O que Roma via nos cristãos?
Aos olhos romanos, os cristãos eram “ateus” (não tinham imagens de deuses), antissociais e possivelmente subversivos. Sobre essa desconfiança cresceram calúnias terríveis.
“Bem-aventurados vocês, quando, por minha causa, os insultarem e os perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vocês.”Mateus 5.11 · NAA
Para começar
Por que o Império Romano, que tolerava centenas de religiões, perseguiu justamente os cristãos? Como uma minoria sem exército, sem templos e sem direitos sobreviveu a dois séculos e meio de hostilidade e ainda cresceu?
Aos olhos romanos, os cristãos eram “ateus” (não tinham imagens de deuses), antissociais e possivelmente subversivos. Sobre essa desconfiança cresceram calúnias terríveis.
Duas frentes de resposta: os mártires responderam com a vida; os apologistas, com argumentos. Esta aula acompanha as duas.
O que esta aula cobre. Da metade do segundo século ao ano 313, quando a Grande Perseguição terminou e o culto cristão ganhou liberdade legal no império. É o período das arenas, das calúnias, dos primeiros defensores intelectuais da fé e das primeiras grandes heresias.
Situando-se na história
c. 112
O governador Plínio pergunta ao imperador o que fazer com os cristãos. A resposta de Trajano: não caçar, recusar denúncias anônimas, mas punir os denunciados que não negarem a fé.
c. 156
O velho bispo de Esmirna, discípulo de João, é queimado vivo no estádio: “Há oitenta e seis anos eu o sirvo, e ele nunca me fez mal algum”.
c. 150-165
O filósofo convertido escreve suas Apologias ao imperador, desmontando as calúnias e descrevendo o culto cristão. Morre decapitado em Roma.
177
Perseguição na Gália; a escrava Blandina esgota os torturadores repetindo: “Sou cristã, e entre nós não se faz nada de mau”.
203
Em Cartago, a jovem nobre e sua serva morrem na arena. O diário de Perpétua no cárcere é um dos primeiros textos cristãos escritos por uma mulher.
249-258
Primeira perseguição universal e sistemática: todos os habitantes devem sacrificar aos deuses e obter certificado. Cipriano de Cartago é martirizado em 258.
303-311
Sob Diocleciano e Galério, a última e mais violenta: igrejas demolidas, Escrituras queimadas, clero preso, milhares de mortos.
313
Constantino e Licínio dão liberdade de culto aos cristãos. A perseguição oficial termina; a história muda de era (tema da próxima aula).
Parte 1
Roma era tolerante com as religiões dos povos conquistados, desde que elas se somassem ao culto oficial e ao culto do imperador. O problema dos cristãos era a exclusividade: confessar que “Jesus é Senhor” (Rm 10.9) significava negar que César fosse senhor.
Os cristãos não queimavam o punhado de incenso diante da imagem do imperador, não frequentavam os templos, não iam aos espetáculos sangrentos. Sobre essa desconfiança cresceram calúnias. Como celebravam a Ceia a portas fechadas, falando em “comer o corpo” e “beber o sangue” do Senhor, foram acusados de canibalismo. Como se chamavam de irmãos e irmãs e se saudavam com beijo santo, foram acusados de incesto. O historiador Tácito resume o sentimento popular ao dizer que eram odiados por seus “crimes abomináveis”.
Convém desfazer um exagero comum: a perseguição não foi contínua nem uniforme. Nos dois primeiros séculos ela foi local e esporádica, dependendo do humor de governadores e multidões. Só a partir de Décio (249) tornou-se política de Estado em todo o império. A Grande Perseguição de Diocleciano (303-311) foi a última e a mais violenta.
Parte 2
A palavra grega “mártir” significa simplesmente testemunha (At 1.8). Ela ganhou o sentido que tem hoje porque, naquele período, dar testemunho de Cristo podia custar a vida.
O velho bispo, discípulo do apóstolo João, foi levado ao estádio e instado a jurar pelo gênio de César e blasfemar de Cristo. Sua resposta está entre as frases mais citadas da história cristã (você a encontrará nas fontes primárias abaixo). Foi queimado vivo diante da multidão.
Escrava, fisicamente frágil, foi torturada por dias e, segundo a carta das igrejas de Lião e Viena, esgotou os torturadores, repetindo apenas: “Sou cristã, e entre nós não se faz nada de mau”. A igreja antiga a lembrou como prova de que a força do martírio não estava na pessoa, mas em Cristo (2Co 12.9).
Perpétua era uma jovem nobre de Cartago, mãe de um bebê; Felicidade, sua serva, deu à luz na prisão dias antes da execução. Ao pai, que implorava que ela negasse a fé, Perpétua respondeu que não podia se chamar por outro nome senão aquilo que era: cristã.
Parte 3
Enquanto os mártires respondiam com a vida, outra frente respondia com argumentos. Chamamos de apologistas (de “apologia”, defesa) os escritores do segundo século que defenderam a fé perante o império e a cultura da época.
Filósofo pagão convertido, continuou usando o manto de filósofo e apresentou o cristianismo como a verdadeira filosofia. Dirigiu duas Apologias ao imperador, desmontando as calúnias e descrevendo abertamente o culto cristão, justamente para mostrar que não havia crime algum. Morreu decapitado em Roma, fiel ao nome que carregava.
