DIÁRIO DE WESLEY · CAPÍTULO 16

O parque de Windsor; Wesley, crítico de arte; Glasgow e Perth; aos setenta anos, pregando a trinta mil

A partida da esposa, a cidadania honorária de Perth, a denúncia do tráfico de escravos como “a soma de todas as vilanias”, o terremoto de Madeley — e o homem de setenta anos ouvido por trinta mil pessoas no anfiteatro de Gwennap.

1771–1773 ⏱ 41 min de leituraTrinta mil ouvintes

“Até hoje a pregação ao ar livre é uma cruz para mim. Mas conheço a minha comissão.”

(Diário, 6 de setembro de 1772)

Antes de ler

Wesley chega aos setenta anos neste capítulo (1771–1773) — e que chegada: em Gwennap, mais de trinta mil pessoas o ouvem distintamente, “talvez a primeira vez que um homem de setenta anos foi ouvido por trinta mil pessoas de uma vez”. E, no entanto, o mesmo homem confessa: “Até hoje a pregação ao ar livre é uma cruz para mim. Mas conheço a minha comissão.” O segredo de meio século de frutos não foi gosto pessoal, e sim obediência: “ai de mim se não pregar o evangelho!” (1Co 9.16).

Uma nota dolorosa abre o capítulo: em janeiro de 1771, a esposa de Wesley partiu para Newcastle “propondo-se a nunca mais voltar”. O registro dele é de poucas palavras, em latim: “Não a abandonei; não a mandei embora; não a chamarei de volta.” Como vimos no capítulo 9, foi um casamento infeliz, com erros que os biógrafos reconhecem de ambos os lados. Recebamos a nota sem idealizar nem condenar: Deus realiza a sua obra também por servos feridos, e “quem está de pé veja que não caia” (1Co 10.12).

Registre-se um marco de consciência cristã: em fevereiro de 1772, Wesley lê o livro de um quacre honesto sobre o tráfico de escravos e o chama de “essa execrável soma de todas as vilanias” — sem paralelo, diz ele, nem no mundo pagão. Dessa convicção nasceriam o tratado Pensamentos sobre a escravidão e, na última semana da sua vida, a famosa carta de incentivo a Wilberforce. No mesmo espírito, ao investigar os levantes de Belfast, ele pergunta quem tem mais culpa: os despejados sem pão ou os que os levaram a tal extremo? “Romper as correntes da injustiça” é jejum que Deus escolhe (Is 58.6).

O leitor encontrará ainda o Wesley de sempre, criterioso e vivo: o que adverte os pais metodistas contra os internatos da moda que ensinavam “orgulho, vaidade e afetação” (Pv 22.6); o que ouve o relato dos “espíritos” do tesouro de Norwich e responde com honestidade rara — “não pude resolver-lhes” se eram bons ou maus; o que critica Rubens, Sterne e o doutor Robertson com igual franqueza; e o que, ao rever quarenta anos de cartas, anota sem amargura: de todos os amigos que se separaram de mim, “foi cada um deles que me deixou; não eu a eles”.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1771. Quarta-feira, 2 de janeiro. Preguei à noite, em Deptford, uma espécie de sermão fúnebre pelo senhor Whitefield. Em todo lugar desejo mostrar todo o respeito possível à memória daquele grande e bom homem.

Quarta-feira, 23. Por causa que até hoje ignoro, minha esposa partiu para Newcastle, propondo-se a “nunca mais voltar”. Non eam reliqui; non dimisi; non revocabo — não a abandonei; não a mandei embora; não a chamarei de volta.

Sexta-feira, 25. Revi e transcrevi o meu testamento, declarando, do modo mais simples, claro e breve que pude, nada mais e nada menos que “o que eu quereria que se fizesse com os bens terrenos que deixo atrás de mim”.

Quinta-feira, 14 de fevereiro. Percorri as salas de cima e de baixo do abrigo de pobres de Londres. Contém cerca de cem crianças, em tão boa ordem quanto qualquer família particular. E a casa inteira está tão limpa, de alto a baixo, quanto precisa estar a de qualquer cavalheiro. E por que não está na mesma ordem todo abrigo de pobres de Londres — sim, do reino inteiro? Puramente por falta de senso, ou de honestidade e diligência, nos que os superintendem.

Segunda-feira, 25. Mostrei a um amigo, vindo do interior, os túmulos da abadia de Westminster. Os dois com que ainda penso que nenhum outro merece comparação são o da senhora Nightingale e o do almirante que se ergue do seu túmulo na ressurreição. Mas a vil bajulação inscrita em muitos deles lembrou-me aquela justa reflexão:

Se no mármore esculpido confiares, / pena que valor como o dele haja de morrer; / se à vida real deres crédito, / pena que um desgraçado como ele haja de viver!

O castelo do conde de Desmond

Quarta-feira, 22 de maio (Irlanda). Depois de pregar em Ballingrane, cavalguei a Askeaton. Não há ruínas, creio, no reino da Irlanda que se comparem a estas. O castelo do velho conde de Desmond é enorme, e foi extraordinariamente forte. Não longe dele, e outrora em comunicação com ele por uma galeria, está o seu grande salão de banquetes. As paredes ainda estão firmes e inteiras; e elas, com os finos lavores dos caixilhos das janelas (todos de mármore polido), dão alguma ideia do que aquilo foi um dia. O seu último senhor viveu como príncipe por muitos anos e rebelou-se repetidas vezes contra a rainha Elizabeth. Depois da última rebelião, totalmente derrotado o seu exército, fugiu para os bosques com duzentos ou trezentos homens. Mas a perseguição foi tão cerrada que estes logo se dispersaram, e ele se meteu sozinho numa pequena cabana. Estava ali sentado quando um soldado entrou e o golpeou. Ele se ergueu e disse: “Sou o conde de Desmond.” O desgraçado, alegre por ter achado presa tão grande, cortou-lhe a cabeça de um golpe. A rainha Elizabeth e o rei Jaime concederam pensão à sua viúva por muitos anos. Vi um retrato impressionante dela, em trajes de viúva, que se diz tirado quando tinha cento e quarenta anos.

A pequena distância do castelo ergue-se a velha abadia, a mais bela ruína do gênero no reino. Não só as paredes da igreja e muitos dos aposentos, mas os claustros inteiros estão de pé. São construídos de mármore negro primorosamente polido, e abobadados do mesmo material; de modo que estão hoje tão firmes como quando foram construídos, há talvez setecentos ou oitocentos anos; e, se não forem destruídos de propósito (como a maior parte dos edifícios antigos da Irlanda), podem durar mil anos mais. Mas some-se isso aos anos que já duraram — e que é isso para a eternidade? Um momento!

Segunda-feira, 24 de junho. Entrei hoje no sexagésimo nono ano da minha idade. Ainda sou uma maravilha para mim mesmo: a minha voz e as minhas forças são as mesmas de quando eu tinha vinte e nove anos. Também isto vem do SENHOR.

Wesley na catedral de Winchester

Terça-feira, 1º de outubro. Segui para Salisbury. Quarta, 2: preguei em Whitchurch; quinta, 3, em Winchester. Achei então tempo para ver a catedral. Ali, a vista do túmulo daquele mau cardeal, que o escultor pôs em postura de oração, trouxe-me à mente os belos versos que Shakespeare pôs na boca do rei Henrique VI: “Lorde cardeal, se tens alguma esperança da graça do céu, dá-nos um sinal. — Ele morre, e não dá sinal algum.”

Na quinta e na sexta à noite preguei em Portsmouth Common. Sábado, 5: parti às duas. Por volta das dez, alguns amigos de Londres me encontraram em Cobham, com quem passeei pelos jardins vizinhos, indizivelmente aprazíveis pela variedade de colinas e vales e pelo admirável traçado do conjunto. E agora, depois de gastar a vida levando-o à perfeição, o dono de cabelos grisalhos o anuncia à venda! Há algo debaixo do sol que possa satisfazer um espírito feito para Deus?

Quarta-feira, 16. Preguei em South Leigh. Foi aqui que preguei o meu primeiro sermão, há quarenta e seis anos. Havia no meu auditório de hoje um homem que o ouviu. A maior parte dos demais já se foi para a sua morada eterna.

Quarta-feira, 30. Fui a pé de Rye a Winchelsea, que se diz ter sido outrora grande cidade, com abundância de comércio e de habitantes, lavando o mar o pé da colina sobre a qual está. A situação é extremamente altiva, sendo a colina alta e íngreme de todos os lados. Mas a cidade encolheu quase a nada, e as sete igrejas, a meia igreja. Preguei às onze, na praça nova, a um número considerável de gente séria; e em Rye à noite, onde havia muitos que “não estão longe do Reino de Deus” (Mc 12.34).

Terça-feira, 5 de novembro. No caminho para Bury, paramos em Felsham, perto da qual fica a propriedade do falecido senhor Reynolds. A casa é, penso, a mais bem traçada e a mais bela que já vi: tem quatro fachadas e cinco salas por andar, mobiliadas com elegância, embora sem suntuosidade. A pequena distância há um bosque delicioso. De todos os lados dele, o pobre homem rico, que não tinha esperança além da sepultura, colocou assentos, para gozar a vida enquanto pudesse. Mas, resolvido a que ninguém da sua família fosse “posto na terra”, construiu no meio do bosque uma estrutura abobadada por cima e por baixo, com nichos para caixões, forte o bastante para durar séculos. Num deles teve logo a satisfação de depositar os restos do seu único filho; e, dois anos depois, os da esposa. Passados mais dois anos, no ano de 1759, tendo comido, bebido e esquecido a Deus por oitenta e quatro anos, foi ele próprio prestar contas da sua mordomia (cf. Lc 12.19-20).

Wesley no parque de Windsor

Sexta-feira, 29. Vimos os melhoramentos daquele homem ativo e útil, o falecido duque de Cumberland. A obra mais notável é a torre triangular que construiu à beira do parque de Windsor. É cercada de arbustos e bosques, com alamedas ora retas, ora serpenteantes, e domina bela vista para os três lados — vastíssima para o sudoeste. Na parte de baixo há um caramanchão que deve ser extremamente agradável numa tarde de verão. Em cada canto há uma pequena projeção circular: uma delas é ocupada por uma escada geométrica; as outras duas contêm pequenos aposentos, um dos quais é um gabinete de estudo. Fui agradavelmente surpreendido ao achar muitos dos livros não só religiosos, mas admiravelmente bem escolhidos. Talvez o grande homem tenha passado ali muitas horas a sós com aquele que vê em secreto; e quem pode dizer quão fundo foi aquela mudança, tão visível na última parte da sua vida?

Dali fomos à casa do senhor Bateman, a mais esquisita que os meus olhos já viram. Tudo respira antiguidade: mal se vê uma cama que não tenha cento e cinquenta anos, e tudo é inteiramente fora do comum — ele despreza ter qualquer coisa parecida com a dos vizinhos. Por seis horas, suponho, essas elegantes esquisitices muito deleitariam um homem curioso; mas, passados seis meses, provavelmente não lhe dariam mais prazer que uma coleção de penas.

Segunda-feira, 16 de dezembro. Cavalguei a Dorking, onde havia muita gente, mas ninguém ferido no coração. Terça, 17: segui para Reigate Place. No tempo do rei Henrique IV, foi um mosteiro eminente. Na dissolução dos mosteiros, caiu nas mãos do grande espoliador, Henrique VIII. A rainha Elizabeth, agradada da situação, escolheu-o para um dos seus palácios. O cavalheiro que hoje o possui mudou-lhe inteiramente a forma, derrubando alas inteiras do edifício antigo e alterando muito o que resta. Ainda assim, depois de tudo o que se tirou, parece mais um palácio que uma casa particular. A escadaria é do mesmo modelo da de Hampton Court: mal se saberia qual é a original. O revestimento da lareira do salão é provavelmente uma das peças de madeira mais curiosas do reino. Mas até quando? Quantos dos seus moradores, outrora buliçosos, já estão debaixo da terra! E quão pouco tempo falta para que a própria casa — sim, a própria terra — seja queimada!

Sábado, 21. Encontrei um velho amigo, James Hutton, que eu não via havia vinte e cinco anos. Senti que isso não fazia diferença alguma: o meu coração estava todo aberto; o dele parecia o mesmo; e conversamos exatamente como em 1738, quando nos encontrávamos em Fetter Lane.

Segunda-feira, 23. Neste dia, e em todos os seguintes em que não estive particularmente ocupado, passei uma hora da manhã com os nossos pregadores, como costumava fazer com os meus alunos em Oxford. Quarta, 25: preguei cedo na Fundição; de manhã e à tarde, na capela. Voltando de lá à noite, um coche colidiu em cheio com a minha sege e quebrou em pedaços um dos varais e os tirantes. Fui grato por ter sido só isso: nem homem nem animal recebeu o menor dano.

Segunda-feira, 30. A pedido do meu irmão, posei de novo para o meu retrato. Esta melancólica ocupação sempre me lembra a reflexão natural: “Vede que fragilidade se pode ver no homem: a sua sombra muda menos do que ele.”

1772. Terça-feira, 14 de janeiro. Passei uma hora agradável com o doutor S., o mais antigo conhecido que ainda tenho. É o maior gênio em pequenas coisas que já me caiu sob os olhos: quase tudo ao seu redor é invenção sua, no todo ou em parte — até o guarda-fogo, as lâmpadas de vários tipos, o tinteiro, o próprio apara-tocos de vela. Creio realmente que, se se pusesse seriamente a isso, inventaria a melhor ratoeira que o mundo já viu.

