Estudos do Bispo Ildo · Estudos Bíblicos · Novo Testamento
Éfeso, no primeiro século, era a capital da província romana da Ásia e uma das maiores e mais importantes cidades do Império. Ali ficava o templo da deusa Diana, uma das sete maravilhas do mundo antigo, e um anfiteatro para cerca de vinte mil pessoas. Foi uma cidade estratégica para o avanço do evangelho, como se vê no relato da agitação provocada pelos ourives, que viviam da fabricação de imagens da deusa (At 19.23-27). Paulo já passara por ali no fim da segunda viagem missionária e, na terceira, ficou morando quase três anos, ensinando publicamente e de casa em casa (At 18.23—21.16). Poucas comunidades receberam do apóstolo tanto tempo e cuidado.
A carta, porém, tem um tom diferente das demais. Enquanto em Gálatas e nas cartas aos Coríntios Paulo corrige erros específicos de uma comunidade, respondendo a notícias que lhe chegaram, em Efésios ele escreve de modo mais amplo. Muitos manuscritos antigos sequer trazem a expressão “em Éfeso” no primeiro versículo, o que sugere uma carta circular, destinada a ser lida em várias igrejas daquela região. O resultado é um texto de fôlego teológico, que não trata de bastidores locais, mas do próprio plano eterno de Deus. Por isso alcança a Igreja de todo tempo — e nos alcança hoje.
Paulo a escreve como prisioneiro (Ef 3.1; 4.1; 6.20), provavelmente de Roma. Da cadeia, com as mãos acorrentadas, o apóstolo canta a liberdade e a riqueza que temos em Cristo. Não há amargura nessas páginas; há louvor.
O tema que atravessa toda a carta é o mistério da vontade de Deus: “fazer convergir nele, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra” (Ef 1.10). Deus está reunindo em Cristo o que o pecado dispersou, colocando o Filho como Senhor e cabeça sobre tudo, e formando nele um só povo, de judeus e gentios. A Igreja não é um detalhe desse plano: ela é o corpo de Cristo e o palco onde a multiforme sabedoria de Deus se manifesta ao universo (Ef 3.10).
A estrutura é nitidamente bipartida. Nos capítulos 1 a 3, Paulo expõe o que Deus fez por nós em Cristo — a doutrina, o indicativo da graça. Nos capítulos 4 a 6, ele mostra como devemos então viver — a prática, o imperativo que brota da graça. A dobradiça entre as duas partes está em 4.1: “Rogo-vos… que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados.” Primeiro a bênção; depois a resposta. Essa ordem é decisiva: a vida cristã não é esforço para merecer o amor de Deus, mas resposta ao amor que já nos alcançou.
Três figuras descrevem a Igreja ao longo da carta. Ela é o corpo de Cristo, do qual ele é a cabeça (Ef 1.22-23; 4.15-16); é o templo santo, edificado sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, tendo Cristo como pedra angular, morada de Deus no Espírito (Ef 2.20-22); e é a esposa, amada e santificada por Cristo, que a si mesmo se entregou por ela (Ef 5.25-27). Corpo, templo e esposa: união, santidade e amor.
Leio Efésios a partir da tradição arminiana e wesleyana, na qual a iniciativa da salvação é inteiramente de Deus, mas a salvação é recebida e conservada pela fé; a graça é poderosa, porém resistível; e a santidade é o alvo para o qual fomos escolhidos. Em pontos como a eleição, o mistério de um só povo e a batalha espiritual, procuro deixar a minha posição explícita, sempre reconhecendo com respeito os irmãos que leem de outro modo. O objetivo não é vencer debates, mas ajudar o leitor a contemplar a grandeza do que Deus fez em Cristo e a viver à altura desse chamado.
O primeiro capítulo é um hino. No grego, os versículos 3 a 14 formam uma única e longa frase, um jorro de louvor que quase nos falta o fôlego para acompanhar. Paulo não começa a carta discutindo problemas; começa bendizendo a Deus por tudo o que temos em Cristo. E é assim que a vida cristã deveria começar cada dia: não pelo pedido, mas pelo louvor.
Paulo se apresenta como “apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus” (Ef 1.1) — não por escolha própria nem por ambição, mas por desígnio divino. E chama os leitores de santos. A palavra não descreve pessoas perfeitas, mas separadas: gente que está no mundo, mas não é do mundo; que tem cidadania no céu e a Deus por Pai. Fomos separados para viver o propósito de Deus. A saudação resume o evangelho em duas palavras: “graça e paz” (Ef 1.2) — a graça que vem primeiro e a paz que dela resulta.
“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo.” (Ef 1.3)
Três palavras dão o tom da passagem. A primeira é beneplácito, ou propósito: a resolução deliberada e bondosa de Deus (Ef 1.5,9). A segunda é vontade, que se repete ao longo do texto (Ef 1.5,9,11). A terceira é ainda mais forte: “o conselho da sua vontade” (Ef 1.11). Tudo o que acontece à Igreja brota do coração de Deus, e não do acaso ou do capricho das circunstâncias.
