma estrada larga, / remove a pedra de tropeço, / o pecado que os afasta de Deus / e do teu amor que perdoa. / Detém o estorvador da tua palavra, / a Besta babilônica, / os homens que vendem pobres almas por lucro / ou amaldiçoam a quem abençoaste;

“Those blinded leaders of the blind, / Who frighten them from thee, / And still bewitch the people’s mind / With hellish sorcery: / Pierced with thy Spirit’s two-edged sword, / They shall no more deceive; / Simon himself at thy great word / Shall tremble and believe.

“Aqueles cegos guias de cegos, / que os afugentam de ti / e ainda enfeitiçam a mente do povo / com feitiçaria infernal: / traspassados pela espada de dois gumes do teu Espírito, / não mais enganarão; / o próprio Simão, à tua grande palavra, / há de tremer e crer.

“Who lead their followers down the way / To everlasting death, / Confound, convert, and pluck the prey / Out of the lion’s teeth. / The simple men, of heart sincere, / Who would receive thy word, / Bring in, thy blessed word to hear, / And own their bleeding Lord.

“Aqueles que conduzem os seus seguidores pelo caminho / da morte eterna, / confunde, converte e arranca a presa / dos dentes do leão. / Os homens simples, de coração sincero, / que receberiam a tua palavra, / traze-os para dentro, para ouvir a tua palavra abençoada / e reconhecer o seu Senhor ensanguentado.

“If thou wilt work a work of grace, / Who shall the hinderer be? / Shall all the human hellish race / Detain thy own from thee? / Shall Satan keep, as lawful prize, / A nation in his snare? / Hosts of the living God, arise, / And try the force of prayer!

“Se quiseres operar uma obra de graça, / quem será o estorvador? / Acaso toda a raça humana e infernal / reterá longe de ti os que são teus? / Guardará Satanás, como troféu legítimo, / uma nação em sua armadilha? / Exércitos do Deus vivo, levantai-vos / e provai a força da oração!

“The prayer of faith hath raised the dead, / The infernal legions driven, / The slaves from Satan’s dungeon freed, / And shut and open’d heaven. / Our faith shall cleave the triple crown, / Shall o’er the Beast prevail; / And turn his kingdom upside down, / And shake the gates of hell.

“A oração da fé ressuscitou os mortos, / expulsou as legiões infernais, / libertou os escravos do calabouço de Satanás / e fechou e abriu o céu. / A nossa fé fenderá a tríplice coroa, / prevalecerá sobre a Besta, / virará o seu reino de cabeça para baixo / e abalará as portas do inferno.

“Come, then, the all-victorious Name, / Jesus, whom demons flee, / Redemption in thy blood proclaim, / And life and liberty. / Satan and all his hosts confound, / Burst ope the dungeon door; / Deliverance preach to spirits bound, / And pardon to the poor.

“Vem, então, ó Nome todo-vitorioso, / Jesus, de quem os demônios fogem; / proclama a redenção no teu sangue, / e a vida e a liberdade. / Confunde Satanás e todos os seus exércitos, / arromba a porta do calabouço; / prega o livramento aos espíritos presos / e o perdão aos pobres.

“These poor for whom we wrestle still, / A blind, deluded crowd, / Bring to the word, and wound and heal / Through thy atoning blood. / We will not let thee go, unless / The captives thou retrieve; / Now, Lord, with true repentance bless, / And help them to believe.

“Estes pobres pelos quais ainda lutamos, / multidão cega e iludida, / traze-os à palavra, e fere e cura / por meio do teu sangue expiatório. / Não te deixaremos ir, a menos / que resgates os cativos; / agora, Senhor, abençoa-os com verdadeiro arrependimento / e ajuda-os a crer.

“To thee with boldness we look up, / For all these sons of Rome; / We ask in faith, and, lo, a troop, / A troop of sinners come! / As flocking doves to thee they fly, / For refuge and for rest; / They hasten to their windows nigh, / And shelter in thy breast.

