SERMÃO 7

O caminho para o Reino

A verdadeira religião — e o caminho do arrependimento e da fé para entrar nela.

Mc 1.15, NAA ⏱ 20 min de leituraSalvação e graçaPecado e arrependimento

“O tempo está cumprido, e o Reino de Deus está próximo; arrependam-se e creiam no evangelho.”

(Mc 1.15, NAA)

Antes de ler

O que significa entrar no Reino de Deus? Seria pertencer a uma igreja, adotar determinadas cerimônias, defender doutrinas corretas ou praticar boas obras? Neste sermão, Wesley mostra que a verdadeira religião é muito mais profunda. Ela começa no coração e se manifesta em justiça, paz e alegria no Espírito Santo.

Wesley também apresenta, com extraordinária clareza, o caminho para esse Reino: reconhecer sinceramente o próprio pecado, abandonar toda confiança na justiça pessoal e crer na boa notícia de que Deus perdoa e transforma o pecador por meio de Jesus Cristo.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

Estas palavras nos levam naturalmente a considerar duas coisas:

I. A natureza da verdadeira religião, chamada por nosso Senhor de “Reino de Deus”, que está próximo.

II. O caminho para esse Reino, indicado nas palavras: “Arrependam-se e creiam no evangelho.”

I. A natureza da verdadeira religião

1. Consideremos, primeiro, a natureza da verdadeira religião, chamada por nosso Senhor de “Reino de Deus”. O apóstolo Paulo usa a mesma expressão na Carta aos Romanos e explica o seu significado:

“Porque o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo.”

(Rm 14.17, NAA)

2. O Reino de Deus, ou a verdadeira religião, “não é comida nem bebida”. Sabemos que não apenas os judeus que não haviam se convertido, mas também muitos dos que haviam recebido a fé em Cristo continuavam sendo “zelosos da lei” (At 21.20), especialmente da lei cerimonial de Moisés.

Tudo o que encontravam nessa lei a respeito de alimentos, bebidas, ofertas ou distinção entre alimentos puros e impuros, eles não apenas praticavam, mas também insistiam para que os gentios convertidos a Deus fizessem o mesmo. Alguns chegaram a ensinar:

“Se vocês não forem circuncidados segundo o costume de Moisés, não podem ser salvos.”

(At 15.1, NAA)

3. Em oposição a isso, o apóstolo declara, aqui e em muitos outros lugares, que a verdadeira religião não consiste em comida, bebida ou qualquer observância ritual. Na verdade, ela não consiste em coisa alguma meramente exterior ao coração. Toda a sua essência está em “justiça, paz e alegria no Espírito Santo”.

4. A verdadeira religião não consiste em formas externas ou cerimônias, ainda que sejam excelentes.

Podemos admitir que certas cerimônias sejam respeitosas, significativas e capazes de expressar realidades interiores. Também podemos admitir que sejam úteis tanto para pessoas simples quanto para pessoas instruídas. Algumas delas, como aconteceu com os judeus, foram instituídas pelo próprio Deus.

Mesmo assim, durante o período em que tais cerimônias estavam em vigor, a verdadeira religião não consistia principalmente nelas. Falando com rigor, não consistia nelas de modo algum.

Isso se aplica ainda mais às cerimônias e formas instituídas pelos seres humanos. A religião de Cristo está infinitamente acima delas e é muito mais profunda. Essas formas são boas quando ocupam o seu devido lugar e servem à verdadeira religião. Seria insensato condená-las quando são usadas como auxílio à fraqueza humana. Contudo, ninguém deve atribuir a elas uma importância maior do que realmente possuem.

Ninguém deve imaginar que tenham valor em si mesmas ou que a religião não possa existir sem elas. Fazer isso seria transformá-las em algo detestável aos olhos do Senhor.

5. A religião verdadeira não consiste em formas de culto, ritos ou cerimônias. Também não consiste propriamente em qualquer ação exterior, seja ela qual for.

É verdade que uma pessoa não pode possuir a verdadeira religião enquanto pratica deliberadamente ações perversas e imorais ou trata os outros de uma maneira como não gostaria de ser tratada.

Também é verdade que não possui religião verdadeira quem sabe que deve fazer o bem e não o faz (Tg 4.17).

