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Calebe: o homem de outro espírito

“Porém o meu servo Calebe, visto que nele houve outro espírito, e perseverou em seguir-me, eu o farei entrar na terra que espiou, e a sua descendência a possuirá.”

Números 14.24 (NAA)

Perguntas norteadoras

Doze homens viram a mesma terra, comeram das mesmas uvas e voltaram no mesmo dia. Dez trouxeram medo; dois trouxeram fé. A Bíblia dedica a um desses dois, Calebe, uma atenção que surpreende: seis vezes ela repete que ele “perseverou em seguir o Senhor”. Antes de estudar a vida dele, vale colocar na mesa as perguntas que este estudo pretende responder.

Por que dez viram gigantes e dois viram a promessa? A diferença não estava na terra nem nas informações. Estava em outro lugar, e é esse lugar que precisamos encontrar.

O que significa “seguir plenamente” a Deus? É a expressão que Deus mesmo escolhe para descrever Calebe. Ela diz respeito à inteireza do coração, e nós, metodistas, temos muito a dizer sobre isso.

Como esperar quarenta e cinco anos sem azedar? Calebe pagou, no deserto, pelo pecado dos outros. Não murmurou, não invejou Josué, não se acomodou. Como se faz isso?

O que fazer com a idade? Aos oitenta e cinco anos, ele pediu o monte mais difícil da terra. Para muita gente a idade é desculpa; para Calebe, foi credencial.

O que este estudo pretende: extrair da vida de Calebe as marcas de caráter que Deus mesmo elogiou, e mostrar que essas marcas não pertencem a um herói de outra época, mas ao alcance de qualquer crente que se disponha a seguir o Senhor com o coração inteiro.

Quem era Calebe

Calebe entra na história de Israel no segundo ano depois da saída do Egito, quando o povo já está às portas de Canaã, em Cades-Barneia. Moisés escolhe um homem de cada tribo para espiar a terra, e o escolhido de Judá é “Calebe, filho de Jefoné” (Nm 13.6). Ele tinha quarenta anos (Js 14.7).

Há um detalhe na apresentação dele que passa despercebido na leitura corrida. Em três passagens, Calebe é chamado de “quenezeu” (Nm 32.12; Js 14.6, 14). Os quenezeus aparecem em Gênesis 15.19 na lista dos povos que habitavam Canaã antes de Israel, ao lado de queneus e cadmoneus. Isso quer dizer, ao que tudo indica, que a família de Calebe tinha origem estrangeira e foi, em algum momento, incorporada à tribo de Judá. As genealogias de 1 Crônicas 4 o colocam entre os descendentes de Judá, mas o apelido de família permaneceu.

Não se pode afirmar mais do que o texto permite, e alguns comentaristas entendem que “quenezeu” designa apenas um clã de Judá que levava o nome de um antepassado chamado Quenaz. Seja como for, o nome não é israelita de nascença, e o próprio Otniel, irmão mais novo de Calebe, é “filho de Quenaz” (Js 15.17; Jz 3.9). O homem que a Bíblia escolhe como modelo de quem seguiu a Deus por inteiro pode muito bem ter tido sangue gentio nas veias. Se foi assim, Calebe é uma antecipação daquilo que Paulo chamaria de ramo enxertado na oliveira (Rm 11.17): a graça de Deus alcançando alguém de fora e fazendo dele um chefe em Judá, a tribo do Messias.

O nome também fala. “Calebe” se parece com a palavra hebraica para cão, e muitos leem nisso a figura do animal que segue o dono aonde quer que ele vá. Outros preferem ver nele a junção de “tudo” e “coração”, isto é, o homem todo coração. As duas leituras são possíveis e as duas combinam com o que ele foi: seguiu o seu Senhor com fidelidade de cão e com o coração inteiro.

Doze olhos, dois olhares

Os doze passaram quarenta dias na terra e voltaram com as mesmas provas nas mãos: um cacho de uvas tão grande que dois homens o carregavam numa vara, romãs e figos (Nm 13.23-26). O relatório começou unânime: “De fato, é uma terra onde mana leite e mel; estes são os frutos dela” (Nm 13.27). Foi a partir do “mas” que os caminhos se separaram.