“A ti, com ousadia, elevamos o olhar, / por todos estes filhos de Roma; / pedimos com fé e, eis, uma multidão, / uma multidão de pecadores vem! / Como pombas em bando, voam para ti, / em busca de refúgio e descanso; / apressam-se para as janelas próximas / e se abrigam no teu peito.

“The things which we desired, we have; / To sin and Satan sold, / A nation call, like us, and save, / And make us all one fold, / One house, one body, and one vine, / One church, through grace forgiven; / By perfect love to angels join, / And waft us all to heaven.”

“Aquilo que desejávamos, já temos; / uma nação vendida ao pecado e a Satanás, / chama-a, como a nós, e salva-a, / e faze de todos nós um só aprisco, / uma só casa, um só corpo, uma só videira, / uma só igreja, perdoada pela graça; / une-nos aos anjos pelo amor perfeito / e conduz a todos nós ao céu.”

Às dez chegamos a Bandon, uma cidade só de protestantes. Vários papistas dos arredores me acompanharam ao mercado. Fiquei em cima de um estrado e chamei umas mil pessoas rudes e boquiabertas: “Eis o Cordeiro de Deus” (Jo 1.29), e assim por diante. Quatro ministros confessaram que era a verdade. Todos pareceram enormemente satisfeitos e se alegraram por eu ir pregar de novo à noite, no outro extremo da cidade.

A cidade inteira reuniu-se então, com muita gente do campo. Meu texto foi: “Eu te envio para lhes abrir os olhos e os converter das trevas para a luz” (At 26.18). Três dos ministros estavam presentes de novo, e o preboste, ou governador da cidade, com muitos dos mais distintos, nas casas em frente. Fui capacitado a falar diretamente, tanto aos fariseus quanto aos publicanos. Muitos destes últimos choraram.

Terça-feira de manhã, 6 de setembro

Entre quatro e cinco horas, surpreendi-me ao encontrar um público tão numeroso quanto o da noite anterior. Tomei o café da manhã com a única família de quacres da cidade. Comportaram-se com aquele amor e zelo que encontramos em todos os Amigos, até que os seus irmãos mundanos e invejosos os pervertem e tornam os seus ânimos hostis a nós. Dois homens de Kinsale vieram me pressionar a ir até lá. Expus a parábola do filho pródigo, mas não consegui chegar nem à metade dela. Eles bebiam cada palavra.

À noite comecei de novo, com a garganta inflamada, o coração pesado e o corpo debilitado. Aos que não têm força alguma, Deus lhes aumenta o vigor. Por uma hora e meia chamei fortemente os pródigos, que choravam, ao seu Pai celestial. Muitos católicos estavam presentes, e outros que não iam a uma igreja havia anos.

Quarta-feira, 7 de setembro

Passei uma hora no salão da cidade com algumas centenas deles, em oração e cânticos. Estavam impacientes por ter uma Sociedade e por tomar o reino dos céus à força. Encomendei-os à graça de Deus e parti, carregado das suas bênçãos.

Cavalguei até Kinsale com o meu fiel advogado e, ao meio-dia, dirigi-me ao mercado. As janelas estavam cheias de espectadores, mais do que de ouvintes. Muita gente de aspecto rude ficou de chapéu na cabeça, na rua. Os rapazes eram grosseiros e barulhentos. Algumas mulheres bem-vestidas ficaram atrás de mim e escutaram. Meu texto foi: “Vá depressa às ruas e becos da cidade e traga para cá os pobres, os aleijados” (Lc 14.21), e assim por diante. Convidei a todos, com toda a seriedade, para a grande ceia. Era terreno inculto; contudo, a palavra não se perdeu por completo. Vários se firmaram numa atenção séria. Outros manifestaram a sua aprovação; uns poucos choraram.

Fui seguido até a minha hospedagem por um soldado devoto, um da nossa Sociedade em Dublin, que mantém a sua integridade. Alguns outros me visitaram e me convenceram de que Deus não se deixou sem testemunho neste lugar.