O propósito de Deus abraça toda a história. Ele é anterior a nós — “antes da fundação do mundo” (Ef 1.4); alcança-nos agora — pois já recebemos “toda sorte de bênção espiritual” em Cristo (Ef 1.3); e caminha para um fim — “a dispensação da plenitude dos tempos”, quando Deus fará convergir em Cristo todas as coisas (Ef 1.10). Passado, presente e futuro cabem nesse plano bendito.
E qual é o alvo declarado? Paulo o repete como um refrão: tudo é “para louvor da glória da sua graça” (Ef 1.6,12,14). Fomos criados e redimidos para a glória de Deus — e é justamente nisso que está a nossa maior alegria, porque o ser humano nunca é tão pleno quanto quando vive para Aquele que o fez.
“Deus nos escolheu nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele, em amor; e nos predestinou para sermos adotados como seus filhos.” (Ef 1.4-5)
Poucos textos foram tão debatidos quanto este. Convém, por isso, lê-lo com cuidado, à luz de toda a Escritura. A leitura que proponho — cristocêntrica, corporativa, condicional e santificadora — busca fazer justiça ao que Paulo de fato escreveu.
Primeiro, a eleição é, antes de tudo, “em Cristo”. Paulo não diz que Deus escolheu indivíduos considerados isoladamente; diz que nos escolheu nele. E a estrutura se repete o tempo todo: “em Cristo” (v.3), “nele” (v.4), “por meio de Jesus Cristo” (v.5), “no Amado” (v.6), “nele temos a redenção” (v.7), “em Cristo” (vv.9-10), “nele fomos feitos herança” (v.11), “em quem também vós” (v.13). Cristo não é apenas o executor de um decreto anterior; ele é o próprio fundamento da eleição. Fora dele não existe eleição salvadora. A pergunta decisiva, portanto, não é “Deus me escolheu secretamente para que eu viesse a estar em Cristo?”, mas “estou, pela fé, naquele que Deus escolheu como Salvador e cabeça do povo eleito?”.
Segundo, a eleição é corporativa em sua estrutura e individual em sua aplicação. Deus escolheu Cristo como representante da nova humanidade e, nele, escolheu a Igreja como seu povo — assim como escolheu Abraão e, nele, a sua descendência. Não se trata de um grupo abstrato e vazio: a eleição é primeiro do povo em seu cabeça, mas alcança verdadeiramente cada pessoa que passa a pertencer a esse povo pela fé. O aspecto corporativo não anula o individual; o crente é eleito como membro do corpo eleito.
Terceiro, é preciso observar o que a predestinação de fato predestina. Efésios 1 não afirma que Deus predestinou algumas pessoas a crer. Paulo diz para o quê os crentes foram predestinados: para serem santos e irrepreensíveis (v.4), para a adoção (v.5), para a redenção e o perdão (v.7), para uma herança (v.11), para o louvor da glória de Deus (vv.6,12,14). A predestinação fixa o destino dos que estão em Cristo. Deus determinou soberanamente que todo aquele que estiver unido ao Filho será perdoado, adotado, santificado, transformado e, enfim, glorificado. Em palavras simples: Deus não predestinou certas pessoas a crer à revelia da sua resposta; predestinou o que há de acontecer com todos os que creem. Essa leitura se harmoniza com o apóstolo em outro lugar, quando ele funda a predestinação na presciência divina: “aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho” (Rm 8.29; cf. 1Pe 1.2). H. Orton Wiley distingue com precisão: a predestinação é o plano gracioso pelo qual Deus decidiu adotar pessoas por meio de Cristo; a eleição identifica aqueles que, pela fé, acolhem a oferta da misericórdia.
Wesley, nas suas Notas, confirma essa leitura: sobre Efésios 1.4, Deus escolheu “aqueles que ele de antemão conheceu como crentes em Cristo (1Pe 1.2)”; sobre 1.5, foi “o seu propósito livre, fixo e inalterável de conferir esta bênção a todos os que cressem em Cristo, e somente a eles”; e sobre 1.12, “quem crê não somente é eleito para a salvação (se perseverar até o fim), mas é preordenado por Deus para andar em santidade”.
Quarto, a causa é a graça, e a condição não meritória é a fé. Isso não transforma a fé em obra que nos credencia diante de Deus. O pecador caído não produz fé por si mesmo: o Pai planeja a salvação, o Filho a realiza, o Espírito ilumina, convence e capacita, o evangelho chama — e o pecador, alcançado por essa graça, pode então responder. Armínio já ensinava que ninguém exerce fé salvadora sem a ação capacitadora da graça divina. A diferença em relação ao calvinismo não está em afirmar ou negar a necessidade da graça, mas em perguntar se essa graça é irresistível e concedida salvadoramente apenas a alguns. A fé não é a causa meritória da eleição; é a mão vazia que recebe o dom e nos une ao Eleito. A causa é a graça; o fundamento é Cristo; a condição não meritória é a fé.
