SERMÃO 9
O espírito de escravidão e o Espírito de adoção
Três estados da alma: o homem natural, o despertado e o filho de Deus.
“Porque vocês não receberam um espírito de escravidão, para viverem outra vez com medo, mas receberam o Espírito de adoção, por meio do qual clamamos: ‘Aba, Pai!’”
(Rm 8.15, NAA)Antes de ler
Qual é a diferença entre uma pessoa espiritualmente adormecida, alguém que despertou para a gravidade do pecado e aquele que recebeu a certeza de ser filho de Deus?
Neste sermão, Wesley descreve três estados espirituais. O primeiro é o estado natural, marcado pela indiferença diante de Deus e por uma falsa sensação de segurança. O segundo é o estado de quem está “debaixo da lei”: a pessoa despertou, reconhece sua culpa, luta contra o pecado, mas ainda vive dominada pelo medo e pela impotência. O terceiro é o estado de quem está “debaixo da graça”: recebeu o perdão, o poder do Espírito Santo e o testemunho interior de que é filho de Deus.
Wesley não apresenta essas etapas como simples classificações teóricas. Seu propósito é levar cada leitor a examinar sinceramente a própria vida: estou adormecido no pecado, lutando sem vitória ou vivendo pela fé como filho amado de Deus?
— Bispo Ildo Mello
1. Paulo está falando aqui àqueles que são filhos de Deus pela fé. Vocês, diz ele, que verdadeiramente são filhos de Deus, receberam o seu Espírito. Vocês não receberam novamente um espírito de escravidão para viverem com medo. Pelo contrário:
“E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho ao nosso coração.”
(Gl 4.6, NAA)
Vocês receberam o Espírito de adoção, por meio do qual clamamos: “Aba, Pai!”
2. O espírito de escravidão e medo está muito distante desse amoroso Espírito de adoção.
Aqueles que são movidos somente pelo medo servil não podem ser chamados propriamente de filhos de Deus. Alguns deles, porém, podem ser chamados de servos de Deus e não estão longe do Reino dos Céus.
3. Devemos temer que a maior parte da humanidade — inclusive grande parte do chamado mundo cristão — ainda não tenha chegado nem mesmo a esse ponto.
Essas pessoas continuam longe de Deus, e ele não ocupa seus pensamentos.
Encontramos alguns poucos que amam a Deus e um número um pouco maior de pessoas que o temem. A maioria, porém, não possui nem o temor de Deus diante dos olhos nem o amor de Deus no coração.
4. Talvez muitos de vocês que, pela misericórdia de Deus, agora participam de um espírito melhor se lembrem do tempo em que eram como essas pessoas e estavam debaixo da mesma condenação.
No início, vocês não sabiam disso, embora vivessem diariamente mergulhados em seus pecados. Até que, no tempo determinado, receberam o espírito de temor — e até mesmo isso foi um dom de Deus. Depois, o medo desapareceu e o Espírito de amor encheu o coração de vocês.
5. A pessoa que se encontra no primeiro estado, sem o temor e sem o amor de Deus, é chamada nas Escrituras de “pessoa natural”.
Aquela que está debaixo do espírito de escravidão e medo é, algumas vezes, descrita como estando “debaixo da lei”. Essa expressão, porém, também pode indicar alguém que vive sob a antiga dispensação judaica ou que se considera obrigado a cumprir todos os seus ritos e cerimônias.
Aquele que trocou o espírito de medo pelo Espírito de amor é propriamente descrito como alguém que está “debaixo da graça”.
Como é extremamente importante sabermos que espírito governa nossa vida, procurarei explicar claramente:
I. O estado da pessoa natural.
II. O estado de quem está debaixo da lei.
III. O estado de quem está debaixo da graça.
I. O estado da pessoa natural
1. As Escrituras descrevem o estado da pessoa natural como um estado de sono. A voz de Deus lhe diz:
“Desperte, você que está dormindo, levante-se dentre os mortos, e Cristo o iluminará.”
(Ef 5.14, NAA)
Sua alma está mergulhada em sono profundo. Seus sentidos espirituais não despertaram e não conseguem discernir o bem e o mal espirituais.
Os olhos de seu entendimento estão fechados. Nuvens e escuridão permanecem sobre eles, pois essa pessoa vive no vale da sombra da morte.
