História da IgrejaAula 2

Mártires e apologistas: a fé sob perseguição

“Bem-aventurados vocês, quando, por minha causa, os insultarem e os perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vocês.”Mateus 5.11 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: 1Pe 3.13-17; 2Tm 3.10-12; Hb 13.1-3

Para começar

A fé sob perseguição

Por que o Império Romano, que tolerava centenas de religiões, perseguiu justamente os cristãos? Como uma minoria sem exército, sem templos e sem direitos sobreviveu a dois séculos e meio de hostilidade e ainda cresceu?

1

O que Roma via nos cristãos?

Aos olhos romanos, os cristãos eram “ateus” (não tinham imagens de deuses), antissociais e possivelmente subversivos. Sobre essa desconfiança cresceram calúnias terríveis.

2

O que os cristãos respondiam?

Duas frentes de resposta: os mártires responderam com a vida; os apologistas, com argumentos. Esta aula acompanha as duas.

O que esta aula cobre. Da metade do segundo século ao ano 313, quando a Grande Perseguição terminou e o culto cristão ganhou liberdade legal no império. É o período das arenas, das calúnias, dos primeiros defensores intelectuais da fé e das primeiras grandes heresias.

Situando-se na história

Linha do tempo (150-313)

c. 112

Plínio e Trajano

O governador Plínio pergunta ao imperador o que fazer com os cristãos. A resposta de Trajano: não caçar, recusar denúncias anônimas, mas punir os denunciados que não negarem a fé.

c. 156

Martírio de Policarpo

O velho bispo de Esmirna, discípulo de João, é queimado vivo no estádio: “Há oitenta e seis anos eu o sirvo, e ele nunca me fez mal algum”.

c. 150-165

Justino Mártir

O filósofo convertido escreve suas Apologias ao imperador, desmontando as calúnias e descrevendo o culto cristão. Morre decapitado em Roma.

177

Mártires de Lião

Perseguição na Gália; a escrava Blandina esgota os torturadores repetindo: “Sou cristã, e entre nós não se faz nada de mau”.

203

Perpétua e Felicidade

Em Cartago, a jovem nobre e sua serva morrem na arena. O diário de Perpétua no cárcere é um dos primeiros textos cristãos escritos por uma mulher.

249-258

Décio e Valeriano

Primeira perseguição universal e sistemática: todos os habitantes devem sacrificar aos deuses e obter certificado. Cipriano de Cartago é martirizado em 258.

303-311

A Grande Perseguição

Sob Diocleciano e Galério, a última e mais violenta: igrejas demolidas, Escrituras queimadas, clero preso, milhares de mortos.

313

Édito de Milão

Constantino e Licínio dão liberdade de culto aos cristãos. A perseguição oficial termina; a história muda de era (tema da próxima aula).

Parte 1

Por que Roma perseguia

Roma era tolerante com as religiões dos povos conquistados, desde que elas se somassem ao culto oficial e ao culto do imperador. O problema dos cristãos era a exclusividade: confessar que “Jesus é Senhor” (Rm 10.9) significava negar que César fosse senhor.

Os cristãos não queimavam o punhado de incenso diante da imagem do imperador, não frequentavam os templos, não iam aos espetáculos sangrentos. Sobre essa desconfiança cresceram calúnias. Como celebravam a Ceia a portas fechadas, falando em “comer o corpo” e “beber o sangue” do Senhor, foram acusados de canibalismo. Como se chamavam de irmãos e irmãs e se saudavam com beijo santo, foram acusados de incesto. O historiador Tácito resume o sentimento popular ao dizer que eram odiados por seus “crimes abomináveis”.

Convém desfazer um exagero comum: a perseguição não foi contínua nem uniforme. Nos dois primeiros séculos ela foi local e esporádica, dependendo do humor de governadores e multidões. Só a partir de Décio (249) tornou-se política de Estado em todo o império. A Grande Perseguição de Diocleciano (303-311) foi a última e a mais violenta.