Minha posição, portanto, pode ser assim resumida: antes da fundação do mundo, Deus decidiu graciosamente que Cristo seria o Salvador e a cabeça de um povo santo, e nele escolheu a Igreja, predestinando todos os que a ele se unissem para a adoção, a santidade e a herança eterna. Pela graça, mediante a fé, judeus e gentios são incorporados a Cristo e passam a participar pessoalmente dessa eleição. Reconheço, com respeito, os irmãos que leem aqui um decreto incondicional de indivíduos; mas essa leitura, a meu ver, não faz justiça ao “em Cristo” nem ao “todo aquele que crê” (Jo 3.16). E fica excluído qualquer universalismo: a salvação é real e oferecida a todos, porém condicionada à união com Cristo pela fé.
Vale ainda lembrar que a santidade a que fomos predestinados é “diante dele, em amor” (Ef 1.4). Não é santidade de fachada, encenada para as pessoas: é diante de Deus, que conhece o coração. E de nada valeria sem amor (1Co 13.1-3). A verdadeira evidência da eleição não está em tentar devassar os conselhos secretos de Deus, mas nos frutos visíveis: fé viva, presença do Espírito, crescimento no amor, obediência e santidade de vida.
Paulo enfileira as bênçãos numa sequência que tira o fôlego. Há a adoção: fomos feitos filhos de Deus, não por natureza nem por direito, mas por pura graça, quando estávamos mortos, tornando-nos coerdeiros com Cristo (Ef 1.5; Rm 8.17). Há a redenção: libertação e perdão pelo sangue de Cristo, pois éramos escravos do pecado e da morte (Ef 1.7). Há a sabedoria e a prudência com que Deus derramou sobre nós a riqueza da sua graça (Ef 1.8). Há a revelação do mistério: Deus nos deu a conhecer o seu plano de convergir em Cristo todas as coisas (Ef 1.9-10). E há a herança: em Cristo fomos feitos herança e recebemos herança, predestinados segundo o propósito daquele que tudo opera (Ef 1.11).
Há um detalhe que não pode passar despercebido. Do versículo 3 ao 13, só nos versículos 8 e 14 não aparece a expressão “nele” ou “em Cristo”. É a assinatura do capítulo: toda bênção se dá, se cumpre e se guarda em Cristo Jesus. Fora dele, mãos vazias; nele, mãos cheias.
“Tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa, o qual é o penhor da nossa herança.” (Ef 1.13-14)
No mundo antigo, o selo era marca de propriedade e de autenticidade: garantia de que a carta era verdadeira e de quem ela era. Assim, o Espírito Santo é a prova de que pertencemos a Deus. Ele testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus (Rm 8.16), dando-nos segurança interior. E o Espírito é também penhor — as arras, o sinal antecipado, a garantia da herança. É antegozo do céu, as primícias daquilo que teremos por inteiro na plenitude dos tempos. Como o anel de noivado, é a promessa firme das bodas que hão de vir.
Repare na ordem, que muito ensina: “tendo ouvido… e crido, fostes selados” (Ef 1.13). O selo não dispensa a fé; pressupõe-na. A graça é primeira, mas ela chama à fé, e é na fé que recebemos o penhor do Espírito.
Depois do louvor, Paulo ora. Ele dá graças pela fé e pelo amor dos leitores e pede que Deus lhes conceda “espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele” (Ef 1.17). São três coisas que ele quer que a Igreja conheça: a esperança do seu chamamento, a riqueza da glória da sua herança nos santos e a suprema grandeza do seu poder para conosco, os que cremos (Ef 1.18-19).
Esse poder não é abstrato. Paulo o define pelo maior evento da história: é o mesmo poder que Deus “exerceu em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais, acima de todo principado, e potestade, e poder, e domínio” (Ef 1.20-21). E acrescenta que Deus “sujeitou todas as coisas debaixo dos seus pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas” (Ef 1.22-23). Aqui está o coração da carta: Cristo, cabeça exaltada sobre o universo, é dado à Igreja, que é o seu corpo. O mesmo poder que o ressuscitou e o entronizou opera hoje em favor dos que creem. Não somos, portanto, órfãos desamparados diante das forças do mal; pertencemos ao corpo daquele que está acima de todas elas.
Se tudo isso é verdade, então há um modo novo de encarar a vida. Comece o dia bendizendo a Deus, antes de pedir qualquer coisa, por tudo o que já tem em Cristo. Descanse na eleição em Cristo, sem preguiça na fé: você foi escolhido por graça, responda crendo e perseverando. Viva a santidade diante de Deus, e não para a plateia. E enfrente as lutas a partir do alto, lembrando que está unido àquele que foi assentado acima de todo principado. A certeza de ser escolhido e amado em Cristo é o chão firme sobre o qual o crente caminha.
