SERMÃO 10

O testemunho do Espírito — primeira exposição

Primeira de duas exposições sobre a certeza de sermos filhos de Deus.

Rm 8.16, NAA ⏱ 22 min de leituraEspírito Santo e certeza

“O próprio Espírito confirma ao nosso espírito que somos filhos de Deus.”

(Rm 8.16, NAA)

Antes de ler

Como podemos ter certeza de que somos filhos de Deus? Essa certeza é apenas uma conclusão racional baseada em nosso comportamento ou existe também uma ação direta do Espírito Santo no coração do cristão?

Neste sermão, Wesley ensina que a certeza da salvação é sustentada por dois testemunhos inseparáveis. O primeiro é o testemunho do próprio Espírito de Deus, que comunica ao coração do crente a convicção de que seus pecados foram perdoados e de que ele foi recebido como filho. O segundo é o testemunho de nossa consciência, que reconhece os frutos dessa graça em uma vida marcada pelo amor, pela santidade e pela obediência.

Wesley também adverte contra o fanatismo e a falsa segurança. Nem toda convicção interior vem de Deus. O verdadeiro testemunho do Espírito é acompanhado de arrependimento, humildade, mansidão, amor e fidelidade aos mandamentos de Cristo.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1. Quantas pessoas presunçosas, sem compreenderem aquilo que dizem ou afirmam, distorceram esta passagem das Escrituras, causando grande prejuízo e, talvez, a destruição da própria alma!

Quantas confundiram a voz da própria imaginação com o testemunho do Espírito de Deus e, por causa disso, concluíram falsamente que eram filhos de Deus, enquanto continuavam praticando as obras do diabo!

Essas pessoas são verdadeiramente fanáticas, no pior sentido da palavra.

Contudo, como é difícil convencê-las de seu engano, especialmente quando já beberam profundamente desse espírito de erro!

Qualquer tentativa de ajudá-las a conhecer a si mesmas é interpretada como uma luta contra Deus. A agitação e a violência interior que chamam de “batalhar pela fé” tornam-nas quase inacessíveis a qualquer correção. A respeito delas, podemos dizer:

“Isto é impossível para os seres humanos.”

(Mt 19.26, NAA)

2. Não é surpreendente, portanto, que muitas pessoas sensatas, observando os terríveis efeitos desse engano e procurando manter-se o mais longe possível dele, acabem inclinando-se para o extremo oposto.

Elas passam a desconfiar de todos os que falam sobre o testemunho do Espírito, porque outros abusaram gravemente dessa expressão.

Chegam quase a considerar fanáticas todas as pessoas que usam palavras tão frequentemente distorcidas.

Algumas até questionam se esse testemunho é realmente um privilégio dos cristãos comuns ou se foi apenas um daqueles dons extraordinários pertencentes ao tempo dos apóstolos.

3. Entretanto, precisamos cair em um desses dois extremos?

Não podemos seguir um caminho equilibrado, mantendo distância suficiente do erro e do fanatismo, sem negar o dom de Deus e abandonar o grande privilégio de seus filhos?

Certamente podemos.

Para isso, consideremos, na presença e no temor de Deus:

I. O que é o testemunho de nosso espírito; o que é o testemunho do Espírito de Deus; e como ele confirma ao nosso espírito que somos filhos de Deus.

II. Como esse testemunho conjunto do Espírito de Deus e de nosso espírito pode ser claramente distinguido da presunção da mente natural e dos enganos do diabo.

I. O testemunho do Espírito de Deus e de nosso espírito

1. Consideremos, primeiramente, o testemunho de nosso próprio espírito.

Neste ponto, peço que prestem atenção aqueles que procuram reduzir o testemunho do Espírito de Deus ao testemunho racional de nosso próprio espírito.

O apóstolo está tão longe de falar apenas do testemunho de nosso espírito que pode até ser questionado se, nesta passagem específica, ele está falando diretamente desse testemunho ou somente do testemunho do Espírito de Deus.

O texto original pode ser legitimamente compreendido desta maneira:

No versículo anterior, o apóstolo havia declarado:

“Vocês receberam o Espírito de adoção, por meio do qual clamamos: ‘Aba, Pai!’”

(Rm 8.15, NAA)

Imediatamente acrescenta:

“O próprio Espírito confirma ao nosso espírito que somos filhos de Deus.”