Parte 2

Os mártires

A palavra grega “mártir” significa simplesmente testemunha (At 1.8). Ela ganhou o sentido que tem hoje porque, naquele período, dar testemunho de Cristo podia custar a vida.

Policarpo de Esmirna (c. 156)

O velho bispo, discípulo do apóstolo João, foi levado ao estádio e instado a jurar pelo gênio de César e blasfemar de Cristo. Sua resposta está entre as frases mais citadas da história cristã (você a encontrará nas fontes primárias abaixo). Foi queimado vivo diante da multidão.

Blandina de Lião (177)

Escrava, fisicamente frágil, foi torturada por dias e, segundo a carta das igrejas de Lião e Viena, esgotou os torturadores, repetindo apenas: “Sou cristã, e entre nós não se faz nada de mau”. A igreja antiga a lembrou como prova de que a força do martírio não estava na pessoa, mas em Cristo (2Co 12.9).

Perpétua e Felicidade (203)

Perpétua era uma jovem nobre de Cartago, mãe de um bebê; Felicidade, sua serva, deu à luz na prisão dias antes da execução. Ao pai, que implorava que ela negasse a fé, Perpétua respondeu que não podia se chamar por outro nome senão aquilo que era: cristã.

Parte 3

Os apologistas

Enquanto os mártires respondiam com a vida, outra frente respondia com argumentos. Chamamos de apologistas (de “apologia”, defesa) os escritores do segundo século que defenderam a fé perante o império e a cultura da época.

Justino Mártir (c. 100-165)

Filósofo pagão convertido, continuou usando o manto de filósofo e apresentou o cristianismo como a verdadeira filosofia. Dirigiu duas Apologias ao imperador, desmontando as calúnias e descrevendo abertamente o culto cristão, justamente para mostrar que não havia crime algum. Morreu decapitado em Roma, fiel ao nome que carregava.

Irineu de Lião (c. 130-200)

Discípulo de Policarpo (e, portanto, neto espiritual do apóstolo João), escreveu Contra as Heresias para refutar o gnosticismo. Seu argumento central: a fé verdadeira é o ensino pregado abertamente nas igrejas fundadas pelos apóstolos, desde o princípio, não um segredo de iniciados.

Tertuliano de Cartago (c. 160-220)

Advogado de formação e primeiro grande teólogo de língua latina, escreveu o Apologético e cunhou termos que usamos até hoje, entre eles a palavra “Trindade”. Somam-se a ele Atenágoras, Aristides e o autor anônimo da bela Carta a Diogneto.

Os apologistas nos lembram que a fé cristã nunca teve medo de argumentar. Eles praticaram o que Pedro ordenara: “estejam sempre preparados para responder a todo aquele que pedir razão da esperança que há em vocês, fazendo isso com mansidão e temor” (1Pe 3.15-16).

Parte 4

Os inimigos internos e as defesas da igreja

O perigo não vinha só de fora. No segundo século, três movimentos ameaçaram deformar o evangelho por dentro.

Gnosticismo

Ensinava que a matéria é má, que a salvação vem por um conhecimento secreto (gnosis) reservado a iniciados, e que o Deus criador do Antigo Testamento seria um deus inferior.

Marcião (c. 144)

Rejeitou inteiramente o Antigo Testamento e montou uma “bíblia” enxuta só com partes de Lucas e de Paulo.

Montanismo

Alegava novas revelações proféticas que suplantavam a Escritura.

Deus usou essas crises para amadurecer três defesas que servem à igreja até hoje

1

O cânon

Foi justamente a “bíblia” mutilada de Marcião que apressou as listas dos livros que a igreja inteira recebia como apostólicos.

2

A regra de fé

Resumos batismais da fé apostólica que mais tarde desembocariam no Credo Apostólico.

3

A sucessão pública

O argumento de Irineu: a fé verdadeira não é segredo de iniciados, é o ensino pregado abertamente nas igrejas apostólicas desde o princípio. Contra a heresia: Bíblia, confissão e transparência.