Se o primeiro capítulo contemplou o plano eterno de Deus, o segundo conta a nossa história pessoal dentro desse plano — do fundo do poço ao mais alto lugar. É um dos textos mais preciosos sobre a graça em toda a Escritura, e seu centro é uma expressão de apenas duas palavras.
Paulo não suaviza o diagnóstico. Antes de Cristo, “estáveis mortos nos vossos delitos e pecados” (Ef 2.1). Não doentes, não fracos: mortos. Andávamos segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, seguindo os desejos da carne e dos pensamentos, e éramos “por natureza filhos da ira” (Ef 2.2-3). É a condição de quem não pode salvar a si mesmo, porque um morto não se ressuscita. Reconhecer a gravidade do nosso estado não é pessimismo: é o que torna a graça verdadeiramente graça. Onde o diagnóstico é brando, o Salvador parece dispensável.
Duas palavras rompem a escuridão: “mas Deus” (Ef 2.4). São, talvez, as duas palavras mais belas da carta. A iniciativa é toda dele: “sendo nós mortos… nos deu vida juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e juntamente com ele nos ressuscitou e nos fez assentar nas regiões celestiais” (Ef 2.5-6). Aqui está a graça preveniente, aquela graça que vem antes: antes de qualquer passo nosso, Deus, movido por seu grande amor, vivifica, ressuscita e assenta. O verbo é sempre dele; nós éramos o cadáver. E há um propósito nos séculos vindouros: mostrar “a suprema riqueza da sua graça” (Ef 2.7). A nossa salvação será, para sempre, um monumento à bondade de Deus.
“Pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.” (Ef 2.8-9)
Note a arquitetura da salvação. A causa é a graça; o meio é a fé; a fonte é Deus, pois até a salvação recebida na fé é dom seu. A fé não é uma obra que nos credencia diante de Deus; é a mão vazia que recebe o presente. Por isso ninguém tem de que se gloriar. Diante da cruz, todo orgulho se cala.
Wesley resume com beleza: “A graça, sem consideração alguma ao merecimento humano, confere o dom glorioso. A fé, de mão vazia e sem pretensão alguma a mérito pessoal, recebe a bênção celestial” (Notas sobre Ef 2.8).
E, no entanto, as obras não desaparecem — mudam de lugar. “Somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10). As boas obras não são a raiz da salvação; são o seu fruto. Somos salvos não pelas obras, mas para elas. A mesma graça que salva transforma e nos põe a caminhar em santidade e amor. Fé sem obras é morta (Tg 2.17); mas as obras que agradam a Deus nascem da fé, e não a substituem.
Paulo lembra aos gentios o que eles eram: “sem Cristo, separados da comunidade de Israel, estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo” (Ef 2.12). “Sem esperança e sem Deus” é a condição mais dura que existe, e é a de muita gente ao nosso redor, que enfrenta as dores, as perdas, os medos e a própria morte sem uma âncora. Mas o cristão não vive assim: “agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue de Cristo” (Ef 2.13). Onde havia distância, o sangue de Jesus fez proximidade; onde faltava esperança, nasceu a bendita esperança que não decepciona (Rm 5.5).
“Ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um e derrubou a parede da separação” (Ef 2.14). Judeus e gentios viviam separados por uma verdadeira muralha de inimizade — havia até, no templo de Jerusalém, um muro que impedia o gentio de avançar sob pena de morte. Na cruz, Cristo desfez essa parede e, dos dois, criou “um novo homem”, reconciliando ambos “com Deus em um só corpo, por meio da cruz” (Ef 2.15-16). Agora, tanto judeus como gentios têm, pelo mesmo Espírito, acesso ao Pai (Ef 2.18).
Este é o lugar de afirmar, com clareza e com carinho, a minha convicção: a carta não sustenta a ideia de que Deus mantém dois povos, com dois planos de salvação — um para Israel segundo a carne, outro para a Igreja. A Escritura é direta: Cristo “de ambos fez um”. Há um só corpo, um só Senhor, uma só fé, um só batismo (Ef 4.4-6). Paulo, em Romanos, usa a figura de uma única oliveira, da qual ramos naturais foram cortados pela incredulidade e ramos silvestres foram enxertados pela fé (Rm 11.17-24). Não há duas oliveiras; há uma só árvore do povo de Deus, que tem as suas raízes nas promessas feitas a Abraão e o seu cumprimento em Cristo.
Reconheço, com respeito, os irmãos de convicção dispensacionalista, que leem a profecia e a relação entre Israel e a Igreja de outro modo. Mas, a meu ver, a esperança de salvação, para judeus e gentios, é uma só: Jesus. E a consequência prática é imensa — se Cristo derrubou o maior muro da história, o que dizer dos muros menores que insistimos em levantar dentro da Igreja, de classe, de partido, de origem?
