Estudos do Bispo Ildo · Reino de Deus e Missão

Reino de Deus

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O Mistério do Reino de Deus – “já e ainda não”+

A manifestação e o estabelecimento do Reino de Deus, se dando não de modo abrupto como uma erupção vulcânica, mas de modo paulatino com um pequeno e modesto início tal qual um grão de mostarda em seu processo gradual de desenvolvimento, foram algo surpreendente e, até mesmo, frustrante para a comunidade dos discípulos, que agasalhavam a esperança num Messias judaico, que restauraria o reino de Israel, que promoveria uma revolução total, que subjugaria os inimigos de modo visível e incontestável, não poderiam eles supor que isto se daria em duas etapas, inaugurada na primeira vinda como uma revolução espiritual com amplas implicações sociais e políticas, mas de desenvolvimento gradual e, somente completada de maneira cabal, por um evento abrupto e cataclísmico, de caráter total e inquestionavelmente revolucionário por ocasião da Segunda Vinda. E é por esta razão que Jesus se concentrou em falar sobre a natureza do Reino de Deus a fim de esclarecer aquilo que, até então, residia como um mistério. Este mistério residia também no fato de que, ao contrário das expectativas judaicas, Jesus não veio para ocupar o trono de Davi, ele não é, tão somente, o Rei de Israel, Pois ele é o Rei dos reis! No batismo de Jesus há uma voz que vem do céu e diz “este é o meu filho amado em que tenho todo prazer”. No Antigo Testamento “filho amado” é o servo sofredor e, em Marcos 10.45, lemos que o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate de muitos. “Filho do Homem” é uma expressão derivada de Daniel sete, que o descreve como uma figura messiânica, que viria de modo glorioso e triunfante. No entanto, aqui, em Marcos 10.45, vemos a síntese da figura gloriosa do “Filho do Homem” e da figura do “Servo Sofredor”. Eis aí o mistério que foi desvendado em Cristo, mas que os discípulos tiveram dificuldade de entender e muitos não entendem até hoje.

O próprio Pedro, após sua confissão de Jesus como o Messias, ou Cristo, como registrado em Mateus 16.13-23, mostrasse estarrecido quando, na seqüência, Jesus começa a falar sobre sua missão de morrer na cruz cumprindo o papel de Servo Sofredor. O espanto de Pedro se deve a sua expectativa equivocada a respeito do Messias e do Reino de Deus, cogitando apenas das coisas humanas e não entendo nada a respeito do plano de Deus. Pedro e os demais discípulos precisaram ser instruídos de que o Messias precisaria ser crucificado. O Filho do Homem seria também o Servo Sofredor. Sua entrada triunfal como Messias foi em um jumentinho. E o Messias não estaria num trono em Jerusalém, mas numa cruz. Sua coroa seria de espinhos!

Outro texto que mostra a dificuldade dos discípulos em discernir a natureza do Reino messiânico de Jesus é o de Marcos 10.35-45, que conta como Jesus recebe pedido de dois discípulos para estarem em posição de autoridade especial. Aqui, Jesus afirma, mais uma vez, que ele é ao mesmo tempo o Filho do homem e o servo sofredor, fazendo menção ao seu cálice e batismo de sofrimento como símbolo da sua cruz, dizendo também que os discípulos precisariam também beber o cálice, carregando também a sua própria cruz, pois não há participação no Reino de Deus sem participação como servo sofredor. Pois este Rei ascende ao trono através do sofrimento na cruz. A cruz nos ensina que não devemos esperar que tudo nos vá bem. Não devemos esperar ter êxito em tudo. Jesus está também ensinando que aquele que quiser ser o maior terá que ser o menor, o servo de todos. Pois Jesus despreza o modelo comum onde os maiores dominam sobre os pequenos. A cristologia que não leva em conta a identificação do Messias com o servo sofredor é uma cristologia incompleta e insuficiente, pois o chamado de Cristo não é para exercer o poder através do medo e do autoritarismo, mas um chamado a servir. E somente na medida em que aprendemos a servir é que estamos em condições de participar realmente do seu Reino. Jesus não serviu para ser popular e para ser servido pelos demais, mas por amor e compaixão.

A Igreja é o Corpo de Cristo, e recebeu a incumbência de continuar a missão encarnacional de Jesus Cristo, seguindo o seu exemplo. Aqui vemos como a Missão da Igreja se deriva da cristologia, da natureza de Cristo e de sua missão de Rei e Servo Sofredor. E é fácil perceber como tudo isto se relaciona com a Escatologia, pois está ligado aos cumprimentos dos propósitos últimos de Deus na história da redenção e restauração e estabelecimento do seu Reino. Vemos também que a própria natureza de Cristo que se revela como Rei e Servo Sofredor ao mesmo tempo, temos aí também a natureza multidimensional do Reino de Deus.

O Reino possui uma natureza multidimensional, pois é tanto presente como futuro, tanto realização quanto expectativa, tanto pessoal quanto social, tanto celeste quanto terrestre, tanto interno e como externo, sendo tanto Missão de Deus, de Cristo e do Espírito quanto missão da Igreja, e se estabelece tanto de maneira gradual e paulatina quanto de modo abrupto, crítico e cataclísmico. Nenhuma destas dimensões deve ser entendida a despeito da outra.

