DIÁRIO DE WESLEY · CAPÍTULO 4
Episódios de pregação; a disputa com Whitefield; a mãe dos Wesley
Tumultos, bois e touros lançados contra a pregação; a dolorosa divergência com Whitefield; o nascimento das classes metodistas e das vigílias; Wesley pregando sobre o túmulo do pai em Epworth — e a morte serena de Susana Wesley, com as cartas que revelam a mãe do metodismo.
“Filhos, assim que eu partir, cantem um salmo de louvor a Deus.”
(Susana Wesley — Diário, 23 de julho de 1742)Antes de ler
O avivamento agora é atacado de frente: multidões pagas para tumultuar, um boi e até um touro lançados contra as congregações, pedras sobre o telhado. E, no meio da oposição, nascem duas instituições que marcariam o metodismo para sempre: as “classes” (pequenos grupos de cerca de doze pessoas, criados primeiro para quitar uma dívida e logo transformados em instrumento de cuidado pastoral) e as vigílias. Há também a cena inesquecível de Epworth: proibido de pregar na igreja do pai, Wesley prega no cemitério, de pé sobre o túmulo dele — e colhe o fruto de quarenta anos de semente lançada.
O capítulo registra com franqueza a divergência com George Whitefield sobre a predestinação. Whitefield chegou a dizer que pregavam “dois evangelhos diferentes”; Wesley manteve, com a coleção de sermões que publicamos neste site, que a graça de Deus é livre PARA todos e EM todos — a posição arminiana que professamos. Vale registrar, para consolo do leitor: os dois se reconciliaram anos depois, e foi Wesley quem pregou no culto memorial de Whitefield em 1770. Divergência doutrinária séria não precisa terminar em inimizade (Ef 4.2-3).
O coração do capítulo, porém, é Susana Wesley. Vemos a sua morte serena (“Filhos, assim que eu partir, cantem um salmo de louvor a Deus”) e, em seguida, as cartas que Wesley anexou ao Diário: o relato das reuniões na cozinha do pastorado, que chegaram a ter duzentas pessoas, e as regras com que educou os filhos. Ali está, em germe, muito do que o metodismo viria a ser — por isso a chamam, com justiça, de mãe do metodismo.
Sobre os métodos de criação descritos nas cartas: são do século XVIII, e alguns (como os castigos físicos e o rigor extremo) pertencem àquele tempo e devem ser lidos com discernimento histórico. O que permanece é o centro: um lar com intencionalidade espiritual, tempo reservado para cada filho, oração e Escritura no ritmo da casa (Dt 6.6-7). A pergunta que fica para nós, pais e avós: que herança espiritual estamos construindo dentro de casa?
— Bispo Ildo Mello
Os correspondentes de Wesley
1740. Quinta-feira, 3 de janeiro. Deixei Londres e na tarde seguinte cheguei a Oxford, onde passei os dois dias seguintes revendo as cartas que eu havia recebido nos últimos dezesseis ou dezoito anos. Que poucos traços de religião interior há aqui! Entre todos os meus correspondentes, achei apenas um que declarava (o que bem me lembro de, naquele tempo, não saber como entender) que Deus havia “derramado o seu amor no seu coração” (Rm 5.5) e lhe dera a “paz que excede todo o entendimento” (Fp 4.7). Mas quem creu no seu testemunho? Devo esconder uma triste verdade, ou declará-la para proveito de outros? Ele foi expulso da sua sociedade como louco; e, renegado pelos amigos, desprezado e abandonado por todos, viveu obscuro e desconhecido por alguns meses — e então foi para aquele a quem a sua alma amava.
Segunda-feira, 21. Preguei em Hannam, a quatro milhas de Bristol. À tarde fiz uma coleta na nossa congregação para o socorro dos pobres do lado de fora do portão de Lawford — os quais, sem trabalho (por causa da geada severa) e sem assistência da paróquia em que viviam, estavam reduzidos ao último extremo. Fiz outra coleta na quinta-feira e uma terceira no domingo, com as quais pudemos alimentar cem, às vezes cento e cinquenta pessoas por dia, dentre as que víamos necessitar mais.
Um sermão e um tumulto
Terça-feira, 1º de abril. (Bristol.) Enquanto eu expunha a primeira parte do capítulo vinte e três de Atos (como se ajustava maravilhosamente à ocasião! — e não por escolha minha), “as inundações levantaram a sua voz”. Alguns filhos de Belial já haviam trabalhado para nos perturbar em várias noites anteriores; mas agora parecia que todo o exército dos estranhos se havia juntado de comum acordo. Não só o pátio e os becos, mas a rua toda, acima e abaixo, encheu-se de gente gritando, praguejando e blasfemando, pronta a tragar o chão de fúria e raiva. O prefeito mandou ordem para que se dispersassem; fizeram pouco dele. Veio em seguida, pessoalmente, o chefe dos condestáveis, que até então tinha bastante preconceito contra nós; mas o insultaram de maneira tão grosseira que, creio, isso lhe abriu de vez os olhos. Por fim o prefeito enviou vários dos seus oficiais, que prenderam os cabeças e não se retiraram até que todos os demais se dispersassem. Certamente ele nos tem sido “ministro de Deus para o bem” (Rm 13.4).
Quarta-feira, 2. Os amotinados foram levados ao tribunal, pois naquele dia se realizavam as sessões trimestrais. Começaram a desculpar-se dizendo muitas coisas de mim. Mas o prefeito cortou-os a todos: “O que o senhor Wesley é não interessa a vocês. Eu manterei a paz; não haverá tumulto nesta cidade.”
Passando por Newgate à tarde, fui informado de que os pobres infelizes condenados à morte desejavam ardentemente falar comigo; mas que não podia ser, pois o vereador Beecher acabara de enviar ordem expressa em contrário. Cito o vereador Beecher a responder por essas almas diante do tribunal de Cristo.
Domingo, 14 de setembro. (Londres.) Ao voltar para casa à tarde, mal desci da carruagem, a multidão, reunida em grande número diante da minha porta, fechou-se ao meu redor. Alegrei-me e bendisse a Deus, sabendo que aquele era o momento que eu há muito esperava; e imediatamente falei aos que estavam mais perto sobre “justiça e juízo vindouro” (At 24.25). A princípio poucos ouviam, pois o barulho ao redor era enorme. Mas o silêncio foi-se espalhando mais e mais, até que tive uma congregação quieta e atenta; e, quando os deixei, todos mostraram muito amor e me despediram com muitas bênçãos.
Episódios de pregação
Domingo, 28. Comecei a expor o Sermão do Monte em Londres. À tarde descrevi, a uma congregação numerosa em Kennington, a vida de Deus na alma. Uma pessoa que estava no morro fez um pouco de barulho no início; mas um cavalheiro, que não conheço, foi até ele e, sem dizer palavra, tomou-o mansamente pela mão e o conduziu para baixo. Daquele momento em diante ficou quieto, até ir embora.
Quando cheguei em casa, encontrei diante da porta uma multidão inumerável, que abriu a plenos pulmões a gritaria no momento em que me viu. Pedi aos meus amigos que entrassem; e então, caminhando para o meio do povo, proclamei “o nome do Senhor, gracioso e misericordioso, que se arrepende do mal” (Êx 34.6; Jl 2.13). Ficaram a olhar uns para os outros. Disse-lhes que não podiam fugir do rosto deste grande Deus e roguei, portanto, que nos uníssemos todos em clamar a ele por misericórdia. Concordaram prontamente; encomendei-os então à sua graça e fui, sem perturbação alguma, para a pequena companhia lá dentro.