“Já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus” (Ef 2.19). A Igreja é edificada “sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo Cristo Jesus a pedra angular” (Ef 2.20) — a união do Antigo e do Novo Testamento, tudo concentrado em Cristo. E o edifício cresce “para templo santo”, “morada de Deus no Espírito” (Ef 2.21-22). De mortos e estrangeiros, fomos feitos a própria casa onde Deus habita. Que dignidade a graça nos deu!
O terceiro capítulo tem dois movimentos: a revelação do maior mistério de Deus e uma das mais belas orações de toda a Bíblia. Entre um e outro, Paulo abre o coração sobre o seu próprio ministério. Tudo começa com uma expressão que ele repete: “por esta causa” (Ef 3.1,14) — por causa de tudo o que Deus fez nos capítulos anteriores, o apóstolo se ajoelha e ora.
Paulo fala de um mistério que, em outras gerações, não foi dado a conhecer, mas que agora foi revelado: em Cristo, os gentios são “co-herdeiros, membros do mesmo corpo e co-participantes da promessa” (Ef 3.6). As promessas feitas a Abraão nunca foram apenas para os israelitas segundo a carne; desde o princípio Deus dissera: “em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.3). O mistério, portanto, não é uma informação secreta e estranha, mas a plena manifestação daquilo que Deus sempre quis: reunir em Cristo, num só povo, judeus e gentios. O que era privilégio de alguns tornou-se herança de todos os que creem.
Paulo se diz servo desse evangelho por graça, o “menor de todos os santos”, chamado a anunciar aos gentios “as insondáveis riquezas de Cristo” (Ef 3.8). E revela uma verdade impressionante: é “por meio da igreja” que “a multiforme sabedoria de Deus” se torna conhecida aos principados e potestades nas regiões celestiais (Ef 3.10). A Igreja é o palco onde a sabedoria de Deus é exibida ao universo. Não é pouca coisa pertencer a ela. Por isso Paulo pede que os leitores não desanimem por causa das suas tribulações, que são, na verdade, glória deles (Ef 3.13).
“Por esta causa me ponho de joelhos diante do Pai… para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus.” (Ef 3.14,19)
Ajoelhar-se é bom, mas Paulo não ensina que essa seja a única forma de orar; o que precisa estar de joelhos é o coração. E ele faz pedidos ousados, de quem sabe diante de quem está. O primeiro: que sejamos “fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito, no homem interior” (Ef 3.16). O segundo: que Cristo habite no coração pela fé (Ef 3.17). Se ele fala a cristãos, é porque uma coisa é Cristo estar em nós, outra é ele habitar ricamente. Todos recebemos a mesma visita, mas cada um a acolhe de um jeito; a oração é para que ele se sinta em casa, com todo o espaço do coração.
O terceiro pedido é que estejamos “arraigados e alicerçados em amor” (Ef 3.17) — uma figura da lavoura, a raiz, e outra da construção, o alicerce. Quanto mais alta a árvore, mais funda precisa ser a raiz; quanto mais alto o edifício, mais firme o fundamento. E então o pedido cresce até o limite: que possamos compreender “qual é a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento” (Ef 3.18-19). Quem já foi ao mar sabe: no primeiro contato ficamos maravilhados, e ainda assim conhecemos apenas uma fração ínfima do oceano. Somos como os cegos da velha parábola, que tocaram partes diferentes do elefante e cada um descreveu uma coisa. Talvez já tenhamos tocado o amor de Deus por uma beirada; a oração de Paulo é para que o experimentemos em toda a sua dimensão. E ele garante o resultado: quem compreende esse amor é “tomado de toda a plenitude de Deus”.
Wesley contempla cada dimensão: “a largura do amor de Cristo — abraçando toda a humanidade; o comprimento — de eternidade a eternidade; a profundidade — insondável por qualquer criatura; a altura — inalcançável por qualquer inimigo” (Notas sobre Ef 3.18).
Se o amor de Deus é assim tão grande, por que ele não nos obriga? Porque é amor — e amor não se impõe. Deus poderia, por um decreto, deixar todo mundo apaixonado por Jesus; mas ele nos atrai “com cordas de amor” (Os 11.4), não por força nem violência. Vemos isso no jovem rico: Jesus, “olhando para ele, o amou” (Mc 10.21) e, mesmo amando, respeitou a sua escolha de ir embora, triste. Vemos isso quando muitos discípulos o abandonaram e ele perguntou aos doze: “Quereis vós também retirar-vos?” (Jo 6.67). Quem ama de verdade concede liberdade.
A graça de Deus é poderosa, mas resistível: “vós sempre resistis ao Espírito Santo”, disse Estêvão (At 7.51). Deus estende as mãos, bate à porta e espera (Ap 3.20); não arromba. É por isso, também, que não pregamos o universalismo. O amor de Deus alcança a todos e a cruz é oferecida ao mundo inteiro, mas a salvação é recebida por quem, alcançado pela graça, responde com fé. Amar a liberdade que Deus concede é levar a sério tanto o convite quanto a resposta — e é isso que nos move a evangelizar com paixão, atraindo com amor e não manipulando pelo medo.
