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Romanos — Comentário completo, capítulo a capítulo

Introdução geral

A carta e a cidade

Romanos é a mais extensa e a mais sistemática das cartas de Paulo. Não nasceu para apagar um incêndio local, como Gálatas, nem para responder a uma lista de perguntas de uma comunidade que Paulo conhecia bem, como 1 Coríntios. Nasceu para expor, de modo ordenado e completo, o próprio evangelho — do diagnóstico do pecado à glória final. Por isso, ao longo dos séculos, foi ela, mais do que qualquer outro livro, que repetidamente acendeu a Igreja.

O apóstolo escreve a uma comunidade que ainda não conhecia pessoalmente. A igreja de Roma não foi por ele fundada; provavelmente surgiu do testemunho de peregrinos que ouviram o evangelho em Jerusalém, no Pentecostes (At 2.10), e o levaram para a capital do Império. Era uma igreja mista, de judeus e gentios, e boa parte da carta trata justamente de como esses dois lados se tornam, em Cristo, um só povo. Paulo escreve de Corinto, por volta do ano 57, no fim da terceira viagem missionária, planejando visitar Roma a caminho da Espanha (Rm 15.23-24). Antes de ir, envia à frente a exposição madura da mensagem que prega — como quem manda o mapa antes de chegar.

Wesley observa que Paulo afirma a sua vocação logo na abertura, porque os mestres judaizantes disputavam o seu direito ao ofício apostólico, e “é com grande propriedade que ele o afirma na entrada de uma carta em que os princípios deles são inteiramente derrubados” (Notas sobre Rm 1.1). E acrescenta uma frase que vale para toda vocação: “Quando Deus chama, ele faz aquilo para que chama.”

A tese e a estrutura

O coração da carta está logo no começo, e convém guardá-lo como chave de tudo o que segue.

“Não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego. Porque, no evangelho, a justiça de Deus se revela, de fé em fé.” (Rm 1.16-17)

A carta se desdobra em movimentos claros. Nos capítulos 1 a 8, Paulo expõe o evangelho: o diagnóstico do pecado universal (1—3.20), a justificação pela fé (3.21—5), a libertação do poder do pecado e a santificação (6—7) e a vida no Espírito (8). Nos capítulos 9 a 11, defende a fidelidade de Deus diante da incredulidade de Israel. E, dos capítulos 12 a 16, mostra como esse evangelho reorganiza a vida — no culto de toda a existência, na igreja, diante do Estado, na mesa dos fortes e fracos e nas relações de cada dia. Da doutrina à prática, sem costura aparente: primeiro o que Deus fez por nós, depois o que devemos fazer em resposta.

Por que Romanos incendeia a Igreja

Foi lendo Romanos que Agostinho, no jardim, ouviu o “toma e lê” e foi convertido. Foi meditando em Romanos 1.17 que Lutero redescobriu a justificação pela fé e a Reforma começou. E foi ouvindo alguém ler o prefácio de Lutero à Epístola aos Romanos, numa reunião na Rua Aldersgate, em Londres, na noite de 24 de maio de 1738, que John Wesley registrou no seu Diário as palavras que marcaram o metodismo: senti o coração estranhamente aquecido; senti que confiava em Cristo, somente em Cristo, para a salvação; e foi-me dada a certeza de que ele tirara os meus pecados, os meus, e me salvara da lei do pecado e da morte. A carta que vamos percorrer não é um tratado frio; é fogo. Leiamo-la, pois, de joelhos, esperando que Deus faça em nós o que fez neles.

A perspectiva deste comentário

Leio Romanos na tradição arminiana e wesleyana. Nela, a iniciativa da salvação é inteiramente de Deus, e o pecador, morto e incapaz, só se move porque a graça preveniente o alcança primeiro; mas a salvação é recebida e conservada pela fé, a graça é resistível, e a segurança do crente, embora firmíssima no amor de Deus, não dispensa a perseverança. Nos pontos disputados — a justificação, a graça preveniente, o “eu” de Romanos 7, a eleição de Romanos 9, a segurança de Romanos 8 e 11 — deixo a minha posição explícita, e dialogo de perto com as Notas de Wesley, reconhecendo sempre, com respeito, os irmãos que leem de outro modo. E, porque Romanos é uma carta profundamente pastoral, procuro, ao fim de cada capítulo, descer do púlpito ao chão da vida.

Romanos 1 — O evangelho, poder de Deus

A saudação e a vocação (1.1-7)

Paulo se apresenta acumulando três títulos: “servo de Cristo Jesus, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus” (Rm 1.1). Servo, apóstolo e separado: a mesma pessoa que se curva como escravo é enviada com autoridade e posta à parte para uma tarefa. E o evangelho que prega não é novidade sua — foi “prometido por meio dos seus profetas, nas Sagradas Escrituras” (Rm 1.2) —, tendo por conteúdo o Filho, descendente de Davi segundo a carne e “poderosamente declarado Filho de Deus segundo o espírito de santidade pela ressurreição dos mortos” (Rm 1.3-4). As duas naturezas de Cristo já estão aqui, e a ressurreição é a grande prova de tudo.

A saudação termina com a bênção que atravessa toda a carta: “graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo” (Rm 1.7). Wesley nota que os apóstolos preferem chamar a Deus de “Pai”: no Antigo Testamento os santos diziam “o Senhor nosso Deus”, pois eram servos; agora somos filhos — e os filhos conhecem tão bem o Pai que nem precisam repetir o seu nome próprio.

A tese: a justiça de Deus revelada (1.16-17)

Depois de expressar o seu desejo ardente de visitar Roma (Rm 1.8-15), Paulo enuncia a tese. O evangelho é “poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” — não conselho, não filosofia, mas força que salva. E nele “a justiça de Deus se revela, de fé em fé”: a maneira que Deus mesmo estabeleceu para tornar justo o injusto, do princípio ao fim pela fé, e não pelas obras.

Wesley chama o evangelho de “o grande e gloriosamente poderoso meio de salvar todos os que aceitam a salvação no modo do próprio Deus” (Notas sobre Rm 1.16). E, sobre o versículo seguinte, observa que há aqui uma dupla revelação: “da ira e da justiça — a primeira, pouco conhecida pela natureza, é revelada pela lei; a segunda, totalmente desconhecida pela natureza, pelo evangelho” (Rm 1.17). O “de fé em fé”, acrescenta, é “uma série gradual de promessas cada vez mais claras”.

A ira revelada e a espiral da idolatria (1.18-32)

A partir do versículo 18 o quadro escurece. Antes da boa-nova, o mau diagnóstico: “a ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça” (Rm 1.18). Paulo descreve a espiral descendente: os homens conheceram a Deus pela criação, pois “as suas perfeições invisíveis… claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidas por meio das coisas que foram criadas” (Rm 1.20); mas “não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças” (Rm 1.21). Trocaram a glória do Deus incorruptível por imagens, a verdade pela mentira, o Criador pela criatura (Rm 1.23,25). E três vezes ressoa a mesma sentença: “Deus os entregou” — à impureza (v.24), a paixões vis (v.26) e a uma mente reprovada (v.28).

É crucial entender o que significa esse “entregar”. Não é Deus empurrando alguém ao pecado — “Deus a ninguém tenta” (Tg 1.13) —, mas Deus retirando a mão que refreava. O juízo, aqui, não é um raio que cai de fora; é o afrouxar da graça que continha o mal, deixando o pecado seguir o seu curso e cobrar o seu preço. Quem insiste em viver sem Deus acaba recebendo, como castigo, exatamente aquilo que escolheu.

Wesley é preciso: “Deus os entregou — retirando a sua graça refreadora” (Notas sobre Rm 1.24). E ainda em 1.19, ao dizer que “o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles”, ele remete à “luz que ilumina todo homem que vem ao mundo” (Jo 1.9) — a graça preveniente, que alcança até o pagão que nunca ouviu a Lei escrita. Ninguém está inteiramente sem essa luz, ainda que a suprima.