“Mas o povo que habita nessa terra é poderoso, e as cidades são muito grandes e fortificadas” (Nm 13.28). Note que os dez não mentiram. As cidades eram fortificadas mesmo; os filhos de Anaque, os gigantes de Hebrom, existiam mesmo (Nm 13.22, 33). O problema do relatório deles não foi a informação, foi a conclusão: “Não podemos atacar aquele povo, porque é mais forte do que nós” (Nm 13.31). E a conclusão nasceu de uma comparação errada. Eles se mediram com os gigantes, e não os gigantes com Deus. Por isso se viram do tamanho que se viram: “éramos, aos nossos próprios olhos, como gafanhotos” (Nm 13.33). Quem se compara com o problema sempre encolhe.

Calebe fez a comparação certa. “Então Calebe fez calar o povo diante de Moisés e disse: Vamos subir agora e tomar posse da terra, porque somos perfeitamente capazes de fazer isso” (Nm 13.30). Repare em três coisas. Primeiro, ele fez calar o povo: teve a coragem de interromper o medo, o que é sempre impopular. Segundo, ele disse “agora”: fé adiada costuma virar incredulidade. Terceiro, ele disse “somos capazes”, e o capítulo seguinte explica de onde vinha essa capacidade: “O Senhor está conosco; não tenham medo deles” (Nm 14.9). A confiança de Calebe não era autoconfiança. Era confiança em Deus, com a mesma terra, os mesmos gigantes e os mesmos fatos diante dos olhos.

O relatório dos dez. Parte dos fatos, mede os fatos por si mesma e chega ao medo. “A terra devora os seus moradores” (Nm 13.32). Chora a noite inteira e quer voltar para o Egito (Nm 14.1-4).

O relatório de Calebe. Parte dos mesmos fatos, mede os fatos por Deus e chega à fé. “A terra é muitíssimo boa. Se o Senhor se agradar de nós, nos fará entrar” (Nm 14.7-8). Quer subir agora.

Duas coisas Calebe não fez. Não seguiu a maioria quando a maioria estava errada, e não permitiu que o medo dos outros contaminasse a sua fé. A fé não ignora os gigantes; ela apenas não permite que os gigantes se tornem maiores que Deus.

Outro espírito

A reação do povo foi terrível. A congregação inteira chorou aquela noite, murmurou contra Moisés e Arão, propôs escolher outro chefe e voltar para o Egito (Nm 14.1-4). Quando Josué e Calebe rasgaram as roupas e insistiram que a terra era boa e que a proteção dos cananeus se fora, “toda a congregação disse que Josué e Calebe deviam ser apedrejados” (Nm 14.10). Foi a glória do Senhor, aparecendo na tenda, que impediu o linchamento.

É nesse contexto que Deus fala a frase que dá título a este estudo: “Porém o meu servo Calebe, visto que nele houve outro espírito, e perseverou em seguir-me, eu o farei entrar na terra que espiou, e a sua descendência a possuirá” (Nm 14.24). Repare que Deus não elogia a inteligência de Calebe, nem a sua força, nem a sua eloquência. Elogia o espírito com que ele olhou para a mesma realidade que os outros viram. Wesley, nas suas Notas Explicativas, resume assim: era “um homem de outro temperamento, fiel e corajoso”. O contraste é com o espírito da multidão, incrédulo e queixoso, que se sentia grande para reclamar e pequeno para obedecer.

De onde vem esse “outro espírito”? Não é temperamento natural, como se Calebe simplesmente tivesse nascido otimista. É o espírito de quem passou a enxergar as circunstâncias a partir da promessa de Deus, e não a promessa a partir das circunstâncias. Quando o livro de Juízes descreve Otniel, o irmão mais novo de Calebe, diz que “o Espírito do Senhor veio sobre ele” (Jz 3.10). Não é forçar o texto dizer que o mesmo Espírito estava por trás do olhar de Calebe. A fé que vê a terra pela promessa é obra de Deus no coração, e Deus a dá a quem se dispõe a segui-lo.

Esse outro espírito se reconhece por três trocas. Onde a multidão pôs medo, Calebe pôs fé; onde a multidão pôs incredulidade, ele pôs confiança; onde a multidão pôs rebelião, ele pôs obediência.

Fé em vez de medo. Os dez olharam para os gigantes e tremeram; Calebe olhou para a promessa e disse “somos perfeitamente capazes” (Nm 13.30).

Confiança em vez de incredulidade. O povo concluiu que Deus o trouxera para morrer à espada (Nm 14.3); Calebe concluiu que “o Senhor está conosco” (Nm 14.9).

