DIÁRIO DE WESLEY · CAPÍTULO 1

Wesley, missionário na Geórgia

Do Clube Santo de Oxford à colônia da Geórgia: a travessia do Atlântico, os morávios que cantavam na tempestade e um missionário zeloso que ainda não conhecia a paz que pregava (1729–1736).

1729–1736 ⏱ 22 min de leituraOxford, o mar e a Geórgia

“Não; nossas mulheres e crianças não têm medo de morrer.”

(Diário, 25 de janeiro de 1736)

Antes de ler

Com este capítulo começa a publicação do Diário de John Wesley na linguagem de hoje, a partir da clássica edição condensada de Percy Livingstone Parker (1903). O Diário acompanha 55 anos de ministério; aqui vemos o seu início: o pequeno grupo de Oxford apelidado de “Clube Santo” e a missão de Wesley na colônia da Geórgia, na América, entre 1735 e 1737.

Este é um retrato de Wesley antes da experiência da rua Aldersgate (1738). Ele é disciplinado, zeloso, missionário — e, no entanto, ainda não tem a certeza da salvação. As perguntas do pastor morávio Spangenberg (“Você conhece Jesus Cristo?… Mas você sabe que ele salvou você?”) e a serenidade dos morávios durante as tempestades no Atlântico expõem essa carência com uma honestidade que o próprio Wesley registra contra si mesmo: “eu não estava disposto a morrer”.

O leitor notará a linguagem da época em expressões como “pagãos” e “homens vermelhos”, referidas aos povos indígenas norte-americanos, e perceberá as tensões coloniais do período. Preservamos o texto como documento histórico. O valor do relato está justamente em ver a graça de Deus operando num homem sincero, ainda em formação, que se dispôs a servir antes de compreender plenamente o evangelho que mais tarde anunciaria com tanto poder.

Que a leitura nos conduza à pergunta que alcançou o próprio Wesley no meio do mar: temos nós a fé que não teme a morte, porque descansa no Salvador e tem o testemunho do Espírito de que somos filhos de Deus? (Rm 8.16)

— Bispo Ildo Mello

Texto:

A primeira entrada do Diário de Wesley é a de 14 de outubro de 1735. A carta a seguir, porém, publicada por Wesley junto com a primeira edição do Diário, vem antes dela, pois descreve os acontecimentos que levaram à formação do Clube Santo e às atividades de serviço das quais, como o próprio Diário mostra, o metodismo evoluiu. A carta foi escrita de Oxford, em 1732, ao senhor Morgan, cujo filho é mencionado nela. Diz o seguinte:

Wesley inicia seu trabalho

Em novembro de 1729, época em que vim residir em Oxford, seu filho [o senhor Morgan], meu irmão, eu mesmo e mais um combinamos passar juntos três ou quatro noites por semana. Nosso propósito era reler os clássicos, que antes tínhamos lido em particular, nas noites comuns e, aos domingos, algum livro de teologia. No verão seguinte, o senhor M. contou-me que havia passado na cadeia para ver um homem condenado por matar a esposa; e que, pela conversa que teve com um dos presos por dívida, cria sinceramente que faria muito bem se alguém se desse ao trabalho de falar com eles de vez em quando.

Ele repetiu isso tantas vezes que, em 24 de agosto de 1730, meu irmão e eu caminhamos com ele até o castelo. Ficamos tão satisfeitos com a conversa que tivemos ali que combinamos ir lá uma ou duas vezes por semana. Pouco tempo depois, ele me pediu que fosse com ele visitar uma pobre mulher da cidade, que estava doente. Também nessa ocupação, quando paramos para refletir, cremos que valeria a pena investir uma ou duas horas por semana, desde que o ministro da paróquia à qual a pessoa pertencesse não se opusesse. Mas, para não dependermos apenas do nosso próprio juízo, escrevi a meu pai um relato de todo o nosso plano, rogando que ele — que já vivera setenta anos no mundo e vira dele tanto quanto a maioria dos homens comuns jamais viu — nos aconselhasse: teríamos ido longe demais? Devíamos parar ou seguir adiante?

