Profecias do Antigo TestamentoAula 3

Zacarias 14: o Dia do Senhor

“O Senhor será Rei sobre toda a terra; naquele dia, um só será o Senhor, e um só será o seu nome.”Zacarias 14.9

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Zc 14; Lc 21.20-24; Jo 7.37-39

Para começar

Três princípios antes de abrir o capítulo

Árdua tarefa interpretar corretamente as profecias bíblicas. Há muita controvérsia a respeito. Alguns princípios simples de hermenêutica são indispensáveis.

1

Contexto

Reconhecer o contexto em que as profecias foram proferidas: quem falou, para quem, em que momento da história.

2

A Bíblia interpreta a Bíblia

Levar seriamente em consideração as interpretações que Cristo e seus Apóstolos deram às profecias do Antigo Testamento.

3

Linguagem profética

Levar em conta as características peculiares da linguagem dos profetas: sonhos, visões, figuras e enigmas (Nm 12.6-8; Os 12.10).

Zacarias 14 é um campo de prova para esses três princípios. É um dos capítulos favoritos de quem espera um milênio literal com templo reconstruído e sacrifícios restaurados. Nesta aula, vamos deixar que Jesus e os Apóstolos nos mostrem como lê-lo.

Princípio 1

O contexto de Zacarias

Zacarias é contemporâneo do profeta Ageu. Profetizou entre 520 e 518 a.C., na época da reconstrução do templo.

O templo havia sido destruído em 586 a.C. pelo exército de Nabucodonosor. Tal destruição se deu por conta do juízo de Deus contra a infidelidade do povo judeu à Aliança. O povo voltava agora do exílio babilônico, animado pelas profecias de Jeremias sobre os setenta anos (Dn 9.2) e pela visão das Setenta Semanas dada a Daniel.

A profecia de Zacarias fala do Messias que entraria em Jerusalém, seria ferido e abandonado, e mostra, na sequência, um novo juízo de Deus contra a cidade. Zacarias e Daniel descrevem o mesmo cenário: um texto lança luz sobre o outro. E mais luz ainda teremos ao examinar como Jesus e seus Apóstolos interpretaram tais profecias.

Para aprofundar: a visão das Setenta Semanas tem estudo próprio do Bispo: As Setenta Semanas de Daniel.

Princípio 2

Zacarias lido pelo Novo Testamento

O Novo Testamento cita Zacarias repetidas vezes, e sempre com o mesmo centro: Cristo. Veja o mapa.

Zc 9.9 → Jo 12.15. O Rei humilde entra em Jerusalém montado num jumentinho: o Domingo de Ramos.
Zc 9.11 → 1Co 11.25. O sangue da aliança: “Este cálice é a nova aliança no meu sangue.”
Zc 11.12-13 → Mt 27.9-10. As trinta moedas de prata, arrojadas ao oleiro.
Zc 12.10 → Jo 19.37; Ap 1.7. “Olharão para aquele a quem traspassaram.”
Zc 13.7 → Mc 14.27. “Ferirei o pastor, e as ovelhas ficarão dispersas.”
Zc 14.1-2 → Lc 21.20-24. O Dia do Senhor contra Jerusalém: a cidade cercada e tomada.
Zc 14.8 → Jo 7.38; Ap 22.1. As águas vivas que correm de Jerusalém.
Zc 14.9 → Ap 11.15. “O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo.”
Zc 14.11 → Ap 22.3. “Nunca mais haverá qualquer maldição.”
Zc 14.16 → Ap 21.24-26. As nações que sobem para adorar o Rei.

O cumprimento histórico

Zacarias 14 e a queda de Jerusalém

“Eis que vem o Dia do Senhor… ajuntarei todas as nações para a peleja contra Jerusalém; e a cidade será tomada” (Zc 14.1-2).

O exército do Império Romano, que englobava inúmeras nações, cercou e destruiu a cidade de Jerusalém e o templo em 67-70 d.C., conforme profetizou Zacarias. A angústia e a desolação de Jerusalém foram as maiores de toda a sua história. Veja como Jesus interpretou essa profecia, anunciando seu cumprimento naquela mesma geração:

“Quando virdes Jerusalém sitiada de exércitos, sabei que está próxima a sua devastação… Porque estes dias são de vingança, para se cumprir tudo o que está escrito… Cairão a fio de espada e serão levados cativos para todas as nações; e, até que os tempos dos gentios se completem, Jerusalém será pisada por eles” (Lc 21.20-24).