A lista de pecados que fecha o capítulo (Rm 1.29-31) não é fantasia distante: inveja, homicídio, intriga, maledicência, insolência, soberba, desobediência aos pais, deslealdade, falta de afeição natural, ausência de misericórdia. E o auge não é praticar o mal, mas aplaudi-lo: os que “não somente fazem estas coisas, mas também aprovam os que as praticam” (Rm 1.32). Wesley observa que “quem tem prazer nos que fazem o mal ama a maldade pela própria maldade” — e amontoa sobre a própria cabeça a culpa dos outros.

Para a vida. O evangelho começa por um diagnóstico honesto. Não há boa-nova para quem se acha são; o remédio só faz sentido para quem admite a doença. Por isso, antes de anunciar a graça, é preciso a coragem — pastoral e amorosa — de nomear o pecado, inclusive o nosso. E, ao ver o mundo em ruínas morais, o crente não reage com desprezo de quem se julga melhor, e sim com a compaixão de quem também foi resgatado da mesma espiral — só que pela graça que o refreou.

Romanos 2 — O juízo justo de Deus

O dedo que se vira (2.1-11)

Depois de descrever os pecados escancarados dos gentios, Paulo faz uma virada que apanha o leitor religioso de surpresa: “és, pois, indesculpável, ó homem, quando julgas, quem quer que sejas; porque, no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas” (Rm 2.1). O dedo que apontava para o pagão volta-se para o moralista. Deus julga “segundo a verdade” (Rm 2.2), “retribuindo a cada um segundo as suas obras” (Rm 2.6) e “sem acepção de pessoas” (Rm 2.11). De nada vale ter a Lei se não se vive a Lei; a religião de fachada não engana o Juiz que sonda o coração.

No centro do trecho brilha uma frase que resume o coração de Deus: é “a bondade de Deus que te conduz ao arrependimento” (Rm 2.4). Não é primeiro o medo que dobra o pecador, mas a bondade. Quem despreza essa bondade, porém, “entesoura ira para si mesmo, para o dia da ira” (Rm 2.5) — imaginando acumular bens, acumula juízo.

Wesley comenta que a bondade, a paciência e a longanimidade de Deus são “designadas por Deus para te conduzir ou encorajar ao arrependimento” (Notas sobre Rm 2.4). E adverte: entesouras ira “embora penses estar entesourando todas as coisas boas”.

A lei escrita no coração (2.12-16)

E os que nunca tiveram a Lei? Paulo responde com equilíbrio: “todos os que sem lei pecaram também sem lei perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, mediante lei serão julgados” (Rm 2.12). Cada um é julgado segundo a luz que recebeu. Pois mesmo os gentios, “que não têm lei, fazendo, por natureza, o que a lei ordena… mostram a obra da lei escrita no seu coração, testemunhando-lhes também a consciência” (Rm 2.14-15). Há uma bússola moral gravada em todo ser humano.

Mas Wesley não a chama simplesmente de “natureza”: “o que parece ‘natureza’ nos gentios que praticam a lei é, a rigor, graça — a operação universal e anterior do Espírito, que ninguém merece e ninguém está sem ela” (Notas sobre Rm 2.14). Eis, de novo, a graça preveniente: até o senso do bem que resta no coração pagão é dom de Deus, não conquista do homem.

O judeu verdadeiro (2.17-29)

Paulo passa então ao judeu que se gloria na Lei, no nome de Deus e no papel de guia dos cegos — e o confronta com a pergunta cortante: “tu, pois, que ensinas a outrem, não te ensinas a ti mesmo?” (Rm 2.21). De nada vale a circuncisão sem a obediência: “a tua circuncisão se torna incircuncisão” (Rm 2.25). O sinal externo, sem a realidade interna, é vazio. E conclui com uma definição que abala toda confiança de fachada: “judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão, a que é do coração, no espírito, não segundo a letra” (Rm 2.29).

Wesley aplica a advertência à nossa própria casa: “o batismo sem a fé viva e a obediência não aproveita mais do que a circuncisão sem a lei” (nota editorial sobre Rm 2.25). Toda confiança sacramental vazia é aqui desmascarada — não é o rito que salva, mas o coração renovado pelo Espírito.

Para a vida. A hipocrisia religiosa é um perigo maior do que o pecado escancarado, porque se esconde atrás da própria fé e dorme tranquila. Faça a você mesmo a pergunta incômoda: sou mais rigoroso com os pecados dos outros do que com os meus? Confio em ritos e rótulos — batizado, membro, dizimista — mais do que num coração de fato entregue a Deus? E lembre-se, ao discipular alguém: a porta do arrependimento se abre melhor pela bondade paciente do que pela ameaça.

Romanos 3 — A justiça de Deus revelada

Toda boca se cala (3.1-20)

Antes do veredicto, Paulo responde a objeções: se o judeu também peca, qual foi a vantagem de ter a Lei? Grande — “principalmente porque lhes foram confiados os oráculos de Deus” (Rm 3.2). E a incredulidade de alguns não anula a fidelidade de Deus (Rm 3.3-4). Feita a defesa, o apóstolo fecha o processo iniciado em 1.18: judeus e gentios estão todos “debaixo do pecado” (Rm 3.9). Empilha então uma cadeia de textos do Antigo Testamento — “não há justo, nem um sequer… não há quem faça o bem” (Rm 3.10-12) — e chega à sentença do tribunal: “para que toda boca se feche e todo o mundo seja culpável perante Deus” (Rm 3.19). A Lei não foi dada para justificar, mas para calar: “por meio da lei vem o pleno conhecimento do pecado” (Rm 3.20). Ela é o raio-X que revela a fratura, não o gesso que a cura.

Wesley faz aqui uma distinção preciosa: os textos sombrios descrevem “que espécie de homens Deus vê quando olha a humanidade em si mesma — não o que ele os faz pela sua graça”. A depravação total descreve o homem sem a graça; mas ninguém, de fato, está inteiramente sem ela.

O grande “Mas agora” (3.21-26)

Diante do silêncio total — nenhuma desculpa, nenhuma jactância — brotam as duas palavras mais libertadoras da carta.

“Mas, agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus… mediante a fé em Jesus Cristo, para todos e sobre todos os que creem; porque não há distinção. Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus.” (Rm 3.21-23)

Vem então o resumo do evangelho em um só fôlego: os que creem “são justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs como propiciação, pelo seu sangue” (Rm 3.24-25). Três palavras carregam a salvação. Justificação é o ato pelo qual Deus, o Juiz, declara justo o culpado que crê — não porque tenha deixado de ser pecador, mas porque outro pagou. Redenção é o resgate pago para libertar o escravo. Propiciação é a satisfação que aplaca a justa ira, na própria pessoa de Cristo. E tudo isso “para que ele seja justo e também o justificador daquele que tem fé em Jesus” (Rm 3.26): na cruz, a justiça e a misericórdia de Deus se abraçam sem que nenhuma seja diminuída.

Sobre a gratuidade dessa justificação, Wesley não poupa palavras: “Não é possível achar palavras que excluam mais absolutamente toda consideração das nossas próprias obras e obediência, ou que atribuam com mais ênfase o todo da nossa justificação à bondade livre e imerecida” (Notas sobre Rm 3.24).

A lei da fé exclui a jactância (3.27-31)

Se tudo é graça recebida pela fé, então acabou a vanglória: “onde está a jactância? Foi excluída. Por que lei? Das obras? Não; pelo contrário, pela lei da fé” (Rm 3.27). A fé é a mão vazia do mendigo, não a mão cheia do credor. E isso vale igualmente para judeus e gentios, pois “Deus é um só, o qual justificará por fé os circuncisos e, por meio da fé, os incircuncisos” (Rm 3.30). Longe de anular a Lei, essa fé a estabelece (Rm 3.31): honra a sua autoridade, aponta para Cristo, o seu fim, e abre o caminho para que ela venha a ser de fato cumprida no coração.