(Rm 8.16, NAA)

A expressão também poderia ser entendida como: “O mesmo Espírito testemunha ao nosso espírito que somos filhos de Deus.”

Não insistirei nessa interpretação, pois muitas outras passagens das Escrituras e a experiência dos verdadeiros cristãos demonstram suficientemente que existe em cada crente tanto o testemunho do Espírito de Deus quanto o testemunho do próprio espírito de que ele é filho de Deus.

2. Quanto ao testemunho de nosso espírito, seu fundamento encontra-se nas muitas passagens das Escrituras que descrevem as características dos filhos de Deus.

Essas características são apresentadas de maneira tão clara que qualquer pessoa pode compreendê-las.

Diversos autores, antigos e modernos, também reuniram e explicaram essas marcas de maneira bastante clara.

Quem ainda necessitar de maior entendimento poderá recebê-lo ouvindo a pregação da Palavra de Deus, meditando nela em secreto diante do Senhor e conversando com pessoas que conhecem os caminhos de Deus.

Por meio da razão e do entendimento que Deus nos concedeu — capacidades que a religião não pretende destruir, mas aperfeiçoar — cada pessoa pode aplicar a si mesma essas características bíblicas e reconhecer se é ou não filha de Deus.

O apóstolo declara:

“Quanto ao modo de pensar, não sejam crianças.”

(1Co 14.20, NAA)

3. Uma pessoa pode raciocinar da seguinte maneira:

Primeiro: todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus a atitudes e ações santas são filhos de Deus. Isso é afirmado claramente pelas Escrituras.

Segundo: eu sou conduzido pelo Espírito de Deus dessa maneira.

Portanto, sou filho de Deus.

As declarações do apóstolo João estão de acordo com esse raciocínio:

“E nisto sabemos que o conhecemos: se guardamos os seus mandamentos.”

(1Jo 2.3, NAA)

“Aquele que guarda a sua palavra, nele verdadeiramente o amor de Deus está aperfeiçoado. Nisto sabemos que estamos nele.”

(1Jo 2.5, NAA)

“Se sabem que ele é justo, reconheçam também que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele.”

(1Jo 2.29, NAA)

“Nós sabemos que já passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos.”

(1Jo 3.14, NAA)

Também sabemos que pertencemos à verdade quando amamos uns aos outros não apenas de palavra, mas por meio de ações sinceras.

João declara ainda:

“Nisto conhecemos que permanecemos nele, e ele, em nós: ele nos deu do seu Espírito.”

(1Jo 4.13, NAA)

E:

“Nisto conhecemos que ele permanece em nós: pelo Espírito que nos deu.”

(1Jo 3.24, NAA)

4. É altamente provável que nunca tenham existido filhos de Deus mais avançados na graça e no conhecimento de Jesus Cristo do que o apóstolo João e os cristãos amadurecidos aos quais ele escreveu.

Mesmo assim, é evidente que nem o apóstolo nem aqueles sólidos servos de Deus desprezavam as características bíblicas que confirmavam sua condição de filhos.

Eles aplicavam essas características à própria vida para fortalecer sua fé.

Tudo isso, porém, constitui uma evidência racional: o testemunho de nosso espírito, de nossa razão e de nosso entendimento.

O argumento pode ser resumido assim:

Aqueles que possuem essas características são filhos de Deus.

Nós possuímos essas características.

Portanto, somos filhos de Deus.

5. Entretanto, ainda permanece uma pergunta: como sabemos que realmente possuímos essas características?

Como sabemos que amamos a Deus e ao próximo e que guardamos os seus mandamentos?

Observe que a questão é como isso se torna evidente para nós mesmos, e não necessariamente para outras pessoas.

Pergunto, então: como você sabe que está vivo? Como sabe que está sentindo alívio e não dor?

Você não possui uma consciência imediata dessas coisas?

Da mesma maneira, pode saber se sua alma está viva para Deus; se foi libertado da dor produzida pelo orgulho e pela ira; e se possui a tranquilidade de um espírito manso e sereno.

6. Pela mesma consciência interior, você percebe se ama, alegra-se e encontra prazer em Deus.

Também reconhece diretamente se ama o próximo como a si mesmo; se possui sincero afeto pela humanidade; e se está cheio de bondade e paciência.

Quanto à característica exterior dos filhos de Deus — a obediência aos mandamentos — você certamente sabe, em sua própria consciência, se ela faz parte de sua vida pela graça de Deus.