A origem do Clube Santo

Seguindo as orientações dele, fui imediatamente ao senhor Gerald, capelão do bispo de Oxford, que era também o responsável pelos presos quando algum era condenado à morte (nos demais casos, eram deixados aos próprios cuidados). Propus-lhe nosso plano de servi-los até onde pudéssemos, e minha intenção de pregar ali uma vez por mês, se o bispo aprovasse. Ele elogiou muito o projeto e disse que respondia pela aprovação do bispo, a quem o mencionaria na primeira oportunidade. Não demorou a informar-me de que assim fizera, e que sua excelência não apenas dava a permissão, mas estava muito satisfeito com a iniciativa e esperava que tivesse o êxito desejado.

Pouco depois, um cavalheiro do Merton College, um dos integrantes do nosso pequeno grupo — que agora era formado por cinco pessoas —, contou-nos que no dia anterior tinha sido muito ridicularizado por ser membro do “Clube Santo”; e que isso se tornara motivo comum de zombaria em seu colégio, onde haviam descoberto vários “costumes” nossos, dos quais nós mesmos nem tínhamos conhecimento. Diante disso, consultei meu pai novamente.

* * *

Com o encorajamento dele, continuamos a nos reunir como de costume; a confirmar uns aos outros, como podíamos, na resolução de comungar sempre que houvesse oportunidade (o que aqui acontece uma vez por semana); e a prestar aos nossos conhecidos, aos presos e a duas ou três famílias pobres da cidade o serviço que estivesse ao nosso alcance.

Wesley embarca para a América

1735. Terça-feira, 14 de outubro. O senhor Benjamin Ingham, do Queen’s College, em Oxford; o senhor Charles Delamotte, filho de um comerciante de Londres, que se oferecera alguns dias antes; meu irmão, Charles Wesley, e eu tomamos um barco para Gravesend, a fim de embarcar para a Geórgia. Nosso propósito ao deixar a pátria não era fugir da necessidade (Deus nos dera fartura de bênçãos materiais), nem ganhar o esterco e a escória das riquezas ou das honras, mas unicamente este: salvar a nossa alma; viver inteiramente para a glória de Deus. À tarde encontramos o Simmonds ao largo de Gravesend e subimos a bordo imediatamente.

Sexta-feira, 17. Comecei a aprender alemão, para conversar com os alemães, dos quais havia vinte e seis a bordo. No domingo, com tempo bom e calmo, tivemos o culto matinal no tombadilho. Ali preguei, pela primeira vez, de improviso, e em seguida ministrei a Ceia do Senhor a seis ou sete comungantes.

Segunda-feira, 20. Crendo que negar-nos a nós mesmos, mesmo nas menores coisas, poderia, com a bênção de Deus, ser-nos proveitoso, abandonamos por completo o uso de carne e de vinho e nos limitamos à alimentação vegetal — principalmente arroz e biscoito.

Terça-feira, 21. Zarpamos de Gravesend. Quando tínhamos vencido cerca de metade dos bancos de Goodwin, o vento faltou de repente. Se a calmaria tivesse durado até a vazante, o navio provavelmente teria se perdido; mas em uma hora o vento voltou a soprar e nos levou até os Downs.

Começamos então a viver com alguma regularidade. Nosso modo comum de viver era este: das quatro da manhã às cinco, cada um de nós fazia oração individual. Das cinco às sete, líamos a Bíblia juntos, comparando-a cuidadosamente (para não nos apoiarmos no nosso próprio entendimento) com os escritos dos primeiros séculos da igreja. Às sete, tomávamos o desjejum. Às oito eram as orações públicas. Das nove ao meio-dia, eu costumava estudar alemão, e o senhor Delamotte, grego; meu irmão escrevia sermões, e o senhor Ingham instruía as crianças. Ao meio-dia nos reuníamos para prestar contas uns aos outros do que havíamos feito desde o último encontro e do que planejávamos fazer antes do seguinte. Por volta de uma hora, almoçávamos.

A vida a bordo

O tempo entre o almoço e as quatro passávamos lendo para aqueles que cada um de nós tomara a seu cuidado, ou falando com eles individualmente, conforme a necessidade. Às quatro eram as orações vespertinas, quando se explicava a segunda leitura (como sempre se fazia pela manhã), ou as crianças eram catequizadas e instruídas diante da congregação. Das cinco às seis, novamente a oração individual. Das seis às sete, eu lia em nossa cabine para dois ou três passageiros (havia cerca de oitenta ingleses a bordo), e cada um dos meus companheiros fazia o mesmo, para alguns mais, nas suas.