Wesley define assim a “lei da fé”: “aquela constituição divina que faz da fé, não das obras, a condição da aceitação” (Notas sobre Rm 3.27). E esclarece que somos justificados pela fé “não enquanto obra, mas enquanto recebe Cristo” (Rm 3.28): a fé não é um mérito que Deus recompensa, mas o instrumento pelo qual recebemos o dom.

Excurso: a justificação pela fé

Aqui está a descoberta que fez o coração de Wesley arder em Aldersgate e que Lutero chamou de o artigo pelo qual a Igreja se levanta ou cai. Justificação não é um processo lento de nos tornarmos bons o bastante para Deus; é um veredicto, pronunciado de uma vez, sobre quem crê em Jesus. E, no entanto — e isto é caro à tradição wesleyana —, a fé que justifica nunca fica sozinha. A mesma graça que perdoa também transforma; a justificação abre caminho para a santificação, e o Espírito que sela o perdão começa imediatamente a renovar o coração. Somos declarados justos pela fé, para sermos feitos santos pela graça. Justificação e santificação se distinguem, mas jamais se separam: uma muda a nossa posição diante de Deus; a outra, a nossa condição real.

Para a vida. Se você vive tentando merecer o amor de Deus, esta é a palavra que liberta: pare de pagar o que Cristo já pagou; traga as mãos vazias e receba. Mas não confunda graça com descuido — a fé que de fato recebe a Cristo é a mesma que começa a se parecer com ele. E, se você já foi justificado, olhe o próximo com os olhos de quem sabe que também foi perdoado de graça: isso dissolve, ao mesmo tempo, o orgulho e o hábito de julgar.

Romanos 4 — Abraão, o pai dos que creem

Justificado antes da circuncisão (4.1-12)

Para provar que a justificação pela fé não é invenção nova, Paulo recua ao maior dos patriarcas. “Creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça” (Rm 4.3). E distingue com clareza dois regimes: “ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim como dívida; mas ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça” (Rm 4.4-5). Quem trabalha recebe salário, que lhe é devido; quem crê recebe um dom, que não merecia. Paulo confirma com Davi, que descreve a bem-aventurança do homem “a quem Deus atribui justiça independentemente de obras” (Rm 4.6).

Segue então uma observação decisiva de cronologia. Abraão foi declarado justo pela fé (Gn 15) anos antes de ser circuncidado (Gn 17). Logo, a circuncisão não foi a causa da sua justiça, mas apenas “o selo da justiça da fé” que ele já possuía (Rm 4.11). Por isso Abraão é pai não só dos judeus, mas “de todos os que creem, mesmo sendo incircuncisos” (Rm 4.11). O rito veio depois, para confirmar; nunca para conquistar.

A promessa pela graça e a fé que dá glória (4.13-25)

Paulo insiste: se a herança viesse pela Lei, “a fé é vã, e a promessa, sem efeito” (Rm 4.14) — até porque “a lei produz ira” (Rm 4.15): ela exige e condena, mas não concede o que promete. Por isso ela vem “decorrente da fé, para que seja segundo a graça, a fim de que a promessa seja firme a toda a descendência” (Rm 4.16). Só o que se recebe por graça é seguro; o que depende do nosso desempenho está sempre em risco. E o apóstolo descreve a fé de Abraão em toda a sua grandeza: “esperando contra a esperança”, sem enfraquecer ao considerar o próprio corpo já sem vigor e o ventre de Sara já morto, ele “não duvidou, por incredulidade, da promessa de Deus; antes, foi fortalecido na fé, dando glória a Deus, estando plenamente convicto de que ele era poderoso para cumprir o que prometera” (Rm 4.19-21). A fé verdadeira honra a Deus, porque o toma pela palavra; e essa fé “lhe foi atribuída para justiça” — e foi registrada, diz Paulo, também “por causa de nós”, que cremos naquele que ressuscitou a Jesus (Rm 4.23-25).

Para a vida. A fé cristã não é otimismo ingênuo; é confiar naquele que “vivifica os mortos e chama à existência as coisas que não existem” (Rm 4.17). Quando as circunstâncias gritam “impossível”, a fé pergunta o que Deus prometeu — e, ao confiar, dá glória a Deus. Há promessas do Senhor sobre a sua vida, a sua família e o seu ministério que estão esperando exatamente essa fé que honra: a que não nega os fatos, mas os coloca debaixo do Deus que ressuscita mortos.

Romanos 5 — Justificados, temos paz

Os frutos da justificação (5.1-5)

Se o capítulo 4 provou a justificação, o 5 mostra os seus frutos — e são preciosos. “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1). Paz não é ausência de problemas, mas fim da guerra: quem era inimigo agora está reconciliado. Dessa paz brotam o acesso permanente “a esta graça na qual estamos firmes” e a esperança que se gloria na glória de Deus (Rm 5.2).

Wesley resume: “temos paz, esperança, amor e poder sobre o pecado — a suma dos capítulos quinto, sexto, sétimo e oitavo. Estes são os frutos da fé justificadora: onde eles não estão, aquela fé não está” (Notas sobre Rm 5.1). A fé verdadeira sempre produz fruto; onde não há fruto algum, é sinal de que ainda não houve fé.

E há mais: até as tribulações entram no plano. “A tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência provada; e a experiência, esperança. E a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo” (Rm 5.3-5). O sofrimento, na mão de Deus, deixa de ser sinal de rejeição e vira escola de caráter.

Wesley toca aqui num ponto pastoral: as tribulações “estamos tão longe de estimar como marca do desagrado de Deus, que as recebemos como sinais do seu amor paternal, pelas quais somos preparados para uma felicidade mais elevada” (Notas sobre Rm 5.3). O que parece castigo é, muitas vezes, treino de filho amado.

A prova suprema do amor (5.6-11)

A prova de tudo isso é a cruz, e Paulo a apresenta em gradação. Dificilmente alguém morre por um justo; talvez por um homem bom alguém ousasse morrer (Rm 5.7). “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8). Ele não esperou que fôssemos amáveis; amou-nos ímpios, inimigos, sem força. E se, ainda inimigos, fomos reconciliados pela morte do Filho, “muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida” (Rm 5.10) — pois ele vive para interceder por nós.

Wesley sublinha que Cristo morreu por nós “quando estávamos sem força — seja para pensar, querer ou fazer qualquer coisa boa” (Notas sobre Rm 5.6). E não uma morte meramente exemplar: “não parece que esta expressão, morrer por alguém, tenha outra significação senão a de resgatar a vida de outro entregando a nossa própria.”

Adão e Cristo (5.12-21)

O capítulo termina com o grande contraste entre os dois representantes da humanidade. Por um homem, Adão, entraram o pecado e a morte, que passaram a todos (Rm 5.12); por um Homem, Cristo, vieram a graça e a vida. Mas Paulo insiste na desproporção a favor da graça: “se, pela ofensa de um só, muitos morreram, muito mais a graça de Deus… foi derramada abundantemente sobre muitos” (Rm 5.15). E chega ao clímax: “onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5.20). A dívida de Adão foi paga com sobras pela riqueza de Cristo; o segundo Adão não apenas empatou o jogo, venceu por larga margem.

E aqui Wesley abre a porta para a santificação, tão cara ao metodismo: a graça superabunda “não somente na remissão daquele pecado que Adão trouxe sobre nós, mas de todos os nossos próprios; não somente na remissão dos pecados, mas na infusão da santidade; não somente no livramento da morte, mas na admissão à vida eterna — vida muito mais nobre e excelente do que a que perdemos pela queda” (Notas sobre Rm 5.20).