Fontes primárias

Vozes da igreja perseguida

A ponte wesleyana

Wesley e a igreja perseguida

O metodismo nasceu sob hostilidade. Nas décadas de 1740 e 1750, John e Charles Wesley e seus pregadores enfrentaram multidões enfurecidas, apedrejamento, casas invadidas e campanhas de difamação, muitas vezes com a conivência das autoridades locais.

Wesley conhecia bem os relatos dos mártires antigos e bebia deles a mesma convicção: perseguição não é acidente na vida cristã, é o custo previsto do discipulado, pois “todos os que querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3.12).

Da história para a vida

Aplicação pastoral

1

A perseguição não é página virada

Centenas de milhões de cristãos vivem hoje em países com perseguição severa. A igreja daquele tempo nos ensina a orar pelos irmãos perseguidos “como se vocês estivessem presos com eles” (Hb 13.3) e a receber o testemunho deles como estímulo.

2

Razão e mansidão, não gritaria

Os apologistas argumentavam com respeito, mesmo diante de juízes injustos. Numa época de redes sociais e polêmicas rasas, 1Pe 3.15-16 continua sendo o método cristão: preparo sólido, resposta arrazoada, tom manso.

3

O teste diário da exclusividade

Poucos serão chamados a morrer pela fé, mas todos somos chamados a viver a confissão que os mártires selaram com sangue: Jesus é Senhor, e nenhum césar (dinheiro, carreira, partido, prazer) pode ocupar esse trono.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o conteúdo. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Dez questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe: errar aqui também ensina.

0 de 10 respondidas

Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Organizações sérias estimam que centenas de milhões de cristãos vivem hoje sob perseguição severa. O que a sua igreja local faz, concretamente, pelos irmãos perseguidos, e o que poderia começar a fazer?Ver resposta sugerida
Hb 13.3 manda lembrar dos presos “como se vocês estivessem presos com eles”, e isso pede mais que um sentimento. Três providências concretas e ao alcance de qualquer igreja: primeira, informação (adotar um país perseguido por trimestre, apresentar sua situação nos cultos); segunda, intercessão nominal e regular, não genérica (orar por igrejas e cristãos específicos, como as cartas antigas de Lião pediam); terceira, generosidade (apoiar ministérios sérios que servem a igreja perseguida). E há um fruto de volta: o testemunho dos perseguidos cura a igreja livre da fé morna. Quem ora por um irmão que arrisca a vida para se reunir dificilmente continua tratando o culto de domingo como opcional.
Um colega diz: “os cristãos de hoje se dizem perseguidos por qualquer crítica nas redes sociais”. Como responder com honestidade e mansidão, à luz desta aula?Ver resposta sugerida
Comece concedendo o que há de verdadeiro: ser criticado, contrariado ou ridicularizado não é martírio, e banalizar a palavra “perseguição” desonra quem morre de verdade pela fé, ontem e hoje. A aula nos deu a régua: Policarpo, Blandina e Perpétua perderam a vida; milhões hoje perdem emprego, liberdade e família em países onde converter-se custa caro. Dito isso, o Novo Testamento também conhece formas não letais de hostilidade: injúria, calúnia, exclusão (Mt 5.11; 1Pe 4.14), e elas são reais em muitos contextos. A resposta madura evita os dois erros: nem vitimismo (chamar de perseguição toda discordância), nem cinismo (negar que a fidelidade custe algo em qualquer século). E o método diante da hostilidade real continua o dos apologistas: preparo, razão e mansidão (1Pe 3.15-16), nunca a gritaria.

Para casa e próxima aula

Para aprofundar. Leia 1 Pedro, carta escrita a cristãos sob provação, acompanhando as Notas de John Wesley sobre o Novo Testamento. O Martírio de Policarpo e a Carta a Diogneto são curtos e estão em domínio público.

Na próxima aula: “De Constantino a Niceia: a igreja e o império (313-381)”. A perseguição termina, o imperador se converte, e a igreja enfrenta ao mesmo tempo sua maior bênção aparente e seu maior perigo real.

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. Trechos de fontes históricas traduzidos dos originais em domínio público com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.