História da IgrejaAula 1

A igreja apostólica e os pais apostólicos

“E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.”Atos 2.42 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: At 1-2; At 15; 2Tm 2.1-2; Jd 3

Para começar

E depois de Atos?

O livro de Atos termina com Paulo pregando em Roma, por volta do ano 62. E depois? O que aconteceu com a igreja quando o último apóstolo morreu? Quem assumiu a liderança? Como era o culto daqueles primeiros cristãos, o batismo, a Ceia?

1

Quem assumiu depois dos apóstolos?

Quando João, o último dos Doze, morreu por volta do ano 100, a quem ficou confiada a fé? Havia um plano de transmissão?

2

A fé chegou intacta até nós?

Como podemos ter certeza de que aquilo que cremos hoje é a mesma fé que os apóstolos entregaram, e não uma versão deformada pelos séculos?

O que esta aula cobre. Os 120 anos que vão do Pentecostes até a metade do segundo século, o período em que a igreja deixou de ser um movimento dentro do judaísmo e se tornou um povo espalhado por todo o Império Romano. Esta é a primeira de oito aulas da série Dos Apóstolos à Reforma.

Situando-se na história

Linha do tempo (30-150)

c. 30

Pentecostes

Morte e ressurreição de Jesus; o Espírito Santo desce sobre cerca de 120 discípulos e três mil pessoas são batizadas após a pregação de Pedro (At 2.41). A igreja nasce em Jerusalém.

c. 34

Estêvão e Saulo

Martírio de Estêvão e conversão de Saulo de Tarso no caminho de Damasco. A perseguição espalha os cristãos pela Judeia e Samaria (At 8.1).

c. 48-49

Concílio de Jerusalém

Apóstolos e presbíteros decidem: o gentio não precisa tornar-se judeu para ser salvo (At 15.11). O evangelho é para todos os povos.

64

Nero persegue

Após o incêndio de Roma, Nero culpa os cristãos. Primeira perseguição imperial; martírios de Pedro e de Paulo em Roma (c. 64-67).

70

Queda de Jerusalém

Os exércitos romanos arrasam a cidade e queimam o templo, como Jesus anunciara (Lc 21.6, 20-24). Acelera-se a separação, gradual, entre o cristianismo e o judaísmo rabínico.

c. 95-100

A geração de João

Perseguição sob Domiciano; João escreve o Apocalipse em Patmos (Ap 1.9) e morre em Éfeso por volta do ano 100, o último dos Doze.

c. 96-107

Clemente e Inácio

Clemente de Roma escreve aos coríntios (c. 96); Inácio de Antioquia é levado preso a Roma e martirizado (c. 107), escrevendo sete cartas no caminho.

c. 50-150

Didaqué e Policarpo

Composição da Didaqué, o “Ensino dos Doze Apóstolos”; ministério de Policarpo em Esmirna, discípulo direto de João.

Parte 1

De Pentecostes à queda de Jerusalém (30-70)

Lucas resume a vida da primeira comunidade numa frase que serve de medida para a igreja de todos os tempos: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações” (At 2.42).

O próprio Jesus havia traçado o mapa da expansão: “sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até os confins da terra” (At 1.8). O instrumento que Deus usou para cumprir esse mapa foi, muitas vezes, a perseguição. O apedrejamento de Estêvão espalhou os cristãos pela Judeia e Samaria, e um dos perseguidores, Saulo de Tarso, encontrou o Cristo ressuscitado e se tornou o maior missionário da história.

O Concílio de Jerusalém (c. 49)

A pergunta em jogo era decisiva: um gentio precisa se tornar judeu (circuncidar-se, guardar a lei cerimonial) para ser salvo? A resposta dos apóstolos e presbíteros, guiados pelo Espírito, foi não: “cremos que somos salvos pela graça do Senhor Jesus, como também eles” (At 15.11). Ali ficou estabelecido que o evangelho é para todos os povos, sem que ninguém precise trocar de cultura para chegar a Cristo.

A destruição de Jerusalém (70)

Após uma revolta judaica, os romanos cercaram e arrasaram a cidade, e o templo foi queimado, exatamente como Jesus havia anunciado (Lc 21.6, 20-24). Com o fim do templo e dos sacrifícios, acelerou-se a separação entre o cristianismo e o judaísmo rabínico; foi um processo gradual, que variou de região para região e avançou pelo segundo século, mas o rumo estava dado: a igreja, que começara como uma comunidade judaica em Jerusalém, tornava-se um povo espalhado entre as nações.

Parte 2

A geração da transição (70-100)

Entre os anos 64 e 100, a igreja perdeu, um a um, os seus fundadores. Foi uma geração de despedidas, e as últimas cartas do Novo Testamento respiram uma preocupação: a quem confiar a fé quando os apóstolos já não estiverem aqui?