Obediência em vez de rebelião. A congregação quis outro chefe e o caminho de volta ao Egito (Nm 14.4); Calebe quis subir agora, para onde Deus mandava.

A segunda expressão é ainda mais importante para nós. Deus diz que Calebe “perseverou em seguir-me”. No hebraico, a imagem é a de alguém que “encheu” o caminho atrás do Senhor, isto é, foi atrás dele com tudo o que era, sem deixar espaço vazio. As traduções antigas diziam que ele “seguiu o Senhor plenamente”, e a expressão é repetida seis vezes na Bíblia a respeito dele (Nm 14.24; 32.12; Dt 1.36; Js 14.8, 9, 14). Quando a Escritura repete uma coisa seis vezes sobre um homem, ela está dizendo: foi isto que fez a diferença.

Seguir plenamente, em quatro direções. Seguir a Deus por inteiro é segui-lo em tudo o que ele manda, sem escolher os mandamentos de que a gente gosta; segui-lo com sinceridade, sem uma vida para a igreja e outra para a rua; segui-lo com alegria, sem a cara amarrada de quem obedece resmungando; e segui-lo até o fim, sem esfriar depois dos primeiros anos. Calebe fez as quatro coisas, e a quarta foi a mais difícil: durou quarenta e cinco anos.

Nós, metodistas, chamamos essa inteireza pelo nome que Wesley usou: coração perfeito no amor, ou inteira santificação. Não é ausência de fraqueza, é ausência de reserva. Calebe não guardou nenhum pedaço do coração para si.

Quarenta anos sem azedar

A sentença de Deus sobre aquela geração foi dura: nenhum dos que tinham vinte anos para cima entraria na terra; todos morreriam no deserto, ao longo de quarenta anos, um ano para cada dia que os espias haviam passado em Canaã (Nm 14.28-35). Os dez que espalharam o medo morreram de praga na hora (Nm 14.37). “Mas Josué, filho de Num, e Calebe, filho de Jefoné, que eram dos homens que foram espiar a terra, sobreviveram” (Nm 14.38).

Pense no que isso significou para Calebe. Ele tinha quarenta anos e estava pronto para entrar. Por causa da incredulidade dos outros, teve de andar em círculos pelo deserto por trinta e oito anos, sepultando a geração que o quis apedrejar. A promessa que Deus lhe fez naquele dia (“a terra em que ele pisou”, Dt 1.36) só chegaria às suas mãos quarenta e cinco anos depois. E em nenhum lugar a Bíblia registra uma queixa dele. Não há um versículo em que Calebe diga: “eu não tenho culpa disso”, ou “já fiz a minha parte”. Ele caminhou com o povo, comeu o mesmo maná e esperou.

Há duas virtudes escondidas nessa espera, e as duas costumam faltar em nós. A primeira é a lealdade: Calebe continuou leal a um povo que o traiu e a um líder, Moisés, que nem sequer entraria na terra. A segunda é a ausência de inveja. Quando Deus anunciou quem sucederia Moisés, o escolhido foi Josué, e não Calebe (Dt 1.38). Os dois tinham dado o mesmo testemunho em Cades; o mérito, humanamente falando, era igual. Calebe era chefe de Judá, a maior tribo; Josué era de Efraim. Ainda assim, o texto não registra nenhuma sombra de rivalidade. Quando chega a hora de pedir a sua herança, Calebe vai a Josué, o chama de líder, lembra o que Moisés jurou e pede (Js 14.6-12). Não exige, não reivindica, não faz política com os homens de Judá que o acompanham. Pede.

A humildade de Calebe tem uma marca clara: ele conseguiu ser o número dois sem se sentir o número dois. Havia sido escolhido por Deus para entrar na terra, mas não para liderar o povo, e aceitou as duas coisas com a mesma serenidade. Quem só consegue servir quando é o primeiro não seguiu o Senhor plenamente; seguiu a si mesmo.

“Dá-me este monte”

Passados os anos do deserto e os anos da conquista, Israel está em Gilgal repartindo a terra. Os homens de Judá chegam a Josué, e Calebe toma a palavra. O discurso dele é uma das páginas mais belas do Antigo Testamento, e vale ler devagar (Js 14.6-12).