Como todas as entradas para o conhecimento das coisas espirituais estão fechadas, ela permanece em profunda ignorância justamente daquilo que mais precisa conhecer.
É completamente ignorante a respeito de Deus, pois não o conhece como deveria. Também desconhece o verdadeiro significado interior e espiritual da lei de Deus.
Não compreende a santidade anunciada pelo evangelho, sem a qual ninguém verá o Senhor, nem conhece a felicidade daqueles cuja vida está escondida com Cristo em Deus.
2. Exatamente porque está profundamente adormecida, essa pessoa desfruta de certa tranquilidade. Porque está cega, sente-se segura.
Ela diz consigo mesma: “Nada de ruim acontecerá comigo.”
A escuridão que a envolve produz uma espécie de paz, até onde pode existir paz junto com as obras do diabo e uma mente terrena e pecaminosa.
Ela não percebe que está à beira de um abismo e, por isso, não teme cair. Não pode tremer diante de um perigo que desconhece. Falta-lhe entendimento até mesmo para sentir medo.
Por que não teme a Deus? Porque não o conhece.
Talvez não diga expressamente em seu coração: “Deus não existe.” Talvez também não afirme que Deus permanece distante e não observa aquilo que acontece na terra.
Mesmo assim, satisfaz-se em dizer simplesmente: “Deus é misericordioso.”
Nessa ideia vaga e distorcida de misericórdia, elimina a santidade de Deus, seu ódio ao pecado, sua justiça, sua sabedoria e sua verdade.
3. Essa pessoa não teme o juízo anunciado contra os que desobedecem à santa lei de Deus porque não compreende essa lei.
Imagina que o principal é manter uma aparência correta e viver exteriormente de maneira respeitável. Não percebe que a lei de Deus alcança cada disposição, desejo, pensamento e movimento do coração.
Talvez imagine que essa obrigação terminou e que Cristo veio destruir a Lei e os Profetas, salvar seu povo enquanto continua no pecado e conduzi-lo ao céu sem santidade.
Isso contradiz as palavras do próprio Jesus:
“Até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra.”
(Mt 5.18, NAA)
E também:
“Nem todo o que me diz: ‘Senhor, Senhor!’ entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.”
(Mt 7.21, NAA)
4. A pessoa natural sente-se segura porque também desconhece a si mesma.
Por isso, fala em “arrepender-se mais tarde”. Não sabe exatamente quando, mas imagina que fará isso em algum momento antes de morrer.
Considera evidente que o arrependimento está inteiramente sob seu controle. Pensa: “O que poderia me impedir? Quando eu realmente decidir, certamente conseguirei.”
5. Essa ignorância raramente se manifesta com tanta força como naqueles que são considerados pessoas instruídas.
Quando a pessoa natural possui formação acadêmica, pode falar longamente sobre suas capacidades racionais, sobre a liberdade da vontade e sobre a necessidade absoluta dessa liberdade para que o ser humano seja considerado um agente moral.
Ela lê, argumenta e pensa demonstrar que qualquer pessoa pode fazer tudo o que desejar e dirigir o próprio coração para o bem ou para o mal, conforme escolher.
Dessa maneira, o deus deste mundo coloca um véu duplo de cegueira sobre seu coração, para que a luz do evangelho da glória de Cristo não brilhe sobre ele.
6. Da mesma ignorância a respeito de Deus e de si mesma pode nascer uma espécie de alegria.
A pessoa natural felicita a si mesma por sua suposta sabedoria e bondade. Também pode desfrutar daquilo que o mundo chama de felicidade.
Pode encontrar prazer na satisfação dos desejos da carne, dos desejos dos olhos e da soberba da vida.
Se possui muitos bens e vive em abundância, pode vestir-se luxuosamente e banquetear-se todos os dias. Enquanto estiver agradando a si mesma, as pessoas provavelmente falarão bem dela.
Dirão: “Essa é uma pessoa feliz.”
Para o mundo, a felicidade se resume a vestir-se, visitar pessoas, conversar, comer, beber e divertir-se.
7. Não é surpreendente que alguém nessas condições, entorpecido pela bajulação e pelo pecado, imagine que desfruta de grande liberdade.
Facilmente se convence de que está livre dos erros populares e dos preconceitos recebidos durante a educação. Imagina possuir um julgamento equilibrado e evitar todos os extremos.
