Estudos do Bispo Ildo · Soteriologia · Graça, Fé e Salvação
Texto: João 3.1–16
Tema: Não basta ter religião; é preciso receber uma nova vida de Deus.
Frase central: O evangelho não é uma reforma da velha vida, mas o começo de uma nova vida em Cristo.
Repare em quem Jesus escolheu para dizer aquilo que talvez seja a frase mais desconcertante do quarto Evangelho.
Ele não disse “você precisa nascer de novo” a um criminoso preso em flagrante. Não disse a um bêbado caído na rua. Não disse a uma prostituta, a um cobrador de impostos, a alguém publicamente desmoralizado.
Disse a Nicodemos.
E quem era Nicodemos? Um fariseu, membro do Sinédrio, conhecedor das Escrituras, homem de conduta reta, respeitado pelo povo, chamado por Jesus de “mestre de Israel” (Jo 3.10). Se existisse na Jerusalém daquele tempo um currículo religioso impecável, era o dele.
E foi justamente a esse homem que Jesus disse: você precisa nascer de novo.
Guarde isso desde já: se Nicodemos precisava nascer de novo, todos nós precisamos.
Antes de avançarmos, uma pergunta que vai atravessar todo este estudo: você tem religião ou tem vida nova?
O diálogo começa de um jeito curioso. Nicodemos chega de noite e abre a conversa falando sobre Jesus:
“Rabi, sabemos que o senhor é Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que o senhor faz, se Deus não estiver com ele.” (Jo 3.2)
É uma abertura educada, teologicamente correta, respeitosa. Mas Jesus não responde ao elogio. Ele muda o assunto imediatamente e passa a falar sobre Nicodemos:
“Em verdade, em verdade lhe digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus.” (Jo 3.3)
Nicodemos veio discutir credenciais divinas; Jesus foi direto à condição do coração dele.
E aqui está a lição que precisa ser dita com todas as letras: religião não é regeneração.
É perfeitamente possível conhecer a Bíblia, frequentar a igreja com fidelidade, ter sido batizado, participar da Ceia, exercer um ministério, viver com boa moral, e ainda assim precisar nascer de novo. Nicodemos tinha muita informação sobre Deus. Jesus lhe disse que isso não bastava.
Aplicação. A pergunta que costumamos fazer a nós mesmos é: “Sou religioso?” A pergunta que Jesus faz é outra: “Nasci do Espírito?”
Nicodemos entende a frase de modo literal e pergunta como um homem velho poderia entrar de novo no ventre da mãe (Jo 3.4). A pergunta parece ingênua, mas revela algo verdadeiro: ele percebeu que Jesus estava pedindo o impossível.
E estava mesmo. Impossível para nós.
Note o que Jesus não disse. Não disse “você precisa melhorar um pouco”. Não disse “você precisa estudar mais”. Não disse “corrija alguns hábitos e estará resolvido”.
Ele disse: você precisa nascer.
Por quê? A resposta vem no versículo 6:
“O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito.” (Jo 3.6)
O pecado não atingiu apenas o comportamento; atingiu a fonte. Alcançou o coração, a natureza, aquilo que somos antes de qualquer coisa que façamos.
A ilustração da árvore. Você pode amarrar frutos bonitos nos galhos de uma árvore doente. De longe até parece que ela produziu alguma coisa. Mas os frutos apodrecem, os barbantes arrebentam, e a árvore continua exatamente o que era.
É isso que fazemos quando penduramos na vida um pouco de igreja, um pouco de oração, um pouco de moralidade, algumas práticas religiosas, sem que nada tenha mudado por dentro. Deus não quer apenas trocar alguns frutos; ele quer transformar a árvore.
