Estudos do Bispo Ildo · Soteriologia

Graça, Fé e Salvação

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Os Termos da Salvação+

Bispo José Ildo Swartele de Melo.

ÍNDICE ANALÍTICO INTRODUÇÃO

1. FÉ EM JESUS, INDEPENDENTE DE ARREPENDIMENTO, SALVA?

1.1. OS ARGUMENTOS DE HODGES 1.2. REFUTANDO OS ARGUMENTOS DE HODGES 1.2.1. REDENÇÃO 1.2.2.JUSTIFICAÇÃO 1.2.3.REGENERAÇÃO 1.2.4. BATISMO

2. PODE ALGUÉM SER CRISTÃO SEM SER DISCÍPULO?

3. SUBMISSÃO AO SENHORIO DE CRISTO É INDISPENSÁVEL PARA A SALVAÇÃO?

CONCLUSÃO.

INTRODUÇÃO Quais são as condições que um homem deve preencher para receber a salvação? Existe uma controvérsia entre aqueles que afirmam ser a salvação um dom gratuito de Deus. A disputa está em que, enquanto, alguns sustentam que a fé seja a única condição para que o homem seja salvo, outros afirmam a necessidade do arrependimento. Os primeiros fazem diferença entre crente e discípulo e não acreditam ser necessário uma submissão ao senhorio de Jesus Cristo para que alguém seja salvo, bastando apenas recebê-lo como Salvador e acusam o outro grupo de estarem pervertendo a graça pura do Evangelho. Já os que enfatizam a necessidade da submissão ao senhorio de Cristo não conseguem enxergar nenhuma distinção entre crente e discípulo e acusam os defensores da "graça livre" de estarem barateando o Evangelho.

Poderia alguém ser salvo sem ter se arrependido, ter fé sem ter obras, ser crente sem ser discípulo, receber Jesus como Salvador, mas não tê-lo como Senhor?

Este trabalho tem como objetivo tratar destas questões, indo um pouco além de MacArthur e Millard, na confrontação dos argumentos de Hodges, pois apresento alguns novos textos que ainda não haviam sido discutidos, bem como o tema do batismo e seu significado, que não poderia ser ignorado.

1. FÉ EM JESUS, INDEPENDENTE DE ARREPENDIMENTO, SALVA?

1.1. OS ARGUMENTOS DE HODGES Hodges, um dos principais defensores da "Graça Livre", afirma que o caminho da salvação é muito simples, conforme as palavras de Jesus em Jo 6.47: "Em verdade, em verdade vos digo: Quem crê, tem a vida eterna." Tão simples que qualquer criança pode entender. E, que, através de versos tão simples como estes, milhões de pessoas tem encontrado a Cristo, através dos séculos. Hodges afirma que os defensores da necessidade de submissão ao senhorio de Cristo para a salvação tem transformado as palavras simples de Jesus num complexo e intrincado plano de salvação, onde as palavras de Jesus, em Jo 7.47, seriam entendidas da seguinte forma: "Em verdade, em verdade vos digo, quem se arrepender, crer, e se submeter totalmente a minha vontade, tem a vida eterna." E que todas estas adições estariam implícitas no termo "crer". Em sua opinião, isto seria um absurdo que estaria contrariando o contexto de todo o Evangelho de João, que tendo como propósito principal evangelizar (Jo 20.30,31), não menciona uma vez sequer a necessidade de arrependimento e submissão ao senhorio de Cristo visando a obtenção da salvação, mas unicamente fé.(1)

Hodges evoca os reformadores Lutero e Calvino e lembra o grande lema da reforma: "sola fide" – "fé somente" e não arependimento e fé como a única condição para a justificação e vida eterna. E é enfático ao afirmar: "fazer do arrependimento uma condição para a salvação eterna é nada menos que regressar ao dogma católico-romano".(2) Cita também, como base bíblica, Rm 4.3 e At. 16.31.

Para ele o arrependimento não tem a ver com salvação, mas sim com comunhão e um relacionamento harmonioso com a vontade de Deus. Citando a parábola do "Filho Pródigo", Hodges destaca que a restauração do filho perdido foi muito mais fácil do que ele imaginava, e que a estória não é uma simples estória sobre salvação, mas sobre como se deu o reencontro e a restauração da comunhão entre um pai e seu filho rebelde, culminando num banquete festivo. E usa o mesmo argumento para entender o texto de Lc 5.31,32, afirmando que o texto diz respeito a um convite a pecadores para se "sentarem a mesa", tendo comunhão com Deus, e que não se trata, necessariamente, de salvação. Neste sentido, arrependimento é também exigido dos cristãos (Ap 3.19-20).

Hodges conclui sua argumentação dizendo que Deus pode usar o arrependimento como um estímulo à fé, como também pode usar a gratidão, o medo, a insatisfação e uma série de outros incentivos. Mas quando se trata de um convite à salvação, suas palavras são claras: "… Aquele que tem sede, venha, e quem quiser receba de graça a água da vida" (Ap 22.17b). "Deus tem apenas um meio de dar esta água." Afirma Hodges, "Ele a dá livremente. Mas Deus tem muitos meios de fazer as pessoas desejarem a água que Ele dá."(3)

1.2. REFUTANDO OS ARGUMENTOS DE HODGES Ao meu ver, Hodges falha ao reduzir a salvação ao aspécto da justificação. Faz questão de não usar o termo regeneração, quando diz: "Fé somente (não arrependimento e fé) é a única condição para obter-se a justificação e a vida eterna"(4. O mesmo ocorre em outros trechos como, por exemplo: "Harmonia – companheirismo – entre uma humanidade pecadora e um deus misericordioso sempre deve ser baseada em arrependimento, assim como a justificação deve sempre basear-se unicamente na fé."(5) Mas não podemos entender a salvação como se ela implicasse apenas em justificação. Para responder a Hodges, seria necessário fazer uma breve explanação da doutrina da salvação, onde trataríamos também do sacramento do batismo. Salvação significa sermos redimidos do poder das trevas e do pecado, justificados da culpa do pecado, regenerados para um novo viver, pois que adotados como filhos de Deus, devemos ser seus imitadores.

1.2.1. REDENÇÃO O pecado separou o homem de Deus e o escravizou. Como afirma Stott: "O pecado não é meramente um ato ou hábito exterior; é uma corrupção profundamente arraigada no íntimo"6. Muitas vezes no Novo Testamento os homens são descritos como escravos (Jo 8.31-34; Rm 6.17, Tt 3.3).

Sempre que os homens por sua própria culpa ou através de algum poder superior ficam submetidos ao controle de outra pessoa, e perdem sua liberdade para implementar a sua vontade e as suas decisões, e quando seus próprios recursos são inadequados para enfrentar aquele outro poder, podem obter de novo a sua liberdade somente mediante a intervenção de um terceiro. No NT, conforme o aspécto encarado, o grupo de palavras gr. associado com lyo, sozo, rhyomai, é é empregado para expressar semelhante intervenção. lyo, "soltar" (42 vezes no NT), é usado para expressar a libertação das cadeias ou mediante o pagamento de um resgate (lytron), mas tem outras matizes de sentido que também se discutem aqui. sozo (106 vezes no NT) é o termo mais comum e tem a gama mais larga de sentidos. De modo predominante significa "salvar", "preservar" e "libertar". Aquele que menos vezes se emprega é Irhyomai (16 vezes), tem a gama mais estreita de significados, i.é, "salvar", "libertar", e assim, "livrar de um perigo ameaçador ou agudo"… No NT, esses termos se empregam de modo preeminente para a obra redentora de Cristo. 7 Stott define salvação como libertação do pecado.8 E em outra parte ele diz:

O que necessita o homem é de uma transformação radical da natureza, o que o Professor H. M. Gwatkin denominou "uma transformação do ego para o não-ego". O homem não pode operar tal coisa dentro de si mesmo. Novamente dizemos, ele precisa de um salvador… Ele morreu por nossos pecados a fim de terminar com nossa alienação e levar-nos de volta a Deus. Ele ressurgiu e enviou o Espírito Santo a fim de que os homens possam nascer de novo, recebendo uma nova natureza e sendo libertos da escravidão de seus pecados.(9)

Embora a redenção também tenha uma dimensão futura, pois a sua plenitude só virá quando da Segunda Vinda de Cristo: "…mas também nós que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo" (Rm 8.23), não podemos nos esquecer dos seus poderosos efeitos no presente, que são registrados no início deste mesmo capítulo: "Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida em Cristo Jesus te livrou da lei do pecado e da morte" (8.1-2). E as implicações desta redenção são santidade e inclinação para as coisas do Espírito Santo (v.4-8). Não fomos redimidos para vivermos "segundo a carne": "Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se pelo Espírito mortificardes os feitos do corpo, certamente vivereis." Paulo afirma que a nossa justificação é mediante a redenção que há em Cristo Jesus (Rm 3.24). Não há como separar estes aspéctos da Salvação. Paulo é enfático ao declarar que nossa redenção é libertação do pecado: "Mas graças a Deus porque, outrora escravos do pecado, contudo viestes a obedecer de coração à forma de doutrina a que fostes entregues; e, uma vez libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça". O apóstolo nos exorta a vida de santidade, no tempo presente, como resultado de nossa redenção, visando a vida eterna: "Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação, e por fim a vida eterna" (6.22). "Como viveremos no pecado, nós os que para ele morremos?" (6.1). Para Paulo, quem "morreu" para o pecado é que está justificado dele (6.7). "Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e, sim, da graça" (6.14).

Concluo este ponto afirmando que Hodges falha em não atentar para esta "tão grande salvação" e suas implicações éticas. Falha em não perceber a interrelação e interdependência dos diversos aspectos da nossa salvação, nesse caso, em particular, da justificação e redenção. Começamos a perceber a necessidade de abandono do pecado, ou seja, necessidade de arrependimento. Isto não significa salvação pelas obras. Pois é a bondade de Deus que nos conduz ao arrependimento (2 Pe 3.9) e é "Ele quem opera em nós tanto o querer como o efetuar, segundo a Sua boa vontade" (Fl 2.14). Arrependimento e fé são a resposta do homem em relação ao dom gratuito da salvação de Deus. Se o fato do homem necessitar se arrepender, for considerado uma "obra", então a necessidade do homem de exercer fé, teria que ser considerada, igualmente, como tal.

1.2.2. JUSTIFICAÇÃO Podemos definir a justificação como o ato sermos perdoados e recebidos pelo favor de Deus. "Ao que não trabalha, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada para justiça" (Rm 4.5). John Wesley define a justificação da seguinte forma:

A clara noção bíblica de justificação é o perdão de pecados. É o ato de deus Pai, pelo qual, em atenção à propiciação feita pelo sangue de seu Filho, "mostra sua justiça (ou misericórdia), pela remissão dos pecados passados"… "Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades são perdoadas e cujos pecados são cobertos: bem-aventurado é o homem a quem o Senhor não imputará pecado". Ao que é justificado ou perdoado, "Deus não imputará pecado" que acarrete sua condenação. Deus não o condenará por aquela razão, nem neste mundo, nem no mundo vindouro. Seus pecados, todos os seus pecados anteriores, – por pensamentos, palavras e obras, – são cobertos, são cancelados, não serão lembrados nem arguidos contra ele… (10)

Não somos justificados através das obras da lei (Rm 3.20). A Justificação é por meio da fé (Rm 3.25; 5.1; Ef. 2.8-9). Isto não coloca de fora a necessidade de arrependimento e obediência, pois existe uma íntima relação entre os termos os verbos peitho (obedecer) e pistheo (crer). Além da estreita relação etimológica, são usados por Paulo, de tal maneira, que fica evidente que obediência é a consequência natural da fé: "… para a obediência por fé…" (Rm 1.5; 16.26). Muitas vezes obediência é usada como sinônimo de fé (Rm 6.17; Jo 3.36; At 6.7; Hb 5.9; 11.8). Paulo não concebe que alguém possa ter fé sem obediência: "No tocante a Deus professam conhecê-lo, entretanto o negam por suas obras, por isso que são abomináveis, desobedientes e reprovados para toda boa obra." (Tt 1.16).(11)

Paulo deixa claro em outra passagem a necessidade de arrependimento para a salvação: "Portanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos no presente século, sensata, justa e piedosamente" (Tt 2.11-12). O que tem valor para Cristo é "a fé que atua pelo amor" (Gl 5.6) e não uma fé estéril. Repare que Paulo está falando a respeito da "justiça que provém fé" (Gl 5.5). A fé que justifica é a fé que opera pelo amor.

Hodges defende que arrependimento é importante para a comunhão do homem com Deus, mas que não é necessário para a justificação. No capítulo 5 da Epístola de Paulo aos Romanos, Paulo relaciona intimamente os termos justificados e reconciliados (v.9,10). Não vejo como possa haver reconciliação sem arrependimento!

Hodges diz ser possível alguém ser justificado sem demonstrar nenhuma evidência de sua experiência com Deus, ou seja sem frutificar. Isto não parece concordar com o ensino paulino de que "… o amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado" (Rm 5.8). Paulo está tão certo disto que exorta aos Coríntios que façam um auto-exame para verificarem se realmente estão na fé (2 Co 13.5). Jesus disse: "Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos?" (Mt 7.16). Fico pensando… "qual seria a resposta de Hodges à esta pergunta?" Em Jo 15, Jesus ensina que quem não der fruto será cortado da Videira, lançado fora e queimado.

Alguns estão pregando Cristo sem a cruz, o evangelho sem nenhum conseqüente requerimento, o perdão sem ao menos mencionar o arrependimento. Wesley alertou para o perigo do antinomianismo que induz as pessoas à um relaxamento moral.(12) Para ele, "fé penitente" continua sendo a única condição para que uma pessoa seja justificada, lembrando as palavras do Apóstolo Tiago: "Fé, se não tiver obras, por si só está morta" (Tg 2.17). Para Wesley, não há nenhum conflito entre Paulo e Tiago, pois enquanto Paulo fala daquela justificação que se deu com Abraão, quando ele tinha setenta e cinco anos, mais de vinte anos antes do nascimento de Isac (Rm 4.3), já Tiago se refere a justificação de Abraão no incidente da oferta de Isac (Tg 2.21). Enquanto Paulo trata da questão das obras que precedem a fé, Tiago discute a questão das obras em consequência da fé. Para Wesley nenhuma boa obra pode salvar independente da fé, mas toda genuína fé frutificará em boas obras (Ef. 2.8-10).(13)

1.2.3. REGENERAÇÃO A regeneração, ou novo nascimento, é aquele aspecto da salvação onde o ser humano, através da poderosa ação do Espírito Santo de Deus, experimenta um renascimento interior. Jesus disse: "… se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus… Quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus" (Jo 3.3,5). A Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã traz a seguinte definição:

A Bíblia concebe a salvação como a renovação redentora do homem, com base em um relacionamento restaurado com Deus em Cristo, e apresenta-a como algo que envolve "uma transformação radical e completa operada na alma (Rm 12.2; Ef 4.23) por Deus, o Espírito Santo (Tt 3.5; Ef 4.24), em virtude da qual nos tornamos 'novos homens' (Ef 4.24; Cl 3.10), já não conformamos com este mundo (Rm 12.2; Ef 4.22; Cl 3.9), mas no conhecimento e na santidade da verdade, criados segundo a imagem de Deus (Ef 4.24; Cl 3.10; Rm 12.2)" (B.B. Warfield: Biblical and Theological Studies – "Estudos Bíblicos e Teológicos", p. 351). A regeneração é o "nascimento" mediante o qual essa obra da nova criação é iniciada, assim como a santificação é o "crescimento" por meio do qual ela continua ( 1Pe 2.2; 2 Pe 3.18).(14)

Com a conhecidíssima passagem de 2 Co 5.17: "E assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura: as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas", Paulo demonstra as implicações do "estar em Cristo", ou seja, os desdobramentos da "reconciliação" (2 Co 5.17-21). Em outras palavras, todo aquele que foi justificado, foi também reconciliado, quem foi reconciliado "está em Cristo, é nova criatura", ou seja, foi também regenerado. Portanto, "nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus" (Rm 8.1), pois foram justificados; "Porque a lei do Espírito da vida em Cristo Jesus te livrou da lei do pecado e da morte", foram redimidos; "e uma vez libertos do pecado, foram feitos servos da justiça" (Rm 6.18), "Portanto os que estão na carne não podem agradar a Deus. Vós porém não estais na carne, mas no Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vós. E se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele." "Estar no Espírito" é o mesmo que "estar em Cristo". E aquele que "está em Cristo" é nascido do Espírito Santo de Deus, é uma nova criatura. Porque são novas criaturas "não andam segundo a carne" (Rm 8.4, 12), "as coisas velhas já passaram" (2 Co 5.17), "mas segundo o Espírito" (Rm 8.4, 5, 9, 13), "eis que tudo se fez novo" (2 Co 5.17). Todos estes aspéctos de nossa redenção estão interligados e são interdependentes. Um outro aspécto da salvação, que também está presente no capítulo oito de Romanos15 é o da "adoção": "Porque não recebestes o espírito de escravidão para viverdes outra vez atemorizados, mas recebestes o Espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai. O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus." Todos estes cinco aspectos da nossa "Tão Grande Salvação", Reconciliação, Redenção, Justificação, Regeneração e Adoção, são inseparáveis, ninguém pode ter um sem os outros, e se dão todos no instante da conversão, pela graça de Deus. Portanto "se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte, mas se pelo Espírito mortificardes os feitos do corpo, certamente vivereis" (8.13). Quem foi justificado também foi redimido e regenerado para andar em novidade de vida, foi reconciliado como Deus e precisa saber que "o pendor da carne é inimizade contra Deus" (8.7) e que "o pendor da carne dá para a morte", por fim, precisa saber que fomos "predestinados para sermos conformes à imagem de Seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos" (8.29). Por esta razão é possível o cristão fazer uma auto-análise para verificar se está na fé (2 Co 13.5), pois existem claras evidências, como por exemplo: "Nós sabemos que já passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos; aquele que não ama permanece na morte." (1 Jo 3.14). Paulo ensinou que quando somos justificados (Rm 5.1), o amor de Deus é derramado no nosso coração pelo Espírito Santo que nos é outorgado no momento da justificação (5.8), e é por isto que João pode afirmar categoricamente: "Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor." O amor é o que nós poderíamos chamar de fruto digno do arrependimento (Mt 3.8). "Não há árvore boa que dê mau fruto" (Lc 6.43). O apóstolo Paulo adverte com veemência: "… Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus. Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados, em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito de nosso Deus" (1 Co 6.9; cf. Ef. 5.5; Ap 22.15). É preciso estar arrependido do pecado e renegar a impiedade e as paixões mundanas (Tt 2.12), pois o nosso Salvador deu-se a Si mesmo por nós para "remir-nos de toda iniqüidade e purificar para si mesmo um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras" (Tt 2.14; cf. Ef 1.4; 5.25-27). John Stott fala sobre a necessidade de Arrependimento:

É necessário, portanto, que verdadeiramente nos arrependamos, voltando as nossas costas com toda a resolução para toda e qualquer coisa que sabermos ser desagradável a ele. Não quero dizer com isso que devemos procurar melhorar em todos os sentidos antes que O convidemos a entrar. Pelo contrário, é justamente porque não podemos nos perdoar a nós mesmos ou melhorarmos nossa própria vida, que precisamos que Ele venha a nós. Entretanto, é necessário que estejamos desejosos que ele faça todo e qualquer arranjo que desejar quando Ele houver entrado. Não pode haver resistência alguma. É mister que nos entreguemos de modo absoluto e incondicional à soberania de Jesus Cristo. Não podemos estabelecer os nossos próprios termos. Que é que isso envolverá? Não posso dizer-lhe em detalhe o que seria. Em princípio, significa uma determinação para renunciar ao pecado e seguir a Cristo.(16)

Aproveitei neste bloco para falar sobre os demais aspéctos da salvação, não achando necessário tratar de cada tópico isoladamente. Passo agora ao estudo do significado e propósito do batismo.

1.2.4. BATISMO O batismo não era uma novidade nos tempos do Novo Testamento. Vários povos tinham suas purificações religiosas. Berkhof diz que estes rituais pagãos tinham muito pouco em comum com o nosso batismo cristão, mesmo em sua forma externa.(17) Entre os judeus, o chamado batismo dos prosélitos tinha maior semelhança com o batismo cristão. Os gentios para serem aceitos na religião judaica precisavam ser circuncidados e, na época de Jesus, necessitavam também serem batizados. Berkhof comenta:

Contudo, parece que esse batismo também era uma espécie de lavamento cerimonial, um tanto semelhante a outras purificações. Às vezes se diz que o batismo de João foi derivado deste batismo de prosélitos, mas é mais que evidente que não foi este o caso. Seja qual for a relação histórica que possa ter existido entre os dois, é evidente que o batismo de João estava prenhe de significações novas e mais espirituais… acima de tudo, a diferença esta nisso — que o batismo de João nunca poderia ser considerado uma simples cerimônia; todo ele fremia sempre de significação ética. Uma purificação do coração, do pecado, era não somente uma condição preliminar, mas seu constante objetivo e propósito. (18)

Qual seria a relação entre o batismo de João e o de Jesus? O Próprio João chamou à atenção para algumas diferenças: "Eu vos batizo com água para arrependimento; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, cujas sandálias não sou digno de levar. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo" (Mt 3.11). Isto nos faz lembrar de uma das frases que Jesus disse a Nicodemus: "… Quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus" (Jo 3.5). O elemento distintivo do batismo cristão é a "Promessa do Pai" (At 2.39), é o dom do Espírito Santo que regenera o homem (Tt 3.5), capacitando-o a viver a vida cristã e a ser testemunha de Cristo (At 1.8). A vida cristã é uma vida gerada pelo Espírito para ser vivida no poder deste mesmo Espírito: "Se vivemos pelo Espírito, andemos também no Espírito". É pelo Espírito Santo que somos habilitados a reconhecer e confessar que Jesus é Senhor (1 Co 12.1), e é também nele que os cristão são batizados no corpo de Cristo (1 Co 12.13). "Se alguém não tem o Espírito de Cristo, este tal não é dEle" (Rm 8.9). É o Espírito Santo que testifica como o nosso espírito que somos filhos de Deus (Rm 8.16; Gl 4.5-6). Para o Apóstolo Paulo, as expressões "estar em Cristo" e "estar no Espírito" são sinônimas (Rm 8.1,9,10), e também não vê nenhum problema em denominar o Espírito Santo de "Espírito de Deus" e de "Espírito de Cristo", isto no mesmo versículo (Rm 8.9). Sua concepção da trindade é bem desenvolvida. Não se pode separar Cristo do Espírito Santo. Quem recebe a Jesus, recebe o Espírito Santo, bem como o Pai. O batismo cristão é feito "em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" (Mt 28.19). A Bíblia ensina que os cristão são templos do Espírito Santo (6.19). Jesus disse que os cristãos não ficariam órfãos (Jo 14.18), Ele disse que estaria sempre conosco até a consumação dos séculos (Mt 28.20). Jesus afirmou que o Pai e Ele viriam e fariam morada nos cristãos (Jo 14.23). Jesus cumpre a Sua promessa enviando o Consolador: "E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre conosco" (Jo 14.16).

O batismo de Cristo é um batismo com o Espírito Santo e com fogo, o que o distinguia do batismo de João. Mas havia muitas similaridades como observa Berkhof:

O batismo de João, como o batismo cristão (a) foi instituído pelo próprio Deus, Mt 21.25; Jo 1.33; (b) estava relacionado com uma radical mudança de vida, Lc 1.1-17; Jo 1.20-30; (c) estava numa relação sacramental com o perdão dos pecados, Mt 3.7, 8; Mc 1.4; Lc 3.3 (comp. At. At 2.28) e (d) empregava o mesmo elemento material, qual seja, água. (19)

Qual seria o significado básico do Batismo? Bromiley diz que um indício do significado do batismo é oferecido por três figuras no AT:

O dilúvio (1 Pe 3.19-20), o Mar Vermelho (1Co 10.1-2) e a circuncisão (Cl 2.11-12). Todas estas figuras referem-se de modos diferentes à aliança divina, ao seu cumprimento provisório num ato divino de julgamento e de graça, e ao cumprimento vindouro e definitivo no batismo da cruz. A ligação entre água e a morte e a redenção é especialmente apropriada no caso das duas primeiras figuras; o aspécto de aliança é mais especificamente enfatizado na terceira. 20 Paulo diz que o batismo significa identificação com a morte e ressurreição de Cristo: "Fomos, pois, sepultados com Ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida" (Rm 6.4). Paulo não deixa dúvidas a respeito das implicações éticas deste significado: "Sabendo isto, que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos; porquanto quem morreu, justificado está do pecado… considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus. Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas paixões" (Rm 6.6,7,11,12).

Desta forma, não é de se estranhar que um dos pré-requesitos ao batismo seja o arrependimento: "… Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vosso pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo". O Batismo de João envolvia arrependimento e a diferença dele em relação ao de Cristo residia no dom do Espírito Santo. Pregar que para ingressar na vida cristã basta ter fé, não importando o arrependimento é corromper o ensino das Escrituras e deturpar o próprio significado do ritual de iniciação cristã. Não podemos esquecer que Jesus iniciou seu ministério conclamando as pessoas ao arrependimento (Mt 4.17). O próprio termo conversão implica em arrependimento (Mt 13.15; 18.3; Lc 1.16). Pedro relaciona arrependimento com conversão e os coloca como condição para a justificação: "Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados".

Algumas passagens não mencionam o arrependimento, mas somente a fé como condição para salvação, outras mencionam apenas a necessidade do arrependimento. Hodges considera como normativas apenas as passagens onde a fé aparece como única condição desprezando as passagens que envolvem o arrependimento. Mas na verdade a Bíblia está ensinando que ambos são necessários para a obtenção da salvação. Quando um dos termos da salvação está omitido explicitamente, está embutido implicitamente.

2. PODE ALGUÉM SER CRISTÃO SEM SER DISCÍPULO?

Hodges afirma haver uma nítida distinção entre ser salvo e ser discípulo, concluindo que para ser salvo não é necessário ser discípulo. Carson percebe e comenta sobre o engano de Hodges:

"Mais difícil de ser isolada – e por esta razão mais perigosa – é a disjunção pressuposta e não expressa. Considere por exemplo a seguinte passagem de Zane C. Hodges:

É um erro interpretativo de primeira grandeza confundir os termos do discipulado com a oferta de vida eterna como um dom gratuito." …e quem quiser receba de graça a água da vida"(Ap 22.17) é claramente um benefício incondicional. A passagem: "Se alguém vem a mim, e não… não pode ser meu discípulo" sem dúvida expressa uma relação totalmente condicional. Deixar de reconhecer esta simples distinção é provocar confusão e erros no nível mais fundamental.

De fato, não só neste parágrafo, mas também ao longo de todo o livro, Hodges pressupõe que há uma disjunção entre graça e exigência. ele nunca debate a possibilidade (a meu ver, a certeza absoluta) de que, em questões espirituais, graça e exigência não apresentam necessariamente incompatibilidade mútua: tudo depende de sua relações, propósitos, funções. O resultado dessa disjunção implícita no argumento de Hodges não é só o que em minha opinião é uma tese falsa – que a Bíblia ensina que uma pessoa pode ser eternamente salva mesmo sem qualquer vestígio de evidência disso em sua vida – mas também uma série de avaliações exegéticas e históricas extremamente problemáticas.(21)

Na Grande Comissão, registrada em Mt 28.18-20, Jesus nos dá a missão de fazermos discípulos de todas as nações. A pregação do Evangelho é um convite para ser discípulo de Jesus. O jovem rico queria saber o que precisava fazer para herdar a vida eterna (Mc 10.17), Jesus respondeu: "Só uma coisa te falta: Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; então vem e segue-me" (Mc 10.21). Repare que a questão não é o que preciso fazer para ser discípulo, mas o que o rapaz precisaria fazer para herdar a vida eterna. Mesmo sendo esta a questão, a resposta de Jesus é uma apresentação do preço do discipulado, exige renúncia e também é um chamado para seguir. Jesus não parece fazer diferença alguma entre salvação e discipulado. Se as exigências do discipulado não se aplicassem a salvação, por que é que Jesus diria ser tão difícil para os ricos a entrada no Reino dos Céus? (Mc 10.23). Se fosse apenas uma questão de crer, que não implicasse arrependimento e renúncia, aquele jovem não teria se retirado triste. O Novo Testamento não parece fazer distinção entre crentes e discípulos (At 5.14 comp. 6.1, 7; ver também: 9.1, 10, 25-26, 38: 11.26, 19; 13.52; 14.20,22, 28; 15.10; 16.1, 18.23. "Nestas passagens, mathetes tem o sentido geral de 'cristão', alguém que crê em Jesus"22).