Terça-feira, 30. Enquanto eu expunha o capítulo doze de Atos, um jovem irrompeu com outros, praguejando e blasfemando com veemência; e perturbou tanto os que estavam perto dele que, depois de algum tempo, o puseram para fora. Percebi e pedi que o deixassem entrar, para que o nosso Senhor mandasse cair as suas correntes. Terminado o sermão, ele veio e declarou diante de todos nós que era contrabandista, e que ia então para esse trabalho, como mostravam o seu disfarce e o grande saco que trazia consigo. Mas disse que nunca mais o faria, pois estava agora resolvido a ter o Senhor por seu Deus.
A colônia de trabalho de Wesley
Terça-feira, 25 de novembro. (Londres.) Depois de propostos vários métodos para empregar os que estavam sem trabalho, decidimos experimentar um que vários dos nossos irmãos nos recomendaram. O nosso alvo era, com a menor despesa possível, livrá-los ao mesmo tempo da miséria e da ociosidade. Para isso, levamos doze dos mais pobres e uma instrutora à sala da sociedade, onde foram empregados por quatro meses, até chegar a primavera, em cardar e fiar algodão. E o plano deu certo: foram empregados e sustentados com pouco mais do que o produto do seu próprio trabalho.
Sexta-feira, 28. Veio ter comigo um cavalheiro cheio de boa vontade, para exortar-me a não deixar a Igreja — ou (o que para ele era a mesma coisa) a não usar oração de improviso, a qual, disse ele, “provarei por demonstração que não é oração alguma. Pois não se podem fazer duas coisas ao mesmo tempo. Ora, pensar como orar e orar são duas coisas. Logo, não se pode pensar e orar ao mesmo tempo.” Ora, não se poderia provar, pela mesmíssima demonstração, que orar por um formulário também não é oração alguma? Por exemplo: não se podem fazer duas coisas ao mesmo tempo. Ora, ler e orar são duas coisas. Logo, não se pode ler e orar ao mesmo tempo. Como se queria demonstrar.
A disputa com Whitefield
1741. Domingo, 1º de fevereiro. Uma carta particular, escrita a mim pelo senhor Whitefield, foi impressa sem a licença dele nem a minha, e grande número de cópias foi distribuído ao nosso povo, tanto à porta quanto dentro da própria Fundição. Consegui uma delas e relatei (depois da pregação) o fato nu à congregação, dizendo: “Farei exatamente o que creio que o senhor Whitefield faria, se estivesse aqui.” E rasguei-a em pedaços diante de todos. Todos os que a haviam recebido fizeram o mesmo; de modo que em dois minutos não restava uma cópia inteira.
Sábado, 28 de março. Tendo ouvido falar muito do comportamento pouco amável do senhor Whitefield desde a sua volta da Geórgia, fui vê-lo para ouvi-lo falar por si mesmo, a fim de saber como julgar. Aprovei muito a sua franqueza de fala. Disse-me que ele e eu pregávamos dois evangelhos diferentes; e que, portanto, não só não se uniria a mim nem me daria a destra de comunhão, como estava resolvido a pregar publicamente contra mim e contra o meu irmão, onde quer que pregasse. O senhor Hall (que foi comigo) lembrou-lhe a promessa, feita poucos dias antes, de que, qualquer que fosse a sua opinião particular, jamais pregaria publicamente contra nós. Respondeu que aquela promessa fora apenas efeito de fraqueza humana, e que agora pensava de outro modo.
Segunda-feira, 6 de abril. Tive longa conversa com Peter Böhler. Admiro-me de como me contenho de unir-me a esses homens. Quase nunca vejo algum deles sem que o meu coração arda dentro de mim. Anseio por estar com eles, e contudo sou retido longe deles.
Quinta-feira, 7 de maio. Lembrei à Sociedade Unida que muitos dos nossos irmãos e irmãs não tinham o alimento necessário; muitos estavam desprovidos de roupa adequada; muitos, sem trabalho, e isso sem culpa própria; e muitos, doentes e prestes a perecer. Que eu havia feito o que estava ao meu alcance para alimentar os famintos, vestir os nus, empregar os pobres e visitar os enfermos; mas que, sozinho, eu não bastava para essas coisas; e que por isso desejava, de todos aqueles cujo coração fosse como o meu: primeiro, que trouxessem as roupas que pudessem dispensar, para serem distribuídas entre os mais necessitados; segundo, que dessem semanalmente um centavo, ou o que pudessem, para o socorro dos pobres e doentes.
Meu plano, disse-lhes, é empregar por ora no tricô todas as mulheres que estejam sem trabalho e o desejem. A estas daremos, primeiro, o preço comum pelo trabalho que fizerem; e depois acrescentaremos, conforme a necessidade de cada uma. Doze pessoas foram designadas para inspecionar esse trabalho e para visitar e prover o necessário aos doentes. Cada uma delas deve visitar todos os doentes do seu distrito em dias alternados, e reunir-se na terça-feira à tarde, para prestar contas do que fez e deliberar sobre o que mais se pode fazer.
Sexta-feira, 8. Senti-me bastante indisposto. Mesmo assim, dei um jeito de pregar à tarde; mas no sábado as forças do corpo me faltaram de todo, de modo que por várias horas mal pude levantar a cabeça. Domingo, 10: fui obrigado a ficar deitado a maior parte do dia, aliviado só nessa posição. Contudo, à tarde a minha fraqueza ficou suspensa enquanto eu chamava pecadores ao arrependimento. Mas na festa de amor que se seguiu, além da dor nas costas e na cabeça e da febre que ainda me acompanhava, no momento em que comecei a orar fui tomado de tal tosse que mal podia falar. Ao mesmo tempo veio-me com força à mente: “Estes sinais acompanharão os que creem” (Mc 16.17). Clamei a Jesus em alta voz que “aumentasse a minha fé” e “confirmasse a palavra da sua graça”. Enquanto eu falava, a dor desapareceu; a febre me deixou; a força do corpo voltou; e por muitas semanas não senti fraqueza nem dor. “A ti, ó Senhor, dou graças.”
Wesley em Northampton e Nottingham
Segunda-feira, 8 de junho. Parti de Enfield Chace para o Leicestershire. À tarde chegamos a Northampton, e na tarde seguinte à casa do senhor Ellis, em Markfield, cinco ou seis milhas além de Leicester. Nesses dois dias fiz uma experiência que muitas vezes e com muita insistência me haviam pedido que fizesse: não falar a ninguém das coisas de Deus, a menos que o meu coração estivesse livremente inclinado a isso. E qual foi o resultado? Este: primeiro, não falei com ninguém por oitenta milhas seguidas — não, nem mesmo com quem viajava comigo na carruagem, salvo umas poucas palavras à partida; segundo, não tive cruz alguma a carregar ou tomar, e em geral, numa ou duas horas, caía em sono profundo; terceiro, recebi muito respeito por onde passei, tratando-me todos como a um cavalheiro cortês e de bom gênio. Oh, como tudo isso agrada à carne e ao sangue! Seria preciso “rodear o mar e a terra” para fazer “prosélitos” disto?
Domingo, 14. Cavalguei a Nottingham e às oito preguei na praça do mercado, a uma imensa multidão, sobre “Os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão” (Jo 5.25). Vi apenas um ou dois que se portavam com leviandade; falei-lhes de imediato, e ficaram repreendidos. Pouco depois, porém, um homem atrás de mim começou em voz alta a contradizer e blasfemar; mas, quando me virei para ele, escondeu-se atrás de um pilar e em poucos minutos desapareceu.
