Estudos do Bispo Ildo · Estudos Bíblicos · Antigo Testamento
“Senhor, não é orgulhoso o meu coração, nem arrogante o meu olhar. Não ando à procura de coisas grandes, nem de coisas maravilhosas demais para mim. Pelo contrário, fiz calar e sossegar a minha alma. Como a criança desmamada se aquieta nos braços de sua mãe, assim é a minha alma dentro de mim. Espere, ó Israel, no Senhor, desde agora e para sempre.”
Você já reparou que os salmos mais curtos costumam ser os mais difíceis de viver? O Salmo 131 tem três versículos e cabe numa respiração, mas descreve um estado de alma que quase todos admiramos e poucos alcançamos: um coração sem soberba, olhos sem altivez, uma alma que aprendeu a calar e a descansar como a criança que já não chora pelo leite e ainda assim continua nos braços da mãe.
Algumas perguntas se impõem logo na primeira leitura. Como Davi pode dizer a Deus, sem constrangimento, que o seu coração não é orgulhoso? Não seria isso, por si só, orgulho? O que ele quer dizer com “não ando à procura de coisas grandes, nem de coisas maravilhosas demais para mim”? Por que a imagem escolhida é a de uma criança desmamada, e não a de um bebê satisfeito no seio da mãe? E por que um salmo tão íntimo termina falando a Israel inteiro?
Quero caminhar por esses três versículos com você, porque acredito que eles descrevem o caminho que a graça de Deus quer percorrer em cada um de nós.
O Salmo 131 é um cântico de peregrinação, daqueles que o povo cantava subindo a Jerusalém para as festas (Sl 120 a 134). Há uma ironia nisso: um cântico de subida que começa dizendo que o coração não subiu. O peregrino sobe ao templo, sobe ao encontro de Deus, e para isso precisa de um coração que não se eleve. Só se sobe a Deus descendo diante dele (Tg 4.10; 1 Pe 5.6).
Davi nega o orgulho em três lugares. No coração, que é a raiz. Nos olhos, que é onde os outros percebem; a Escritura chama de “olhos altivos” o sintoma visível do coração soberbo (Pv 6.17; 21.4). E nos passos: “não ando”, quer dizer, não faço disso o meu caminho. O orgulho começa dentro, aparece no rosto e vira um jeito de andar pela vida. A soberba precede a ruína (Pv 16.18) porque ela é, no fundo, uma recusa de ser criatura.
E as “coisas grandes e maravilhosas demais”? Não são o estudo das coisas de Deus; a Escritura nos manda buscar as coisas lá do alto (Cl 3.1-2). São as coisas que estão além do que Deus nos deu e nos revelou: o cargo buscado fora do tempo, o segredo que só a Deus pertence (Dt 29.29), a fama espiritual que quer ser admirada. Quando Baruque, o secretário de Jeremias, começou a procurar grandes coisas para si, Deus lhe disse com toda a clareza: não as procure (Jr 45.5). A expressão “maravilhosas demais para mim” é a mesma que Jó usa quando reconhece que falou do que não entendia (Jó 42.3). Há um lugar em que a fé aprende a dizer “não sei”, e esse lugar é santo.
Alguém pode perguntar se afirmar a própria humildade já não seria orgulho. A resposta está no destinatário. Davi não diz isso à corte nem aos inimigos que o acusavam de ambicionar o trono de Saul (1 Sm 24.9; 26.18-20); ele diz ao Senhor, que sonda os corações (Sl 139.23-24). Ninguém se gaba diante de quem vê tudo. O salmo é testemunho, não propaganda.
“Pelo contrário, fiz calar e sossegar a minha alma.” Repare que o sossego foi conquistado. Os verbos são de quem lutou. John Wesley, em suas notas explicativas sobre este versículo, resume a cena com poucas palavras: o salmista fez calar a alma “quando a mente foi provocada”. O sossego não aconteceu na ausência de provocação, mas debaixo dela. Antes da criança desmamada existe a criança em desmame, que chora, esperneia e não entende por que lhe negam o que sempre teve. Quem de nós não se reconhece aí?
Em Israel, o desmame acontecia por volta dos três anos (1 Sm 1.22-24). A criança desmamada, portanto, já anda, já fala, já pede, já se lembra do leite e aprendeu a viver sem ele. Três coisas mudaram nela. Ela deixou de exigir o que antes recebia. Ela não deixou de precisar da mãe, nem de estar no colo dela. E ela passou a amar a mãe por ela mesma, não pelo leite. Aqui está o coração do salmo, e é também a pergunta que Satanás fez sobre Jó: será que Jó teme a Deus de graça? (Jó 1.9). A alma desmamada é a que aprendeu a amar o Doador mais do que os dons.