A oração termina em louvor: “Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós” (Ef 3.20). Deus não é apenas capaz de atender ao pedido; é poderoso para fazer infinitamente mais do que pedimos e do que sonhamos — inclusive aquilo que não temos coragem de pedir, mas que ele lê no coração. E tudo isso “conforme o seu poder que opera em nós”. Diante de tal Deus, a única resposta cabível é a glória: “a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém” (Ef 3.21).
Com o quarto capítulo, a carta vira uma dobradiça: sai da graça recebida para a vida vivida. Os três primeiros capítulos disseram o que temos em Cristo; a partir daqui, Paulo diz como devemos andar. A palavra que abre a virada é um pedido: “rogo-vos”.
“Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados” (Ef 4.1). Depois de tanta graça, há algo que Deus espera de nós. Há quem pense que é “só graça”, que Deus faz tudo e nós apenas recebemos de modo passivo. Mas Paulo diz “rogo-vos” e “esforçando-vos por guardar a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Ef 4.3). A vida cristã é dada de presente; a partir desse presente, porém, há um esforço que se faz necessário — meu, seu, do pastor, do recém-convertido, sem exceção. É o que chamamos de sinergismo: não há mérito humano na salvação, mas há resposta. A mesma graça que nos salva nos capacita a andar, e a nossa parte é caminhar “com toda humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor” (Ef 4.2). “Desenvolvei a vossa salvação… porque Deus é quem opera em vós” (Fp 2.12-13): obra que brota da graça, edificada sobre a graça, e que ainda assim exige que arreguemos as mangas.
A palavra vocação vem do latim vocare, chamar. E todo chamado tem quem chama — o Vocalista. Esse é o nosso Criador. Deus formou cada um de nós de modo único, com dons e talentos, e tem um propósito para a nossa vida. Mas convém lembrar: por maior que seja a vocação, ela precisa de preparo. Uma jovem pode ter todo o dom para a medicina; ainda assim, ninguém deixaria que ela operasse antes de se formar, estudar e desenvolver a habilidade. Vocação sem preparo não basta, e preparo sem vocação também não. É preciso trabalhar em cima daquilo que Deus deu.
E onde está o valor de uma vocação? Não no tamanho do resultado, mas em quem chama. Se um presidente confiasse a alguém uma tarefa simples, essa pessoa a cumpriria com honra, não pela grandeza da tarefa, mas pela dignidade de quem a pediu. Quanto mais quando é o Criador do universo quem chama! Por isso ninguém deve desprezar a congregação pequena, o dom modesto, o serviço escondido: o que dignifica a vocação é Aquele que chamou.
Paulo enfileira sete vezes a palavra “um só”: “há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos” (Ef 4.4-6). A unidade cristã não é uniformidade, mas comunhão em torno do mesmo Senhor. Guardá-la exige humildade e amor, sobretudo num tempo de tantas divisões de partido, de time e de opinião. O que nos une é maior do que tudo o que nos diferencia: o amor de Deus derramado no coração.
“A cada um de nós foi dada a graça segundo a medida do dom de Cristo” (Ef 4.7). Paulo lembra que o Cristo que subiu é o mesmo que primeiro desceu (Ef 4.9-10), e que, exaltado, deu dons à sua Igreja. Ele constituiu “apóstolos… profetas… evangelistas… pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos, para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo” (Ef 4.11-12). Repare no alvo: os líderes existem para capacitar o povo, e não para substituí-lo. O ministério não cria plateia; forma obreiros.
E o corpo cresce “até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4.13). O propósito é a maturidade: não mais “meninos, levados de um lado para outro por todo vento de doutrina” (Ef 4.14), mas crescendo “em tudo, naquele que é a cabeça, Cristo”, corpo que se edifica a si mesmo “em amor” (Ef 4.15-16). Aqui está o coração wesleyano da carta: a graça nos coloca em movimento rumo à semelhança de Cristo.
A caminhada digna é concreta. Paulo pede que não andemos mais como os gentios, na vaidade da mente, mas que nos renovemos: “despir o velho homem… e vestir o novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade” (Ef 4.22-24). E então desce ao chão da vida: falar a verdade ao próximo; “irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira”; quem furtava, trabalhe e reparta com o necessitado; nenhuma palavra torpe, mas só a que for boa para edificação; “não entristeçais o Espírito Santo de Deus”; que toda amargura, e cólera, e ira, e gritaria, e blasfêmia sejam tiradas; “sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou” (Ef 4.25-32). A santidade, aqui, tem endereço: a boca, o trabalho, a raiva e o perdão.
A caminhada digna, iniciada no capítulo anterior, agora ganha cor. Paulo fala da luz, da sabedoria, da plenitude do Espírito e, por fim, do amor no lar. Tudo sob um chamado altíssimo: “sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; e andai em amor, como também Cristo vos amou e se entregou a si mesmo por nós” (Ef 5.1-2).