À tarde voltamos a Markfield. A igreja estava tão excessivamente quente (apinhada em cada canto) que não consegui ler sem dificuldade o ofício vespertino. Informado depois de que ainda havia fora uma abundância de pessoas que não puderam entrar, saí até elas e expliquei aquela grande promessa do nosso Senhor: “Curarei a sua infidelidade; eu os amarei de todo o coração” (Os 14.4). À tarde expus na igreja acerca daquela que “muito amou, porque muito lhe foi perdoado” (Lc 7.47).
Segunda-feira, 15. Parti para Londres e li no caminho aquele livro celebrado: o comentário de Martinho Lutero à Epístola aos Gálatas. Fiquei profundamente envergonhado. Como estimei eu este livro apenas por ouvi-lo elogiado por outros, ou, quando muito, por ter lido algumas sentenças excelentes dele citadas! Mas que direi agora, que julgo por mim mesmo, que vejo com os meus próprios olhos? Não só o autor não esclarece nada, não resolve uma única dificuldade considerável; não só é raso nas observações sobre muitas passagens, e turvo e confuso em quase todas; mas está profundamente tingido de misticismo do começo ao fim e, por isso, muitas vezes perigosamente errado.
Um boi na congregação
Sexta-feira, 10 de julho. Cavalguei a Londres e preguei em Short’s Gardens sobre “o nome de Jesus Cristo, o Nazareno” (At 3.6). Domingo, 12: enquanto eu mostrava, na praça Charles, o que é “praticar a justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com o teu Deus” (Mq 6.8), começou uma grande gritaria. Muitos da ralé haviam trazido um boi, que se esforçavam com veemência por tocar para o meio do povo. Mas o seu trabalho foi em vão: apesar de todos eles, o animal correu em volta, para um lado e para o outro, e por fim rompeu pelo meio deles e fugiu de vez, deixando-nos calmamente alegres, louvando a Deus.
Sábado, 25. (Oxford.) Sendo a minha vez (que chega mais ou menos uma vez em três anos), preguei em Santa Maria, diante da Universidade. A colheita é verdadeiramente grande: congregação tão numerosa (quaisquer que fossem os motivos que a trouxeram) raramente vi em Oxford. Meu texto foi a confissão do pobre Agripa: “Por pouco você me persuade a me tornar cristão” (At 26.28). “Lancei o meu pão sobre as águas.” Que eu “o encontre depois de muitos dias!” (Ec 11.1)
Quarta-feira, 26 de agosto. (Londres.) Contaram-me de uma conversa notável, presenciada por uma das nossas irmãs um ou dois dias antes: um cavalheiro assegurava aos amigos que ele próprio estava na praça Charles quando alguém disse ao senhor Wesley, na sua cara, que ele, senhor Wesley, já pagara vinte libras por condenação por venda ilegal de genebra; e que agora mantinha dois padres papistas em casa. Isso deu ocasião a outro de mencionar o que ele mesmo ouvira, na casa de um eminente mestre dissidente: que estava fora de dúvida que o senhor Wesley recebia grandes remessas da Espanha, a fim de formar um partido entre os pobres; e que, assim que os espanhóis desembarcassem, ele haveria de juntar-se a eles com vinte mil homens.
Wesley em Cardiff
Quinta-feira, 1º de outubro. Partimos para o País de Gales; mas, tendo perdido de manhã a travessia do Severn, o sol já se punha quando chegamos a Newport. Perguntamos ali se podíamos contratar um guia para Cardiff, mas não havia nenhum. Logo depois entrou um rapaz que ia (disse ele) para Lanissan, uma aldeiazinha duas milhas à direita de Cardiff, e resolvemos ir para lá. Às sete partimos: chovia bastante e, não havendo lua nem estrelas, não podíamos ver a estrada, nem uns aos outros, nem a cabeça dos nossos próprios cavalos; mas a promessa de Deus não falhou: ele deu ordem aos seus anjos a nosso respeito (Sl 91.11). Pouco depois das dez chegamos a salvo à casa do senhor William, em Lanissan.
Sexta-feira, 2. Cavalgamos ao castelo de Fonmon. Encontramos a filha do senhor Jones doente de varíola; mas ele podia, com ânimo alegre, deixá-la, e a todos os demais, nas mãos daquele em quem agora cria. À tarde preguei em Cardiff, no salão do condado, lugar amplo e conveniente, sobre “Deus nos deu a vida eterna, e esta vida está no seu Filho” (1Jo 5.11). Tendo havido naquele dia uma festa na cidade, julguei necessário acrescentar algumas palavras sobre a intemperança; e, enquanto eu dizia “Quanto a vós, bêbados, não tendes parte nesta vida; permaneceis na morte; escolheis a morte”, um homem gritou com veemência: “Eu sou um deles; e é para lá que estou indo.” Mas confio que Deus, naquela hora, começou a mostrar a ele e a outros “um caminho ainda mais excelente” (1Co 12.31).
Domingo, 22 de novembro. (Bristol.) Não me permitindo ainda ir à igreja [depois de uma febre grave], comunguei em casa. Aconselharam-me a ficar em casa mais algum tempo, mas não pude ver nisso necessidade. Por isso, na segunda-feira, 23, fui à sala nova, onde louvamos a Deus por todas as suas misericórdias. E expus, por cerca de uma hora (sem desmaio nem cansaço algum), sobre “Que darei ao Senhor por todos os seus benefícios para comigo? Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor” (Sl 116.12-13).
Preguei uma vez por dia nessa semana e não senti inconveniente algum. Domingo, 29: pensei que podia ir um pouco além. Preguei, pois, tanto em Kingswood quanto em Bristol, e depois passei quase uma hora com a sociedade e cerca de duas horas na festa de amor. Mas o meu corpo ainda não acompanhava a minha mente: tive nova crise de febre no dia seguinte; não durou muito, porém, e continuei recobrando lentamente as forças.
Uma interrupção curiosa
Segunda-feira, 7 de dezembro. Preguei sobre “Confiem no Senhor perpetuamente, porque o Senhor Deus é a rocha eterna” (Is 26.4). Eu mostrava quanta razão temos de confiar no Capitão da nossa salvação, quando alguém, no meio da sala, gritou: “Quem era o seu capitão outro dia, quando o senhor se enforcou? Conheço o homem que o viu quando o senhor foi cortado da corda.” Essa sábia história, ao que parece, fora diligentemente espalhada e cordialmente crida por muitos em Bristol. Pedi que abrissem caminho para o homem chegar mais perto. Mas, no momento em que viu o caminho aberto, ele fugiu a toda a velocidade, sem olhar uma só vez para trás.
Sábado, 12. À tarde, alguém pediu para falar comigo. Percebi que estava na maior confusão, de modo que por algum tempo não conseguiu falar. Por fim disse: “Eu sou aquele que o interrompeu na sala nova, na segunda-feira. Não tive descanso desde então, dia e noite, nem poderia ter, enquanto não falasse com o senhor. Espero que o senhor me perdoe, e que isso me sirva de aviso por todos os dias da minha vida.”
A congregação apedrejada
1742. Segunda-feira, 25 de janeiro. (Londres.) Enquanto eu explicava em Long Lane “Aquele que pratica o pecado é do diabo” (1Jo 3.8), os servos dele se enfureceram sem medida: não só fizeram todo o barulho possível (embora, como eu havia pedido antes, ninguém se movesse do seu lugar nem lhes respondesse palavra), mas empurraram violentamente muitas pessoas de um lado para outro, feriram outras e derrubaram parte da casa. Por fim começaram a atirar grandes pedras sobre o telhado, as quais, abrindo caminho por onde vinham, caíam com as telhas no meio do povo, pondo em perigo a sua vida. Disse-lhes então: “Vocês não podem continuar assim; tenho ordem do magistrado — que é, neste ponto, para nós o ministro de Deus — de informá-lo sobre os que violam as leis de Deus e do Rei; e devo fazê-lo, se persistirem; do contrário, faço-me cúmplice do seu pecado.”