Em Mt 7.13-14, Jesus estabelece um nítido contraste entre a dificuldade do caminho da salvação e a facilidade do caminho da perdição. E, alguns versículos mais a frente, Ele adverte: "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus" (v.21). Aos praticadores da iniqüidade Jesus dirá: "Apartai-vos de mim". Jesus compara aquele que ouve suas palavras mas não as pratica com um homem que construiu sua casa sobre a areia, tendo o seguinte resultado: "e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, e ela desabou, sendo grande a sua ruína" (v.27). Mais no início do Sermão do Monte, Jesus faz outra advertência: "Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus" (5.20). Não podemos ignorar tais palavras que dizem respeito a nossa entrada no reino dos céus. Fé que não produz obras é infrutífera. D. Muller diz que para se entender o discipulado de Jesus é importante reconhecer que a chamada para ser discípulo sempre inclui a chamada ao serviço. 23 3. SUBMISSÃO AO SENHORIO DE CRISTO É INDISPENSÁVEL PARA A SALVAÇÃO?

Paulo é bem claro em afirmar a necessidade de confessar a Jesus como Senhor para ser salvo: "Se com a tua boca confessares a Jesus como Senhor, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo." Confessar a Jesus como Senhor não é apenas mencionar um título, mas é, acima de tudo, o reconhecimento e a conseqüente submissão ao Seu senhorio.

Jesus disse: "Todo aquele que me confessar diante dos homens, também o Filho do homem o confessará diante dos anjos de Deus; mas o que me negar diante dos homens, será negado diante dos anjos de Deus". D. Muller comenta:

Estas palavras expressam toda promessa, e também os grandes perigos, do discipulado genuíno. É crucial a fidelidade do discípulo ao seu Senhor. (24)

Emílio Castro, falando sobre o tema "conversão", menciona uma afirmação do documento "Missão e Evangelização: Uma Afirmação Ecumênica":

A proclamação de (sic) Evangelho inclui um convite para que se reconheça e aceite, por meio de uma decisão pessoal, o senhorio de Cristo.25 Castro, no final do seu artigo, diz algo simples, mas repleto de verdade: "A conversão sempre envolve a pergunta do apóstolo Paulo: 'Senhor, que devo fazer?'"26 E ainda cita outra importante e elucidativa afirmação do documento já mencionado:

A conversão como um processo dinâmico e contínuo "implica um dar meia-volta de e um dar meia volta para. Sempre requer reconciliação, uma nova relação, tanto com Deus como com os demais. Implica um abandono de nossa antiga segurança (Mt 16.24) e um arriscar-se em uma vida de fé." É "conversão" de uma vida caracterizada pelo pecado, pela separação de Deus, pela submissão ao pecado e pelo potencial não realizado da imagem de Deus, para uma nova vida caracterizada pelo perdão dos pecados, pela obediência aos mandamentos de Deus, pela renovada comunhão com Deus na Trindade, o crescimento na restauração da imagem divina e a realização do amor de Cristo…(27)

Não podemos aceitar Jesus como Salvador e olvidá-lo como Senhor. Stott argumenta:

O valor da fé se acha integralmente representado em seu objeto (Jesus Cristo), não nela mesma. Contudo, a fé é um compromisso total de arrependimento e submissão a Cristo. Teria parecido inconcebível aos apóstolos alguém crer em Jesus como Salvador sem submeter-se a ele como Senhor. Não podemos partir Jesus Cristo em pedaços e depois responder somente a um dos pedaços. (28)

MacArthur é enfático quando afirma: "Ele é Senhor, e aqueles que o recusam como Senhor não podem usá-lo como Salvador"(29)

Paulo escrevendo ao cristãos romanos declarou: "nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre para si. Porque se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. Quer pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor. Foi precisamente para esse fim que Cristo morreu e ressurgiu; para ser Senhor, tanto de mortos como de vivos" (14.7-9). Repare que Paulo inicia dizendo "nenhum de nós", indicando sua concepção de que todos os cristãos devem estar submissos ao senhorio de Cristo.

CONCLUSÃO..

Jesus veio para que nós tivéssemos "vida abundante" (Jo 10.10) e não apenas absolvição dos pecados. A salvação que Ele nos proporciona é muito rica em todos os seus aspectos, incluindo justificação, reconciliação, remissão, redenção e adoção, não podemos reduzi-la a um único aspecto. Compreendendo melhor a natureza de nossa salvação, fica mais fácil perceber suas implicações éticas, pois que envolve perdão, libertação do domínio do pecado, recebimento do dom do Espírito Santo que opera uma transformação radical no coração do homem, denominada de novo nascimento, visando conceder a capacidade para experimentar e viver a vida cristã abundante; e somos também feitos filhos de Deus. E a resposta necessária ao Evangelho é a conversão, que implica em arrependimento e fé, que são tanto um dever do homem (At 2.38; 17.30) como também um dom divino (At 11.18; Ef 2.8).

O batismo é a expressão exterior de nossa regeneração interior. Não basta ser nascido da água, é necessário nascer do Espírito de Deus. O batismo fala de nossa identificação com a morte e ressurreição de Cristo, onde morremos para o pecado e ressurgimos para uma nova vida.

O Evangelho é um chamado ao discipulado. Ser e fazer discípulos não é uma opção para o cristão. A porta e o caminho da salvação são estreitos e poucos são os que seguem por eles. Jesus nunca ocultou o preço do discipulado. Para ganhar a vida eterna é preciso renúncia.

Para ser salvo é necessário estar debaixo do senhorio de Cristo, pois não é possível ser insubmisso à Cristo e salvo ao mesmo tempo. A fé genuína redunda em obediência. Se o chamamos de Senhor precisamos fazer o que Ele nos ordena.

______ 1 Hodges, Zane C.

Absolutely Free. Dallas, Texas, Redención Viva. 1989, pp. 25-27.

2 Ibid., (trad.: José Ildo Swartele de Mello), p. 145.

3 ibid., (trad.: José Ildo Swartele de Mello), p. 158.

4 ibid., p. 144.

5 ibid., p. 151.

6 Stott, J. R. W.

Cristianismo Básico – O que Significa Ser um Verdadeiro Cristão. São Paulo – Vida Nova. 1991, p.86.

7 Brown, Colin & Coenen, Lothar.

Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento.

Trad.": Gordon Chown. São Paulo, Vida Nova. 1983. Volume IV, p. 80.

8 Stott, J. R. W.

Cristianismo Básico – O que Significa Ser um Verdadeiro Cristão.

São Paulo – Vida Nova. 1991, p. 94.

9 Ibid., p. 93.

10 Harrison, Wiliam P. (Notas Introdutórias, Esboços e Perguntas).

Sermões – John Wesley". Trad.: Nicodemuos Nunes. S.Bernardo do Campo/SP. Imprensa Metodista. 1985, p. 113.

11 Erickson, Millard J.

Evangelical Mind and Heart (extraído dos argumentos de McArthur) Grand Radpids: Baker Book House, 1993, p. 116.

12 Oden, Thomas C.

John Wesley's Scriptural Christianity – A Plain Exposition of His Teaching on Christian Doctrine.

Michigan. Zondervan Publishing House. 1994, p. 10 13 Ibid., p. 206.

14 Elwell, Walter A. (Editor).

Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã.

Trad.: Gordon Chown. São Paulo, Vida Nova, 1990, Vol. III, p. 256.

15 Fiquei admirado ao descobrir que, em um único capítulo, Paulo aglutinou todos os aspéctos da salvação: Justificação (8.1, 30, 33 e 34); Reconciliação (8.1, 7-11, 31, 35-39); Redenção (8.2, 21-23); Regeneração (8.3-13) e Adoção (8.14-17). O Capítulo ainda fala sobre a Santificação (8.13, 29), Glorificação (8.17, 19-25, 30) e Propiciação (8.32,34). Não conheço nenhum capítulo tão rico em matéria de conteúdo teológico quanto este!

16 Stott, J. R. W.

Cristianismo Básico – O que Significa Ser um Verdadeiro Cristão.

São Paulo – Vida Nova. 1991, p. 151.

17 Berkhof, Louis.

Teologia Sistemática.

Trad.: Odayr Olivetti. Campinas: Luz Para o Caminho Publicações, 1990, p. 627.

18 Ibid., p. 628.

19 Ibid., pp. 628-629.

20 Elwell, Walter A. (Editor).

Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã. Trad.: Gordon Chown. São Paulo, Vida Nova, 1990, Vol. I, p. 149.

21 Carson, D. A.

A Exegese e Sua Falácias – Perigos na Interpretação da Bíblia. Trad.: Valéria Fontana. São Paulo: Vida Nova. 1992, pp. 89, 90.

22 Brown, Colin & Coenen, Lothar.

Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Trad.": Gordon Chown. São Paulo, Vida Nova. 1983, Vol. I, p. 667 25 Steuernagel, Valdir (Editor).

A Serviço do Reino – Um Compêndio sobre a Missão Integral da Igreja. Belo Horizonte: Missão Editor, 1992, p. 273.

26 Ibid., p. 283.

27 Ibid., pp. 282-283.

28 Ibid., pp. 67-68.

29 MacArthur, Gospel According to Jesus, apud Erickson, Millard J. "Evangelical Mind and Heart" (extraído dos argumentos de McArthur) Grand Radpids: Baker Book House, 1993, p.117.

Bispo José Ildo Swartele de Mello Casado com Ana Cristina, pai de três filhos: Samuel, Daniel e Rafael, é também Professor de Teologia, Escatologia e Evangelização na Faculdade Metodista Livre. Formado em Bacharel pela Faculdade Metodista Livre, cursou Mestrado em Teologia na Faculdade Teológica Batista de São Paulo e fez Doutorado em Ministério na Faculdade Teológica Sul Americana. Pastor desde 1986 (Cidade Ademar 86-88; Vila Guiomar 89; Vila Bonilha 90-97, Aeroporto 98-2004), serve atualmente como Pastor da Imel de Mirandópolis, como Bispo da Igreja Metodista Livre do Brasil e como presidente do Concílio Mundial de Bispos.

O NOVO NASCIMENTO – “Importa-vos nascer outra vez”. (João 3.7)+

Sermão 45 de John Wesley, sobre João 3.7 (“Importa-vos nascer outra vez”). Texto de domínio público, em tradução para o português.

1. SE QUAISQUER doutrinas, dentro do círculo do cristianismo, podem ser propriamente chamadas “fundamentais”, estas serão, sem dúvida, duas: a doutrina da justificação e a do novo nascimento: a primeira relacionando-se com a grande obra que Deus faz por nós, perdoando nossos pecados; a última, referindo se à grande! Obra que Deus opera em nós, renovando-nos a natureza decaída. Quanto ao tempo, nenhuma delas tem a primazia: no momento em que somos justificados pela graça de Deus, pela redenção que há em Jesus, somos também “nascidos do Espírito”; mas, em urdem de pensamento, como é de uso expressar-se, a justificação precede ao novo nascimento. Primeiro, concebemos sua ira apartando-se de nós e depois seu Espírito operando em nossos corações.

2. Que importância enorme deve ter então, para todo filho do homem, o compreender profundamente essas doutrinas fundamentais! Partindo de uma perfeita compreensão disto, muitos homens excelentes têm escrito com abundância acerca da justificação, explanando cada ponto relativo a ela e abrindo as Escrituras que tratam do assunto. Muitos têm igualmente escrito sobre o novo nascimento, e alguns deles com bastante largueza; mas ainda não tão claramente como se poderia desejar, nem de modo tão profundo e acurado: apresentam uma obscura, confusa versão do novo nascimento, ou uma versão leve e superficial. Parece, portanto, haver necessidade de uma completa e ao mesmo tempo clara definição do novo nascimento; uma definição que nos habilite a dar satisfatória resposta a estas três perguntas:

Primeiro – Por que precisamos nascer de novo? Qual é o fundamento da doutrina do novo nascimento? Segundo – Como podemos nascer de novo? Qual é a natureza do novo nascimento? E, terceiro – Para que devemos nascer de novo? Para que fim isto é necessário? Estas questões, com a assistência de Deus, pretendo responder breve e claramente, e depois acrescentar umas poucas inferências que naturalmente ocorram.

I. Por que precisamos nascer de novo?

1. Primeiro – Por que precisamos nascer de novo? Qual é o fundamento da doutrina do novo nascimento?

Seu fundamento remonta tão longe e tão profundamente como à criação do mundo. Na descrição bíblica desse evento lemos: “E Deus”, o Deus Trino, “disse: façamos Q homem à nossa imagem e segundo nossa semelhança”. Assim Deus criou o homem à sua própria imagem, à imagem de Deus o criou” (Gn 1.26,27); não meramente à sua imagem natural, um retrato de sua imortalidade; um ser espiritual, dotado de entendimento, liberdade de vontade e vários afetos; não meramente à sua imagem política, o governador deste mundo inferior, tendo “domínio sobre os peixes do mar e sobre toda a terra”; mas principalmente à sua imagem moral que, no dizer do apóstolo, é “justiça e verdadeira santidade” (Ef 4.24). Segundo essa imagem o homem foi feito. “Deus é amor”: conseqüentemente, o homem, ao ser criado, estava cheio de amor, que era o único móvel de todas as suas disposições, pensamentos, palavras e aros. Deus é cheio de justiça, misericórdia e verdade: assim era o homem ao sair das mãos de seu Criador. Deus é imaculada pureza: e assim era o homem no começo, puro de toda mancha pecaminosa; de outro modo Deus não oteria achado, assim como a todas as demais obras de suas mãos, “muito bom” (Gn 1.31). Bom não podia o homem ter sido, se não fosse limpo de pecado e cheio de Justiça e verdadeira santidade. Porque não há meio termo: se supusermos que uma pessoa Inteligente não ame a Deus, não seja justa e santa, necessariamente havemos de supor que essa pessoa não seja boa de modo nenhum, e ainda menos “muito boa”.

2. Mas, embora tivesse sido o homem feito à imagem de Deus, ele não foi feito, todavia, imutável. Isto teria sido inconsistente com o estado de prova em que foi do agrado de Deus colocá-la, Foi criado com capacidade de permanecer de pé, e, no entanto, também sujeito a cair. E isto o próprio Deus lhe deu a conhecer e fez-lhe a tal propósito uma solene advertência. Não obstante, o homem não permaneceu em glória; caiu de sua alta condição. Ele “comeu da árvore a respeito da qual o Senhor lhe havia recomendado, dizendo: tu não comerás dela”. Por esse ato voluntário de desobediência a seu Criador, por essa franca rebelião contra seu Soberano, o homem abertamente declarou que não mais queria que Deus o governasse; que desejava ser governado pela sua própria vontade, ê não pela vontade daquele que o criara; e que não pretendia buscar sua felicidade em Deus, mas no mundo, nas obras de suas mãos. Ora, Deus lhe havia dito antes: “No dia em que comeres” daquele fruto, “certamente morrerás”. E a palavra do Senhor não pode falhar. Conseqüentemente, naquele dia ele morreu: morreu para Deus – a mais tremenda de todas as mortes. Perdeu a vida de Deus: foi separado de Deus – e sua vida espiritual consistia precisamente nessa união. O corpo morre quando se separa da alma; morre a alma quando se separa de Deus. Mas essa separação de Deus Adão a experimentou no dia, na hora em que comeu do fruto proibido. E disso deu, prova imediata, mostrando pela sua conduta que o amor de Deus estava extinto em sua alma, a qual se encontrava agora “afastada da vida de Deus”. Em troca, estava agora sob o temor servil, de modo que fugiu da presença do Senhor. Sim, tão pouco conservou do conhecimento daquele que enche o céu e a terra, que tentou “esconder-se do Senhor Deus em meio das árvores do jardim” (Gn 3.8): destarte havia ele perdida tanto o conhecimento como o amor de Deus, sem os quais a imagem de Deus não podia subsistir. Desta, portanto, foi ele privado ao mesmo tempo e tornou-se ímpio e infeliz. Em lugar da imagem de Deus, revestiu-se de orgulho e obstinação, verdadeira imagem do diabo; e de apetites e desejos sensuais, à semelhança dos brutos que perecem.

3. Se se disser: Mas aquela advertência – No dia em que comeres dela, certamente morrerás, refere-se à morte temporal, e somente a esta, isto é, à morte do corpo” – responder-se-á de pronto: Afirmar isto é franca e palpavelmente tratar a Deus como mentiroso; asseverar que o Deus da verdade positivamente afirmava uma coisa contrária à verdade. Porque é evidente que Adão não morreu naquele sentido, “no dia em que comeu dela”. Adão viveu, no sentido oposto a essa morte, por mais de novecentos anos. Assim, a expressão não pode ser entendida como morte corporal,. sem ofensa à veracidade de Deus. Deve, por tanto, ser entendida como morte espiritual, como a perda da vida e da imagem de Deus.

4. E em Adão todos morreram, toda a espécie humana, todos os filhos dos homens que então estavam nos lombos de Adão. A conseqüência natural disso é que todo descendente seu vem ao mundo espiritualmente morto, morto para Deus, totalmente morto – em pecados; inteiramente vazio da vida de Deus; destituído da imagem de Deus, de toda aquela justiça e santidade com que Adão fora criado. Em lugar disto, todo homem nascido no mundo traz agora a imagem do diabo, no orgulho e na obstinação; a imagem do animal, em apetites e desejos sensuais. Este é, pois, o fundamento do novo nascimento – a completa corrupção de nossa natureza. Daí é quê resulta que, sendo nascidos em pecado, precisamos “nascer de novo”. Daí a necessidade de nascer do Espírito de Deus todo aquele que tenha nascido de mulher.

II. Como pode o homem nascer de novo?

1. Mas, como pode o homem nascer de novo? Qual é a natureza do novo nascimento? Esta é a segunda questão – e questão da mais alta relevância que se possa imaginar. Não devemos, portanto, em tão momentoso assunto, contentarmo-nos com um exame superficial; mas devemos examiná-la com todo o cuidado possível e ponderá-lo em nossos corações, até que plenamente compreendamos este ponto importante e vejamos claramente como podemos nascer outra vez.

2. Não que devamos esperar por alguma explanação minuciosa, filosófica, acerca da maneira por que isso se faz. Nosso Senhor suficientemente nos previne contra semelhante expectativa, através das palavras que imediatamente se seguem ao texto por meio delas lembrando a Nicodemos quão indiscutível é o fato, como qualquer outro que se verifica na marcha da natureza, e que, não obstante sua simplicidade, o homem mais sábio que haja debaixo do sol não é capaz de explicar satisfatoriamente. “O vento sopra onde quer” – não pelo teu poder ou sabedoria, “e ouves sua voz” – estás absolutamente certo, acima de qualquer dúvida, de que ele sopra; “mas não podes dizer de onde vem, nem para onde vai” – o modo preciso por que ele começa e termina, ergue-se e acalma-se, nenhum homem pode dizê-lo. “Assim é todo que é nascido do Espírito”: podes estar tão absolutamente certo do fato, como do soprar do vento; mas o modo preciso por que isso se faz, como o Espírito Santo opera na alma, nem tu, nem o mais sábio dos filhos dos homens, será capaz de explicar.

3. Entretanto, basta a todo propósito racional e cristão que, sem descer a inquéritos curiosos, críticos, possamos dar um esquema claro e bíblico da natureza do novo nascimento. Isto satisfará a todo homem razoável, que somente deseje a salvação de sua alma. A expressão “nascer outra vez” não foi usada pela primeira vez por nosso Senhor em sua conversa com Nicodemos: era bem conhecida antes daquele tempo, e estava em uso comum entre os judeus ao tempo em que nosso Senhor apareceu em meio deles. Quando um pagão adulto se convencia de que a religião dos judeus era do Senhor e desejava unir-se a ela, era costume primeiro batizá-lo, antes que fosseadmitido à circuncisão. E quando era batizado dizia-se ter nascido outra vez oque queria dizer que, o que dantes era filho do diabo, era agora adotado na família de Deus e contado como um de seus filhos. Essa expressão, pois, que Nicodemos, sendo “mestre em Israel”, devia ter bem compreendido, nosso Senhor emprega em conversa com ele; somente a emprega num sentido mais forte do que estava acostumado a ouvi-la. E esta podia ser a razão da pergunta: “Como pode ser isto?” O fato não se pode verificar literalmente: o homem não pode “entrar outra vez no ventre de sua mãe e nascer”; mas o fato pode verificar-se espiritualmente: o homem pode nascer de cima, nascer de Deus, nascer do Espírito, o que tem analogia muito próxima com o nascimento natural.

4. Antes de a criancinha nascer neste mundo, ela tem olhos, mas não vê; tem ouvidos, mas não ouve. Faz uso muito imperfeito de qualquer outro sentido. Não tem conhecimento de qualquer coisa do mundo nem tem qualquer entendimento natural. A forma de existência que ela tem então riem podemos dar o nome de vida. Somente depois de nascido é que podemos dizer que o homem começa a viver. Porque, tão logo nasce, começa a ver a luz e os objetos com que esteja em contacto. Então se lhe abrem os ouvidos e ouve os sons que sucessivamente batem sobre eles. Ao mesmo tempo todos os outros órgãos dos sentidos começam a exercitar-se no campo apropriada a cada um. Ele próprio respira e vive de maneira totalmente diversa da vida que tivera até então. Como o paralelo exatamente se verifica em todos esses exemplos! Enquanto o homem se encontra no estado meramente natural, antes que seja nascido de Deus, possui, em sentido espiritual, olhos, e não vê; um espesso véu impenetrável estásobre eles. Possui ouvidos, mas, não ouve; é profundamente surdo a tudo que mais lhe interessa ouvir. Seus demais sentidos espirituais estão anulados e é o mesmo que se os não tivesse. Daí não ter conhecimento de Deus, nenhum contacto com Ele: o homem natural não se relaciona com Deus de modo nenhum. Não tem verdadeiro conhecimento das coisas de Deus, nem das coisas espirituais ou eternas; por isso, embora seja um homem vivo, é um cristão morto. Logo, porém, que é nascido de Deus há uma total mudança em todos aqueles pormenores. Os “olhos de seu entendimento são abertos” (tal é a linguagem do grande apóstolo); e Aquele que no passado “mandou a luz resplandecer das trevas, brilhando em seu coração, ele vê a luz da glória de Deus”, seu glorioso amor, “na face de Jesus Cristo”. Seus ouvidos sendo abertos, é agora capaz de ouvir a voz interior de Deus, dizendo: “Tem bom ânimo; teus pecados são-te perdoados”; “vai e não peques mais”. Este é o sentido do que Deus fala em seu coração, embora, talvez, não naquelas mesmas palavras. Ele está pronto agora a ouvir seja o que for que seja do agrado “Daquele que ensina ao homem o conhecimento revelar-lhe de tempos em tempos. “Sente em seu coração”, para usar a lin-guagem de nossa igreja, “a poderosa operação do Espírito de Deus”, não num sentido grosseiro, carnal, como os homens do mundo estúpida e teimosamente deturpam a expressão, não obstante tenham sido repisadamente ensinados que queremos dizer, por aquelas palavras, nem mais nem menos do que isto: o homem sente, percebe interiormente, as graças que o Espírito de Deus opera em seu coração. Sente, é cônscio da”paz que excede a toda compreensão”. Muitas vezes experimenta uma alegria em Deus que é “indizível e cheia de glória”. Sente “o amor de Deus derramado em seu coração pelo Espírito Santo que lhe é dado”; e todos os seus sentidos espirituais são então exercitados em discernir o bem e o mal de ordem espiritual. Pelo uso deles, o homem diariamente cresce no conhecimento de Deus, de Jesus Cristo, a quem Ele enviou, e de todas as coisas pertinentes a seu reino interior. E agora pode propriamente dizer que vive: despertado por Deus mediante o Espírito, ele vive para Deus mediante Jesus Cristo. Vive a vida que o mundo não conhece, uma “vida que está: escondida com Cristo em Deus”. Deus está constantemente bafejando, por assim dizer, a alma; e esta se acha respirando para Deus. A graça desce a seu coração e a oração e o louvor sobem ao céu: por este intercâmbio entre Deus e o homem, por esta comunhão com o Pai e o Filho, como por uma espécie de respiração espiritual, a vida de Deus se mantém na alma; e o filho de Deus cresce até chegar à “perfeita medida da estatura de Cristo”.

5. Daí manifestamente ressalta qual seja a natureza do novo nascimento. É aquela grande mudança que Deus opera na alma, quando Ele chama-a para a vida, quando Ele levanta-a da morte do pecado para a vida da justiça. É a mudança operado em toda a alma pelo poderoso Espírito de Deus, quando ela é “criada de novo em Cristo Jesus”, quando é “renovada segundo a imagem de Deus, em justiça e verdadeira santidade”; quando o amor do mundo se muda em amor de Deus, o orgulho em humildade, a impetuosidade em mansidão; o ódio, a inveja, a malícia num sincero, terno e desinteressado amor a toda, a humanidade. O novo nascimento é, numa palavra, aquela mudança pela qual a mente terrena, sensual e diabólica se transforma na “mente que havia em Cristo Jesus”. Esta é a natureza do novo nascimento: “assim é todo aquele que é nascido do Espírito”.

III. Para que devemos nascer de novo?

A quem tenha considerado essas coisas não é difícil perceber a necessidade do novo nascimento e responder à terceira pergunta. Para que fim é necessário nascer de novo? Mui facilmente se compreende que isto é necessário, primeiro, à santidade. Que é santidade, segundo os Oráculos de Deus? Não é uma religião meramente exterior, um amontoado de obrigações externas, qualquer que seja o número delas e qualquer que seja a exatidão com que sejam cumpridas. Não: a santidade evangélica não é menos do que a imagem de Deus impressa sobre o coração; não é outra coisa senão toda a mente que havia em Cristo Jesus; consta de todos os afetos e disposições celestiais fundidos num só. Implica num tal amor, contínuo e agradecido, Aquele que não nos ocultou seu Filho, seu Único Filho, de modo a tornar natural, de maneira imperativa, o amor a todos os filhos dos homens, à medida que nos enche “de coração misericordioso, ternura, doçura e longanimidade”. É um tal amor de Deus que nos ensina a sermos inculpáveis em toda maneira de conversação; que nos habilita a apresentarmos nossas almas e corpos, tudo que somos e tudo quanto temos, todos os nossos pensamentos, palavras e ações, como um contínuo sacrifício a Deus, aceitável através de Cristo Jesus. Ora, esta santidade não pode existir enquanto não formos renovados na imagem de nossa mente. Não pode começar na alma enquanto não for operada aquela mudança; até que, revestidos do poder do Altíssimo, formos tirados “das trevas para a luz, do poder de Satanás para o poder de Deus”, isto é, até que tenhamos nascido de novo; o que é, portanto, absolutamente necessário à santidade.