Não se pode negar que o Reino de Deus já foi inaugurado. Paulo diz que “é necessário que ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo de seus pés. Ora, o último inimigo a ser destruído é a morte” (1Co 15.25-26). Neste texto, Paulo fala do Reino de Deus em termos da presente era, ao afirmar que é necessário que Jesus reine pondo de maneira gradativa um a um os inimigos debaixo de seus pés, e, falando ainda que o último inimigo a ser destruído será a morte, sendo que, neste mesmo capítulo, mais adiante, ele ensina que a morte será tragada pela vitória da ressurreição que se dará por ocasião da Segunda Vinda de Cristo. Sendo assim, a Segunda Vinda marcaria o fim e não o começo desta etapa do Reino de Deus em que Jesus reina até que haja posto todos os inimigos debaixo de seus pés, pois será somente aí, na Sua Segunda Vinda, que se dará a destruição da morte que será o último inimigo a ser posto debaixo dos seus pés. Não há como escapar desta conclusão sem ferir o claro e real significado deste texto. E Paulo, ainda, afirma claramente que os cristãos já estão no reino de Jesus, dizendo: “Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” (Cl 1.13). E não podemos esquecer que a mais básica e primitiva de todas as confissões cristãs é “Jesus é o Senhor”. Tal afirmação possui muitas implicações pessoais, sociais, políticas e ecológicas. Tantos foram os cristãos que morreram por causa desta aparente “simples” confissão, que significa mais do que dizer que Jesus é o Senhor da minha vida, pois Jesus é o Senhor de todo os reinos do Mundo. Não existe um único grão de areia deste planeta que não esteja debaixo de seu senhorio, por esta razão Jesus é aclamado como sendo “O Rei dos reis e O Senhor dos senhores”.

O seu Reino, como vemos em muitas parábolas, como a do Grão de Mostarda, por exemplo, se estabelece no mundo de maneira paulatina e até mesmo imperceptível para muitos. Figuras de linguagem que descrevem a missão da Igreja e o Reino de Deus tais como Sal, luz e fermento também apontam para o caráter discreto, mas eficaz da manifestação do Reino. O sal está na comida, você saboreia a comida, mas não diz, “Hum, que sal gostoso!” A luz também está no ambiente, você aprecia a paisagem, mas não é comum ouvir alguém admirando a luz. O fermento permeia e leveda a massa, mas sua participação, embora eficaz, não é chamativa.

Jesus já reina hoje, mas seu senhorio ainda não está manifesto de modo a ser percebido por todos. Somente por ocasião da Segunda Vinda é que tal senhorio será revelado e manifesto de modo incontestável, quando “todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Jesus é o Senhor”. A Segunda Vinda de Cristo descrita como dia de sua manifestação: de maneira que nenhum dom vos falta, enquanto aguardais a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo (1 Co 1.7). “E então será revelado esse iníquo, a quem o Senhor Jesus matará com o sopro de sua boca e destruirá com a manifestação da sua vinda” (2 Ts 2.8). “Para que a prova da vossa fé, mais preciosa do que o ouro que perece, embora provado pelo fogo, redunde para louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo” (1 Pe 1.7). “Mas regozijai-vos por serdes participantes das aflições de Cristo; para que também na revelação da sua glória vos regozijeis e exulteis (1 Pe 4.13). E este será também o dia da revelação dos próprios filhos de Deus: “Porque a criação aguarda com ardente expectativa a revelação dos filhos de Deus” (Rm 8.19).

Devemos tomar cuidado para que, a pretexto de sermos realistas, não venhamos a desprezar ou negar a realidade presente do Reino de Deus com suas evidentes implicações para a Missão da Igreja. Pois, ser realista é guardar as devidas proporções bíblicas entre a realidade presente e futura do Reino de Deus, evitando os extremos do negativismo e pessimismo de um lado e do triunfalismo de outro. Mas não podemos chamar de realismo bíblico, aquilo que sufoca o devido, comedido e apropriado otimismo em relação à Missão da Igreja na era presente como agente e comunidade do Reino. Jesus expressou realismo e otimismo num mesmo texto, dando a devida preeminência ao aspecto do otimismo quando disse aos seus discípulos: “Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (Jo 16.33). As forças aflitivas do mundo não podem ser motivo de desculpas para atitudes escapistas, conformistas e pessimistas, pois Jesus venceu o mundo e baseados nisto temos bom ânimo.

Temos também razões para crer que a Igreja será bem sucedida no cumprimento de sua missão, primeiro por que o Senhor Jesus ao comissionar seus discípulos fez questão de dizer que todo poder lhe havia sido dado tanto no céu como na terra e garantiu que sempre estaria com eles (Mt 28.18), disse também que eles receberiam o poder do Espírito para serem testemunhas do Rei em todas as partes do Mundo (At 1.8), e garantiu que as portas do inferno não prevaleceriam contra a Igreja e que certamente o Evangelho seria pregado para testemunho a todas as nações antes do fim (Mt 16.18 e 24.14). A Bíblia também diz que “a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas cobrem o mar” (Hc 2.14), o que o retrato de uma visão poderosa do futuro do Reino de Deus que deve inspirar e mover a Igreja ao cumprimento de sua missão. Jesus também cuidou de amarrar o valente e concedeu poder aos discípulos sobre os demônios e sobre todo o poder do inimigo (Mt 12.28 e Lc 10.18,19). Paulo disse que os cristãos que vivem neste mundo já estão assentados juntamente com Cristo nas regiões celestiais acima de todo principado e potestade e abençoados com toda sorte de bênçãos e graças espirituais (Ef 1.3, 20-23 e 2.6). Além disto, muitas parábolas do Reino mostram que o Reino crescerá aqui na Terra assim como o trigo, como o grão de mostarda e como o fermento que leveda toda a massa (Mt 13).