Quando parei de falar, ficaram ainda mais furiosos. Diante disso eu disse: “Que três ou quatro homens calmos segurem o da frente e o entreguem a um condestável, para que a lei siga o seu curso.” Assim fizeram, e o trouxeram para dentro, praguejando e blasfemando de maneira horrível. Pedi a cinco ou seis que fossem com ele ao juiz Copeland, a quem relataram o fato nu. O juiz imediatamente o intimou às próximas sessões de Guildford.
Observei, quando o homem foi trazido para dentro, que muitos dos seus companheiros gritavam bem alto “Richard Smith, Richard Smith!” — o qual, como depois se viu, era um dos seus mais valentes campeões. Mas Richard Smith não respondia: havia caído nas mãos de alguém mais alto do que eles. Deus o havia ferido no coração — como também a uma mulher que proferia palavras que não convém repetir e atirava o que lhe vinha à mão, a quem ele alcançou no próprio ato. Ela entrou na casa com Richard Smith, caiu de joelhos diante de todos nós e o exortou fortemente a nunca voltar atrás, nunca esquecer a misericórdia que Deus fizera à sua alma. Daquele tempo em diante nunca mais tivemos interrupção ou perturbação considerável em Long Lane — embora tenhamos retirado a queixa, mediante a submissão do ofensor e a promessa de melhor comportamento.
Terça-feira, 26. Expliquei em Chelsea a fé que atua pelo amor (Gl 5.6). Eu estava muito fraco quando entrei na sala; mas, quanto mais crescia a loucura e a raiva das “feras do povo”, mais eu era fortalecido, no corpo e na alma; de modo que creio que poucos, na casa apinhada, perderam uma frase do que falei. Na verdade, não podiam ver-me, nem uns aos outros a poucos metros, por causa da fumaça espessíssima causada pelos fogos e coisas semelhantes continuamente atiradas para dentro da sala. Mas os que sabiam louvar a Deus no meio do fogo não haveriam de assustar-se com um pouco de fumaça.
Segunda-feira, 15 de fevereiro. Muitos se reuniram para deliberar sobre um método adequado de quitar a dívida pública da sociedade; e por fim se concordou: primeiro, que cada membro da sociedade que pudesse contribuísse com um centavo por semana; segundo, que toda a sociedade fosse dividida em pequenas companhias ou classes — cerca de doze em cada uma; terceiro, que uma pessoa em cada classe recolhesse a contribuição das demais e a entregasse semanalmente aos ecônomos.
Quarta-feira, 10 de março. Cavalguei mais uma vez a Pensford, a pedido insistente de pessoas sérias. O lugar onde desejavam que eu pregasse era um pequeno gramado perto da cidade. Mas, mal havia começado, uma grande companhia da ralé, contratada (como depois descobrimos) para esse fim, veio furiosamente sobre nós, trazendo um touro que vinham atiçando, e que agora se esforçavam por tocar para o meio do povo. Mas o animal era mais sábio que os seus condutores e corria sempre para um lado ou para o outro de nós, enquanto nós, tranquilamente, cantávamos louvores a Deus e orávamos, por cerca de uma hora. Os pobres infelizes, vendo-se frustrados, por fim agarraram o touro — já fraco e cansado de tanto ser ferido e batido por cães e homens — e, à força bruta, em parte arrastando-o, em parte empurrando-o, meteram-no no meio do povo.
Um touro na congregação
Quando abriram caminho até a mesinha sobre a qual eu estava, tentaram várias vezes derrubá-la, empurrando contra ela o pobre animal indefeso, que, por si mesmo, não se mexia mais que um tronco de madeira. Uma ou duas vezes afastei-lhe a cabeça com a mão, para que o sangue não pingasse na minha roupa, pretendendo continuar assim que a agitação passasse. Mas, caindo a mesa, alguns dos nossos amigos me apararam nos braços e me carregaram nos ombros para longe, enquanto a ralé descontava a sua vingança na mesa, fazendo-a em pedacinhos. Fomos um pouco adiante, onde terminei o meu discurso sem ruído nem interrupção.
Domingo, 21. À tarde cavalguei a Marshfield e, na terça-feira à tarde, cheguei a Londres. Quarta-feira, 24: preguei pela última vez na capela francesa de Wapping, sobre “Se vocês permanecerem na minha palavra, serão verdadeiramente meus discípulos” (Jo 8.31).
Quinta-feira, 25. Convoquei vários homens sérios e sensatos e mostrei-lhes a grande dificuldade que há muito eu sentia de conhecer as pessoas que desejavam estar sob o meu cuidado. Depois de muita conversa, todos concordaram que não podia haver caminho melhor para um conhecimento seguro e completo de cada pessoa do que dividi-las em classes, como as de Bristol, sob a inspeção daqueles em quem eu mais pudesse confiar. Esta foi a origem das nossas classes em Londres, pelas quais nunca poderei louvar a Deus o bastante, pois a utilidade indizível da instituição tem-se mostrado, desde então, cada vez mais manifesta.
Sexta-feira, 9 de abril. Tivemos a primeira vigília em Londres. Costumamos escolher para esse culto solene a sexta-feira mais próxima da lua cheia, antes ou depois, para que os da congregação que moram longe tenham luz no caminho de casa. O culto começa às oito e meia e continua até pouco depois da meia-noite. Muitas vezes temos achado bênção peculiar nessas ocasiões. Há em geral um profundo temor reverente sobre a congregação, devido talvez, em certa medida, ao silêncio da noite — particularmente ao cantarmos o hino com que costumamos concluir:
“Escutai a voz solene, o brado tremendo da meia-noite! Almas que esperais, alegrai-vos, alegrai-vos, e senti que o Noivo está próximo.”
Domingo, 9 de maio. Preguei na praça Charles à maior congregação que já vi ali. Muitos dos mais vis queriam interromper, mas viram, depois de algum tempo, que era trabalho perdido. Uma mulher, mais séria, estava (como depois confessou) extremamente irada contra eles. Mas foi logo repreendida por uma pedra que lhe acertou a testa e a derrubou por terra. Naquele momento a sua ira acabou, e só o amor encheu o seu coração.
Quarta-feira, 12. Fui com o senhor Whitefield apresentar os nossos respeitos ao arcebispo da Cantuária, e de novo na sexta-feira; como também ao bispo de Londres. Confio que, se formos chamados a comparecer diante de príncipes, não nos envergonharemos.
Wesley estava “mais bem montado”
Segunda-feira, 17. Planejara partir esta manhã para Bristol, mas fui inesperadamente impedido. À tarde recebi uma carta do Leicestershire, instando comigo para que fosse sem demora prestar o último ofício da amizade a alguém cuja alma estava de asas abertas para a eternidade. Na quinta-feira, 20, parti. Na tarde seguinte parei um pouco em Newport-Pagnell e depois segui a cavalo até alcançar um homem sério, com quem logo entrei em conversa.
Ele logo me deu a conhecer quais eram as suas opiniões; por isso, nada disse para contradizê-las. Mas isso não o contentou: estava inquieto por saber se eu sustentava a doutrina dos decretos como ele. Disse-lhe repetidas vezes: “Melhor nos atermos às coisas práticas, para não nos irarmos um contra o outro.” E assim fizemos por duas milhas, até que ele me apanhou desprevenido e me arrastou para a disputa antes que eu percebesse. Foi-se esquentando cada vez mais; disse-me que eu estava podre no coração e que supunha que eu era um daqueles seguidores de John Wesley. Respondi: “Não; eu sou John Wesley em pessoa.” Diante disso, ele de bom grado teria fugido de vez; mas, sendo eu o mais bem montado dos dois, mantive-me colado ao seu lado e procurei mostrar-lhe o seu coração até entrarmos na rua de Northampton.