2. Mas, “sem santidade ninguém verá ao Senhor”, ninguém verá a face de Deus em glória. Em conseqüência, o novo nascimento é absolutamente necessário à eterna salvação. Os homens podem na verdade lisonjear-se (tão desesperadamente mau e tão enganoso é o coração do homem!) na esperança de que possam viver em seus pecados, até chegarem ao último suspiro, e ainda depois viverem com Deus; e milhares realmente crêem que encontraram uma estrada larga que não leva à perdição. “Que perigo”, dizem eles, “pode correr a mulher, com aquele que é tão sem maldade e tão virtuoso?

Que perigo há que homem tão honesto, de tão rigorosa moral, possa perder o céu; especialmente se, sobre e acima de tudo isso, freqüenta a igreja e os sacramentos?” Um desses perguntará com toda a segurança: “Quê! não faço tanto bem como meu próximo?” Sim, tanto bem como teu próximo ímpio; tanto bem como teu próximo que morre em seus pecados! Na verdade, descereis todos ao abismo, ao mais profundo inferno! Todos vos reunireis no lago de fogo; no “lago de fogo que arde com enxofre”. Então, afinal, vereis (conceda-vos Deus que possais vê-la antes!) a falta que faz à glória a santidade, e, conseqüentemente, a falta do novo nascimento, uma vez que ninguém pode ser santo, a não ser que seja nascido de novo.

3. Pela mesma razão, ninguém pode ser feliz, mesmo neste mundo, se não nascer de novo. Porque não é possível, pela própria natureza das coisas, que seja feliz o homem que não é santo. Mesmo o pobre, ímpio poeta, podia dizer-nos:

Nemo malus felix:

“Nenhum mau é feliz.” A razão é clara: todas as inclinações ímpias são inclinações desagradáveis: não só, a malícia, o ódio, a inveja, o ciúme, a vingança, criam um inferno presente na consciência, mas ainda as paixões mais brandas, se não forem mantidas dentro dos devidos limites, darão mil, vezes mais dores do que prazeres. Mesmo a “esperança”, quando “adiada” (e quão freqüentemente deve isto acontecer!) – “torna o coração enfermo”; e todo desejo que não seja conforme à vontade de Deus, pode “traspassar-nos de muitas dores”. Todas aquelas fontes gerais de pecado – o orgulho, a obstinação e a idolatria – são, à medida que predominam, fontes gerais de miséria. Portanto, enquanto elas reinarem na alma, nesta não terá lugar a felicidade. Mas esses males devem dominar, até que as tendências de nossa natureza sejam mudadas, isto é, até que tenham nascido de novo; conseqüentemente, o novo nascimento é absolutamente necessário não só à felicidade neste mundo, como à felicidade no mundo vindouro.

IV. Inferências

Propus-me aduzir, em último lugar, umas poucas inferências, que naturalmente decorrem das precedentes observações.

1. E, primeiro, observe-se que o batismo não é o novo nascimento: eles não são uma e a mesma coisa. Muitos, em verdade, parece imaginarem que são justamente a mesma coisa; pelo menos falam como se pensassem assim; mas não me consta que essa opinião seja abertamente sustentada por qualquer denominação cristã. Certamente que não o é por nenhuma dentro destes reinos, seja da igreja estabelecida ou dos dissidentes desta. A opinião dos últimos vem claramente exposta em seu Catecismo Maior: “P. Quais são as partes de um sacramento? R. As partes de um sacramento são duas: uma consiste no sinal externo e sensível; a outra na graça interior e espiritual, por aquele sinal simbolizada. – P. Que é o batismo? R. O batismo é um sacramento, no qual Cristo ordenou a lavagem com água como sinal e selo da regeneração por seu Espírito.” Ai é manifesto que o batismo, osinal, é mencionado como ato distinto da regeneração, que é a coisa significada. No catecismo de nossa igreja se declara, igualmente, a opinião desta com a maior clareza: “P. Que queres dizer pela palavra sacramento? R. Quero dizer um sinal exterior e visível de uma graça interior e espiritual. – P. Qual é a parte exterior ou;” forma no batismo? R. A água, com a qual a pessoa é batizada em nome do Pai, Filho e Espírito Santo. – P. Qual é a parte interior, ou a coisa significada? R. A morte ao pecado e o novo nascimento para a justiça.” Nada, portanto, é mais claro do que, segundo a igreja da Inglaterra, não ser o batismo o novo nascimento.

Mas, na realidade, a razão do que se afirma é tão clara e evidente, que não necessita do abono de nenhuma outra autoridade. Porque, que pode haver de mais óbvio, do que ser um a obra exterior e outro a obra interna; que um é visível e o outro invisível e, portanto, inteiramente diferentes entre si? – um sendo ato do homem, purificando o corpo; o outro uma mu-dança operada por Deus na alma, de modo que a primeira é tão distinguível da segunda como a alma do corpo ou a água do Espírito Santo.

2. Das reflexões precedentes podemos, em segundo lugar, observar que o novo nascimento não é o mesmo que o batismo, de modo que nem sempre acompanha o batismo: eles não vão necessariamente juntos. Um homem pode possivelmente ser “nascido da água” e contudo não ser “nascido do Espírito”. Pode haver algumas vezes o sinal exterior onde não exista a graça interior. Não falo agora acerca das crianças: é certo que nossa igreja supõe que todos os que são batizados na infância são ao mesmo tempo nascidos de novo: e admite-se que o ritual do batismo de crianças procede daquela suposição. Nem constitui objeção de peso o fato de não podermos compreender como se opera essa obra nas crianças, porque nem podemos compreender como se opera tal obra numa pessoa de idademais madura. Mas, qualquer que seja o caso em referência às crianças, é certo que todos os que são batizados em idade adulta não são ao mesmo tempo nascidos de novo. “A árvore é conhecida por seus frutos.” E destes resulta demasiadamente claro para ser negado que vários dos que eram filhos do diabo antes que fossem batizados, continuaram na mesma condição depois do batismo; “porque fazem as obras de seu pai”: continuam como servos do pecado, sem qualquer pretensão à santidade, seja interior ou exterior.

3. Uma terceira inferência que podemos tirar do que já se observou, é que o novo nascimento não é a mesma coisa que a santificação. Isto é na verdade, tido como certo por muitos; principalmente por um eminente escritor, em seu recente tratado sobre “A Natureza e os Fundamentos da Regeneração Cristã”. Pondo de parte várias outras objeções de peso que se poderiam fazer àquele tratado, esta é palpável: O tratado, através de todas as suas páginas, fala.da regeneração como de uma obra progressiva, realizada na alma a passos vagarosos, a partir da época em que primeiro nos voltamos para Deus. Isto é inegavelmente verdadeiro quanto à santificação, mas não é verdade quanto à regeneração, ao novo nascimento. Esta é uma parte da santificação, não toda ela; é uma porta para ela, uma entrada para ela. Quando nascemos de novo, então nossa santificação, nossa santidade interior e exterior, começa; e daí por diante gradualmente “crescemos naquele que é nosso Cabeça”, Esta expressão do apóstolo admiravelmente ilustra a diferença que há entre uma e outra, e ainda aponta a exata analogia existente entre as coisas naturais eas coisas espirituais. A criança nasce num momento, ou pelo menos em muito curto espaço de tempo: ela depois gradual e vagarosamente cresce, até atingir à estatura de um homem. De modo semelhante um filho nasce de Deus num curto tempo, senão num momento. Mas é por degraus vagarosos que ele depois cresce à medida da perfeita estatura de Cristo. A mesma relação, portanto, que há entre nosso nascimento natural e nosso crescimento, há também entre nosso novo nascimento e nossa santificação.

4. Mais um ponto podemos aprender das observações precedentes, mas é um ponto de tão grande importância, que torna perdoável sua mais cuidadosa e mais extensa consideração. Que deve alguém que ama as almas e sente-se compungido ante o fato de que pereça alguma delas, dizer a quem ele veja quebrando o domingo, ou em embriaguez, ou em qualquer outro pecado voluntário? Que pode ele quiser, se as precedentes observações forem verdadeiras, senão isto: “Deves nascer de novo”? “Não” – diz o homem zeloso – “isto não pode ser; como podes falar assim, descaridosamente, ao homem? Não já foi ele batizado? Não pode agora nascer outra vez!” Não pode ele, nascer outra vez? Afirmas isto? Então ele não pode ser salvo. Embora seja tão velho quanto o era Nicodemos, “se não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”. Portanto, dizendo tu: “Ele não pode nascer de novo”, tu de fato o entregas à perdição. E onde agora está a falta de caridade? De meu lado ou do teu? Eu digo: ele precisa nascer outra vez e tornar-se deste modo herdeiro da salvação. Tu dizes: “Ele não pode nascer de novo”: e, se assim for, deve inevitavelmente perecer! Assim obstruis inteiramente seu caminho rumo à salvação, e o envias ao inferno por simples caridade! Mas talvez o próprio pecador, a quem, por verdadeira caridade, dizemos: “Tens necessidade de nascer de novo”, tenha sido industriado a replicar: “Desafio vossa nova doutrina; não pre-ciso nascer de novo: nasci outra vez quando fui batizado. Pretenderíeis então negar meu batismo?” Respondo, primeiro, que nada há debaixo do céu que possa desculpar a mentira; se assim não fosse: eu diria a um tão ostensivo pecador: “Se foste batizado, não o proclames. Porque, quão profundamente isto te agrava a culpa! Como te aumentará a condenação! Foste dedicado a Deus ao oitavo dia de vida, e passaste todos esses anos a dedicar-te ao diabo? Foste, antes mesmo que tivesses uso da razão, consagrado a Deus o Pai, o Filho e o Espírito Santo – e desde que alcançaste o uso da razão fugiste da face de Deus e te consagraste a Satanás? A abominação da desolação – o amor do mundo, o orgulho, a ira, a cobiça, os desejos insensatos e todo o cortejo de afeições vis – não está onde não deveria estar? Entronizaste todas essas coisas malditas naquela alma que uma vez foi templo do Espírito Santo, separada para ser “habitação de Deus através do Espírito Santo”; sim, dada solenemente a Ele? E ajuda te glorias nisto, no fato de teres uma vez pertencido a Deus? Oh! Envergonha-te! Cora-te! Esconde-te no centro da terra! Nunca mais te gabes daquilo que devia encher-te de confusão, que devia envergonhar-te diante de Deus e diante dos homens!” Respondo, em segundo lugar: Tu já negaste teu batismo, e isto da maneira mais completa. Negaste-o mil e mil vezes, e ainda o fazes dia após dia. Porque no ato de teu batismo renunciaste ao diabo e a todas as suas obras. Toda vez, pois, que outra vez dás lugar a ele, toda vez que praticas alguma obra.do diabo, estás negando teu batismo. Deste modo tu o negas através de cada pecado voluntário, de cada ato de impurezas, bebedice ou vingança; de cada palavra obscena ou profana; de cada juramento que saia de teus lábios. Toda vez que profanas o dia do Senhor, negas teu batismo; sim, tu o negas toda vez que fazes a outrem aquilo que não quererias que te fizessem. Respondo, em terceiro lugar: sejas batizado Ou não, “precisas nascer de novo”; de outro modo não é possível que sejas interiormente santo, e sem santidade interna e externa não podes ser feliz, nem neste mundo e menos ainda no mundo vindouro. Dizes:. “Pois não; mas eu não faço mal a ninguém; sou honesto e justo em todo: os meus atos: não praguejo e não tomo o nome do Senhor em vão; não calunio a meu próximo nem vivo em qualquer pecado voluntário!” Se assim é, mui para desejar é que todos os homens cheguem até onde chegaste. Mas deves ir ainda mais longe, ou não serás salvo: ainda “te é necessário nascer de novo”. Acrescentas: “Vou ainda mais longe: porque não somente não faço mal, mas faço todo bem que posso”. Duvido disso: temo que tenhas tido um milhar de oportunidades de fazer o bem e tenhas passado por elas sem as aproveitar, sendo, por esta causa, responsável diante de Deus. Mas, se tens aproveitado todas elas, se realmente tens feito todo o bem que terias possibilidade de fazer a todos os homens, ainda isto de modo algum altera o caso: ainda “te é necessário nascer de novo”. Sem isto coisa alguma fará qualquer benefício à tua pobre alma poluída e pecaminosa. “Não, mas eu constantemente cumpro as ordenanças de Deus: apego-me à minha igreja e ao sacramento.” Boa coisa fazes, mas tudo isso não te livrará do inferno, a não ser que sejas nascido de novo. Ir à igreja duas vezes por dia; ir à mesa do Senhor todas as semanas; fazer sempre muita oração em particular; ouvir sempre sermões muito bons; ler muitoslivros devotos… ainda “te é necessário nascer de novo”. Nenhuma daquelas coisas substituirá o novo nascimento; não, coisa alguma há debaixo do céu. Seja, pois, esta tua contínua oração, se já não experimentaste aquela graça interior de Deus: “Senhor, adiciona esta a todas as tuas bênçãos: permite-me nascer de novo! Nega-me tudo quanto for de teu agrado negar-me, mas não me negues isto: permite-me ser nascido de cima! Retira-me o que quer que te pareça bem retirar-me – reputação, fortuna, amigos, saúde – e dá-me somente isto: ser nascido do Espírito, ser contado entre os filhos de Deus! Permite-me nascer, não de semente corruptível, mas incorruptível, pela palavra de Deus, que vive e permanece para sempre; e então deixa-me diariamente crescer na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo!” John Wesley

Batismo Infantil+

“Deixai vir a mim os pequeninos!”

“Quanto a todas as opiniões que não danificam as raízes do cristianismo, nós pensamos e deixamos pensar.” — John Wesley “No essencial, unidade; no não essencial, liberdade; em tudo, caridade.” — Frase tradicional, comumente atribuída a Agostinho; difundida por Rupertus Meldenius (1626).

Por Bispo José Ildo Swartele de Mello Por que privar as crianças do batismo?

O batismo é o sinal da nova aliança da graça, assim como a circuncisão foi o sinal da antiga aliança. Se cremos que as crianças estão incluídas na redenção, faz sentido permitir que sejam batizadas a pedido dos pais ou tutores, que se comprometem a oferecer a elas uma formação cristã adequada. Mais tarde, quando chegarem à idade de compreender sua fé, essas crianças batizadas deverão reafirmar o voto do batismo por elas mesmas.

Vale lembrar que o batismo não é, em primeiro lugar, um sinal do arrependimento e da fé de quem o recebe, mas da aliança e da obra de salvação de Cristo, realizada na Cruz. Essa obra vicária precisa ser anunciada a todos, e o sinal (e selo) do batismo pode ser estendido não apenas àqueles que já responderam positivamente a ela, mas também aos filhos desses crentes, que estão sendo criados num ambiente cristão e aprendendo sobre o que Deus realizou de uma vez por todas em Cristo — algo totalmente suficiente.

O batismo simboliza também a ação regeneradora do Espírito Santo (Tt 3.5). O Espírito é soberano (Jo 3.8) e muitas vezes atua antes mesmo de percebermos, sem depender, necessariamente, de nossa compreensão daquele momento. Afinal, o Espírito convence o mundo do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8) e não despreza a mente dos pequeninos. João Batista, por exemplo, foi movido pelo Espírito ainda no ventre de Isabel, quando ela foi visitada por Maria, grávida de Jesus: “Ao ouvir a saudação de Maria, a criança se agitou no ventre, e Isabel ficou cheia do Espírito Santo” (Lc 1.41).

Jesus ensinou que até mesmo as criancinhas, inclusive as que ainda mamam, podem oferecer um louvor perfeito a Deus: “Ouves o que estes estão dizendo? Respondeu-lhes Jesus: Sim; nunca lestes: Da boca de pequeninos e crianças de peito tiraste perfeito louvor?” (Mt 21.16).

Fundamentos Bíblicos: O Princípio da Inclusão Pactual A base bíblica para o Batismo Infantil reside no princípio da continuidade da Aliança da Graça, que sempre incluiu os filhos na comunidade da fé. O Novo Testamento mantém e aperfeiçoa essa lógica, não a revoga.

O Padrão Pactual: Família e Sinal A história da salvação mostra que Deus lida consistentemente com famílias inteiras, e não apenas com indivíduos isolados, marcando-as com o sinal de Sua aliança:

Circuncisão e Batismo: No Antigo Testamento, a circuncisão (Gn 17.11) foi dada a Abraão como selo da justiça da fé (Rm 4.11) e foi aplicada aos infantes. O batismo cristão é o correspondente desse sinal na Nova Aliança, sendo chamado por Paulo de “circuncisão de Cristo” (Cl 2.11–12), sustentando a lógica de continuidade da pertença ao povo de Deus.

Prefigurações Coletivas: As prefigurações do batismo no AT envolveram o povo em comunidade:

Noé e toda a sua casa foram salvos pela arca (1Pe 3.20-21).

Todo Israel, incluindo crianças, foi “batizado em Moisés” ao passar pelo Mar Vermelho (1Co 10.1–2), um grande ato de redenção que antecipa o batismo.

O sangue foi aspergido sobre todo o povo, incluindo crianças (Hb 9.19) na ratificação da aliança.

Compromisso Familiar: A aliança mosaica convocava adultos e “vossos meninos” a estarem diante de Deus (Dt 29.10–12). O ideal da fé doméstica é expresso na confissão de Josué: “Eu e a minha casa serviremos ao Senhor”(Js 24.15).

O Sinal de Proteção na Páscoa O episódio da Páscoa no Êxodo reforça a importância do sinal da aliança para a proteção familiar. A obediência dos pais em aspergir o sangue do cordeiro nos umbrais das portas garantiu a salvação dos seus primogênitos. Isso demonstra que a fé e a obediência dos pais a um mandamento de Deus inserem os filhos no âmbito da proteção divina, enfatizando que o batismo é um selo da promessa de Deus e não um rito meramente simbólico.

A Inclusão na Nova Aliança A Nova Aliança, sendo superior, não restringe, mas confirma a inclusão dos filhos, dando-lhes o sinal do batismo:

·       Promessa para os Filhos: Pedro declara explicitamente que a promessa do Espírito e da aliança é “para vós e para os vossos filhos” (At 2.38–39).

·       Filhos “Santos”: Paulo ensina que os filhos de pelo menos um dos pais crentes são “santos” (1Co 7.14), ou seja, separados e pertencentes ao povo visível da aliança, e por isso têm direito ao sinal.

·       Batismos de Famílias: O registro de batismos de casas inteiras — Lídia (At 16.15), o carcereiro de Filipos (At 16.32–33), Crispo (At 18.8) e Estéfanas (1Co 1.16) — coaduna-se com o princípio pactual familiar. A salvação, muitas vezes, é declarada à “casa”, como no caso de Zaqueu (Lc 19.9) ou do carcereiro (At 16.31).

·       O Exemplo de Jesus: Jesus não apenas acolhe as crianças, mas as coloca no centro do Seu Reino. Traziam-Lhe “bebês/infantes” (), e Ele os abençoou, afirmando que “dos tais é o Reino de Deus” (Lc 18.15–17). Ele ainda atesta o “perfeito louvor” que sai da boca dos pequeninos (Mt 21.16), e João Batista foi cheio do Espírito Santo ainda no ventre (Lc 1.41), confirmando que a ação regeneradora do Espírito não depende da plena consciência.

·       Bênçãos Pela Fé dos Pais: O Novo Testamento reforça o princípio de que a fé dos pais opera em favor dos filhos, como nos exemplos de curas e ressurreições (filha de Jairo, filho epilético, filho da viúva de Naim, filho do oficial de Cafarnaum).

A misericórdia do Senhor se estende “sobre os filhos dos filhos” (Sl 103.17), estabelecendo um padrão de graça que se manifesta, na Nova Aliança, através do sinal do Batismo.

Testemunho da Igreja antiga Os primeiros testemunhos explícitos de batismo de crianças aparecem no início do séc. III. 1) Tradição Apostólica (c. 215): “as crianças serão batizadas primeiro… as que não puderem responder, que os pais respondam por elas”. 2) Tertuliano (De bapt. 18): reconhece a prática, mas recomenda adiar por cautela pastoral — o que atesta sua existência. 3) Orígenes: a Igreja recebeu dos apóstolos a tradição de batizar também os recém-nascidos (Hom. Lev. 8.3; Com. Rm. 5.9). 4) Cipriano e o Sínodo (253): decide não esperar o 8º dia; batizar o quanto antes. 5) Concílio de Cartago (418): canoneia que os infantes são batizados para remissão dos pecados.

3 4 5 6 7 Nota sobre o modo: a Didaquê (7.1–3) prevê imersão preferencial, e, quando não possível, derramar água três vezes sobre a cabeça em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo — legitimando a efusão/aspersão.

8 Tradição Protestante É importante lembrar que Lutero, Calvino e Zwinglio — os três grandes reformadores — jamais foram rebatizados. Todos foram batizados ainda na infância e rejeitaram firmemente a ideia do rebatismo, considerando-a uma negação da eficácia da graça divina e do caráter único do batismo cristão.

Esses líderes, embora divergentes em diversos pontos teológicos, concordaram quanto à legitimidade e à necessidade do batismo infantil, por o entenderem como sinal da aliança e meio de graça.

Martinho Lutero, em sua Catequese Maior, descreve o batismo como um ato em que Deus age objetivamente, selando sua promessa, independentemente da idade do batizando.

João Calvino, nas Institutas (4.16), fundamenta o batismo infantil no argumento pactual: assim como os filhos eram incluídos na aliança através da circuncisão, devem agora ser incluídos por meio do batismo, o sinal da nova aliança.

Ulrico Zwinglio também reconheceu o batismo de crianças como sinal de pertencimento ao povo de Deus, em continuidade com a fé do Antigo Testamento.

Essa mesma compreensão foi herdada pelas principais confissões da Reforma:

O Catecismo de Heidelberg (Pergunta 74) declara que as crianças “devem ser batizadas, porque pertencem à aliança e ao povo de Deus”.

Os 39 Artigos da Religião da Igreja Anglicana (Artigo 27) afirmam que “o batismo de crianças deve ser de todo retido na Igreja, como inteiramente conforme à instituição de Cristo”.

John Wesley, seguindo essa tradição reformada e católica antiga, considerava o batismo um sacramento iniciatório e meio de graça, pelo qual a criança é recebida na comunidade da fé e colocada sob a influência santificadora do Espírito Santo.

Assim, tanto os reformadores do século XVI quanto os movimentos posteriores — luteranos, reformados, anglicanos e metodistas — mantiveram o batismo infantil como prática legítima e bíblica, rejeitando qualquer rebatismo como desnecessário e contrário ao princípio de “um só batismo” (Ef 4.5).

9 10 11 12 Respostas às objeções “Mas não há mandamento explícito para batizar bebês.”

De fato, não há um mandamento direto dizendo: “batizai também os vossos filhos pequenos.” No entanto, também não há mandamento para excluí-los da Igreja visível — e isso, sim, representaria uma ruptura drástica com o Antigo Testamento, no qual os filhos dos crentes sempre fizeram parte do povo de Deus e recebiam o sinal da aliança (Gn 17.7–12).

O Novo Testamento nunca revoga esse princípio de inclusão; pelo contrário, o reafirma claramente: “A promessa é para vós e para vossos filhos” (At 2.39). A ausência de uma nova proibição não indica exclusão, mas continuidade da economia da graça. A Igreja do Novo Testamento é a mesma comunidade da aliança, agora ampliada e aperfeiçoada em Cristo.

“Mas o batismo requer arrependimento e fé.”

Textos como Mc 16.16, At 2.38 ou At 8.37 falam da primeira geração de convertidos, ou seja, adultos chamados pela primeira vez à fé cristã. Nesses casos, a conversão naturalmente precede o batismo. Contudo, quando o Evangelho alcança famílias inteiras, o padrão bíblico mostra casa e fé unidas (At 16.15, 33; 1Co 1.16), sem qualquer exclusão explícita das crianças.

A ordem teológica da graça é constante:

1.     A graça de Deus precede (iniciativa divina);

2.     O sinal do batismo marca a pertença à aliança;

3.     A fé responde — no adulto, antes do batismo; na criança, depois, no contexto do discipulado e da educação cristã.

Essa lógica expressa a visão pactual: o batismo é sinal da entrada na aliança, assim como a circuncisão foi no antigo pacto (Cl 2.11–12). Deus age primeiro, e a resposta humana vem no tempo oportuno.

“Mas Jesus foi batizado adulto, e não bebê.”

É verdade, mas o batismo de Jesus não foi um batismo cristão. Ele foi batizado por João, num rito de arrependimento que antecedeu a cruz e a ressurreição. O batismo cristão, porém, é ministrado “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28.19) e representa a graça da Nova Aliança.

Além disso, o batismo de Jesus teve um propósito singular: inaugurar seu ministério messiânico e identificar-se com os pecadores. Não foi um modelo de idade para o batismo cristão. As crianças, por sua vez, são batizadas não por arrependimento pessoal, mas com base na promessa da graça que as insere no povo de Deus.

“Mas não há exemplo de batismo infantil no Novo Testamento.”

Também não há exemplo de exclusão das crianças. Pelo contrário, há fortes indícios de sua inclusão: expressões como “ele e toda a sua casa” (At 16.15, 33; 1Co 1.16) eram fórmulas familiares na cultura hebraica e greco-romana, abrangendo todos os membros do lar — inclusive filhos e servos.

Se no Antigo Testamento as crianças recebiam o sinal da aliança, seria impensável que uma aliança mais ampla e graciosa as deixasse de fora. A ausência de proibição e a clara continuidade pactual constituem forte evidência de que a prática do batismo infantil remonta aos tempos apostólicos.

Além disso, o testemunho patrístico confirma essa prática:

·       Orígenes afirma que era uma tradição apostólica (Comentário sobre Romanos V.9).

·       Cipriano de Cartago e o Concílio de Cartago (Epístola 64) endossam a prática.

Esse consenso histórico reforça a leitura bíblica da continuidade da aliança.

“Mas uma criança não pode ter fé.”

Nas Escrituras, a fé é antes de tudo um dom da graça (Ef 2.8). Deus pode agir no coração humano antes mesmo da plena consciência. João Batista “alegrou-se no ventre” (Lc 1.41), e Jesus declarou: “das crianças é o Reino de Deus” (Mc 10.14). A fé infantil é potencial, mas real, sustentada pela comunidade de fé que ora, ensina e conduz a criança ao amadurecimento espiritual.

O batismo, portanto, não substitui a conversão pessoal, mas a antecipa como promessa da graça que será confirmada pela fé. Por isso, na tradição reformada e metodista, o batismo infantil é seguido, na juventude, de uma profissão pública de fé, quando o batizado confirma conscientemente as promessas feitas no início de sua caminhada.

Conclusão

As objeções ao batismo infantil geralmente partem da suposição de que o batismo é apenas um testemunho humano de fé. A teologia bíblica, no entanto, revela o contrário: o batismo é primeiramente um ato da graça divina — sinal da aliança de Deus antes de ser resposta humana.

A fé dos pais, a promessa de Deus e a comunhão da Igreja sustentam a criança até o momento em que ela mesma possa confessar conscientemente o Cristo em quem já foi selada. Assim, longe de ser uma inovação, o batismo infantil é expressão da fidelidade de Deus de geração em geração, conforme o padrão pactual revelado nas Escrituras.

Diretrizes pastorais 1) Votos e catequese — Pais/padrinhos prometem discipular: culto no lar (Dt 6.6–7), oração, Escrituras, vida congregacional, classes de catecúmenos.

2) Confirmação — Ao atingir maturidade, o batizado professa publicamente a fé (confirma o “amém” que a Igreja pronunciou).

3) Disciplina e esperança — O batismo não é amuleto. Se houver afastamento, o sinal permanece como testemunho chamando ao retorno.

4) Modo e forma — Imersão, efusão/aspersão são legítimas; a Didaquê já prevê derramar quando necessário. Use água e a fórmula trinitária.

