Quem assumiu depois dos apóstolos?
Quando João, o último dos Doze, morreu por volta do ano 100, a quem ficou confiada a fé? Havia um plano de transmissão?
“E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.”Atos 2.42 · NAA
Para começar
O livro de Atos termina com Paulo pregando em Roma, por volta do ano 62. E depois? O que aconteceu com a igreja quando o último apóstolo morreu? Quem assumiu a liderança? Como era o culto daqueles primeiros cristãos, o batismo, a Ceia?
Quando João, o último dos Doze, morreu por volta do ano 100, a quem ficou confiada a fé? Havia um plano de transmissão?
Como podemos ter certeza de que aquilo que cremos hoje é a mesma fé que os apóstolos entregaram, e não uma versão deformada pelos séculos?
O que esta aula cobre. Os 120 anos que vão do Pentecostes até a metade do segundo século, o período em que a igreja deixou de ser um movimento dentro do judaísmo e se tornou um povo espalhado por todo o Império Romano. Esta é a primeira de oito aulas da série Dos Apóstolos à Reforma.
Situando-se na história
c. 30
Morte e ressurreição de Jesus; o Espírito Santo desce sobre cerca de 120 discípulos e três mil pessoas são batizadas após a pregação de Pedro (At 2.41). A igreja nasce em Jerusalém.
c. 34
Martírio de Estêvão e conversão de Saulo de Tarso no caminho de Damasco. A perseguição espalha os cristãos pela Judeia e Samaria (At 8.1).
c. 48-49
Apóstolos e presbíteros decidem: o gentio não precisa tornar-se judeu para ser salvo (At 15.11). O evangelho é para todos os povos.
64
Após o incêndio de Roma, Nero culpa os cristãos. Primeira perseguição imperial; martírios de Pedro e de Paulo em Roma (c. 64-67).
70
Os exércitos romanos arrasam a cidade e queimam o templo, como Jesus anunciara (Lc 21.6, 20-24). Acelera-se a separação, gradual, entre o cristianismo e o judaísmo rabínico.
c. 95-100
Perseguição sob Domiciano; João escreve o Apocalipse em Patmos (Ap 1.9) e morre em Éfeso por volta do ano 100, o último dos Doze.
c. 96-107
Clemente de Roma escreve aos coríntios (c. 96); Inácio de Antioquia é levado preso a Roma e martirizado (c. 107), escrevendo sete cartas no caminho.
c. 50-150
Composição da Didaqué, o “Ensino dos Doze Apóstolos”; ministério de Policarpo em Esmirna, discípulo direto de João.
Parte 1
Lucas resume a vida da primeira comunidade numa frase que serve de medida para a igreja de todos os tempos: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações” (At 2.42).
O próprio Jesus havia traçado o mapa da expansão: “sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até os confins da terra” (At 1.8). O instrumento que Deus usou para cumprir esse mapa foi, muitas vezes, a perseguição. O apedrejamento de Estêvão espalhou os cristãos pela Judeia e Samaria, e um dos perseguidores, Saulo de Tarso, encontrou o Cristo ressuscitado e se tornou o maior missionário da história.
A pergunta em jogo era decisiva: um gentio precisa se tornar judeu (circuncidar-se, guardar a lei cerimonial) para ser salvo? A resposta dos apóstolos e presbíteros, guiados pelo Espírito, foi não: “cremos que somos salvos pela graça do Senhor Jesus, como também eles” (At 15.11). Ali ficou estabelecido que o evangelho é para todos os povos, sem que ninguém precise trocar de cultura para chegar a Cristo.
Após uma revolta judaica, os romanos cercaram e arrasaram a cidade, e o templo foi queimado, exatamente como Jesus havia anunciado (Lc 21.6, 20-24). Com o fim do templo e dos sacrifícios, acelerou-se a separação entre o cristianismo e o judaísmo rabínico; foi um processo gradual, que variou de região para região e avançou pelo segundo século, mas o rumo estava dado: a igreja, que começara como uma comunidade judaica em Jerusalém, tornava-se um povo espalhado entre as nações.
Parte 2
Entre os anos 64 e 100, a igreja perdeu, um a um, os seus fundadores. Foi uma geração de despedidas, e as últimas cartas do Novo Testamento respiram uma preocupação: a quem confiar a fé quando os apóstolos já não estiverem aqui?