Uma grande multidão em Newcastle
Observando que o povo, quando terminei, ficava a olhar-me boquiaberto, no mais profundo assombro, eu lhes disse: “Se desejam saber quem sou, o meu nome é John Wesley. Às cinco da tarde, com a ajuda de Deus, pretendo pregar aqui de novo.”
Às cinco, a colina onde eu pretendia pregar estava coberta de alto a baixo. Nunca vi tanta gente reunida, nem em Moorfields, nem no Kennington Common. Eu sabia que não era possível que metade ouvisse, embora a minha voz estivesse então forte e clara; e posicionei-me de modo a ter todos à vista, dispostos pela encosta da colina. A Palavra de Deus que lhes apresentei foi: “Curarei a sua infidelidade; eu os amarei de todo o coração” (Os 14.4). Depois da pregação, o pobre povo por pouco não me pisoteava, de puro amor e bondade. Levei algum tempo para conseguir sair do aperto. Voltei então por outro caminho; mas vários chegaram à hospedaria antes de mim, e me importunaram com veemência para que ficasse com eles ao menos alguns dias — ou, ao menos, mais um. Mas não pude consentir, tendo dado a minha palavra de estar em Birstal, com a permissão de Deus, na terça-feira à noite.
Wesley sobre o túmulo do pai
Sábado, 5 de junho. Fazia muitos anos que eu não estava em Epworth; fui, pois, a uma hospedaria no meio da cidade, sem saber se restava ali alguém que não se envergonhasse do meu conhecimento. Mas uma velha criada do meu pai, com duas ou três mulheres pobres, logo me encontrou. Perguntei-lhe: “Você conhece em Epworth alguém que esteja empenhado de verdade em ser salvo?” Ela respondeu: “Eu estou, pela graça de Deus; e sei que sou salva pela fé.” Perguntei: “Você tem, então, a paz de Deus? Sabe que ele perdoou os seus pecados?” Ela respondeu: “Graças a Deus, sei muito bem. E muitos aqui podem dizer o mesmo.”
Domingo, 6. Pouco antes de começar o culto, fui ao senhor Romley, o cura, e ofereci-me para ajudá-lo, pregando ou lendo as orações. Mas ele não quis aceitar a minha ajuda. A igreja ficou extremamente cheia à tarde, pois correra o boato de que eu pregaria. Mas o sermão sobre “Não apaguem o Espírito” (1Ts 5.19) não correspondeu à expectativa de muitos ouvintes: o senhor Romley disse-lhes que uma das maneiras mais perigosas de apagar o Espírito era o entusiasmo, e discorreu sobre o caráter de um entusiasta de maneira muito florida e oratória. Depois do sermão, John Taylor pôs-se no adro e, enquanto o povo saía, anunciou: “O senhor Wesley, não lhe sendo permitido pregar na igreja, pretende pregar aqui às seis horas.”
Às seis, portanto, vim e encontrei uma congregação como creio que Epworth jamais viu. Postei-me perto da extremidade leste da igreja, sobre a lápide do meu pai, e clamei: “O Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17).
“Que eles convertam as brigonas”
Quarta-feira, 9. Cavalguei a uma cidade vizinha para apresentar-me a um juiz de paz, homem de equidade e entendimento, perante o qual (fui informado) os seus vizinhos irados haviam levado uma carroça inteira desses novos hereges. Mas, quando ele perguntou o que haviam feito, fez-se um silêncio profundo, pois esse era um ponto que os seus condutores haviam esquecido. Por fim um disse: “Ora, eles fingem ser melhores que os outros; e, além disso, oram de manhã até a noite.” O senhor S. perguntou: “Mas não fizeram nada mais?” “Fizeram, sim, senhor”, disse um velho: “com licença de vossa senhoria, eles convérteram a minha mulher. Até andar com eles, ela tinha uma língua!… E agora está mansa como um cordeiro.” “Levem-nos de volta, levem-nos de volta”, respondeu o juiz, “e que eles convertam todas as brigonas da cidade.”
Sábado, 12. Preguei sobre a justiça da lei e a justiça da fé. Enquanto eu falava, vários caíram como mortos, e entre os demais levantou-se tal clamor de pecadores gemendo pela justiça da fé que quase afogou a minha voz. Mas muitos deles logo ergueram a cabeça com alegria e irromperam em ações de graças, certos de que agora tinham o desejo da sua alma: o perdão dos seus pecados.
Observei ali um cavalheiro conhecido por não professar religião nenhuma. Informaram-me que não ia a culto público de espécie alguma havia mais de trinta anos. Vendo-o parado, imóvel como uma estátua, perguntei-lhe abruptamente: “Senhor, o senhor é pecador?” Ele respondeu, com voz grave e quebrantada: “Pecador, e muito”; e continuou de olhos fitos para o alto, até que a esposa e um ou dois criados, todos em lágrimas, o puseram na carruagem e o levaram para casa.
Domingo, 13. Às sete preguei em Haxey sobre “Que devo fazer para ser salvo?”. Dali fui a Wroote, de que o meu pai (como também de Epworth) foi reitor por vários anos. Oferecendo-me o senhor Whitelamb a igreja, preguei de manhã sobre “Peçam, e lhes será dado” (Mt 7.7); à tarde, sobre a diferença entre a justiça da lei e a justiça da fé. Mas a igreja não pôde conter o povo, muitos dos quais vieram de longe e, confio, não em vão.
Às seis preguei pela última vez no adro de Epworth (planejando deixar a cidade na manhã seguinte), a uma vasta multidão vinda de todas as partes, sobre o início do Sermão do Monte do nosso Senhor. Fiquei entre eles por quase três horas, e ainda assim mal sabíamos como nos separar. Oh, que ninguém pense que o seu trabalho de amor está perdido porque o fruto não aparece imediatamente! Por quase quarenta anos o meu pai trabalhou aqui, e viu pouco fruto de todo o seu labor. Eu também me esforcei entre este povo, e a minha força também parecia gasta em vão; mas agora o fruto apareceu. Quase não havia na cidade ninguém por quem meu pai ou eu houvéssemos trabalhado outrora sem que a semente, lançada havia tanto tempo, agora brotasse, produzindo arrependimento e remissão de pecados.
A morte da mãe de Wesley
Deixei Bristol na tarde de domingo, 18 de julho, e na terça-feira cheguei a Londres. Encontrei minha mãe às margens da eternidade. Mas ela não tinha dúvida nem medo, nem outro desejo senão o de (assim que Deus a chamasse) “partir e estar com Cristo” (Fp 1.23).
Sexta-feira, 23. Por volta das três da tarde fui ter com minha mãe e vi que a sua partida estava próxima. Sentei-me à beira do leito. Ela estava no seu último combate, sem poder falar, mas, creio, perfeitamente lúcida. Seu semblante estava calmo e sereno, e os seus olhos fixos no alto, enquanto encomendávamos a sua alma a Deus. Das três às quatro, o cordão de prata se foi soltando, e a roda se quebrando junto ao poço (Ec 12.6); e então, sem luta, nem sinal, nem gemido, a alma foi posta em liberdade. Ficamos de pé ao redor do leito e cumprimos o seu último pedido, feito pouco antes de perder a fala: “Filhos, assim que eu partir, cantem um salmo de louvor a Deus.”