Entretanto, uma pessoa pode evitar muitos males, praticar boas obras e, ainda assim, não possuir a verdadeira religião. Duas pessoas podem realizar exatamente a mesma ação, como alimentar alguém que tem fome ou vestir alguém que não tem roupas, e somente uma delas agir movida pela verdadeira fé.

Uma pode agir por amor a Deus; a outra, pelo desejo de receber elogios.

Assim, embora a verdadeira religião naturalmente produza boas palavras e boas obras, sua essência está em algo mais profundo: no ser interior do coração.

6. Digo que ela está no coração porque a religião também não consiste simplesmente em ortodoxia ou em opiniões corretas. As opiniões não são propriamente coisas exteriores, mas pertencem ao entendimento, e não necessariamente ao coração.

Uma pessoa pode ser ortodoxa em todos os pontos. Pode não apenas aceitar doutrinas corretas, mas defendê-las com grande entusiasmo contra todos os que se opõem a elas.

Pode pensar corretamente sobre a encarnação de nosso Senhor, sobre a bendita Trindade e sobre todas as demais doutrinas reveladas nas Escrituras. Pode aceitar o Credo Apostólico, o Credo Niceno e o Credo de Atanásio e, mesmo assim, não possuir a verdadeira religião.

Pode ser quase tão ortodoxa quanto o próprio diabo. Na verdade, o diabo talvez seja ainda mais exato em suas opiniões, pois todo ser humano comete algum erro. Ainda assim, essa pessoa pode permanecer tão distante quanto ele da religião do coração.

7. Somente esta é a religião verdadeira. Somente ela possui grande valor diante de Deus. O apóstolo a resume em três elementos: “justiça, paz e alegria no Espírito Santo”.

Primeiro, a justiça.

Não precisamos ter dúvida sobre o que isso significa, pois nosso Senhor descreveu os dois grandes aspectos da justiça cristã, dos quais dependem toda a Lei e os Profetas:

“Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e com toda a sua força.”

(Mc 12.30, NAA)

Este é o primeiro e maior aspecto da justiça cristã.

Você encontrará sua alegria no Senhor, seu Deus. Buscará e encontrará nele toda a sua felicidade. Ele será o seu escudo e a sua grande recompensa, nesta vida e na eternidade.

Todo o seu ser dirá:

“Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra.”

(Sl 73.25, NAA)

Você ouvirá e obedecerá à palavra que diz: “Meu filho, dê-me o seu coração” (Pv 23.26).

Depois de entregar a Deus o seu coração, o centro mais profundo de sua vida, para que ele reine ali sem rival, você poderá declarar com toda a sinceridade:

“Eu te amo, ó Senhor, força minha. O Senhor é a minha rocha, a minha fortaleza e o meu libertador.”

(Sl 18.1–2, NAA)

8. O segundo mandamento é semelhante ao primeiro. O segundo grande aspecto da justiça cristã está inseparavelmente ligado ao primeiro:

“Ame o seu próximo como você ama a si mesmo.”

(Mc 12.31, NAA)

Você deve amar o seu próximo com sincera bondade, profundo afeto e intenso desejo de afastar dele todo mal e proporcionar-lhe todo bem possível.

Quem é o seu próximo?

Não apenas o seu amigo, parente ou conhecido. Não apenas a pessoa bondosa, agradável ou que retribui o seu amor. Seu próximo é todo ser humano, toda criatura humana, toda pessoa que Deus criou.

Isso inclui alguém que você nunca viu e cujo rosto ou nome desconhece. Inclui até mesmo a pessoa que você sabe ser má e ingrata, que o maltrata e persegue.

Você deve amá-la como ama a si mesmo, desejando sinceramente a sua felicidade e procurando protegê-la de tudo o que possa prejudicar sua alma ou seu corpo.

9. Esse amor não é o cumprimento da lei e o resumo de toda a justiça cristã?

Ele resume toda a justiça interior, pois inclui misericórdia, humildade, bondade, mansidão e paciência. O amor “não se ensoberbece”, “não se irrita”, mas “tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Co 13.4–7).

Também resume toda a justiça exterior, pois:

“O amor não pratica o mal contra o próximo.”

(Rm 13.10, NAA)

O amor não deseja ferir nem entristecer pessoa alguma. Ao contrário, dedica-se à prática das boas obras. Aquele que ama a humanidade, sempre que tem oportunidade, faz o bem a todos, sem parcialidade nem hipocrisia, sendo cheio de misericórdia e de bons frutos.