Wesley, crítico de arte

Quinta-feira, 16. Parti para Luton. A neve jazia tão funda na estrada que não foi sem muita dificuldade, e algum perigo, que enfim alcançamos a cidade. Ofereceram-me o uso da igreja. A geada era cortante, e os vidros tinham sido retirados das janelas. Aceitei, contudo, a oferta, por amor do povo — embora pudesse igualmente ter pregado ao ar livre. Suponho que esteve presente o quádruplo do que caberia na sala; e cerca de cem pela manhã. Não me arrependi, pois, da jornada pela neve.

Sexta-feira, 7 de fevereiro. Visitei um amigo em Hampton Court, que percorreu comigo o palácio. Impressionou-me mais que qualquer coisa do gênero que já vi na Inglaterra — mais que o próprio palácio de Blenheim. Uma grande diferença é esta: lá, tudo parece propositadamente grandioso e esplêndido; aqui, tudo é como que natural, e a gente pensa que não poderia ser de outro modo. Se a expressão é permitida, corre por um certa rigidez, e pelo outro uma naturalidade. De quadros não pretendo ser juiz; mas há um, de Paul Rubens, que particularmente me tocou, tanto no desenho quanto na execução: Zacarias e Isabel, com João Batista de dois ou três anos, vindo visitar Maria, e o nosso Senhor sentado no seu colo. As emoções estão surpreendentemente expressas, até nas crianças; mas não pude ver nem o decoro nem o bom senso de pintá-las inteiramente nuas. Nada pode defender ou desculpar isso; é chocantemente absurdo, ainda que o juiz fosse um indígena. Admito que um homem que pinta assim pode ter boa mão — mas certamente não tem cérebro.

Wesley e a “Viagem sentimental”

Terça-feira, 11. Peguei por acaso um volume do que se chama Viagem sentimental pela França e pela Itália. “Sentimental”! Que é isso? Não é inglês: podia igualmente dizer “continental”. Não é senso: não transmite ideia definida alguma. Contudo, um tolo faz muitos; e essa palavra sem sentido (quem o creria?) tornou-se palavra da moda! O livro, aliás, condiz plenamente com o título: um é tão esquisito quanto o outro. Em esquisitice, deselegância e dessemelhança de todo o resto do mundo, suponho que o escritor não tem rival.

Quarta-feira, 12. Na volta, li um livro muito diferente, publicado por um quacre honesto, sobre essa execrável soma de todas as vilanias comumente chamada tráfico de escravos. Não li de nada igual no mundo pagão, antigo ou moderno; e ele excede infinitamente, em cada exemplo de barbárie, tudo o que escravos cristãos sofrem em países maometanos.

Sexta-feira, 14. Comecei a executar um desígnio que há muito trazia no pensamento: imprimir uma edição das minhas obras tão exata quanto o faria um livreiro. Certamente devo ser tão cuidadoso por amor de Deus quanto ele o seria por dinheiro.

Segunda-feira, 17. Deram-me um relato muito notável. Uma jovem fútil veio recentemente a Londres. A curiosidade a levou a ouvir um sermão, que a feriu no coração. Alguém que estava ao lado observou como ela ficou tocada e aproveitou para conversar com ela. Ela lamentou que não ouviria mais sermões assim, pois voltava ao interior no dia seguinte; mas rogou à nova amiga que lhe escrevesse. No interior, as suas convicções de pecado cresceram tanto que ela resolveu pôr fim à própria vida. Com esse desígnio subia a escada, quando o pai a chamou e lhe entregou uma carta de Londres. Era da nova amiga, que lhe dizia: “Cristo está pronto para recebê-la: agora é o dia da salvação.” Ela exclamou: “É, é! Cristo é meu!” — e foi cheia de alegria indizível. Pediu ao pai pena, tinta e papel, para responder imediatamente à amiga. Contou-lhe o que Deus fizera pela sua alma, e acrescentou: “Não temos tempo a perder! O Senhor está às portas! Agora, agora mesmo, estamos entrando na eternidade.” Endereçou a carta, caiu — e morreu.

Wesley e o internato

Sexta-feira, 21. Encontrei vários amigos, que haviam começado uma subscrição para evitar que eu ande a cavalo — o que não faço tão bem desde uma contusão que sofri meses atrás. Se a continuarem, bem; se não, terei força conforme a minha necessidade.

Segunda-feira, 6 de abril (Manchester). À tarde tomei chá na casa da senhora O. Mas que choque! As crianças que costumavam agarrar-se a mim e beber cada palavra tinham estado num internato. Ali desaprenderam toda a religião, e até a seriedade; e aprenderam orgulho, vaidade, afetação e tudo o que pudesse guardá-las do conhecimento e do amor de Deus. Pais metodistas que queiram mandar as suas filhas de cabeça ao inferno: mandem-nas a um internato da moda!

Terça-feira, 14. Parti para Carlisle. Grande parte da estrada estava miseravelmente ruim. Chegamos, contudo, à tarde, e achamos uma pequena companhia de gente simples e amorosa. O lugar que me haviam designado para pregar ficava fora do portão; ainda assim encheu-se razoavelmente de ouvintes atentos. Depois, perguntando pela estrada de Glasgow, descobri que não era muito maior a volta por Edimburgo; escolhi, pois, essa estrada e avancei cinco milhas nesta tarde, até a casa de um dos nossos amigos. Tivemos ali caloroso acolhimento, sob um teto humilde, com doce e quieto repouso.

Quarta-feira, 15. Embora fosse casa isolada, tivemos grande congregação às cinco da manhã. Depois cavalgamos mais de vinte milhas por uma região deliciosa, com as montanhas férteis erguendo-se de ambos os lados e o riacho claro correndo embaixo. À tarde tivemos furiosa tempestade de chuva e neve; chegamos, porém, salvos a Selkirk. Observei aqui um pequeno traço de pompa inteiramente novo para mim: a criada entrou e disse: “Senhor, o lorde da estrebaria espera para saber se deve dar de comer aos seus cavalos.” Na Inglaterra o chamamos simplesmente de cavalariço. Depois da ceia, toda a família se uniu de bom grado a nós em oração.

Quinta-feira, 16. Seguimos pelas montanhas, cobertas de neve, até Edimburgo.

Sábado, 18. Parti para Glasgow. Dir-se-ia que estávamos em meados de janeiro, e não de abril: a neve cobria as montanhas de ambos os lados, e a geada era cortante. Preguei, pois, dentro de casa, nesta noite e na manhã de domingo. Mas à noite a multidão me obrigou a ficar na rua. O meu texto foi: “Não chame impuro ao que Deus purificou” (At 10.15). Daí tomei ocasião para atacar o seu miserável sectarismo de opiniões e modos de culto. Muitos pareceram não pouco convencidos; mas quanto tempo durará a impressão?