Domingo, 1º de agosto. Reunida uma companhia quase inumerável de gente, por volta das cinco da tarde entreguei à terra o corpo da minha mãe, para dormir com os seus pais. A porção da Escritura sobre a qual falei em seguida foi: “Vi um grande trono branco e aquele que estava sentado nele, de cuja presença fugiram a terra e o céu, e não se achou lugar para eles. Vi também os mortos, grandes e pequenos, em pé diante do trono. E abriram-se os livros; e abriu-se ainda outro livro, que é o livro da vida. E os mortos foram julgados segundo as suas obras, conforme o que estava escrito nos livros” (Ap 20.11-12). Foi uma das assembleias mais solenes que já vi ou espero ver deste lado da eternidade.
Erguemos uma lápide simples à cabeceira da sua sepultura, com esta inscrição: “Aqui jaz o corpo da senhora Susana Wesley, a mais nova e última filha sobrevivente do doutor Samuel Annesley.”
“Em esperança firme e certa de ressuscitar e reclamar a sua morada nos céus, uma cristã depôs aqui a sua carne, trocando a cruz pela coroa. Verdadeira filha da aflição, afeita à dor e à miséria, chorou uma longa noite de tristezas e temores — uma noite legalista de setenta anos. Então o Pai lhe revelou o Filho, e no partir do pão o fez conhecido; ela soube e sentiu perdoados os seus pecados e achou o penhor do seu céu. Pronta para a comunhão do alto, ouviu o chamado: “Levanta-te, minha amada!” — “Eu vou”, responderam os seus olhos moribundos; e, como um cordeiro, como o seu Senhor, ela morreu.
A senhora Wesley como pregadora
Não posso deixar de observar, além disso, que também ela (como o seu pai e o seu avô, o seu marido e os seus três filhos) foi, na sua medida e grau, pregadora de justiça. Isso aprendi de uma carta escrita há muito tempo ao meu pai, parte da qual transcrevo aqui:
6 de fevereiro de 1711-12.
“…Sendo mulher, sou também senhora de uma família numerosa. E, embora o encargo superior das almas que ela contém repouse sobre você, na sua ausência não posso deixar de olhar para cada alma que você deixa sob o meu cuidado como um talento que me foi confiado pelo grande Senhor de todas as famílias do céu e da terra. E, se eu for infiel a ele, ou a você, negligenciando o aproveitamento desses talentos, como responderei quando ele me ordenar prestar contas da minha mordomia?
“Como esses pensamentos, e outros semelhantes, me levaram desde o início a um cuidado mais que ordinário com as almas dos meus filhos e criados, assim também — sabendo que a nossa religião requer estrita observância do dia do Senhor, e não pensando que cumprimos plenamente o fim da instituição indo à igreja, se não preenchemos os espaços intermediários do tempo com outros atos de piedade e devoção — julguei meu dever passar parte do dia lendo para a minha família e instruindo-a; e considerei esse tempo mais aceitável a Deus do que se eu me houvesse recolhido às minhas devoções particulares.
“Foi este o começo da minha prática atual. Que outras pessoas viessem e se unissem a nós foi mero acaso. O nosso rapaz contou aos pais; eles primeiro pediram para ser admitidos; depois outros, que ouviram falar, pediram licença também: assim a nossa companhia cresceu até cerca de trinta, e raramente passou de quarenta no inverno passado.
“Mas, pouco depois da sua última ida a Londres, caiu-me nas mãos o relato dos missionários dinamarqueses. Acho que nunca nada me comoveu tanto; não pude deixar de passar boa parte daquela tarde louvando e adorando a bondade divina, por havê-los inspirado com zelo tão ardente pela sua glória. Por vários dias mal pude pensar ou falar de outra coisa. Por fim veio-me à mente: embora eu não seja homem nem ministro, se o meu coração estivesse sinceramente devotado a Deus e eu fosse inspirada por verdadeiro zelo pela sua glória, eu poderia fazer algo mais do que faço. Pensei que podia orar mais por eles e falar, aos que convivem comigo, com mais calor de afeto. Resolvi começar pelos meus próprios filhos, com os quais observo o seguinte método: reservo, cada noite, o tempo que posso para conversar com cada filho em particular. Na segunda-feira converso com Molly; na terça, com Hetty; na quarta, com Nancy; na quinta, com Jacky; na sexta, com Patty; no sábado, com Charles; e com Emily e Suky juntas, no domingo.
Ela fala a duzentas pessoas
“Com os poucos vizinhos que então me procuravam, passei a conversar com mais liberdade e afeto. Escolhi os melhores e mais despertadores sermões que temos. E gastei com eles um pouco mais de tempo nesses exercícios, sem me inquietar com o sucesso do empreendimento. Desde então, a nossa companhia cresce a cada noite, pois não ouso negar entrada a ninguém que peça.
“No último domingo, creio que tivemos mais de duzentas pessoas. E ainda assim muitas foram embora por falta de lugar para ficar de pé.
“Banimos da nossa reunião todas as preocupações temporais. A ninguém se permite misturar conversa sobre elas com a nossa leitura ou o nosso canto. Atemo-nos ao assunto do dia; e, terminado ele, todos vão para casa.
“Não consigo conceber por que alguém haveria de censurá-lo porque a sua esposa se esforça por atrair pessoas à igreja e por impedi-las de profanar o dia do Senhor, lendo para elas e usando de outras persuasões. De minha parte, não dou valor a censura alguma por esse motivo. Há muito dei um aperto de mãos de despedida ao mundo. E desejaria de coração nunca lhe ter dado mais razão para falar contra mim.
“Quanto a parecer coisa singular, concedo que parece. Mas também parece singular quase tudo o que é sério, ou que possa de algum modo promover a glória de Deus ou a salvação das almas.
“Quanto à sua proposta de que outra pessoa faça a leitura: ah, você não considera que gente é esta. Não creio que haja entre eles um homem que consiga ler um sermão sem soletrar boa parte dele. Nem há na nossa família voz forte o bastante para ser ouvida por tanta gente.
“Mas há uma coisa que muito me inquieta: a presença deles nas orações da família. Não falo de constrangimento simplesmente por haver tantos presentes; pois quem tem a honra de falar ao grande e santo Deus não precisa envergonhar-se de falar diante do mundo inteiro; mas por causa do meu sexo. Duvido que seja próprio de mim apresentar a Deus as orações do povo. No último domingo eu bem queria dispensá-los antes das orações; mas pediram com tanto empenho para ficar que não ousei negar.”
Como os Wesley foram criados
Para proveito dos que, como ela, têm a seu cargo uma família numerosa, não posso deixar de acrescentar mais uma carta, que recebi muitos anos atrás:
24 de julho de 1732.
“Querido filho: conforme o seu desejo, reuni as principais regras que observei na educação da minha família, e as envio agora como me ocorreram; você pode (se julgar que podem ser úteis a alguém) dispô-las na ordem que quiser.
“As crianças foram sempre postas, desde o nascimento, num método regular de vida, naquilo de que eram capazes: no vestir, no despir, na troca de roupa etc. O primeiro trimestre passa-se, em geral, dormindo. Depois disso, eram postas no berço acordadas, se possível, e embaladas até dormir; e assim se continuava a embalá-las até a hora de despertar. Isso se fazia para acostumá-las a um curso regular de sono, que a princípio era de três horas pela manhã e três à tarde; depois, de duas horas, até não precisarem de nenhuma.
“Completado um ano (algumas antes), eram ensinadas a temer a vara e a chorar baixinho, com o que escaparam de abundância de correções que de outro modo teriam tido; e aquele ruído odiosíssimo do choro de crianças raramente se ouvia na casa: a família vivia, em geral, em tanta quietude como se não houvesse uma criança entre nós.