Jesus é o melhor intérprete da profecia de Zacarias, de Daniel e de todos os demais profetas do Antigo Testamento.

O cuidado de Deus

O livramento e as águas vivas

“Fugireis pelo vale dos meus montes” (Zc 14.5). No juízo contra Jerusalém, Deus promoveu escape para o remanescente fiel que recebeu Jesus como Messias.

Jesus advertiu seus discípulos: “os que estiverem na Judeia fujam para os montes” (Mt 24.16). E eles realmente puderam escapar quando viram os exércitos romanos se aproximando de Jerusalém.

Interpretar Zacarias 14.4-5 como referência à Segunda Vinda de Cristo é complicado, porque não faria sentido que os que são de Deus tivessem que fugir exatamente quando Cristo vem para salvá-los. Quando Jesus retornar, seu povo não terá o que temer. Aquele não será o dia da nossa fuga, mas do nosso encontro com Ele.

As águas vivas. “Correrão de Jerusalém águas vivas, metade delas para o mar oriental, e a outra metade, até ao mar ocidental” (Zc 14.8). Ao fugirem de Jerusalém, os cristãos espalharam as Boas Novas pelo mundo. E foi na Festa dos Tabernáculos, referindo-se a essa esperança, que Jesus convidou: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba… do seu interior fluirão rios de água viva” (Jo 7.37-38), o que João explica como referência ao Espírito Santo (Jo 7.39). O rio chega à sua plenitude na Nova Jerusalém (Ap 22.1).

Princípio 3

O perigo do literalismo

Uma interpretação literal de Zacarias 14 tem levado muitos a concluir que, num reino milenar, o sacerdócio levítico será restaurado, os sacrifícios de animais voltarão e o templo será mais uma vez reconstruído em Jerusalém.

Mas o templo se revestiu de um novo significado no Novo Testamento: tornou-se um tipo de Cristo e de sua Igreja (Ef 2.19-22; 1Co 3.16). No Apocalipse, o termo aparece sempre se referindo ao templo celestial ou ao próprio Deus: “Nela, não vi santuário, porque o seu santuário é o Senhor, o Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro” (Ap 21.22).

Jesus fez um sacrifício eficaz, pleno, uma vez por todas. Não há mais lugar para os cerimoniais e sacrifícios que eram sombras da realidade cumprida em Cristo (Hb 9-10). Falando à mulher samaritana, Jesus anunciou o tempo em que a adoração não estaria mais confinada ao templo de Jerusalém, mas seria realizada em espírito e em verdade (Jo 4.21-23).

Sombra

Templo de pedra, sacerdócio levítico, sacrifícios repetidos, festa celebrada em Jerusalém.

Realidade

Cristo e sua Igreja, o sacrifício único da cruz, a adoração em espírito e em verdade em toda a terra.

O futuro deve ser encarado como a consumação da realidade, e não como um retorno às sombras do passado. Defender a volta dos sacrifícios, ainda que como celebração simbólica, revela descaso para com o sacrifício supremo realizado por Cristo na cruz.

A colheita

A Festa dos Tabernáculos

“Todos os que restarem de todas as nações… subirão de ano em ano para adorar o Rei” (Zc 14.16). Restauração literal da festa judaica? Não: a profecia descreve as bênçãos espirituais futuras em termos próprios da religiosidade e da cultura de Israel.

A Festa dos Tabernáculos é a última das grandes festas de Israel, exatamente aquela que celebra a plenitude da colheita (Êx 23.16; Dt 16.13-15). Um paralelo pode ser traçado: a Páscoa diz respeito à redenção que temos em Cristo; o Pentecostes, aos primeiros frutos do Reino pelo poder do Espírito; e a Festa dos Tabernáculos celebra a plenitude da colheita do Reino de Deus.

A consumação

Rei sobre toda a terra

“O Senhor será Rei sobre toda a terra; naquele dia, um só será o Senhor, e um só será o seu nome” (Zc 14.9).