10. A verdadeira religião, ou um coração correto diante de Deus e das pessoas, inclui tanto felicidade quanto santidade.

Ela não é apenas justiça, mas também “paz e alegria no Espírito Santo”.

Que paz é essa?

É a paz de Deus, que somente Deus pode dar e que o mundo não pode tirar. É a paz “que excede todo entendimento” (Fp 4.7), estando acima de toda compreensão meramente racional.

Trata-se de uma experiência sobrenatural, uma antecipação dos poderes do mundo que há de vir. A pessoa natural, por mais sábia que seja nas coisas deste mundo, não conhece essa paz e não pode conhecê-la enquanto permanecer em seu estado natural, porque ela é discernida espiritualmente.

Essa paz expulsa a dúvida e a dolorosa incerteza. O Espírito de Deus testemunha ao espírito do cristão que ele é filho de Deus.

Ela também expulsa todo medo atormentador: o medo da ira de Deus, do inferno, do diabo e, especialmente, da morte. Aquele que possui a paz de Deus pode até desejar, se essa for a vontade do Senhor, “partir e estar com Cristo” (Fp 1.23).

11. Onde essa paz de Deus se estabelece no coração, ali também existe “alegria no Espírito Santo”, uma alegria produzida pelo bendito Espírito de Deus.

É o Espírito Santo quem produz em nós uma alegria tranquila e humilde em Deus, por meio de Jesus Cristo, por quem recebemos a reconciliação com Deus.

Ele nos capacita a confirmar as palavras do salmista:

“Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada, cujo pecado é coberto.”

(Sl 32.1, NAA)

É o Espírito quem inspira no coração cristão uma alegria firme e constante, que nasce do testemunho de que somos filhos de Deus. Ele nos faz exultar com alegria indescritível, na esperança da glória de Deus.

Esperamos tanto a plena restauração da imagem gloriosa de Deus em nós quanto a coroa de glória que não perde o seu brilho e está reservada nos céus.

12. Essa santidade e essa felicidade, unidas, são chamadas nas Escrituras de “Reino de Deus” e, em outros lugares, de “Reino dos Céus”.

É chamado Reino de Deus porque resulta diretamente do reinado de Deus no coração.

Assim que Deus manifesta o seu poder e estabelece o seu trono em nós, nosso coração é preenchido com “justiça, paz e alegria no Espírito Santo”.

É chamado Reino dos Céus porque, em certa medida, é o céu aberto dentro da alma. Aqueles que experimentam essa realidade podem declarar diante dos anjos e dos seres humanos:

A vida eterna já começou; a glória, na terra, despontou.

Esse é o ensino constante das Escrituras:

“Deus nos deu a vida eterna, e esta vida está no seu Filho. Quem tem o Filho tem a vida.”

(1Jo 5.11–12, NAA)

E ainda:

“E a vida eterna é esta: que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.”

(Jo 17.3, NAA)

Aqueles que receberam essa vida podem dirigir-se a Deus com confiança, mesmo que estejam no meio de uma fornalha ardente:

Senhor, protegidos pelo teu poder, adoramos a ti, Filho de Deus, que assumiste a forma humana. A ti sejam dados louvores eternos. Oferecemos na terra o louvor do céu, pois onde a tua presença se manifesta, ali está o céu.

13. Esse Reino de Deus, ou Reino dos Céus, “está próximo”.

Quando essas palavras foram pronunciadas pela primeira vez, significavam que o tempo havia se cumprido. Deus havia se manifestado em carne e começaria a estabelecer o seu Reino entre os seres humanos, reinando no coração do seu povo.

E o tempo não continua cumprido agora?

Jesus disse:

“E eis que estou com vocês todos os dias até o fim dos tempos.”

(Mt 28.20, NAA)

Onde quer que o evangelho de Cristo seja anunciado, seu Reino está próximo. Ele não está longe de nenhum de vocês.

Você pode entrar nele ainda hoje, se ouvir a voz de Cristo:

“Arrependam-se e creiam no evangelho.”

(Mc 1.15, NAA)

II. O caminho para o Reino

1. Este é o caminho. Andem nele.

Primeiro: “Arrependam-se”, isto é, reconheçam a verdadeira condição de vocês.

Esse é o primeiro arrependimento, anterior à fé: a convicção do pecado e o conhecimento de si mesmo.