Talvez diga:
“Estou livre do fanatismo das pessoas fracas e de mente estreita. Estou livre da superstição, essa doença de pessoas ignorantes e medrosas que exageram na religião. Estou livre da intolerância das pessoas que não possuem uma mente aberta e generosa.”
É verdade que está inteiramente livre da sabedoria que vem do alto, da santidade, da religião do coração e da mente que houve em Cristo.
8. Durante todo esse tempo, ela é serva do pecado.
Pratica pecados, em maior ou menor quantidade, todos os dias. Contudo, isso não a incomoda. Ela não sente escravidão nem condenação.
Mesmo que afirme crer que a revelação cristã vem de Deus, contenta-se em dizer:
“O ser humano é frágil. Todos somos fracos. Cada pessoa possui suas limitações.”
Talvez até cite as Escrituras de forma inadequada: “Afinal, não está escrito que o justo cai sete vezes por dia?”
Depois, conclui: “Certamente são hipócritas ou fanáticos aqueles que afirmam viver de maneira diferente das outras pessoas.”
Se algum pensamento sério surgir em sua mente, procura sufocá-lo imediatamente, dizendo: “Por que devo sentir medo? Deus é misericordioso, e Cristo morreu pelos pecadores.”
Assim, continua sendo serva voluntária do pecado, satisfeita com a escravidão da corrupção. É impura por dentro e por fora e não se incomoda com isso.
Não apenas deixa de vencer o pecado, mas sequer luta contra ele, especialmente contra aquele pecado que constantemente a envolve.
9. Esse é o estado de toda pessoa natural, seja ela uma transgressora pública e escandalosa, seja uma pecadora respeitável e socialmente correta, possuindo a forma da piedade, mas negando seu poder.
Como essa pessoa pode ser convencida do pecado? Como é conduzida ao arrependimento? Como passa a estar debaixo da lei e recebe o espírito de escravidão para temer?
É isso que consideraremos agora.
II. O estado de quem está debaixo da lei
1. Por meio de alguma providência assustadora ou de sua Palavra aplicada com a demonstração do Espírito, Deus toca o coração daquele que dormia nas trevas e na sombra da morte.
A pessoa é profundamente sacudida e desperta, percebendo o perigo em que se encontra.
Talvez isso aconteça em um instante; talvez gradualmente. Os olhos de seu entendimento começam a ser abertos e, com o véu parcialmente retirado, ela finalmente percebe sua verdadeira condição.
Uma luz terrível entra em sua alma. Ela descobre que o Deus amoroso e misericordioso também é “fogo consumidor” (Hb 12.29).
Compreende que Deus é justo, que retribui a cada pessoa segundo suas obras e que julgará não apenas os atos exteriores, mas também as palavras inúteis e as intenções do coração.
Percebe claramente que o Deus santo possui olhos puros demais para contemplar o mal com aprovação. Ele julga aqueles que se rebelam contra sua vontade, e é coisa terrível cair nas mãos do Deus vivo.
2. O significado interior e espiritual da lei de Deus começa a brilhar diante dela.
Percebe que o mandamento é extremamente amplo e que nada permanece escondido de sua luz.
Compreende que a lei não trata apenas dos pecados e da obediência exteriores, mas de tudo o que acontece nas regiões mais secretas da alma, onde somente os olhos de Deus conseguem penetrar.
Quando ouve: “Não mate”, escuta Deus declarar:
“Todo aquele que odeia o seu irmão é assassino.”
(1Jo 3.15, NAA)
E:
“Quem chamar o seu irmão de ‘tolo’ estará sujeito ao inferno de fogo.”
(Mt 5.22, NAA)
Quando a lei diz: “Não cometa adultério”, a voz do Senhor soa em seus ouvidos:
“Todo aquele que olhar para uma mulher com intenção impura já cometeu adultério com ela no coração.”
(Mt 5.28, NAA)
Em cada ponto, sente que a Palavra de Deus é viva, eficaz e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, penetrando profundamente em sua alma.
Essa convicção se torna ainda mais dolorosa porque reconhece que desprezou tão grande salvação. Percebe que rejeitou o Filho de Deus, que desejava salvá-la dos pecados, e tratou como comum o sangue da aliança.
3. Sabendo que todas as coisas estão descobertas diante dos olhos daquele a quem teremos de prestar contas, ela também se vê completamente exposta diante de Deus.