Pedro e Paulo foram martirizados em Roma sob Nero. Tiago, irmão do Senhor e líder da igreja de Jerusalém, foi morto por volta de 62. João, o último dos Doze, foi exilado em Patmos durante a perseguição de Domiciano (Ap 1.9) e morreu em Éfeso, já idoso, por volta do ano 100.

A palavra-chave do período

Transmissão

Paulo responde a Timóteo: “E aquilo que você ouviu de mim diante de muitas testemunhas, confie a homens fiéis, que sejam também capazes de instruir outros” (2Tm 2.2). Judas exorta os crentes a batalhar “pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3). A fé apostólica sendo entregue, intacta, à geração seguinte.

Um dado que fortalece a nossa confiança nas Escrituras: segundo a datação tradicional, que este curso adota, todos os vinte e sete livros do Novo Testamento já haviam sido escritos quando o último apóstolo morreu. O reconhecimento formal da lista completa ainda levaria tempo (veremos isso nas próximas aulas), mas a igreja do segundo século já lia, copiava e citava esses escritos como Palavra de Deus.

Parte 3

Quem foram os pais apostólicos (100-150)

Chamamos de “pais apostólicos” os líderes cristãos da geração imediatamente posterior aos apóstolos, homens que, em vários casos, conheceram pessoalmente os apóstolos ou foram discipulados por eles. Seus escritos são os documentos cristãos mais antigos fora do Novo Testamento: eles nos mostram como era a igreja “no dia seguinte” ao período apostólico.

Clemente de Roma (falecido c. 99)

Presbítero da igreja de Roma, possivelmente o Clemente mencionado por Paulo (Fp 4.3). Por volta de 96 escreveu uma longa carta à igreja de Corinto, que havia deposto seus presbíteros numa divisão interna. A carta apela à humildade, à ordem e à submissão mútua, e mostra que os problemas de Corinto não terminaram com as cartas de Paulo.

Inácio de Antioquia (c. 35-107)

Bispo de Antioquia da Síria, a igreja que enviou Paulo às missões. Condenado às feras, foi levado preso até Roma e, no caminho, escreveu sete cartas às igrejas que o receberam. Nelas defende a divindade e a verdadeira humanidade de Cristo contra os primeiros hereges e exorta as igrejas à unidade em torno de seus pastores.

Policarpo de Esmirna (c. 69-156)

Bispo de Esmirna, uma das sete igrejas do Apocalipse (Ap 2.8-11); segundo o testemunho de Irineu, que o conheceu, foi discípulo do apóstolo João. Sua vida é uma ponte viva: um homem que ouviu o evangelho da boca de quem reclinou no peito de Jesus. Seu martírio, aos 86 anos, será tema da próxima aula.

A Didaqué, o “Ensino dos Doze Apóstolos”

Manual de instrução das igrejas, anônimo, composto entre o final do primeiro século e o início do segundo. Ensina o “caminho da vida e o caminho da morte” e traz orientações práticas sobre batismo, jejum, oração e a Ceia do Senhor. É a janela mais clara que temos para o culto cristão primitivo.

Papias de Hierápolis e o Pastor de Hermas

Papias, também ouvinte de João, colheu testemunhos sobre a origem dos Evangelhos. O Pastor de Hermas é uma obra de exortação ao arrependimento, muito lida nas igrejas antigas.

Parte 4

Como era a igreja daquele tempo

No culto

Os cristãos se reuniam no primeiro dia da semana, o “dia do Senhor” (At 20.7; Ap 1.10), em casas, para ler as Escrituras, ouvir a instrução, orar e celebrar a Ceia. A Didaqué ordena: “Reunidos no dia do Senhor, parti o pão e dai graças, tendo antes confessado os vossos pecados, para que o vosso sacrifício seja puro” (Didaqué 14).

Na organização

As igrejas eram lideradas por presbíteros (também chamados bispos, isto é, supervisores) e servidas por diáconos, conforme o padrão do Novo Testamento (Fp 1.1; Tt 1.5-7). No tempo de Inácio já se percebe, em algumas regiões, um bispo destacado à frente do colégio de presbíteros. Para Inácio, essa liderança não era questão de poder, mas de unidade: um rebanho visível reunido em torno de um pastor visível, contra os falsos mestres que queriam dividi-lo.

Na doutrina

Os inimigos internos já rondavam. O docetismo, primeira grande heresia, negava que Cristo tivesse vindo em carne verdadeira (o que João já combatia: 1Jo 4.2-3). Contra isso, Inácio insiste que Jesus “verdadeiramente nasceu, comeu e bebeu, verdadeiramente foi perseguido sob Pôncio Pilatos, verdadeiramente foi crucificado e morreu, e verdadeiramente ressuscitou dentre os mortos”. A fé cristã nasceu confessando fatos, não ideias.