Primeiro ele relembra: “Eu tinha quarenta anos quando Moisés, servo do Senhor, me enviou de Cades-Barneia para espiar a terra. E eu lhe relatei o que estava no meu coração. Os meus irmãos que tinham ido comigo amedrontaram o povo, mas eu perseverei em seguir o Senhor, meu Deus” (Js 14.7-8). Wesley observa que esse elogio a si mesmo não é vaidade, mas necessidade: era preciso lembrar a promessa para poder pedir o que ela garantia. Depois ele reconhece a bondade de Deus: “E, agora, eis que o Senhor me conservou com vida, como prometeu. Quarenta e cinco anos se passaram… e, agora, eis que estou com oitenta e cinco anos” (Js 14.10).

Então vem a frase que envergonha muitos de nós: “Estou tão forte hoje como no dia em que Moisés me enviou. A força que eu tinha naquele dia eu ainda tenho agora, tanto para combater na guerra como para fazer o que for necessário” (Js 14.11). Calebe não usou a idade como desculpa. Não disse “já fiz a minha parte”, nem “agora é a vez dos moços”, nem “dê-me um pedaço tranquilo perto do rio, que eu mereço descansar”. Ele pediu exatamente o contrário: “Dê-me agora este monte de que o Senhor falou naquele dia, pois, naquele dia, você ouviu que lá estavam os anaquins, morando em cidades grandes e fortificadas” (Js 14.12).

O monte era Hebrom, e Hebrom era a cidade dos gigantes, o lugar que quarenta e cinco anos antes tinha feito os dez espias se sentirem gafanhotos (Nm 13.22, 33). Calebe pediu para si a tarefa mais dura da conquista. Isso é disposição. Um homem acomodado pede o que é fácil; um homem preguiçoso pede o que já está pronto; Calebe pediu o que ninguém queria. E pediu com uma humildade que precisa ser notada: “Se o Senhor Deus estiver comigo, poderei expulsá-los, como ele mesmo prometeu” (Js 14.12). O “se” ali não é dúvida sobre Deus; Wesley diz que exprime a necessidade absoluta do auxílio divino e um temor piedoso. Calebe sabia que a força que tinha aos oitenta e cinco anos não era dele, e sabia que os gigantes não cairiam pela sua espada. O mesmo homem que diz “estou tão forte hoje” diz, na frase seguinte, “se o Senhor estiver comigo”. Confiança e humildade não brigam; andam juntas.

Transformou antigos medos em desafios

Quarenta e cinco anos antes, os gigantes haviam sido o principal argumento dos espias para não entrar na terra: “Também vimos ali gigantes… éramos, aos nossos próprios olhos, como gafanhotos” (Nm 13.33). Agora Calebe pede justamente a terra dos gigantes. Aquilo que assustou a geração dele no passado é exatamente aquilo que ele enfrenta pela fé no presente. A idade não foi desculpa; foi credencial.

A frase que resume esse pedido poderia ser dita por qualquer um de nós: “Aquilo que assustou a minha geração no passado será exatamente aquilo que enfrentarei pela fé no presente.”

Estamos procurando uma vida mais confortável, ou ainda temos algum “monte” que desejamos conquistar para Deus?

“Josué o abençoou e deu a cidade de Hebrom a Calebe, filho de Jefoné, para ser a herança dele. Por isso, Hebrom passou a ser de Calebe… visto que havia perseverado em seguir o Senhor, Deus de Israel” (Js 14.13-14). Pela sexta e última vez, a Escritura explica o motivo. Não foi por ser forte, nem por ser chefe, nem por ser de Judá. Foi por ter seguido plenamente.

Os gigantes de Hebrom

Receber a promessa não dispensou o trabalho. Hebrom foi dada a Calebe, mas os gigantes continuavam lá dentro. “Dali Calebe expulsou os três filhos de Anaque: Sesai, Aimã e Talmai” (Js 15.14). São os mesmos três nomes que os espias haviam visto quarenta e cinco anos antes (Nm 13.22). O medo dos dez tinha nome e sobrenome, e Calebe, aos oitenta e cinco anos, foi lá e resolveu.

Há aqui uma lição sobre fé e diligência que precisa ser dita com clareza, porque é comum confundir fé com passividade. A fé de Calebe não o levou a esperar que os gigantes fossem embora sozinhos. Levou-o a subir o monte. A promessa de Deus é o fundamento, e o trabalho do homem é a resposta; quem fica esperando a terra cair no colo não tem fé, tem preguiça com nome bonito. Calebe creu e lutou; creu, por isso lutou.