Pedro e Paulo foram martirizados em Roma sob Nero. Tiago, irmão do Senhor e líder da igreja de Jerusalém, foi morto por volta de 62. João, o último dos Doze, foi exilado em Patmos durante a perseguição de Domiciano (Ap 1.9) e morreu em Éfeso, já idoso, por volta do ano 100.
A palavra-chave do período
Paulo responde a Timóteo: “E aquilo que você ouviu de mim diante de muitas testemunhas, confie a homens fiéis, que sejam também capazes de instruir outros” (2Tm 2.2). Judas exorta os crentes a batalhar “pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3). A fé apostólica sendo entregue, intacta, à geração seguinte.
Um dado que fortalece a nossa confiança nas Escrituras: segundo a datação tradicional, que este curso adota, todos os vinte e sete livros do Novo Testamento já haviam sido escritos quando o último apóstolo morreu. O reconhecimento formal da lista completa ainda levaria tempo (veremos isso nas próximas aulas), mas a igreja do segundo século já lia, copiava e citava esses escritos como Palavra de Deus.
Parte 3
Chamamos de “pais apostólicos” os líderes cristãos da geração imediatamente posterior aos apóstolos, homens que, em vários casos, conheceram pessoalmente os apóstolos ou foram discipulados por eles. Seus escritos são os documentos cristãos mais antigos fora do Novo Testamento: eles nos mostram como era a igreja “no dia seguinte” ao período apostólico.
Presbítero da igreja de Roma, possivelmente o Clemente mencionado por Paulo (Fp 4.3). Por volta de 96 escreveu uma longa carta à igreja de Corinto, que havia deposto seus presbíteros numa divisão interna. A carta apela à humildade, à ordem e à submissão mútua, e mostra que os problemas de Corinto não terminaram com as cartas de Paulo.
Bispo de Antioquia da Síria, a igreja que enviou Paulo às missões. Condenado às feras, foi levado preso até Roma e, no caminho, escreveu sete cartas às igrejas que o receberam. Nelas defende a divindade e a verdadeira humanidade de Cristo contra os primeiros hereges e exorta as igrejas à unidade em torno de seus pastores.
Bispo de Esmirna, uma das sete igrejas do Apocalipse (Ap 2.8-11); segundo o testemunho de Irineu, que o conheceu, foi discípulo do apóstolo João. Sua vida é uma ponte viva: um homem que ouviu o evangelho da boca de quem reclinou no peito de Jesus. Seu martírio, aos 86 anos, será tema da próxima aula.
Manual de instrução das igrejas, anônimo, composto entre o final do primeiro século e o início do segundo. Ensina o “caminho da vida e o caminho da morte” e traz orientações práticas sobre batismo, jejum, oração e a Ceia do Senhor. É a janela mais clara que temos para o culto cristão primitivo.
Papias, também ouvinte de João, colheu testemunhos sobre a origem dos Evangelhos. O Pastor de Hermas é uma obra de exortação ao arrependimento, muito lida nas igrejas antigas.
Parte 4
Os cristãos se reuniam no primeiro dia da semana, o “dia do Senhor” (At 20.7; Ap 1.10), em casas, para ler as Escrituras, ouvir a instrução, orar e celebrar a Ceia. A Didaqué ordena: “Reunidos no dia do Senhor, parti o pão e dai graças, tendo antes confessado os vossos pecados, para que o vosso sacrifício seja puro” (Didaqué 14).
As igrejas eram lideradas por presbíteros (também chamados bispos, isto é, supervisores) e servidas por diáconos, conforme o padrão do Novo Testamento (Fp 1.1; Tt 1.5-7). No tempo de Inácio já se percebe, em algumas regiões, um bispo destacado à frente do colégio de presbíteros. Para Inácio, essa liderança não era questão de poder, mas de unidade: um rebanho visível reunido em torno de um pastor visível, contra os falsos mestres que queriam dividi-lo.