Todas as folhas de figueira que havia costurado para cobrir-se são arrancadas: suas pobres pretensões religiosas, sua suposta virtude e suas desculpas para pecar contra Deus.
É como se fosse aberta da cabeça aos pés e tudo o que existe dentro dela ficasse completamente revelado.
Seu coração está descoberto, e ela percebe que é enganoso e desesperadamente corrupto. Reconhece que existe dentro de si uma profundidade de pecado que as palavras não conseguem expressar.
Percebe que não habita nela bem algum que tenha origem em sua própria natureza. Cada desejo, disposição e pensamento está profundamente contaminado pelo pecado.
4. Ela não apenas compreende, mas sente interiormente, de uma maneira que não consegue explicar, que merece a condenação por causa dos pecados de seu coração, mesmo que sua vida exterior fosse irrepreensível — o que não é, nem poderia ser, pois uma árvore má não pode produzir bons frutos.
Sente que o salário e a justa consequência do pecado são a morte.
Reconhece que seus pecados conduzem à segunda morte, à destruição do corpo e da alma no inferno.
5. Nesse momento, termina seu sonho agradável, seu descanso enganoso, sua falsa paz e sua segurança ilusória.
Sua alegria desaparece como uma nuvem. Os prazeres que antes amava já não lhe proporcionam satisfação. Aquilo que parecia doce torna-se desagradável.
As sombras de felicidade desaparecem. A pessoa se vê despojada de tudo e procura descanso sem conseguir encontrá-lo.
6. Depois que os efeitos daquele entorpecimento desaparecem, ela sente a angústia de um espírito ferido.
Descobre que o pecado, quando domina a alma — seja orgulho, ira, desejo pecaminoso, vontade própria, maldade, inveja ou vingança — é uma profunda miséria.
Sente tristeza pelas bênçãos que perdeu e pela maldição que trouxe sobre si.
Experimenta remorso por haver destruído a própria vida e desprezado as misericórdias de Deus.
Sente medo porque agora compreende a ira de Deus e as consequências de sua rebelião. Percebe o justo castigo que paira sobre sua cabeça.
Sente medo da morte, pois a vê como entrada para o juízo; medo do diabo, que procura destruir; e medo de tudo o que possa aproximá-la da condenação.
Às vezes, esse medo se torna tão intenso que a pobre alma, consciente do pecado e da culpa, assusta-se com tudo ao seu redor, até mesmo com uma sombra ou com uma folha agitada pelo vento.
Pode ficar tão perturbada que sua memória, seu entendimento e suas capacidades naturais parecem deixar de funcionar normalmente.
Em alguns casos, chega perto do desespero, a ponto de preferir a morte à vida.
Ela pode clamar por causa da profunda angústia do coração:
“O espírito firme sustém o homem na sua doença, mas o espírito abatido, quem o pode suportar?”
(Pv 18.14, NAA)
7. Agora, essa pessoa deseja verdadeiramente libertar-se do pecado e começa a lutar contra ele.
Contudo, mesmo lutando com toda a força, não consegue vencer. O pecado é mais forte do que ela.
Deseja escapar, mas sente-se presa e incapaz de sair da prisão.
Decide abandonar o pecado, mas volta a praticá-lo. Enxerga a armadilha, detesta-a e, ainda assim, cai nela.
Sua tão elogiada razão apenas aumenta sua culpa e sua miséria.
Essa é a liberdade de sua vontade natural: uma liberdade inclinada para o mal, capaz de beber a injustiça como água, afastar-se cada vez mais do Deus vivo e resistir ao Espírito da graça.
8. Quanto mais luta, deseja e trabalha para ser livre, mais percebe as correntes do pecado.
Satanás a mantém presa e a conduz segundo sua vontade. Ela continua sendo sua serva, embora reclame e se rebele.
Permanece debaixo da escravidão e do medo por causa do pecado.
Geralmente existe algum pecado exterior para o qual possui uma inclinação especial, produzida por sua natureza, seus hábitos ou suas circunstâncias. Sempre existe também algum pecado interior: uma disposição má ou uma afeição contrária à santidade.
Quanto mais se revolta contra essa escravidão usando apenas as próprias forças, mais o pecado parece prevalecer.
Ela pode morder as correntes, mas não consegue quebrá-las.