E ele não se apossou de tudo o que conquistou. Quando as cidades foram distribuídas aos levitas, Hebrom coube a eles como cidade de refúgio, e Calebe ficou apenas com os campos e as aldeias ao redor (Js 21.11-13). O homem que pediu o monte mais difícil entregou a cidade mais importante ao serviço do santuário. Assim, na terra que Calebe conquistou aos oitenta e cinco anos, o homicida involuntário encontraria abrigo e os sacerdotes teriam casa. Isso é o oposto de acomodação: é trabalho que termina em generosidade.

Uma casa contagiada

O último quadro da vida de Calebe é doméstico, e é nele que aparece a marca de um homem de Deus: o que ele foi contagiou os seus. Depois de Hebrom, Calebe avança contra Debir e lança um desafio: “Darei a minha filha Acsa por mulher ao homem que atacar e conquistar Quiriate-Sefer” (Js 15.16). Quem conquistou foi Otniel, seu irmão mais novo (Js 15.17).

A cena que segue é de uma delicadeza rara na literatura antiga. Acsa, recém-casada, insiste com o marido para que peça um campo ao pai e depois ela mesma vai falar com Calebe. “Quando ela desceu do jumento, Calebe lhe perguntou: O que é que você quer? Ela respondeu: Quero que me dê um presente. Já que o senhor me deu uma terra seca, me dê também algumas fontes de água. Então Calebe lhe deu as fontes superiores e as fontes inferiores” (Js 15.18-19). Acsa pediu fontes; o pai deu as de cima e as de baixo. Repare no que ela pediu. Uma terra seca no Neguebe seria uma herança de nome, e não de fruto: sem água, o campo não produziria. Acsa teve iniciativa para ir, discernimento para saber o que faltava e coragem para pedir exatamente aquilo que tornaria a herança realmente produtiva. A ousadia da filha para pedir e a generosidade do pai para dar têm a mesma origem: uma casa onde se aprendeu que Deus é bom e que vale a pena pedir o que é grande.

Otniel, por sua vez, tornou-se o primeiro juiz de Israel. “Os filhos de Israel clamaram ao Senhor, e o Senhor lhes suscitou um libertador, que os libertou: Otniel, filho de Quenaz, que era irmão de Calebe e mais novo do que ele. O Espírito do Senhor veio sobre ele, e ele se tornou juiz de Israel” (Jz 3.9-10). O primeiro libertador da geração seguinte saiu da casa de Calebe. Não é coincidência. O homem que aos oitenta e cinco anos ainda subia montes ensinou, pelo exemplo, que a coragem de ontem tem de virar a coragem de amanhã. O legado de Calebe não foi um monumento; foi gente.

Dez lições da vida de Calebe

Reunindo o que vimos, estas são as marcas de caráter que a Escritura destaca em Calebe. Nenhuma delas é privilégio de heróis; todas são fruto do mesmo “outro espírito”, que Deus dá a quem se dispõe a segui-lo por inteiro.

Coragem. Fez calar o povo quando todos gritavam (Nm 13.30) e ficou de pé diante das pedras (Nm 14.10). Coragem, na Bíblia, não é ausência de medo; é medo colocado no lugar certo, abaixo de Deus.

Fé. Viu os mesmos gigantes que os outros viram e concluiu diferente, porque mediu os gigantes por Deus (Nm 14.9). A fé não muda os fatos; muda a régua com que os fatos são medidos.

Confiança em Deus, e não em si. “Somos perfeitamente capazes” (Nm 13.30) e “se o Senhor estiver comigo” (Js 14.12) saem da mesma boca. Ele confiava muito porque confiava em Deus, e não em Calebe.

Lealdade. Foi leal ao povo que o quis apedrejar, a Moisés que não entraria na terra e a Josué que foi escolhido em seu lugar. Lealdade que depende de reciprocidade não é lealdade; é negócio.

Humildade. Pediu a herança em vez de exigi-la, chamou Josué de líder e reconheceu que a sua força vinha de Deus (Js 14.6-12). Humildade não é pensar pouco de si; é pensar em si com verdade.

Disposição. Pediu Hebrom, a tarefa que ninguém queria (Js 14.12). O crente disposto não espera ser convocado para o fácil; oferece-se para o difícil.

Nem preguiçoso, nem acomodado. Recebeu a promessa e subiu o monte para expulsar os gigantes (Js 15.14). Fé que não trabalha é preguiça disfarçada; conquista que não se reparte é acomodação (Js 21.11-13).