Wesley em Greenock e Glasgow

Segunda-feira, 20. Segui para Greenock, cidade portuária vinte milhas a oeste de Glasgow. É construída muito à maneira de Plymouth Dock, e tem porto seguro e espaçoso. O comércio e os habitantes — e, por conseguinte, as casas — crescem velozmente; e também as pragas, as juras, a embriaguez, a profanação do domingo e toda espécie de maldade. O nosso salão é cerca de três vezes maior que o de Glasgow; mas não conteve nem de longe a congregação. Falei com extrema clareza, e não sem esperança de vermos algum fruto, mesmo entre esta geração de coração duro.

Terça-feira, 21. A casa esteve bem cheia pela manhã, e mostraram excelente espírito: depois que falei algumas palavras a respeito, todos se puseram de pé para o cântico. À tarde preguei em Port Glasgow, cidade grande duas milhas a leste de Greenock. Havia ali muita gente fútil, bastante descuidada; mas a maior parte pareceu ouvir com entendimento. À noite preguei em Greenock; Deus lhes deu um alto chamado, quer ouçam, quer deixem de ouvir (cf. Ez 2.5).

Quarta-feira, 22. Por volta das oito preguei mais uma vez na Loja dos Maçons, em Port Glasgow. A casa ficou muito apinhada, e suponho que toda a fidalguia da cidade fazia parte da congregação. Resolvido a não atirar por cima das suas cabeças, como fizera na véspera, falei com força de morte e juízo, céu e inferno. Isto pareceram compreender; e não houve mais risos entre eles, nem conversas: todos quieta e profundamente atentos.

À noite, quando comecei em Glasgow, sendo pequena a congregação, escolhi um assunto próprio para cristãos experimentados; mas logo depois entrou um bando de gente fina e fútil. Não podia eu, com decoro, interromper o que fazia, embora eles bocejassem e arregalassem os olhos à farta. Só pude dar, no fim, uma breve exortação mais adequada à sua capacidade.

Wesley recebe a cidadania de Perth

Terça-feira, 28 (Dunkeld). Passeamos pelos jardins do duque de Athol, nos quais havia uma coisa que eu nunca vira: uma casa de verão no meio de uma estufa, por meio da qual se pode, no auge do inverno, gozar o calor de maio, sentado entre verduras e flores de todos os lados.

À noite preguei mais uma vez em Perth, a uma congregação grande e séria. Depois me fizeram uma honra em que eu jamais pensara: presentearam-me com a cidadania da cidade.

No caminho para Perth, li o primeiro volume da História de Carlos V, do doutor Robertson. Não sei quando fiquei tão decepcionado. Podia igualmente chamar-se História de Alexandre, o Grande. Eis um volume in-quarto, de oito ou dez xelins, contendo dissertações secas e verbosas sobre o governo feudal, cuja substância inteira caberia em meia folha de papel! Mas “Carlos V”! Onde está Carlos V? Deixa as tuas reflexões e dá-nos a tua história!

Quarta-feira, 29. Segui para Brechin e preguei na Casa da Câmara a uma congregação de todo tipo: dissidentes, glassitas, não juramentados e o que mais fosse. Oh, que desculpa têm os ministros da Escócia para não declarar todo o conselho de Deus, onde o grosso do povo não só suporta, mas ama a franqueza!

Sexta e sábado descansei em Aberdeen. Domingo, 3 de maio: fui pela manhã à igreja inglesa. Também aqui não pude deixar de admirar o decoro exemplar da congregação — tanto mais notável porque leitor tão miserável eu nunca ouvira. Escutando com toda a atenção, entendi uma única palavra, “Balaque”, na primeira leitura; e mais uma, “gerou”, foi tudo o que pude distinguir na segunda. Não há homem de brio nesta congregação? Por que se tolera tal paródia do culto público? Não seria bem melhor pagar a este senhor por não fazer nada do que por fazer dano, trazendo escândalo sobre a religião?

Por volta das três preguei na igreja do Colégio, na cidade velha, a grande congregação de ricos e pobres; às seis, na nossa própria casa, sobre o caminho estreito. Falei com extrema clareza, nesta noite e na seguinte; e ninguém se ofendeu. Que encorajamento tem todo pregador neste país para, “pela manifestação da verdade”, recomendar-se “à consciência de todo homem, diante de Deus” (2Co 4.2)!

Terça-feira, 5. À noite preguei na casa nova de Arbroath. Nesta cidade há uma mudança e tanto! Era perversa a ponto de virar provérbio: notável pela profanação do domingo, pelas pragas, juras e embriaguez, e por um desprezo geral da religião. Mas já não é assim: a maldade aberta desapareceu; não se ouvem juramentos, não se vê embriaguez nas ruas. E muitos não só cessaram de fazer o mal e aprenderam a fazer o bem, mas são testemunhas do reino interior de Deus — “justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17).

Quarta-feira, 6. Os magistrados daqui também me fizeram a honra de presentear-me com a cidadania da sua corporação. Prezo-a como sinal do seu respeito, embora dificilmente venha a fazer dela outro uso.

Wesley visita o rochedo de Bass

Quarta-feira, 20. À noite preguei em Dunbar. Quinta, 21: fui ao Bass, a sete milhas dali — que, no horrendo reinado de Carlos II, foi a prisão daqueles homens veneráveis que sofreram a perda de todas as coisas por uma boa consciência. É um rochedo alto cercado pelo mar, com duas ou três milhas de circunferência, a cerca de duas milhas da costa. O forte vento leste agitava tanto a água que o barco mal se aguentava; e, chegando ao único desembarcadouro (os outros lados são perpendiculares), foi com muita dificuldade que subimos, trepando de mãos e joelhos. O castelo, a julgar pelo que resta, era inteiramente inacessível. As paredes da capela e da casa do governador estão razoavelmente inteiras. Ainda se veem os muros do jardim perto do alto do rochedo, com o poço no meio; e, ao redor dos muros, manchas de relva que alimentam dezoito ou vinte ovelhas.

Mas os verdadeiros nativos da ilha são os gansos-patola, aves do tamanho de um pato-almiscarado, que se reproduzem aos milhares, de geração em geração, nas encostas do rochedo. É peculiar a elas pôr um único ovo, que não chocam de modo nenhum, mas conservam debaixo de uma pata (como vimos com os nossos olhos) até que se abra.

Quantas orações ofereceram os santos homens aqui confinados, naquele dia mau! E quantas ações de graças deveríamos nós render, por toda a liberdade, civil e religiosa, de que gozamos!

Na volta, caminhamos pelas ruínas do castelo de Tantallon, outrora sede dos grandes condes de Douglas. As muralhas da frente (era quadrado) ainda estão de pé e, pela vasta altura e enorme espessura, dão uma pequena ideia do que aquilo foi. Tal é a grandeza humana!