Para a vida. A quem vive assombrado pela consciência, Romanos 5 diz: a guerra acabou; você tem paz com Deus. A quem atravessa o vale do sofrimento, diz que a dor não é desperdício nem sinal de abandono — Deus a está transformando em perseverança, caráter e esperança. Escreva num lugar visível: “Deus prova o seu amor por mim na cruz”, e leia isso nos dias em que o coração duvidar. E lembre: a graça não veio só para cancelar o passado, mas para infundir santidade no presente.

Romanos 6 — Mortos para o pecado, vivos para Deus

Não à graça barata (6.1-11)

Se a graça superabunda sobre o pecado, alguém poderia raciocinar torto: “permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante?” (Rm 6.1). Paulo reage com horror: “De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós que para ele morremos?” A graça não é licença para pecar; é poder para não pecar. E a razão está na nossa união com Cristo, retratada no batismo: fomos “sepultados com ele na morte”, para que “andemos em novidade de vida” (Rm 6.4). O “velho homem foi crucificado com ele, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos” (Rm 6.6).

Wesley entende esse “velho homem” como “a nossa natureza má… aquela inteira depravação que, por natureza, se espalha por todo o homem”, e que no crente “é crucificada com Cristo, mortificada, gradualmente morta, em virtude da nossa união com ele” (Notas sobre Rm 6.6). A palavra “gradualmente” é importante: a morte do pecado, uma vez iniciada, é um processo que a graça leva adiante.

Da doutrina nasce o imperativo que é a chave prática do capítulo: “considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus” (Rm 6.11). O verbo é “considerar” — contar como verdade aquilo que Cristo já fez, e viver a partir disso. A santidade não começa por um esforço desesperado, mas por acreditar em quem já somos em Cristo.

A troca de senhor (6.12-23)

Trata-se de uma mudança de reinado: “não reine, portanto, o pecado no vosso corpo mortal” (Rm 6.12); antes, apresentai-vos a Deus e os vossos membros “como instrumentos de justiça” (Rm 6.13). E vem a promessa: “o pecado não terá domínio sobre vós, porque não estais debaixo da lei, e sim da graça” (Rm 6.14). Éramos escravos do pecado; tornamo-nos “escravos da justiça” (Rm 6.18). Ninguém vive sem senhor; a questão não é se serviremos, mas a quem.

Aqui aparece o que se costuma chamar de otimismo wesleyano da graça: para Wesley, o “completa vitória sobre o pecado não é ideal inatingível, mas promessa do evangelho para esta vida — fundamento da doutrina da santificação” (nota editorial sobre Rm 6.14). E sobre o obedecer “de coração à forma de doutrina” (Rm 6.17), ele nota a bela figura do molde: “as nossas mentes devem conformar-se aos preceitos do evangelho como o metal líquido toma a figura do molde em que é vazado.”

O balanço final é impressionante: “o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6.23). Note a assimetria: o pecado paga o que deve, e paga em morte; Deus não paga salário — dá um presente. As más obras exigem a sua recompensa; as boas apenas recebem um dom gratuito.

Wesley lê aquela “morte” em três dimensões — temporal, espiritual e eterna. Sobre a natureza exata da morte eterna, ele nota que a Escritura usa imagens fortes; o que o texto exclui com certeza absoluta é qualquer salvação sem Cristo: “o salário do pecado jamais é a vida” (nota editorial sobre Rm 6.23).

Para a vida. A liberdade cristã não é fazer o que se quer, mas ser livre para fazer o que agrada a Deus. Na luta contra um pecado que insiste em voltar, o segredo não é apenas tentar mais; é lembrar quem você já é em Cristo — morto para o pecado, vivo para Deus — e, a partir dessa identidade, dizer não ao velho senhor. E não se contente com pouco: a graça promete vitória real, não apenas perdão repetido. A mesma mão que perdoa também liberta.

Romanos 7 — O enigma de Romanos 7

Livres da Lei para outro Senhor (7.1-6)

Paulo continua explicando a nossa relação com a Lei, usando a imagem do casamento: como a mulher fica livre da lei do marido quando ele morre, também nós “fomos mortos para a lei, por meio do corpo de Cristo, para pertencermos a outro, àquele que ressurgiu dentre os mortos” (Rm 7.4). O objetivo da libertação não é a anarquia, mas um novo vínculo: pertencer a Cristo e “frutificar para Deus”, servindo “em novidade de espírito, e não na caducidade da letra” (Rm 7.6).

A Lei é santa; o pecado é que mata (7.7-13)

Alguém poderia concluir que a Lei é má. Paulo se apressa a defendê-la: “a lei é santa; e o mandamento, santo, justo e bom” (Rm 7.12). O problema nunca foi a Lei, e sim o pecado que habita em nós, que a Lei apenas revela e, ao proibir, provoca — “eu não teria conhecido a cobiça, se a lei não dissesse: não cobiçarás” (Rm 7.7). A Lei é como o raio de sol que mostra a poeira no ar: não a criou, apenas a expôs.

O “homem miserável” (7.14-25)

Então vem o trecho mais debatido da carta: “não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço” (Rm 7.19), até o clímax: “desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7.24). Quem é esse “eu” dividido, que aprova o bem, mas se vê arrastado ao mal, “vendido sob o pecado” (Rm 7.14)? O cristão maduro, em luta permanente? Ou o homem ainda sob a Lei, despertado para a sua miséria, mas ainda não libertado pelo Espírito?

Na tradição wesleyana, a segunda leitura é a mais fiel ao contexto. Aquele que ainda é “vendido sob o pecado” e não conheceu o livramento não pode ser a mesma pessoa de quem, no versículo seguinte, se dirá que “nenhuma condenação há” e que foi libertada “da lei do pecado e da morte” (Rm 8.1-2). O capítulo 7 é o retrato do despertar; o capítulo 8, o da libertação. É a fotografia de quem, iluminado pela Lei santa, descobre que não consegue cumpri-la por si e, esgotado, começa quase sem perceber a clamar por socorro — até que Cristo responde.

Wesley o diz com precisão: nesse trecho Paulo “entretece todo o processo de um homem raciocinando, gemendo, lutando e escapando do estado legal para o evangélico” (Notas sobre Rm 7.14). Sobre o clamor do versículo 24: “A luta chegou agora ao auge; e o homem, achando que não há socorro em si mesmo, começa quase sem perceber a orar: Quem me livrará?” E conclui, no versículo 25, que “o homem está agora inteiramente cansado da sua escravidão e à beira da liberdade”.

Para a vida. Há um lugar por onde quase todo mundo precisa passar: o de descobrir que a força de vontade não salva ninguém. Se você está exausto de tentar ser bom e sempre recair, essa exaustão pode ser uma graça disfarçada — ela o empurra do “eu não consigo” para o “Cristo me livra”. O grito “quem me livrará?” já é meio caminho andado, porque a resposta vem na mesma frase: “graças a Deus, por Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 7.25). Não fique parado no capítulo 7; atravesse para o 8.

Romanos 8 — A vida no Espírito

Nenhuma condenação (8.1-11)

Chegamos ao cume da carta. Depois do gemido do capítulo 7, rompe a manhã: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). O que a Lei não pôde fazer, por ser fraca pela carne, Deus fez enviando o próprio Filho, “condenou, na carne, o pecado, para que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm 8.3-4). O capítulo inteiro respira Espírito: há dois modos de existir, “segundo a carne” e “segundo o Espírito”, e cada um tem a sua mente, o seu rumo e o seu fim — “o pendor da carne dá para a morte, mas o do Espírito, para a vida e paz” (Rm 8.6). E o pendor da carne, adverte Paulo, “é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar” (Rm 8.7). E a marca do cristão é decisiva: “se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8.9).

A adoção e o testemunho do Espírito (8.12-17)

No centro está a adoção. “Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8.14); não recebemos “o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados, mas… o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai!” (Rm 8.15). E, mais precioso ainda, “o próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.16). Há uma certeza interior, dada pelo Espírito, de que pertencemos a Deus — não uma dedução da nossa consciência, mas uma voz que se soma a ela.