A idade não é desculpa. “Estou tão forte hoje como no dia em que Moisés me enviou” (Js 14.11). A vida com Deus não tem aposentadoria; muda o tipo de serviço, não a disposição para servir.

Submissão. Respeitou a autoridade de Moisés no deserto e a de Josué na terra. Submeteu-se sem se anular e falou a verdade sem se rebelar. Quem não sabe obedecer não está pronto para conquistar.

Sem ciúmes nem inveja. Deus escolheu Josué para liderar, e Calebe não fez disso uma ferida (Dt 1.38). Ele conseguiu alegrar-se com a honra do outro, e essa talvez seja a prova mais difícil de que alguém seguiu o Senhor por inteiro.

Quatro momentos de uma vida inteira

Aos quarenta anos: “Podemos conquistar.” Em Cades-Barneia, diante dos gigantes e de um povo em pânico, ele fez calar a multidão e disse “agora” (Nm 13.30).

Durante quarenta e cinco anos: “Continuarei esperando.” Pagou pelo pecado dos outros sem murmurar, sem inveja de Josué e sem se acomodar (Nm 14.38; Dt 1.36-38).

Aos oitenta e cinco anos: “Dê-me este monte.” Pediu Hebrom, a cidade dos gigantes, e foi atrás deles pelo nome (Js 14.12; 15.14).

Ao final: Deixou herança para a próxima geração. Acsa recebeu as fontes, Otniel se tornou o primeiro juiz de Israel, e a terra repousou da guerra (Js 15.19; Jz 3.9-10; Js 14.15).

Calebe nos ensina que é possível começar bem, continuar fiel durante décadas e terminar ainda desejando novos desafios para a glória de Deus.

Aplicações práticas

Calebe não é um personagem para admirar de longe. Ele é o retrato de um crente comum, provavelmente de origem estrangeira, sem nenhuma vantagem além de uma: entregou a Deus o coração inteiro. E é exatamente isso que o Senhor continua pedindo de nós. As aplicações abaixo pretendem tirar o ensino da página e levá-la para a casa, para a igreja e para o trabalho.

Examine o seu relatório. Diante da sua igreja, da sua família e da sua cidade, você tem falado como os dez ou como Calebe? Os fatos podem ser os mesmos; o que precisa mudar é a régua. Antes de dizer “não dá”, pergunte: o Senhor está conosco?

Pare de esperar que os gigantes vão embora sozinhos. Identifique, com nome, o “anaquim” que há anos você evita: um vício, uma conversa difícil, uma reconciliação, um ministério que você sabe que deveria assumir. Suba o monte esta semana.

Não use a idade nem a fase da vida como desculpa. Nem o jovem (“sou novo demais”) nem o idoso (“já fiz a minha parte”). Pergunte a Deus qual é o seu monte agora, e não o que ele foi há vinte anos.

Alegre-se com a honra do outro. Quando um irmão for escolhido para o lugar que você achava que seria seu, apoie-o de coração e continue servindo. A inveja é o jeito mais rápido de perder o outro espírito.

Contagie a sua casa. Filhos e filhas aprendem a pedir fontes vendo os pais pedirem montes. Conte em casa o que Deus tem feito, e deixe que vejam você obedecendo com alegria, e não resmungando.

Para levar

Deus não elogiou em Calebe a força, a inteligência ou a posição. Elogiou o espírito com que ele olhou para os mesmos gigantes que os outros viram, e a inteireza com que o seguiu por quarenta e cinco anos. Esse outro espírito continua disponível hoje, para qualquer idade, para qualquer origem, para quem se dispuser a não guardar nenhum pedaço do coração para si.

Tarefa. Ler Nm 13–14 e Js 14.6-15 (NAA), anotando cada vez que aparece a expressão “seguir o Senhor” e o que ela custou a Calebe em cada ocasião; e escrever, em meia página, o seu “relatório de Calebe” sobre um desafio real da sua vida ou da sua igreja: os fatos como são, e a conclusão a partir de Deus.

Para aprofundar. Este estudo faz par com o estudo sobre Neemias, outro homem que chorou, orou e agiu diante de muros caídos (ver o curso sobre Neemias).

Bispo Ildo Mello

Este estudo virou lição interativa. No portal Cursos há a versão com ilustrações, cartões de memorização, avaliação comentada e PDF para baixar: Calebe: o homem de outro espírito.

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