Sexta-feira, 22. Vimos o famoso acampamento romano, sobre uma montanha a duas ou três milhas da cidade. É cercado de dois fossos largos e fundos, e não é de fácil acesso por lado nenhum. Ali se postou o general Lesley com o seu exército, enquanto Cromwell passava fome embaixo. Este não tinha por onde escapar; mas a fúria fanática dos escoceses o livrou: quando desceram ao vale para o engolir, ele os ceifou como relva.

Sábado, 23. Segui para Alnwick e preguei na Casa da Câmara. Que diferença entre uma congregação inglesa e uma escocesa! Estes julgam a si mesmos, e não ao pregador; e o seu alvo não é só conhecer, mas amar e obedecer.

Pelos vales

Segunda-feira, 1º de junho. Comecei uma pequena volta pelos vales (Dales). Por volta das nove preguei em Kiphill; à uma, em Wolsingham. Aqui começamos a rastrear o reavivamento da obra de Deus; e aqui começaram as horrendas montanhas que tivemos de escalar. Antes das seis, porém, chegamos a Barnard Castle. Preguei ao lado da casa de pregação a uma grande congregação de cristãos firmados. Às cinco da manhã, a casa estava quase cheia de pessoas maduras para a altura e a profundidade do evangelho.

Terça-feira, 2. Cavalgamos a Newbiggin, em Teesdale. O povo esteve profundamente atento, mas, penso, não profundamente tocado. Do alto da enorme montanha seguinte, tivemos a vista de Weardale. É um panorama encantador: os prados e campos verdes, em suave declive de ambos os lados do riozinho claro como cristal, salpicados de inúmeras casinhas — três em cada quatro das quais (se não nove em cada dez) surgiram desde que os metodistas chegaram. Desde então, as feras se tornaram homens, e o deserto, campo fértil (cf. Is 32.15).

Quinta-feira, 4. Às cinco despedi-me deste povo abençoado. Fiquei um pouco surpreso, olhando-os atentamente, de observar rostos tão belos como nunca vi numa só congregação — muitas das crianças em particular, doze ou catorze das quais (principalmente meninos) sentavam-se bem à minha vista. Mas admito que muito mais se devia à graça que à natureza: ao céu interior, que brilhava para fora.

A pregação ao ar livre como cruz

Sexta-feira, 21 de agosto. Preguei de novo por volta das oito e cavalguei de volta a Haverford. Depois do jantar, apressamo-nos para a Passagem; mas os barqueiros não tinham pressa de nos buscar; sentei-me, pois, numa pedra conveniente e terminei o opúsculo que tinha em mãos. Cheguei, contudo, a tempo a Pembroke, e preguei na Casa da Câmara, onde tivemos uma hora solene e consoladora.

Domingo, 6 de setembro. Preguei no cais, em Kingswood e perto de King’s Square. Até hoje a pregação ao ar livre é uma cruz para mim. Mas conheço a minha comissão, e não vejo outro modo de “pregar o evangelho a toda criatura” (Mc 16.15).

Quarta-feira, 14 de outubro. Deram-me um livro para avaliar: as Obras do senhor Thomson, de cujas aptidões poéticas eu sempre tivera baixa opinião. Mas, abrindo uma das suas tragédias, Eduardo e Leonora, fui agradavelmente surpreendido. Os sentimentos são justos e nobres; a dicção, forte, fluente e elegante; e o enredo, conduzido com a máxima arte e rematado de modo surpreendente. É a sua obra-prima, e realmente penso que poderia rivalizar com qualquer peça moderna do gênero.

Espíritos bons ou maus?

Sábado, 31. Um jovem de bom senso e caráter irrepreensível deu-me um estranho relato do que (dizia ele) acontecera a si mesmo e a três outras pessoas da mesma casa. Como todos temiam a Deus, julguei que o caso merecia exame mais detido. À tarde, pois, conversei longamente com todos eles. A soma do seu relato foi esta: “Há quase dois anos, Martin S. e William J. viram em sonho, duas ou três vezes repetido a cada um, uma pessoa que lhes dizia haver um grande tesouro escondido em certo lugar, a três milhas de Norwich — dinheiro e prataria, enterrados num cofre, entre seis e oito pés de profundidade. Não deram muita atenção, até que cada um deles, bem acordado, viu um homem e uma mulher idosos de pé junto à sua cama, que lhes disseram o mesmo e os mandaram ir desenterrá-lo entre as oito e a meia-noite. Foram logo depois; mas, com medo, levaram um terceiro homem. Começaram a cavar às oito e, cavados seis pés, viram o tampo de um cofre ou arca. Mas ele imediatamente se afundou na terra; e apareceu sobre o lugar um grande globo de fogo brilhante que, passado algum tempo, subiu mais e mais, até sumir de vista. Não muito depois, o homem e a mulher apareceram de novo e disseram: ‘Vocês estragaram tudo, trazendo aquele homem.’ Desde então, tanto eles quanto Sarah e Mary J., que moram na mesma casa, têm ouvido, várias vezes por semana, uma música deliciosa, por um quarto de hora de cada vez.” Perguntaram-me se eram espíritos bons ou maus; mas não pude resolver-lhes.

Um sonho notável

Terça-feira, 17 de novembro. Alguém contava uma história notável, que julguei digna de memória. Dois anos atrás, um cavalheiro de grande fortuna, em Kent, sonhou que caminhava pelo cemitério da igreja e via um monumento novo com esta inscrição: “Aqui jaz o corpo de Samuel Savage, escudeiro, que partiu desta vida em — de setembro de 1772, aos — anos.” Contou aos amigos pela manhã, muito tocado; mas a impressão logo passou. Naquele exato dia, porém, ele partiu; e uma lápide foi erguida com aquela mesma inscrição.

Uma senhora presente acrescentou um relato igualmente surpreendente, que recebera da boca da própria pessoa: “A senhora B., com uns catorze anos, estando num internato a uma ou duas milhas da casa do pai, sonhou que estava no alto da torre da igreja, quando um homem subiu e a atirou ao telhado da igreja. Não parecia muito ferida — até que ele veio de novo e a atirou lá de cima. Ela olhou bem para ele e disse: ‘Agora você me feriu gravemente, mas eu o ferirei pior’; e acordou. Uma semana depois, devia ir à casa do pai. Partiu de manhã cedo. À entrada de um bosquezinho, parou, em dúvida se não deveria contorná-lo. Mas, sem ver razão, foi direto, até chegar ao outro lado. Quando passava a cancela, um homem a puxou para trás pelos cabelos. Ela soube imediatamente que era o homem do sonho. Caiu de joelhos e lhe rogou: ‘Pelo amor de Deus, não me machuque mais.’ Ele pôs as mãos ao redor do seu pescoço e a apertou até que ela perdeu os sentidos. Despojou-a então das roupas, carregou-a um pouco e a lançou numa vala.