Os inimigos internos já rondavam. O docetismo, primeira grande heresia, negava que Cristo tivesse vindo em carne verdadeira (o que João já combatia: 1Jo 4.2-3). Contra isso, Inácio insiste que Jesus “verdadeiramente nasceu, comeu e bebeu, verdadeiramente foi perseguido sob Pôncio Pilatos, verdadeiramente foi crucificado e morreu, e verdadeiramente ressuscitou dentre os mortos”. A fé cristã nasceu confessando fatos, não ideias.
O que mais impressionava os pagãos não era o discurso dos cristãos, era a conduta: a recusa da idolatria e da imoralidade, o cuidado com os pobres, as viúvas e os órfãos, a firmeza diante da morte. Numa sociedade que abandonava recém-nascidos indesejados, os cristãos os recolhiam e criavam. A igreja crescia porque a vida dos crentes tornava o evangelho plausível.
Fontes primárias
Os trechos abaixo foram traduzidos diretamente das fontes em domínio público, para que você ouça os próprios pais apostólicos.
1 Clemente 42 · c. 96
“Os apóstolos receberam o evangelho para nós da parte do Senhor Jesus Cristo; Jesus Cristo foi enviado por Deus. Cristo, portanto, procede de Deus, e os apóstolos, de Cristo. […] Pregando por campos e cidades, iam constituindo os seus primeiros convertidos, depois de prová-los pelo Espírito, como bispos e diáconos dos que haviam de crer.”
Aos Romanos 4 · c. 107
“Escrevo a todas as igrejas e a todas declaro que morro por Deus de livre vontade. […] Sou trigo de Deus, e serei moído pelos dentes das feras, para que eu seja achado puro pão de Cristo.”
Didaqué 7 · séc. I-II
“Acerca do batismo, batizai assim: tendo antes ensinado tudo isto, batizai em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, em água corrente. Se não tiveres água corrente, batiza em outra água; se não puderes em água fria, seja em água morna. Se não tiveres nem uma nem outra, derrama água três vezes sobre a cabeça, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.”
Repare no espírito prático: a igreja primitiva tinha uma forma preferida, mas não fazia da forma um obstáculo à graça. O essencial era preservar o batismo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, sem transformar a quantidade ou o tipo de água em obstáculo.
A ponte wesleyana
Por que uma série de história da igreja num site wesleyano começa dando tanta atenção a esses autores quase desconhecidos do nosso povo? Porque John Wesley os amava.
Wesley via nos escritores dos primeiros séculos o retrato do “cristianismo primitivo” que ele queria ver restaurado na Inglaterra do seu tempo, e recomendava ao seu clero a leitura, em primeiro lugar, dos autores do primeiro século: Clemente de Roma, Inácio e Policarpo. No primeiro volume da sua Biblioteca Cristã, coleção que preparou para os pregadores metodistas, Wesley colocou justamente as cartas dos pais apostólicos.
Da história para a vida
Ela atravessou a morte dos seus fundadores, a destruição de Jerusalém e a fúria de Nero, porque quem a edifica é Cristo: “edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18). Isso deve nos dar serenidade em tempos de crise.
João discipulou Policarpo, que instruiu a geração seguinte, e assim a corrente chegou até nós. Cada um de nós é um elo: quem foi o seu Policarpo, e quem está sendo discipulado por você? “Confie a homens fiéis, que sejam também capazes de instruir outros” (2Tm 2.2) continua sendo a estratégia de Deus.
A igreja primitiva evangelizou um império hostil sem templos, sem poder político e sem meios de comunicação. Antes de perguntarmos por métodos novos, convém perguntar se temos as três coisas que eles tinham: a Palavra, a comunhão e uma vida visivelmente santa.
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Avaliação
Dez questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe: errar aqui também ensina.
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Para pensar e conversar
Para aprofundar. Leia Atos 1 a 15 acompanhando as Notas de John Wesley sobre o Novo Testamento, publicadas neste site. Se quiser ir às fontes, o Martírio de Policarpo e a Carta a Diogneto aparecem na próxima aula.
Na próxima aula: “Mártires e apologistas: a fé sob perseguição (150-313)”, com o martírio de Policarpo, as calúnias contra os cristãos, Justino, Tertuliano e as defesas que a igreja levantou contra as primeiras heresias.
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. Trechos de fontes históricas traduzidos dos originais em domínio público com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.