Este versículo é o fundamento da doutrina wesleyana do testemunho do Espírito, que Wesley desenvolveu em dois sermões célebres: uma impressão interior direta, distinta da simples inferência da consciência, pela qual o filho de Deus sabe que o é. Wesley a descreve como bênção a ser desfrutada “clara e constante” (Notas sobre Rm 8.16). É o privilégio do cristão não apenas crer que é salvo, mas saber-se amado e aceito, pela voz do Espírito no coração.

Os gemidos e a glória (8.18-27)

Filhos, e portanto herdeiros — “herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo, se com ele sofremos” (Rm 8.17). Paulo pesa a balança: “as aflições do tempo presente não podem ser comparadas com a glória a ser revelada em nós” (Rm 8.18). E descreve três gemidos e uma esperança. Geme a criação, sujeita à vaidade, “em dores de parto” (Rm 8.22); gememos nós, “que temos as primícias do Espírito”, aguardando “a redenção do nosso corpo” (Rm 8.23); e geme o próprio Espírito, que “intercede por nós com gemidos inexprimíveis” quando não sabemos orar como convém (Rm 8.26). O universo inteiro está grávido de redenção. E no meio dos gemidos, a promessa que sustenta gerações: “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8.28).

Excurso: a corrente de ouro e a segurança do crente (8.28-39)

Em 8.29-30 Paulo encadeia uma “corrente de ouro”: os que Deus “de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho… e aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou”. A leitura calvinista vê aí um número fixo, decretado desde a eternidade e infalivelmente conduzido à glória. A leitura wesleyana entende os elos como o método de Deus, e não como uma lista fechada de nomes: a predestinação é “para serem conformes à imagem do seu Filho” — a marca dos que serão glorificados é a semelhança com Cristo —, e a base é a presciência (1Pe 1.2).

Wesley é explícito: sobre os que Deus justificou, “contanto que permanecessem na sua bondade (Rm 11.22), a esses, no fim, glorificou. Paulo não afirma que precisamente o mesmo número de homens é chamado, justificado e glorificado. Ele não nega que um crente possa desviar-se e ser cortado entre o seu chamado e a sua glorificação” (Notas sobre Rm 8.30). Os elos descrevem o caminho por onde Deus nos conduz, passo a passo, rumo ao céu — não um decreto que dispensa a fé perseverante.

Wesley chega a advertir contra o próprio conceito de decretos eternos entendidos ao pé da letra: a linguagem de Deus “deliberando e decretando” é apenas “uma representação popular do seu conhecimento infalível e da sua sabedoria imutável”; Deus não precisou, antes da criação, redigir um registro que o dirigisse depois, “sendo o seu entendimento sempre igualmente claro e a sua sabedoria igualmente infalível” (Notas sobre Rm 8.28).

O capítulo termina em triunfo, num dos textos mais altos da Escritura: “se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8.31). Nada pode acusar, pois é Deus quem justifica; nada pode condenar, pois Cristo intercede; nenhuma prova nos derrota — “em todas estas coisas, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou” (Rm 8.37); e “nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados… nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.38-39). É a mais alta certeza da fé. E, lida em harmonia com 8.30 e 11.22, ela ensina exatamente isto: nenhum inimigo, nenhuma força, nenhuma circunstância nos arranca da mão de Deus — mas somos nós mesmos exortados a permanecer nele (Jo 15.4-9). Ninguém nos rouba; podemos, porém, sair. E é justamente por isso que a exortação a permanecer é séria, e a promessa de que nada nos separa é doce: uma guarda a outra.

Wesley harmoniza as duas verdades sem forçar nenhuma: nada externo — “nenhuma criatura, poder ou circunstância — pode separar o crente do amor de Deus”; mas essa certeza “não anula a advertência contra a apostasia voluntária: ninguém nos arranca; mas nós mesmos somos exortados a permanecer” (nota editorial sobre Rm 8.38-39; cf. Jo 15.4-9).

Para a vida. Filho de Deus, você pode saber que é amado — peça e cultive o testemunho do Espírito, que gera não orgulho, mas paz e ousadia para chamar a Deus de Pai. E, quando as provas vierem, agarre-se a Romanos 8.28 e 8.38-39 como a uma âncora: nada abaixo do Todo-Poderoso pode separá-lo do amor de Cristo. Ao mesmo tempo, permaneça nele: a certeza do amor não é convite à preguiça, é combustível para a fidelidade. Quem sabe que é amado assim não quer sair dos braços que o seguram.

Romanos 9 — A palavra de Deus não falhou

As lágrimas de Paulo (9.1-5)

Depois do cume do capítulo 8, uma sombra atravessa o coração de Paulo: se em Cristo há tanta bênção, por que a maior parte de Israel — o povo das promessas — não creu? Ele começa com lágrimas, sob juramento, dizendo ter “grande tristeza e incessante dor no coração”, a ponto de desejar ser ele mesmo “anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos” (Rm 9.2-3). E enumera os privilégios de Israel: a adoção, a glória, as alianças, a lei, o culto, as promessas, os patriarcas e, sobretudo, o Messias segundo a carne (Rm 9.4-5). Guardar esse tom é decisivo: os capítulos 9 a 11 não são um tratado frio sobre decretos; são a angústia de um pastor pela salvação do seu povo. Quem lê Romanos 9 sem essas lágrimas já o entendeu mal.

A verdadeira pergunta (9.6-13)

O ponto de partida decide tudo. Paulo não está perguntando “por que uns creem e outros não”, mas: se Israel rejeitou o Messias, a promessa de Deus falhou? A resposta abre o bloco: “não pensemos que a palavra de Deus tenha falhado; porque nem todos os de Israel são, de fato, israelitas” (Rm 9.6). A promessa nunca dependeu de descendência física, e sim da fé; e sempre correu por um afunilamento — não Ismael, mas Isaque; não Esaú, mas Jacó; não todo Israel, mas o remanescente (Rm 9.7,13,27). A tese, portanto, é a eleição corporativa e vocacional da nação de Israel para um papel na história da salvação — não a eleição incondicional de indivíduos para o céu ou o inferno.

Convém lembrar que, mesmo em Romanos 8, Wesley já lera a eleição em chave corporativa e histórica: a nação de Israel foi escolhida para ser o povo de Deus, e depois a Igreja; e o que corta alguém dessa eleição “é a sua própria apostasia voluntária — não um decreto de preterição” (Notas sobre Rm 8.33).

Os quatro textos difíceis (9.14-23)

A leitura determinista se apoia em quatro passagens; convém lê-las no contexto. Primeira: “amei Jacó e aborreci Esaú” (Rm 9.13). Paulo cita Malaquias, escrito séculos depois da morte dos irmãos, onde “Jacó” e “Esaú” são as nações de Israel e Edom; o próprio oráculo original já falava de povos: “dois povos há no teu ventre… o mais velho servirá ao mais moço” (Gn 25.23) — e o indivíduo Esaú jamais serviu ao indivíduo Jacó. E “aborrecer”, no idioma semítico, é amar menos, preterir, como em Lucas 14.26; foi Esaú, aliás, quem desprezou a primogenitura (Gn 25.34; Hb 12.16).

Segunda: “terei misericórdia de quem me aprouver” (Rm 9.15-16). O ponto não é restringir a misericórdia a poucos, mas afirmar a liberdade de Deus para definir o modo de concedê-la — pela fé, não pela etnia nem pelas obras. Tanto que o mesmo bloco termina dizendo que Deus quer usar de misericórdia “para com todos” (Rm 11.32) e é “rico para com todos os que o invocam” (Rm 10.12). O “querer e correr” de 9.16 é o esforço e o privilégio humanos — o mérito, a linhagem —, e é isso que o texto exclui, não a fé, que é o modo não meritório que a própria graça estabeleceu (Rm 4.16).