“Nesse meio-tempo, o criado do pai, chegando à escola e ouvindo que ela partira sem ele, voltou a pé. Chegando à cancela, ouviu gemidos e, olhando ao redor, viu gotas de sangue. Seguiu-as até a vala de onde vinham os gemidos. Ergueu-a, sem a reconhecer, pois o rosto estava coberto de sangue, e a levou a uma casa vizinha; correndo à aldeia, trouxe depressa um cirurgião. Ela estava apenas viva; a garganta, tão ferida que não podia falar. Justamente então deu-se pela falta de um jovem da aldeia. Feita a busca, foi apanhado numa taberna a duas milhas. Tinha num saco todas as roupas dela — que, disse, havia ‘achado’. Três meses se passaram antes que ela pudesse sair. Ele foi julgado nas Assizes. Ela o reconheceu perfeitamente e jurou contra o homem. Foi condenado e, pouco depois, executado.”

Quarta-feira, 2 de dezembro. Preguei na nova casa de pregação, na paróquia de Bromley. Falando individualmente aos membros da sociedade, surpreendi-me com a abertura e a simplicidade do povo. Coisa assim eu jamais esperaria encontrar a dez milhas de Londres.

As cartas e os amigos de Wesley

1773. Sexta-feira, 1º de janeiro. Renovamos (como de costume) solenemente o nosso pacto com Deus.

Segunda-feira, 4. Comecei a rever as minhas cartas e papéis. Um deles foi escrito há mais de cento e cinquenta anos (em 1619), suponho que pelo pai do meu avô, àquela com quem se casaria dias depois. Vários foram escritos por meus irmãos e por mim no tempo da escola; muitos, quando estávamos na universidade — testemunhando abundantemente (se é que vale a pena sabê-lo) qual foi o nosso alvo desde a juventude.

Quinta-feira, 7. Visitei uma casa onde uma criança morria de varíola e a resgatei da morte — e dos médicos: estavam dando a ela açafrão e coisas semelhantes, “para fazer sair as pústulas”! Pode alguém ser ainda tão ignorante?

Observamos a sexta-feira, 8, como dia de jejum e oração, por causa da falta geral de comércio e da carestia de alimentos. Na semana seguinte terminei de rever as minhas cartas; e, das que escrevi e recebi, não pude deixar de tirar uma observação: nestes mais de quarenta anos, de todos os amigos que estiveram um dia mais estreitamente unidos a mim e depois se separaram, foi cada um deles que se separou. Foi ele que me deixou; não eu a ele. E, tanto das minhas cartas quanto das deles, os passos pelos quais o fizeram são claros e inegáveis.

Quarta-feira, 24 de fevereiro. Um parágrafo muito notável saiu num dos jornais de Edimburgo: um navio de guerra dinamarquês, o Coroa do Norte, comandado pelo barão D’Ulfeld, teria chegado às ilhas Rosses, no condado de Donegal, vindo de uma viagem de exploração rumo ao polo — com astrônomos capazes e pintores de paisagem a bordo, tendo descoberto uma grande ilha rochosa, avistado a costa da América entre o rio Hudson e a Califórnia, entrado no Pacífico e voltado pelos estreitos de Le Maire, trazendo muitas curiosidades — em particular uma ave prodigiosa chamada condor, de uns seis pés de altura, da família das águias, cujas asas abertas mediam vinte e dois pés e quatro polegadas. Se o relato é verdadeiro, é de esperar que não só o rei da Dinamarca se aproveite de descoberta tão importante.

Cheguei a Liverpool no sábado, 20 de março. Segunda, 22: o capitão tinha pressa de embarcar a minha sege. Por volta das onze embarcamos nós mesmos e, antes da uma, encalhamos num banco de areia. Assim, preso o navio, voltamos a terra.

Terça-feira, 23. Embarcamos de novo no Freemason, com seis outros passageiros de camarote: quatro cavalheiros e duas senhoras, uma das quais temia a cada dia entrar em trabalho de parto. Isso me deu várias oportunidades de conversar de perto e de orar com ela e a sua companheira. Só ficamos à altura de Holyhead na manhã de quinta. Tivemos então vento forte e mar grosso. A maior parte dos passageiros enjoou bastante; a mim, nada me afetou. À noite, os cavalheiros pediram que eu orasse com eles; e assim concluímos o dia de modo solene e consolador.

Wesley e a sua sege

Sexta-feira, 26. Desembarcamos em Dunleary e alugamos um coche para Dublin. Na segunda e na terça examinei a sociedade — um pouco reduzida, mas agora bem unida. Surpreendeu-me um pouco que os comissários da alfândega não permitissem o desembarque da minha sege porque, diziam, o capitão de um paquete não tem direito de trazer mercadorias. Pobre pretexto! Fiquei, porém, mais em dívida com eles do que então sabia; pois, tivesse ela desembarcado, ter-se-ia estragado por completo.

Segunda-feira, 5 de abril. Alugada a sege que pude achar, dirigi-me a Edenderry.

Segunda-feira, 12. Preguei em Ballinasloe e Aughrim. Terça, 13: quando eu entrava em Eyrecourt, a rua estava cheia de gente, que nos deu um alto viva ao passarmos pela praça do mercado. Preguei ao ar livre a uma multidão, toda civilizada e na maior parte séria. Um grande despertamento houve nesta cidade ultimamente; e muitos dos pecadores mais notórios e dissolutos estão inteiramente mudados, e são felizes testemunhas da salvação do evangelho.

Incidentes na Irlanda

Quarta-feira, 21. Alguns pediram aos quacres de Enniscorthy o uso da sua casa de reunião. Recusaram; fiquei, pois, à porta de Hugh McLaughlin, e tanto os de dentro quanto os de fora puderam ouvir. Eu estava em dúvida sobre que caminho tomar dali, estando um dos cavalos da sege muito cansado, até que um cavalheiro de Ballyrane, perto de Wexford, me disse que, se eu pregasse em sua casa na tarde seguinte, me encontraria na estrada com um cavalo descansado. Aceitei, embora fossem algumas milhas de desvio. Ele nos encontrou, com efeito, na quinta, 22, a seis ou sete milhas de Enniscorthy. Mas descobrimos que a sua égua não puxava de jeito nenhum; e tivemos de seguir como pudemos. Preguei à noite em Ballyrane, a uma congregação profundamente séria. De manhã cedo partimos e, às duas da tarde, chegamos à balsa de Ballyhack.

Um bando de marinheiros desceu correndo à praia para ver a sege ser posta no barco. Eu caminhava a pequena distância quando os ouvi gritar: “Cuidado! Cuidado! O coche virou no rio.” Pensei: “Em todo caso, ainda bem que as minhas sacolas estão em terra; os meus papéis não se estragaram.” Em menos de uma hora pescaram a sege e a puseram em segurança no barco. Como ele não nos comportava a todos, entrei eu, deixando os cavalos para depois. Às três e meia cheguei a Passage. Não havendo sege de posta e não tendo tempo a perder, fui a pé (seis ou sete milhas) até Waterford, e comecei a pregar sem demora sobre “o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve” (Mt 11.30).