“Assim que ficaram fortes o bastante, foram limitadas a três refeições por dia. No jantar, a sua mesinha e as suas cadeiras eram postas junto à nossa, onde podiam ser observadas; permitia-se que comessem e bebessem quanto quisessem, mas não que pedissem coisa alguma. Se queriam algo, cochichavam à criada que as atendia, e esta vinha falar comigo. Assim que sabiam manejar garfo e faca, sentavam-se à nossa mesa. Nunca se lhes permitiu escolher a comida: comiam sempre o que se havia provido para a família.
“De manhã tinham sempre papa; às vezes, à noite também. Mas, fosse o que fosse, nunca se lhes permitia comer, nessas refeições, mais de uma coisa, e desta com bastante moderação. Beber ou comer entre as refeições nunca se permitiu, salvo em caso de doença, o que raramente acontecia. Nem se lhes permitia ir à cozinha pedir coisa alguma aos criados quando estes comiam: se se soubesse que o haviam feito, eram certamente castigadas, e os criados severamente repreendidos.
“Às seis, logo depois das orações da família, ceavam; às sete, a criada as lavava e, começando pela mais nova, despia-as e punha-as todas na cama até as oito, hora em que as deixava acordadas nos seus quartos; pois não se admitia na nossa casa tal coisa como ficar ao lado de uma criança até que adormecesse.
“Estavam tão constantemente acostumadas a comer e beber o que se lhes dava que, quando alguma adoecia, não havia dificuldade em fazê-la tomar o remédio mais desagradável: não ousavam recusá-lo, ainda que alguma logo o vomitasse. Menciono isto para mostrar que se pode ensinar uma pessoa a tomar qualquer coisa, por mais contrária que seja ao seu estômago.”
“Vencer a vontade da criança”
“Para formar a mente das crianças, a primeira coisa a fazer é vencer a sua vontade e conduzi-las a um temperamento obediente. Informar o entendimento é obra de tempo, e deve proceder com as crianças por graus lentos, conforme possam suportar; mas a sujeição da vontade é coisa que deve ser feita de uma vez — e quanto antes, melhor. Pois, negligenciada a correção no tempo devido, elas contraem uma teimosia e obstinação que dificilmente se vence depois, e nunca sem severidade tão dolorosa para mim quanto para a criança. Na estima do mundo passam por bondosos e indulgentes os pais que eu chamo cruéis: os que permitem que os filhos adquiram hábitos que sabem que depois terão de ser quebrados.
“Sempre que uma criança é corrigida, deve ser vencida; e isso não será difícil, se ela não se tiver tornado voluntariosa por excesso de indulgência. E, quando a vontade da criança está totalmente submetida, e ela é levada a reverenciar e respeitar os pais, então grande número de tolices e inadvertências infantis pode ser relevado. Algumas devem passar despercebidas; outras, repreendidas com brandura; mas nenhuma transgressão voluntária deve jamais ser perdoada às crianças sem correção, menor ou maior, conforme a natureza e as circunstâncias da falta.
“Insisto em vencer cedo a vontade das crianças porque este é o único fundamento forte e racional de uma educação religiosa; sem isso, tanto o preceito quanto o exemplo serão ineficazes. Mas, feito isso cabalmente, a criança torna-se capaz de ser governada pela razão e piedade dos pais, até que o seu próprio entendimento amadureça e os princípios da religião se enraízem na sua mente.
“Não posso ainda deixar este assunto. Assim como a vontade própria é a raiz de todo pecado e miséria, tudo o que a alimenta nas crianças assegura a sua futura desgraça e irreligião, e tudo o que a refreia e mortifica promove a sua futura felicidade e piedade. Isso é ainda mais evidente se considerarmos que a religião não é outra coisa senão fazer a vontade de Deus, e não a nossa. De modo que o pai que se empenha em dominar a vontade própria no seu filho coopera com Deus na renovação e salvação de uma alma; e o que a alimenta faz a obra do diabo.”
Nada tinham do que chorassem por ter
“As crianças desta família foram ensinadas, assim que sabiam falar, a dizer o Pai-Nosso, que recitavam ao levantar e ao deitar, constantemente; ao qual, à medida que cresciam, se acrescentavam uma breve oração pelos pais e algumas coletas, um breve catecismo e alguma porção da Escritura, conforme a memória de cada uma podia suportar.
“Muito cedo aprenderam a distinguir o dia do Senhor dos outros dias, antes mesmo de saber falar ou andar direito. E logo foram ensinadas a ficar quietas nas orações da família e a pedir a bênção logo depois — o que costumavam fazer por sinais, antes de saber ajoelhar-se ou falar.
“Rapidamente foram levadas a entender que nada teriam do que chorassem por ter, e instruídas a pedir com boas maneiras o que queriam. Não se lhes permitia pedir coisa alguma nem ao criado mais humilde sem dizer “por favor, dê-me tal coisa”; e a criada era repreendida se alguma vez as deixasse omitir essa palavra. Tomar o nome de Deus em vão, praguejar e jurar, profanidade, obscenidade, apelidos rudes e malcriados — nada disso jamais se ouviu entre elas. Nem jamais se lhes permitiu chamar umas às outras pelo nome sem acrescentar “irmão” ou “irmã”.
“Nenhuma foi ensinada a ler antes dos cinco anos, exceto Kezzy — caso em que fui voto vencido; e ela levou mais anos aprendendo do que qualquer das outras levou meses. O modo de ensinar era este: na véspera do dia em que a criança começaria a aprender, punha-se a casa em ordem, designava-se o trabalho de cada um e dava-se ordem de que ninguém entrasse na sala das nove ao meio-dia, nem das duas às cinco — que eram, como você sabe, as nossas horas de escola. Concedia-se um dia à criança para aprender as letras; e cada uma delas, nesse tempo, conheceu todas, maiúsculas e minúsculas, exceto Molly e Nancy, que levaram um dia e meio para conhecê-las perfeitamente — pelo que então as julguei muito lentas; mas, tendo depois observado quanto tempo muitas crianças levam para aprender a cartilha, mudei de opinião.
“A razão de julgá-las lentas era que as demais aprendiam com muita facilidade. Seu irmão Samuel, o primeiro filho que ensinei, aprendeu o alfabeto em poucas horas. Fez cinco anos em 10 de fevereiro; no dia seguinte começou a aprender e, assim que conheceu as letras, começou pelo primeiro capítulo de Gênesis. Foi ensinado a soletrar o primeiro versículo, depois a lê-lo várias vezes, até conseguir lê-lo de corrido, sem hesitação; e assim o segundo, e assim por diante, até tomar dez versículos por lição, o que logo fez. A Páscoa caiu cedo naquele ano, e por Pentecostes ele já lia um capítulo muito bem; pois lia continuamente e tinha memória tão prodigiosa que não me lembro de jamais lhe ter dito a mesma palavra duas vezes.
A ordem entre os filhos dos Wesley
“O que era ainda mais estranho: qualquer palavra que houvesse aprendido na lição, ele a reconhecia onde quer que a visse, na Bíblia ou em qualquer outro livro; e por esse meio aprendeu muito cedo a ler bem um autor inglês.
“O mesmo método foi observado com todos. Assim que conheciam as letras, eram postos primeiro a soletrar e ler uma linha, depois um versículo, sem nunca passar adiante até estarem perfeitos na lição, fosse curta ou longa. Assim, um após outro continuava lendo, na hora da escola, sem interrupção; e, antes de encerrarmos, cada criança lia o que havia aprendido naquela manhã; e, antes de nos separarmos à tarde, o que haviam aprendido no dia.
“Não se permitia falar alto nem brincar; cada um era mantido no seu trabalho durante as seis horas de escola. E é quase incrível o que se pode ensinar a uma criança num trimestre, com aplicação vigorosa, desde que tenha capacidade tolerável e boa saúde. Cada uma destas, exceto Kezzy, lia melhor nesse prazo do que a maioria das mulheres consegue ler pela vida afora.