Terceira: “endurece a quem quer”, no caso de Faraó (Rm 9.17-18). O texto de Êxodo mostra que, nas primeiras pragas, foi Faraó quem endureceu o próprio coração (Êx 8.15,32); só depois se diz que Deus o endureceu (Êx 9.12). O anúncio prévio (Êx 4.21) não é causa: Deus, que conhece o coração, apenas declara de antemão como Faraó reagiria — como fez com a negação de Pedro. O endurecimento divino é entrega judicial, o mesmo “Deus os entregou” de 1.24: o sol que amolece a cera é o que endurece o barro. E a ironia de Paulo é fina: Israel, incrédulo, estava repetindo Faraó — “vós sempre resistis ao Espírito Santo” (At 7.51).

Quarta: o oleiro e os vasos (Rm 9.20-23). Na Escritura, o barro nas mãos do oleiro é Israel, não cada alma individual (Is 29.16; 64.8; Jr 18.6). E em Jeremias 18 o destino do vaso muda conforme a resposta da nação: “se aquela nação se converter da sua maldade, também eu me arrependerei do mal” (Jr 18.7-8) — como Nínive comprovou (Jn 3.10). Há ainda uma diferença finíssima que o próprio Paulo faz: sobre os “vasos de ira”, diz apenas que estão “preparados para a perdição”, sem afirmar quem os preparou (no grego, a forma até permite entender que eles mesmos se prepararam); mas sobre os “vasos de misericórdia”, afirma com todas as letras que foi Deus quem os “de antemão preparou para a glória” (Rm 9.22-23). A conclusão salta aos olhos: para a glória, quem prepara é Deus; para a perdição, ninguém é preparado por ele — é o próprio pecador que se endurece. E as categorias se abrem, não se fecham: “chamarei meu povo ao que não era meu povo” (Rm 9.25).

A justiça pela fé (9.30-33)

O próprio Paulo dá a chave do capítulo no seu fecho, e ela não é decreto, mas fé: os gentios, que não buscavam a justiça, alcançaram-na, “a justiça que decorre da fé”; ao passo que Israel, que buscava “uma lei de justiça”, não a alcançou. Por quê? “Porque não a buscaram pela fé, e sim como que por obras” (Rm 9.30-32). Eis o diagnóstico do apóstolo, em suas próprias palavras: a diferença não está num decreto secreto, mas na fé que uns tiveram e outros recusaram, tropeçando na “pedra de tropeço” (Rm 9.33).

Foi contra a leitura determinista de Romanos 9 que Wesley disse, no seu sermão Free Grace (1739): “Seja lá o que essa Escritura prove, ela jamais poderá provar isso” — isto é, jamais provará que Deus criou almas para a perdição. Pois tal doutrina, argumenta ele, faria de Deus um condenador arbitrário, em nada parecido com o Jesus que chorou sobre Jerusalém: “quantas vezes quis eu… e vós não quisestes!” (Mt 23.37). Wesley desenvolveu longamente esse argumento também no tratado Predestination Calmly Considered (1752).

Para a vida. Se você já tremeu diante de Romanos 9, respire: o capítulo não foi escrito para lhe roubar a certeza, mas para defender a fidelidade de Deus. Deus não falhou, e a promessa continua correndo pela fé — a sua fé. Diante do incrédulo, a lição é dupla: não há caso perdido por decreto, então pregue e ore com esperança; e não há motivo para soberba, então trate cada pessoa como alguém a quem Deus estende as mãos.

Romanos 10 — A responsabilidade humana

Zelo sem entendimento (10.1-13)

Se o capítulo 9 defendeu a fidelidade de Deus, o 10 mostra o outro lado da moeda: a responsabilidade humana. E começa exatamente onde um determinista não começaria — numa oração: “o bom desejo do meu coração e a minha súplica a Deus, em favor deles, é para que sejam salvos” (Rm 10.1). Ora-se por quem pode ser salvo. Paulo diagnostica o problema de Israel não como decreto, mas como “zelo, mas não com entendimento” (Rm 10.2): buscavam estabelecer a própria justiça e não se sujeitaram à justiça de Deus (Rm 10.3). Cristo é “o fim da lei, para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10.4).

E então a porta se escancara. A justiça da fé não exige subir ao céu nem descer ao abismo; “a palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração” (Rm 10.8). Basta confessar com a boca a Jesus como Senhor e crer no coração que Deus o ressuscitou (Rm 10.9). Pois “não há distinção entre judeu e grego, porquanto o mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rm 10.12-13). “Todo aquele” — não um número secreto, mas quem quer que invoque.

A fé vem pela pregação (10.14-21)

Daí a lógica missionária: como invocarão aquele em quem não creram? Como crerão sem ouvir? Como ouvirão sem pregador? “A fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (Rm 10.17). A fé não cai do céu por decreto secreto; nasce do evangelho anunciado. Israel ouviu e entendeu, mas resistiu — e Paulo fecha o capítulo com uma das imagens mais comoventes da Bíblia, a boca de Deus falando de Israel: “o dia todo estendi as mãos a um povo rebelde e contradizente” (Rm 10.21). Braços abertos, não portas fechadas; um Deus que implora, não que exclui.

Para a vida. Este capítulo é o antídoto contra dois erros. Contra o fatalismo, que diz “se é para se converter, se converterá sozinho”: não — a fé vem pela pregação, e por isso vale a pena pregar, convidar, insistir. E contra o orgulho, que se acha melhor que o incrédulo: lembre-se de que a mesma mão que se estende a você se estende a ele. Pregue a todos, com esperança real, sabendo que “todo aquele que invocar será salvo”.

Romanos 11 — A oliveira e o futuro de Israel

Nem total, nem definitiva (11.1-24)

Terá Deus rejeitado o seu povo? “De modo nenhum!” (Rm 11.1). A rejeição não é total: “também agora, no tempo presente, ficou um remanescente segundo a eleição da graça” (Rm 11.5) — e o próprio Paulo é prova disso. E não é definitiva: “tropeçaram para que caíssem? De modo nenhum!” (Rm 11.11); antes, a sua queda abriu a porta da salvação aos gentios, para provocá-los a ciúme e, no fim, alcançá-los também.

Vem então a grande imagem da oliveira (Rm 11.17-24). Há uma só árvore — o povo de Deus, com raízes nas promessas a Abraão. Ramos naturais (judeus incrédulos) foram cortados; ramos silvestres (gentios crentes) foram enxertados. E Paulo nomeia a causa do corte — não um decreto: “por causa da incredulidade foram quebrados; tu, porém, pela fé estás firme” (Rm 11.20). Segue-se então a advertência mais explícita da carta contra a presunção da segurança incondicional, dirigida aos que já creem:

“Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas, para contigo, a bondade de Deus, se permaneceres nessa bondade; do contrário, também tu serás cortado.” (Rm 11.22)

É o mesmo “se permaneceres” que Wesley usou para interpretar a corrente de ouro do capítulo 8. A segurança do crente é real, mas não é automática: repousa no amor de Deus e se conserva pela fé perseverante. E Deus é poderoso para enxertar de novo os que foram cortados, “se não permanecerem na incredulidade” (Rm 11.23) — de novo, a condição é a fé, e a porta nunca se tranca por decreto.

O mistério e a doxologia (11.25-36)

Paulo revela então o mistério: “o endurecimento veio em parte a Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado. E assim, todo o Israel será salvo” (Rm 11.25-26). Endurecimento “em parte” e “até que” — parcial e temporário, não total nem eterno. E o alvo de toda a história é a misericórdia: “Deus encerrou a todos na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos” (Rm 11.32). Diante de tal plano, Paulo não conclui com uma fórmula, mas com adoração — e nós faríamos bem em imitá-lo:

“Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos!… Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém.” (Rm 11.33,36)

Para a vida. A humildade é a grande lição prática de Romanos 11: “não te glories contra os ramos” (Rm 11.18). Você foi enxertado por pura graça; então diante de todo incrédulo, a sua postura é gratidão e temor, nunca soberba. E o “se permaneceres nessa bondade” é um convite, não uma ameaça: permaneça nele todos os dias, pela fé, e a doxologia de Paulo será também a sua — porque de Deus, por Deus e para Deus são todas as coisas, inclusive a sua história.