“E assim, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas.” (2Co 5.17)
Jesus aprofunda a resposta:
“Em verdade, em verdade lhe digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus.” (Jo 3.5)
Nicodemos, como mestre de Israel, tinha obrigação de reconhecer aquela linguagem. Ela vem de Ezequiel:
“Aspergirei água pura sobre vocês, e ficarão purificados… Darei a vocês um coração novo e porei um espírito novo dentro de vocês. Tirarei de vocês o coração de pedra e lhes darei um coração de carne. Porei dentro de vocês o meu Espírito.” (Ez 36.25–27)
Água pura para purificação. Coração novo para transformação. Espírito de Deus para vida nova. Jesus não estava inventando uma doutrina; estava cobrando de um doutor da Lei a promessa que ele mesmo ensinava e não havia experimentado.
A distinção wesleyana. Aqui vale recuperar algo que João Wesley insistia em separar sem nunca dividir. A justificação é aquilo que Deus faz por nós: perdoa, absolve, aceita, reconcilia. O novo nascimento é aquilo que Deus faz em nós: regenera, renova, dá vida. Wesley chamava a justificação de “a grande obra que Deus faz por nós, perdoando os nossos pecados”, e o novo nascimento de “a grande obra que Deus faz em nós, renovando a nossa natureza caída” (Sermão 45: O Novo Nascimento).
Precisamos das duas. Perdão sem transformação deixaria o pecador absolvido e escravizado. Transformação sem perdão deixaria a dívida aberta. Deus faz as duas coisas no mesmo instante, e é por isso que o evangelho é boa notícia de verdade. Deus não apenas apaga o nosso passado; ele começa uma nova vida em nós.
“Não se admire de eu ter dito: ‘É necessário que vocês nasçam de novo.’ O vento sopra onde quer, você ouve a sua voz, mas não sabe de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.” (Jo 3.7–8)
Existe uma humildade embutida na imagem do nascimento que costuma nos escapar. Ninguém decidiu nascer. Ninguém organizou o próprio parto, escolheu a data, providenciou o próprio primeiro fôlego. Recebemos a vida física inteiramente de fora.
Com a vida espiritual acontece o mesmo. Regeneração não se fabrica. Não há esforço, disciplina ou sinceridade capaz de produzir do lado de dentro aquilo que só o Espírito produz.
A ilustração do vento. Ninguém vê o vento. Vemos as folhas se movendo, as árvores balançando, a poeira levantando na estrada. Vemos os efeitos e sabemos que ele passou por ali.
Assim é com o Espírito. Não observamos a operação; observamos os sinais dela: tristeza pelo pecado, e não apenas medo das consequências; desejo de Deus, e não apenas de bênçãos; fome da Palavra; vontade de orar; amor por Cristo; desejo de santidade.
Talvez você não saiba explicar o vento, mas percebe quando as folhas começam a se mover.
O novo nascimento é obra de Deus. Isso é inegociável. Mas dizer isso não significa tratar o ser humano como uma pedra, incapaz de qualquer resposta.
Antes que alguém busque a Deus, Deus já está agindo. Ele chama, convence, ilumina, atrai, concede graça. A tradição wesleyana chama isso de graça preveniente: a graça que vem antes, que precede qualquer movimento nosso e torna possível a resposta que sozinhos não daríamos.
Três textos ajudam a ver essa ação. O primeiro: “E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim.” (Jo 12.32) Cristo atrai a todos. A atração é universal; a salvação, porém, se conclui em quem responde com fé. O próprio Evangelho de João não deixa dúvida quanto a isso (Jo 3.18, 36).
O segundo: “Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo.” (Jo 16.8) O Espírito faz o trabalho de convencimento que nenhum argumento humano faz.
O terceiro: “Mas a todos os que o receberam, aos que creem no seu nome, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus.” (Jo 1.12) Existe um receber e um crer que são nossos, ainda que capacitados pela graça.
A sequência pastoral é esta: graça preveniente, convencimento, arrependimento, fé, nova vida. Você não pode regenerar a si mesmo, mas pode responder à graça daquele que está chamando você. Wesley dizia que a graça de Deus é livre para todos e livre em todos, e é exatamente por isso que ninguém pode alegar que ficou de fora por falta de convite.
Volte ao verbo que Jesus usou: “não pode ver o Reino de Deus”. Ele poderia ter dito “não pode entrar”, e diz isso no versículo 5. Mas primeiro fala de visão. Antes de ser uma questão de acesso, o novo nascimento é uma questão de percepção.
A ilustração de Wesley: o bebê. Antes de nascer, a criança já tem olhos, mas não contempla o mundo. Já tem ouvidos, mas não ouve como ouvirá depois. Já tem pulmões formados, mas ainda não respirou o ar de fora. Os órgãos existem; a experiência ainda não. Quando nasce, ela não passa a existir num mundo novo. Passa a experimentar o mundo que já estava lá.
O paralelo espiritual é exato. Deus já era real antes da minha conversão. Cristo já era Senhor. A Bíblia já era verdadeira. O que mudou não foi a realidade, foi a minha capacidade de percebê-la. E então vem aquele espanto que tantos cristãos descrevem com as mesmas palavras: “Agora eu vejo.” O novo nascimento desperta os sentidos espirituais.
Aplicação. Você já conhecia aquele versículo de cor; agora ele fala ao coração. Você já sabia o que aconteceu na cruz; agora Cristo se tornou precioso. Não é informação nova. É vida nova diante da mesma informação.
Aqui está um argumento que costuma incomodar, e por isso mesmo precisa ser dito. Sem uma natureza nova, nós não desfrutaríamos nem mesmo o céu.
Por quê? Porque o maior tesouro do céu não são as ruas, as coroas ou o reencontro com quem partiu. O maior tesouro do céu é Deus. Então pergunte com honestidade: se não desejo Deus agora, por que desejaria uma eternidade com ele? Se a adoração hoje é um peso, o que farei numa eternidade inteiramente centrada nele?
A ilustração. Coloque a mais bela sinfonia diante de uma pessoa que não ouve. Pendure a mais extraordinária pintura diante de quem não enxerga. O problema não está na música nem no quadro. Está na incapacidade de percebê-los.
O novo nascimento não é necessário apenas para entrarmos no céu, mas para que sejamos capazes de amá-lo.
Chegamos à pergunta que mais aparece em conversas pastorais: como saber se nasci de novo?
Comece descartando uma exigência que a Bíblia não faz. Não é necessário saber a data, a hora, o culto ou a frase exata. Muitos sabem; muitos não sabem. Ninguém prova que está vivo apresentando a certidão de nascimento. Prova respirando. A pergunta, portanto, não é “quando?” A pergunta é: há vida?
Wesley apontava três marcas do novo nascimento. A primeira é a fé: não concordância com doutrinas, mas confiança real em Cristo, aquela que descansa nele e não em si mesma. A segunda é a esperança: paz com Deus e segurança nele, o testemunho interior de que somos filhos (Rm 8.16). A terceira é o amor: amor a Deus e amor ao próximo, que é a evidência que o Novo Testamento mais insiste em cobrar.
“Nós sabemos que já passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos.” (1Jo 3.14)
Aplicação prática. E onde esses sinais aparecem? Não principalmente no culto. O novo nascimento se revela dentro de casa, no uso do dinheiro, na maneira de perdoar, na luta contra o pecado, no trato com as pessoas que não podem nos devolver nada, e sobretudo quando ninguém está olhando. Não somos salvos pelos frutos, mas vida verdadeira produz fruto.
Uma confusão comum atrapalha a vida espiritual de muita gente: tratar novo nascimento e santificação como se fossem a mesma coisa. O novo nascimento é o começo. A santificação é o crescimento.
Uma criança nasce num instante, mas leva anos para amadurecer. Ninguém espera que um recém-nascido ande, fale e trabalhe no dia seguinte. E ninguém aceita que um adulto continue vivendo como recém-nascido a vida inteira.
Daí os dois erros. O primeiro é tentar crescer sem ter nascido: o esforço religioso de quem tenta amadurecer numa vida que ainda não recebeu, disciplina sobre disciplina, sem raiz. O segundo é nascer e nunca crescer: o cristão que se converteu há vinte anos e continua no mesmo lugar, defendendo a experiência do passado enquanto o presente não muda.
Primeiro precisamos de vida; depois precisamos crescer nessa vida. E o alvo do crescimento é claro:
“E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando como por espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito.” (2Co 3.18)
Ser conformado à imagem de Cristo: é para isso que nascemos de novo.
Nicodemos, no versículo 9, faz a pergunta certa: “Como pode ser isso?”
E veja para onde Jesus o leva. Não para uma técnica, não para um método, não para um esforço redobrado. Ele leva Nicodemos ao deserto, à serpente levantada numa haste, aos israelitas mordidos que olhavam e viviam (Nm 21.4–9):
“E do modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna.” (Jo 3.14–15)
A resposta sobre o novo nascimento nos leva à cruz. Não há outro caminho. E aqui está a grande verdade deste estudo: para que nós recebêssemos vida, Cristo entregou a dele.
A ilustração do nascimento. O bebê não paga nada pelo próprio nascimento. Chega recebendo tudo. Mas isso não significa que o nascimento não teve custo. Houve dor, houve sangue, houve alguém que pagou o preço para que aquela vida viesse ao mundo.
Assim é conosco. Nosso novo nascimento é gratuito para nós e custou a cruz para ele. Nossa vida veio pela morte de Cristo. Nosso perdão custou o sangue dele. Nossa reconciliação custou a cruz. E é exatamente aí que o texto desemboca no versículo mais conhecido da Bíblia, que só é compreendido de verdade quando se chega a ele por este caminho:
“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3.16)
Repare na condição, que a familiaridade do versículo às vezes esconde: todo o que nele crê. O amor de Deus alcança o mundo inteiro; a vida eterna é recebida por quem crê. O versículo seguinte não deixa margem para outra leitura (Jo 3.18).
Voltemos a Nicodemos, onde começamos. Ele tinha religião. Tinha moralidade. Tinha a Bíblia. Tinha conhecimento. Tinha posição e respeito. E Jesus, essencialmente, lhe perguntou: há vida em você?
Deixe-me repetir isso devagar, porque é o ponto inteiro deste estudo. Não estou perguntando se você frequenta a igreja. Não estou perguntando se você foi batizado. Não estou perguntando se você conhece a Bíblia. Não estou perguntando se você é uma boa pessoa. Não estou perguntando se você exerce algum ministério. Estou perguntando: você nasceu de novo?
Faça a si mesmo estas perguntas, sem pressa e sem defesa. Cristo se tornou precioso para você? Há tristeza pelo pecado? Há desejo de santidade? Há fé? Há esperança? Há amor? Há sinais de vida?
Se a resposta for não, o caminho não é tentar fabricar frutos. Não é apenas melhorar um pouco, prometer mais esforço, redobrar a disciplina religiosa. O caminho é responder à graça que já está chamando você: arrependa-se, creia, receba Cristo. Se faltarem palavras, estas servem: “Senhor, eu não quero apenas religião. Eu quero vida. Não quero apenas conhecer coisas a teu respeito. Quero conhecer-te. Dá-me um novo coração.”
Se a resposta for sim, então fica a outra pergunta: você está crescendo? Porque quem nasceu foi feito para amadurecer.
E encerro com a imagem que atravessa todo o capítulo 3 de João. O vento é invisível. Ninguém o fotografa, ninguém o explica por completo. Mas quando ele sopra, as folhas se movem. Que as pessoas talvez não consigam explicar tudo o que Deus fez em nós, mas que possam olhar para a nossa vida e ver as folhas se movendo.
“E assim, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas.” (2Co 5.17)
“É necessário que vocês nasçam de novo.” (Jo 3.7)
Bispo Ildo Mello