À noite, a multidão pisava uns nos outros de tal forma que demorou algum tempo até que se acalmassem para ouvir. Recebi uma pedrada na lateral da cabeça e chamei a pessoa a se apresentar e, se eu lhe tivesse feito algum mal, que me atingisse de novo. Esse pequeno incidente aumentou a atenção deles. Ergui a minha voz como uma trombeta e mostrei ao povo as suas transgressões e o caminho para ser salvo delas. Eles receberam as minhas palavras e falaram bem da verdade. Uma súbita mudança foi visível no comportamento deles depois; pois Deus lhes havia tocado o coração. Até mesmo os católicos reconheceram que “ninguém poderia achar defeito no que o homem disse”. Apenas um me amaldiçoou amargamente, e a todos os que algum dia orassem por mim.

Quinta-feira, 8 de setembro

A chuva nos levou ao mercado, um lugar bem mais conveniente para pregar. Surpreendi-me ao encontrar tamanha multidão com um tempo daqueles. Eles se abateram por todos os lados, tomados de uma justa consciência das suas carências.

Da vez seguinte, vários católicos de melhor condição vieram ouvir por si mesmos, e um exército inteiro de soldados. Todos ficaram profundamente silenciosos assim que abri a boca com as palavras do nosso Senhor moribundo: “Não lhes importa isto, todos vocês que passam pelo caminho?” (Lm 1.12). O amor de Cristo crucificado derrubou tudo diante de si.

Uma senhora da Igreja Romana quis me levar à sua casa. Ela me garantiu que o governador da cidade (chamado o Soberano), assim que soube da minha chegada, dera ordens para que ninguém ousasse me perturbar; que um cavalheiro que se propôs a me insultar teria sido despedaçado pelos católicos, se não tivesse fugido; e que os católicos, em geral, são meus firmes amigos.

Vale notar que, em Kinsale, sou de toda religião. Os presbiterianos dizem que sou presbiteriano; os frequentadores da igreja, que sou um ministro deles; e os católicos têm certeza de que, no fundo, sou um bom católico.

Voltei a Cork. Aqui as testemunhas aumentam tanto que perdemos a conta.

Sexta-feira, 9 de setembro

Tive a manhã inteira para mim mesmo e para os meus queridos amigos no País de Gales. Tive doce comunhão com eles ao ler as suas cartas, e os via, por assim dizer, todos ao meu redor, diante do trono da graça.

Sábado, 10 de setembro

Um homem e a sua esposa me abordaram e disseram: “Nós o seguimos de Bandon a Kinsale e até aqui; e, se não o tivéssemos encontrado aqui, os nossos corações estão tão inflamados por você que o teríamos seguido até Dublin e por todo o mundo.” Insistiram tanto para que eu fosse mais uma vez a Bandon que não pude recusar. Alguns de Middleton e Youghal também me pressionaram a ir até eles.

Em conversa particular, encontrei uma senhora que recebeu o perdão havia pouco tempo, quando mal o buscava.

Preguei, na prisão do sul, sobre “Que devo fazer para ser salvo?” (At 16.30) e fiz uma coleta para os presos.

Orei uma segunda vez com Sally Gwynne, uma pranteadora sincera, quase pronta para o consolo.

Encontrei a extraordinária jovem, forte no Senhor, impaciente para vender tudo. Recomendei-lhe que continuasse na sua vocação e esperasse nele por orientação.

Domingo, 11 de setembro

Ouvi um sermão simples e proveitoso em St. Peter’s, contra o julgar os outros. Multidões como aquelas na igreja e no sacramento nunca se viram antes; tão imediatamente é o Evangelho o poder de Deus que salva do pecado. Muitíssimos, desde a primeira vez que o ouviram, cessaram de fazer o mal e aprenderam a fazer o bem.

Fui muito animado por parte da recente exortação do bispo de Exeter ao seu clero, digna de ser escrita em letras de ouro:

“Meus irmãos, rogo-lhes que se levantem comigo contra a pregação meramente moral. Há muito tempo temos tentado a reforma da nação por meio de discursos desse tipo. Com que resultado? Ora, com nenhum. Pelo contrário, com grande habilidade pregamos e levamos o povo à mais franca descrença. Precisamos mudar o nosso discurso; precisamos pregar a Cristo, e este crucificado. Nada além do Evangelho é, nem se achará que seja, o poder de Deus para a salvação. Por isso, peço-lhes de novo e de novo, e ouso acrescentar, ordeno-lhes: preguem a Jesus, e a salvação por meio do seu nome; preguem o Senhor que nos comprou; preguem a redenção por meio do seu sangue; preguem a palavra do grande Sumo Sacerdote: ‘Quem crer será salvo.’ Preguem o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo.”