O Reino de Deus foi inaugurado na Primeira Vinda. A batalha decisiva já foi ganha, mas a luta continua até a Segunda Vinda. Enquanto isto, o Reino de Deus na era presente é caracterizado pela tensão entre o já e o ainda não. O cristão caminha a sombra da cruz e a luz da ressurreição. A entrada triunfal de Jesus em sua primeira vinda foi montado num jumentinho (Mc 11.7) e seu estilo de liderança foi pautado em atitudes humildes de serviço, exemplificado no ato de lavar os pés dos discípulos (Jo 13.5) e quando ensinou aos seus discípulos que o maior no Reino dos Céus é aquele que é humilde, aquele se coloca como o menor, numa condição de servo de todos, numa radical inversão de valores (Mc 10.44, Mt 18.4). Jesus venceu na cruz (Cl 2). A cruz deve ser também uma característica marcante de seus seguidores (Lc 9.23). O Poder se aperfeiçoa na fraqueza (2 Co 12.9). O tesouro foi posto em vasos de barro (2 Co 4.7).

O Reino de Deus será plenamente manifesto na Segunda Vinda – Dia do Senhor, quando teremos a Batalha Final. Diferentemente da Primeira Vinda, Cristo regressará com grande poder e glória, vindo sobre um Cavalo, não mais sobre um jumentinho (Mc 11.7), e destruirá o inimigo com o sopro de sua boca (2 Ts 2.8).

O crente já vive tanto na era presente como na era futura, pois já está em Cristo e é um com ele. E, como diz Paulo, já está assentado com Cristo nos lugares celestiais, este fato tem relevância para sua vida presente aqui neste mundo. Imbuído de sua nova posição em Cristo e consciente da perfeição final que herdará por ocasião da Segunda Vinda de Cristo, o cristão “considera sua salvação atual à luz daquela perfeição final” i i Hoekema, p. 354.

A cura do Cego Bartimeu (Mc 10)+

O Evangelista Marcos não dá ponto sem nó! O capítulo 10 de Marcos é riquíssimo em histórias cujos ensinos se entrelaçam. Os relatos são descritos como tendo acontecido em sequência no mesmo dia ("então" v.13, "e, pondo-se Jesus a caminho" v.17, "então" v. 23, "estavam de caminho" v.32, "então" v.35, "e foram para Jericó" v. 46). E, todas as histórias demonstram claramente que os discípulos, ainda imaturos, têm muito a aprender. Eles discriminam e menosprezam tanto as crianças (v.13) como o mendigo cego (v.48), ficam espantados e estranham as palavras de Jesus a respeito do Jovem Rico (v.24 e 26), ainda estão ambicionando posição de destaque e poder (v.37, 41). Agindo assim, eles estão refletindo o sistema de valores deste mundo, que prestigia o forte e despreza o fraco, valoriza o rico e menospreza o pobre, bajula as autoridades e oprime os humildes. Mas no Reino de Deus não é assim(v.43)! Os discípulos têm mais lições a aprender na saída da cidade de Jericó.

Bartimeu estava desempregado, falido, arruinado, vivia a mendigar. Estava fora da cidade, excluído do núcleo social. Estava também assentado à beira do caminho. “Assentado” porque já estava cansado de esperar em pé, o que indica também que estava há muito tempo naquela situação que parecia sem saída. Bartimeu era cego – além da debilidade física tinha o agravo do preconceito daquela sociedade ignorante que via aquilo como resultado de um maldito carma.

Vemos que aquele mendigo cego de Jericó era desprezado e tratado com desdem. Aos olhos do mundo, era um João ninguém, mas não aos olhos de Deus! Ele é honrado com a menção de seu nome como também do nome de seu próprio pai: "Filho de Timeu"! Ele é alguém aos olhos de Deus. Alguém muito amado com identidade, história e valor!

Bartimeu, até mesmo devido a sua deficiência, jamais tinha tido a oportunidade de ver a Jesus, todavia, ele creu! Fez melhor que Tomé! Tornando-se, assim, um tipo dos crentes de hoje! Bem-aventurados os que não viram e creram. Crendo, clamou humilde e insistentemente por compaixão – buscou com fé pelo "Filho de Davi" (título messiânico)!

Mas, para seu espanto, foi repreendido pelos próprios discípulos, que tentaram calá-lo, afastando-o de Jesus, assim como haviam tentado impedir que as crianças de se aproximassem de Jesus. Interessante notar que o Evangelista Marcos relata tais eventos muito próximos um do outro, separados apenas pelo registro do encontro de Jesus com o Jovem Rico. Bem, a este os discípulos deram as boas vindas. Os discípulos ainda tinham muito a aprender com Jesus.

No entanto, Bartimeu não desanimou, antes, clamou mais alto ainda! Diante da oposição, seguiu em frente a exemplo de Zaqueu! Tem gente melindrosa que se escandaliza e desiste de seguir a Jesus por muito menos. Os próprios discípulos, ainda carnais e imaturos, estavam servindo de pedra de tropeço para ele, mas Bartimeu não caiu, não desanimou, mas insistiu e será recompensado por isto!