Textos bíblicos-chave Os seguintes textos formam a base doutrinária da compreensão cristã do batismo, especialmente em sua dimensão pactual e graciosa, mostrando tanto o mandato divino quanto o princípio de inclusão dos filhos dos crentes na comunidade da fé.

Mateus 28.19–20

“Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que tenho ordenado a vocês.”

O mandato batismal é universal e missionário. O batismo é o sinal visível da entrada na comunidade discipular, a Igreja. A ordem “batizar e ensinar” mostra que o ensino pode seguir o batismo, o que é plenamente coerente com o batismo infantil, em que a criança é batizada primeiro e instruída depois, dentro do processo contínuo do discipulado.

Atos 2.38–39

“Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos seus pecados, e vocês receberão o dom do Espírito Santo. Porque a promessa é para vocês e para os seus filhos…”

Pedro declara que o batismo é o sinal da promessa da aliança, e essa promessa é explicitamente para os crentes e seus filhos. Assim como os filhos de Abraão recebiam o sinal da aliança no Antigo Testamento, os filhos dos crentes no Novo Testamento também estão sob as promessas de Deus. A aliança não se estreita com Cristo — ela se amplia.

1 Coríntios 7.14

“Porque o marido descrente é santificado pela mulher crente, e a mulher descrente é santificada pelo marido crente; de outra sorte, os vossos filhos seriam impuros, mas agora são santos.”

Paulo afirma que os filhos dos crentes são santos, isto é, separados para Deus e pertencentes à comunidade da aliança. Sendo santos, devem receber o sinal da santidade — o batismo — assim como os filhos de Israel recebiam a circuncisão. O apóstolo reforça aqui o princípio pactual de que a fé dos pais consagra a casa inteira (cf. Js 24.15).

Colossenses 2.11–12

“Nele também vocês foram circuncidados, não por intermédio de mãos, mas no despojar do corpo da carne, que é a circuncisão de Cristo, tendo sido sepultados juntamente com ele no batismo…”

Calvino observou com acerto que este texto é decisivo para compreender o batismo infantil. O apóstolo liga circuncisão e batismo como sinais equivalentes de uma mesma graça pactual. A circuncisão, aplicada aos filhos dos crentes no antigo pacto, é substituída pelo batismo, sinal da nova aliança. Negar o batismo às crianças dos crentes seria romper a continuidade da aliança que Deus mesmo estabeleceu.

Tito 3.5

“Ele nos salvou, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo a sua misericórdia, mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo.”

O batismo é aqui descrito como lavar regenerador, expressão da graça preveniente que age antes de qualquer mérito humano. A salvação é dom de Deus, e o batismo é o sinal visível dessa misericórdia. Essa verdade se aplica igualmente às crianças, que ainda não podem realizar “obras de justiça”, mas podem ser alcançadas pela graça divina.

Lucas 18.15–17

“Traziam-lhe também as crianças, até os bebês, para que ele as tocasse… Jesus, porém, chamando-as para junto de si, disse: ‘Deixem vir a mim os pequeninos e não os impeçam, porque dos tais é o Reino de Deus.’”

Jesus não apenas acolhe as crianças, mas as coloca no centro da comunidade do Reino. A expressão “até os bebês” (βρέφη) mostra que Ele se refere também aos recém-nascidos. A advertência “não as impeçam” deve ecoar fortemente nas discussões sobre o batismo infantil. Se o Reino pertence a elas, não há razão para negar-lhes o sinal visível da pertença ao Reino.

Lucas 1.15,41 – João Batista cheio do Espírito no ventre “Ele será cheio do Espírito Santo, ainda no ventre de sua mãe… e, quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança saltou no ventre.”

Esse episódio singular demonstra que o Espírito Santo pode agir em uma criança antes mesmo de seu nascimento. João Batista experimentou a presença e a ação do Espírito ainda no ventre materno — um exemplo notável da graça preveniente, pela qual Deus age antes da consciência ou da resposta humana.

Se o Espírito pôde encher João ainda não nascido, não há obstáculo teológico para crer que Deus possa agir também na vida dos pequeninos que recebem o batismo, selando-os com o sinal da promessa. Assim, a regeneração espiritual é obra soberana do Espírito, e o batismo é seu selo visível e comunitário (cf. Ef 2.8; Jo 3.8).

Mateus 21.16

“Da boca de pequeninos e crianças de peito tiraste perfeito louvor.”

Jesus cita o Salmo 8 para afirmar que as crianças têm lugar no culto e que delas procede “perfeito louvor”. Esse reconhecimento divino do louvor infantil reforça a ideia de que as crianças fazem parte do povo adorador e, portanto, devem receber o sinal da aliança.

1 Coríntios 10.1–2

“Porque não quero, irmãos, que vocês ignorem que os nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem e todos passaram pelo mar, e, em Moisés, todos foram batizados na nuvem e no mar.”

Toda a comunidade de Israel — inclusive crianças — foi “batizada em Moisés”, prefigurando o batismo cristão como sinal de identificação com o povo de Deus. Esse batismo coletivo no Êxodo reforça o caráter comunitário e não meramente individual do sacramento.

Deuteronômio 29.10–12

“Todos vocês estão hoje diante do Senhor, seu Deus… para entrar na aliança do Senhor, seu Deus, e no juramento que o Senhor, seu Deus, faz com vocês hoje.”

A aliança mosaica incluía todas as gerações e idades: homens, mulheres, crianças e estrangeiros. Ninguém estava fora da comunhão do povo de Deus. O princípio é o mesmo da nova aliança: Deus estabelece pacto com famílias inteiras, incluindo os filhos.

Josué 24.15

“Eu e a minha casa serviremos ao Senhor.”

A confissão de Josué expressa o ideal da fé doméstica: o chefe da família consagra toda a casa ao serviço de Deus. O batismo de famílias inteiras no Novo Testamento (At 16.15,33; 1Co 1.16) é o prolongamento natural dessa consciência comunitária da fé.

Síntese Esses textos, lidos em conjunto, revelam uma linha teológica clara e contínua:

O batismo é mandato de Cristo e sinal de discipulado (Mt 28.19–20); É sinal da promessa da aliança que alcança também os filhos (At 2.39); As famílias crentes pertencem integralmente à aliança (1Co 7.14; Js 24.15); O batismo substitui a circuncisão como sinal pactual (Cl 2.11–12); É lavar regenerador do Espírito Santo (Tt 3.5); As crianças são acolhidas por Cristo e cheias do Espírito (Lc 1.15,41; 18.15–17); E a aliança de Deus sempre abrangeu o povo inteiro, sem exclusão das crianças (1Co 10.1–2; Dt 29.10–12).

Assim, negar o batismo infantil seria romper o fio de continuidade da aliança divina e restringir a graça que, desde Abraão até Cristo, sempre alcançou as gerações dos que creem.

Conclusão

À luz das Escrituras Sagradas, da continuidade pactual, do acolhimento de Jesus aos pequeninos, da promessa que se estende “a vós e a vossos filhos”, do uso antigo e universal da Igreja e de um caminho pastoral sólido (votos + discipulado + confirmação), o batismo de crianças é bíblico, eclesial e prudente. Ele honra a primazia da graça e convoca a resposta pessoal de fé — não a dispensa.

Anexo — Livro de Disciplina (IMeL)

A disciplina da Igreja Metodista Livre no Brasil acolhe o batismo de crianças, exigindo posterior profissão de fé antes da admissão como membros plenos. A numeração de parágrafos varia por edição; consulte a edição brasileira vigente.

13 Notas Finais (referências)

1. John Wesley, “A Treatise on Baptism” (1756).

2. BDAG, s.v. βρέφος (brephos).

3. Tradição Apostólica de Hipólito, cap. 21 (edições: Alistair Stewart; ou Bradshaw/Johnson/Phillips).

4. Tertuliano, De baptismo, 18 (ANF).

5. Orígenes, Homilias sobre Levítico 8.3; Comentário a Romanos 5.9.

6. Cipriano de Cartago, Epístola 64 (a Fido).

7. Concílio de Cartago (418), Cânon 2 (contra os pelagianos).

8. Didaché 7.1–3, em Michael W. Holmes (ed.), The Apostolic Fathers: Greek Texts and English Translations (Baker).

9. João Calvino, Institutas da Religião Cristã, IV.16.

10. Catecismo de Heidelberg, Pergunta 74.

11. Trinta e Nove Artigos, Artigo 27.

12. John Wesley, “A Treatise on Baptism”.

13. Livro de Disciplina da Igreja Metodista Livre (edição brasileira vigente).

Sugestão sobre como realizar o batismo infantil 1) Acolhida e propósito ⁠Irmãos, o batismo é sinal da graça de Deus e da nossa entrada no povo da nova aliança (Mt 28.19; At 2.39). Cremos que Cristo acolhe as crianças e as coloca no centro do Reino (Mc 10.14–16). Hoje pedimos que esta graça marque a vida de [Nome da criança], enquanto nos comprometemos a discipulá-la para que, a seu tempo, professe pessoalmente a fé em Jesus (Rm 10.9; Ef 6.4).

2) Palavra breve •⁠  ⁠A salvação é pela graça mediante a fé (Ef 2.8–9); o batismo é sinal dessa graça e nos vincula à comunidade de Cristo (Rm 6.3–4).

•⁠  ⁠À família cabe ensinar e modelar a fé no cotidiano (Dt 6.6–7; Ef 6.4).

•⁠  ⁠À igreja, acolher, ensinar e testemunhar (Mt 5.16; At 2.42).

3) Perguntas aos pais/responsáveis 1.⁠ ⁠Vocês recebem de Deus este(a) filh(a) como dádiva e pedem o batismo confiando na graça de Cristo, comprometendo-se a guiá-lo(a) à fé pessoal e à futura profissão de fé? (At 2.39; Rm 10.9)

*Pais: Sim, com a ajuda de Deus.

2.⁠ ⁠Prometem orar por [Nome], ensiná-lo(a) nas Escrituras, no culto doméstico e na comunhão da igreja, conduzindo-o(a) a amar e obedecer a Jesus? (Dt 6.6–7; Ef 6.4)

*Pais: Sim, com a ajuda de Deus.

3.⁠ ⁠Prometem dar bom exemplo de vida cristã — arrependendo-se quando falharem, praticando a justiça, a misericórdia e a fidelidade? (Mt 5.16; Mq 6.8)

*Pais: Sim, com a ajuda de Deus.

4.⁠ ⁠Renunciam ao mal e às obras das trevas e prometem resistir às tentações, confiando na graça que educa para a santidade? (Tt 2.11–12; Tg 4.7)

*Pais: Sim, com a ajuda de Deus.

4) Perguntas aos padrinhos/madrinhas 1.⁠ ⁠Vocês se comprometem a apoiar estes pais na educação cristã de [Nome], orando, acompanhando, aconselhando e sendo referência de discipulado?

Padrinhos: Sim, com a ajuda de Deus.

2.⁠ ⁠Prometem permanecer presentes nos marcos da fé desta criança e encorajá-la à futura confirmação/profissão de fé?

Padrinhos: Sim, com a ajuda de Deus.

5) Voto da igreja (congregação)

⁠Como família de Deus, vocês recebem [Nome] e prometem acolher, orar e cooperar no discipulado desta criança, oferecendo ensino fiel e bom testemunho?

Igreja: Sim, com a ajuda de Deus.

6) Oração de consagração pelos pais, padrinhos e igreja (Pastor(a) ora brevemente pedindo graça, sabedoria e perseverança — Ef 3.16–19.)

7) Oração sobre a água (breve)

⁠Ó Deus da aliança, bendize esta água, para que, ao receber o sinal do batismo, [Nome] seja marcado(a) pela tua graça em Cristo, unido(a) ao teu povo e conduzido(a) ao novo viver do teu Espírito (Rm 6.3–4). Amém.

8) Chamada do nome ⁠Qual é o nome desta criança?

⁠(Pais respondem.)

⁠[Nome], eu te batizo em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. (Aí você aplica a água com as mãos ou fazendo uso de algum recipiente, conforme instruções: fluxo contínuo — enfatizando a unidade — ou três afusões — destacando as Pessoas da Trindade.)

9) Pós-batismo (opcional e breve)

•⁠  ⁠Oração final e apresentação à igreja:

⁠Igreja, este é/esta é [Nome], nosso(a) novo(a) batizado(a). Caminhemos juntos para que ele(a) cresça na graça e no conhecimento do Senhor.

Leia também:

Qual o método correto de Batismo: imersão, aspersão ou efusão?

Curso de Discipulado: Lição 3 – A Graça de Deus+

Lição 3: A Graça de Deus Objetivo da Lição:

Explorar o conceito de graça de Deus, destacando a oferta de salvação a todos, bem como a capacidade de resistir a essa graça, à luz das Escrituras.

Textos bíblicos para cada dia da semana · Segunda-feira: A Condição da Humanidade (Romanos 5.12; 7.14; Efésios 2.1-3; Gálatas 3.22 e 1 João 1.8)

· Terça-feira: A Necessidade da Graça (Efésios 2.8-9, Lucas 19.10)

· Quarta-feira: Necessidade do  Novo Nascimento Espiritual (João 3.1-21)

· Quinta-feira: Ninguém é Justo (Romanos 3.10-23, Daniel 9.18)

· Sexta-feira: O Amor de Deus (Romanos 11, 1 João 4.19)

· Sábado: A Expiação Ilimitada (João 3.16-17, Tito 2.11, Romanos 5.6,18, 2 Coríntios 5.14-15, 1 Timóteo 2.4-6, 4:10, Hebreus 2.9, 1 João 2.2, 4:14)

· Domingo: A Graça Resistível (Jeremias 7.24, Ezequiel 24.13, Mateus 23.37, Lucas 7.30, João 5.34,40, Atos 7.51, Hebreus 6.7-8)

Introdução

Como vimos na lição anterior, a Queda colocou a humanidade sob a condenação do pecado que é a morte, a separação de Deus (Romanos 5.12). O ser humano foi ferido mortalmente e se tornou escravo do pecado, incapaz de se livrar por si mesmo de sua condição de perdição (Romanos 6.16). A natureza humana é pecaminosa desde a queda de Adão e Eva, tornando impossível a salvação com base apenas em boas obras, conduta moral, religiosidade ou cumprimento da lei (Efésios 2.8-9).

Religião não salva. O ser humano não é capaz de alcançar os céus através das boas obras, da religiosidade, da boa conduta moral e do cumprimento satisfatório de toda Lei de Deus. Assim como foi a presunção de construir uma torre que alcançasse o céu em Babel, assim também falham todas as tentativas humanas de alcançar o céu por si mesmos. O movimento da salvação não é de baixo para cima, mas de cima para baixo. Não é antropocêntrico, mas teocêntrico. Não é por obras para que ninguém se glorie. A glória de nossa salvação pertence unicamente a Deus! Jesus ensinou ao líder religioso chamado Nicodemos sobre a necessidade de um novo nascimento espiritual, não baseado em cumprimento da lei ou religiosidade, mas pela fé em Deus (João 3.1-21). Não há ninguém que seja realmente justo a ponto de merecer a salvação (Romanos 3.10-23; Daniel 9.18). Não podemos cativar o amor de Deus. O Apóstolo Paulo questiona: "Quem primeiro deu a Ele para depois receber?" (Romanos 11). E João declara que nós não podemos conquistar o amor de Deus, pois Ele nos amou primeiro (1 João 4.19).

A parábola do Fariseu e do Publicano (Lucas 18.9-14) ilustra vividamente essa verdade. O Fariseu confiava em suas próprias boas obras e moralidade, enquanto o Publicano reconhecia sua necessidade da graça de Deus. Jesus enfatizou que aquele que se humilha diante de Deus é justificado, não aquele que confia em suas próprias obras. Portanto, a salvação é inteiramente um ato da graça de Deus, e a glória pertence unicamente a Ele. “ Nele temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça, ” (Efésios 1.7, NAA). Jesus é o único caminho para a salvação: "Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim." (João 14.6). “Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus”. (1 Timóteo 2: 5).

I. A Maravilhosa Graça de Deus · Versículos-chave:

Romanos 3.23, Lucas 19.10, João 1.1, João 14.6, Mateus 5.16, Romanos 8.28, João 16.8.

· A graça de Deus é um presente maravilhoso que Ele nos oferece, mesmo quando nós, seres humanos, nos afastamos da bondade original por causa de nossos pecados (Rm 3.23).

· Todos nós cometemos erros e pecados, e por isso ficamos longe de Deus. Mas Ele, em sua bondade, sempre busca nos trazer de volta (Lucas 19.10).

· O Espírito Santo nos ajuda a perceber o quanto precisamos de Deus e nos encoraja a buscar o perdão e a mudança de vida (João 16.8).

II. A Expiação Ilimitada: A Oferta de Salvação para Todos • Versículos-chave: João 3.16-17, Tito 2.11, Romanos 5.6,18, 2 Coríntios 5.1415, Atos 17.30, 1 Timóteo 2.4-6, 4:10, Hebreus 2.9, 1 João 2.2, 4:14.

A Amplitude da Expiação Quando discutimos a expiação de Cristo, acreditamos que Seu sacrifício substitutivo na cruz é eficaz para redimir os pecados de todas as pessoas. No entanto, reconhecemos que a salvação não é automática; requer uma resposta voluntária de arrependimento e fé por parte de cada indivíduo. Deus não impõe nem retém a expiação, levando em consideração a livre vontade da pessoa. A morte de Cristo não se limita aos pecados dos que serão salvos; Sua expiação é oferecida a todos, convidando cada um a responder com fé e arrependimento para alcançar a salvação.

A Mensagem da Expiação Ilimitada A Expiação Ilimitada é uma doutrina que afirma que Jesus morreu na cruz por toda a humanidade, sem exceção. Essa crença é fundamentada em várias passagens bíblicas que revelam o amor e a oferta de salvação de Deus para todos:

· João 3.16-17: Deus amou o mundo de tal maneira que enviou Seu Filho para salvar todos, não apenas alguns.

· Tito 2.11: A graça de Deus, que traz salvação, foi revelada a todos.

· Romanos 5.6,18: Cristo morreu por todos, e Sua morte traz vida a todos.

· 2 Coríntios 5.14-15: Jesus morreu por todos, para que todos possam viver para Ele.

· Atos 17.30: Deus chama a todos ao arrependimento. o Timóteo 2.4-6; 4:10: Deus deseja que todos sejam salvos e venham ao conhecimento da verdade.

· Hebreus 2.9: Jesus experimentou a morte por todos. o João 2.2; 4:14: Jesus é a expiação pelos pecados de todo o mundo e o Salvador do mundo.

· Rejeitamos a ideia de que apenas alguns poucos sejam capazes de responder ao Evangelho, enquanto o restante esteja predestinado à perdição.

III. A Graça Resistível · Versículos-chave:

Jeremias 7.24, Ezequiel 24.13, Mateus 23.37, Lucas 7.30, João 5.34,40, Atos 7.51, 2 Coríntios 6.1, 2 Timóteo 3.8, Hebreus 6.7-8, Salmos · 81:11, Provérbios 1.24-25, Zacarias 7.11-12, Mateus 22.3.

· A Graça Resistível é o ensino de que, embora Deus ofereça sua graça e salvação a todos, algumas pessoas resistem e rejeitam esse presente. Essa ideia é apoiada por várias passagens bíblicas:

· Jeremias 7.24; Ezequiel 24.13: As pessoas muitas vezes escolhem não ouvir e obedecer a Deus.

· Mateus 23.37; Lucas 7.30: Jesus lamenta a rejeição de seu povo, e alguns resistem ao plano de Deus.

· João 5.34,40: Jesus diz que, embora Ele tenha vindo para dar vida, nem todos aceitam seu presente.

· Atos 7.51: As pessoas podem resistir ao Espírito Santo.

· 2 Coríntios 6.1: A graça de Deus pode ser recebida em vão.

· 2 Timóteo 3.8: Alguns resistem à verdade.

· Hebreus 6.7-8: Nem todos aproveitam a graça e a bondade de Deus.

· Salmos 81.11: Deus estende sua mão, mas nem todos a aceitam.

· Provérbios 1.24-25; Zacarias 7.11-12: As pessoas ignoram e rejeitam o chamado de Deus.

· Mateus 22.3: A parábola do banquete mostra que nem todos aceitam o convite de Deus.

· Esses ensinamentos nos mostram que Deus ama todos e oferece salvação a todos, mas também respeita nosso livre-arbítrio para aceitar ou rejeitar sua graça.

CONCLUSÃO:

Nesta lição, exploramos a profunda necessidade da graça de Deus na vida humana. Desde a Queda, a humanidade ficou sob a condenação do pecado, e o ser humano, ferido mortalmente, tornou-se escravo do pecado. A natureza pecaminosa torna impossível a salvação por méritos próprios.

Compreendemos que a religião não salva, e o ser humano não pode alcançar a salvação por esforços próprios. A salvação é um ato da graça de Deus, e a glória pertence exclusivamente a Ele.

Na segunda parte da lição, exploramos a maravilhosa graça de Deus, um presente divino oferecido a todos, independentemente de sua condição pecaminosa.

A doutrina da Expiação Ilimitada reforça a oferta de salvação a toda a humanidade.

Por fim, a Graça Resistível lembra que, embora Deus ofereça Sua graça a todos, algumas pessoas podem escolher resistir.

Que a compreensão da graça de Deus nos inspire a recebê-la com gratidão, arrependimento e fé, e a compartilhar essa mensagem de esperança com o mundo. A graça é um tesouro a ser compartilhado, e a missão da Igreja é ser um farol da graça de Deus para o mundo.

QUESTÕES 1. Qual é o efeito da queda da humanidade, de acordo com Romanos 5.12? a) A humanidade se tornou moralmente perfeita. b) A humanidade ficou sob a condenação do pecado e da morte. c) A humanidade se tornou automaticamente salva. d) A humanidade se tornou imune ao pecado.

2. Qual é a base da salvação, de acordo com Efésios 2.8-9? a) Boas obras e cumprimento da lei. b) Religiosidade. c) A graça de Deus mediante a fé. d) A filiação a uma igreja específica.

3. O que Jesus ensinou a Nicodemos em João 3.1-21 sobre a salvação? a) Que a salvação é alcançada por boas obras. b) Que a salvação é alcançada pela religiosidade. c) Que a salvação é alcançada pelo novo nascimento espiritual pela fé em Deus. d) Que a salvação é automaticamente concedida a todos.

4. Segundo Romanos 3.10-23, qual é a condição de toda a humanidade? a) Todos são naturalmente justos. b) Todos são pecadores e carecem da glória de Deus. c) Todos são capazes de alcançar a salvação por méritos próprios. d) Todos são filhos de Deus.

5. Por que a salvação não pode ser alcançada por esforços humanos, de acordo com Efésio 2.8-9? a) Porque Deus não deseja a salvação de ninguém. b) Porque a salvação é inteiramente um ato da graça de Deus. c) Porque boas obras sempre levam à salvação. d) Porque Deus não tem o poder de conceder salvação.

6. Qual é o significado da doutrina da Expiação Ilimitada? a) Jesus morreu apenas por um grupo selecionado de pessoas. b) Jesus morreu por toda a humanidade, convidando cada indivíduo a responder com fé e arrependimento para alcançar a salvação. c) Jesus morreu apenas por pessoas sem pecado. d) Jesus morreu apenas por aqueles que já eram salvos.

7. O que significa a Graça Resistível? a) Que a graça de Deus é irresistível e ninguém pode recusá-la. b) Que algumas pessoas podem escolher resistir à graça de Deus. c) Que a graça de Deus é imposta a todos, independentemente de sua escolha. d) Que a graça de Deus não é real.

8. Como a Graça Resistível se relaciona com o livre-arbítrio das pessoas? a) Ela anula o livre-arbítrio das pessoas. b) Ela respeita o livre-arbítrio das pessoas, permitindo que escolham aceitar ou rejeitar a graça de Deus. c) Ela força as pessoas a aceitar a graça de Deus. d) Ela torna o livre-arbítrio irrelevante.

9. Qual é o papel do arrependimento e da fé na recepção da graça de Deus? a) Não têm importância na salvação. b) São essenciais para receber a graça de Deus. c) São opcionais na salvação. d) São contraproducentes para a salvação.

10. Qual é o objetivo final da compreensão da graça de Deus, de acordo com a conclusão da lição? a) Tornar as pessoas arrogantes em relação à sua salvação. b) Inspirar a gratidão, o arrependimento e a fé, e compartilhar essa mensagem de esperança com o mundo. c) Manter a graça como um tesouro exclusivo para os crentes. d) Impedir que a graça seja compartilhada com os outros.

Exercícios on-line: https://forms.gle/pW6dhjg5jkbhYtD4A

Mensagem do Bispo Ildo no Aniversário de 75 anos da Metodista de Vila M…+

Vocação universal da Igreja: chamados para fora

Por Bispo José Ildo Swartele de Mello

Certa vez, alguém me fez a seguinte pergunta: “Por que foi que Deus escolheu um povo em detrimento dos demais?” Respondi dizendo que Deus ao escolher Israel, não o fez em detrimento, mas, sim, em favor de todas as demais nações da terra. As raízes da formação do povo hebreu são descentralizadoras e missionárias, pois nasceu recebendo o apelo missionário de beneficiar a todos os demais povos com a mesma bênção com que foi contemplado por Deus. Abraão foi abençoado por Deus para se tornar uma bênção para todas as demais famílias da Terra (Gn 12.3). Ele não deveria represar a bênção em si mesmo ou em sua própria família. Deus é criador de todos, ama a todos e oferece graça e bênçãos a todos os povos, línguas e nações. O livro de Gênesis mostra isto com clareza. Observasse o seguinte padrão nas narrativas registradas nos onze primeiros capítulos de Gênesis. Cada uma das quatro narrativas principais (Queda de Adão e Eva, Crime de Caim, Dilúvio e Babel) possuem estes quatro elementos essenciais: 1. Descrição do pecado, 2. Discurso de Deus, 3. Castigo e 4.Manifestação da Graça. Este padrão está bem explícito nas três primeiras narrativas. No entanto, no episódio de Babel, vemos a descrição do pecado, ouvimos o discurso de Deus e também percebemos o consequente castigo que culminou em distanciamento, estranhamento e inimizades entre as nações, mas, onde está o quarto elemento? Onde está a Graça de Deus? Cadê a cura para as nações? O autor de Gênesis parece mesmo estar despertando a nossa curiosidade e atenção para este importante aspecto. Não é à toa que a narrativa de Babel termine com uma lista genealógica que desemboca no personagem Abraão. Aí está a manifestação da graça divina em favor das nações! O chamado de Abraão é um chamado missionário que visa o bem-estar e a salvação de todos os povos: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.3)! Com Abraão se inaugura a história da salvação. Até então, o que parecia prevalecer era o pecado e a maldade humana como vistos nos episódios da Queda, de Caim, do Dilúvio e de Babel, trazendo muita maldição (3.14,17; 4.11; 5.29; 8.21; 9.25). Mas, agora, com Abraão, esboça-se um período de bênção, graça e redenção. Curioso notar que, em Gênesis, a história da desgraça humana culmina com o episódio da “Torre de Babel”, e que, de Babel, Deus chama Abraão para dar início a história da salvação! E é também interessante o contraste que podemos estabelecer entre Babel e Abraão:

De Babel a Abraão: a bênção que alcança as nações

1) Em Babel, homens pretendem alcançar os céus, de baixo para cima, por méritos próprios, enquanto que, no chamado de Abraão, é Deus quem desce até ele; 2) Em Babel, temos a soberba daqueles que pretendem dominar o mundo através de seu poder e conhecimento tecnológico (11.3), enquanto que, Abraão, em sua fraqueza, ousa acreditar na promessa que seria pai; 3) Enquanto os homens de Babel estão dizendo: ” tornemos célebre o nosso nome ” (11.4), no episódio de Abraão, é Deus que lhe fala: ” te engrandecerei o nome ” (12.2); 4) e, por fim, enquanto a Torre de Babel divide as nações, Deus chama a Abraão para formar uma nação cuja missão principal é tornar-se um canal de bênção para todas as demais nações (12.3)

O restante do livro de Gênesis relata como isto começa a se cumprir através de Abraão e sua descendência.