Segunda-feira, 12 de setembro

Cheguei a Bandon por volta das onze. Minha pobre mulher e o marido dela logo me encontraram e me levaram em triunfo até a sua casa. Os vizinhos acorreram, e tivemos de fato um banquete de amor. Chegou um pródigo, que fora um monstro de perversidade por muitos anos, mas que agora voltou para o seu Pai. Assim também outros da cidade, que eram perversos a ponto de virar provérbio.

Conversei com uma mulher a quem a Palavra feriu e convenceu de que Deus está entre os protestantes. Ela foi criada protestante, mas se voltou jovem para os católicos, e permaneceu com eles por estes vinte anos. Contou-me que jamais conseguira crer que homem algum pudesse lhe perdoar os pecados; mas que Jesus Cristo tem esse poder, disso está persuadida, e por isso retorna aos que pregam o perdão no seu sangue.

Convidei mais de quatro mil pecadores para a grande ceia. Deus lhes deu ouvidos que ouvem. Fui à casa da senhora Jones, uma senhora viúva, tão dócil quanto uma criancinha, decidida a promover a obra de Deus com todas as suas forças. Todos no lugar parecem pensar da mesma forma, exceto o clero. Ah, por que seriam eles os últimos a trazer de volta o seu Rei?

Entristeceu-me ouvir o pobre encorajamento dado no domingo passado às multidões que acorreram à igreja, à qual algumas delas não iam havia anos. Nós as mandamos à igreja para ouvir a nós mesmos sermos atacados e, o que é muito pior, a verdade de Deus.

Terça-feira, 13 de setembro

Separamo-nos com muitas lágrimas e bênçãos mútuas. Segui a cavalo para Kinsale. Aqui também o ministro, o senhor P., em vez de se alegrar de ver tantos publicanos no templo, entreteve-os com uma acusação injuriosa contra mim, como impostor, incendiário e mensageiro de Satanás. Estranha justiça, que o senhor P. seja considerado amigo da Igreja, e eu, inimigo, eu que envio centenas para dentro da Igreja, para que ele os expulse de novo!

Ao meio-dia falei sobre o filho pródigo. Muitos manifestaram sua aprovação com lágrimas silenciosas. Não pude dispensá-los sem uma palavra de conselho sobre como se comportar para com os seus inimigos, perseguidores e caluniadores.

Quinta-feira, 15 de setembro

Depois de proclamar a liberdade aos cativos em Cork, montei a cavalo rumo a Middleton; preguei lá ao meio-dia a uma congregação atenta, que muito me pediu para voltar.

Cavalguei até Youghal, uma cidade portuária a vinte milhas irlandesas de Cork. Fui até a praia. Uma multidão desordenada me seguiu, quase esmagando a mim e uns aos outros até a morte. Enquanto eu descrevia a paixão do nosso Senhor, as ondas se acalmaram, o barulho cessou, e eles ouviram atentamente os seus últimos clamores de morte. O ministro (assim como o povo) manifestou a sua satisfação, dizendo, segundo me contaram: “Estes senhores fizeram muito bem. Há bastante necessidade deles em Youghal.” Hospedei-me na casa do senhor Price, um dissidente amigável, que, com a sua família, me recebeu cordialmente por causa da minha obra.

Sexta-feira, 16 de setembro

A chuva apressou o nosso passo até Middleton. Aqui o meu público foi três vezes mais numeroso que o de ontem. O salão da cidade não os pôde conter. Todos ouviram a sua própria história no pródigo e imploraram muito pela continuação do Evangelho.