Jesus parou para dar atenção ao Clamor de Bartimeu, sinal do valor que ele dava aquele homem ainda que ele não representasse nada para o povo da cidade de jericó e não passasse de um João Ninguém aos olhos dos próprios discípulos que ainda estavam contaminados por preconceitos de toda espécie. Interessante notar aqui que Jesus, a propósito, não atende diretamente ao chamado, mas concede oportunidade aos discípulos de se redimirem, enviando-os com uma mensagem ao Bartimeu. Os discípulos se dirigem agora ao Bartimeu de modo completamente diferente com uma mensagem acolhedora de esperança: "Tem bom ânimo", "Levanta-te" que "Ele te chama". Também nós, hoje, a semelhança dos discípulos, somos enviados aos oprimidos com a boa notícia do Evangelho que anima os fracos e levanta os caídos. Bendito seja o chamado de Jesus!

Diante do chamado, Bartimeu não titubeia, num salto, se levanta, igual à Zaqueu abraça alegre e prontamente o convite de Jesus. Ele Lança a capa, ou seja, joga ela fora. Bartimeu não possuía casa, carro, poupança, ele não tinha nada a não ser uma capa, que, até então, lhe fora muito útil, a ponto de servir-lhe até como cobertor. No entanto, em vista do chamado de Jesus, ela perdeu o valor de estimação. Ele não faz mais caso dela. Ele encontrou algo supremo diante de si e está deixando as coisas velhas para trás. Aqui também se pode observar um contraste com a atitude do Jovem Rico que, apegado as riquezas, virou as costas para Jesus, abrindo mão do Reino de Deus, enquanto Bartimeu, desapegado, lança sua capa, volta-se para Jesus para apropriar-se do Reino de Deus.

Então, Jesus lhe pergunta: “O que queres que eu te faça?”. Jesus certamente sabia o que ele queria, mas desejava ouvir isto dos próprios lábios dele, pois a oração é um exercício de fé e que aprimora também o nosso relacionamento com Deus.

Bartimeu ora de maneira simples e direta – “Quero enxergar novamente!”. Às vezes falamos demais para dizer tão pouco. Reparar que as orações bíblicas são geralmente muito curtas. Jesus nos ensina a orar de maneira objetiva, sem vãs repetições, e nos adverte a não seguirmos o exemplo dos fariseus que gostavam de utilizar a oração para promoção pessoal. Outra coisa a obsevar aqui é que o Bartimeu pediu algo que só Deus podia fazer, sinal de que realmente acreditava estar diante do Filho de Deus!

A fé de Bartimeu é contemplada por Jesus! Ele recebe a cura dos olhos humanos, e, mais que isto, ganha também uma visão espiritual! Recebida a bênção da cura, Bartimeu não foi embora para viver a vida à sua maneira. Mas, ele passa a seguir a Jesus caminho fora! Não está mais à beira do caminho, mas no Caminho. Não é mais um excluído, mas foi incluído, caminhando no centro da vontade de Deus entre os discípulos de Jesus. Não foi apenas iluminado, mas está seguindo os passos do iluminador do Mundo, com vistas a tornar-se uma lâmpada desta Luz (Jo 8.12; Mt 5.15).

Bispo José Ildo Swartele de Mello

O Exercício do senhorio de Cristo na era presente+

–> Quando se fala do Senhorio de Jesus Cristo na era presente, é bom lembrar de que ele, o nosso Rei, Justo e Salvador, veio a nós, “humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de jumenta” (Zc 9.9, cp. Mt 21.5; Jo 12.15). Nosso Senhor e Rei não é um déspota ou um tirano que usa de poder coercivo para subjugar os povos. Isto tem a ver com o plano soberano de Deus que, sendo Senhor, ao criar os seres humanos, poderia tê-los feito programados para obedecer a sua vontade; sim, poderia ter escolhido criar seres autômatos, algo assim como os robôs, que não tem liberdade de escolha. Mas, embora, um mundo de autômatos pudesse funcionar muito bem, sem guerras, sem injustiças e sem maldade, no final das contas, seria também um tanto sem graça, pois as próprias expressões de amor, devoção e serviço não seriam livres e espontâneas, também teriam de ser programadas, o que resultaria em algo artificial, algo sem graça e sem significado real. Ninguém, em sã consciência, se sentiria muito tocado em receber uma declaração de amor de um ser que foi programado para isto e que não pode dizer outra coisa a não ser aquilo que está na sua programação.

Deus quis que seus filhos fossem livres, mesmo sabendo dos riscos derivados da liberdade humana. Ninguém pode ser livre apenas para dizer sim. Alguém que é livre pode também dizer não, pode se rebelar e pode optar pelo mal. A história da humanidade revela as conseqüências do mau uso da liberdade, como o surgimento do pecado, egoísmo, inveja, ódio, crimes, doenças, injustiças, guerras, fomes, etc. Um alto preço tem sido pago para que possamos ter no mundo relacionamentos verdadeiramente significativos. Neste mundo temos muitas opções, somos livres para escolher, portanto, quando amamos a Deus e respondemos positivamente ao seu chamado, isto é cheio de significado. Este relacionamento entre Deus e o ser humano é cheio de afeto. É algo tremendo! O mesmo se pode dizer do relacionamento de amor e amizade entre os seres humanos. É de um autor anônimo a frase: "Amo a liberdade, por isso deixo livres todas as coisas que tenho. Se elas permanecerem comigo será porque as conquistei, se partirem será porque, de fato, nunca as possuí" i. Pois, para que um relacionamento seja realmente íntegro não deve haver total domínio coercivo de uma parte sobre a outra. É interessante notar que as teofanias ou aparições de Deus registradas no Antigo Testamento também são em forma humana, em vulnerabilidade. Notamos também que os profetas, representantes de Deus, eram desprezados e mortos pelo povo. E, o livro de Colossenses, que tanto exalta o Senhorio de Cristo é também um livro que fala de maneira contundente da cruz de Cristo, como prova de seu amor por nós. Deus quer nos conquistar pelo seu amor demonstrado na cruz.