Às sete, eu me unia aos alemães no culto público deles, enquanto o senhor Ingham lia entre os conveses para quantos desejassem ouvir. Às oito nos reuníamos de novo para exortar e instruir uns aos outros. Entre nove e dez íamos deitar, e ali nem o bramido do mar nem o balanço do navio podiam tirar o sono restaurador que Deus nos dava.

Sexta-feira, 31. Saímos dos Downs. Às onze da noite fui acordado por um grande estrondo. Logo percebi que não havia perigo; mas a simples suspeita dele me deu viva convicção do tipo de pessoas que devem ser aquelas que estão, a cada momento, à beira da eternidade.

Sábado, 1º de novembro. Chegamos ao porto de St. Helen’s e, no dia seguinte, ao ancoradouro de Cowes. O vento era favorável, mas esperávamos o navio de guerra que devia partir conosco. Foi uma feliz oportunidade de instruir nossos companheiros de viagem.

Domingo, 23. À noite fui despertado pelo sacudir do navio e pelo rugido do vento, que mostravam claramente que eu não estava apto a morrer — pois não estava disposto a isso.

Quarta-feira, 10 de dezembro. Zarpamos de Cowes e à tarde passamos pelas Needles. Ali as rochas escarpadas, com as ondas quebrando e espumando ao seu pé, e o flanco branco da ilha erguendo-se a prumo sobre a praia a tamanha altura, davam uma forte ideia daquele que mediu as águas na concha da mão e tomou a medida dos céus a palmos (Is 40.12).

1736. Quinta-feira, 15 de janeiro. Tendo chegado ao senhor Oglethorpe uma queixa sobre a distribuição desigual da água entre os passageiros, ele nomeou novos encarregados para cuidar dela. Os antigos e seus amigos ficaram extremamente exasperados contra nós, a quem atribuíram a mudança.

Sábado, 17. Muitos estavam impacientes com o vento contrário. Às sete da tarde, foram aquietados por uma tempestade. Ela cresceu mais e mais até as nove. Por volta das nove, o mar quebrou sobre nós de proa a popa, irrompeu pelas janelas da cabine principal, onde estávamos três ou quatro, e nos cobriu por inteiro, embora uma escrivaninha me abrigasse do impacto principal. Por volta das onze, deitei-me na cabine grande e em pouco tempo adormeci, bem incerto de acordar vivo e muito envergonhado da minha má vontade de morrer. Ah, quão puro de coração deve ser aquele que se alegraria de comparecer diante de Deus a qualquer momento! Pela manhã, ele repreendeu os ventos e o mar, e houve grande bonança (Mt 8.26).

Tempestades memoráveis no Atlântico

Sexta-feira, 23. À tarde começou outra tempestade. Pela manhã aumentou tanto que foram obrigados a deixar o navio correr com o vento. Eu não podia deixar de dizer a mim mesmo: “Como é que você não tem fé?” (Mc 4.40) — pois continuava sem estar disposto a morrer. Por volta de uma da tarde, mal eu saíra pela porta da cabine principal, o mar não quebrou como de costume, mas veio numa onda cheia e lisa por sobre o costado do navio. Num instante fui sepultado pelas águas, e tão atordoado que mal esperava levantar a cabeça de novo antes que o mar devolvesse os seus mortos. Mas, graças a Deus, não sofri dano algum. Por volta da meia-noite a tempestade cessou.

Domingo, 25. Ao meio-dia começou nossa terceira tempestade. Às quatro estava mais violenta que as anteriores. Às sete fui ter com os alemães. Já havia muito eu observava a grande seriedade do seu comportamento. Da sua humildade davam prova contínua, realizando para os outros passageiros aqueles serviços humildes que nenhum dos ingleses queria assumir, pelos quais não pediam nem aceitavam pagamento, dizendo que “aquilo fazia bem ao seu coração orgulhoso” e que “o seu amado Salvador fizera mais por eles”. E cada dia lhes dava ocasião de mostrar uma mansidão que injúria alguma podia abalar. Se eram empurrados, golpeados ou derrubados, levantavam-se e seguiam adiante; queixa não se achava em sua boca. Agora havia a oportunidade de verificar se estavam livres do espírito de medo, tanto quanto do de orgulho, ira e vingança.

