Profecias do Antigo TestamentoAula 2

Isaías 65: novos céus e nova terra

“Pois eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá lembrança das coisas passadas.”Isaías 65.17 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Is 65.17-25; 2Pe 3.8-13; Ap 21.1-5

Para começar

Um texto muito usado, uma pergunta honesta

Isaías 65 é frequentemente usado como argumento em favor do pré-milenismo. Antes de responder, vale ouvir o argumento na sua melhor forma.

1

Uma época de grande paz

O texto fala de um tempo futuro em que Jerusalém será alegria, o choro cessará e o lobo e o cordeiro pastarão juntos (Is 65.18-19, 25).

2

Mas ainda parece haver morte

“Morrer aos cem anos é morrer ainda jovem” (Is 65.20). Se alguém morre, conclui-se, não pode ser o estado eterno.

A conclusão pré-milenista: Isaías não estaria falando do estado eterno, mas de um reino intermediário de mil anos antes da nova criação. O argumento parece forte à primeira vista.

Mas há um problema importante: o próprio Isaías chama essa realidade de “novos céus e nova terra”. É por aí que esta aula começa.

A chave do capítulo

O nome que o próprio Isaías dá

Antes de perguntar o que Isaías 65 descreve, vale perguntar como o próprio profeta chama o que descreve.

“Pois eis que eu crio novos céus e nova terra” (Is 65.17). A mesma expressão aparece novamente em Isaías 66.22.

Quando o Novo Testamento retoma essa promessa, não a coloca em um reino provisório de mil anos.

Primeira objeção

E a morte aos cem anos?

“Porque morrer aos cem anos é morrer ainda jovem” (Is 65.20). É aqui que o pré-milenista costuma perguntar: se alguém morre, como isso pode ser a nova criação?

A resposta está na maneira como os profetas descrevem o futuro. Isaías fala da realidade futura usando imagens compreensíveis aos seus primeiros leitores. Para um povo marcado por guerra, mortalidade infantil, invasões, perda de casas e colheitas, a bênção de Deus é descrita como longa vida, segurança, paz e prosperidade.

O ponto de Isaías 65.20 não é estabelecer a expectativa de vida dos habitantes de um futuro milênio. O contraste é com a morte prematura: “Nunca mais haverá nela criança para viver poucos dias, nem velho que não cumpra os seus dias” (Is 65.20). A ideia é clara: a maldição será revertida. A vida será plena. Cem anos seriam considerados juventude.

Isaías viu

A vitória sobre a morte descrita com a linguagem de extraordinária longevidade.

João mostra o cumprimento pleno

“E a morte já não existirá” (Ap 21.4). A própria morte desaparecerá.

Isso não é contradição. É revelação progressiva.

Segunda objeção

E o lobo com o cordeiro?

“O lobo e o cordeiro pastarão juntos, e o leão comerá palha como o boi” (Is 65.25).

Novamente, o próprio texto explica o sentido principal: “Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte” (Is 65.25). A imagem fala da reversão da violência e da maldição.

Não há necessidade de negar que a nova criação possa incluir uma transformação real do mundo animal. Paulo afirma que “a própria criação será libertada do cativeiro da corrupção” (Rm 8.21). Mas nada nesse texto exige um milênio intermediário. A promessa é de uma criação restaurada, livre da violência e da corrupção.

Como ler profecia

Profecia não é fotografia

Interpretar uma profecia segundo seu gênero não significa negar seu cumprimento real.

“Os montes e as colinas romperão em cânticos diante de vocês, e todas as árvores do campo baterão palmas” (Is 55.12).

Ninguém espera literalmente árvores com mãos. Isso não torna a promessa menos verdadeira.

Da mesma forma, longa vida, casas, vinhas, animais em paz e uma Jerusalém alegre são imagens concretas de um mundo completamente restaurado por Deus. A realidade será maior do que as imagens usadas para descrevê-la.

O outro lado da balança

O problema para o pré-milenismo

Há ainda uma dificuldade que merece atenção.

Isaías descreve essa realidade dizendo: “Não se fará mal nem dano algum” (Is 65.25). Mas, segundo a interpretação pré-milenista de Apocalipse 20, ao final do milênio haverá uma grande rebelião das nações contra Cristo e seu povo (Ap 20.7-9).