Mesmo tendo criado seres livres, Deus poderia ter se imposto aos povos pela força do seu poder. Mas não quis que fosse assim. Ele disse: “Não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor” (Zc 4.6). Deus, não quis se impor pela força, mas decidiu cativar pelo amor! Manifestou-se ao mundo na pessoa de Jesus, que sendo o próprio Deus, esvaziou-se de sua glória para identificar-se com nossa fraqueza (Fl. 2.7,8), revelou-se como servo sofredor (Is 53), que carrega a sua cruz e dá a vida pelos seus amados. Quando se apresentou como Rei em sua entrada em Jerusalém no Domingo de Ramos, não entrou montado num cavalo portentoso e cheio de pompa e nem estava acompanhado de um forte e ameaçador exército, mas escolheu entrar de maneira humilde e mansa montado num jumentinho, para cumprir a profecia de Zacarias 9.9. Jesus havia rejeitado a tentação de manifestar-se a Israel saltando do pináculo do templo para ser acolhido pelos anjos (Lc 4.8-11).

Portanto, precisamos nos inspirar em Deus Pai e precisamos aprender com Jesus, cujo estilo de liderança foi marcado pela cruz, pelo burrinho, pela água e a toalha, com que lavou os pés dos discípulos. Sendo Senhor, foi humilde e assumiu a condição de servo. Não foi dominador e nem tirano, mas procurou cativar pelo exemplo. Não constrangeu os seguidores pela força, pois seus seguidores sempre foram livres para escolher e até mesmo desistir. Não quis se impor pela força, antes escolheu o caminho da graça e do amor. Na cruz, Deus revelou seu grande amor ao mundo e atraiu muitos a si.

Mas, após esta era presente, em que os homens têm oportunidade de sujeitar-se ao senhorio de Cristo por intermédio da graça e do Espírito, atraídos pelo amor revelado na cruz, sabemos que chegará o dia em que Jesus regressará, não mais montado sobre um jumentinho, mas, sim, sobre um forte cavalo branco (Ap 6.2; 19.11), e destruirá o inimigo com o sopro de sua boca (2 Ts 2.8). Neste dia todo o joelho se dobrará e toda língua confessará que Jesus é o Senhor (Rm 14.11 e Fp 2.10). Veremos no capítulo 4.3.2. algumas implicações deste tópico aliado ao estudo do significado da cruz de Cristo para o exercício da liderança no Reino de Deus. i Ver http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.phtml?cod=4185&cat=Frases&vinda=S

Trindade, Reino de Deus e Missão Integral+

A Igreja precisa refletir teologicamente sobre sua missão em relação á missão do Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo e que se revela assim na história humana, fazendo história numa relação especial com seu povo. A doutrina da Trindade revela que Deus é em si mesmo uma constante conversação, uma comunhão de amor, uma identidade de propósito e uma unidade de ação. i Todos os aspectos da Trindade são importante para missão da Igreja. Em João 3.16, vemos que a missão começa com Deus Pai, que é o agente emissário, que envia seu Filho como missionário, ungido pelo Espírito Santo, que, agora, capacita e dirige a Igreja na continuação e expansão da mesma Missão.

Stanley Jones descreve a relação da Trindade com o Reino de Deus dizendo que o Reino é do Pai, enquanto que Jesus é a encarnação do Reino e o Espírito Santo é o primeiro fruto do Reino, uma garantia também de que existe mais ainda por vir, enquanto que também nos ajuda a descobrir e experimentar a verdade e a plenitude do Reino. E Jones fala da Igreja como um sinal, uma testemunha do Reino que irrompe neste mundo. ii Sendo assim, é Deus que traz o Reino em Cristo e pelo Espírito, não sendo, portanto, uma incumbência humana construir o Reino com as próprias mãos. É por obra de Cristo e do Espírito de Deus que a Igreja se torna capaz de ser um sinal e um instrumento do Reino de Deus. Jones afirmou que o propósito da Missão não é a Igreja, pois o propósito é o Reino. iii Portanto, plantar igrejas não é o propósito final da Missão, mas sim o ponto de partida. A Igreja não deve existir como um fim em sim mesma, pois a Igreja existe para servir como agente do Reino de Deus neste mundo. E cumpre sua missão na força do Espírito Santo que ressuscitou a Jesus dentre os mortos e que transformou discípulos covardes em intrépidas testemunhas de Cristo mesmo em face da própria morte (At 4.19).

A missão está baseada na compaixão da Trindade. Deus foi sensível ao gemido do povo de Israel e providenciou a redenção do Êxodo (Jz 2.18). No Novo Testamento sabemos que é por causa do seu grande amor que o Pai envia o Filho ao mundo (Jo 3.16). Romanos 8 mostra um interessante sincronismo entre os três gemidos ali descritos: A criação geme (Rm 8.26, cf. Is 33.9), nós, os cristãos também gememos, e o Espírito Santo, não fica indiferente ao gemido da criação e dos seres humanos, mas, atua com compaixão intercedendo por nós com gemidos inexprimíveis. E são inúmeros os textos que falam da sensibilidade e da compaixão de Cristo que o movia a ação “Vendo ele as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9.36; ver também: 14.14; Mc 6.34; Lc 10.3; Mt 9.27; 15:22; 15:32; 20:30; Mc 8.2; 9:22; 10:47, Lc 18.38s).