Assim, trabalha sem descanso: arrepende-se e peca, volta a arrepender-se e torna a pecar.
Finalmente, chega ao limite de suas forças e consegue apenas gemer:
“Miserável ser humano que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?”
(Rm 7.24, NAA)
9. Toda essa luta de alguém que está “debaixo da lei”, sob o espírito de escravidão e medo, é descrita pelo apóstolo no capítulo anterior da Carta aos Romanos, quando fala na pessoa de um ser humano despertado.
Paulo escreve:
“Outrora, sem a lei, eu vivia.”
(Rm 7.9, NAA)
Eu pensava possuir vida, sabedoria, força e virtude.
“Mas, sobrevindo o mandamento, reviveu o pecado, e eu morri.”
(Rm 7.9, NAA)
Quando o mandamento, em seu significado espiritual, alcançou meu coração pelo poder de Deus, o pecado que habitava em mim despertou e toda a minha suposta virtude morreu.
“E o mandamento que era para vida, verifiquei que este mesmo se tornou para morte.”
(Rm 7.10, NAA)
O pecado aproveitou a ocasião oferecida pelo mandamento, enganou-me e, por meio dele, matou todas as minhas esperanças. Mostrou claramente que, embora parecesse vivo, eu estava espiritualmente morto.
“Assim, a lei é santa e o mandamento é santo, justo e bom.”
(Rm 7.12, NAA)
Já não culpo a lei, mas a corrupção do meu próprio coração.
Reconheço que:
“A lei é espiritual; eu, porém, sou carnal, vendido à escravidão do pecado.”
(Rm 7.14, NAA)
Agora percebo tanto a natureza espiritual da lei quanto a escravidão do meu coração carnal.
Sou como um escravo comprado, completamente sujeito à vontade de seu senhor.
“Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto.”
(Rm 7.15, NAA)
Essa é a escravidão sob a qual eu gemia e a tirania do senhor cruel ao qual estava submetido.
“Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim, não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço.”
(Rm 7.18–19, NAA)
Descubro uma força interior que atua em mim: quando quero fazer o bem, o mal está presente.
Tenho prazer na lei de Deus no íntimo do meu ser. Minha mente e minha consciência concordam com ela.
Contudo, percebo outra lei em meus membros, outra força que luta contra a lei da minha mente e me conduz prisioneiro à lei do pecado.
É como se eu fosse arrastado atrás da carruagem de um conquistador, obrigado a praticar aquilo que minha alma detesta.
“Miserável ser humano que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?”
(Rm 7.24, NAA)
Quem me libertará desta vida impotente, desta escravidão ao pecado e à miséria?
Enquanto isso não acontece, minha mente e minha consciência estão do lado da lei de Deus, mas minha natureza humana permanece submetida à força do pecado.
10. Que retrato vivo de alguém que está debaixo da lei!
Essa pessoa sente um peso que não consegue remover. Deseja intensamente a liberdade, o poder e o amor, mas continua na escravidão e no medo.
Permanece assim até que Deus responda ao seu clamor:
“Quem me libertará desta escravidão ao pecado e deste corpo de morte?”
A resposta é: a graça de Deus, por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor.
III. O estado de quem está debaixo da graça
1. Então termina essa miserável escravidão.
A pessoa já não está debaixo da lei, mas debaixo da graça.
Consideremos, em terceiro lugar, o estado daquele que encontrou graça e favor diante de Deus, o Pai, e recebeu o poder do Espírito Santo reinando em seu coração.
Ele recebeu, na linguagem do apóstolo, o Espírito de adoção, por meio do qual agora clama: “Aba, Pai!”
2. Ele clamou ao Senhor em sua angústia, e Deus o libertou de suas aflições.
Seus olhos são abertos de uma maneira inteiramente diferente. Agora, ele contempla um Deus amoroso e cheio de graça.
Enquanto clama: “Senhor, mostra-me a tua glória”, ouve a voz de Deus no íntimo de sua alma:
“Farei passar toda a minha bondade diante de você e proclamarei diante de você o nome do Senhor.”
(Êx 33.19, NAA)
Pouco depois, o Senhor se aproxima e proclama seu nome:
“Senhor, Senhor, Deus compassivo e bondoso, tardio em irar-se e grande em misericórdia e fidelidade; que guarda a misericórdia em mil gerações, que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado.”