Domingo, 25. Trazendo-me palavra de que o prefeito consentia que eu pregasse no gramado de boliche, fui até lá à noite. Uma imensa multidão depressa se reuniu. Preguei sobre “Vi os mortos, grandes e pequenos, em pé diante do trono” (Ap 20.12). Alguns tentaram perturbar, sem sucesso: o grosso da congregação esteve profundamente atento. Mas, quando eu chegava à conclusão, alguns papistas puseram mãos à obra para valer. Derrubaram John Christian, com mais dois ou três que tentavam aquietá-los, e começaram a rugir como as ondas do mar; mas até ali puderam chegar, e não mais adiante (cf. Jó 38.11). Alguns cavalheiros que estavam perto de mim lançaram-se ao meio deles e, distribuídos alguns golpes pesados, agarraram o cabeça e o entregaram ao guarda; e um deles se encarregou de conduzir-me para casa. Assim, poucos se feriram além dos próprios desordeiros — o que, espero, os fará mais pacíficos no futuro.

Uma escola abandonada

Quinta-feira, 13 de maio. Seguimos, por uma região desoladíssima, até Galway — onde, no último recenseamento, havia vinte mil papistas e quinhentos protestantes. Mas quais deles são cristãos — têm a mente que houve em Cristo e andam como ele andou? E, sem isto, de que pouco vale chamarem-se protestantes ou papistas! Às seis preguei no tribunal, a uma grande congregação, que toda se portou bem.

Sexta-feira, 14. À noite preguei em Ballinrobe e, no sábado, segui para Castlebar. Entrando na cidade, fiquei impressionado com a vista da escola beneficente: nenhum portão no pátio, uma grande brecha no muro, montes de entulho diante da porta, janelas quebradas em abundância — o conjunto, um retrato de preguiça, imundície e desolação!

Eu nem sonhava que houvesse ali moradores até que, no dia seguinte, vi uns quarenta meninos e meninas voltando da igreja. Vindo logo atrás deles, não pude deixar de observar: 1) que não havia mestre nem mestra, embora, ao que parece, ambos estivessem bem de saúde; 2) que meninos e meninas estavam completamente sujos; 3) que nenhum parecia ter ligas, com as meias caídas sobre os calcanhares; 4) que nos calcanhares, até de muitas meias das meninas, havia buracos maiores que uma moeda de coroa. Dei relato fiel dessas coisas aos curadores das escolas beneficentes em Dublin; se algo mudou ou não, não sei dizer.

Apedrejado pelos pedreiros

Segunda-feira, 24. Por volta do meio-dia preguei em Tonnylommon. Estando um dos meus cavalos com uma ferradura solta, tomei emprestado o cavalo do senhor Watson e o deixei com a sege. Quando nos aproximávamos de Enniskillen, pedi que só dois cavalgassem comigo, e que os demais amigos se mantivessem a distância. Alguns pedreiros trabalhavam na primeira ponte, e nos deram algumas palavras grosseiras. Tivemos muitas mais enquanto atravessávamos a cidade; mas, havendo soldados na rua, que me trataram com respeito, a turba recuou. Uma hora depois, veio o senhor Watson na sege. Antes que chegasse à ponte, muitos se ajuntaram e começaram a atirar o que viesse à mão. A própria ponte tinham bloqueado com grandes pedras, de modo que carruagem nenhuma podia passar; mas um velho gritou: “É assim que vocês tratam os forasteiros?” — e rolou as pedras para fora. A turba logo o recompensou, emplastrando-o de argamassa da cabeça aos pés. Caíram então sobre a carruagem, que cortaram com pedras em vários lugares e quase cobriram de lama e argamassa. De uma ponta à outra da cidade, as pedras voaram espessas ao redor da cabeça do cocheiro. Algumas pesavam duas ou três libras, e as atiravam com toda a força. Tivesse uma só o atingido, tê-lo-ia impedido de guiar; e então, sem dúvida, teriam dado conta da sege e dos cavalos.

Preguei em Sidare à noite e pela manhã, e parti então para Roosky. A estrada passava não longe de Enniskillen. Quando chegamos bem perto da cidade, homens e mulheres nos saudaram, primeiro com maus nomes, depois com lama e pedras. Os meus cavalos logo os deixaram para trás — mas não antes que quebrassem uma das janelas, cujo vidro veio despejar-se sobre mim, sem contudo ferir-me.

Cerca de uma hora depois, John Smith chegou a Enniskillen. Os pedreiros da ponte preparavam-se para a batalha. Temendo que o cavalo saltasse com ele no rio, preferiu apear. Imediatamente despejaram sobre ele uma chuva de lama e pedras. Ele, contudo, abriu caminho pela cidade, embora bem sujo e contundido.

Quarta-feira, 26. Partimos às duas e meia e chegamos a Omagh pouco antes das onze. Vendo que não alcançaria Ding Bridge às duas na sege, cavalguei adiante a toda a pressa; mas, perdendo o cavalo uma ferradura, atrasei-me tanto que só cheguei entre três e quatro. Encontrei o ministro e o povo esperando; mas a igreja não os conteria nem de longe; preguei, pois, perto dela, a uma multidão mista de ricos e pobres, anglicanos, papistas e presbiterianos. Cheguei um pouco cansado e fraco, tendo o sol ardido em extremo; mas o número e o comportamento da congregação me fizeram esquecer o cansaço.

Tendo bom cavalo, cheguei em cerca de uma hora ao lugar onde ia pousar (a duas milhas). Depois do chá, disseram-me que outra congregação esperava; comecei, pois, a pregar sem demora. Adverti-os da loucura que se espalhava entre eles: a de deixar a igreja. Creio que a maior parte seguirá o conselho; espero que todos os da nossa sociedade.

Wesley em Derry e Armagh

Quinta-feira, 27. Segui para Londonderry. Sexta, 28: fui convidado a ver o palácio do bispo (estrutura grandiosa e bela) e o seu jardim, recém-traçado e extremamente aprazível. Aqui, sem querer, dei certa ofensa ao jardineiro, mencionando o nome inglês de uma palavra grega. Mas ele nos corrigiu, assegurando calorosamente que o nome inglês da flor não é bico-de-grou, mas gerânio!

Sábado, 29. Caminhamos até um dos lugares mais aprazíveis que vi no reino: um jardim traçado na encosta íngreme de uma colina, uma de cujas alamedas sombreadas, em particular, domina todo o vale e a colina além. O dono terminou as suas alamedas — e morreu.