Note que a imagem não é de bebê, mas de criança que cresceu. Ser como criança, no sentido em que Jesus fala, é humildade, não imaturidade (Mt 18.3-4). O escritor de Hebreus descreve a passagem do leite para o alimento sólido como sinal de maturidade (Hb 5.12-14). O desmame é o nome que a Bíblia dá para a fé que amadureceu.
E ninguém desmama a si mesmo; a mãe desmama. Do mesmo modo, é Deus quem retira do crente as seguranças a que ele se apegava: uma posição, uma saúde, um reconhecimento, uma resposta que se exigia. Hebreus chama isso de disciplina do Pai e diz que ela produz fruto pacífico de justiça nos que por ela são exercitados (Hb 12.5-11). Há aqui uma nota pastoral que não devemos perder: o desmame custa à mãe também. Oseias mostra o Senhor que ensinou Efraim a andar, o tomou nos braços e se inclinava para lhe dar de comer (Os 11.3-4). O Deus que nos desmama não é indiferente ao nosso choro; ele o suporta por amor a quem vamos nos tornar.
Aqui vejo o próprio Cristo. Ele é o único que pôde dizer sem reserva que é manso e humilde de coração, e o descanso que ele promete para a alma (Mt 11.29) é exatamente o do Salmo 131: um jugo aceito, uma vontade conformada. No Getsêmani, ele orou para que não fosse feito o que ele queria, e sim o que o Pai queria (Mt 26.39). É nele que aprendemos, com Paulo, a viver contentes em toda e qualquer situação (Fp 4.11-13).
O salmo muda de sujeito no último verso. Quem falava de si passa a falar ao povo: “Espere, ó Israel, no Senhor.” Não é acidente. A humildade bíblica não termina em introspecção; a paz de Davi vira esperança de Israel. E o verbo é o mesmo do salmo anterior, que fala de quem espera pelo Senhor mais do que os guardas esperam pela manhã (Sl 130.5-7).
A esperança é o fruto natural da humildade, por uma razão simples: o orgulhoso não sabe esperar, porque quer agora; e o ansioso não sabe esperar, porque teme o depois. Só a alma desmamada espera bem. Pedro escreveu o melhor comentário a este salmo quando uniu, na mesma frase, o humilhar-se debaixo da poderosa mão de Deus e o lançar sobre ele toda a ansiedade, porque ele cuida de nós (1 Pe 5.6-7).
“Desde agora e para sempre” impede que o salmo seja lido como um momento de calma. É uma orientação de vida. E a esperança que ele convoca tem endereço: o Senhor, o Deus que perdoa e remiu o seu povo (Sl 130.4,7-8). Ela pertence a quem nele confia.
Leio o Salmo 131 como testemunho de Davi nos anos de espera pelo trono, colocado entre o clamor das profundezas (Sl 130) e o zelo pela casa de Deus (Sl 132), e entendo que ele descreve três coisas. O versículo 1 trata do orgulho, não do intelecto: o salmo limita a pretensão de ir além do que Deus deu e revelou, não a busca séria das coisas de Deus. O versículo 2 descreve confiança madura, não dependência infantil, e um sossego ativo, obtido debaixo de provocação, que nada tem a ver com passividade. E o versículo 3 mostra que a humildade desemboca em esperança, e que essa esperança tem objeto definido.
Como wesleyano, vejo na alma desmamada um retrato da graça santificadora em ação: o amor perfeito lança fora o medo (1 Jo 4.18) e, com ele, a ansiedade e o orgulho que alimentam o ruído interior. Esse amor é dom, recebido pela fé, e ao mesmo tempo é cultivado nos meios de graça: a Palavra, a oração, o silêncio, a comunhão. O “fiz calar” do salmista é a resposta humana que a graça torna possível, não um mérito que a substitui.
Se você é pastor ou líder, faça o exame das três negações: o que o seu coração deseja em segredo, como os seus olhos tratam os que estão abaixo e acima de você, e para onde os seus passos estão levando. No ministério, as “coisas grandes” tomam a forma de púlpitos, cargos, números e visibilidade, e a ambição costuma vir disfarçada de zelo.
Se você anda ansioso, pratique o “fazer calar”: o silêncio diante de Deus (Sl 62.1,5), a oração e a entrega concreta das preocupações (Fp 4.6-7). Há quem ore o Salmo 131 todas as noites, como quem poda uma videira, e não é má ideia.
Se você está passando por um desmame, lembre-se de que a mãe que desmama retira o leite, não retira a si mesma. Quando Deus tira alguma coisa das nossas mãos, ele não se tira de nós. A presença permanece, e ela basta.
Se tivesse de resumir o salmo numa frase, diria assim: a alma desmamada é aquela que perdeu o leite e não perdeu a mãe, e por isso pode esperar.
Bispo Ildo Mello