(Êx 34.6–7, NAA)
3. Uma luz celestial e restauradora entra em sua alma.
Ele olha para aquele a quem seus pecados traspassaram. O Deus que ordenou que a luz brilhasse nas trevas ilumina seu coração.
Contempla a luz do glorioso amor de Deus na face de Jesus Cristo.
Recebe uma certeza divina a respeito das realidades que os sentidos naturais não conseguem enxergar. Começa a compreender as coisas profundas de Deus e, especialmente, seu amor perdoador por aquele que crê em Jesus.
Dominado por essa visão, todo o seu ser clama:
“Senhor meu e Deus meu!”
(Jo 20.28, NAA)
Ele percebe que suas iniquidades foram colocadas sobre Cristo, que levou seus pecados em seu próprio corpo sobre o madeiro.
Contempla o Cordeiro de Deus tirando seus pecados.
Agora compreende claramente que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não levando em conta os pecados das pessoas.
Compreende que Cristo, que não conheceu pecado, foi feito oferta pelo pecado em nosso favor, para que nele nos tornássemos justiça de Deus.
Acima de tudo, reconhece que ele mesmo foi reconciliado com Deus pelo sangue da aliança.
4. Aqui terminam tanto a culpa quanto o domínio do pecado.
Agora ele pode dizer:
“Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. E esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.”
(Gl 2.19–20, NAA)
Aqui terminam o remorso, a tristeza profunda e a angústia do espírito ferido.
Deus transforma sua tristeza em alegria. Aquele que havia ferido agora cura suas feridas.
Também termina a escravidão do medo, pois seu coração está firme, confiando no Senhor.
Já não teme a ira de Deus porque sabe que ela foi afastada. Já não vê Deus como um juiz irado, mas como Pai amoroso.
Não teme o diabo, pois sabe que ele não possui poder algum além daquele que lhe seja permitido do alto.
Não teme o inferno, porque é herdeiro do Reino dos Céus.
Consequentemente, já não vive dominado pelo medo da morte, que anteriormente o mantinha em escravidão.
Ele sabe que, se a casa terrestre deste corpo for desfeita, possui da parte de Deus uma casa eterna nos céus.
Deseja ser revestido daquilo que vem do céu, para que aquilo que é mortal seja absorvido pela vida.
Sabe que Deus o preparou para essa realidade e lhe concedeu o Espírito como garantia.
5. Onde está o Espírito do Senhor, aí existe liberdade.
Liberdade não apenas da culpa e do medo, mas também do pecado — o jugo mais pesado e a escravidão mais humilhante.
Agora seu trabalho não é inútil. A armadilha foi quebrada, e ele foi libertado.
Ele não apenas luta, mas também prevalece. Não apenas combate, mas vence.
Já não serve ao pecado. Está morto para o pecado e vivo para Deus.
O pecado já não reina em seu corpo mortal, e ele não obedece aos desejos pecaminosos.
Já não oferece os membros de seu corpo ao pecado como instrumentos de injustiça, mas os oferece a Deus como instrumentos de justiça.
Libertado do pecado, tornou-se servo da justiça.
6. Assim, tendo paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo, alegrando-se na esperança da glória de Deus e recebendo poder sobre o pecado — sobre cada desejo, disposição, palavra e ação pecaminosa —, ele se torna testemunha viva da gloriosa liberdade dos filhos de Deus.
Todos aqueles que receberam a mesma fé preciosa declaram com uma só voz:
“Recebemos o Espírito de adoção, por meio do qual clamamos: ‘Aba, Pai!’”
(Rm 8.15, NAA)
7. É esse Espírito quem opera continuamente neles tanto o querer quanto o realizar, segundo a boa vontade de Deus.
É ele quem derrama no coração o amor de Deus e o amor por toda a humanidade.
Por meio desse amor, purifica o coração do amor ao mundo, dos desejos da carne, dos desejos dos olhos e da soberba da vida.
É pelo Espírito que são libertados da ira, do orgulho e de todas as afeições desordenadas.
Como consequência, são libertados das palavras más, das obras perversas e de todo comportamento impuro.
Não praticam o mal contra ninguém e se dedicam com zelo a toda boa obra.
8. Resumindo:
A pessoa natural não teme nem ama a Deus.
A pessoa debaixo da lei teme a Deus.