O poder do Senhor esteve presente na Sociedade em Cork. Não me admira que Satanás a odeie tanto. Nunca nos reunimos sem que um ou outro seja arrancado dos seus dentes.

Cavalgar com o vento e a chuva no rosto trouxe de volta a minha velha companheira, a dor de dente. Temi que ela me impedisse de me despedir do povo; mas que o meu Senhor cuide disso.

Sábado, 17 de setembro

Depois de uma noite insone de dor, levantei-me para conversar com os que o desejavam. Uma mulher testemunhou que o Senhor falara paz à sua alma trêmula durante o sacramento; Thomas Warburton, que a fé viera pelo ouvir, e que agora ele odeia todo pecado com ódio perfeito, e poderia passar a vida inteira em oração.

Stephen Williams testemunhou: “Ontem à noite senti o meu coração sobrecarregado e prestes a se romper durante a sua oração; mas repeti as suas palavras, até que a minha fala se calou. Então senti que desfalecia, caía para trás e afundava na perdição; quando, de repente, fui erguido, o meu coração se aliviou, o meu fardo se foi, e vi todos os meus pecados de uma vez, tão negros, tão numerosos, mas todos tirados. Agora não temo nem a morte, nem o diabo, nem o inferno. Estou mais feliz do que consigo lhe dizer. Sei que Deus, por amor de Cristo, me perdoou.”

Outros dois, nos quais encontrei uma verdadeira obra de graça iniciada, eram católicos até ouvirem o Evangelho; mas agora estão reconciliados com a igreja, isto é, a verdadeira e invisível igreja, ou comunhão dos santos, com quem há perdão dos pecados. Recolhemos umas poucas dessas ovelhas perdidas, mas raramente falamos disso, para que os nossos próprios e bons protestantes não incitem os católicos a nos despedaçar.

Na casa do senhor Rolt, um dissidente piedoso, ouvi falar da extrema amargura dos seus dois ministros, que fazem questão de ir de casa em casa colocando o seu povo contra a verdade e ameaçando de excomunhão todos os que nos ouvem. Tão além dos católicos estão esses homens moderados avançados na perseguição.

Domingo, 18 de setembro

Levantei-me, como me deitara, com dor, que me manteve confinado o dia inteiro. Pedi a Deus que a suspendesse, se fosse da sua vontade que eu falasse uma palavra proveitosa ao me despedir do seu povo. Fui encontrá-los às cinco, por alguns minutos. O pântano estava totalmente coberto. Mais de dez mil pessoas, ao que se supunha, permaneciam firmes em profunda atenção. Não se ouvia sequer uma respiração entre todas elas. Li fracamente o meu texto, At 2.42: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.” Notaram a minha fraqueza e me fortaleceram com a oração deles. Exortei-os a andar como os primeiros seguidores de Cristo. Minhas palavras penetraram nos seus corações e os desfizeram em lágrimas. Por duas horas choramos e nos alegramos juntos; encomendamos uns aos outros a Deus repetidas vezes.

Mencionei com honra o comportamento do nosso próprio clero; nenhum deles falou publicamente a menor palavra contra nós. Eu já lhes dissera antes, e agora repeti: que a perseguição há de surgir por causa da Palavra. O Senhor me deu grande confiança e amor por eles; e nos separamos de modo triunfante, com voz de alegria e de ação de graças.

Segunda-feira, 19 de setembro

Levantei-me às duas, revigorado como que por vinho, e parti com Robert Swindells. Minha dor foi mantida afastada pela oração dos que deixei para trás. Cheguei a Cashel à noite. Nosso anfitrião, um católico sério, e o vizinho dele, um quacre cordial e amável, fizeram-nos esquecer a jornada.

Terça-feira, 20 de setembro

Cheguei a T—— por volta das nove. Encontrei vários clérigos que acompanhavam o arcebispo, vindo para crismar. Preguei à porta da minha hospedaria. O povo se comportou melhor ao final do que no começo.