Abraão é descrito abençoando Ló, que formará uma nação, e também libertando cinco cidades das mãos de seus opressores (Gn 13, 14).

Não podemos esquecer de que Abraão intercedeu em favor de Sodoma e Gomorra (Gn 18); E, Deus diz o seguinte a Abimeleque a respeito de Abraão: “ele é profeta e intercederá por ti, e viverás” (20.7); E Labão confessa a Jacó: “tenho experimentado que o Senhor me abençoou por amor de ti” (30.27); E bem sabemos que os últimos capítulos de Gênesis são destinados a contar a história de José que se tornou grande e poderoso a ponto de abençoar o Egito e muitas outras nações vizinhas.

Eis aí a grande vocação do povo de Deus. Mas, não podemos nos esquecer de que tal privilégio traz consigo uma enorme responsabilidade, quando Israel deixa de ser bênção, Deus denuncia: “ foste maldição entre as nações” (Zc 8.13; Jr 4.4).

Os descendentes de Abraão pela fé

As Escrituras do Antigo e Novo Testamentos revelam que os descendentes de Abraão, de um modo geral, acabaram negligenciando a sua missão. Mas, Deus sempre cumpre as suas promessas. Já nos primórdios, Deus havia prometido a Adão e a Eva que nasceria um homem que pisaria a cabeça da serpente. Isto tem a ver com a promessa de que em Abraão haveria benção para todas as famílias da terra, pois o Cristo é um descendente de Abraão e nasceu para desfazer as obras de Satanás e para iluminar o mundo inteiro. Israel, de um modo geral, não reconheceu a Jesus como o Messias prometido (Jo 1.10-12); Então, os gentios recebem o Cristo e são enxertados na Oliveira (Rm 11.17-24). Repare que não existem duas oliveiras mais somente uma. Jesus disse: “Eu sou a videira verdadeira”. Sabemos que tanto videira, como oliveira são símbolos de Israel. Jesus está afirmando ser o Israel verdadeiro. Por esta razão Paulo diz aos gentios cristãos: “naquele tempo, estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo. Mas agora em Cristo Jesus, vós que antes estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue de Cristo. Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um, e tendo derrubado a parede de separação que estava no meio, a inimizade… para que dos dois criasse em si mesmo um novo homem, fazendo a paz, e reconciliasse ambos em um só corpo… Assim já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois família de Deus… os gentios são co-herdeiros, membros do mesmo corpo e co-participantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho.” (Ef 2.12-3.6). “Dessarte, não pode haver judeu nem grego… porque todos vós sois um em Cristo.

E se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão, e herdeiros segundo a promessa.” (Gl 3.28-29).

Por tudo isto Paulo pode declarar ousadamente: “ Sabei, pois, que os da fé é que são filhos de Abraão… Ora, as promessas foram feitas a Abraão e ao seu descendente. Não diz: E aos descendentes, como se falando de muitos, porém como de um só: E ao teu descendente que é Cristo” (Gl 3.7, 16. Ver também Rm 4.10-18). Jesus é “a pedra principal”, os que estiverem firmes nesta pedra, quer judeus, quer gentios, pois “Deus não faz acepção de pessoas” (Rm 2.11), é que, agora são chamados de “raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus…” (1 Pe 2.4-10). Interessante notar que, neste trecho, Pedro está citando uma promessa de Deus dirigida ao povo de Israel, registrada em Êxodo 19.5-6: “… então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos… vós me sereis reino e sacerdotes e nação santa. São estas as palavras que falarás aos filhos de Israel”. Pedro estava convicto de que era através da Igreja que tal profecia havia tido o seu cumprimento, e por isso ousou dirigir tais palavras à Igreja. “Porque não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é somente na carne. Porém judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus.”(Rm 2.28-29). Não é à toa que Jesus escolhe o número de 12 apóstolos, fazendo alusão as doze tribos de Israel; bem como o Céu é descrito em termos de “Nova Jerusalém”, bem apropriado para o Novo Israel de Deus. Jesus Cristo é o “sim” e o “amém” pronunciado sobre cada uma das promessas de Deus registradas no Antigo Testamento: “Porque quantas são as promessas de Deus tantas têm nele o sim; porquanto também por ele é o amém para a glória de Deus.” Jesus é o Messias prometido; e, verdadeiro israelita é aquele que possui o Messias. A esperança do povo judeu é crer no Messias, ingressando na Sua Igreja. Quando Israel rejeitou o Messias foi cortado fora da “Oliveira” e os gentios foram enxertados nesta mesma árvore. Não existem, portanto, duas árvores; não existem, portanto, dois povos de Deus. O que não quer dizer que Deus tenha se esquecido e abandonado Israel. A esperança e promessa em relação a Israel é de que venha ser enxertado de volta na mesma árvore, onde agora estão os gentios. A Igreja é este “mistério de Deus” (Ef 5.32), que engloba todos os povos, formando um “só corpo”, com “um só Senhor” (Ef 4.4 e 5).

Percebemos nitidamente o elemento de continuidade no que diz respeito a missão de Israel (Gn 12.3) e a missão da Igreja: “ Ide, fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28.18-20), “E ser-me-eis testemunhas em Jerusalém, Judéia, Samaria e até nos confins da terra” (At 1.8). Quando a promessa do Espírito foi derramada sobre a Igreja no dia de Pentecostes, um fenômeno extraordinário envolvendo línguas e nações aconteceu com efeito reverso aquele de Babel!

De Babel a Pentecostes

Enquanto em Babel tivemos a confusão das línguas e a divisão das nações, em Pentecostes, através da Igreja, temos uma língua compreendida por todos os povos, promovendo conversões e a unidade dos povos debaixo do senhorio do descendente de Abraão que de fato é Filho de Deus e o legítimo Rei de Todas as Nações!

As nações em Apocalipse

Apocalipse usa a palavra “nação” ou “nações” mais de 20 vezes.

Redimidos de todas as nações adoraram ao Senhor (5.9; 7.9) com o cântico “Rei das nações” (Ap 15.3,4). “É necessário que o Evangelho seja primeiramente pregado para todas as nações, só então virá o fim ” (Mt 24.14). Nós apressamos o retorno de Jesus através do cumprindo nossa missão (At 1.8; Mt 28.19,20, 2 Pe 3) Vimos, portanto, que desde os tempos do Antigo Testamento, observasse a grande preocupação de Deus com todos os povos. E o mesmo que nos disse: “vinde a mim”, também nos disse: “ide por todo mundo”. Jesus orou ao Pai para que não fossemos tirados do mundo, pois ele tem um plano para nós aqui, uma grande missão. Não devemos ser crentes de arquibancada, nos portando como meros espectadores dos eventos históricos e escatológicos, pois não foi para isto que fomos chamados. Devemos assumir o nosso papel na história, devemos atuar como protagonistas, precisamos entrar em campo, e pelo auxílio do Espírito Santo, contribuir para a concretização dos propósitos de Deus (Mt 5.14-16).

VOCAÇÃO UNIVERSAL DA IGREJA – “CHAMADOS PARA FORA”+

Certa vez, alguém me fez a seguinte pergunta: "Por que foi que Deus escolheu um povo em detrimento dos demais?" Respondi dizendo que Deus ao escolher Israel, não o fez em detrimento, mas, sim, em favor de todas as demais nações da terra.

As raízes da formação do povo hebreu são descentralizadoras e missionárias, pois nasceu recebendo o apelo missionário de beneficiar a todos os demais povos com a mesma bênção com que foi contemplado por Deus. Abraão foi abençoado por Deus para se tornar uma bênção para todas as demais famílias da Terra (Gn 12.3). Ele não deveria represar a bênção em si mesmo ou em sua própria família. Deus é criador de todos, ama a todos e oferece graça e bençãos a todos os povos, línguas e nações. O livro de Gênesis mostra isto com clareza.

Observasse o seguinte padrão nas narrativas registradas nos onze primeiros capítulos de Gênesis. Cada uma das quatro narrativas principais (Queda de Adão e Eva, Crime de Caim, Dilúvio e Babel) possuem estes quatro elementos essenciais: 1. Descrição do pecado, 2. Discurso de Deus, 3. Castigo e 4.Manifestação da Graça.

Este padrão está bem explícito nas três primeiras narrativas. No entanto, no episódio de Babel, vemos a descrição do pecado, ouvimos o discurso de Deus e também percebemos o consequente castigo que culminou em distanciamento, estranhamento e inimizades entre as nações, mas, onde está o quarto elemento? Onde está a Graça de Deus? Cadê a cura para as nações?

O autor de Gênesis parece mesmo estar despertando a nossa curiosidade e atenção para este importante aspecto. Não é à toa que a narrativa de Babel termine com uma lista genealógica que desemboca no personagem Abraão. Aí está a manifestação da graça divina em favor das nações! O chamado de Abração é um chamado missionário que visa o bem e a salvação de todos os povos: "Em ti serão benditas todas as famílias da terra" (Gn 12.3)!

Com Abraão se inaugura a história da salvação. Até então, o que parecia prevalecer era o pecado e a maldade humana como vistos nos episódios da Queda, de Caim, do Dilúvio e de Babel, trazendo muita maldição (3.14,17; 4.11; 5.29; 8.21; 9.25). Mas, agora, com Abraão, esboça-se um período de bênção, graça e redenção.

Curioso notar que, em Gênesis, a história da desgraça humana culmina com o episódio da “Torre de Babel”, e que, de Babel, Deus chama Abraão para dar início a história da salvação! E é também interessante o contraste que podemos estabelecer entre Babel e Abraão: 1) Em Babel, homens pretendem alcançar os céus, de baixo para cima, por méritos próprios, enquanto que, no chamado de Abraão, é Deus quem desce até ele; 2) Em Babel, temos a soberba daqueles que pretendem dominar o mundo através de seu poder e conhecimento tecnológico (11.3), enquanto que, Abraão, em sua fraqueza, ousa acreditar na promessa que seria pai; 3) Enquanto os homens de Babel estão dizendo: "tornemos célebre o nosso nome" (11.4), no episódio de Abraão, é Deus que lhe fala: "te engrandecerei o nome" (12.2); e 4), por fim, enquanto a Torre de Babel divide as nações, Deus chama a Abração para formar uma nação cuja missão principal é tornar-se um canal de bênção para todas as demais nações (12.3)

O restante do livro de Gênesis relata como isto começa a se cumprir através de Abraão e sua descendência. Abraão é descrito abençoando Ló, que formará uma nação, e também libertando cinco cidades das mãos de seus opressores (Gn 13, 14). Não podemos esquecer de que Abrão intercedeu em favor de Sodoma e Gomorra (Gn 18); E, Deus diz o seguinte a Abimeleque a respeito de Abraão: “ele é profeta e intercederá por ti, e viverás” (20.7); E Labão confessa a Jacó: “tenho experimentado que o Senhor me abençoou por amor de ti” (30.27); E bem sabemos que os últimos capítulos de Gênesis são destinados a contar a história de José que se tornou grande e poderoso a ponto de abençoar o Egito e muitas outras nações vizinhas.

Eis aí a grande vocação do povo de Deus. Mas, não podemos nos esquecer de que tal privilégio traz consigo uma enorme responsabilidade, quando Israel deixa de ser bênção, Deus denuncia: “foste maldição entre as nações” (Zc 8.13; Jr 4.4).

As Escrituras do Antigo e Novo Testamentos revelam que os descendentes de Abraão, de um modo geral, acabaram negligenciando a sua missão. Mas, Deus sempre cumpre as suas promessas. Já nos primórdios, Deus havia prometido a Adão e a Eva que nasceria um homem que pisaria a cabeça da serpente. Isto tem a ver com a promessa de que em Abraão haveria benção para todas as famílias da terra, pois o Cristo é um descendente de Abraão e nasceu para desfazer as obras de Satanás e para iluminar o mundo inteiro.

Israel, de um modo geral, não reconheceu a Jesus como o Messias prometido (Jo 1.10-12); Então, os gentios recebem o Cristo e são enxertados na Oliveira (Rm 11.17-24). Repare que não existem duas oliveiras mais somente uma. Jesus disse: “Eu sou a videira verdadeira”. Sabemos que tanto videira, como oliveira são símbolos de Israel. Jesus está afirmando ser o Israel verdadeiro. Por esta razão Paulo diz aos gentios cristãos: “naquele tempo, estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo. Mas agora em Cristo Jesus, vós que antes estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue de Cristo. Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um, e tendo derrubado a parede de separação que estava no meio, a inimizade… para que dos dois criasse em si mesmo um novo homem, fazendo a paz, e reconciliasse ambos em um só corpo… Assim já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois família de Deus… os gentios são co-herdeiros, membros do mesmo corpo e co-participantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho.” (Ef 2.12-3.6). “Dessarte, não pode haver judeu nem grego… porque todos vós sois um em Cristo. E se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão, e herdeiros segundo a promessa.” (Gl 3.28-29).

Por tudo isto Paulo pode declarar ousadamente: “Sabei, pois, que os da fé é que são filhos de Abraão… Ora, as promessas foram feitas a Abraão e ao seu descendente. Não diz: E aos descendentes, como se falando de muitos, porém como de um só: E ao teu descendente que é Cristo” (Gl 3.7, 16. Ver também Rm 4.10-18).

Jesus é “a pedra principal”, os que estiverem firmes nesta pedra, quer judeus, quer gentios, pois “Deus não faz acepção de pessoas” (Rm 2.11), é que, agora são chamados de “raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus…” (1 Pe 2.4-10). Interessante notar que, neste trecho, Pedro está citando uma promessa de Deus dirigida ao povo de Israel, registrada em Êxodo 19.5-6: “… então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos… vós me sereis reino e sacerdotes e nação santa. São estas as palavras que falarás aos filhos de Israel”. Pedro estava convicto de que era através da Igreja que tal profecia havia tido o seu cumprimento, e por isso ousou dirigir tais palavras à Igreja. “Porque não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é somente na carne. Porém judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus.”(Rm 2.28-29).

Não é à toa que Jesus escolhe o número de 12 apóstolos, fazendo alusão as doze tribos de Israel; bem como o Céu é descrito em termos de “Nova Jerusalém”, bem apropriado para o Novo Israel de Deus.

Jesus Cristo é o “sim” e o “amém” pronunciado sobre cada uma das promessas de Deus registradas no Antigo Testamento: “Porque quantas são as promessas de Deus tantas têm nele o sim; porquanto também por ele é o amém para a glória de Deus.” Jesus é o Messias prometido; e, verdadeiro israelita é aquele que possui o Messias. A esperança do povo judeu é crer no Messias, ingressando na Sua Igreja. Quando Israel rejeitou o Messias foi cortado fora da “Oliveira” e os gentios foram enxertados nesta mesma árvore. Não existem, portanto, duas árvores; não existem, portanto, dois povos de Deus. O que não quer dizer que Deus tenha se esquecido e abandonado Israel. A esperança e promessa em relação a Israel é de que venha ser enxertado de volta na mesma árvore, onde agora estão os gentios. A Igreja é este “mistério de Deus” (Ef 5.32), que engloba todos os povos, formando um “só corpo”, com “um só Senhor” (Ef 4.4 e 5).

Percebemos nitidamente o elemento de continuidade no que diz respeito a missão de Israel (Gn 12.3) e a missão da Igreja: “Ide, fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28.18-20), “E serme-eis testemunhas em Jerusalém, Judéia, Samaria e até nos confins da terra” (At 1.8).

Quando a promessa do Espírito foi derramada sobre a Igreja no dia de Pentecostes, um fenômeno extraordinário envolvendo línguas e nações aconteceu com efeito reverso aquele de Babel! Enquanto em Babel tivemos a confusão das línguas e a divisão das nações, em Pentecostes, através da Igreja, temos uma língua compreendida por todos os povos, promovendo conversões e a unidade dos povos debaixo do senhorio do descendente de Abraão que de fato é Filho de Deus e o legítimo Rei de Todas as Nações!

Apocalipse usa a palavra “nação” ou "nações" mais de 20 vezes. Redimidos de todas as nações adoraram ao Senhor (5.9; 7.9) com o cântico “Rei das nações” (Ap 15.3,4). “É necessário que o Evangelho seja primeiramente pregado para todas as nações, só então virá o fim” (Mt 24.14). Nós apressamos o retorno de Jesus através do cumprindo nossa missão (At 1.8; Mt 28.19,20, 2 Pe 3)

Vimos, portanto, que desde os tempos do Antigo Testamento, observasse a grande preocupação de Deus com todos os povos. E o mesmo que nos disse: “vinde a mim”, também nos disse: “ide por todo mundo”. Jesus orou ao Pai para que não fossemos tirados do mundo, pois ele tem um plano para nós aqui, uma grande missão. Não devemos ser crentes de arquibancada, nos portando como meros espectadores dos eventos históricos e escatológicos, pois não foi para isto que fomos chamados. Devemos assumir o nosso papel na história, devemos atuar como protagonistas, precisamos entrar em campo, e pelo auxílio do Espírito Santo, contribuir para a concretização dos propósitos de Deus (Mt 5.14-16).

Bispo José Ildo Swartele de Mello

O Alcance e o propósito da graça+

(Tito 2.11-15)

As dez questões abordadas neste estudo

  • A graça  salvadora é a única esperança para os pecadores
    Romanos 6.23 e João 1.29; 14.6.
  • A graça salvadora foi manifesta a todos os homens
    Tito 2.11; 3.4; Hebreus 2.9; 1 João 2.2; João 1. 7-9; 3.16-19; 6.40; 8.13; 12.32; 2 Co 5.15; Mateus 4.16; 1Timóteo 2.4-6; Atos 2.21; 17.30; 26.16-18; Romanos 1.16; 3.22.
  • A graça salvadora não é compulsória, pois não se impõe  pela força contra a vontade humana, mas procura cativar pelo amor.
    Atos 7.51; Deuteronomio 10.16; Hebreus 3.8 e 15; 4.7; Apocalipse 3.20; João 1.11-12; 3.19.
  • A graça salvadora conclama ao arrependimento
    Tito 2.11, 12,, 14; 3.8; 2 Pedro 3.9; Marcos 1.15; Mateus 3.2 e 8; Atos 2.38; 3.19; 5.31; 11.18; Atos 20.21; 26.20; Lucas 3.3; 5.32; Romanos 2.4; 2 Timóteo 2.25; Hebreus 6.6; 2 Coríntios 7.9.
  • A graça salvadora é apropriada pela fé para as boas obras
    Efésios 2.8-10; Tito 3.4-8.
  • A graça salvadora não é um fim em si mesma
    Tito 2.11, 12, 14; 3.7 e 8;
  • A graça salvadora produz regeneração e santificação
    Tito 2.11, 12, 14; 3.7 e 8; 1 Tessaloniscenses 4.3 e Romanos 6.19.
  • A graça salvadora nos torna filhos de Deus
    Tito 3.7; João 1.12; Romanos 8.29; 2 Pedro 1.4.
  • A graça salvadora não é apenas uma obra de Deus a nosso favor, mas também dentro de nós!
    Tito 3.5; Ezequiel 36.26; Gálatas 2.20; João 3.3; 1 João 3.9.
  • A graça salvadora nos capacita para toda boa obra
    Tito 2.14; 3.8, 14;  2 Pedro 1.3-11; Efésios 2.8-10.

Assista ao vídeo deste estudo.

A condição do ser humano diante de Deus

O pecado separa o homem de Deus e traz condenação. Por causa do pecado, Adão e Eva foram expulsos do Paraíso e foram condenados a morte.

“Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça” (Romanos 1.18). O pecado não ficará impune, pois a justiça prevalecerá sobre o pecado. Os dias do reinado do pecado estão contados, pois o Juízo Final se avizinha (2Pedro 3.7; Romanos 2.5; Judas 1.6 e Apocalipse 21.4).

Por possuir uma natureza corrompida pelo pecado, o ser humano não consegue, por conta própria, obedecer plena e satisfatoriamente a todos os mandamentos de Deus (Romanos 3.10, 23). O melhor de nós não é suficiente, pois nossas boas obras são como trapos imundos diante da santidade divina (Isaías 64.6). Diante da contemplação da santidade gloriosa de Deus, Isaías exclamou:

“Ai de mim” (Isaías 6.5); Semelhantemente, Pedro disse a Jesus:

“retira-te de mim, porque sou pecador” e até mesmo aquele que o próprio Jesus considerou como o maior dos homens, João Batista, reconheceu a sua pequenez e insignificância diante do Cristo, dizendo “não sou digno de desatar as correias das suas sandálias” (João 1.27). E Jeremias afirmou que “as misericórdias do Senhor são a causa de não termos sido consumidos” (Lamentações 3.22).

A manifestação da graça salvadora

Portanto, estando os homens incapazes de se salvarem da condenação eterna por estarem “mortos em seus delitos e pecados” (Efésios 2.1), e, sendo Deus, tanto justo quanto amoroso (Salmo 7.9), foi que ele decidiu enviar o seu Filho Unigênito para sofrer a condenação destinada aos pecadores (João 3.16), o justo morrendo no lugar dos injustos (Isaías 53; Romanos 3.26), como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (João 1.29). Tudo isto para cumprir as reivindicações de sua justiça e também para manifestar o seu grande amor pela humanidade.

Esta é a manifestação da graça salvadora de Deus a toda a humanidade (Tito 2.11). que, sem ela, estaria irremediavelmente condenada a perdição. Cristo morreu em favor de todas as pessoas e não apenas em favor de um grupo seleto (Tito 2.11; Hebreus 2.9). Seu perdão é extensivo a todos sem distinção, mas, para ser efetivo, precisa ser apropriado através da fé e do arrependimento. “E ele (Jesus) é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo. (1 João 2.2). João inicia o seu registro do Evangelho declarando que a missão de João Batista era que “testificasse a respeito da luz, a fim de todos virem a crer por intermédio dele. Ele não era a luz, mas veio para que testificasse da luz, a saber, a verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem” (João 1.7-9). O propósito é claro e não se trata da salvação de um grupo de escolhidos, mas tem por objetivo a salvação de todos os homens. A luz da graça salvadora brilhou a todos os homens! “O povo, que estava assentado em trevas, Viu uma grande luz; E, aos que estavam assentados na região e sombra da morte, A luz raiou” (Mateus 4.16). Jesus é a luz dos homens (João 1.4).

Ele é a luz do Mundo (Jo 8.12). Jesus não veio para julgar, mas para salvar o mundo que já estava condenado (João 3.17, 18), mas “o julgamento é este, que a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque suas obras eram más” (João 3.19).

Deus deseja que todos sejam salvos

Deus deseja que todos os homens sejam salvos (1Timóteo 2.4). Por isto foi que “se manifestou a benignidade de Deus, nosso salvador e o seu amor para com todos” (Tito 3.4). Porque Deus não quer que nenhum ser humano sequer pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento, que é uma condição para o usufruto desta graça salvadora (2 Pedro 3.9). Como disse Jesus:

“a vontade do meu pai é que todo o homem que vir o Filho e crer nele, tenha a vida eterna” (João 6.40).

A salvação pela fé em Cristo

Por tudo isso é que sabemos que a salvação é alcançada através da fé em Cristo e não por méritos próprios. Mas esta fé é uma fé viva que opera através do amor. A salvação é uma obra regeneradora do Espírito Santo, através da qual somos “feitos” filhos de Deus e não apenas “denominados” (João 1.12). Assim como os cristãos não apenas são chamados “santos”, como também devem tornar-se santos como é santo o Pai celestial (1 Pedro 1.15, 16). Isto não é obra da carne, ou seja, isto não é produto do mero esforço humano, mas é a grande obra de Deus no coração do crente, que Cristo chama de “novo nascimento” (João 3.3-8). Paulo descreve a salvação não apenas em termos de uma obra de Deus em favor de nós, mas também dentro de nós; não apenas em termos de justificação, mas também de uma poderosa regeneração possibilitada pelo lavar regenerador e purificador do Espírito Santo (Tito 3.5). Cumprisse assim a promessa de Deus pronunciada pelo profeta Ezequiel: “E lhes darei um só coração, e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne para que andem nos meus estatutos, e guardem os meus juízos, e os cumpram; e eles me serão por povo, e eu lhes serei por Deus” (Ezequiel 11.19, 20).

Vemos aí, que, Deus, já nos tempos do Antigo Testamento, apontava para a sua grande salvação que propiciaria um novo coração e um novo espírito para que seu povo fosse capaz de obedecer os seus mandamentos. Algo semelhante vemos Paulo falando aqui a Tito, mostrando que o propósito desta salvação é “remir-nos de toda iniquidade e purificar para si mesmo um povo exclusivamente seu zeloso de boas obras” (Tito 2.14).

O encargo de Paulo a Tito

Paulo conclui este parágrafo conclamando a Tito a pregar este ensino com toda coragem, repreendendo com toda a autoridade (Tito 2.15). Pois os que creem em Deus não podem ser infrutíferos (Tito 3.14), mas devem serem solícitos e distinguirem-se na prática das boas obras (Tito 3.8, 14). Somos salvos pela graça para as boas obras que Deus preparou de antemão para que andássemos nelas (Efésios 2.8-10). O destino que Deus tem para o seu povo é que ele seja santo e irrepreensível (Tito 2.14; Efésios 1.4; 1 Tessalonicenses 4.3). Deus planejou que todos nós fôssemos conformes à imagem de seu Filho”(Romanos 8.29) e não conforme o mundo (Romanos 12.1,2). Pois os pervertidos é que vivem deliberadamente pecando (Tito 3.11), enquanto que os nascidos de Deus não vivem na prática do pecado (1 João 5.18). Nascemos de novo para viver conforme Jesus viveu e não mais de acordo com os padrões mundanos.

A graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens a fim de remir-nos de toda iniquidade, capacitando-nos para sermos um povo zeloso de boas obras. Dize estas coisas, exorta e repreende também com toda a autoridade.

Ninguém te despreze. (Tito 2.11-15).

Bispo José Ildo Swartele de Mello

Curso de Discipulado: Lição 4 – Justificação+

LIÇÃO 4: COMO SE DÁ A SALVAÇÃO E ENTENDENDO A JUSTIFICAÇÃO Textos bíblicos para cada dia da semana · Segunda-feira: A Salvação Pela Graça Mediante a Fé: Efésios 2.8-10 · Terça-feira: A justificação não é paga por merecimentos, mas um dom gratuito: Romanos 3.21-28 e Gálatas 2.16 · Quarta-feira: A Fé como Resposta à Graça Divina: Romanos 3.22 e 5.1-11 · Quinta-feira: A Salvação Capacita para Boas Obras: Filipenses 3.9; Colossenses 1.21-22 · Sexta-feira: Entendendo a Justificação: Isaías 53; Salmo 32.1-2 e Atos 10.43 · Sábado: A Natureza da Justificação:

Romanos 4.5 e

2 Coríntios 5.21

· Domingo: O Relacionamento Renovado:

1 Coríntios 6.11; 2 Coríntios 5.17; Tito 3.7 e Gálatas 3.26 A Salvação Pela Graça Mediante a Fé A salvação é um presente extraordinário concedido por Deus, disponível gratuitamente a todos que depositam sua fé em Jesus Cristo como seu Salvador e Senhor. Fundamental compreender que a salvação se manifesta por meio da graça de Deus e não por méritos próprios (Efésios 2.8-10). Não é algo que possamos conquistar por nossos próprios esforços, mas sim um presente divinamente oferecido como um ato de misericórdia inigualável.