No meio do salmo com que o culto deles começava, o mar quebrou por cima, despedaçou a vela grande, cobriu o navio e derramou-se entre os conveses, como se o grande abismo já nos tivesse tragado. Um grito terrível se levantou entre os ingleses. Os alemães, calmamente, continuaram cantando. Perguntei depois a um deles: “Você não ficou com medo?” Ele respondeu: “Graças a Deus, não.” Perguntei: “Mas as mulheres e as crianças não ficaram com medo?” Ele respondeu, com brandura: “Não; nossas mulheres e crianças não têm medo de morrer.”

Sexta-feira, 30. Tivemos outra tempestade, que não nos causou outro dano além de rasgar a vela do traquete. Estando molhada a minha cama, deitei-me no chão e dormi profundamente até de manhã. E creio que não acharei mais necessário “ir para a cama” (como se diz) nunca mais.

Domingo, 1º de fevereiro. Falamos com um navio da Carolina; e na quarta-feira, dia 4, chegamos a águas onde já se alcançava o fundo com a sonda. Por volta do meio-dia, as árvores já eram visíveis dos mastros e, à tarde, do convés principal. Na lição da tarde estavam estas palavras: “uma porta grande e oportuna se abriu” (1Co 16.9). Oh, que ninguém a feche!

Quinta-feira, 5. Entre duas e três da tarde, Deus nos levou a todos em segurança ao rio Savannah. Lançamos âncora perto da ilha de Tybee, onde os bosques de pinheiros ao longo da costa formavam uma vista agradável, mostrando, por assim dizer, o viço da primavera em pleno inverno.

Wesley chega à Geórgia

Sexta-feira, 6. Por volta das oito da manhã, pisamos pela primeira vez em solo americano. Era uma pequena ilha desabitada, defronte de Tybee. O senhor Oglethorpe nos conduziu a uma elevação, onde todos nos ajoelhamos para dar graças. Em seguida, ele tomou um barco para Savannah. Quando o restante do povo desembarcou, reunimos nosso pequeno rebanho para a oração.

Sábado, 7. O senhor Oglethorpe voltou de Savannah com o senhor Spangenberg, um dos pastores dos alemães. Logo percebi de que espírito ele era e pedi o seu conselho quanto à minha própria conduta. Ele disse: “Meu irmão, primeiro preciso fazer-lhe uma ou duas perguntas. Você tem o testemunho dentro de si mesmo? O Espírito de Deus testemunha com o seu espírito que você é filho de Deus? (Rm 8.16)”. Fiquei surpreso e não soube o que responder. Ele percebeu e perguntou: “Você conhece Jesus Cristo?” Fiz uma pausa e disse: “Sei que ele é o Salvador do mundo.” “É verdade”, respondeu ele, “mas você sabe que ele salvou você?” Respondi: “Espero que ele tenha morrido para me salvar.” Ele acrescentou apenas: “Você conhece a si mesmo?” Eu disse: “Conheço.” Mas temo que fossem palavras vãs.

Sábado, 14. Por volta de uma hora, Tomo Chachi, seu sobrinho Thleeanouhee, sua esposa Sinauky, com mais duas mulheres e duas ou três crianças indígenas, vieram a bordo. Assim que entramos, todos se levantaram e nos apertaram a mão; e Tomo Chachi (o senhor Musgrove interpretava) falou assim:

“Estou contente com a vinda de vocês. Quando estive na Inglaterra, desejei que alguém falasse a grande Palavra a mim, e a minha nação desejava então ouvi-la; mas agora estamos todos em confusão. Ainda assim, estou contente com a vinda de vocês. Subirei para falar aos sábios da nossa nação, e espero que ouçam. Mas não queremos ser feitos cristãos como os espanhóis fazem cristãos: queremos ser ensinados, antes de sermos batizados.”

Respondi: “Há um só, aquele que está sentado no céu, que é capaz de ensinar sabedoria ao ser humano. Embora tenhamos vindo de tão longe, não sabemos se ele se agradará de ensiná-los por nosso meio ou não. Se ele os ensinar, vocês aprenderão sabedoria; mas nós, por nós mesmos, nada podemos fazer.” Então nos retiramos.

Quinta-feira, 19. Meu irmão e eu tomamos um barco e, passando por Savannah, fomos fazer a nossa primeira visita na América aos pobres pagãos.