Achei que as doze milhas até Roscrea davam umas boas seis horas de cavalgada, com a chuva nos acompanhando o tempo todo. Às cinco chegamos à casa do senhor White, saturados de viagem; mas não tive tempo de descansar, porque o povo me reclamava. Meus joelhos e olhos falharam, de modo que eu não conseguia ficar de pé nem enxergar. Apoiei-me numa porta e clamei: “Não lhes importa isto, todos vocês que passam pelo caminho?” (Lm 1.12). A palavra não estava fraca, como eu.

Quarta-feira, 21 de setembro

Às quatro chegamos a Mountmelick. Preguei no mercado a uma multidão de pobres pecadores convictos; nada pude mencionar além de puras promessas. Receberam a Palavra como almas ofegantes por Deus.

Quinta-feira, 22 de setembro

Recebi trinta novos membros.

Cavalguei até B——, a pedido insistente de um clérigo, que me recebeu, levou-me à sua casa e, depois de expor honestamente as suas objeções e de atender às minhas respostas, permitiu-me falar com grande franqueza e aplicação particular.

Às quatro chegamos à casa do senhor Jackson, em Birr. Preguei sobre “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). O poder do Altíssimo nos cobriu com a sua sombra. Uma senhora se prostrou aos pés de Jesus. A maioria pareceu comovida.

Sexta-feira, 23 de setembro

Conversei com o irmão do meu anfitrião, um publicano de verdade! Um monstro de perversidade até há pouco, mas agora tão mudado que a cidade inteira está espantada com isso. Às cinco preguei num celeiro do senhor Wade, perto de Aghrim, raramente com maior poder. Deixei uma jovem nas dores do novo nascimento.

Sábado, 24 de setembro

Por volta da uma hora o Senhor nos trouxe em segurança aos nossos amados irmãos em Athlone. Nenhum Padre Ferril, ou seus voluntários, opôs-se à nossa entrada. A porta está bem aberta, ainda que à custa de uma vida, se não de mais; pois a primeira notícia que ouvi foi que a pobre mulher grávida que protegera J. Healey do seu inimigo morrera recentemente dos golpes que então recebeu.

Preguei no mercado e me reuni com a Sociedade num celeiro, que um católico bem-disposto nos empresta, para grande desagrado dos seus companheiros. Nossos pobres cordeirinhos estavam todos em lágrimas, pranteando por Jesus.

Domingo, 25 de setembro

Examinei cada um da Sociedade, que soma mais de duzentos. Um soldado me seguiu e me contou que, “enquanto eu falava com eles, um temor horrível o dominou; ele soube que eu era um servo de Deus; viu-se como que citado ao tribunal; sentiu o peso de todos os seus pecados; tremeu, cada osso dele, e estremeceu excessivamente, com medo dos juízos de Deus”. Não pude impedir que ele se prostrasse repetidas vezes a meus pés, sob apreensões de Deus, o Juiz justo, tão penetrantes que me fizeram invejar a sua condição.

Aceitei um convite do Rev. senhor T. e consolei os pranteadores no mercado, com todas as preciosas promessas do Evangelho, resumidas em Is 35.

Almocei com o senhor R., um cavalheiro da religião católica romana até ouvir o meu irmão; desde então, tanto ele quanto a sua casa, com vários outros, passaram para a Igreja da Inglaterra e, o que é muito melhor, para o poder da piedade.

Na pregação da noite veio a grande bênção. Os clamores dos espíritos feridos não podem ser descritos. O lugar ecoava com fortes brados por “misericórdia, misericórdia!”. Eu concluía e recomeçava, repetidas vezes; depois cantava, orava e cantava, sem saber como parar.

Segunda-feira, 26 de setembro

Despedi-me com aquelas palavras solenes, que tocaram os seus corações: “E agora, irmãos, eu os encomendo a Deus” (At 20.32). Às três cheguei em segurança aos nossos queridos amigos em Tyrrell’s-Pass. Não se deve esquecer que o soldado condenado me disse, na despedida, que o Senhor o havia absolvido.