A linguagem de Isaías se aproxima muito mais da consumação de Apocalipse 21: “E lhes enxugará dos olhos toda lágrima. E a morte já não existirá. Já não haverá luto, nem pranto, nem dor” (Ap 21.4).

Isaías fala de novos céus e nova terra, ausência de choro e fim da violência. João fala de novo céu e nova terra, ausência de lágrimas e fim da morte. A ligação é evidente.

Síntese

Isaías viu de longe aquilo que João viu com maior clareza

Isaías contemplou a nova criação a partir das categorias do seu próprio mundo.

Isaías viu vida longa. João viu vida sem morte (Ap 21.4).
Isaías viu Jerusalém restaurada. João viu a Nova Jerusalém (Ap 21.2).
Isaías viu paz entre as criaturas. Paulo viu toda a criação libertada da corrupção (Rm 8.21).
Isaías viu novos céus e nova terra. Pedro e João retomaram exatamente essa mesma esperança (2Pe 3.13; Ap 21.1).

Por isso, Isaías 65 não exige um milênio futuro literal. O texto se encaixa muito bem na esperança amilenista: Cristo reina, voltará em glória, os mortos ressuscitarão, o juízo acontecerá e Deus renovará todas as coisas.

A grande questão é simples: se Isaías chama essa realidade de “novos céus e nova terra”, e se Pedro e João usam a mesma expressão para a consumação final, por que transformá-la num reino provisório de mil anos? A leitura mais natural é deixar que o Novo Testamento explique a profecia.

Isaías viu a nova criação de longe. João a descreveu assim: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21.5).

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe. Errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Que diferença faz, para quem está de luto hoje, crer que a promessa final não é apenas uma vida mais longa, mas um mundo em que “a morte já não existirá” (Ap 21.4)?Ver resposta sugerida
Faz toda a diferença pastoral. Se a esperança cristã fosse apenas longevidade, quem perdeu alguém continuaria diante de um adiamento da dor, não de uma vitória sobre ela. A promessa que Isaías viu de longe e João viu de perto é maior: Deus mesmo enxugará as lágrimas, e o último inimigo, a morte, será destruído (1Co 15.26). Por isso o cristão chora, mas não como os que não têm esperança (1Ts 4.13). Ao consolar alguém, não prometa esquecimento nem minimize a perda; aponte para a ressurreição e para a nova criação, onde não haverá luto, nem pranto, nem dor. É consolo com endereço, não otimismo vago.
Um irmão sincero cita Isaías 65.20 para provar que haverá um milênio com morte depois da volta de Cristo. Como conversar com ele sem transformar a mesa de estudo em campo de batalha?Ver resposta sugerida
Comece pelo que os une: ambos creem que Cristo voltará em glória, que os mortos ressuscitarão e que Deus fará novas todas as coisas. Depois, em vez de discutir o versículo isolado, convide-o a ler o capítulo inteiro e a observar o nome que Isaías dá àquela realidade: novos céus e nova terra (Is 65.17). Pergunte então onde o Novo Testamento coloca essa expressão (2Pe 3.13; Ap 21.1) e deixe que ele mesmo tire a conclusão. Se a conversa travar, não force: a questão do milênio é debate de família, não artigo de fé que separa irmãos. Mansidão e paciência convencem mais do que vitória em discussão (2Tm 2.24-25).

Para casa e próxima aula

Para aprofundar. Esta aula nasceu do estudo Isaías 65 ensina um milênio futuro?, do Bispo Ildo Mello, que você pode ler e compartilhar em página própria.

Tarefas

Ler Isaías 65.17-25, 2Pedro 3.8-13 e Apocalipse 21.1-8 (NAA), anotando as expressões que os três textos têm em comum; e escrever, em poucas linhas, a resposta que você daria a alguém que usa Isaías 65.20 para provar um milênio futuro.

Aula 3

Zacarias 14: o Dia do Senhor, o cerco de Jerusalém, o monte que se fende, as águas vivas e a Festa dos Tabernáculos, lidos com os olhos de Jesus e dos Apóstolos. Ir para a Aula 3 →

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA). · Bispo Ildo Mello