Desperte, você que está dormindo! Reconheça que é pecador e compreenda que tipo de pecador você é.

Reconheça a corrupção existente no mais profundo de sua natureza, pela qual você se afastou muito da justiça original. Reconheça que “a carne luta contra o Espírito” (Gl 5.17) e que a inclinação da natureza humana caída é inimiga de Deus e não se submete à sua lei (Rm 8.7).

Reconheça que o pecado atingiu todas as capacidades de sua alma e desorganizou seus fundamentos.

Os olhos do seu entendimento estão obscurecidos e não conseguem discernir a Deus nem as coisas de Deus. Nuvens de ignorância e erro repousam sobre você e o cobrem com a sombra da morte.

Você ainda não conhece como deveria conhecer nem a Deus, nem o mundo, nem a si mesmo.

Sua vontade deixou de estar de acordo com a vontade de Deus. Tornou-se pervertida e desordenada, resistente ao bem e inclinada ao mal.

Seus afetos se afastaram de Deus e se espalharam pelas coisas deste mundo. Seus desejos e aversões, suas alegrias e tristezas, suas esperanças e seus medos estão desordenados. Ou possuem uma intensidade inadequada ou estão dirigidos para objetos errados.

Assim, não existe saúde em sua alma. Usando a forte expressão do profeta, da cabeça aos pés só existem “feridas, contusões e chagas abertas” (Is 1.6).

2. Essa é a corrupção que habita no coração e no mais profundo da natureza humana. Que tipo de ramos podemos esperar que cresçam de uma raiz tão má?

Dela nasce a incredulidade, que constantemente se afasta do Deus vivo e pergunta: “Quem é o Senhor, para que eu o sirva?” (Êx 5.2). É como se a pessoa dissesse: “Deus não se importa com isso.”

Dela nasce o desejo de independência, pelo qual o ser humano procura ser semelhante ao Altíssimo.

Dela nasce o orgulho em todas as suas formas, levando a pessoa a dizer:

“Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma.”

(Ap 3.17, NAA)

Dessa fonte contaminada correm as águas amargas da vaidade, do desejo de receber elogios, da ambição, da avareza, dos desejos da carne, dos desejos dos olhos e da soberba da vida.

Dela também surgem a ira, o ódio, a maldade, a vingança, a inveja, o ciúme e as suspeitas maliciosas.

Dela procedem todos os desejos insensatos e prejudiciais que agora causam muitos sofrimentos e que, se não forem interrompidos, conduzirão a alma à perdição.

3. Que frutos podem crescer em ramos como esses? Somente frutos continuamente amargos e maus.

Do orgulho vêm as discussões, a arrogância, a busca pelo elogio das pessoas e o roubo da glória que pertence somente a Deus.

Dos desejos desordenados da carne vêm a gula, a embriaguez, a sensualidade, a imoralidade sexual e toda forma de impureza. Dessa maneira, o corpo, que deveria ser templo do Espírito Santo, é profanado.

Da incredulidade procedem todas as palavras e obras más.

Faltaria tempo para enumerar todas as palavras inúteis que você pronunciou, provocando o Altíssimo e entristecendo o Santo de Israel. Também não seria possível contar todas as obras más que praticou, quer fossem inteiramente más, quer fossem realizadas sem a intenção de glorificar a Deus.

Seus pecados são mais numerosos do que você consegue expressar, mais numerosos do que os cabelos de sua cabeça.

Quem pode contar os grãos de areia do mar, as gotas da chuva ou todas as suas iniquidades?

4. Você não sabe que “o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23)?

Não apenas a morte física, mas também a morte eterna.

“A pessoa que pecar, essa morrerá.”

(Ez 18.20, NAA)

A boca do Senhor falou. Ela sofrerá a segunda morte.

Essa é a sentença: sofrer uma morte sem fim, “eterna perdição, longe da presença do Senhor e da glória do seu poder” (2Ts 1.9).

Você não sabe que todo pecador já está sob a sentença do fogo do juízo? Não está apenas correndo o risco de ser condenado, mas permanece condenado enquanto continua no pecado.

Você é culpado e merece a morte eterna. Essa é a justa consequência da maldade interior e exterior.

É justo que essa sentença seja executada.

Você consegue enxergar e sentir isso? Está plenamente convencido de que merece a ira de Deus e a condenação?