Deus está preocupado com as necessidades do povo – Ele está em plena atividade e conta conosco, ou seja, Deus está recrutando homens e mulheres de todas as idades para entrarem neste serviço de promover o bem-estar do ser humano e da sociedade em que estão inseridos, em todos os níveis, não apenas o espiritual.

Deus ama o mundo de maneira profunda. Ele tem compaixão. Deus se importa com todos os que sofrem.

Não apenas com suas almas, mas com seus corpos, sentimentos e com todas as circunstâncias de suas vidas.

Ele ouviu o gemido do povo no passado e continua ouvindo com sensibilidade e se movendo por compaixão.

A Igreja é missionária num sentido derivado, pois é o Espírito Santo o grande missionário que usa e capacita a Igreja para Missão. A Igreja é a comunidade do Reino de Deus. Sendo, assim, o principal agente do Reino de Deus sobre a Terra. A Igreja não é a encarnação de Jesus, mas é a continuadora de seu ministério pelo poder do Seu Espírito. A intenção de Deus é de que tudo o que a Igreja venha a fazer seja continuação da obra de Jesus. A Igreja atua pelo poder do Espírito, que é poder transformador da vida e da sociedade humana. Jesus fala que os discípulos receberiam poder por obra do Espírito Santo e é assim que se daria a manifestação do Reino de Deus. O Espírito Santo em ação em parceria com a Igreja. Portanto, estaremos estudando aqui missão de Cristo e a missão do Espírito Santo em relação ao Reino de Deus, com intuito de compreendermos melhor tanto a natureza do Reino de Deus quanto a natureza da missão de Cristo e do Espírito com suas naturais implicações para a missão da Igreja. i Bonino, Jose Miguez: “Rostos do Protestantismo Latino-americano” (São Leopoldo: Sinodal, 2002, P. 104. ii Citação de Jones em: Myers, Bryant L. Caminar con Los Pobres. Manual teórico-prático de desarrollo transformador.

Buenos Aires: Kairós. 2002. P. 40. iii Ibidem, p. 41.

A Mesa do Reino de Deus+

“Virão muitos do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa no reino de Deus” (Lc 13.29).

O Natal nos lembra que Deus está cumprindo sua promessa de reunir um povo de todas as tribos e nações para o Reino de Deus. O Evangelho nos revela que, ao nascer Jesus, alguns magos vieram do Oriente para adorar o Grande Rei e Salvador (Mt 2.1). Guiados por uma estrela, esses sábios viajaram longas distâncias para reconhecer o Rei que nasceu. Sua visita simboliza o cumprimento das promessas feitas desde os tempos de Abraão, de que todas as nações da terra seriam abençoadas em sua descendência, isto é, em Cristo (Gn 12.3; Gl 3.16). Abraão foi chamado a ser pai de uma descendência não gerada pela carne, mas pela fé – tão numerosa quanto as estrelas do céu (Gn 15.5).

A presença dos magos vindos do Oriente aponta para o alcance universal da salvação em Jesus. Eles representam os muitos que virão do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, para se sentarem à mesa no Reino de Deus, como anunciado por Jesus (Lc 13.29). Não eram judeus, mas gentios que reconheceram em Jesus o Salvador, respondendo à promessa de que “nações que não te conhecem te chamarão, e povos que nunca souberam de ti virão correndo por causa do Senhor, teu Deus” (Is 55.5).

Por meio de Cristo, Deus derrubou a parede de separação que dividia judeus e gentios, formando um só povo: “Ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um e derrubou a parede de separação que estava no meio” (Ef 2.14). Jesus é o Príncipe da Paz (Is 9.6), que veio reconciliar os povos com Deus e uns com os outros. Nele, haverá um só rebanho e um só Pastor (Jo 10.16), e todos os que confiam nele serão reunidos sob o domínio do Rei dos reis e Senhor dos senhores (Ap 19.16).

O salmista declarou: “Que Deus seja conhecido em toda a Terra; que todas as nações venham adorá-lo” (Sl 75.2). Tudo isso aponta para um Deus que não faz acepção de pessoas, mas que deseja que todos os povos sejam reconciliados com Ele.

O Natal é um convite para celebrarmos a misericórdia e a graça de Deus. Paulo nos lembra que “a graça se manifestou salvadora a todos os homens” (Tt 2.11) e que Deus nos “libertou do domínio das trevas e nos transportou para o reino do seu Filho amado” (Cl 1.13). Por isso, podemos nos alegrar com os magos que, ao encontrarem o menino Jesus, se prostraram em adoração e ofereceram seus presentes – ouro, incenso e mirra (Mt 2.11). Eles nos ensinam que a verdadeira adoração envolve tanto a oferta de nossos tesouros quanto a entrega total de nossas vidas ao Rei.

Assim como Abraão viu pela fé o cumprimento das promessas de Deus e se alegrou (Jo 8.56), somos chamados a viver com gratidão e expectativa, sabendo que Deus continua reunindo seu povo de todas as nações. Desde os patriarcas, Deus não quis limitar sua bênção a uma única nação, mas abrir seu Reino a todas as famílias da terra.

Que neste Natal possamos refletir sobre o privilégio de sermos convidados à mesa do Reino e também sobre nossa responsabilidade de proclamar essa mensagem. Que outros, assim como os magos, sejam atraídos pela luz de Cristo, o Salvador do mundo.

Oração:

Senhor, obrigado por seres o Deus que cumpre promessas e chama pessoas de todas as nações para o teu Reino. Assim como os magos do Oriente, queremos oferecer a Ti o que temos de melhor, reconhecendo que és digno de toda adoração. Dá-nos um coração grato e um espírito missionário para que possamos compartilhar o convite do Reino com aqueles que ainda não te conhecem. Que o Natal nos renove na alegria da salvação e no compromisso com a tua missão. Amém.