A pessoa debaixo da graça ama a Deus.
A primeira não possui luz nas coisas de Deus e caminha em completa escuridão.
A segunda enxerga a dolorosa luz do juízo.
A terceira contempla a alegre luz do céu.
A pessoa que dorme espiritualmente desfruta de uma falsa paz.
A pessoa despertada não possui paz alguma.
A pessoa que crê possui a verdadeira paz — a paz de Deus enchendo e governando seu coração.
A pessoa natural, batizada ou não, imagina possuir liberdade, mas sua liberdade é apenas uma licença para pecar.
Aquele que está debaixo da lei encontra-se em dolorosa escravidão.
O cristão desfruta da verdadeira e gloriosa liberdade dos filhos de Deus.
O filho do diabo que ainda não despertou peca voluntariamente.
A pessoa despertada peca contra sua vontade.
O filho de Deus não vive na prática do pecado, mas guarda a si mesmo, e o Maligno não o domina.
Finalmente, a pessoa natural não luta nem vence.
A pessoa debaixo da lei luta contra o pecado, mas não consegue vencê-lo.
A pessoa debaixo da graça luta e vence. Mais do que isso: é mais que vencedora por meio daquele que a amou.
IV. Examinando nosso estado espiritual
1. Dessa descrição dos três estados do ser humano — natural, legal e evangélico — fica evidente que não é suficiente dividir a humanidade apenas entre pessoas sinceras e insinceras.
Alguém pode ser sincero em qualquer um desses estados.
Pode ser sincero quando possui o Espírito de adoção. Pode ser sincero enquanto está debaixo do espírito de escravidão e medo. Pode até ser sincero enquanto não possui nem o temor nem o amor de Deus.
Sem dúvida, pode haver pagãos sinceros, assim como judeus e cristãos sinceros.
A sinceridade, por si só, não prova que alguém esteja em um estado de aceitação diante de Deus.
Portanto:
“Examinem a si mesmos para ver se permanecem na fé.”
(2Co 13.5, NAA)
Não pergunte apenas se você é sincero. Examine cuidadosamente qual é o princípio que governa sua alma.
É o amor de Deus? É o temor de Deus? Ou não é nenhum dos dois?
O que governa seu coração não seria o amor ao mundo, aos prazeres, ao dinheiro, ao conforto ou à reputação?
Nesse caso, você ainda não chegou nem mesmo ao estado de alguém que teme verdadeiramente a Deus. Continua no estado natural.
Você possui o céu em seu coração?
Possui o Espírito de adoção clamando continuamente: “Aba, Pai”?
Ou clama a Deus como alguém mergulhado em profunda angústia, dominado pela tristeza e pelo medo?
Ou é completamente estranho a essas experiências e sequer consegue compreender do que estamos falando?
Pessoa ainda distante de Deus, retire a máscara! Você nunca se revestiu verdadeiramente de Cristo.
Apresente-se sem disfarces diante daquele que vive para todo o sempre e reconheça que ainda não participa da vida dos filhos nem da vida dos servos de Deus.
2. Quem quer que você seja, responda: você pratica o pecado ou não?
Caso pratique, faz isso voluntariamente ou contra sua vontade?
Em qualquer dos casos, Deus revelou a quem você ainda pertence:
“Aquele que pratica o pecado procede do diabo.”
(1Jo 3.8, NAA)
Caso peque voluntariamente, você é servo fiel do pecado.
Caso peque contra sua vontade, lutando sem conseguir vencer, ainda permanece debaixo de sua escravidão. Que Deus o liberte!
Você luta diariamente contra todo pecado e, pela graça de Deus, vence diariamente?
Então reconheço você como filho de Deus. Permaneça firme em sua gloriosa liberdade.
Você está lutando, mas não consegue vencer? Está se esforçando, mas ainda não alcançou a vitória?
Então ainda não desfruta plenamente da fé cristã. Continue buscando, e conhecerá o Senhor.
Você não luta de modo algum, mas leva uma vida fácil, indiferente, preguiçosa e moldada pelos costumes deste mundo?
Como se atreve a usar o nome de Cristo, fazendo com que esse nome seja desonrado entre aqueles que não creem?
Desperte, você que está dormindo! Clame ao seu Deus antes que a destruição o alcance!