Discípulo de Policarpo (e, portanto, neto espiritual do apóstolo João), escreveu Contra as Heresias para refutar o gnosticismo. Seu argumento central: a fé verdadeira é o ensino pregado abertamente nas igrejas fundadas pelos apóstolos, desde o princípio, não um segredo de iniciados.
Advogado de formação e primeiro grande teólogo de língua latina, escreveu o Apologético e cunhou termos que usamos até hoje, entre eles a palavra “Trindade”. Somam-se a ele Atenágoras, Aristides e o autor anônimo da bela Carta a Diogneto.
Os apologistas nos lembram que a fé cristã nunca teve medo de argumentar. Eles praticaram o que Pedro ordenara: “estejam sempre preparados para responder a todo aquele que pedir razão da esperança que há em vocês, fazendo isso com mansidão e temor” (1Pe 3.15-16).
Parte 4
O perigo não vinha só de fora. No segundo século, três movimentos ameaçaram deformar o evangelho por dentro.
Ensinava que a matéria é má, que a salvação vem por um conhecimento secreto (gnosis) reservado a iniciados, e que o Deus criador do Antigo Testamento seria um deus inferior.
Rejeitou inteiramente o Antigo Testamento e montou uma “bíblia” enxuta só com partes de Lucas e de Paulo.
Alegava novas revelações proféticas que suplantavam a Escritura.
Deus usou essas crises para amadurecer três defesas que servem à igreja até hoje
Foi justamente a “bíblia” mutilada de Marcião que apressou as listas dos livros que a igreja inteira recebia como apostólicos.
Resumos batismais da fé apostólica que mais tarde desembocariam no Credo Apostólico.
O argumento de Irineu: a fé verdadeira não é segredo de iniciados, é o ensino pregado abertamente nas igrejas apostólicas desde o princípio. Contra a heresia: Bíblia, confissão e transparência.
Fontes primárias
Martírio de Policarpo 9 · c. 156
“Há oitenta e seis anos eu o sirvo, e ele nunca me fez mal algum. Como poderia eu blasfemar do meu Rei, que me salvou?”
Carta a Diogneto 5-6 · séc. II
“Os cristãos não se distinguem dos demais homens nem pela terra, nem pela língua, nem pelos costumes. […] Habitam suas próprias pátrias, mas como estrangeiros; toda terra estrangeira lhes é pátria, e toda pátria lhes é terra estrangeira. […] Estão na carne, mas não vivem segundo a carne. Passam a vida na terra, mas sua cidadania está no céu. […] Em resumo: o que a alma é no corpo, os cristãos são no mundo.”
1 Apologia 67 · c. 150
“No dia chamado dia do sol, reúnem-se num mesmo lugar todos os que moram nas cidades ou nos campos, e leem-se as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas, enquanto o tempo permite. Quando o leitor termina, o que preside exorta e convida, com palavras, à imitação dessas coisas boas. Depois nos levantamos todos juntos e oramos; e, terminadas as orações, traz-se pão, vinho e água, e o que preside eleva orações e ações de graças, e o povo aclama, dizendo: Amém.”
Repare como esse culto de 1.900 anos atrás é reconhecível: leitura da Escritura, pregação, oração, Ceia, e a oferta para os órfãos, as viúvas e os presos, que Justino menciona na sequência. A essência do culto cristão não mudou.
A ponte wesleyana
O metodismo nasceu sob hostilidade. Nas décadas de 1740 e 1750, John e Charles Wesley e seus pregadores enfrentaram multidões enfurecidas, apedrejamento, casas invadidas e campanhas de difamação, muitas vezes com a conivência das autoridades locais.
Wesley conhecia bem os relatos dos mártires antigos e bebia deles a mesma convicção: perseguição não é acidente na vida cristã, é o custo previsto do discipulado, pois “todos os que querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3.12).
Da história para a vida
Centenas de milhões de cristãos vivem hoje em países com perseguição severa. A igreja daquele tempo nos ensina a orar pelos irmãos perseguidos “como se vocês estivessem presos com eles” (Hb 13.3) e a receber o testemunho deles como estímulo.
Os apologistas argumentavam com respeito, mesmo diante de juízes injustos. Numa época de redes sociais e polêmicas rasas, 1Pe 3.15-16 continua sendo o método cristão: preparo sólido, resposta arrazoada, tom manso.
Poucos serão chamados a morrer pela fé, mas todos somos chamados a viver a confissão que os mártires selaram com sangue: Jesus é Senhor, e nenhum césar (dinheiro, carreira, partido, prazer) pode ocupar esse trono.
Fixação
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Avaliação
Dez questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe: errar aqui também ensina.
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Para pensar e conversar
Para aprofundar. Leia 1 Pedro, carta escrita a cristãos sob provação, acompanhando as Notas de John Wesley sobre o Novo Testamento. O Martírio de Policarpo e a Carta a Diogneto são curtos e estão em domínio público.
Na próxima aula: “De Constantino a Niceia: a igreja e o império (313-381)”. A perseguição termina, o imperador se converte, e a igreja enfrenta ao mesmo tempo sua maior bênção aparente e seu maior perigo real.
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. Trechos de fontes históricas traduzidos dos originais em domínio público com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.