Feliz Natal!

Bispo Ildo Mello

Contamos com a providência divina quando buscando o Reino de Deus+

“… e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6.33).

Numa manhã do ano de 1992, acordei com febre e dor de garganta no dia em que tinha uma viagem programada para o campo missionário de Estrela do Norte, interior de São Paulo. Achei estranho ser esta já a terceira vez consecutiva em que me encontrava doente quando tinha de viajar para esta missão. Tomei um remédio para febre e fui para a rodoviária mesmo me sentindo muito mal. Queria uma passagem para o ônibus das 8 h, mas me informaram que só havia passagem para o ônibus que saía ao meio dia. Era mais um motivo para eu desistir da viagem. A dor de garganta piorava e, agora, eu teria de esperar mais de 4 horas para embarcar numa viagem que durava cerca de 8 horas. Para complicar um pouco mais a situação, aquela tinha sido uma semana muito atarefada para mim, e, conseqüentemente, não tinha tido tempo de estudar para o exame final do meu curso de inglês; exame este que teria de fazer assim que chegasse de viagem. Entendi que Deus queria que eu não desistisse, mas que vencesse todos esses impedimentos. Pensei na missão em primeiro lugar e confiei que Deus cuidaria de tudo mais.

Ao meio dia, embarquei doente, mas confiante. Peguei meu livro de inglês para estudar um pouco, quando, de repente, um homem se aproximou e, num português ruim, pediu para trocar de lugar com a pessoa que estava sentada ao meu lado. Tratava-se de um americano que também era pastor, e que estava no Brasil para dar um curso especial de inglês através do ensino da Bíblia. Quando ele viu que eu estava lendo um livro de inglês, quis sentar-se ao meu lado a fim de conversar. Foi uma surpresa extremamente agradável para mim. Pude exercitar meu inglês durante toda a viagem, o que me garantiu uma boa nota no exame que viria a fazer. Conversamos animadamente sobre o ministério pastoral. Um casal de jovens, que também falava inglês, se levantou e se aproximou de nós querendo conversar. Começamos, então, a evangelizar. Foi um momento lindo, uma maravilhosa viagem! Quando me dei conta, a febre e a dor de garganta, há muito que haviam desaparecido. Um milagre do Senhor! Quando, finalmente, cheguei a cidade de Estrela do Norte, revigorado no corpo e no espírito, iniciei minha série de mensagens contando esta experiência e dizendo: “O Diabo quis impedir que eu estivesse aqui, mas Deus me deu vitória!”. Este é um princípio bíblico: "Entrega o teu caminho ao SENHOR, confia nele, e o mais ele fará” (Salmos 37:5). Quando buscamos servir a Deus em primeiro lugar, Deus cuida de tudo mais para nós (Mt 6.33). Pois, “Mais bem-aventurado é dar que receber.” (Atos 20:35)

No egoísmo, nós nos perdemos, enquanto que, no serviço a Deus e ao próximo, nós nos encontramos como pessoas e nos realizamos como filhos de Deus.

Bispo José Ildo Swartele de Mello

O Senhorio de Cristo+

O Senhorio de Cristo significa em primeiro lugar que Ele tem a legitima autoridade sobre nós. Ele dirige e dispõe de nós. Os servos não possuem nenhum direito próprio, não são pessoas independentes perante seu Senhor; não agem sob suas próprias responsabilidades, mas estritamente sob as dele. Os servos são propriedades de seu Senhor.

O Senhorio de Cristo é o Senhorio do Criador de nossa vida. Sendo Deus, o Seu Senhorio não se estabelece apenas sobre nossas palavras e ações, mas sobre nossos corações e consciências. O Senhorio de Cristo é eterno (Lc 1.33)!

Como Criador dos Céus e da terra Cristo é o Senhor de todo homem e do homem todo! Não podemos separar nossa existência corpórea da psíquica de maneira a tornar o Senhorio de Cristo meramente psíquico, interno, espiritual, abstrato e invisível. O Senhorio de Cristo não é apenas um assim chamado Senhorio religioso; pois é ético, sendo assim, muito mais abrangente, abarcando todas as esferas da vida humana, cujo campo é o mundo (Mt 13.38).

O Senhorio de Cristo demanda obediência, de modo que mero entusiasmo não basta. Com corações quebrantados, contritos e humildes, devemos nos render ao Senhor Jesus Cristo. O Bom Pastor de nossas almas!

O Senhorio de Cristo não é uma relação privada entre Cristo e crentes isolados, mas a prescrição de Cristo na Igreja. Na Igreja há ensino apropriado e o Batismo e a Comunhão Santa são corretamente administrados; na igreja um serve ao outro "segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um"(Rm 12.3).

Na congregação daqueles chamados para a fé cristã, Cristo é reconhecido e honrado como Senhor. O fato de Cristo tornar-se o Senhor da minha vida não é algo que eu possa ter sozinho. Somente no meio dos meus irmãos que dão ouvidos a Palavra de Deus junto comigo e que dela testemunham para mim é que sou feito cristão! É somente junto com, e em responsabilidade para com o meu próximo, que eu realmente consigo ficar diante de deus e vindicar a minha pessoa em Sua visão.

Baseado no Capítulo 6 de "Credo: Comentários ao Credo Apostólico de Karl Barth". Fonte Editorial.