No que diz respeito à graça divina na questão da salvação, sustentamos a crença de que a graça é a generosa decisão de Deus de estender a oferta de salvação a todas as pessoas. Essa graça toma a iniciativa de prover a expiação, de apresentar o Evangelho por meio da obra do Espírito Santo e de unir o crente a Cristo mediante a fé. Importante salientar que não consideramos a graça como eliminando a necessidade de uma resposta livre e voluntária de fé, nem como irresistível em sua natureza. A fé, longe de ser vista como uma obra meritória que conquista a salvação, é, na verdade, uma resposta humilde e confiante à graciosa oferta de Deus.

Por meio da fé, respondemos a essa graça divina. Colocamos nossa confiança em Jesus Cristo, que voluntariamente suportou a penalidade pelos nossos pecados na cruz, resultando em nossa justificação diante dos olhos de Deus (Romanos 3.22).

Além disso, a salvação nos capacita a viver uma vida caracterizada por boas obras. Essas obras não são meios de adquirir a salvação, mas, sim, uma resposta de gratidão à graça de Deus. Deus nos habilita a viver uma vida que O glorifica e que evidencia nossa fé.

Entendendo a Justificação: A base da nossa nova vida em Cristo A justificação, em termos simples, refere-se à declaração divina de que uma pessoa, independentemente de quão pecadora seja, torna-se justa ao depositar sua confiança na obra redentora de Cristo.

De acordo com Romanos 2.13, ser justificado perante Deus pela obediência à lei é teoricamente possível, mas, dada a realidade do pecado, extremamente difícil, eu diria, até mesmo impossível de alcançar (Gálatas 2.16; Romanos 3.20). Paulo reforça que todos pecaram diante de Deus e estão sujeitos ao julgamento divino (Romanos 3.19-23).

A boa notícia, no entanto, é que Romanos 3.24, entre outros textos bíblicos, nos ensinam que recebemos o perdão dos pecados e somos declarados justos diante de Deus pela Sua graça, através do amor de Cristo, quando cremos que Ele sofreu por nós. É por meio dessa fé que nossos pecados são perdoados, e a justiça e a vida eterna nos são concedidas (Romanos 3.21-26, 28; 4:5; 5:8-9 e Efésios 2.8-9). Isso é uma mensagem de esperança e amor em meio às nossas imperfeições.

Neste tribunal, a acusação é baseada no "código escrito, com seus regulamentos que estavam contra nós e se opunham a nós" (Colossenses 2.14). Uma sentença de condenação paira sobre todos nós, como expresso em "Em nossos corações, sentimos a sentença de morte" (2 Coríntios 1.9). Estamos espiritualmente mortos, conforme indicado em "Vocês estavam mortos em suas transgressões e pecados" (Efésios 2.1).

No entanto, há um Advogado incomparável neste tribunal, como mencionado em "Temos alguém que fala ao Pai em nossa defesa: Jesus Cristo, o Justo" (1 João 2.1). Uma solução é oferecida, onde o sofrimento de outra pessoa substitui a penalidade dos pecadores, como indicado em "Ele é a expiação pelos nossos pecados" (1 João 2.2). O sacrifício de um beneficia muitos, conforme declarado em "Pela obediência de um só homem, muitos se tornarão justos" (Romanos 5.19). Com base nisso, o juiz reverte a sentença, concedendo total absolvição e justificação ao réu, como afirmado em "Portanto, agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus" (Romanos 8.1). A salvação é como um ato de absolvição quando o réu é instantaneamente exonerado de todas as acusações.

Isso é ilustrado pelo versículo "Deus fez pecado por nós aquele que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus" (2 Coríntios 5.21). Nossa justiça não depende de um comportamento ético perfeito, mas se baseia na obra substitutiva de Cristo, que, embora moralmente sem pecado, tornou-se pecado por nós de uma maneira forense, permitindo-nos participar de Sua justiça.

Um ponto importante é que a justificação não significa que a pessoa se torna eticamente perfeita em sua prática diária. Ela envolve ser declarado justo por Deus, sendo absolvido da culpa e da punição que mereceríamos por nossos pecados. (Salmo 32.1-2; Isaías 53; Atos 10.43). A mudança na nossa natureza e comportamento, tornando-nos pessoas melhores, é o que chamamos de santificação, um processo separado (1 Coríntios 6.11).

A justificação não é o cume, mas a base da vida cristã, não o fim, mas o início do caminho da fé evangélica. Uma definição clara da sua natureza (o perdão), do autor (Deus), do fundamento (a obra de Cristo na cruz), da condição de recepção (fé) é essencial para edificação espiritual (Filipenses 3.9)

Esta justificação é importante porque nos permite ter um relacionamento renovado com Deus (1 Coríntios 6.11). Somos aceitos por Ele e, assim, podemos experimentar a verdadeira paz e alegria que vêm de um relacionamento com nosso Criador (Romanos 5.1; Filipenses 3.9).

Que esta lição nos lembre da graça de Deus e da importância da justificação em nossa caminhada de fé. Que possamos viver em gratidão pela salvação que Ele nos oferece e compartilhar essa mensagem de esperança com o mundo.

QUESTÕES 1. Qual é o significado fundamental da salvação, de acordo com a lição? a) Uma conquista pessoal baseada em méritos próprios. b) Um presente gracioso de Deus alcançado por fé em Cristo. c) Uma obra meritória que conquista a redenção. d) Um ato irresistível da vontade humana.

2. O que a lição ensina sobre a graça divina na salvação? a) A graça elimina a necessidade de uma resposta de fé. b) A graça é irresistível em sua natureza. c) A graça é a iniciativa de Deus em oferecer a salvação. d) A graça é conquistada por boas obras.

3. Como a fé é descrita em relação à salvação na lição? a) Como uma obra meritória que conquista a salvação. b) Como uma resposta humilde e confiante à oferta graciosa de Deus. c) Como um ato irresistível da vontade humana. d) Como algo que não tem relação com a salvação.

4. O que acontece quando respondemos à graça divina pela fé? a) Nos tornamos eticamente perfeitos. b) Somos justificados diante de Deus. c) Perdemos nossa salvação. d) Precisamos realizar boas obras para sermos aceitos por Deus.

5. Qual é a base da nossa nova vida em Cristo, de acordo com a lição? a) A santificação. b) O perdão de pecados. c) A obra de Cristo na cruz. d) Nossa justiça própria.

6. Qual é o papel da justificação na vida cristã, de acordo com a lição? a) É o fim do caminho da fé evangélica. b) É a resposta voluntária da fé. c) É o perdão de pecados. d) É o processo de santificação.

7. O que a justificação significa em termos simples? a) Tornar-se eticamente perfeito. b) Ser declarado justo por Deus ao depositar a fé em Cristo. c) Ser irresistivelmente atraído para Deus. d) Ganhar a salvação por boas obras.

8. Qual dos seguintes versículos NÃO diz respeito ao tema da justificação? a) Gálatas 2.16 b) Romanos 3.19-23 c) 1 Coríntios 6.11 d) Efésios 2.8-9 9. Qual é o papel das boas obras na salvação, de acordo com a lição? a) São um meio de obter a salvação. b) São uma resposta de gratidão à graça de Deus. c) São a base da justificação. d) São inúteis na vida do cristão.

10. Qual passagem bíblica destaca a base da nossa nova vida em Cristo? a) Colossenses 2.14 b) 2 Coríntios 1.9 c) Romanos 8.1 d) Filipenses 3.9 Exercícios on-line: https://forms.gle/wamHCPhY7pD4cNRp7

Os cinco aspectos do chamado de Levi e as características de uma verdade…+

1. O Chamado para os pecadores

Este texto conta a historia de Jesus chamando o publicano Levi para se tornar seu discípulo. Publicanos tinham a fama de corruptos. Jesus chama os pecadores! (v.32) Ele veio buscar e salvar o perdido. Há salvação para os pecadores. A simpatia de Jesus pelos pecadores era admirável. Era visto constantemente na presença de pecadores. Era criticado por isto.

Ilustração: Carmem, da IMel do aeroporto, ficou impactada ao ver um  bêbado entrando gritando no ônibus e causando confusão. O Cobrador falou em alta voz que ele precisava de Jesus. O bêbado respondeu dizendo: "Pra mim não tem mais jeito". O cobrador falou:: "Tem jeito sim, eu era igualzinho a você e Jesus me transformou. Cântico: Só o poder de Deus, pode mudar teu ser, a prova que eu lhe dou, Ele mudou o meu." A conversão de Levi pode ter impactado positivamente a vida do publicano Zaqueu, abrindo portas para sua conversão.

2. O chamado é para o arrependimento

Arrependimento é um dos principais temas de Lucas (3:3, 8; 13: 1–5; 15: 7-10; 16:30; 17: 3–4; 24:47).

“Não vim chamar justos, e sim pecadores, ao arrependimento.” (Lc 8.32).

Aqui Jesus oferece uma imagem do verdadeiro arrependimento: é como procurar ajuda médica: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes.”(Lc 5.31).

Jesus vê oportunidade de restauração para os pecadores e trabalha para alcançar um relacionamento com eles, para que possam experimentar a cura de que precisam. Quando coletores de impostos e pecadores chegam à mesa da clínica, Jesus, o Grande Médico, não está disposto a rejeitá-los. Aquele que vier a mim, de maneira nenhuma alguma o lançarei fora.

Como nos outros eventos relatados em Lucas 4.31–5: 32, Jesus alcança todos os tipos de pessoas carentes. Todos podem se beneficiar do poder de sua presença curativa.

Jesus ama os pecadores, mas não ama o pecado. O chamado de Jesus é um chamado ao arrependimento (v.32), um chamado a conversão. Levi respondeu o chamado de Jesus abandonando a vida pecaminosa e a coletoria de impostos, assim como Pedro, Tiago e João tudo deixaram para seguir a Cristo, sem saber o que o futuro lhes reservava, confiando totalmente no Mestre. Jesus disse a mulher pega em adultério: "Eu também não a condeno. Agora vai e abandone sua vida de pecado" (Lc 8.11).

A resposta de Levi é total – ele se levantou, deixou tudo e o seguiu.

Estava acomodado ao pecado e preso a ele. Mas o chamado de Cristo é poderoso capacitando-o a erguer-se a a abandonar para poder seguir a Cristo.

Levi colocou Jesus em primeiro lugar. Segui-lo é uma prioridade.

A voz daquele que chama é poderosa para dar força para o caído se erguer, o morto ressuscitar, o acorrentado se libertar, abandonar as correntes para seguir o Senhor.

3. O chamado é para uma nova vida

Cinco vezes no Evangelho de Lucas, Jesus diz: “Siga-me” e em todas as ocasiões envolve abandonar algo precioso para o indivíduo. Implica em perder para ganhar, deixar para seguir. Nós sempre queremos conhecer o plano, o roteiro, o futuro, mas Deus nos apresenta uma pessoa e não um plano a ser seguido. Levi não vacilou, não hesitou. Obedeceu imediatamente como Pedro, Tiago, João e Zaqueu.

Disse o Apóstolo Paulo: "Aquele que está em Cristo, nova criatura sou, as coisas velhas já¡ passaram, eis que tudo se fez novo" (2 Co 5.17). Um chamado para uma vida nova, de posse de um novo coração e de uma nova mente. Levi tornar-se-á¡ um apóstolo de Jesus Cristo. Tudo se fez novo!

4. O chamado é para a comunhão

O chamado de Jesus é um chamado para segui-lo, acompanha-lo, para desfrutar da presença de Cristo. Logo a seguir, Jesus é visto na casa de Levi. Eles se tornaram amigos, companheiros de jornada.

O Evangelho de Marcos resume assim o chamado dos apóstolos: "Escolheu doze, designando-os como apóstolos, para que estivessem com ele, os enviasse a pregar" (Mc 3.14); Destacando que o chamado é em primeiro lugar para estar com ele e depois também para a pregação do Evangelho.

Levi honra a Jesus, deixando tudo, privilegiando sua companhia, e o honra também fazendo uso de seu dinheiro para dar um grande festa em homenagem a Cristo.

Apesar do baixo status social de Levi, ele se sente livre para se associar a Jesus. O convite de Jesus deixou isso claro. A comunhão de mesa no mundo antigo significava aceitação mútua.

A resposta de Jesus deixa claro que cura, não quarentena, é a mensagem do seu ministério.

5. O chamado é para a evangelização

Por fim, o chamado de Cristo é um chamado para a evangelização. É um chamado para a obra missionária de pregar as boas novas de Salvação em Cristo.

Levi, novo convertido, tão feliz e empolgado, levou Jesus para a sua casa, para os seus familiares e amigos. Ele queria que todos conhecessem a Cristo. e sabemos que ele se tornou um grande evangelista e foi o autor de um Evangelho! Ele quis contar para todo mundo quem era Jesus. Quando a gente ama, a gente não se envergonha da pessoa amada e é capaz declarar abertamente o nosso amor! “Madalena, Madalena… Eu vou contar pra todo mundo…”.

“Como nos outros eventos relatados em Lucas 4.31–5: 32, Jesus alcança todos os tipos de pessoas carentes. Todos podem se beneficiar do poder de sua presença curativa. Alguns ainda se sentem desconfortáveis ​​com esse ministério aberto, mas esse é o evangelismo em sua forma mais autêntica. O ministério de Jesus é sobre compaixão e graça. Quando Jesus proclama o amor de Deus, o estranho sabe que Jesus quer dizer isso. Suas palavras e ações mostram isso. Na sua abertura, Jesus corre o risco de ser criticado e ridicularizado. Mas, dado que Jesus busca tais contatos com entusiasmo, seus discípulos podem fazer o contrário? … A tragédia é que, depois que as pessoas estão na igreja há um tempo, elas têm dificuldade em se relacionar com pessoas de fora. Jesus não sofre com esse problema; ele conscientemente faz um esforço para se associar com pessoas de fora de sua comunidade. Ele não foge ou se esconde do mundo em necessidade, mas se envolve com ele de forma realista para que suas reais necessidades possam ser atendidas. Muitas vezes, o que conquista alguém de fora para Deus é uma amizade genuína.” (Bock, D.L. (1994). Lucas (Lc 5,27). Downers Grove, IL: InterVarsity Press.).

Levi não hesitou, aceitou com entusiasmo o chamado para deixar a vida pregressa e abraçar uma nova vida seguindo os passos de Cristo em comunhão com Ele e seus discípulos. Mas ele não apenas desfrutou de maneira egoísta deste chama, entendendo que ele não era única e tão somente para si ou para uns poucos escolhidos, mas que era extensivo a todos os seus familiares e amigos e a todo o mundo.

E você, como tem respondido ao chamado de Jesus? Qual o grau de prioridade de Cristo em sua vida? Você tem assumido o papel de embaixador de Cristo e tem atuado como sal da terra e luz do mundo, levando outros a Jesus? Em seu relacionamento com os não crentes, você tem promovido salvação e transformação ou tem sido contaminado pelo pecado?

No amor do Senhor, Bispo Ildo Mello

O Caminho da Fé: Encontrando Salvação na Cruz de Cristo+

Olhar para Cristo: a única exigência

Para alcançar a salvação, Deus exige uma única coisa dos seres humanos: fé naquele que Ele enviou (João 3.16; 6.29). Assim como Moisés ergueu a serpente de bronze para que os feridos pudessem olhar e ser curados (Números 21.8-9), Deus enviou Seu Filho ao mundo para ser levantado na cruz. Todos os condenados que olharem para a cruz de Cristo com fé encontrarão a vida eterna (João 3.14 -16).

Imagine o olhar de um moribundo, um perdido, que coloca sua esperança no remédio provido por Deus. O justo que nunca pecou assumiu nossa condição. Ele foi levantado para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (João 3.16).

Olhe para Ele. Esse ato de olhar para Cristo é o que Deus espera de você. Não é um ato grandioso nem uma grande realização humana. A grande realização foi a de Cristo Jesus na cruz. Ele é o Salvador. Ele pagou o preço, carregou nossos pecados, morreu, derramou Seu sangue e, pelas Suas chagas, nós, moribundos, perdidos e fracos, somos sarados (Isaías 53.5).

É você, em sua pequenez e miséria, clamando como o cego de Jericó: “Jesus, Filho de Davi, tenha misericórdia de mim” (Marcos 10.47). E a graça se manifesta salvadora.

A fé que reconhece a própria condição

Quem realmente crê e olha com fé para a cruz reconhece sua condição perdida e vê na obra sacrificial do Filho de Deus sua única esperança de salvação (João 3.14 -16). Jesus veio para salvar e não para condenar, mas aqueles que se recusam a crer nele rejeitam o amor salvador de Deus e escolhem permanecer em sua condição de perdição (João 3.17 -18). Muitos preferem as trevas à luz, temendo o que a luz possa revelar sobre eles (João 3.19 -20). Em seu orgulho, escolhem as trevas, vivendo de aparência e adotando a hipocrisia como estilo de vida. Orgulho e autossuficiência impedem o reconhecimento da necessidade de Deus (Tiago 4.6).

O que Jesus chama de “praticar a verdade”

Jesus usa o termo “verdade” para expressar a realidade efetiva da vida em contraposição a toda aparência e a todo encobrimento da realidade pela mentira. Praticar a verdade significa reconhecer a própria pecaminosidade e necessidade de salvação, abandonando a escuridão e buscando a luz de Cristo (João 3.21). É um ato de honestidade espiritual, não apenas intelectual. Não se trata de salvação pelas obras, mas de um arrependimento sincero que requer coragem para enfrentar a verdade sobre si mesmo e sobre a necessidade de salvação. Portanto, aceitar a luz de Deus que revela e cura envolve abandonar a escuridão e aproximar-se da luz (1 João 1.6-7).

Praticar a verdade, portanto, significa arrepender-se. É deixar a escuridão que nos encobre e entrar na luz, onde nossas obras são expostas. Podemos nos arriscar a dar esse passo somente quando essa luz reveladora de Deus em Jesus é reconhecida simultaneamente como luz salvadora e renovadora. Arrependimento verdadeiro, sem restrições, acontece unicamente diante da cruz. No entanto, essa penitência, esse tornar-se verdadeiro na luz e, ainda, essa fé no Filho de Deus exaltado na cruz, o Salvador dos que estão perdidos em si mesmos, são obras “feitas em Deus”. Isso se confirma pela própria resposta de Jesus à pergunta de como se pode realizar as obras de Deus: “A obra de Deus é esta: que creiais naquele que por ele foi enviado” (João 6.28 -29).

Nicodemos e a dificuldade de vir à luz

Como os fariseus, Nicodemos tinha dificuldade em expor-se francamente à luz. Note que ele procurou a Jesus de maneira discreta durante a noite para não comprometer sua reputação entre os demais líderes judeus que rejeitavam a Jesus.

O Filho Pródigo: a verdade que leva de volta ao Pai

O Filho Pródigo exemplifica como a prática da verdade leva ao reconhecimento de nossa real condição, ao arrependimento, à confissão e à restauração na relação com Deus (Lucas 15.11 -32). Jesus destacou que as prostitutas e os publicanos precederiam os fariseus no reino dos céus, pois estavam mais dispostos a reconhecer a verdade sobre si mesmos do que os religiosos hipócritas que se orgulhavam de suas obras exteriores enquanto ocultavam a realidade de seus corações (Mateus 21.31 -32).

João 3.21 fala sobre a diferença entre aqueles que praticam a verdade e aqueles que vivem na escuridão. É importante entender que essas palavras não estão apenas direcionadas a um grupo específico de “pessoas boas”, mas a todos. Historicamente, os publicanos e as prostitutas entraram no reino dos céus antes daqueles que se consideravam justos (Mateus 21.31 -32).

No versículo 19, João destaca que todos os seres humanos são inclinados à escuridão. Ele não está falando sobre uma classe especial de “pessoas más”, mas sobre a humanidade em geral. Todos, sem exceção, preferem a escuridão à luz por natureza.

Para Jesus, “praticar a verdade” significa abandonar a escuridão e assumir a realidade tal como ela é, um ato que chamamos de “arrependimento”. É entrar na luz, onde nossas obras são expostas. Podemos tomar esse passo somente quando reconhecemos que a luz reveladora de Deus em Jesus também é salvadora e renovadora.

A heresia do universalismo+

Os defensores do universalismo proclamam a salvação incondicional de toda a raça humana, independentemente da fé, arrependimento, ou comportamento moral. No entanto, tal ensino contraria diretamente as palavras de Cristo, que advertiu sobre o caminho estreito que conduz à salvação e sobre o Juízo Final, onde haverá separação entre os justos e os ímpios. O universalismo, ao tentar tornar o Evangelho mais "digerível" e agradável à sociedade contemporânea, ignora essas verdades fundamentais, comprometendo a mensagem essencial do Evangelho.

De acordo com a perspectiva universalista, religiosos e não religiosos, crentes e ateus, cristãos e adoradores da Besta, honestos e desonestos, apóstolos e fariseus — a quem Jesus chamou de "raça de víboras" — todos, sem exceção, herdarão o Reino dos Céus. Isso inclui até mesmo figuras históricas notoriamente perversas, como Hitler. No entanto, essa visão está em clara oposição às palavras de Jesus. Ele declarou: "Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos Céus" (Mateus 5:3, NVI). O universalismo, por outro lado, sugeriria: "Bem-aventurados os soberbos, pois deles também é o Reino dos Céus".

Jesus disse: "Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus" (Mateus 5:8, NVI). Mas, segundo o universalismo, "Bem-aventurados os impuros de coração, pois eles também verão a Deus". Enquanto Jesus proclamou: "Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos Céus" (Mateus 5:10, NVI), o universalismo poderia alegar: "Bem-aventurados os corruptos e opressores, pois deles também é o Reino dos Céus". O universalismo ignora as advertências de Cristo, como: "Vigiem e orem para que vocês possam escapar de tudo o que está para acontecer e estar de pé diante do Filho do Homem" (Lucas 21:36, NVI). Segundo o universalismo, a vigilância e a oração seriam irrelevantes, já que todos, independentemente de suas ações ou crenças, estariam salvos no final.

Essa visão torna irrelevantes o arrependimento e a fé para a salvação, sugerindo que todos, eventualmente, serão salvos. Contudo, as Escrituras ensinam claramente que a pregação do Evangelho é necessária para a salvação e que haverá um Juízo Final, onde se dará a separação entre salvos e perdidos. O Apocalipse adverte: "Aquele cujo nome não foi encontrado no livro da vida foi lançado no lago de fogo" (Apocalipse 20:15, NVI). Paulo reforça essa ideia ao dizer: "Todavia, por causa da sua teimosia e do seu coração obstinado, você está acumulando ira contra si mesmo para o dia da ira de Deus, quando se revelará o seu justo julgamento" (Romanos 2:5, NVI).

Deus é amor, mas Ele também é justo juiz e "fogo consumidor" (Hebreus 12:29, NVI). Jesus ensinou que, no dia do Juízo Final, haverá uma separação eterna entre os salvos e os perdidos (Mateus 25:31-46, NVI). O destino dos perdidos será o inferno, conforme Jesus advertiu: "Se o seu olho direito o fizer pecar, arranque-o e lance-o fora. É melhor perder uma parte do corpo do que ser todo ele lançado no inferno" (Mateus 5:29, NVI). Ele também afirmou: "Se alguém não permanecer em mim, será como o ramo que é jogado fora e seca. Tais ramos são apanhados, lançados ao fogo e queimados" (João 15:6, NVI).

Diante disso, fica claro que o universalismo não só distorce a mensagem do Evangelho, mas também desconsidera as sérias advertências de Cristo sobre o julgamento e a necessidade de fé e arrependimento. Portanto, devemos estar vigilantes contra essa perigosa heresia, que ameaça comprometer a integridade da fé cristã.

Poder do Evangelho para a salvação de todo aquele que crê+

O Evangelho de Cristo é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, tanto do judeu quanto do grego (Romanos 1:16). Através da pregação da palavra de Deus, a fé é suscitada no coração dos que ouvem (Romanos 10:17). A Palavra de Deus é viva e eficaz, penetrando em nossos corações, discernindo nossos pensamentos e intenções (Hebreus 4:12). Assim, o Evangelho se torna a força transformadora que traz vida eterna àqueles que creem.

Deus, em Sua soberania e amor, providencia a salvação a todas as pessoas através do poder do Evangelho. A salvação é disponível para todos, pois a fé vem pelo ouvir da palavra da verdade, o Evangelho da salvação em Cristo (Efésios 1:13). Através da pregação do Evangelho, Deus chama todos os seres humanos ao arrependimento e à fé em Jesus Cristo (Atos 17.30 e Marcos 16:15-16). Aqueles que ouvem a palavra e creem no Filho de Deus têm vida eterna, passando da morte para a vida (João 5:24).

Entretanto, a ação do Espírito Santo na salvação não é coerciva e irresistível, permitindo que as pessoas sejam livres para escolher ouvir e responder à mensagem de Deus (Hebreus 3.7; Atos 7.51). Jesus repreendeu os líderes religiosos de seu tempo, apontando que, embora eles estudassem as Escrituras, recusavam-se a vir a Ele para terem vida (João 5:39-40). A fé em Cristo é alcançável para todos, mas é preciso que as pessoas se arrependam e aceitem o chamado de Deus para a salvação (2 Pedro 3.9; Tito 2.11; João 3.16; Atos 2.21; Apocalipse 22.17).

A Palavra de Deus nos assegura que Ele deseja que todos sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade (1 Timóteo 2:4). A expiação de Cristo foi ilimitada, suficiente para todos os pecadores. Ele deu a Si mesmo em resgate por todos (1 Timóteo 2:6), e é o Mediador entre Deus e a humanidade (1 Timóteo 2:5). Deus não tem prazer na morte do ímpio, mas deseja que todos se convertam e vivam (Ezequiel 33:11).

O chamado de Deus para a salvação é universal, e a oferta de vida eterna está disponível para todos os que creem em Cristo (João 3:16). Por meio do Evangelho, Deus age no coração humano, capacitando-o a responder ao Seu chamado com fé, aceitar a graça salvadora de Cristo e receber a vida eterna em Seu nome (João 20:30-31).

Em conclusão, o poder do Evangelho para a salvação é evidente em sua capacidade de despertar a fé nos corações, permitindo que todos aqueles que ouvem e creem em Jesus Cristo sejam salvos. A ação do Espírito Santo é habilitadora, não coerciva, e Deus ordena a todas as pessoas em todos os lugares que se arrependam e recebam o dom da salvação através do Evangelho de Cristo. Que todos possam ouvir a mensagem da graça divina e experimentar a transformação e a vida eterna que só podem ser encontradas em Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador. Amém.

Morando na Casa da Graça+

John Wesley, o grande avivalista e teólogo metodista, tinha uma maneira belíssima e prática de falar sobre a salvação. Para ele, a obra de Deus na vida do ser humano podia ser comparada a uma casa — e cada etapa da salvação era como um ambiente que vamos conhecendo, habitando e sendo transformados por ele.

A graça preveniente é o caminho até a casa. Mesmo quando não sabíamos, Deus já estava à nossa procura. Ele nos viu de longe, feridos e perdidos, e saiu ao nosso encontro. Foi Ele quem construiu a estrada, limpou os obstáculos e nos atraiu com cordas de amor. Quantas vezes, sem perceber, nosso coração foi tocado por pensamentos de eternidade, pela beleza da criação, pelo desconforto do pecado? Isso já era Deus nos chamando: “Venha para casa, filho meu.”

A graça convincente é a varanda da casa. Quando finalmente nos aproximamos, começamos a enxergar nossa condição: sujos, cansados, vazios. É o Espírito Santo quem acende a luz da consciência e nos mostra que algo precisa mudar. O coração se aperta, os olhos se enchem, o joelho se dobra. E então entendemos: “Eu preciso de perdão.” Não é só emoção — é Deus nos convencendo de que só Ele pode limpar, curar, restaurar. Estamos na soleira, desejando entrar.