O Apocalipse responde: “O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos” (Ap 11.15). E a promessa de que “já não haverá maldição” (Zc 14.11) reaparece, palavra por palavra, na visão final: “Nunca mais haverá qualquer maldição. Nela, estará o trono de Deus e do Cordeiro” (Ap 22.3).

Até as coisas mais comuns serão consagradas: as campainhas dos cavalos receberão a inscrição que antes era exclusiva da mitra do sumo sacerdote, “Santidade ao Senhor” (Zc 14.20; Êx 28.36). Tudo santo, tudo consagrado, nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus (Rm 8.1).

Conclusão da aula. Devemos reconhecer o contexto das profecias e as peculiaridades da linguagem profética, e deixar que a Bíblia interprete a própria Bíblia, levando a sério as interpretações que Cristo e seus Apóstolos deram às profecias do Antigo Testamento. Em Cristo e sua Igreja, já nesta era e ainda mais plenamente na Nova Jerusalém, é que se cumprem as profecias sobre a restauração de Jerusalém e do reino de Israel (Rm 4.13; Hb 11.9-10).

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe. Errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Se a adoração não está mais confinada a um templo (Jo 4.21-23), o que isso muda na maneira como você trata o culto, o lar e o próprio corpo como lugares de adoração?Ver resposta sugerida
Muda o centro de gravidade. Se Deus não habita em templos construídos por mãos humanas (At 17.24) e nós somos santuário do Deus vivente (2Co 6.16; 1Co 3.16), então a adoração não é um evento que começa quando entramos num prédio, mas uma vida inteira consagrada. Isso dignifica o culto comunitário (o Corpo reunido é templo do Espírito) e, ao mesmo tempo, santifica o cotidiano: a mesa da família, o trabalho, o descanso. Zacarias viu até as panelas e as campainhas dos cavalos consagradas (Zc 14.20-21). A pergunta prática é: que área da sua semana ainda funciona como se Deus morasse apenas no prédio da igreja?
Como responder, com mansidão, a um irmão que espera a reconstrução do templo e a volta dos sacrifícios no milênio?Ver resposta sugerida
Primeiro, reconheça a intenção boa: ele quer levar a profecia a sério, e isso é louvável. Depois, em vez de começar pelo milênio, comece pela cruz: pergunte o que a carta aos Hebreus diz sobre o sacrifício de Cristo, único, pleno e definitivo (Hb 9.26-28; 10.11-14), e o que sobra para outros sacrifícios depois dele (Hb 10.18). Em seguida, mostre como o Novo Testamento lê o templo: Cristo e sua Igreja (Jo 2.19-21; Ef 2.19-22), até a visão final em que o santuário é o próprio Senhor (Ap 21.22). A conversa deixa de ser sobre esquemas proféticos e passa a ser sobre a suficiência de Cristo, terreno em que irmãos sinceros se encontram. E lembre-se: o tom pesa tanto quanto o argumento (2Tm 2.24-25).

Para ver e rever

A aula em vídeo

Se você preferir ouvir o argumento inteiro de uma vez, esta exposição do Bispo Ildo percorre o mesmo caminho da lição: o contexto, as citações de Zacarias no Novo Testamento e o cumprimento.

Zacarias 14 – Desvendando a profecia · Bispo Ildo Mello

Para casa e próxima aula

Para aprofundar. Esta aula nasceu do estudo A interpretação da Profecia de Zacarias 14, do Bispo Ildo Mello, com o quadro completo das citações de Zacarias no Novo Testamento e a discussão do contexto histórico.

Tarefas

Ler Zacarias 14 inteiro e, ao lado, Lucas 21.20-24 e João 7.37-39, anotando cada eco entre os textos; e escrever, em poucas linhas, por que a fuga de Zacarias 14.5 combina melhor com o ano 70 d.C. do que com a Segunda Vinda.

Aula 4

Daniel 9 e as Setenta Semanas: a oração que abriu a visão, os seis propósitos cumpridos no Ungido, a conta dos 490 anos e a pergunta do parêntese. Ir para a Aula 4 →

Citações bíblicas: Almeida Revista e Atualizada (RA) e Nova Almeida Atualizada (NAA), conforme o estudo original. · Bispo Ildo Mello