“Levantar-se do lugar ou sair da sala não era permitido, salvo por boa causa; e correr para o quintal, o jardim ou a rua sem licença sempre foi considerado falta capital.
“Por alguns anos fomos muito bem. Nunca houve crianças em melhor ordem, nem mais bem-dispostas para a piedade, nem em maior sujeição aos pais — até aquela dispersão fatal delas, depois do incêndio, por várias famílias. Ficaram então em plena liberdade de conversar com criados, do que antes sempre haviam sido guardadas, e de correr fora e brincar com quaisquer crianças, boas ou más. Logo aprenderam a negligenciar a estrita observância do sábado e tomaram conhecimento de várias canções e coisas más de que antes não tinham noção. O comportamento educado que as fazia admiradas por todos os que as viam em casa perdeu-se em grande parte; e adquiriram um sotaque rude e muitos modos grosseiros, que não se corrigiram sem alguma dificuldade.
“Quando a casa foi reconstruída e as crianças voltaram todas para casa, entramos numa reforma estrita; e então começou o costume de cantar salmos ao abrir e ao encerrar a escola, de manhã e à tarde. Começou também o recolhimento geral das cinco horas, em que o mais velho tomava o menor que já falava, e o segundo, o seguinte, e liam para eles os Salmos do dia e um capítulo do Novo Testamento — como, de manhã, eram orientados a ler os Salmos e um capítulo do Antigo; depois do que iam às suas orações particulares, antes do desjejum ou de virem para junto da família. E, graças a Deus, o costume ainda se conserva entre nós.”
As “leis internas” de Susana Wesley
“Havia entre nós várias leis internas que me escaparam à memória, senão teriam sido inseridas no seu devido lugar; menciono-as aqui porque as julgo úteis.
1. Observara-se que a covardia e o medo do castigo muitas vezes levam as crianças a mentir, até adquirirem um costume de que não conseguem livrar-se. Para prevenir isso, fez-se uma lei: quem fosse acusado de uma falta de que fosse culpado, se a confessasse com sinceridade e prometesse emendar-se, não apanharia. Essa regra preveniu muita mentira, e teria prevenido mais, se uma pessoa da família a tivesse observado. Alguns, apesar de tudo, sempre falavam a verdade com clareza.
2. Que nenhum ato pecaminoso — mentir, furtar, brincar na igreja ou no dia do Senhor, desobedecer, brigar etc. — jamais passasse sem castigo.
3. Que nenhuma criança fosse repreendida ou castigada duas vezes pela mesma falta; e que, se se emendasse, nunca mais fosse censurada por ela depois.
4. Que todo ato notável de obediência, especialmente quando contrariasse a própria inclinação, fosse sempre elogiado e, com frequência, recompensado conforme o merecimento do caso.
5. Que, se alguma criança fizesse um ato de obediência ou qualquer coisa com a intenção de agradar, ainda que a execução não fosse boa, a obediência e a intenção fossem recebidas com bondade, e a criança, com doçura, orientada a fazer melhor no futuro.
6. Que a propriedade fosse inviolavelmente preservada, e a ninguém se permitisse invadir a propriedade de outro na menor coisa, ainda que do valor de um vintém ou de um alfinete, que não podiam tomar do dono sem o seu consentimento, muito menos contra ele. Esta regra nunca será inculcada demais na mente das crianças; e da falta de pais e educadores que o façam como devem procede aquele vergonhoso desprezo pela justiça que observamos no mundo.
7. Que as promessas fossem estritamente cumpridas; e que um presente, uma vez dado — e assim transferido o direito de quem o deu —, não fosse retomado, mas deixado à disposição de quem o recebeu, a menos que fosse condicional e a condição não houvesse sido cumprida.
8. Que nenhuma menina fosse posta a trabalhar antes de saber ler muito bem; e que então fosse mantida no trabalho com a mesma aplicação e pelo mesmo tempo com que fora mantida na leitura. Esta regra também deve ser muito observada; pois pôr as crianças a aprender costura antes de saberem ler perfeitamente é a própria razão de tão poucas mulheres lerem de modo digno de ser ouvido e bem entendido.”
Quarta-feira, 1º de dezembro. (Newcastle.) Ofereceram-nos vários terrenos para construir uma sala para a sociedade, mas nenhum era como queríamos. E talvez houvesse providência em não acharmos nenhum ainda; pois por esse meio fui retido em Newcastle, quisesse eu ou não.
Sábado, 4. Fiquei surpreso e entristecido com um caso genuíno de fanatismo. J— B—, de Tanfield Leigh, que recebera o senso do amor de Deus poucos dias antes, veio cavalgando pela cidade, gritando e berrando e tocando todo o povo diante de si, dizendo-lhes que Deus lhe dissera que ele seria rei e pisaria todos os seus inimigos debaixo dos pés. Mandei-o imediatamente para casa, para o seu trabalho, e aconselhei-o a clamar dia e noite a Deus que o fizesse humilde de coração, para que Satanás não tornasse a levar vantagem sobre ele.
O senhor Stephenson e Wesley
Hoje um cavalheiro me procurou e ofereceu um terreno. Na segunda-feira lavrou-se um instrumento em que ele concordava em dar-me posse na quinta-feira, mediante o pagamento de trinta libras.
Terça-feira, 7. Estive tão mal pela manhã que tive de mandar o senhor Williams à sala. Ele foi depois ao senhor Stephenson, comerciante da cidade, que tinha uma passagem pelo terreno que pretendíamos comprar, e cuja compra eu desejava. O senhor Stephenson lhe disse: “Senhor, eu não preciso de dinheiro; mas, se o senhor Wesley precisa de terreno, pode ficar com um pedaço do meu jardim, contíguo ao lugar que o senhor menciona. Sou homem de uma palavra só. Por quarenta libras ele terá dezesseis jardas de largura por trinta de comprimento.”
Quarta-feira, 8. O senhor Stephenson e eu assinamos o instrumento, e tomei posse do terreno. Mas eu não podia honestamente voltar atrás no meu acordo com o senhor Riddel; entrei, pois, no terreno dele ao mesmo tempo. O todo tem cerca de quarenta jardas de comprimento; no meio dele decidimos construir a casa, deixando espaço para um pequeno pátio na frente e um jardinzinho atrás do edifício.
Segunda-feira, 13. Mudei-me para um alojamento contíguo ao terreno onde nos preparávamos para construir; mas a geada violenta obrigou-nos a adiar a obra. Nunca senti frio tão intenso. Num quarto onde se mantinha fogo constante, e com a minha escrivaninha a um metro da chaminé, eu não conseguia escrever um quarto de hora seguido sem ficar com as mãos inteiramente dormentes.
A primeira sala metodista de Newcastle
Segunda-feira, 20. Lançamos a primeira pedra da casa. Muitos vieram de todas as partes para ver; mas ninguém zombou nem interrompeu, enquanto louvávamos a Deus e orávamos para que prosperasse sobre nós a obra das nossas mãos. Três ou quatro vezes, à tarde, tive de interromper a pregação para que orássemos e déssemos graças a Deus.
Quinta-feira, 23. Calculando-se que uma casa como a proposta não poderia ser concluída por menos de setecentas libras, muitos afirmavam que nunca seria terminada; outros, que eu não viveria para vê-la coberta. Eu pensava de outro modo: não duvidava de nada, certo de que, tendo sido começada por amor de Deus, ele proveria o necessário para concluí-la.
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (edição condensada de Percy Livingstone Parker, 1903). Citações bíblicas conforme a NAA. Edição: Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil.