Estudos do Bispo Ildo · Estudos Bíblicos · Novo Testamento
Por Bispo Ildo Mello
A conversão do apóstolo Paulo é um dos acontecimentos mais importantes da história do cristianismo. Poucos encontros com Cristo produziram consequências tão profundas. O homem que perseguia a Igreja tornou-se um de seus maiores missionários. Aquele que procurava silenciar o testemunho cristão passou a anunciar que Jesus Cristo é o Filho de Deus.
Mas o que realmente aconteceu no caminho de Damasco? A conversão de Paulo foi apenas uma mudança de opinião religiosa? Foi uma experiência emocional intensa? Foi uma convocação para o ministério? Ou foi uma transformação completa produzida pela graça de Deus?
O relato aparece três vezes no livro de Atos: em Atos 9, narrado por Lucas; em Atos 22, contado pelo próprio Paulo aos judeus; e em Atos 26, apresentado por Paulo diante do rei Agripa. Além disso, o apóstolo interpreta sua experiência em passagens como Gálatas 1.11-17, Filipenses 3.4-11 e 1 Timóteo 1.12-16.
Esses textos mostram que a conversão de Paulo não foi apenas a mudança de um perseguidor para um pregador. Foi o encontro de um pecador com a graça de Deus, de um religioso com o Cristo vivo e de um homem cheio de certezas com o Senhor que desafiou todas as suas convicções.
A experiência de Paulo nos ensina importantes lições sobre a graça, a conversão, a vocação e a missão cristã.
Antes de sua conversão, Paulo não era ateu, pagão ou indiferente às coisas espirituais. Pelo contrário, era um homem profundamente religioso.
Ele havia sido educado aos pés de Gamaliel, conhecia rigorosamente a Lei e pertencia ao grupo dos fariseus. Em Filipenses 3.5-6, Paulo afirma que era hebreu de hebreus, fariseu quanto à Lei e irrepreensível quanto à justiça que nela há.
Paulo não perseguia os cristãos porque não acreditava em Deus. Ele os perseguia porque acreditava estar defendendo a honra de Deus.
Isso torna sua história ainda mais impressionante.
Ele possuía conhecimento bíblico, tradição religiosa, disciplina moral e zelo espiritual. Contudo, apesar de tudo isso, estava lutando contra o próprio Deus.
Jesus lhe perguntou: “Saulo, Saulo, por que você me persegue?” (At 9.4).
Essa pergunta revelou algo terrível: Paulo acreditava estar servindo a Deus, mas estava perseguindo o Filho de Deus.
A sinceridade de alguém não transforma o erro em verdade. Uma pessoa pode ser sincera e estar sinceramente enganada. O zelo religioso também não é suficiente. É possível ter entusiasmo por uma causa errada.
Paulo reconheceu mais tarde que seus compatriotas tinham “zelo por Deus, porém não com entendimento” (Rm 10.2). Ele conhecia essa realidade por experiência própria.
A conversão de Paulo nos adverte contra a confiança excessiva em nossa formação, tradição ou experiência religiosa. Precisamos permitir que nossas convicções sejam examinadas à luz da revelação de Deus em Jesus Cristo.
Não basta perguntar: “Sou sincero naquilo em que acredito?” Precisamos perguntar: “Minha fé está de acordo com a verdade revelada em Cristo? Minha interpretação das Escrituras produz o caráter de Jesus? Minha religiosidade está me tornando mais amoroso, misericordioso e humilde?”
Toda teologia que nos torna arrogantes, violentos ou insensíveis precisa ser examinada. Paulo tinha uma teologia bem organizada, mas sua teologia estava produzindo perseguição. O encontro com Cristo não apenas mudou suas ideias; mudou a maneira como ele via Deus, as pessoas e a si mesmo.
Paulo não estava procurando Jesus quando foi encontrado por Jesus.
Ele não estava viajando para Damasco em busca de respostas espirituais. Levava cartas que lhe davam autoridade para prender os cristãos e conduzi-los a Jerusalém. Respirava ameaças e morte contra os discípulos do Senhor (At 9.1-2).
Entretanto, foi nesse momento que a graça o alcançou.
Uma luz vinda do céu brilhou ao seu redor. Ele caiu por terra e ouviu a voz de Cristo. A iniciativa não foi de Paulo. Foi de Jesus.
Essa é uma das grandes verdades da salvação: antes de procurarmos a Deus, Deus já está nos procurando. Antes de respondermos ao seu chamado, sua graça já está agindo em nós.
Na tradição wesleyana, chamamos essa ação de graça preveniente. É a graça que vem antes. Ela desperta, ilumina, convence, atrai e capacita o pecador a responder ao chamado divino.
Isso não significa que Paulo foi convertido contra a sua vontade. Jesus o confrontou, mas Paulo precisou responder. A graça tomou a iniciativa, porém não eliminou a responsabilidade humana.
O Senhor perguntou por que ele o perseguia e, então, orientou-o a entrar na cidade, onde receberia novas instruções. Paulo obedeceu. Depois, por meio de Ananias, recebeu a mensagem, foi batizado e começou uma vida completamente nova.
A graça de Deus não trata as pessoas como objetos sem vontade. Ela se aproxima, revela a verdade, confronta o pecado e torna possível uma resposta de fé e obediência.
Paulo diria mais tarde: “Pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça para comigo não foi inútil” (1Co 15.10).
A graça não foi inútil porque Paulo respondeu a ela. A graça o alcançou, e ele não permaneceu o mesmo.
Isso também acontece conosco. Deus toma a iniciativa, mas precisamos responder. Ele nos chama ao arrependimento, mas não se arrepende em nosso lugar. Ele oferece a salvação, mas precisamos recebê-la pela fé. Ele nos mostra o caminho, mas precisamos segui-lo.
Quando a luz celestial brilhou, Paulo caiu por terra.
Aquele homem que entraria em Damasco como uma autoridade chegou à cidade conduzido pela mão de outras pessoas. O perseguidor poderoso tornou-se um homem cego e dependente.
Durante três dias, ele não viu, não comeu e não bebeu (At 9.9).
A cegueira física de Paulo simbolizava sua cegueira espiritual. Ele pensava que enxergava, mas não compreendia a verdade. Considerava-se guia dos cegos, mas precisava que alguém o conduzisse pela mão.
O encontro com Cristo desfez sua autoconfiança.
Antes, Paulo se orgulhava de sua genealogia, formação, disciplina e obediência religiosa. Depois de conhecer Cristo, passou a considerar tudo isso como perda, quando comparado à excelência do conhecimento do Senhor (Fp 3.7-8).
A verdadeira conversão sempre envolve uma crise de autoconhecimento.
Enquanto nos comparamos com outras pessoas, podemos parecer justos. Quando nos colocamos diante da santidade de Cristo, percebemos nossa real condição.
Pedro experimentou algo semelhante quando reconheceu: “Senhor, afaste-se de mim, porque sou pecador” (Lc 5.8). Isaías, ao contemplar a glória de Deus, confessou que era um homem de lábios impuros (Is 6.5).
A conversão não começa quando descobrimos como somos bons, mas quando percebemos o quanto precisamos da misericórdia de Deus.
Isso não tem o propósito de destruir nossa dignidade, mas de nos libertar da ilusão da autossuficiência. A graça nos humilha para depois nos levantar. Ela nos esvazia da falsa justiça para nos revestir da justiça que vem de Cristo.
Jesus não perguntou: “Saulo, por que você persegue os meus seguidores?” Ele perguntou: “Saulo, Saulo, por que você me persegue?” (At 9.4).
Paulo perseguia homens e mulheres cristãos, mas Jesus considerou que aquela perseguição era dirigida contra ele próprio.
Essa declaração revela a profunda união entre Cristo e sua Igreja.
Cristo se identifica com seu povo. Quando um membro do corpo sofre, o próprio Senhor considera esse sofrimento como algo dirigido a ele.
Essa verdade aparece novamente em Mateus 25.40: “Sempre que o fizeram a um destes meus pequeninos irmãos, foi a mim que o fizeram.”
Não podemos afirmar que amamos Cristo enquanto desprezamos seus irmãos. Não podemos honrar a cabeça e ferir o corpo. Não podemos defender a verdade de Deus por meio do ódio, da violência ou da perseguição.
A maneira como tratamos as pessoas revela muito sobre nossa relação com Jesus.
Isso vale especialmente para a vida da Igreja. Palavras agressivas, disputas de poder, humilhações e ataques pessoais não são pequenos problemas administrativos. São feridas infligidas ao corpo de Cristo.
A conversão de Paulo nos convida a perguntar: “Tenho tratado os irmãos como pessoas pelas quais Cristo morreu? Minha maneira de defender a verdade reflete o caráter de Jesus? Estou ferindo alguém em nome de minhas convicções religiosas?”
Paulo aprendeu que não se pode servir a Cristo perseguindo pessoas. A verdade cristã deve ser defendida com firmeza, mas também com amor, mansidão e respeito.
Ao ouvir a voz, Paulo perguntou: “Quem é o senhor?” (At 9.5). A resposta foi: “Eu sou Jesus, a quem você persegue.”
Nesse momento, Paulo descobriu que Jesus estava vivo. Aquele que havia sido crucificado e que Paulo considerava um impostor era, de fato, o Messias ressuscitado e o Senhor.
A conversão cristã é inseparável do reconhecimento do senhorio de Jesus.
Converter-se não é apenas aceitar algumas doutrinas sobre Cristo. É reconhecer que Jesus é o Senhor e entregar-lhe o governo da vida.
A partir daquele momento, Paulo não determinaria mais seu próprio caminho. Ele receberia instruções do Senhor.
Jesus lhe disse: “Levante-se, entre na cidade, onde lhe dirão o que você deve fazer” (At 9.6).
Antes, Paulo decidia quem deveria ser preso. Agora, precisava perguntar o que deveria fazer. Antes, conduzia os outros. Agora, era conduzido. Antes, acreditava possuir todas as respostas. Agora, precisava aprender.
Essa é uma marca essencial da verdadeira conversão: a disposição de obedecer.
Muitas pessoas desejam Jesus como Salvador, mas resistem em recebê-lo como Senhor. Querem o perdão de Cristo, mas não sua direção. Desejam consolo, mas não transformação.
Entretanto, o mesmo Jesus que perdoa também governa. O Salvador é o Senhor.
A fé verdadeira não consiste apenas em dizer: “Jesus pode me salvar.” Ela também declara: “Jesus tem o direito de dirigir a minha vida.”
Paulo não apenas deixou de perseguir a Igreja. Ele se tornou parte dela.
Ananias, compreensivelmente, ficou assustado quando Deus o mandou procurar Saulo. Ele conhecia a reputação daquele homem e sabia que havia chegado a Damasco com autoridade para prender os cristãos.
Mesmo assim, obedeceu.
Ao encontrar Paulo, Ananias colocou as mãos sobre ele e disse: “Irmão Saulo” (At 9.17).
Essas duas palavras são profundamente significativas.
O perseguidor foi chamado de irmão. Aquele que pretendia aprisionar os cristãos foi recebido na família cristã. A graça não apenas cancelou sua culpa; concedeu-lhe uma nova identidade.
Paulo não era mais definido pelo seu passado. Não era apenas “o antigo perseguidor”. Agora era discípulo, irmão, servo, apóstolo e instrumento escolhido.
O evangelho não se limita a dizer quem não somos mais. Ele também declara quem nos tornamos em Cristo.
Já não somos escravos do pecado. Somos filhos de Deus. Já não estamos condenados. Somos justificados pela fé. Já não somos estranhos. Somos membros da família de Deus. Já não somos inimigos. Fomos reconciliados.
Isso não significa que o passado deixa de ter consequências ou que a restauração da confiança seja automática. Significa que o pecado confessado e abandonado não possui mais a palavra final sobre nossa identidade.
Em Cristo, há possibilidade de recomeço.
Jesus poderia ter explicado diretamente a Paulo tudo o que ele precisava saber. Poderia ter restaurado sua visão imediatamente e enviá-lo ao ministério sem a participação de ninguém.
Contudo, decidiu usar Ananias.
Ananias não era um dos doze apóstolos. Não aparece como líder de uma grande igreja nem como pregador famoso. Era simplesmente um discípulo obediente que vivia em Damasco.
Deus lhe disse: “Levante-se e vá.” Ananias respondeu: “Eis-me aqui, Senhor” (At 9.10).
A missão não era fácil. Ele deveria entrar na casa onde estava o maior perseguidor da Igreja e impor-lhe as mãos.
Ananias apresentou suas preocupações, mas, ao receber a confirmação de Deus, obedeceu.
Isso nos ensina que ninguém é insignificante na obra do Reino. O futuro apóstolo dos gentios precisou do ministério de um discípulo aparentemente desconhecido.
Existem “Paulos” esperando o cuidado de algum “Ananias”.
Talvez não tenhamos um ministério público ou uma função de destaque. Ainda assim, uma visita, uma oração, uma palavra de encorajamento ou um ato de obediência pode participar da transformação de uma vida.
Ananias também nos ensina a não aprisionar as pessoas ao passado. Ele poderia ter dito: “Esse homem nunca mudará.” Em vez disso, creu que a graça de Deus era capaz de transformar até mesmo um perseguidor.
A Igreja deve ser uma comunidade que reconhece o pecado, mas também acredita na possibilidade de restauração.
Jesus disse a respeito de Paulo: “Este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome diante dos gentios, reis e filhos de Israel” (At 9.15).
Paulo foi salvo para servir.
Sua conversão e sua vocação estão profundamente relacionadas. O encontro com Cristo não apenas encerrou sua antiga missão; deu-lhe uma nova.
Antes, Paulo levava cartas para prender cristãos. Depois, passou a levar o evangelho para libertar pecadores. Antes, usava sua força para espalhar medo. Depois, entregou sua vida para anunciar esperança. Antes, tentava impedir o crescimento da Igreja. Depois, tornou-se um dos principais instrumentos de sua expansão.
A graça transforma nossos dons, conhecimentos, experiências e capacidades em instrumentos do Reino de Deus.
Paulo continuou sendo intelectualmente brilhante, corajoso, disciplinado e determinado. Porém, suas capacidades foram redirecionadas. Aquilo que antes era utilizado para perseguir passou a ser empregado para servir.
A conversão não destrói nossa personalidade. Ela a purifica e a coloca a serviço de Deus.
Todo convertido recebe uma missão. Nem todos são chamados para ser apóstolos, pastores ou missionários transculturais, mas todos são chamados para testemunhar de Cristo e servir ao próximo.
A pergunta não é apenas: “De que Deus me salvou?” Também precisamos perguntar: “Para que Deus me salvou?”
Logo depois de recuperar a visão e ser batizado, Paulo começou a anunciar nas sinagogas que Jesus é o Filho de Deus (At 9.20).
As pessoas ficaram admiradas e perguntavam se aquele não era o homem que perseguia os cristãos em Jerusalém.
A mudança era evidente.
Paulo não apenas afirmou que havia tido uma experiência espiritual. Sua vida tomou uma direção completamente diferente.
A conversão bíblica produz frutos. Não somos salvos pelas obras, mas a fé que salva nunca permanece sem obras.
João Batista dizia que as pessoas deveriam produzir frutos dignos de arrependimento (Mt 3.8). Tiago afirma que a fé sem obras é morta (Tg 2.17). Jesus ensinou que a árvore é conhecida por seus frutos (Mt 7.16).
Isso não significa perfeição instantânea. Paulo ainda teria muito a aprender. Passaria por períodos de preparação, crescimento e amadurecimento.
Entretanto, a direção de sua vida mudou. Antes, caminhava contra Cristo. Agora, caminhava com Cristo. Antes, destruía. Agora, edificava. Antes, ameaçava. Agora, anunciava.
A conversão genuína não significa que nunca mais enfrentaremos lutas, dúvidas ou tentações. Significa que uma nova vida começou e que a graça de Deus está nos conduzindo em um processo de transformação.
Paulo se considerava o principal dos pecadores porque havia perseguido a Igreja de Deus. Mesmo assim, recebeu misericórdia.
Ele escreveu: “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1Tm 1.15).
Em seguida, explicou que havia recebido misericórdia para servir de exemplo aos que haveriam de crer em Cristo.
A conversão de Paulo é uma demonstração do alcance da graça divina.
Se Deus pôde transformar um perseguidor em apóstolo, não devemos concluir rapidamente que alguém está perdido demais, endurecido demais ou distante demais.
Existem pessoas por quem já desistimos de orar. Algumas parecem hostis ao evangelho. Outras ridicularizam a fé cristã ou vivem de maneira completamente contrária à vontade de Deus.
Contudo, Paulo também parecia improvável.
Enquanto os cristãos talvez estivessem pedindo a Deus que os protegesse de Saulo, Deus já estava preparando a conversão de Saulo.
Não sabemos o que a graça está fazendo no coração das pessoas.
Por isso, não devemos desistir de anunciar, amar, orar e testemunhar. A conversão não é obra de nossa capacidade de persuasão, mas da ação de Deus, que utiliza nosso testemunho para chamar pessoas ao arrependimento e à fé.
Jesus afirmou que mostraria a Paulo “quanto lhe importa sofrer” pelo seu nome (At 9.16).
Isso parece surpreendente. Paulo havia acabado de ser chamado e já recebeu a informação de que enfrentaria sofrimento.
O evangelho não prometeu a Paulo uma vida confortável. Prometeu-lhe uma vida com propósito.
Ele enfrentaria prisões, açoites, naufrágios, perseguições, rejeições e muitas outras dificuldades. Porém, agora sofreria não como perseguidor, mas como testemunha de Cristo.
A conversão não nos isenta das dores deste mundo. Ela nos concede uma nova companhia, uma nova esperança e um novo propósito em meio ao sofrimento.
Paulo descobriria que a graça de Cristo é suficiente e que o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza (2Co 12.9).
Mais tarde, ele poderia dizer que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória que será revelada em nós (Rm 8.18).
O encontro com Cristo não responde imediatamente a todas as nossas perguntas sobre o sofrimento. Entretanto, assegura que não sofremos sozinhos e que nossa dor não precisa ser inútil.
O caminho de Damasco foi decisivo, mas não foi o fim da jornada de Paulo. Foi o começo.
Ele precisou aprender, amadurecer, servir, sofrer e crescer na graça. Sua vida inteira passou a ser uma busca por conhecer mais profundamente a Cristo.
Em Filipenses 3.10, muitos anos depois de sua conversão, Paulo ainda dizia que desejava conhecer Cristo, o poder de sua ressurreição e a comunhão de seus sofrimentos.
Isso nos mostra que a conversão não é apenas um acontecimento do passado. É o início de uma vida de discipulado.
Existe um momento em que nos arrependemos, cremos e somos recebidos por Deus. Contudo, a vida cristã não termina nesse momento. A graça que nos justifica também nos santifica.
O Espírito Santo continua trabalhando em nosso caráter, libertando-nos do pecado, aperfeiçoando-nos em amor e conformando-nos à imagem de Cristo.
A conversão muda a direção da vida. A santificação aprofunda essa transformação.
Por isso, a pergunta não deve ser apenas: “Em que dia eu me converti?” Precisamos também perguntar: “De que maneira Cristo continua me transformando hoje?”
A conversão de Paulo nos ensina que a religiosidade sem Cristo pode nos manter distantes da verdade; que a graça de Deus toma a iniciativa, mas espera uma resposta; que o encontro com Jesus revela nossa condição e destrona nossa autossuficiência; que Cristo se identifica com sua Igreja; e que a verdadeira conversão produz uma nova identidade, uma nova direção e uma nova missão.
Paulo saiu de Jerusalém como perseguidor e entrou em Damasco como alguém que precisava ser conduzido pela mão. Pouco depois, começou a anunciar a fé que antes tentava destruir. Tudo mudou porque ele encontrou o Cristo ressuscitado.
A história de Paulo também nos confronta. Será que nossa religiosidade está realmente submetida a Jesus? Estamos dispostos a reconhecer quando nossas convicções precisam ser corrigidas? Temos respondido à graça de Deus com arrependimento, fé e obediência? Nossa conversão pode ser percebida na maneira como vivemos, tratamos as pessoas e servimos ao Reino? Continuamos crescendo no conhecimento de Cristo?
A conversão de Paulo não deve ser admirada apenas como um grande acontecimento do passado. Ela deve levar-nos a examinar nossa própria experiência com Deus.
O mesmo Cristo que encontrou Paulo no caminho de Damasco continua chamando pecadores, confrontando a falsa segurança, restaurando vidas e transformando antigos inimigos em seus amigos e cooperadores.
Ninguém está longe demais para ser alcançado pela graça. Nenhum passado é forte demais para impedir um novo começo. E nenhuma vida verdadeiramente entregue a Cristo permanece igual.
Bispo Ildo Mello