Terça-feira, 27 de setembro

Encontrei muita vida ao aplicar aquelas palavras: “Eis que estou à porta e bato” (Ap 3.20). Montei a cavalo rumo a Dublin. O jovem senhor Wade me acompanhou por três ou quatro milhas. A mãe dele morreu na semana passada, em paz. Ele a segue velozmente, no último estágio de uma tuberculose; ainda não alcançou o alvo, mas sabe que não partirá enquanto os seus olhos não virem a salvação de Deus. Encomendei-o ao Senhor Jesus e marquei de reencontrá-lo em seguida no paraíso. Segui a cavalo sozinho, e, no entanto, não sozinho. Minha hora de oração ao meio-dia refrescou o meu espírito. Meus amigos ausentes nunca estiveram menos ausentes. Cheguei a Dublin antes de anoitecer.

Quarta-feira, 28 de setembro

Tomei o café da manhã com M. Folliard, a quem deixei de luto e encontrei alegrando-se em Cristo, seu Salvador. A Sociedade está florescente. Passei o tempo, das doze à uma, como de costume, em nosso jardim, com os meus amigos cristãos. Eles nunca deixam de me encontrar diante do trono, no meu recolhimento.

Sexta-feira, 30 de setembro

À noite o nosso Senhor traspassou muitos corações com os seus clamores de morte. Dois receberam a fé; muitos, um sentido mais profundo do seu amor.

Sábado, 1º de outubro

Foi a primeira vez que me reuni com as bandas. O Senhor esteve conosco, e nos alegramos nele com reverência.

Domingo, 2 de outubro

Um recebeu a bênção sob a Palavra. Assim que a Sociedade se reuniu, o fogo se acendeu. Três ou quatro testemunharam a graça do nosso Senhor, que então experimentaram pela primeira vez. Um pobre desertor, que, como Demas, nos havia abandonado, entrando furtivamente nesta noite, encontrou uma misericórdia inesperada. A criada dele, ao mesmo tempo, sentiu os seus pecados perdoados e deu glória a Deus. O mesmo fizeram dois ou três outros. Oito ou nove confessaram a sua fé abertamente. Creio que todos os presentes se alegraram, seja na esperança, seja na posse do seu Salvador.

Sexta-feira, 7 de outubro

Na casa do senhor Lunell encontrei um velho quacre holandês, que parecia ter profunda experiência das coisas de Deus. Às duas, o senhor Lampe e a esposa nos visitaram, transbordantes de alegria por me ver. Ainda não abro mão da minha esperança de que eles sejam destinados a coisas melhores do que apascentar porcos, isto é, entreter o mundo frívolo.

Sábado, 8 de outubro

O vento trouxe um barco-correio, e depois se dissipou numa completa calmaria. Ainda assim, tentamos à noite ganhar o mar aberto: os detalhes eu enviei a um amigo:

“Holyhead, 10 de outubro.

“Meu queridíssimo irmão, não lhe contei na despedida que nunca tive um pressentimento mais forte de que o mal estava próximo. No sábado à noite, às oito e meia, entrei no pequeno barco. Levamos duas horas para chegar ao navio. Não havia então água suficiente para cruzar a barra; então descansamos até as onze da manhã de domingo. Aí Deus nos enviou um vento favorável, e navegamos suavemente diante dele a cinco nós por hora. Tudo prometia uma travessia rápida e próspera; contudo, eu ainda sentia o fardo no coração, habitual em momentos de extremo perigo.

“Ao anoitecer o vento se intensificou sobre nós, e tivemos mais do que o suficiente dele. Fui chamado a prestar contas por um pedaço de bolo que eu comera de manhã e fui lançado em violento enjoo. Em cima ou embaixo, na cabine ou no convés, não fazia diferença. Contudo, em meio a isso, eu percebia uma inquietação distinta e mais pesada, sem saber por quê.

