Estudos do Bispo Ildo · Soteriologia · Graça, Fé e Salvação

Escolhidos Nele: o que Efésios 1.3-14 ensina sobre eleição e predestinação

Poucas palavras bíblicas produzem tanta inquietação quanto eleição e predestinação. Para muita gente, elas soam como uma lista secreta guardada no céu, e a pergunta que fica é sempre a mesma, dita baixinho: será que o meu nome está lá? Já conversei com pessoas sinceras, que amam a Deus, e que passaram anos sem paz por causa dessa dúvida, como quem teme descobrir, a qualquer momento, que ficou de fora.

As perguntas que costumam ser feitas ao texto são conhecidas: Deus escolheu, antes da fundação do mundo, quem seria salvo e quem seria condenado? Existe um decreto eterno fixando o destino de cada indivíduo? Como posso ter certeza de que fui incluído? E, se a eleição é incondicional, para que pregar o evangelho?

Neste artigo, procurarei mostrar que essas perguntas, por mais comuns que sejam, não são as perguntas que Efésios 1.3-14 responde. Paulo não responde quem foi escolhido em segredo; ele responde em quem se é escolhido. A diferença parece pequena, mas ela muda tudo: o texto que muitos usam para tirar a paz das pessoas é exatamente o texto que Deus deu para nos dar segurança.

1. Doutrina nascida em doxologia

A primeira coisa que precisamos notar não é uma doutrina. É o tom. No grego, os versículos 3 a 14 formam um único período, uma frase só, num fôlego só, que começa com uma bênção: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo” (Ef 1.3). Paulo não está redigindo um tratado escolástico sobre decretos eternos; ele está louvando, e as palavras se atropelam de gratidão, como acontece com quem fala de alguém que ama.

Isso já orienta a leitura. Quem transforma esta passagem num campo de batalha entre escolas teológicas leu o texto sem perceber onde ele nasceu: ele nasceu de mãos erguidas em adoração. Toda doutrina da eleição que produz angústia em quem crê, ou orgulho em quem se julga incluído, foi mal estudada em algum ponto do caminho, porque o próprio texto declara três vezes o seu alvo: “para louvor da glória da sua graça” (Ef 1.6, 12, 14).

2. O eixo do texto: “em Cristo”

Preste atenção em como Paulo escreve. Se contarmos todas as expressões de união com Cristo no grego de Ef 1.3-14 (“em Cristo”, “nele”, “em quem”, “no Amado”), chegamos a onze ocorrências em doze versículos: “em Cristo” (v. 3); “nos escolheu nele” (v. 4); “no Amado” (v. 6); “em quem temos a redenção” (v. 7); “que propôs nele” (v. 9); “em Cristo” (v. 10); “nele” (v. 10b); “nele fomos também feitos herança” (v. 11); “os que primeiro esperamos em Cristo” (v. 12); “em quem também vocês, tendo ouvido” (v. 13a); “em quem, tendo também crido, foram selados” (v. 13b).

Paulo não está sendo repetitivo. Ele está sendo preciso. O apóstolo não diz que Deus escolheu certas pessoas e depois as colocou em Cristo; ele diz que a escolha aconteceu nele: “assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo” (Ef 1.4). Cristo é o lugar da eleição, e não apenas o meio de executá-la. A Escritura o chama de o Escolhido de Deus: “Eis o meu servo, a quem sustenho; o meu escolhido, em quem a minha alma se compraz” (Is 42.1; cf. Lc 9.35). A Igreja é escolhida nele, do mesmo modo como Deus escolheu Abraão e, nele, a sua descendência, e cada pessoa participa dessa escolha quando é unida a Cristo pela fé.

Isso muda a pergunta. Em vez de perguntar “quem foi escolhido?”, o texto nos ensina a perguntar “em quem se é escolhido?”. E o leitor que encontra em Efésios 1 uma seleção prévia de indivíduos, feita à parte de Cristo e à revelia da fé, está trazendo esse mecanismo de fora do texto.

3. A gramática corporativa da eleição

Daí decorre a lógica corporativa da passagem. No Antigo Testamento, Israel é chamado de eleito como povo (Dt 7.6-8), sem que isso garantisse a fidelidade de cada israelita individualmente. Havia quem apostatasse, e a eleição do povo permanecia. Paulo trabalha com essa mesma gramática: a Igreja é o povo eleito em Cristo, e a pessoa entra nessa eleição pela fé, pela incorporação ao corpo.

O propósito declarado também é corporativo. A escolha é “para sermos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” (Ef 1.4) e “para louvor da glória da sua graça” (Ef 1.6). É uma eleição orientada a um fim, à formação de um povo, e não um decreto de destinos individuais fechados.

Uma imagem ajuda a fixar o ponto. Pense na arca de Noé. Deus não escolheu, um a um, quem seria salvo do dilúvio; ele determinou que quem estivesse dentro da arca seria salvo. A arca é Cristo, e a porta está aberta: “quem quiser receba de graça a água da vida” (Ap 22.17). Por isso a pergunta certa não é “fui escolhido em segredo?”. A pergunta certa é: “eu estou no Escolhido?”.