Deus não cometeria injustiça se a terra se abrisse agora e o engolisse ou se você descesse imediatamente ao lugar de condenação.

Quando Deus concede o verdadeiro arrependimento, a pessoa reconhece profundamente essas coisas e compreende que somente pela misericórdia divina ainda não foi consumida nem retirada da face da terra.

5. O que você poderá fazer para afastar a ira de Deus, reparar todos os seus pecados e escapar da punição que merece?

Infelizmente, você nada pode fazer.

Não existe obra, palavra ou pensamento seu capaz de reparar diante de Deus nem sequer uma de suas transgressões.

Mesmo que, a partir deste momento e até o fim de sua vida, você praticasse tudo perfeitamente e oferecesse uma obediência completa e ininterrupta, isso não repararia os pecados do passado.

Deixar de aumentar uma dívida não significa pagá-la. A dívida continuaria existindo.

Nem mesmo a obediência presente e futura de todos os seres humanos da terra e de todos os anjos do céu poderia satisfazer a justiça de Deus por um único pecado.

Como é inútil, portanto, imaginar que você possa reparar seus pecados por alguma coisa que faça!

O preço da redenção de uma única vida é muito maior do que toda a humanidade poderia pagar. Se não existisse outro socorro para o pecador culpado, ele certamente pereceria.

6. Suponhamos, porém, que uma obediência perfeita no futuro pudesse reparar os pecados do passado. Ainda assim, isso não ajudaria você, pois você não é capaz de oferecer essa obediência perfeita.

Comece agora e faça a experiência. Tente abandonar, por suas próprias forças, aquele pecado exterior que tão facilmente o envolve. Você descobrirá que não consegue.

Como, então, transformará toda a sua vida, deixando completamente o mal e praticando somente o bem?

Isso é impossível enquanto o coração não for transformado. Enquanto a árvore continuar má, não poderá produzir bons frutos.

Você é capaz de transformar o próprio coração, passando de todo pecado para toda santidade? É capaz de dar vida a uma alma morta no pecado, morta para Deus e viva somente para o mundo?

Você não é mais capaz de fazer isso do que seria capaz de devolver a vida a um corpo morto e levantar alguém que está no túmulo.

Você não consegue produzir nem mesmo o menor grau de vida espiritual em sua alma, assim como não consegue dar vida a um cadáver.

Nessa questão, você nada pode fazer por si mesmo. Está completamente sem forças.

Reconhecer profundamente o quanto você está desamparado, culpado e contaminado pelo pecado é aquele “arrependimento que não traz pesar” (2Co 7.10) e que precede o Reino de Deus.

7. A essa viva convicção dos pecados interiores e exteriores, da culpa e da incapacidade, devem corresponder sentimentos adequados:

Tristeza por ter desprezado as misericórdias de Deus; remorso e condenação de si mesmo, sem apresentar desculpas; vergonha de levantar os olhos ao céu; temor da ira de Deus que permanece sobre o pecado; temor da sentença que paira sobre a cabeça do pecador; e temor do juízo contra aqueles que se esquecem de Deus e não obedecem ao Senhor Jesus Cristo.

Também deve existir um intenso desejo de escapar dessa condenação, abandonar o mal e aprender a fazer o bem.

Se isso está acontecendo com você, eu lhe digo, em nome do Senhor:

“Você não está longe do Reino de Deus.”

(Mc 12.34, NAA)

Falta apenas um passo para entrar.

Você já se arrepende. Agora, creia no evangelho.

8. A palavra evangelho significa boas-novas, notícias de alegria para pecadores culpados e incapazes de salvar a si mesmos.

Em seu sentido mais amplo, evangelho é toda a revelação que Jesus Cristo trouxe à humanidade. Às vezes, refere-se também ao relato de tudo o que nosso Senhor fez e sofreu enquanto viveu entre nós.

A essência de tudo é esta:

“Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores.”

(1Tm 1.15, NAA)

Ou:

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”

(Jo 3.16, NAA)

Ou ainda:

“Ele foi traspassado por causa das nossas transgressões e esmagado por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos sarados.”

(Is 53.5, NAA)

9. Creia nisso, e o Reino de Deus será seu. Pela fé, você recebe a promessa.

Deus perdoa e absolve todos os que verdadeiramente se arrependem e sinceramente creem em seu santo evangelho.