Na vida

O que mais impressionava os pagãos não era o discurso dos cristãos, era a conduta: a recusa da idolatria e da imoralidade, o cuidado com os pobres, as viúvas e os órfãos, a firmeza diante da morte. Numa sociedade que abandonava recém-nascidos indesejados, os cristãos os recolhiam e criavam. A igreja crescia porque a vida dos crentes tornava o evangelho plausível.

Fontes primárias

Vozes da igreja primitiva

Os trechos abaixo foram traduzidos diretamente das fontes em domínio público, para que você ouça os próprios pais apostólicos.

A ponte wesleyana

Wesley e o cristianismo primitivo

Por que uma série de história da igreja num site wesleyano começa dando tanta atenção a esses autores quase desconhecidos do nosso povo? Porque John Wesley os amava.

Wesley via nos escritores dos primeiros séculos o retrato do “cristianismo primitivo” que ele queria ver restaurado na Inglaterra do seu tempo, e recomendava ao seu clero a leitura, em primeiro lugar, dos autores do primeiro século: Clemente de Roma, Inácio e Policarpo. No primeiro volume da sua Biblioteca Cristã, coleção que preparou para os pregadores metodistas, Wesley colocou justamente as cartas dos pais apostólicos.

Da história para a vida

Aplicação pastoral

1

A igreja é edificada por Cristo

Ela atravessou a morte dos seus fundadores, a destruição de Jerusalém e a fúria de Nero, porque quem a edifica é Cristo: “edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18). Isso deve nos dar serenidade em tempos de crise.

2

A fé se transmite de pessoa a pessoa

João discipulou Policarpo, que instruiu a geração seguinte, e assim a corrente chegou até nós. Cada um de nós é um elo: quem foi o seu Policarpo, e quem está sendo discipulado por você? “Confie a homens fiéis, que sejam também capazes de instruir outros” (2Tm 2.2) continua sendo a estratégia de Deus.

3

Palavra, comunhão e vida santa

A igreja primitiva evangelizou um império hostil sem templos, sem poder político e sem meios de comunicação. Antes de perguntarmos por métodos novos, convém perguntar se temos as três coisas que eles tinham: a Palavra, a comunhão e uma vida visivelmente santa.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o conteúdo. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Dez questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe: errar aqui também ensina.

0 de 10 respondidas

Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

João discipulou Policarpo, que instruiu a geração seguinte, e assim a fé chegou até nós. Quem foi o seu “Policarpo”, e quem está sendo discipulado por você hoje?Ver resposta sugerida
A pergunta tem duas pontas, e as duas precisam de nome próprio. Primeiro, a gratidão: identifique quem Deus usou para entregar a fé a você (um pai, uma avó, um pastor, um amigo) e, se essa pessoa ainda vive, diga-lhe isso; honrar os elos anteriores é bíblico (2Tm 1.5). Segundo, a responsabilidade: 2Tm 2.2 descreve quatro gerações na mesma frase (Paulo, Timóteo, homens fiéis, outros). Se você não consegue apontar ninguém a quem esteja transmitindo intencionalmente a fé, a corrente para em você. Comece pequeno e concreto: um filho, um novo convertido, um adolescente da igreja, com Bíblia aberta e vida compartilhada. Discipulado não é programa, é relação com direção.
Alguém diz a você: “a Bíblia foi inventada séculos depois de Jesus; ninguém sabe o que os primeiros cristãos criam de verdade”. Como responder com mansidão, usando o que esta aula mostrou?Ver resposta sugerida
Responda com fatos e sem agressividade (1Pe 3.15-16). Primeiro: pela datação tradicional, todos os 27 livros do Novo Testamento já estavam escritos quando o último apóstolo morreu, por volta do ano 100, e mesmo pelas datações críticas mais comuns nenhum foi escrito “séculos depois”. Segundo: temos cartas cristãs de 96 a 110 (Clemente, Inácio) que já citam e ecoam esses escritos e confessam a mesma fé: Cristo morto e ressuscitado verdadeiramente. Terceiro: a Didaqué mostra o culto, o batismo e a Ceia funcionando no primeiro século, reconhecíveis até hoje. O que os concílios posteriores fizeram foi reconhecer formalmente a lista dos livros que as igrejas já liam, não inventá-la. Convide a pessoa a ler 1 Clemente ou as cartas de Inácio: são públicas, curtas, e desmontam o mito sozinhas.

Para casa e próxima aula

Para aprofundar. Leia Atos 1 a 15 acompanhando as Notas de John Wesley sobre o Novo Testamento, publicadas neste site. Se quiser ir às fontes, o Martírio de Policarpo e a Carta a Diogneto aparecem na próxima aula.

Na próxima aula: “Mártires e apologistas: a fé sob perseguição (150-313)”, com o martírio de Policarpo, as calúnias contra os cristãos, Justino, Tertuliano e as defesas que a igreja levantou contra as primeiras heresias.

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. Trechos de fontes históricas traduzidos dos originais em domínio público com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.