4. O que a predestinação predestina

Falta perguntar ao texto para quê fomos predestinados, e Paulo sempre responde. No versículo 4, para sermos santos e irrepreensíveis. No versículo 5, “em amor nos predestinou para a adoção como filhos, por meio de Jesus Cristo”. No versículo 7, para a redenção e o perdão. No versículo 11, para uma herança. E nos versículos 6, 12 e 14, para louvor da glória de Deus.

Agora note o que não está escrito em nenhum desses lugares. Em nenhum deles Paulo diz que Deus predestinou certas pessoas para crer, à revelia da resposta delas. O que ele fixa de antemão é o destino de todos os que estão no Filho: filiação, herança, santidade, glória. Dito da forma mais simples que consigo: a predestinação não sorteia pessoas; ela garante um destino. O destino predestinado é o conteúdo da salvação, e não a seleção prévia de quem chegaria lá.

E por que Deus faria isso? A resposta de Paulo não é “porque quis, ponto final”, como se estivéssemos diante de um poder sem coração. A resposta está no versículo 5: “em amor”. E o que ele predestinou em amor foi a adoção. Nenhuma criança adotada foi escolhida por mérito, e nenhuma foi escolhida por acaso; ela foi escolhida por amor, e o processo custou caro a quem a adotou. No nosso caso, custou a cruz. O “beneplácito da sua vontade” (Ef 1.5) não é capricho nem frieza: é a boa vontade de um Pai que se agrada em receber filhos.

5. Soberania sem determinismo: o conselho da sua vontade

Preciso tratar do versículo mais citado nessas discussões. Efésios 1.11 diz que fomos “predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade”. Muita gente lê essa frase e conclui que Deus decretou cada acontecimento do universo, inclusive as tragédias e até a incredulidade dos que se perdem.

Nós, arminianos, afirmamos sem hesitação a soberania de Deus no plano da salvação. O que negamos é que essa soberania se exerça por determinismo individual, e o próprio vocabulário do texto nos ajuda aqui. A palavra traduzida por “conselho” é, no grego, boulê, e o modo mais seguro de entendê-la é observar onde mais ela aparece. Lucas escreve que os fariseus e os intérpretes da Lei “rejeitaram o conselho de Deus quanto a si mesmos” (Lc 7.30). É a mesma palavra. Se o conselho de Deus fosse um decreto irresistível, essa frase seria impossível de escrever: como alguém rejeita aquilo que não pode ser rejeitado? E há mais: Paulo afirma ter anunciado aos efésios “todo o conselho de Deus” (At 20.27, aos presbíteros de Éfeso, note-se). Se pôde anunciá-lo, esse conselho é revelado no evangelho, e não um segredo trancado na eternidade.

Portanto, quando Efésios diz que Deus opera todas as coisas conforme o conselho da sua vontade, o texto descreve o modo como Deus age: com sabedoria, com propósito, com fidelidade, e nunca por capricho. Não está dizendo que tudo o que acontece no mundo é aquilo que Deus queria. Deus não é o autor do mal; a Escritura é direta nisso: “Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta” (Tg 1.13), e “Deus é luz, e não há nele treva nenhuma” (1Jo 1.5). O que a Bíblia promete é outra coisa, e é maior: que Deus, sendo maior que o mal, o supera e o redime. Foi o que José disse aos irmãos que o venderam: “vocês planejaram o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem” (Gn 50.20). São duas intenções distintas na mesma história. E é o que Paulo afirma: “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8.28). Cooperar não é causar.

O decreto de Deus é firme, mas convém dizer com precisão o que ele decretou: que a salvação seria em Cristo, pela fé, e que os que estão nele herdariam tudo. O decreto é Cristo como único meio de salvação. Não é a lista dos salvos.

6. A porta de entrada: ouvir, crer, ser selado

Mas então, como é que alguém passa a estar em Cristo? Não é preciso invadir os segredos de Deus para responder, porque Paulo responde no próprio texto: “Nele também vocês, depois que ouviram a palavra da verdade, o evangelho da salvação de vocês, tendo nele também crido, foram selados com o Santo Espírito da promessa” (Ef 1.13). Ouviram. Creram. Foram selados. Nessa ordem.

Repare ainda na transição entre o “nós” dos versículos 11 e 12 (“nós, os que primeiro esperamos em Cristo”, os judeus crentes) e o “vocês” do versículo 13 (os gentios de Éfeso). A inclusão dos efésios na eleição não aconteceu por um mecanismo oculto anterior à sua existência: aconteceu quando ouviram o evangelho e creram, e então receberam o selo do Espírito. Se a eleição individual incondicional fosse o mecanismo do capítulo, essa sequência seria estranha, para dizer o mínimo. No capítulo em que Paulo mais fala de eleição e predestinação, tudo o que ele diz sobre o acesso do indivíduo a essas bênçãos passa por ouvir e crer, e tudo o que ele diz sobre a localização da eleição é “em Cristo”. A Escritura conhece um único instrumento dessa união: a fé (Ef 2.8; Gl 3.26).