O início do ministério em Savannah

Domingo, 7 de março. Iniciei meu ministério em Savannah pregando sobre a epístola do dia: o capítulo 13 de Primeira Coríntios. Na segunda leitura (Lucas 18) estava a predição do nosso Senhor sobre o tratamento que ele mesmo — e, por consequência, os seus seguidores — haveria de receber do mundo: “Em verdade lhes digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou mulher, ou irmãos, ou pais, ou filhos por causa do Reino de Deus que não receba, no presente, muito mais, e, no mundo que há de vir, a vida eterna” (Lc 18.29-30).

E, no entanto — apesar dessas declarações do nosso Senhor, apesar da minha própria experiência repetida, apesar da experiência de todos os sinceros seguidores de Cristo com quem já conversei, sobre os quais li ou de quem ouvi falar; mais ainda, apesar de a própria razão demonstrar que todos os que não amam a luz devem odiar aquele que trabalha continuamente para derramá-la sobre eles —, dou aqui testemunho contra mim mesmo: quando vi o número de pessoas que se apinhavam na igreja, a profunda atenção com que recebiam a Palavra e a seriedade que depois se assentava em todos os rostos, mal pude evitar de desmentir, de uma só vez, a experiência, a razão e a Escritura.

Mal podia crer que a maior — a de longe maior — parte daquele povo atento e sério viria depois a pisar aquela Palavra e a dizer falsamente todo tipo de mal daquele que a pregou.

Segunda-feira, 15. Tendo o senhor Quincy partido para a Carolina, mudei-me para a casa pastoral. É grande o bastante para uma família maior que a nossa e tem muitas comodidades, além de um bom jardim.

Terça-feira, 30. O senhor Ingham, vindo de Frederica, trouxe-me cartas que insistiam para que eu fosse até lá. No dia seguinte, o senhor Delamotte e eu começamos a experimentar se a vida não se sustentaria tão bem com um único alimento quanto com variedade. Escolhemos fazer o experimento com pão; e nunca estivemos mais vigorosos e saudáveis do que enquanto não provamos outra coisa.

“Acordei debaixo d’água”

Domingo, 4 de abril. Por volta das quatro da tarde parti para Frederica numa pettiawga — uma espécie de barcaça de fundo chato. Na tarde seguinte ancoramos perto da ilha de Skidoway, onde a água, na maré cheia, tinha uns quatro metros de profundidade. Enrolei-me da cabeça aos pés numa grande capa, para me proteger dos mosquitos de areia, e deitei-me no tombadilho. Entre uma e duas horas, acordei debaixo d’água: dormia tão profundamente que só percebi onde estava quando minha boca se encheu dela. Tendo deixado a capa, não sei como, sobre o convés, nadei contornando até o outro lado da pettiawga, onde havia um bote amarrado, e subi pela corda sem dano algum, além das roupas molhadas.

Sábado, 17. Não encontrando ainda porta aberta para o nosso propósito principal, consideramos de que maneira poderíamos ser mais úteis ao pequeno rebanho de Savannah. E combinamos: primeiro, aconselhar os mais sérios dentre eles a formarem uma espécie de pequena sociedade, reunindo-se uma ou duas vezes por semana para corrigir, instruir e exortar uns aos outros; segundo, selecionar dentre esses um número menor para uma união mais íntima entre si, o que poderia ser promovido, em parte, conversando individualmente com cada um e, em parte, convidando-os todos juntos à nossa casa; e isso decidimos fazer todos os domingos à tarde.

Segunda-feira, 10 de maio. Comecei a visitar meus paroquianos em ordem, de casa em casa. Para isso separei o horário em que não podem trabalhar por causa do calor: do meio-dia às três da tarde.

Quinta-feira, 17 de junho. Um oficial de um navio de guerra, caminhando logo atrás de nós com dois ou três conhecidos, praguejava e blasfemava terrivelmente. Quando o repreendi, porém, mostrou-se comovido e agradeceu-me muito.

Terça-feira, 22. Observando muita frieza no comportamento do senhor M., perguntei-lhe a razão. Ele respondeu: “Não gosto de nada do que o senhor faz. Todos os seus sermões são sátiras contra pessoas determinadas, por isso nunca mais vou ouvi-lo; e todo o povo pensa como eu, pois não vamos ficar ouvindo insultos contra nós mesmos.”