“Estava agora escuro como breu, e não pequena tempestade caía sobre nós. O capitão mandara recolher todas as velas. Fiquei quase o tempo todo no convés até as oito e meia; quando, à minha pergunta, ele me disse que esperava estar no porto por volta das nove. Respondi que nos contentaríamos com dez. Enquanto conversávamos, a vela mestra, ao que me parece, soltou-se e voou por sobre a borda, como se fosse arrastar todos nós atrás dela; o pequeno bote, ao mesmo tempo, por falta de amarração, saiu do seu lugar. O capitão gritou: ‘Todos ao convés!’, e me empurrou para dentro da cabine. Em menos de um minuto ouvimos um grito lá em cima: ‘Perdemos o mastro!’ Um passageiro subiu correndo e nos trouxe notícia pior: que não era o mastro, mas o próprio pobre capitão, que eu mal acabara de deixar, quando o bote, ao que se supõe, o atirou ao mar. Daquele momento em diante, não foi mais visto nem ouvido. Minha alma se prostrou diante do Senhor. Ajoelhei-me e encomendei o espírito que partia à sua misericórdia em Cristo Jesus. Adorei a sua bondade que faz distinção. ‘Um será tomado, e o outro deixado’ (Lc 17.36). Pensei naqueles versos de Young:

‘Nenhum aviso dado! Morte sem cerimônia! / Um súbito arranco das alegrias do meio-dia da vida, / um mergulho opaco além de toda conjectura!’

“Os marinheiros estavam tão perturbados que não sabiam o que faziam. Os conveses estavam cobertos de velas, do bote, etc.; o vento mudando de direção; não conseguiam alcançar a bússola, nem o leme por algum tempo. Estávamos bem junto à costa, e a embarcação derivava, não sabiam para onde ou como. Um dos nossos passageiros da cabine correu ao leme e deu ordens como capitão até que endireitaram o navio. Mas atribuo ao nosso Piloto invisível o fato de chegarmos em segurança ao porto pouco depois das dez. A tempestade estava tão forte que duvidávamos que algum bote se arriscasse a nos buscar. Por fim um respondeu e veio. Achei mais seguro ficar no navio, mas, como alguém chamava: ‘Senhor Wesley, o senhor tem de vir’, eu o segui, e às onze horas encontrei a minha velha hospedagem, na casa de Robert Griffith.”

Segunda-feira, 10 de outubro

Bendisse a Deus por não ter ficado no navio na noite anterior. Não me lembro de uma noite mais tempestuosa. Escrevi um hino de ação de graças:

“All thanks to the Lord, / Who rules with a word / The untractable sea, / And limits its rage by his steadfast decree: / Whose providence binds / Or releases the winds, / And compels them again / At his beck to put on the invisible chain.

“Todo o louvor ao Senhor, / que governa com uma palavra / o mar indomável / e limita a sua fúria pelo seu decreto imutável: / cuja providência prende / ou solta os ventos / e os compele de novo, / a um aceno seu, a vestir a corrente invisível.

“Even now he hath heard / Our cry, and appear’d / On the face of the deep, / And commanded the tempest its distance to keep: / His piloting hand / Hath brought us to land, / And, no longer distress’d, / We are joyful again in the haven to rest.

“Ainda agora ele ouviu / o nosso clamor e apareceu / sobre a face do abismo, / e ordenou à tempestade que se mantivesse à distância: / a sua mão de piloto / trouxe-nos à terra, / e, não mais aflitos, / de novo nos alegramos por descansar no porto.

“O that all men would raise / His tribute of praise, / His goodness declare, / And thankfully sing of his fatherly care! / With rapture approve / His dealings of love, / And the wonders proclaim, / Perform’d by the virtue of Jesus’s name!

“Ah, se todos os homens elevassem / o seu tributo de louvor, / declarassem a sua bondade / e cantassem, agradecidos, do seu cuidado paternal! / Que com arrebatamento aprovassem / os seus atos de amor / e proclamassem as maravilhas / realizadas pela virtude do nome de Jesus!

“Through Jesus alone / He delivers his own, / And a token doth send / That his love shall direct us, and save to the end: / With joy we embrace / The pledge of his grace, […]

“Somente por meio de Jesus / ele livra os que são seus / e envia um sinal / de que o seu amor nos guiará e nos salvará até o fim: / com alegria abraçamos / o penhor da sua graça, […]

[O hino continua no início do próximo capítulo.]

Tradução em linguagem de hoje, com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: The Journal of the Rev. Charles Wesley (ed. Thomas Jackson, Londres, 1849).