7. As objeções calvinistas, examinadas com honestidade

A leitura que apresentei precisa enfrentar as objeções mais fortes do outro lado, e quero fazê-lo reconhecendo a seriedade delas.

Primeira objeção: os mortos não creem. Efésios 2.1-5 descreve o pecador como “morto em delitos e pecados”, e um morto não escolhe crer; logo, a regeneração precisaria preceder a fé, e a eleição teria de ser incondicional. Concordamos plenamente com a premissa: o morto não se levanta sozinho. Ele é levantado pela graça. Respondemos, porém, com a doutrina da graça preveniente: Deus toma a iniciativa e concede ao pecador a capacidade de responder, mas essa graça é resistível (Lc 7.30 é, de novo, o texto decisivo). E note que Paulo, mesmo descrevendo o pecador como morto, continua dirigindo-lhe imperativos e apelos, anunciando o evangelho com expectativa de resposta: “Desperte, você que dorme, levante-se dentre os mortos, e Cristo o iluminará” (Ef 5.14). O apelo pressupõe que o chamado divino cria a possibilidade da resposta.

Segunda objeção: a eleição corporativa seria um decreto vazio. Se Deus elege um povo sem determinar quem o comporá, dizem, a eleição não elegeria ninguém em particular. Aqui distinguimos presciência de causalidade: Deus conhece perfeitamente quem crerá, mas o conhecimento não é a causa da fé. A eleição do grupo em Cristo é definida e inabalável; a participação individual nele é condicionada à fé. O paralelo de Israel mostra que essa gramática não é invenção arminiana: é a gramática bíblica da eleição.

Terceira objeção: a fé seria dom irresistível de Deus. O texto-chave é Efésios 2.8: “pela graça vocês são salvos, por meio da fé; e isto não vem de vocês, é dom de Deus”. Costuma-se ler que “isto” se refere à fé, que seria então concedida apenas aos eleitos. Mas o pronome está no neutro (touto), enquanto “fé” (pistis) é substantivo feminino no grego; a concordância aponta para o conjunto da salvação como dom, e não especificamente para a fé. Isso não encerra sozinho o debate, mas remove um dos pilares da objeção. A fé não é obra meritória que dispensaria a graça; é a mão vazia que recebe o dom.

8. A leitura de Wesley

John Wesley resumiu a questão de um modo que considero exegeticamente fiel a Efésios 1: o decreto eterno e inalterável de Deus é este, quem crer será salvo, e quem não crer será condenado. O desígnio soberano de Deus é que todo aquele que crer em Cristo seja salvo, e essa vontade não é arbitrária: ela flui da retidão da natureza de Deus, que “não quer que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento” (2Pe 3.9; cf. 1Tm 2.4). A soberania divina, em vez de ameaçar o evangelho, é a garantia dele: ninguém pode revogar a decisão de Deus de salvar, em Cristo, todo aquele que crê.

9. Minha posição

Sou um teólogo de tradição armínio-wesleyana, e entendo que Efésios 1.3-14 ensina uma eleição cristocêntrica e corporativa. Deus não escolheu pessoas para depois colocá-las em Cristo; ele escolheu Cristo, o Eleito por excelência, e determinou soberanamente que todos os que estiverem nele sejam santos, adotados, perdoados e herdeiros, para louvor da glória da sua graça. A predestinação fixa o destino dos que estão no Filho, não a identidade prévia de quem creria. Entra-se nessa eleição pela união com Cristo, e o instrumento dessa união é a fé, suscitada pela graça preveniente, que pode ser recebida ou rejeitada. Reconheço que irmãos calvinistas leem o mesmo texto com outra chave, e que suas objeções merecem resposta séria, não caricatura; mas sustento que a chave deles precisa ser trazida de fora, enquanto a leitura corporativa se apoia no que o próprio capítulo repete onze vezes.

10. Aplicações pastorais

Segurança. A certeza da salvação não depende de descobrir uma lista secreta; depende de uma união real com Cristo, que você pode reconhecer. Você ouviu o evangelho? Você creu? Então você foi selado com o Espírito Santo da promessa, que é o penhor da nossa herança (Ef 1.13-14). A rocha em que a esperança se apoia sustenta, em vez de esmagar.

Humildade. Ninguém entrou por mérito. Se foi graça do começo ao fim, não sobra espaço para nenhum tipo de superioridade espiritual, e sempre que a doutrina da eleição produz orgulho em alguém, ela foi mal compreendida, porque graça, por definição, não deixa ninguém se gabar (Ef 2.8-9).

Missão. Se a eleição acontece dentro de Cristo, e se a porta está aberta, o nosso trabalho não é especular sobre quem está dentro; é convidar gente para entrar. Quem entendeu a eleição corretamente evangeliza mais, e não menos.

Fica, então, uma única pergunta, e eu a deixo com você: você está no Escolhido? Não é preciso invadir os segredos de Deus para responder. Ouça a Palavra. Creia em Cristo. E o selo é seu.

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo” (Ef 1.3).

Bispo José Ildo Swartele de Mello

← Ver todos os estudos de Graça, Fé e Salvação

Portal Estudos do Bispo Ildo