Assim que Deus disser ao seu coração: “Tenha bom ânimo; os seus pecados estão perdoados” (Mt 9.2), o Reino chegará até você.

Então você possuirá “justiça, paz e alegria no Espírito Santo”.

10. Tome cuidado para não se enganar a respeito da natureza dessa fé.

Ela não é, como alguns imaginam, o simples reconhecimento de que a Bíblia é verdadeira. Também não é somente aceitar os artigos da fé cristã ou concordar com tudo o que está escrito no Antigo e no Novo Testamento.

Os demônios creem nessas verdades tanto quanto você e eu. Ainda assim, continuam sendo demônios.

A fé salvadora é mais do que isso. Ela é uma confiança firme na misericórdia de Deus por meio de Jesus Cristo. É confiança no Deus que perdoa.

É uma certeza concedida por Deus de que ele estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não levando em conta as transgressões das pessoas (2Co 5.19).

Em particular, é a convicção de que:

O Filho de Deus me amou e se entregou por mim; e eu, até mesmo eu, fui reconciliado com Deus pelo sangue da cruz.

11. Você crê dessa maneira?

Então a paz de Deus está em seu coração, e a tristeza e os gemidos começam a desaparecer. Você já não permanece em dolorosa dúvida a respeito do amor de Deus. Esse amor se torna claro como o sol ao meio-dia.

Você declara:

Cantarei para sempre as misericórdias do Senhor; com a minha boca anunciarei a sua fidelidade de geração em geração.

(Sl 89.1)

Você já não vive atormentado pelo medo do inferno, da morte ou daquele que possuía o poder da morte, isto é, o diabo.

Também não possui um medo atormentador do próprio Deus. Em seu lugar, existe um temor filial, amoroso e cuidadoso de ofendê-lo.

Você crê?

Então a sua alma engrandece ao Senhor, e o seu espírito se alegra em Deus, seu Salvador (Lc 1.46–47).

Você se alegra porque possui redenção e perdão dos pecados. Alegra-se no Espírito de adoção, que clama em seu coração: “Aba, Pai!” (Rm 8.15).

Alegra-se em uma esperança cheia de imortalidade, prosseguindo para o alvo, a fim de alcançar o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus (Fp 3.14).

Você vive na sincera expectativa de todas as coisas boas que Deus preparou para aqueles que o amam.

12. Você crê agora?

Então “o amor de Deus é derramado em seu coração pelo Espírito Santo” (Rm 5.5).

Você ama a Deus porque ele o amou primeiro. E, porque ama a Deus, também ama o seu irmão.

Cheio de amor, paz e alegria, você também é preenchido com paciência, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio e todos os demais frutos do mesmo Espírito.

Em resumo, você recebe todas as disposições santas, celestiais e divinas.

Enquanto contempla, com o rosto descoberto, a glória do Senhor, isto é, seu glorioso amor e a imagem gloriosa na qual você foi criado, você é transformado nessa mesma imagem, de glória em glória, pelo Espírito do Senhor (2Co 3.18).

13. Esse arrependimento, essa fé, essa paz, essa alegria, esse amor e essa transformação de glória em glória são considerados loucura pela sabedoria deste mundo.

Alguns os chamam de fanatismo, entusiasmo religioso ou completo desequilíbrio.

Você, porém, homem ou mulher de Deus, não dê atenção a essas acusações. Não permita que elas o afastem da fé.

Você sabe em quem tem crido (2Tm 1.12). Não permita que ninguém tome a sua coroa. Conserve aquilo que já alcançou e continue avançando até receber todas as grandes e preciosas promessas de Deus.

E você que ainda não conhece o Senhor, não permita que pessoas vazias façam com que se envergonhe do evangelho de Cristo.

Não tenha medo daqueles que falam mal de coisas que não compreendem. Em breve, Deus transformará a sua tristeza em alegria.

Não deixe que suas mãos se enfraqueçam! Espere mais um pouco, e ele removerá os seus temores e lhe dará espírito de poder, amor e moderação.

Está próximo aquele que justifica.

“Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós.”

(Rm 8.34, NAA)

Lance-se agora sobre o Cordeiro de Deus, levando consigo todos os seus pecados, por mais numerosos que sejam.

E assim lhe será amplamente concedida a entrada no Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (2Pe 1.11).

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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