A graça justificadora é a porta da casa. E que porta linda! Ela tem o nome de Jesus. Quem entra por ela encontra abrigo, perdão e reconciliação. Deus não apenas nos perdoa, Ele nos adota. Agora não somos mais estranhos — somos filhos ! A vergonha fica do lado de fora. O Pai nos cobre com vestes novas, nos dá um nome e diz: “Você pertence a Mim.” A porta está sempre aberta para todo o que crê. Basta dar o passo da fé.

A graça santificadora é a vida dentro da casa. Agora começamos a explorar os cômodos — o quarto da oração, a cozinha da comunhão, a sala da Palavra. Às vezes, encontramos bagunças e áreas mal iluminadas dentro de nós. Mas o Pai não nos expulsa — Ele nos ajuda a limpar. Dia após dia, Ele vai tornando a casa mais parecida com Jesus. É dentro dessa casa que aprendemos a amar, a perdoar, a servir. A graça que nos justificou continua operando, agora nos moldando. E quanto mais habitamos, mais queremos que cada canto do nosso ser seja dEle.

A graça glorificadora é o destino eterno da casa. Um dia, deixaremos a tenda terrena e entraremos na morada celestial, a casa que nunca envelhece, onde não há lágrimas nem dores, onde a presença de Deus enche tudo em todos. A jornada terá fim, e a eternidade será nosso lar. Estaremos com Ele, e como Ele, para sempre.

Expiação+

A justiça de Deus é plenamente satisfeita através do sacrifício de Jesus. O sangue de Jesus derramado em favor de todos os homens é a única base de salvação. O propósito da encarnação está em que o Filho, que é o Logos do Criador, o verdade

iro e eterno Deus, composto da mesma substância do Pai, tomou a natureza humana no ventre da virgem, de modo que duas naturezas perfeitas e completas, isto é, a divina e a humana, se uniram em uma só pessoa, para nunca mais se separarem, das quais resultou Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que realmente sofreu, foi crucificado, morto e sepultado, para nos reconciliar com o Pai, e para ser um sacrifício, não só pela culpa original, mas também pelos pecados atuais dos homens. "Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos pecados de todo o mundo" (1 João 2:2).

A expiação é universal. Isso não significa que toda a humanidade será incondicionalmente salva, mas que a oferta sacrificial de Cristo satisfez as exigências da lei divina e tornou a salvação uma possibilidade para todos. Pois, Deus, "nosso Salvador, deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus, o qual se entregou a si mesmo como resgate por todos" (1 Timóteo 2:3-6). E a condição está em que recebamos com fé a dádiva gratuita da salvação (João 3.16 e Efésios 2.8-9). "Se você confessar com a sua boca que Jesus é Senhor e crer em seu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, será salvo" (Romanos 10:9). E "todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo" (Romanos 10:13-14). Eis o convite de Deus a todos os homens: "Quem tiver sede, venha; e quem quiser, beba de graça da água da vida" (Apocalipse 22:17).

Baseado na leitura que fiz esta manhã da Teologia Cristã de H. Orton Wiley: Christian Theology – Chapter 24:

http://wesley.nnu.edu/other-theologians/henry-orton-wiley/h-orton-wiley-christian-theology-chapter-24/

Combatendo o universalismo+

O universalismo é heresia porque:

Prega a salvação incondicional de toda a raça humana, enquanto a Bíblia ensina que a salvação é mediante a fé (Jo 3.16, Rm 10.10 e Ef 2.8); Prega que são largos o caminho e a porta de salvação, enquanto Jesus ensina exatamente o contrário (Mt 7.13,14); Prega que o Espirito Santo está sussurrando aos ouvidos de cada ser humano: "você é um filho de Deus. Nenhuma condenação há para você", enquanto Jesus afirmou que o papel do Espírito Santo é "convencer o homem do pecado, da justiça e do Juízo" (Jo 16.8); Nega o Juízo Final, enquanto a Bíblia ensina que haverá um dia de Juízo Final (Mt 25.31s; Hb 9.27; 10.27; Rm 2.2 e 16; 2Tm 4.1; 2Pe 2.9; 3.7; Ap 20.13); Nega a condenação do inferno, enquanto a Bíblia ensina que o inferno é uma ameaça real (Mt 5.22; 23.33 e 25.46; Mc 9.45; Lc 12.5; 13.28; Jo 15.6 e Ap 20.15); Torna irrelevantes o arrependimento e a fé para a salvação, pois ensina que todos serão incondicionalmente salvos; Torna irrelevante também a pregação do Evangelho para a salvação, pois afirma que todos serão salvos; Serve de incentivo para a imoralidade, pois as pessoas podem deitar e rolar no pecado se acreditarem que isto não os afastará da salvação; O Apóstolo Pedro adverte a todos os cristãos, dizendo: "entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição". De modo semelhante, Paulo alerta: "E dentre vocês mesmos se levantarão homens que torcerão a verdade, a fim de atrair os discípulos" (Atos 20.30).

Portanto, todo cuidado é pouco!

Exército de Salvação completa 90 anos no Brasil!+

O Exército de Salvação está completando 90 anos de vida no Brasil. E, como parte das comemorações, estão recebendo a visita especial da Banda de Metais do Canadá, que fará uma série de apresentações em São Paulo, conforme mostra o cartaz.

Desde que iniciou as atividades na Inglaterra, em 1865, o Exército de Salvação contribui diretamente para o bem estar da sociedade.

O fundador do Exército de Salvação, William Booth, e sua esposa, Catherine foram chamados por Deus para declarar guerra ao vício e ao pecado nos bairros miseráveis da cidade de Londres.

O ministério cristão, baseado no conceito “sopa, sabão e salvação”, começou a suprir as necessidades espirituais e físicas que afligiam milhares de homens, mulheres e crianças da época. O movimento cresceu rapidamente, organizou-se e hoje atua em 124 países, pregando a palavra de Deus em mais de 175 idiomas, aliando seu trabalho evangelístico a um cunho social intenso.

O Exército de Salvação tem trabalhado intensamente para servir à humanidade sofredora. Através de ações como o auxílio à população de Santa Catarina atingida pelas enchentes em 2007, às vítimas da Guerra do Iraque, aos desabrigados de desastres naturais como o Furacão Katrina nos Estados Unidos e o Tsunami na Àsia e a promoção de programas de apoio aos portadores da AIDS no continente africano, a instituição tem aliviado o sofrimento de milhares de pessoas ao redor do mundo.

Perdoar é lixar bem para remover toda a ferrugem que corrói os relacionamentos.+

Quando eu era criança, costumava auxiliar meu pai na pintura do portão de ferro de nossa casa. Ele me ensinou que não se pode simplesmente pintar por cima da ferrugem. O primeiro passo é utilizar espátula, escova de aço e lixa de ferro para remover cuidadosamente toda a ferrugem. Aprendi também que depois do trabalho de remoção da ferrugem, é necessário passar o zarcão como medida protetiva. Então, depois destes dois passos, podemos finalmente pintar o portão. Se formos relaxados nas duas primeiras etapas, a pintura pode até ficar bonita, mas a ferrugem logo virá à tona.

O pecado é como a ferrugem que provoca terríveis corrosões nos relacionamentos humanos. Sem perdão não há verdadeira reconciliação. A ferida precisa ser devidamente espremida para expelir todo o pus a fim de que haja a cura. Perdoar é lixar bem para remover toda a impureza que corrói os relacionamentos.

Bispo Ildo Mello

Do Fracasso da Carne à Vitória do Espírito: Um Estudo Detalhado de Romanos 7.7 – 8.17+

Introdução: O Diagnóstico e a Cura

Romanos 7.7–8.17 constitui um dos textos mais debatidos de toda a literatura paulina. A questão central que divide intérpretes há séculos pode ser formulada assim: Quem é o “eu” que grita “Desventurado homem que sou!” em Romanos 7.24? Trata-se do apóstolo Paulo descrevendo sua experiência pessoal como cristão maduro, ou de um recurso retórico para retratar a condição do ser humano não regenerado, que tenta cumprir a Lei de Deus pela força da própria carne?

A resposta que damos a essa pergunta tem consequências pastorais profundas. Se o “eu” de Romanos 7.14-25 é o cristão normal, então a vida cristã é marcada por derrota contínua, escravidão moral e impotência diante do pecado. Se, porém, o “eu” retrata a condição pré-cristã ou o ser humano sob a Lei sem o poder do Espírito, então Romanos 8 se torna a descrição normativa da vida cristã: vitória, liberdade e filiação divina.

Na aula anterior, vimos que morremos para a Lei para nos casarmos com Cristo (Rm 7.1-6). Paulo estabeleceu um contraste vital nos versículos 5 e 6: a vida antiga “na carne”, onde as paixões operavam para a morte (v. 5), versus a nova vida “no Espírito” (v. 6). Nesta aula, mergulharemos na explicação detalhada desse contraste. Romanos 7.7-25 é a anatomia do fracasso do versículo 5 (o homem tentando ser santo pela Lei). Romanos 8.1-17 é a exposição da vitória do versículo 6 (o homem capacitado pelo Espírito). Entender essa distinção é vital para não normalizarmos a derrota na vida cristã.

O presente estudo defende a perspectiva armínio-wesleyana de interpretação desta passagem, apoiada pela análise retórica de estudiosos como Ben Witherington III, Craig Keener, o Comentário Beacon e a tradição exegética wesleyana mais ampla. Nosso objetivo é demonstrar, com rigor exegético e hermenêutico, que o “eu” de Romanos 7.14-25 não descreve o cristão regenerado, mas sim a humanidade caída representada em Adão, tentando cumprir a vontade de Deus sem o poder do Espírito Santo.

1. Contexto Literário: A Estrutura de Romanos 5–8

Antes de mergulhar nos detalhes exegéticos, é indispensável compreender a estrutura do argumento de Paulo em Romanos 5–8. Essa grande seção da carta trata da santificação e da vida nova em Cristo, e seu argumento se desenvolve de forma progressiva e coerente.

1.1 O pano de fundo: Adão e Cristo (Rm 5.12-21)

Paulo estabelece em Romanos 5.12-21 o grande contraste entre dois representantes da humanidade: o primeiro Adão, cuja transgressão trouxe condenação, pecado e morte sobre todos os seres humanos, e o Segundo Adão — Cristo — cuja obediência trouxe justificação, graça e vida. Este contraste entre “em Adão” e “em Cristo” funciona como a espinha dorsal teológica de toda a argumentação que se segue nos capítulos 6 a 8.

A transgressão de Adão trouxe condenação (Rm 5.16, 18), o reinado da morte (Rm 5.17) e fez de muitos pecadores (Rm 5.19). Em contraste, o ato de justiça de Cristo trouxe justificação e vida (Rm 5.18), graça abundante (Rm 5.20) e o reinado pela justiça para a vida eterna (Rm 5.21). Este é o pano de fundo essencial para compreender Romanos 7.

1.2 Libertação do pecado e da Lei (Rm 6.1–7.6)

Em Romanos 6, Paulo declara enfaticamente que os cristãos foram libertados da escravidão do pecado. As afirmações são claras e categóricas:

“E, uma vez libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça… para a santificação. Porque, quando éreis escravos do pecado… que resultados colhestes? Somente as coisas de que, agora, vos envergonhais; Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna” (Rm 6.18-22).

Observe a ênfase: éreis escravos (passado), agora libertados (presente). A escravidão ao pecado é descrita como condição passada, superada pela união com Cristo na sua morte e ressurreição.

1.3 O resumo-chave: Romanos 7.5-6

Os versículos 5 e 6 do capítulo 7 funcionam como um resumo programático que antecipa todo o desenvolvimento posterior. Paulo contrasta duas condições:

“Porque, quando vivíamos segundo a carne, as paixões pecaminosas postas em realce pela lei operavam em nossos membros, a fim de frutificarem para a morte. Agora, porém, libertados da lei, estamos mortos para aquilo a que estávamos sujeitos, de modo que servimos em novidade de espírito e não na caducidade da letra” (Rm 7.5-6).

A estrutura é cristalina: o versículo 5 descreve a condição pregressa (“quando vivíamos segundo a carne”), e o versículo 6 descreve a condição atual (“agora, porém, libertados”). A partir dos versículos 7 a 25, Paulo detalha a condição descrita no versículo 5. E no capítulo 8.1-17, Paulo detalha a condição descrita no versículo 6. Note que tanto 7.6 quanto 8.1 são introduzidos pelo advérbio “agora”, reforçando o contraste com a vida pregressa e estabelecendo a continuidade entre ambos.

2. A Lei é Pecado? A Defesa da Lei (Rm 7.7-13)

Se fomos “libertados da Lei” (7.6) e se as “paixões pecaminosas” eram excitadas pela Lei (7.5), alguém poderia perguntar: “A Lei é pecado?”. Paulo responde com um veemente “De modo nenhum!” (Rm 7.7). É fundamental notar que Paulo está aqui respondendo a uma questão apresentada de modo retórico por interlocutores fictícios que representam os judeus e suas inquietações quanto ao valor da Lei.

2.1 A função reveladora da Lei (v. 7)

A Lei funciona como um raio-X: ela revela a fratura, mas não cura o osso. Paulo diz que não conheceria a cobiça se a Lei não dissesse “Não cobiçarás”. A Lei define o pecado e arranca a máscara da nossa pretensa inocência. Ela é santa, justa e boa (v. 12), mas não tem o poder de transformar o coração humano.

2.2 O pecado como oportunista (vv. 8-11)

A culpa não é da Lei, mas do pecado que habita no ser humano caído. O pecado usa a Lei como uma “base de operações” (aphormē — ocasião, ponto de partida) para nos enganar. Assim como a serpente usou o mandamento no Éden para seduzir Eva, o pecado usa a proibição para despertar o desejo rebelde. O problema não é o mandamento “santo, justo e bom” (v. 12), mas a natureza carnal que reage a ele com rebeldia.

Observe que o versículo 11 emprega linguagem que ecoa claramente a narrativa da queda em Gênesis 3: “Porque o pecado, prevalecendo-se do mandamento, pelo mesmo mandamento, me enganou e me matou.” O verbo “enganou” (exēpatēsen) é o mesmo usado pela LXX em Gênesis 3.13 para descrever a ação da serpente sobre Eva. Isto fortalece a tese de que Paulo está descrevendo retoricamente a experiência de Adão como representante da humanidade caída.

2.3 Adão é o único que viveu “sem lei” (v. 9)

Paulo afirma: “Eu, outrora, sem lei, vivia; mas, sobrevindo o preceito, reviveu o pecado, e eu morri” (v. 9). Quem viveu “sem lei” e depois recebeu um “preceito”? Na história bíblica, Adão é o único que viveu um período sem mandamento proibitivo e depois recebeu uma ordem específica. Aliás, o contraste entre Adão e Cristo que Paulo estabeleceu em Romanos 5.12-21 funciona como pano de fundo para todo o capítulo 7. Paulo está dando continuidade à descrição dos efeitos drásticos da Queda.

3. O “Eu” de Romanos 7.14-25: A Grande Controvérsia

Chegamos ao centro da controvérsia. Quem é o homem que diz: “O bem que prefiro não faço, mas o mal que não quero, esse faço” (v. 19)? E quem grita: “Desventurado homem que sou!” (v. 24)?

Há duas posições principais na história da interpretação:

Posição 1 (Agostiniano-Reformada): A tradição agostiniana e reformada (Agostinho tardio, Lutero, Calvino) geralmente afirma que este é o cristão maduro lutando contra a carne. Segundo essa posição, Paulo descreve tanto sua própria experiência quanto a de todos os cristãos genuínos.

Posição 2 (Armínio-Wesleyana): A tradição armínio-wesleyana, apoiada por muitos Pais da Igreja anteriores a Agostinho (Irineu, Orígenes, Crisóstomo, Metódio), bem como por exegetas modernos como Keener e Witherington, afirma que o “eu” é retórico e descreve a condição do ser humano sob a Lei, sem o poder do Espírito.

É importante notar que o próprio Agostinho, em seus escritos anteriores, interpretava Romanos 7.14-25 como referente ao ser humano não regenerado. Foi somente em sua controvérsia com os pelagianos que ele mudou de posição, passando a aplicar o texto ao cristão. Esta mudança foi motivada por razões polêmicas, não estritamente exegéticas.

4. Argumentos da Posição Agostiniano-Reformada

Em nome da honestidade intelectual e do rigor acadêmico, apresentamos os principais argumentos daqueles que entendem que Romanos 7.14-25 se refere ao cristão, para depois oferecer a resposta wesleyana.

A mudança para o tempo presente (v. 14ss). Os verbos passam do passado (vv. 7-13) para o presente (vv. 14-25), sugerindo que Paulo fala de sua condição atual.

O deleite na lei de Deus (v. 22). Uma pessoa não regenerada não teria “prazer na lei de Deus, no tocante ao homem interior”.

A distinção entre o “eu” e a “carne” (v. 18). A capacidade de distinguir entre o verdadeiro “eu” e a carne pressupõe regeneração.

A libertação do corpo pecaminoso é futura (v. 24; cf. 8.10, 11, 23). O gemido por libertação reflete a tensão escatológica do “já e ainda não”.

A tensão de 7.25. A declaração final — “com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado” — reflete a experiência real do cristão.

Cristãos são justos, mas não perfeitos. Os cristãos já são justos em Cristo, mas não são aperfeiçoados até o dia da redenção.

5. A Resposta Wesleyana: Sete Razões Exegéticas Decisivas

A exegese armínio-wesleyana responde a cada um desses argumentos e oferece razões exegéticas robustas para rejeitar a aplicação de Romanos 7.14-25 ao cristão regenerado. Apresentamos agora as sete razões decisivas.

5.1 A estrutura da passagem: o resumo de 7.5-6 determina a leitura

Como demonstramos na seção 1.3, os versículos 5 e 6 funcionam como um sumário programático. O versículo 5 descreve a vida pregressa na carne; o versículo 6 descreve a vida atual no Espírito. A sequência de 7.7-25 é o detalhamento do versículo 5, e 8.1-17 é o detalhamento do versículo 6. A própria arquitetura do texto aponta para esta leitura.

5.2 O presente dramático como recurso retórico

A mudança para o tempo presente nos verbos (v. 14ss) não indica necessariamente experiência pessoal atual. Paulo utiliza o presente dramático e a primeira pessoa (“eu”) como um recurso retórico amplamente reconhecido na antiguidade: a prosopopeia (personificação ou discurso em persona). Este recurso serve para acentuar a vivacidade retórica, funcionando como o “presente histórico” na narrativa.

Paulo faz extenso uso da diatribe ao longo de toda a carta aos Romanos, estabelecendo diálogos com interlocutores fictícios. Exemplos claros aparecem em: 2.1-6; 2.17-24; 3.1-9; 3.27–4.25; 9.19-21; 10.14-21; 11.17-24; 14.4, 10-11. Elementos típicos da diatribe em Romanos incluem exclamações dramáticas como “De modo nenhum!” (3.4, 6, 31; 6.2, 15; 7.7, 13; 9.14; 11.1, 11) e fórmulas de inferência como “Que diremos, pois?” (3.1, 9; 4.1; 6.1, 15; 7.7; 8.31; 9.14, 30; 11.7). Assim, Paulo usa um “eu” retórico para falar de si na qualidade de judeu ainda não redimido, sem confrontar diretamente seus conterrâneos.

5.3 A contradição insustentável com Romanos 6

Se Paulo estivesse falando de si mesmo como cristão em Romanos 7.14-25, ele estaria se contradizendo frontalmente com o que acabara de afirmar com tanta clareza. Em Romanos 6.18, 22, ele declara que os cristãos foram “libertados do pecado” e feitos “servos da justiça para a santificação”. Porém, em Romanos 7.14, o “eu” é descrito como “carnal, vendido à escravidão do pecado”. Um cristão não pode ser simultaneamente livre e escravo do pecado.

“Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos?” (Rm 6.2).

O próprio Paulo vivia em santidade e não em pecado. Tanto que pôde exortar os cristãos a seguirem o seu exemplo de vida: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1Co 11.1). Como poderia Paulo afirmar ao mesmo tempo que era imitador de Cristo e que era “carnal, vendido à escravidão do pecado”? Veja também o que Paulo afirma a respeito de si mesmo em Filipenses 3.4-6: “segundo a justiça que há na lei, irrepreensível”.

5.4 A contradição insustentável com Romanos 8

A mesma contradição se repete quando comparamos com o capítulo 8. Paulo declara categoricamente:

“Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte… Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito… do seu Espírito, que em vós habita” (Rm 8.1-2, 9, 11).

Se o cristão é descrito em 8.9 como alguém que “não está na carne, mas no Espírito”, como poderia o mesmo Paulo descrever o cristão em 7.14 como “carnal”? Dizer que os cristãos são “carnais, vendidos à escravidão do pecado” (7.14) e que cada um deles segue como “prisioneiro à lei do pecado” (v. 23) contraria frontalmente o ensino dos capítulos 6 e 8.

5.5 O desejo pela Lei não exige regeneração

O argumento de que o “deleite na lei de Deus” (v. 22) pressupõe regeneração desconhece a realidade do judeu piedoso. O desejo de guardar a lei de Deus reflete perfeitamente a mentalidade do judeu devoto que quer viver uma vida moral. Como os próprios versículos enfatizam, essas pessoas desejam cumprir a Lei, mas não conseguem e não podem fazê-lo por estarem sob a escravidão do pecado. A religiosidade sincera não é exclusiva dos regenerados. Saulo de Tarso, antes da conversão, era extremamente zeloso pela Lei.

Craig Keener observa que o tipo de luta descrita em 7.14-25 ressoaria com muitas pessoas na antiguidade. O judaísmo falava de um impulso maligno (yetzer), e mestres posteriores argumentavam que o aprendizado da Torá fortaleceria o bom impulso contra o impulso maligno. Alguns judeus da diáspora também argumentavam que a Lei permitia governar as paixões. A descrição de Paulo, porém, é hiperbólica: a completa incapacidade de fazer o certo e a compulsão involuntária para cometer o mal (7.15-20) soa mais como possessão do que mera frustração moral.

5.6 O versículo 13 explica a morte de Paulo como incrédulo

O verso de abertura da seção (v. 13) explica como a Lei trouxe morte a Paulo quando ainda era o incrédulo Saulo: “Acaso o bom se me tornou em morte? De modo nenhum! Pelo contrário, o pecado, para revelar-se como pecado, por meio de uma coisa boa, causou-me a morte, a fim de que, pelo mandamento, se mostrasse sobremaneira maligno.” O contexto é claramente o da condição pré-cristã.

5.7 Paulo vivia em santidade, não em escravidão

Romanos 7.7-25 descreve uma pessoa carnal que não tem o Espírito Santo habitando nela. Saulo poderia afirmar tais coisas, mas Paulo jamais diria: “em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum” (v. 18); “não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço” (v. 19); “o pecado que habita em mim” (v. 20).

Paulo vivia em santidade e se apresentava como exemplo a ser imitado: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1Co 11.1). “Finalmente, irmãos, nós vos rogamos e exortamos no Senhor Jesus que, como de nós recebestes, quanto à maneira por que deveis viver e agradar a Deus, e efetivamente estais fazendo, continueis progredindo cada vez mais” (1Ts 4.1).

Paulo também declarou: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o qual me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2.20). Como conciliar essa declaração com “sou carnal, vendido à escravidão do pecado”?

6. O Silêncio Eloquente do Espírito Santo

A evidência talvez mais gritante a favor da interpretação wesleyana é a completa ausência do Espírito Santo em Romanos 7.7-25. Nos versículos 7 a 25, a Lei é mencionada diversas vezes, e o “eu” (egō) é o centro da luta. O Espírito Santo não é mencionado nenhuma vez sequer.

Em contraste dramático, Romanos 8 contém 19 referências à pessoa e à obra do Espírito Santo! Esta assimetria não é acidental; ela revela a própria essência do argumento de Paulo: Romanos 7 descreve o ser humano tentando cumprir a vontade de Deus pela força da própria carne, sem o Espírito; Romanos 8 descreve o ser humano capacitado e dirigido pelo Espírito de Deus.

O trecho de Romanos 7.14-25 descreve, portanto, a falência do esforço humano. É o homem moral ou religioso tentando cumprir a vontade de Deus com a força da sua própria carne. O resultado é inevitável: derrota, cativeiro e desespero. Deus permite essa frustração para nos levar ao fim de nós mesmos, para que gritemos por socorro: “Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (v. 24).

7. A Tabela de Contrastes: Romanos 7 versus o Contexto

A tabela a seguir, baseada na análise de Craig Keener, demonstra visualmente como as descrições do “eu” em Romanos 7.7-25 são incompatíveis com o que Paulo afirma sobre os crentes no contexto mais amplo da carta. Os contrastes são tão marcantes que tornam insustentável a identificação do “eu” com o cristão regenerado.

O “eu” de Romanos 7.7-25 Os crentes no contexto

Sob o domínio da Lei, do pecado e da morte (7.7-13) Libertados da Lei (7.4, 6; 8.2), do pecado (6.18, 20, 22) e da morte (5.21; 6.23; 8.2)

Sou carnal (7.14) Não estais na carne, mas no Espírito (8.9); viver na carne é coisa do passado (7.5)

Vendido à escravidão do pecado (7.14, 23) Libertados da escravidão do pecado (6.18, 20, 22); “redimidos” (3.24)

Conhece o certo, mas não consegue praticá-lo (7.15-23) Poder para viver em retidão (8.4), não conferido pela Lei externa (8.3)

O pecado habita em mim e me domina (7.17, 20) O Espírito habita nos crentes (8.9, 11)

Nada de bom habita em mim/na minha carne (7.18) O Espírito de Deus habita nos crentes (8.9, 11)

A lei do pecado domina seus membros corporais (7.23) Os crentes foram libertados da lei do pecado (8.2)

O pecado vence a guerra e me captura como prisioneiro (7.23) Os crentes vencem as batalhas espirituais (8.2, 13, 37; 2Co 10.3-5)

Anseia por libertação do “corpo da morte” (7.24) Os crentes foram libertos do caminho da morte (8.2, 10-13)

Escravo da lei do pecado na carne (7.25) Libertados da lei do pecado (8.2; 6.18, 20, 22); guiados pelo Espírito (8.5-9, 14)

Como observa Keener: “Idealmente, a representação de Paulo não pode se referir a um crente, muito menos a alguém que abraça a teologia de Paulo de uma nova vida em Cristo. Isso não é afirmar que nenhum crente jamais compartilharia quaisquer elementos da descrição, mas qualquer crente que fizesse isso estaria pensando de uma maneira incompatível com o ensinamento de Paulo sobre a Lei.”

8. A Virada Gloriosa: A Vida no Espírito (Rm 8.1-17)

A resposta ao grito de “Quem me livrará?” (7.24) é “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor!” (7.25). O capítulo 8 começa com a palavra “Portanto” (ou “Agora, pois”), inaugurando a descrição da vida normativa do cristão.

8.1 Nenhuma condenação e a nova Lei (8.1-4)

“Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte” (Rm 8.1-2).

Observe a troca de “leis”: o crente foi liberto da “lei do pecado e da morte” (a força gravitacional que puxa para baixo em Romanos 7) pela “lei do Espírito da vida” (a dinâmica da graça que nos capacita a viver para Deus). O que fora impossível à Lei, por causa da fraqueza da carne, Deus realizou enviando seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa (v. 3).

O versículo 4 é crucial para a teologia wesleyana: “a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm 8.4). Note: a justiça da Lei se cumpre em nós (en hēmin). Através do Espírito, à medida que não andamos segundo a carne, a santidade torna-se uma realidade prática, não apenas uma imputação forense. Cumpre-se em Cristo a promessa profética: “Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis” (Ez 36.27).