Sábado, 5 de junho (Armagh). Percorri os belos melhoramentos que o primaz fez perto da sua residência. O terreno mal tem duas milhas de contorno, mas está aproveitado da melhor maneira: parte é jardim, parte prado, parte plantada de arbustos e árvores de várias espécies. A casa é de fina pedra branca, digna de um nobre. Ele pretende remover um brejo que fica atrás e pôr no lugar um grande espelho d’água; pretende também melhorar muito a cidade e executar muitos outros grandes desígnios — demasiados, receio, até para um primaz da Irlanda com mais de setenta anos!

A estátua falante outra vez

Segunda-feira, 14. Depois de pregar em Lurgan, perguntei ao senhor Miller se pensava em aperfeiçoar a sua estátua falante, havia tanto tempo encostada. Disse que mudara o projeto: pretendia, se tivesse vida e saúde, fazer duas, que não só falariam, mas cantariam hinos alternadamente, com voz articulada; que fizera um ensaio, e respondera bem. Mas não sabia dizer quando o terminaria, tendo muitos negócios de outra espécie e podendo dar a isto apenas as horas vagas. É espantoso que nenhum homem de fortuna o habilite a dar todo o seu tempo à obra!

Preguei à noite em Lisburn. Todo o tempo que pude poupar aqui foi tomado por pobres doentes. Eu geralmente perguntava: “Que remédios já usou?” — e não me surpreendi pouco. Que tem a moda a ver com a medicina? Ora, na Irlanda ao menos, quase tanto quanto com os penteados. Emplastros vesicantes, para tudo e para nada, eram toda a moda na minha última visita à Irlanda. Agora, o grande remédio da moda para vinte doenças (quem o imaginaria?) é o sublimado de mercúrio! Por que não uma forca ou uma pistola? Curariam um pouco mais depressa.

Terça-feira, 15. Chegando a Belfast, soube a causa real das últimas insurreições nesta vizinhança. Lorde Donegal, proprietário de quase toda a região, veio dar novos arrendamentos aos seus rendeiros. Mas, quando chegaram, descobriram que dois comerciantes da cidade haviam tomado as suas fazendas por cima das suas cabeças; multidões deles, com mulheres e filhos, foram lançadas ao desamparo. Não admira que, tornada amarga a sua vida, tenham explodido como explodiram. Admira, antes, que não tenham ido muito além. E, se tivessem ido, quem teria a maior culpa? Os que ficaram sem casa, sem dinheiro, sem alimento para si e para os seus — ou os que os levaram a tal extremo?

O terremoto de Madeley

Segunda-feira, 5 de julho. Por volta das onze cruzamos a barra de Dublin, e na tarde seguinte estávamos em Hoylake. Esta foi a primeira noite da minha vida em que fiquei acordado, embora em paz de corpo e de mente. Creio que poucos podem dizer o mesmo: em setenta anos, nunca perdi uma noite de sono!

Fui, por etapas moderadas, de Liverpool a Madeley, aonde cheguei na sexta, 9. Na manhã seguinte fomos ver os efeitos do recente terremoto — pois sem dúvida o foi. Na segunda, 27, às quatro da manhã, ouviu-se um ruído surdo, acompanhado de rajadas súbitas de vento e ondulações do chão. Logo seguiu-se o terremoto, que sacudiu a casa do lavrador e a removeu inteira cerca de uma jarda, mas carregou o celeiro umas quinze jardas, e então o tragou num vasto abismo. Rasgou o chão em incontáveis fendas, grandes e pequenas; nas grandes, lançou montes de quinze ou vinte pés de altura; carregou uma sebe, com dois carvalhos, por mais de quarenta pés, e os deixou na posição natural. Moveu-se então por baixo do leito do rio que, oferecendo mais resistência, recebeu choque mais rude: foi despedaçado e erguido cerca de trinta pés dos seus fundamentos. Lançados no canal esse leito e muitos carvalhos, o Severn ficou de todo represado e obrigado a correr para trás, até que, com fúria incrível, abriu para si um novo canal. Cena de desolação assim eu nunca vira. Ninguém tremerá, quando Deus abala assim tão terrivelmente a terra?

Segunda-feira, 16 de agosto. À noite preguei em St. Austell; terça, 17, no salão da moedagem em Truro; às seis, na rua principal de Helston. Como está mudada esta cidade, desde o tempo em que um pregador metodista não podia atravessá-la a cavalo sem risco de vida!

Um homem de setenta anos prega a trinta mil

Sábado, 21. Preguei em Illogan e em Redruth; domingo, 22, no povoado da igreja de St. Agnes, às oito; por volta da uma, em Redruth; e às cinco, no anfiteatro de Gwennap. O povo não só o encheu, mas cobriu o terreno ao redor a considerável distância. Supondo o espaço de oitenta jardas em quadro, com cinco pessoas por jarda quadrada, deviam ser mais de trinta e duas mil pessoas — a maior assembleia a que já preguei. E, contudo, verifiquei, indagando, que todos podiam ouvir, até as bordas da congregação! Talvez a primeira vez que um homem de setenta anos foi ouvido por trinta mil pessoas de uma vez!

Segunda-feira, 13 de setembro. Persistindo o meu resfriado, mal pude falar. À noite estava bem pior, muito inflamados o céu da boca e a garganta. Preguei, ainda assim, como pude; mas então não consegui ir adiante. Não podia engolir nem líquidos nem sólidos, e a traqueia parecia quase fechada. Deitei-me à hora de costume, mas o defluxo era tão ininterrupto que não dormi um minuto até quase as três da manhã. Nos nove dias seguintes fui melhorando.

Domingo, 19. Julguei-me capaz de falar à congregação, o que fiz por meia hora; mas depois senti dor no lado esquerdo e no ombro, alternadamente, exatamente como em Cantuária, vinte anos antes. De manhã mal podia levantar a mão à cabeça; mas, depois de receber eletricidade, melhorei muito, e preguei com razoável facilidade à noite; e na noite seguinte li as cartas, embora com voz fraca. Daí em diante recobrei lentamente a voz e as forças, e no domingo preguei sem dificuldade alguma.

Segunda-feira, 4 de outubro. Fui, por Shepton Mallet, a Shaftesbury, e na terça a Salisbury. Quarta, 6: tomando a sege às duas da manhã, cheguei bem a Londres à noite. No resto da semana averiguei como pude o estado das minhas contas. Alguma confusão surgira com a morte súbita do meu guarda-livros; mas foi menor do que se poderia esperar.

Um olmo gigantesco

Segunda-feira, 11. Neste dia e nos seguintes, fiz uma pequena volta por Bedfordshire e Northamptonshire. Entre Northampton e Towcester deparamos com uma grande curiosidade natural: o maior olmo que já vi; tinha vinte e oito pés de circunferência — seis mais do que aquele que havia, anos atrás, nas alamedas do Magdalen College, em Oxford.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (edição condensada de Percy Livingstone Parker, 1903). Citações bíblicas conforme a NAA. Edição: Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil.

Ver todos os capítulos