3. Talvez uma das razões pelas quais tantas pessoas pensem a respeito de si mesmas além do que deveriam e não consigam discernir seu verdadeiro estado seja o fato de esses estados espirituais muitas vezes se misturarem.
A experiência demonstra que o estado legal, ou estado de medo, frequentemente se mistura ao estado natural.
Poucas pessoas estão tão profundamente adormecidas no pecado que nunca sejam despertadas, ainda que apenas por alguns momentos.
O Espírito de Deus não espera que o ser humano tome a iniciativa para começar a agir. Em determinados momentos, ele faz sua voz ser ouvida.
Coloca temor no coração, de modo que, pelo menos durante algum tempo, as pessoas reconheçam que são apenas seres humanos.
Sentem o peso do pecado e desejam fugir da ira futura.
Contudo, isso geralmente não dura muito. Raramente permitem que as flechas da convicção penetrem profundamente na alma.
Rapidamente sufocam a graça de Deus e voltam a mergulhar na lama do pecado.
Da mesma forma, o estado evangélico, ou estado de amor, frequentemente se mistura ao estado legal.
Poucos daqueles que estão debaixo do espírito de escravidão e medo permanecem sempre completamente sem esperança.
O Deus sábio e misericordioso raramente permite isso, pois se lembra de que somos pó. Não deseja que o corpo e o espírito humano desfaleçam diante dele.
Por isso, quando considera apropriado, concede um começo de luz àqueles que estão sentados nas trevas.
Faz com que uma parte de sua bondade passe diante deles e mostra que é Deus que ouve a oração.
Eles enxergam, ainda que de longe, a promessa recebida mediante a fé em Cristo Jesus. Assim são encorajados a correr com perseverança a carreira que está diante deles.
4. Outra razão pela qual muitos enganam a si mesmos é não considerarem quanto uma pessoa pode avançar e, ainda assim, permanecer no estado natural ou, no máximo, no estado legal.
Alguém pode possuir uma disposição compassiva e benevolente. Pode ser gentil, educado, generoso e amigável.
Pode demonstrar certo grau de mansidão, paciência, domínio próprio e diversas virtudes morais.
Pode desejar abandonar muitos vícios e alcançar graus mais elevados de virtude.
Pode afastar-se de muitos males, talvez de tudo aquilo que seja claramente contrário à justiça, à misericórdia e à verdade.
Pode praticar muito bem: alimentar os famintos, vestir os que não possuem roupas e socorrer viúvas e órfãos.
Pode participar do culto público, orar em particular e ler muitos livros religiosos.
Apesar de tudo isso, pode continuar sendo apenas uma pessoa natural, sem conhecer verdadeiramente a Deus ou a si mesma.
Pode continuar igualmente distante tanto do espírito de temor quanto do Espírito de amor, sem haver se arrependido nem crido no evangelho.
Suponhamos que, além de tudo isso, exista uma profunda convicção do pecado, muito medo da ira de Deus, desejo intenso de abandonar todo pecado e cumprir a justiça.
Talvez existam também momentos de esperança e breves experiências do amor de Deus.
Nem mesmo essas coisas provam que a pessoa esteja debaixo da graça e possua a verdadeira e viva fé cristã.
Isso somente acontece quando o Espírito de adoção permanece em seu coração e ela pode clamar continuamente: “Aba, Pai!”
5. Portanto, você que é chamado pelo nome de Cristo, tome cuidado para não ficar aquém do alvo de sua elevada vocação.
Não se acomode no estado natural, como tantos que são considerados bons cristãos.
Também não se contente em viver e morrer no estado legal, como acontece com muitas pessoas altamente respeitadas pela sociedade.
Deus preparou coisas melhores para você, desde que continue avançando até alcançá-las.
Você não foi chamado apenas para temer e tremer como os demônios, mas para alegrar-se e amar como os anjos de Deus.
“Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e com toda a sua força.”
(Mc 12.30, NAA)
Alegre-se sempre. Ore sem cessar. Em tudo, dê graças.
Faça a vontade de Deus na terra como ela é feita no céu.
Experimente qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.
Apresente a si mesmo como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus.
Conserve aquilo que já alcançou e prossiga para as coisas que estão adiante.
Continue até que o Deus da paz o aperfeiçoe em toda boa obra, realizando em você aquilo que é agradável diante dele, por meio de Jesus Cristo.
A ele seja a glória para todo o sempre. Amém.
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.