“Além disso, eles dizem que são protestantes. Mas, quanto ao senhor, não conseguem dizer de que religião o senhor é. Nunca ouviram falar de uma religião assim, e não sabem o que pensar dela. E há ainda o seu comportamento particular: todas as brigas que houve por aqui desde que o senhor chegou foram por sua causa. Na verdade, não há homem nem mulher na cidade que dê atenção a uma palavra sua. O senhor pode continuar pregando pelo tempo que quiser; mas ninguém virá ouvi-lo.”

Ele estava exaltado demais para ouvir uma resposta. Assim, não me restou senão agradecer-lhe a franqueza e seguir meu caminho.

Conversas com os indígenas

Quarta-feira, 30. Tive esperança de que se abrisse uma porta para subir imediatamente aos choctaws, a menos polida — isto é, a menos corrompida — de todas as nações indígenas. Mas, quando informei o nosso plano ao senhor Oglethorpe, ele objetou não só o perigo de sermos interceptados ou mortos pelos franceses, mas, muito mais, a inconveniência de deixar Savannah sem ministro. Relatei essas objeções aos nossos irmãos à noite, e todos foram da mesma opinião: “Ainda não devemos ir.”

Quinta-feira, 1º de julho. Os indígenas tiveram uma audiência; e outra no sábado, quando Chicali, seu líder, almoçou com o senhor Oglethorpe. Depois do almoço, perguntei ao velho de cabelos grisalhos para que ele achava que tinha sido criado. Ele disse: “Aquele que está no alto sabe para que nos fez. Nós nada sabemos. Estamos nas trevas. Mas os homens brancos sabem muito. E, ainda assim, os homens brancos constroem grandes casas, como se fossem viver para sempre. Mas o homem branco não pode viver para sempre. Em pouco tempo, os homens brancos serão pó, assim como eu.” Eu lhe disse: “Se os homens vermelhos aprenderem o Bom Livro, poderão saber tanto quanto os homens brancos. Mas nem nós nem vocês podemos entender esse Livro, a menos que sejamos ensinados por aquele que está no alto; e ele não os ensinará, se vocês não deixarem aquilo que já sabem que não é bom.” Ele respondeu: “Creio nisso. Ele não nos ensinará enquanto o nosso coração não estiver branco. E os nossos homens fazem o que sabem que não é bom, e as nossas mulheres também. Por isso aquele que está no alto não nos envia o Bom Livro.”

Segunda-feira, 26. Meu irmão e eu partimos para Charleston, a fim de que ele embarcasse para a Inglaterra; mas, com vento contrário, só alcançamos Port Royal, a uns sessenta e cinco quilômetros de Savannah, na quarta-feira à noite. Na manhã seguinte partimos dali. À tarde, porém, quando cruzávamos a garganta do estreito de St. Helena, o vento estava tão forte que o nosso marinheiro mais velho gritou: “Agora cada um cuide de si.” Eu lhe disse: “Deus cuidará de todos nós.” Quase no mesmo instante, o mastro caiu. Mantive-me na borda do barco, para ficar livre dele quando afundasse (o que esperávamos a cada momento), ainda que com pouca esperança de nadar até a praia contra tal vento e mar. Mas “como é que você não tem fé?” (Mc 4.40). No momento em que o mastro caiu, dois homens o agarraram e o puxaram para dentro do barco; os outros três remaram com todas as forças, e Deus deu ordem ao vento e ao mar, de modo que em uma hora estávamos a salvo em terra.

Sem medo das chuvas e dos orvalhos

Segunda-feira, 2 de agosto. Parti para a residência do vice-governador, a cerca de cinquenta quilômetros de Charleston, para entregar as cartas do senhor Oglethorpe. Ela se ergue, muito aprazível, sobre uma pequena colina, com um vale de cada lado: num deles há um bosque cerrado; o outro é plantado de arroz e milho. Pretendia voltar pela propriedade do senhor Skeen, que tem cerca de cinquenta negros cristãos; mas, tendo-se cansado o meu cavalo, fui obrigado a voltar pelo caminho direto a Charleston.

Eu havia mandado de volta a Savannah o barco em que viemos, esperando conseguir passagem para lá no do coronel Bull. Como ele não partiria tão cedo, fui na quinta-feira a Ashley Ferry, com a intenção de caminhar até Port Royal. Mas o senhor Belinger não apenas me providenciou um cavalo, como cavalgou comigo ele mesmo por dezesseis quilômetros, e mandou o filho me acompanhar até Cumbee Ferry, trinta e dois quilômetros adiante; de onde, alugando cavalos e um guia, cheguei a Beaufort (ou Port Royal) na tarde seguinte. Tomamos um barco pela manhã; mas, com vento contrário e muito forte, só chegamos a Savannah no domingo à tarde.