Somos chamados a imitar a Deus — não como quem copia de fora, mas como filhos que se parecem com o Pai porque são amados por ele. E o padrão do amor não é o sentimento do momento, mas a entrega de Cristo. Amar, no vocabulário de Paulo, é dar-se. Antes de qualquer regra sobre luz ou casamento, o apóstolo fixa a régua: o amor sacrificial de Jesus.
Contra a impureza, a avareza e a torpeza, Paulo aponta o contraste mais forte: “outrora, éreis trevas, mas, agora, sois luz no Senhor; andai como filhos da luz” (Ef 5.8). Não somos apenas pessoas que receberam luz: fomos transformados em luz. E o fruto da luz “consiste em toda bondade, justiça e verdade” (Ef 5.9). Por isso não participamos “das obras infrutíferas das trevas”, antes as denunciamos pela própria vida (Ef 5.11). O apelo ecoa como um chamado ao despertar: “Desperta, ó tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará” (Ef 5.14). Ser luz não é encenar pureza diante dos outros; é deixar que a bondade, a justiça e a verdade de Cristo governem os cantos escondidos da vida.
“Vede, pois, como andais com cuidado, não como néscios, e sim como sábios, aproveitando o tempo, porque os dias são maus” (Ef 5.15-16). Sabedoria, aqui, é viver com intenção: não desperdiçar as oportunidades e entender qual é a vontade do Senhor (Ef 5.17). Num mundo apressado e distraído, o cristão sábio pergunta, diante de cada dia, como resgatar aquele tempo para o que de fato importa.
“Não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito” (Ef 5.18). Ao vazio que muitos buscam na embriaguez, Paulo opõe a plenitude do Espírito. E descreve os sinais dessa plenitude: uma comunhão que canta — “salmos, hinos e cânticos espirituais”; um coração que louva ao Senhor; gratidão “sempre e por tudo”; e humildade que se traduz em serviço, “sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo” (Ef 5.19-21). Ser cheio do Espírito não é um arroubo isolado; é uma vida de louvor, gratidão e submissão mútua. E é justamente esse versículo 21 — “sujeitando-vos uns aos outros” — que abre e emoldura o trecho seguinte, sobre o casamento.
Paulo eleva o casamento ao seu maior significado: ele é imagem do amor entre Cristo e a sua Igreja (Ef 5.32). À esposa, pede respeito e disposição de acompanhar o marido “como ao Senhor” (Ef 5.22-24). Mas repare onde recai a palavra mais pesada: sobre o marido. A ele Paulo não manda mandar; manda amar: “amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela” (Ef 5.25). A cabeça, no modelo de Cristo, é a que serve, protege e morre pela amada — não a que domina. O marido deve cuidar da esposa como do próprio corpo (Ef 5.28-29).
Wesley aponta o padrão sem rodeios: “Como Cristo amou a igreja — eis o verdadeiro modelo da afeição conjugal. Com este gênero de afeição, com este grau dela e para este fim devem os maridos amar as suas mulheres” (Notas sobre Ef 5.25).
Lida sob o versículo 21, que fala de submissão mútua, e sob o versículo 25, que ordena ao marido amar até a entrega, a passagem não autoriza autoritarismo nem opressão. Ela exalta um lar em que cada um busca o bem do outro à maneira de Cristo. Qualquer uso desses versículos para justificar dominação ou maus-tratos trai o próprio Cristo que se entregou por amor. Por isso o capítulo se fecha com equilíbrio: “cada um… ame a sua mulher como a si mesmo, e a mulher respeite o marido” (Ef 5.33). Amor e respeito, entrega e honra — o casamento como parábola viva do evangelho.
A carta termina descendo ao lar, ao trabalho e ao campo de batalha. Depois de mostrar como o evangelho reorganiza o casamento, Paulo o leva às demais relações da vida e, então, arma o crente para a luta que ninguém escapa de travar. A ordem central do capítulo é dupla: “fortalecei-vos no Senhor” e “revesti-vos de toda a armadura de Deus” (Ef 6.10-11). A força não é nossa; a armadura é dele.
“Filhos, obedecei a vossos pais, no Senhor… Honra a teu pai e a tua mãe (que é o primeiro mandamento com promessa)” (Ef 6.1-2). A obediência dos filhos é resposta de amor, “no Senhor”. Mas Paulo não deixa o peso só sobre os menores: “vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira, mas criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor” (Ef 6.4). Há disciplina, sim, mas sem exasperar, sem ferir. A casa cristã forma pela verdade e pelo afeto, não pelo autoritarismo.
Paulo fala aos servos e aos senhores — em nossos termos, a empregados e patrões. A ambos, a mesma medida: servir “como a Cristo”. Ao empregado, pede trabalho de coração, “como ao Senhor e não como aos homens” (Ef 6.7). Ao patrão, pede que faça o mesmo, “deixando as ameaças, certos de que o Senhor, tanto deles como vosso, está nos céus e que para com ele não há acepção de pessoas” (Ef 6.9). Diante de Deus, patrão e empregado têm o mesmo Senhor. Isso dignifica o trabalho e derruba a arrogância. De 5.21 em diante, a mesma submissão mútua molda casais, filhos, pais, empregados e patrões: a graça não fica no culto, ela reorganiza cada relação da vida.
“Porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Ef 6.12). O inimigo real não é o próximo. Quando esquecemos isso, trocamos o campo de batalha e ferimos quem deveríamos amar.
Mas é preciso equilíbrio, e aqui toco num ponto que muito me preocupa nos dias de hoje. Cristo venceu na cruz — e, ainda assim, Paulo diz que ainda lutamos. Se batalhamos, é porque a guerra não terminou. Vivemos entre a vitória decisiva do Calvário e a vitória final da vinda de Cristo. Em Cristo já temos toda bênção espiritual, mas experimentamos as primícias, não a plenitude. Por isso ainda adoecemos, sofremos e morremos, mesmo abençoados; por isso a criação geme, e nós gememos com ela, aguardando a redenção do corpo (Rm 8.22-23). Devemos orar por cura e por libertação — Paulo o fazia —, sabendo, porém, que nem toda cura vem agora e que a plenitude é o céu. O próprio apóstolo orou três vezes para ser livre de um espinho na carne e ouviu: “A minha graça te basta” (2Co 12.7-9). Essa consciência nos guarda de dois erros opostos: o triunfalismo, que promete céu na terra, e o desânimo, que esquece que a vitória é certa. Afinal, nada pode nos separar do amor de Deus (Rm 8.37-39).
A armadura é de Deus, mas somos nós que a vestimos; e cada peça é uma verdade a ser vivida. O cinturão da verdade sustenta tudo o mais, pois só a vida verdadeira mantém as demais peças no lugar (Ef 6.14). A couraça da justiça protege o coração, guardando-nos pela retidão que vem de Cristo (Ef 6.14). Os calçados do evangelho da paz nos deixam prontos para andar e anunciar (Ef 6.15). O escudo da fé apaga os dardos inflamados do maligno (Ef 6.16). O capacete da salvação guarda a mente com a certeza do que somos em Cristo (Ef 6.17). E a espada do Espírito, que é a palavra de Deus, é a única arma de ataque de todo o conjunto (Ef 6.17).
Vale notar que a armadura é quase toda defensiva; a única arma ofensiva é a Palavra. Foi assim que o próprio Cristo venceu a tentação no deserto: a cada investida do tentador, respondeu “está escrito” (Mt 4.4). Toda batalha espiritual sadia se ancora na Palavra de Deus — e desconfia, com serenidade, de tudo o que a contradiz. Há muita coisa que se diz hoje sobre luta espiritual; nem tudo é verdadeiro. A régua é sempre a Escritura.
Wesley observa: “Até agora a nossa armadura foi apenas defensiva; mas devemos atacar Satanás, além de proteger-nos: o escudo numa mão, a espada na outra.” E acrescenta que “nenhuma armadura para as costas é mencionada: devemos sempre enfrentar os nossos inimigos” (Notas sobre Ef 6.14,17).
A armadura se completa na oração: “com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e para isto vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos” (Ef 6.18). A batalha não se trava no braço da carne, mas de joelhos. Paulo, o apóstolo encadeado, pede oração também por si, para falar com intrepidez o mistério do evangelho (Ef 6.19-20). E encerra a carta como a começou: com graça e paz. “A paz seja com os irmãos… A graça seja com todos os que amam a nosso Senhor Jesus Cristo com amor incorruptível” (Ef 6.23-24).
Da primeira à última linha, Efésios nos conduz das alturas do plano eterno de Deus ao chão da vida diária, e mostra que não há distância entre uma coisa e outra. O mesmo Deus que, antes da fundação do mundo, decidiu reunir todas as coisas em Cristo é o que hoje reorganiza um casamento, dignifica um trabalho, arma um crente para a batalha e enche um coração de louvor.
O que temos em Cristo é imenso: eleição, adoção, redenção, revelação do mistério, herança e o selo do Espírito — tudo “nele”, para o louvor da glória de Deus. Estávamos mortos, e a graça nos deu vida; estávamos longe, e o sangue de Cristo nos aproximou; a parede caiu, e de dois povos Deus fez um só. E, como resposta a tudo isso, somos chamados a andar de modo digno da nossa vocação, crescendo até a estatura de Cristo, andando como filhos da luz, cheios do Espírito, revestidos da armadura de Deus e firmes na oração.
Já vencedores em Cristo, ainda peregrinos a caminho da plenitude, sigamos — na graça e na paz com que a carta começa e termina. E que a Igreja de Éfeso e a Igreja de todos os tempos possam dizer, com o apóstolo: a ele seja a glória, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém.
Bispo Ildo Mello — Igreja Metodista Livre do Brasil. Referências bíblicas na versão Nova Almeida Atualizada (NAA).