Em busca das mulas perdidas+

Saul era um jovem de família humilde, quando se extraviaram as mulas de seu pai. Ele, como filho responsável e obediente, saiu para buscá-las. Tendo procurado muito, nada encontrou. As mulas eram muito preciosas para ele e sua família, pois delas dependiam para sobrevivência. Foi nesta procura que Saul acaba consultando o profeta Samuel, que lhe anuncia ter sido escolhido por Deus para ser o rei de Israel. Ele perdeu o que tanto buscava, mas acabou encontrando o reino com que nunca sequer sonhara.

Algumas breves considerações sobre este episódio narrado no capítulo 9 de 1 Samuel:

Um grande homem se levanta a partir de um pequeno e modesto começo. E um grande evento surge de pequenas ocorrências. Saul foi fiel no pouco, portanto, sobre o muito foi colocado (Lc 19.17), não por obra do acaso, mas por obra e graça de Deus que tudo vê.

Deus exalta os humildes (Pv 3.34); Devemos confiar na providência divina.

Os planos e os caminhos e os pensamentos de Deus são muito mais elevados do que os nossos (Is 55.9)

Muitos buscam a Deus para solução de seus problemas materiais e acabam encontrando em Deus coisas muito mais excelentes, como o Reino de Deus e a vida eterna.

O triste é imaginar que os homens de Deus seriam muito mais procurados se a especialidade deles, em vez de salvar almas, fosse salvar mulas, tal é o cuidado dos homens pelas coisas materiais (1 Co 15.19).

Observa-se que, no final, as mulas também foram encontradas (10.2). Deus tem prazer em nos socorrer em nossas necessidades temporais, mas devemos buscar em primeiro lugar o Reino de Deus (Mt 6.33). É até razoável a busca por tesouros terrenos enquanto não se conhece o supremo tesouro. Mas uma vez que nos deparamos com o inestimável tesouro, não pode haver lugar para outro em nosso coração (Mt 13.44; 6.21; Dt 6.5).

Bispo José Ildo Swartele de Mello

O Espírito Santo, o Reino de Deus e a Missão de Cristo+

O Evangelho de Lucas, principalmente nos primeiros capítulos, estabelece a estreita relação do Espírito Santo com o ministério de Cristo. Até na tentação, vemos a participação do Espírito Santo. Jesus foi levado para o deserto pelo Espírito Santo (4.1). E, pelo mesmo Espírito, foi que Jesus rechaçou a tentação (4.14). Em seguida, Jesus volta para a Galiléia no poder do Espírito e outra referência no sermão inaugural de Cristo (4.14, 18-21). Quais as evidências da unção do Espírito Santo em Jesus (Lc 4.18-20)? Quais foram os sinais que João Batista recebeu como resposta a sua indagação a respeito do Cristo como o Messias esperado (Lc 7.22; Mt 11.4,5)? E quais foram os sinais da unção do Espírito sobre a Igreja registrados no Livro de Atos, em especial no capítulo 2? Não são todos eles sinais do Reino de Deus e não dizem todos eles respeito à missão integral de Cristo, do Espírito e da Igreja?

Assim como aconteceu com Jesus, que foi ungido pelo Espírito Santo com o propósito de pregar boas novas para os pobres, libertar os cativos e dar vistas aos cegos (Lc 4.18-21). Mateus mostra o Reino de Deus chegando através da presença dinâmica do Espírito Santo, pois Jesus afirmou: “Se, porém, eu expulso demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós” (Mt 12.28). O Reino de Deus não é um lugar, mas é o poder do Espírito em ação para transformar a vida humana segundo sua justiça. Em Cristo Jesus, o Reino está presente na história. A ação do Espírito Santo torna possível a presença do Reino de Deus. Faz da Igreja uma testemunha viva do seu Reino, dando esperança num mundo de desesperança.

Jesus disse que o Reino de Deus chegaria com poder ainda durante a vida dos primeiros discípulos+

Jesus prometeu aos seus discípulos que alguns deles presenciariam a chegada do Reino de Deus (Mt 9.1). Lembramos que Judas morreu e não viu o Cristo ressuscitado e, portanto, não participou do Pentecostes.

Jesus iniciou o seu ministério terreno proclamando que o Reino estava prestes a chegar (Mc 1.15) e o concluiu declarando já ter recebido todo o poder no céu e na terra (Mt 28.18). Após isto, subiu aos céus e assentou-se no trono, acima de todo o principado e potestade (Ef 1.20-22).

Jesus disse que o príncipe deste mundo havia sido expulso (Jo 12.31) e que Satanás já estava amarrado! (Mt 12.29). Disse também que se Ele expulsava demônios pelo Espirito de Deus era chegado o Reino de Deus! (Mt 12.28).

Jesus já reina no presente século colocando seus inimigos debaixo dos pés! (1Co 15.25) O Reino veio com poder através do derramamento do Espirito Santo sobre a Igreja! "E recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo…" (At 1.8). A Igreja recebeu poder para triunfar sobre o inferno e recebeu também as chaves do Reino (Mt 16.13-19).  A Igreja recebeu a missão de fazer discípulos de todas as nações, e será bem sucedida no cumprimento desta missão (Ap 7.9 e Mt 24.14), pois foi enviada pelo Rei que tem todo o poder nos céus e na terra (Mt 28.18-20).  A igreja recebeu autoridade para pisar todo o poder do mal (Lc 10.19) e já está assentada nas alturas, reinando juntamente com Cristo sobre todo o principado e potestade! (Ef 2.4-6)

Bispo José Ildo Swartele de Mello