Romanos 12 — O culto racional e a vida transformada

O sacrifício vivo (12.1-2)

Com o capítulo 12, a carta vira a esquina: da doutrina para a prática. E a virada tem uma dobradiça — “rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus” (Rm 12.1). Tudo o que vem agora nasce das misericórdias expostas nos onze capítulos anteriores; a ética cristã é sempre resposta à graça, nunca condição para merecê-la. E a resposta é o culto de toda a vida: “que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Rm 12.1). O altar do Antigo Testamento recebia animais mortos; o do Novo recebe pessoas vivas — e o desafio de um sacrifício vivo é que ele pode descer do altar a qualquer hora.

Wesley observa a bela oposição: “o culto dos pagãos era inteiramente irracional; assim também a jactância dos judeus. Mas o cristão age em todas as coisas pela mais alta razão, inferindo da misericórdia de Deus o seu próprio dever” (Notas sobre Rm 12.1). Servir a Deus com a vida inteira é o mais racional dos atos.

A transformação começa por dentro: “não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2). O mundo pressiona de fora para dentro, como uma fôrma; o Espírito trabalha de dentro para fora, renovando o modo de pensar — e só a mente renovada reconhece e ama a vontade de Deus.

Excurso: a analogia da fé

Ao tratar dos dons, Paulo diz que quem tem o dom de profecia o exerça “segundo a proporção da fé” (Rm 12.6). Dessa expressão a tradição wesleyana extraiu um princípio de interpretação da Bíblia que vale ouro: a analogia da fé. Nenhuma passagem isolada e difícil pode ser lida de modo a contradizer o grande esquema doutrinal das Escrituras; o texto obscuro deve ser interpretado à luz dos claros.

Wesley o formula assim: devemos interpretar “segundo aquele grande esquema de doutrina entregue na Escritura, tocante ao pecado original, à justificação pela fé e à salvação presente e interior. Todo artigo sobre o qual haja qualquer questão deve ser decidido por esta regra; toda Escritura duvidosa, interpretada segundo as grandes verdades que percorrem o todo” (Notas sobre Rm 12.6). Foi por essa régua — o claro iluminando o obscuro — que lemos Romanos 9.

Os dons e o amor sem hipocrisia (12.3-21)

Primeiro, a humildade: cada um pense de si “com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu” (Rm 12.3), porque somos “um só corpo em Cristo” e membros uns dos outros (Rm 12.5). Os dons são vários; a graça é uma. Cada um sirva com o seu — profecia, ministério, ensino, exortação, contribuição, liderança, misericórdia — e a misericórdia, “com alegria” (Rm 12.6-8).

Depois, o amor, descrito numa cascata de imperativos: “o amor seja sem hipocrisia. Detestai o mal, apegai-vos ao bem. Amai-vos… com ternura fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros” (Rm 12.9-10). Fervor no espírito, alegria na esperança, paciência na tribulação, perseverança na oração, generosidade com os santos, hospitalidade (Rm 12.11-13). E o clímax, difícil e sublime: “abençoai os que vos perseguem… não pagueis a ninguém mal por mal… se o vosso inimigo tiver fome, dai-lhe de comer” (Rm 12.14-20), até o lema que resume tudo: “não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12.21).

Sobre preferir os outros em honra, Wesley dá a receita: consegue-o “quem habitualmente considera o que há de bom nos outros e o que há de mau em si mesmo” (Notas sobre Rm 12.10). E sobre amontoar “brasas de fogo” sobre a cabeça do inimigo (Rm 12.20), lê a bondade como fogo que purifica: assim como o ourives amontoa brasas sobre o minério e o metal “aprende a brilhar”, a bondade paciente derrete a dureza do adversário. Por isso, conclui: “vence o mal com o bem — conquista os teus inimigos pela bondade e pela paciência” (Rm 12.21).

Para a vida. Culto não é só o que fazemos no templo no domingo; é o que fazemos com o corpo na segunda-feira. Pergunte-se: em que a minha mente ainda está moldada pela fôrma do mundo — no dinheiro, no sucesso, na vingança — e precisa ser renovada? E escolha, nesta semana, um mal concreto para vencer com o bem: um silêncio maldoso quebrado por uma palavra boa, uma ofensa respondida com uma bênção, um inimigo surpreendido por um gesto de bondade.

Romanos 13 — A autoridade, o amor e a hora de despertar

O cristão e o Estado, com equilíbrio (13.1-7)

Paulo trata do cristão diante do Estado: “toda alma esteja sujeita às autoridades superiores” (Rm 13.1), pois a ordem civil é instituição de Deus para conter o mal e promover o bem — “ela é ministro de Deus para teu bem” (Rm 13.4). Daí decorrem o pagamento de impostos e o respeito devido (Rm 13.6-7). É preciso, porém, ler o texto com equilíbrio, à luz do conjunto da Escritura. A sujeição não é adoração: quando a autoridade humana ordena o que Deus proíbe, vale o princípio de Atos 5.29 — “antes importa obedecer a Deus do que aos homens”. O mesmo apóstolo que aqui manda respeitar o governo foi por ele preso e executado. Sujeição, sim; idolatria do poder, jamais. O Estado é servo de Deus, não deus.

A dívida do amor (13.8-10)

Em seguida, a única dívida que o cristão deve manter sempre em aberto: “a ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros; pois quem ama o próximo tem cumprido a lei” (Rm 13.8). Paulo mostra que os mandamentos — não adulterar, não matar, não furtar, não cobiçar — se resumem num só: “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Rm 13.9). O amor não anula os mandamentos; cumpre-os por dentro, “porque o amor não faz mal ao próximo” (Rm 13.10). Quem ama de verdade já está guardando a Lei sem precisar consultá-la a cada passo.

A hora de despertar (13.11-14)

O capítulo termina como um despertador: “já é hora de despertardes do sono… a noite é passada, e o dia é chegado. Deixemos, pois, as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz” (Rm 13.11-12). E o apelo final é uma troca de roupa: “revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e nada disponhais para a carne no tocante às suas concupiscências” (Rm 13.14). Foi este exato versículo que Agostinho leu no jardim e que selou a sua conversão. A noite vai adiantada; não é hora de dormir, é hora de vestir a Cristo.

Para a vida. Diante da política, o cristão não é nem bajulador do poder nem rebelde por princípio: respeita, paga o que deve, ora pelos governantes e, quando preciso, resiste com mansidão e coragem, obedecendo antes a Deus. E, diante da própria vida, ouça o despertador de Paulo: há hábitos das trevas que precisam ser deixados como se tira uma roupa velha, para vestir a Cristo. Que peça você precisa despir hoje — e que roupa de Cristo precisa vestir?

Romanos 14 — Fortes e fracos: a lei do amor

Não julgar, não desprezar (14.1-12)

A parte final desce a um problema muito concreto e muito atual: como conviver, na mesma igreja, com quem pensa diferente em questões secundárias? Em Roma, discutia-se comida e dias sagrados (Rm 14.2,5). Paulo chama de “fraco” o de consciência mais escrupulosa e de “forte” o de consciência mais livre — mas o seu conselho corta dos dois lados: “o que come não despreze o que não come; e o que não come não julgue o que come, pois Deus o acolheu” (Rm 14.3). Ninguém é juiz do servo alheio: “para o seu próprio senhor ele está em pé ou cai” (Rm 14.4). Cada um responde a Deus, “porque todos compareceremos perante o tribunal de Deus” (Rm 14.10) — e o tempo que gastamos julgando o irmão seria melhor gasto preparando a nossa própria prestação de contas.