8.2 A mentalidade do Espírito versus a mentalidade da carne (8.5-11)

Paulo estabelece uma antítese absoluta, sem meio-termo. A mente voltada para a carne é inimizade contra Deus, não pode agradar a Deus e conduz à morte (vv. 6-8). A mente voltada para o Espírito é vida e paz (v. 6). O teste de um cristão genuíno não é a perfeição absoluta, mas a habitação e a direção do Espírito: “Se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (v. 9).

Note como Paulo descreve a incapacidade descrita em Romanos 7 como característica daqueles que estão na esfera da carne: “O pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus” (vv. 7-8). Mas imediatamente acrescenta: “Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito” (v. 9). A incapacidade de Romanos 7 pertence àqueles que estão “na carne” — e Paulo afirma categoricamente que os cristãos não estão mais nessa condição.

8.3 Adoção, herança e certeza (8.12-17)

A vida no Espírito não é apenas ética; é relacional. O Espírito nos confere o espírito de adoção, pelo qual clamamos “Aba, Pai” (v. 15). O Espírito expulsa o medo escravizador (típico da condição descrita em Romanos 7) e nos dá a certeza da salvação que é tão cara à teologia wesleyana: “O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (v. 16).

Ao mesmo tempo, Paulo enfatiza que a vitória não é automática; ela requer cooperação ativa com a graça de Deus: “Se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente vivereis” (v. 13). O cristão é chamado a “mortificar” (fazer morrer) continuamente os feitos do corpo pelo Espírito. Há uma sinergia entre a graça divina e a responsabilidade humana — Deus capacita, mas o crente coopera ativamente.

Como escreveu Paulo aos filipenses: “Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.12-13). O Espírito intercede, o Pai age, o crente desenvolve sua salvação — e tudo isso conduz à santidade e à vida eterna.

9. Implicações Pastorais e Teológicas

9.1 A santificação como realidade possível

A interpretação wesleyana de Romanos 7–8 tem implicações diretas para a doutrina da santificação. Se Romanos 7 descreve a condição pré-cristã, então Romanos 8 se torna o padrão normativo da vida cristã. O ensino de Paulo é que a Lei exige, mas não capacita o ser humano à obediência. Porém, o que fora impossível através da operação externa da Lei, por conta da pecaminosidade da natureza humana, agora torna-se possível pela operação interna do Espírito Santo que liberta e regenera o crente.

9.2 A luta cristã é diferente da escravidão

É preciso esclarecer: afirmar que Romanos 7 não descreve o cristão não significa dizer que o cristão não enfrenta lutas contra o pecado. Os defensores de ambas as posições concordam que: (1) os cristãos ainda lutam contra o pecado ao longo de toda a vida (Gl 5.17; 1Jo 1.8-9); e (2) os cristãos podem e devem crescer em santificação pelo poder do Espírito (Rm 8.2, 4, 9, 13-14).

A diferença crucial é a seguinte: embora os cristãos tenham de batalhar contra o pecado, eles travam esta luta com confiança na força do Espírito Santo que neles habita, revestidos de toda a armadura de Deus (Ef 6.10-17). Eles seguem sujeitos a tropeços (Tg 3.2), mas contam com o poderoso auxílio “daquele que é poderoso para os guardar de tropeços e para os apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória” (Jd 24). Há uma diferença abismal entre ser escravo derrotado e ser soldado que eventualmente tropeça, mas tem poder para vencer.

9.3 A certeza da salvação e a responsabilidade humana

A teologia wesleyana sustenta tanto a segurança da salvação quanto a responsabilidade do crente. Ao listar o que não pode nos separar do amor de Deus (Rm 8.38-39), Paulo não menciona o próprio crente. Os wesleyanos argumentam que a liberdade que temos em Cristo inclui a liberdade que Adão e Eva tinham no Éden: de viver a vida justa ou de se afastar da comunhão com Deus pela incredulidade. Somos livres para amar e servir a Deus, e nada externo pode separar-nos desse amor, pois nossa fé e Seu amor estão ambos enraizados em Cristo Jesus, nosso Senhor (v. 39).

Paulo adverte claramente: “Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente vivereis” (Rm 8.13). O contexto de Romanos 8 não suporta o conceito de “uma vez salvo, salvo para sempre”. O foco de Paulo é sobre os efeitos libertadores da graça e o poder do Espírito, mas sempre pressupondo a resposta de fé e obediência do crente.

10. O Perigo da Interpretação Equivocada

O maior perigo de uma interpretação equivocada deste texto é concluir que, se até o apóstolo Paulo era carnal e seguia escravo do pecado, agindo sem domínio próprio, incapaz de fazer o bem desejado e de conter o mal indesejado, que dirá dos recém-convertidos e dos demais cristãos que não chegaram à maturidade espiritual dele? Tal ideia gera conformismo e complacência diante das tentações e do pecado.

Se o apóstolo que escreveu dois terços do Novo Testamento era escravo do pecado, então não há esperança de santificação real para ninguém nesta vida. A mensagem prática seria: “Aceite sua derrota, pois até Paulo era derrotado.” Essa conclusão contradiz não apenas Romanos 6 e 8, mas toda a ética paulina, toda a tradição profética do Antigo Testamento sobre a nova aliança e a própria promessa de Jesus sobre a vinda do Espírito Santo.

A interpretação wesleyana, ao contrário, preserva a esperança bíblica: o cristão não está condenado à derrota perpétua. A cruz e o Pentecostes mudaram nosso endereço espiritual. A “lei do Espírito da vida” quebra o ciclo de derrota descrito em Romanos 7.

Conclusão: De Romanos 7 a Romanos 8

Concluímos que o “eu” de Romanos 7.7-25 é retórico e não pode se referir nem a Paulo como cristão, nem aos cristãos em geral, pelos seguintes motivos sintetizados nesta conclusão:

1. O “eu” ainda está sob o domínio da Lei, do pecado e da morte (7.7-13), enquanto os cristãos já foram libertados da Lei (7.4, 6; 8.2), do domínio do pecado (6.18, 20, 22) e da morte (5.21; 6.23; 8.2).

2. O “eu” é carnal (7.14), enquanto os cristãos não devem mais viver na carne (8.9), pois viver segundo as paixões carnais é coisa do passado (7.5) e conduz à morte (8.13).

3. O “eu” segue ainda vendido como escravo do pecado (7.14, 23), enquanto os crentes em Cristo foram libertados dessa escravidão (6.18, 20, 22), pois já foram “redimidos” (3.24).

4. O “eu” diz respeito ao judeu Saulo, antes da conversão, e também aos judeus que ainda estão debaixo da Lei, que conhecem e querem obedecê-la, mas não conseguem devido à escravidão do pecado (7.15-23). Já os cristãos receberam o poder do Espírito que os habilita a cumprir o preceito da Lei (8.4).

5. Nada de bom habita no “eu” em questão, a não ser o pecado que o domina (7.17-20). Já os cristãos sabem que o Espírito Santo é quem habita neles (8.9, 11).

6. O “eu” de Romanos 7 está sob o domínio da lei do pecado (7.23), enquanto os crentes já foram libertados dessa lei (8.2; cf. 6.18, 20, 22).

7. O “eu” está aprisionado e perde a batalha contra o pecado (7.23), enquanto os crentes devem vencer as batalhas espirituais (8.2, 13, 15, 31, 37; 2Co 10.3-5).

8. O “eu” anseia por libertação do “corpo da morte”, enquanto os crentes foram libertos em Cristo e não vivem para seus próprios desejos carnais (8.10-13), tendo sido libertos do caminho que conduz à morte (8.2).

Romanos 7 é o retrato do ser humano que tenta alcançar a santidade sozinho; Romanos 8 é o retrato do ser humano possuído pelo Espírito de Deus. Não devemos ficar acampados em Romanos 7. A cruz e o Pentecostes nos mudaram de endereço. O cristão não está mais identificado com o primeiro Adão, mas está em Cristo, o Segundo e mais poderoso Adão!

“Graças a Deus, que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo!” (1Co 15.57).

Que cada um de nós viva não a angústia de Romanos 7 (“o bem que quero não faço”), mas a liberdade de Romanos 8 (“o Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus”). Pois “daquele que é poderoso para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória, ao único Deus, nosso Salvador, mediante Jesus Cristo, Senhor nosso, glória, majestade, império e soberania, antes de todas as eras, e agora, e por todos os séculos. Amém” (Jd 24-25).

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WESLEY, John. Explanatory Notes upon the New Testament. London: Epworth Press, 1950 [1755].

LINDSTRÖM, Harald. Wesley and Sanctification: A Study in the Doctrine of Salvation. Grand Rapids: Francis Asbury Press, 1980.

(Autor Bispo José Ildo Swartele de Mello)

Romanos 5.1–5: Do Perdão à Glória, Passando pela Tribulação+

Texto base: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual também obtivemos acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; e nos gloriamos na esperança da glória de Deus. E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações, porque sabemos que a tribulação produz perseverança; a perseverança, experiência; e a experiência, esperança. E a esperança não decepciona, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo que nos foi dado.” (Rm 5.1–5)

Introdução

Esse trecho maravilhoso da Palavra de Deus nos apresenta um resumo precioso do Evangelho. Nele encontramos, de modo muito claro, as três principais virtudes cristãs. Quais são? Fé, esperança e amor. O apóstolo Paulo o diz explicitamente em 1 Coríntios 13: “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior destes é o amor” (1Co 13.13).

E encontramos esses três elementos aqui, presentes nesse pequeno trecho. Mas, além deles, há outras palavras que brilham no texto — palavras que, por si só, já dariam um sermão: justificados, paz, graça, glória. É como se Paulo estivesse reunindo, em poucas linhas, o coração da fé cristã: justificação, paz com Deus, acesso à graça, esperança da glória, sentido nas tribulações, formação de caráter, uma esperança que não decepciona e, por fim, o amor de Deus derramado pelo Espírito Santo (Rm 5.1–5).

Quero caminhar pelo texto, palavra por palavra, como a gente faz quando está com um tesouro nas mãos.

1. “Justificados”: perdão, absolvição e uma justiça que não é nossa

Paulo começa dizendo: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus” (Rm 5.1). Essa primeira palavra — justificados — é fundamental.

Ser justificado significa, em termos simples, ser perdoado, absolvido, ser declarado inocente diante do tribunal de Deus. É como alguém que tinha “culpa no cartório” e de repente recebe uma sentença de absolvição.

Jesus nos mostra isso de forma muito concreta quando encontra um paralítico e, antes mesmo de falar em cura, declara: “Filho, os seus pecados estão perdoados” (Mc 2.5). A reação foi imediata: “Quem pode perdoar pecados, senão um, que é Deus?” (Mc 2.7). E Jesus responde com uma declaração que é, ao mesmo tempo, reveladora e confrontadora: “Para que saibais que o Filho do Homem tem autoridade na terra para perdoar pecados…” — e ordena ao paralítico: “Levante-se, pegue o seu leito e vá para a sua casa” (Mc 2.10–11). Ou seja: Jesus prova, com o milagre, a autoridade espiritual que já havia declarado. Ali, Deus se faz presente na pessoa do nosso Senhor Jesus Cristo (Jo 1.1, 14).

Quando Paulo fala de justificação, ele não está dizendo que você foi melhorando aos poucos. Não. Ele está dizendo que Deus te dá uma justiça que não é tua — uma condição diante de Deus que você não poderia produzir sozinho.

Isaías já havia profetizado isso, apontando para a cruz: o Servo do Senhor levaria o pecado de muitos, e por meio do seu sofrimento justificaria a muitos (Is 53.4–6, 11). Há substituição, há imputação, há um ato divino de graça.

2. A parábola do banquete: a roupa da dignidade e a justiça concedida

Eu gosto de explicar a justificação com a parábola do grande banquete.

Em Mateus 22, Jesus conta a parábola do rei que preparou uma festa de casamento para o seu filho (Mt 22.1–2). Ele convida pessoas que, teoricamente, deveriam valorizar o convite, mas elas fazem pouco caso: uns vão para os seus negócios, outros desprezam os servos, alguns chegam a maltratá-los e matá-los (Mt 22.3–6).

O rei reage, trata aqueles homens conforme a gravidade do que fizeram, e toma uma decisão: “A sala não pode ficar vazia. Chamem todos. Tragam todo mundo” (Mt 22.7–10). Gente das ruas, das vielas, das praças — “maus e bons” (Mt 22.10).

Pense: é uma festa real. É o casamento do filho do rei. E essa multidão chega sem roupa adequada, sem veste de honra, sem condição de participar dignamente. E o rei, para que a festa aconteça e ninguém seja humilhado, provê a condição necessária. Ele providencia a roupa.

Essa roupa, meus irmãos, é uma imagem da justificação: eu não tenho, mas Deus me dá. Eu não mereço, mas Deus concede. Eu não tenho dignidade própria para estar ali, mas o Rei me reveste. E Paulo está dizendo exatamente isso: “Justificados… pela fé…” (Rm 5.1). Não é por performance religiosa, não é por currículo, não é por reputação — é pela fé no Cristo que nos reveste.

3. O véu rasgado e os querubins: de impedidos a recebidos

Aqui entra uma cena poderosa do Evangelho. Quando Cristo morreu na cruz, “o véu do templo se rasgou em duas partes, de alto a baixo” (Mt 27.51). Isso não é detalhe. Isso é uma mensagem.

Aquele véu simbolizava separação — impedia o acesso ao Santo dos Santos. E os querubins bordados no véu evocavam o Éden, quando Adão e Eva pecaram, foram expulsos, e Deus colocou querubins com uma espada flamejante para impedir o retorno (Gn 3.24). O pecado nos destituiu da glória de Deus, nos tirou a dignidade do acesso (Rm 3.23).

A mensagem era clara: “Vocês não podem entrar. Vocês não podem chegar. Vocês não podem permanecer.” Por quê? Porque o ser humano pecador não sustenta a presença do Deus santo. Havia separação.

Mas quando Cristo morre, o véu se rasga de alto a baixo (Mt 27.51). Isso é Deus dizendo: o caminho foi aberto. O acesso foi restaurado. E é exatamente isso que Paulo afirma: “…por meio de quem obtivemos acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes” (Rm 5.2). Acesso a Deus. Acesso ao trono da graça. Intimidade restaurada (Hb 4.16).

4. “Acesso”: intimidade de filhos e a liberdade de entrar na presença

Eu gosto muito de ser pai e avô. Quando meus filhos eram pequenos, eles vinham e pulavam no meu colo. Não ficavam pedindo licença do lado de fora, batendo na porta como se fossem estranhos. Eles entravam, chegavam, se aproximavam. Havia intimidade.

E agora, com os netos… meus netos são os mais “folgados do mundo” — no bom sentido —, respeitosos, mas com liberdade. Eles entram na minha presença e se sentem em casa.

É isso que o Evangelho faz: nos tira da posição de estranhos e nos coloca na posição de filhos. E Paulo está dizendo: “Temos acesso” (Rm 5.2). Pense naqueles convidados da parábola — chamados das ruas. Eles podem até achar que é engano: “Eu? Na festa do príncipe?” Mas não é engano. A mensagem é: “Você pode vir — porque aqui você será lavado e receberá vestes.”

5. “Paz”: shalom, aconchego, reconciliação e fim do medo

Paulo diz: “…temos paz com Deus” (Rm 5.1). E eu preciso falar da paz, porque isso é decisivo.

No Antigo Testamento, a palavra paz é shalom. E shalom não é apenas “parar de brigar” ou cessar hostilidade. É bem-estar, plenitude, restauração, vida ajustada com Deus.

Quando o ser humano pecou, a primeira reação foi fugir. Adão e Eva se esconderam de Deus (Gn 3.8). O pecado gera medo. O pecado afasta. O pecado cria a sensação de que a presença de Deus é ameaça.

E isso explica por que, às vezes, até a ideia da segunda vinda de Cristo assusta. A pergunta que surge é: “E se hoje fosse o dia? Estou preparado para me deparar com Deus, com o juízo, com o trono?” (2Co 5.10; Ap 20.11–12).

Mas Paulo está dizendo: “Justificados… temos paz” (Rm 5.1). Ou seja: o Evangelho não apenas perdoa — ele tira o medo. Ele reconcilia (Rm 5.10–11).

6. O filho pródigo: o abraço que substitui a bronca

Eu vejo isso representado de forma linda na parábola do filho pródigo.

O filho vira as costas, esbanja tudo, se afunda (Lc 15.11–16). Depois “cai em si” e decide voltar (Lc 15.17–20). Ele prepara um discurso: “Pai, pequei… não sou digno… recebe-me como um dos teus trabalhadores” (Lc 15.18–19). Só que, quando se aproxima, o pai não espera. O pai corre ao encontro, abraça e beija (Lc 15.20). O filho mal consegue terminar o discurso, porque a graça do pai interrompe o roteiro da vergonha.

Quero que você se coloque no lugar daquele filho. Ele esperava bronca, condenação, reprimenda. Mas o que recebe é abraço. Que sensação é essa? Aconchego. E isso, meus irmãos, é paz. Isso é shalom. É bem-estar, segurança, intimidade.

E o pai ainda ordena: “Tragam a melhor roupa, sandálias, anel, e façam festa!” (Lc 15.22–24). É restauração total. É filiação reafirmada. “Temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1).

7. “Nos gloriamos na esperança da glória de Deus”: antecipação do céu no coração

Paulo continua: “…e nos gloriamos na esperança da glória de Deus” (Rm 5.2). Quando a glória de Deus visita nossa alma, é como se o céu tocasse o coração. Há uma alegria profunda, um bem-estar santo.

Aqui eu compartilho um testemunho pessoal. Eu nasci na fé, cresci no Evangelho — mas vivia “do jeito que me dava na telha”. Lia a Bíblia, orava, mas sabia que não estava vivendo de modo digno do Evangelho (Fp 1.27). Eu sabia que estava fora do trilho. E a gente sabe quando está fora do trilho — a não ser que tenha mentido tanto para si mesmo que já se convenceu da própria mentira (Jr 17.9).

Eu até orava pedindo misericórdia. Tinha consciência de pecado. Sabia que o dia do encontro com Deus vem. E como é que você vai estar? (2Co 5.10).

Até que, aos 16 anos, tive uma experiência de entrega. Eu cria, mas vivia naquela lógica: “Deus lá e eu cá”. Deus servia para abençoar meus planos, resolver meus problemas, livrar do mal — mas não para ser Senhor da minha vida (Lc 6.46). Até o dia em que me rendi: “Senhor, eu me entrego. Reconheço teu senhorio. Dirige meus passos. Seja feita a tua vontade” (Mt 6.10). E naquele dia experimentei uma paz que descrevi como a maior paz que um ser humano pode experimentar (Fp 4.7).

E então aconteceu: “o amor de Deus foi derramado em meu coração pelo Espírito Santo” (Rm 5.5). Senti-me amado, acolhido, perdoado, agraciado, cheio de esperança.

8. Esperança concreta: não é vaga; é certeza com penhor do Espírito

Talvez “esperança” seja a palavra que melhor resume aquele momento. Esperança da vida eterna. Esperança do amanhã. Esperança do futuro — porque o futuro estava nas mãos de Deus (Sl 31.15). Eu não sabia o que vinha pela frente, mas sabia quem estava comigo (Mt 28.20).

Aquilo foi divisor de águas. Eu não via a hora de chegar aos cultos. Lia a Bíblia com intensidade. Comungava com Deus em oração, adoração e comunhão com a igreja (At 2.42).

Era office boy, estudava à noite, trabalhava de dia, ganhava salário mínimo — e era a pessoa mais feliz do mundo. Minha namorada tinha me dado fora, e eu era a pessoa mais feliz do mundo. Depois deu tudo certo, e até hoje tem dado — mas naquele momento a alegria era real: a glória de Deus estava no coração.

A esperança cristã não é como “esperar ganhar na loteria”. Não é vaga nem fantasia. É concreta. Eu uso uma ilustração simples: quando vou à rodoviária receber alguém, tenho esperança de encontrá-la. Estou lá porque espero que ela venha. E me decepcionaria se ela não viesse. Mas não é “talvez”. É algo firme.

Assim é a esperança cristã: firme porque se apoia em promessa e em penhor. Temos o penhor do Espírito Santo, garantia da nossa herança eterna (Ef 1.13–14). Deus já nos deu sinais, já nos deu a presença, já nos deu o testemunho interior. Por isso a esperança não decepciona (Rm 5.5). Os que esperam no Senhor não são envergonhados (Sl 25.3; Hb 11.6).

9. “E não somente isto”: tribulações — e o choque dos recém-convertidos

Mas Paulo diz: “E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações” (Rm 5.3). E eu serei honesto: depois da conversão, tive muita tribulação. Decepções dentro da igreja, escândalos, pedras de tropeço. Coisas que, humanamente falando, fariam alguém desistir — mas Deus me sustentou (2Co 4.8–9).

Esse é um ponto crítico para os novos convertidos. Muitos pensam: “Agora vai ser mar de rosas.” Aí vem tribulação — e vem confusão. “Parece que depois que me batizei as coisas pioraram.” É por isso que Pedro adverte: não estranhem o fogo ardente, como se algo estranho estivesse acontecendo (1Pe 4.12).

E muitos não conseguem fazer o que Paulo diz: gloriar-se nas tribulações (Rm 5.3). Eles amaldiçoam a provação, entram na tentação de blasfemar, acham que Deus abandonou — como Jó, que chegou a ser pressionado pela própria esposa a fazê-lo (Jó 2.9–10).

10. A tempestade e Jesus dormindo: “Não se te dá que morramos?”

Jesus convida os discípulos para entrar no barco (Mc 4.35). Eles obedecem. No meio do caminho, vem uma tempestade tão forte que pescadores experientes temem pela vida (Mc 4.37). E o detalhe é: Jesus está dormindo (Mc 4.38).

Essa é, muitas vezes, a percepção do crente em tribulação: “Deus está dormindo. Deus tirou férias. Deus não se importa.” E eles dizem: “Mestre, não te importa que pereçamos?” (Mc 4.38). Na versão mais antiga: “Não se te dá que morramos?” — isto é, “o Senhor não se importa?”

Mas então Jesus se levanta, repreende o vento, ordena ao mar que se acalme — e há grande bonança (Mc 4.39). E eles ficam tomados de temor: “Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?” (Mc 4.41). A tempestade se tornou sala de aula. A tribulação se tornou lugar de revelação.

11. Deus não abandona: tribulação não é descaso; é processo com propósito

As tribulações não são sinal de abandono. Deus está presente. Deus contempla. Deus vê. Deus sustenta (Sl 46.1–2).

Eu vou compartilhar algo muito pessoal. No momento da maior tribulação da minha vida, tive uma visão — a única da minha vida. Eu não sou homem de visões; Deus fala comigo prioritariamente pela Palavra (2Tm 3.16–17). Mas naquele momento tive uma visão: eu subia uma escadaria muito íngreme, difícil, e pensava em desistir. Não via o fim. E então uma voz disse: “Ei, meu filho!” Olhei — e era Jesus. E ele disse: “Eu estou aqui. Eu estou contemplando. Eu estou com você. Não desista.”

No dia seguinte, fui expulso pelos líderes da mocidade da Igreja, por inveja e outras razões. Mas continuei. Deus me sustentou. Deus cuidou de mim.

12. Tribulação produz musculatura espiritual: perseverança, experiência e esperança

Paulo diz que a tribulação produz perseverança (Rm 5.3). Perseverança é paciência ativa, resiliência — você aguenta firme sem perder a fé.

Eu uso uma ilustração simples: musculação. Comecei a treinar e já está surgindo um pequeno músculo — tímido, mas surgindo. Para ter músculo desenvolvido, é preciso resistência. Sem resistência, não há fortalecimento. Sem dor, não há ganho.

E a verdade bíblica confirma isso: Deus não permite que a provação seja maior do que nossa força; e junto com ela ele dá o escape (1Co 10.13). Deus está trabalhando em nós. Paulo encadeia assim: tribulação → perseverança → experiência → esperança (Rm 5.3–4). Essa “experiência” é a bagagem espiritual que você só adquire atravessando certas tempestades com Deus.

Os discípulos nunca teriam visto Jesus acalmando a tempestade se não tivessem passado pela tempestade (Mc 4.39). Por isso é tão importante atravessá-la confiando que, a seu tempo, ele se levantará e socorrerá.

13. O “já e ainda não”: já somos do céu, mas ainda gememos

Fé e esperança estão ligadas ao que ainda não vemos plenamente. “A fé é a certeza das coisas que se esperam” (Hb 11.1). A esperança é aquilo que ainda não possuímos completamente, mas aguardamos com segurança.

Nós vivemos no “já e ainda não”. Já fomos justificados (Rm 5.1). Já temos paz com Deus (Rm 5.1). Já temos acesso à graça (Rm 5.2). Já temos sinais do céu no coração. Mas ainda não temos corpo glorificado. Ainda sentimos tristeza, dores, sede. Ainda choramos. Ainda gememos (Rm 8.23). Um dia Deus enxugará de nossos olhos toda lágrima (Ap 21.4) — mas ainda não é o dia final. Há consolação hoje, mas ainda provisória; um dia será plena e definitiva.

Nós já somos do céu, mas ainda não estamos no céu. Por isso esperança e tribulação convivem. Essa é a caminhada cristã.

14. “Trazer à memória”: esperança baseada em experiências reais com Deus

Jeremias escreve: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança” (Lm 3.21). Ele está dizendo: a esperança não nasce do vazio — nasce da lembrança do que Deus já fez.

A esperança cristã não é fantasia. É uma esperança concreta que se apoia em promessa e em penhor: temos o Espírito Santo como arras da nossa herança eterna (Ef 1.13–14). Deus já nos deu sinais, já nos deu presença, já nos deu o testemunho interior. Por isso a esperança não confunde (Rm 5.5). Os que esperam no Senhor não são envergonhados (Sl 25.3). Ele é galardoador dos que o buscam (Hb 11.6).

15. “O amor de Deus derramado”: cura da alma e transformação total

Paulo conclui essa seção dizendo: “…porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5.5).

Esse amor é tão grande que Deus nos amou quando ainda éramos alheios, adversários, indiferentes. Ele nos amou primeiro (1Jo 4.10, 19; Rm 5.8, 10). E esse amor nos constrange (2Co 5.14).

Há uma aplicação pastoral aqui que não posso deixar de fazer: há pessoas que carregam feridas profundas, traumas, rejeições — baixa autoestima construída ao longo de anos. E há uma cura real quando o Ser mais poderoso do universo manifesta amor por nós (Rm 5.5, 8). Isso cura feridas da alma. Isso dá alívio. Isso reposiciona a vida.

“Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8). Se ele nos amou quando éramos pecadores, quanto mais agora, na comunhão com ele (Rm 5.10). E esse amor santifica. Ele nos muda.

16. O olhar de Jesus para Pedro: amor que constrange e chama ao arrependimento

Mesmo depois da conversão, podemos falhar. Pedro negou Jesus três vezes (Lc 22.57–60). E então aconteceu aquela cena: Jesus olhou para Pedro (Lc 22.61). Pedro olhou para Jesus. E aquele olhar foi constrangedor — não de acusação fria, mas de amor ferido. Pedro saiu e chorou amargamente (Lc 22.62).

Como está você hoje? Contemple Cristo olhando para você. Aquele que está se entregando por você. Aquele que te ama. E de repente você percebe que tem negado a Cristo com suas atitudes, escolhas, decisões.

Esse olhar muda tudo. Esse olhar transforma tudo.

Amém.

https://youtu.be/zg8E-Wv8CNA?si=GwQdbLsSho_xI6kb 

(Autor Bispo José Ildo Swartele de Mello)