Sabendo que o senhor Oglethorpe havia partido, fiquei apenas um dia em Savannah e, deixando ali os senhores Ingham e Delamotte, parti na terça-feira de manhã para Frederica. Caminhando para Thunderbolt, apanhei uma chuva tão pesada que as minhas roupas ficaram tão molhadas como se eu tivesse atravessado o rio. A propósito, não posso deixar de comentar o erro popular acerca da nocividade das chuvas e dos orvalhos da América. Já me molhei completamente nessas chuvas mais de uma vez, sem dano algum; e já passei muitas noites ao relento, recebendo todo o orvalho que caía. E creio que qualquer pessoa poderia fazer o mesmo, se a sua constituição não estivesse arruinada pela moleza de uma educação refinada.

O desejo de ir aos indígenas

Terça-feira, 23 de novembro. O senhor Oglethorpe embarcou para a Inglaterra, deixando em Savannah os senhores Ingham e Delamotte e a mim — mas com menos perspectiva de pregar aos indígenas do que no primeiro dia em que pisamos na América. Sempre que eu tocava no assunto, respondiam-me imediatamente: “O senhor não pode deixar Savannah sem ministro.”

A isso a minha resposta simples era: “Não sei de obrigação alguma em contrário. Nunca prometi ficar aqui um mês sequer. Declarei abertamente, antes de vir, ao chegar e desde então, que não assumiria o cuidado dos ingleses senão até poder ir para o meio dos indígenas.” Se diziam: “Mas os administradores da Geórgia não o nomearam ministro de Savannah?”, eu respondia: “Sim, mas não por solicitação minha: foi feito sem o meu desejo e sem o meu conhecimento. Por isso, não posso entender que essa nomeação me obrigue a permanecer aqui além do momento em que se abra uma porta para os pagãos; e isso eu declarei expressamente quando consenti em aceitá-la.”

Mas, embora eu não tivesse outra obrigação de não deixar Savannah agora, havia uma que eu não podia romper: a do amor. Não pude resistir ao pedido insistente dos paroquianos mais sérios: “que velasse pelas suas almas ainda um pouco mais, até que viesse alguém para ocupar o meu lugar”. E o fiz tanto mais de boa vontade porque ainda não havia chegado o tempo de pregar o evangelho da paz aos pagãos, estando todas as suas nações em agitação; e porque Paustoobee e Mingo Mattaw me haviam dito, com todas as letras, na minha própria casa: “Agora os nossos inimigos estão todos ao nosso redor, e nada podemos fazer senão lutar; mas, se os amados um dia nos derem paz, então ouviremos a grande Palavra.”

Quarta-feira, 23 de dezembro. O senhor Delamotte e eu, com um guia, saímos a pé para o Cowpen. Depois de duas ou três horas de caminhada, o nosso guia confessou francamente que não sabia onde estávamos. Contudo, crendo que não podia ser longe, achamos melhor prosseguir. Em uma ou duas horas chegamos a um pântano de ciprestes, que cortava diretamente o nosso caminho. Não havia tempo de voltar a Savannah antes do anoitecer, de modo que o atravessamos, com a água pela altura do peito.

Quando tínhamos andado pouco mais de um quilômetro além dele, estávamos fora de qualquer trilha; e, já posto o sol, sentamo-nos, com a intenção de acender um fogo e ali permanecer até de manhã; mas, achando molhada a nossa isca de acender fogo, ficamos sem saber o que fazer. Aconselhei que continuássemos andando; mas os meus companheiros, fracos e exaustos, preferiram deitar-se, o que fizemos por volta das seis horas. O chão estava tão molhado quanto as nossas roupas e, com a forte geada, logo se congelaram juntos. Ainda assim, dormi até as seis da manhã. Caiu de noite um orvalho pesado, que nos cobriu de branco como neve. Menos de uma hora depois do nascer do sol, chegamos a uma plantação; e, à tarde, sem dano algum, a Savannah.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (edição condensada de Percy Livingstone Parker, 1903). Citações bíblicas conforme a NAA. Edição: Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil.

Ver todos os capítulos