A liberdade a serviço do amor (14.13-23)

O princípio que rege tudo é o amor que abre mão do seu direito: “nunca mais julguemos uns aos outros; pelo contrário, tomai o propósito de nunca pôr tropeço ou escândalo ao vosso irmão” (Rm 14.13). Pois “não destruas por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu” (Rm 14.15). E vem a definição que relativiza tantas de nossas brigas: “o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). A liberdade é real, mas o amor é maior que a liberdade: “bom é não comer carne, nem beber vinho, nem fazer coisa alguma em que teu irmão tropece” (Rm 14.21). E, para o que tem dúvida, o critério é a consciência diante de Deus: “tudo o que não provém de fé é pecado” (Rm 14.23).

Para a vida. Boa parte das brigas de igreja não é sobre o evangelho, mas sobre preferências elevadas à altura de doutrina. A regra de ouro de Romanos 14 é simples: nas questões essenciais, firmeza; nas secundárias, liberdade; em tudo, amor. Antes de julgar o irmão que pensa diferente de você em algo secundário, faça a pergunta que desarma: Cristo o acolheu? Então quem sou eu para rejeitá-lo? E, se você é o “forte”, lembre-se: o seu direito termina onde começa o tropeço do irmão.

Romanos 15 — Acolher como Cristo acolheu

Os fortes carregam os fracos (15.1-13)

O tema do capítulo 14 alcança o seu cume: “nós, que somos fortes, devemos suportar as debilidades dos fracos e não agradar a nós mesmos” (Rm 15.1). O modelo é Cristo, “que não se agradou a si mesmo” (Rm 15.3). E Paulo lembra de onde vem a força para essa paciência: “tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito, para que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança” (Rm 15.4) — é a Palavra que sustenta os fortes. E o alvo é altíssimo: “acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo nos acolheu para a glória de Deus” (Rm 15.7). A medida da nossa acolhida não é a simpatia nem a semelhança, mas a de Cristo — que nos recebeu quando éramos inaceitáveis. Paulo mostra ainda que judeus e gentios foram sempre parte do mesmo plano, citando o Antigo Testamento para provar que os gentios louvariam a Deus (Rm 15.9-12), e ora para que o “Deus da esperança” os encha “de todo o gozo e paz” (Rm 15.13).

A paixão missionária de Paulo (15.14-33)

O apóstolo abre então o coração sobre o seu ministério: a graça que recebeu de ser “ministro de Cristo Jesus para os gentios” (Rm 15.16), a sua ambição santa de pregar “não onde Cristo já fora anunciado, para não edificar sobre fundamento alheio” (Rm 15.20), e o seu plano de ir à Espanha passando por Roma (Rm 15.24). Aqui vemos o coração do missionário: não lhe basta consolidar; ele quer avançar até os confins. E pede oração para a viagem e para a entrega da coleta em Jerusalém — sinal concreto da comunhão entre as igrejas gentílicas e o povo judeu (Rm 15.25-32).

Para a vida. A igreja madura é aquela em que os fortes carregam os fracos, e não o contrário. Pergunte-se: eu uso a minha maturidade, os meus dons e a minha liberdade para servir os mais frágeis, ou para me exibir e cobrar que todos sejam como eu? E deixe o coração de Paulo lhe contagiar: a fé que se acomoda no já-alcançado adoeceu; a fé saudável olha para os que ainda não ouviram — o vizinho, a cidade, os confins — e se põe a caminho.

Romanos 16 — Saudações, vigilância e a glória de Deus

O rosto real da igreja (16.1-16)

O último capítulo parece só uma lista de nomes — e é uma das páginas mais bonitas da carta. Paulo saúda cerca de trinta pessoas, e nelas aparece o rosto real da igreja: gente de toda origem, homens e mulheres, escravos e livres, servindo lado a lado. Ele recomenda Febe, “serva” (diácono) da igreja de Cencreia, portadora provável da carta (Rm 16.1-2); saúda Priscila e Áquila, “que pela minha vida arriscaram a própria cabeça” (Rm 16.3-4); Maria e Pérside, que “muito trabalharam” (Rm 16.6,12); e Andrônico e Júnia, “notáveis entre os apóstolos” (Rm 16.7). O evangelho, que derrubou o muro entre judeu e gentio, também dá lugar e honra às mulheres na obra de Deus — não como enfeite, mas como coobreiras.

Vigilância e doxologia (16.17-27)

No meio das saudações, um alerta pastoral firme: “rogo-vos, irmãos, que noteis bem os que provocam divisões e escândalos, em oposição à doutrina que aprendestes; afastai-vos deles” (Rm 16.17). Há os que edificam e os que dividem; e a igreja precisa de discernimento e de coragem para não confundir os dois. E a carta que começou anunciando o evangelho termina em adoração, na grande doxologia final: “ao único Deus sábio seja dada glória, mediante Jesus Cristo, pelos séculos dos séculos. Amém” (Rm 16.27). Da tese à doxologia, de 1.16 a 16.27, tudo desemboca na glória de Deus.

Para a vida. A igreja não é uma estrutura; é gente com nome, história e serviço. Você conhece e valoriza as Febes e as Priscilas escondidas da sua comunidade, os que servem sem aparecer? Aprenda com Paulo a nomear e a honrar. E guarde o coração: nem todo o que fala em nome de Cristo edifica — vigie, com amor e firmeza, contra os que dividem. E faça da sua vida o que a carta fez: comece no evangelho e termine na glória de Deus.

Conclusão

Romanos nos conduz por toda a estrada da salvação. Parte do abismo — judeus e gentios debaixo do pecado, toda boca calada diante de Deus — e chega ao cume: justificados de graça pela fé, temos paz com Deus, somos libertados do poder do pecado, vivemos no Espírito como filhos que clamam “Aba, Pai”, e nada nos pode separar do amor de Cristo. No caminho, Paulo chora por Israel e defende a fidelidade de Deus, mostrando que a eleição corre pela fé, e não por decreto arbitrário; e, no fim, faz o evangelho descer ao corpo que se oferece em sacrifício vivo, à mente renovada, à dívida do amor, à submissão ordeira, à mesa onde fortes e fracos se acolhem, e à igreja de nomes concretos que serve para a glória de Deus.

Ao longo de todo o percurso, ouvimos Wesley como companheiro de leitura: a graça preveniente que ilumina todo homem; o “Deus os entregou” como retirada da graça refreadora, nunca como impulso ao pecado; a justificação atribuída inteiramente à “bondade livre e imerecida”; a fé que recebe a Cristo sem ser obra; a santidade não como ideal distante, mas como promessa do evangelho para esta vida; o testemunho do Espírito que nos faz saber-nos filhos; a corrente de ouro lida como o método de Deus e não como um número fechado; e o grito de Free Grace contra toda leitura que faça de Deus um condenador arbitrário. É a mesma teologia arminiana-wesleyana que atravessa este comentário.

Sobretudo, Romanos é uma carta que sempre acende quem a lê com o coração aberto. Que ela faça em nós o que fez naquela noite de Aldersgate: que sintamos o coração estranhamente aquecido, confiando em Cristo, somente em Cristo, para a salvação. E que essa confiança, longe de nos deixar acomodados, nos ponha a caminho — como pôs Paulo, de Jerusalém à Espanha — para que o evangelho, poder de Deus, alcance a todo aquele que crê.

“Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém.” (Rm 11.36)

Bispo Ildo Mello — Igreja Metodista Livre do Brasil. Referências bíblicas na versão Nova Almeida Atualizada (NAA); citações de John Wesley extraídas das suas Notas sobre a Bíblia e dos seus sermões (Free Grace, Predestination Calmly Considered).

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