Sua consciência lhe informa diariamente se você pronuncia o nome de Deus com seriedade, reverência e santo temor; se separa tempo para adorá-lo; se honra seu pai e sua mãe; se trata as pessoas da maneira como gostaria de ser tratado; se conserva seu corpo em santidade e honra; e se, comendo ou bebendo, age com domínio próprio e faz tudo para a glória de Deus.

7. Esse é propriamente o testemunho de nosso espírito: o testemunho da consciência de que Deus nos tornou santos no coração e na conduta.

É a consciência de que recebemos, por meio do Espírito de adoção, as disposições que a Palavra de Deus atribui aos seus filhos.

Isso inclui um coração cheio de amor por Deus e por toda a humanidade; confiança infantil em Deus, nosso Pai; o desejo de encontrar satisfação somente nele; a disposição de entregar-lhe todas as preocupações; e um afeto sincero e bondoso por cada ser humano.

É também a consciência de que estamos sendo interiormente conformados, pelo Espírito de Deus, à imagem de seu Filho e de que caminhamos diante dele em justiça, misericórdia e verdade, fazendo aquilo que lhe agrada.

8. Mas o que é o testemunho do Espírito de Deus, acrescentado e unido a esse testemunho de nossa consciência?

Como ele confirma ao nosso espírito que somos filhos de Deus?

É difícil encontrar palavras humanas capazes de explicar as coisas profundas de Deus. Na verdade, não existem palavras que expressem adequadamente aquilo que os filhos de Deus experimentam.

Talvez possamos dizer — pedindo que aqueles que foram ensinados por Deus corrijam, suavizem ou fortaleçam esta definição — que:

O testemunho do Espírito é uma impressão interior sobre a alma, pela qual o Espírito de Deus comunica diretamente ao meu espírito que sou filho de Deus; que Jesus Cristo me amou e entregou-se por mim; que todos os meus pecados foram apagados; e que eu, até mesmo eu, fui reconciliado com Deus.

9. Esse testemunho do Espírito de Deus deve, pela própria natureza das coisas, preceder o testemunho de nosso espírito.

Podemos compreender isso a partir de uma consideração simples.

Precisamos ser santos no coração e na vida antes de termos consciência de que somos santos; isto é, antes de possuirmos o testemunho de nosso espírito a respeito de nossa santidade interior e exterior.

Entretanto, precisamos amar a Deus antes de podermos ser santos, pois o amor a Deus é a raiz de toda santidade.

E não podemos amar a Deus antes de sabermos que ele nos ama.

“Nós amamos porque ele nos amou primeiro.”

(1Jo 4.19, NAA)

Também não podemos conhecer seu amor perdoador até que seu Espírito testemunhe isso ao nosso espírito.

Portanto, uma vez que o testemunho do Espírito de Deus precisa preceder o amor a Deus e toda santidade, ele também precisa preceder nossa consciência interior dessa santidade, isto é, o testemunho de nosso próprio espírito.

10. Somente quando o Espírito de Deus comunica ao nosso espírito:

“Deus amou você e entregou seu próprio Filho como sacrifício pelos seus pecados; o Filho de Deus amou você e lavou seus pecados em seu sangue”,

então amamos a Deus porque ele nos amou primeiro e, por causa dele, amamos também nossos irmãos.

Não podemos deixar de ter consciência desse amor.

Conhecemos as coisas que Deus nos concedeu gratuitamente. Sabemos que amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos e, por isso, reconhecemos que pertencemos a ele.

Esse é o testemunho de nosso espírito.

Enquanto continuamos amando a Deus e guardando os seus mandamentos, esse testemunho permanece unido ao testemunho do Espírito de Deus de que somos seus filhos.

11. Com tudo o que foi dito sobre o testemunho de nosso espírito, não pretendo excluir a ação do Espírito de Deus.

De maneira alguma.

É ele quem não apenas produz em nós tudo aquilo que é bom, mas também ilumina sua própria obra e nos mostra claramente o que realizou.

Segundo Paulo, uma das grandes finalidades de recebermos o Espírito é:

“Para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente.”

(1Co 2.12, NAA)

O Espírito fortalece o testemunho de nossa consciência a respeito de nossa sinceridade diante de Deus e nos capacita a reconhecer, de maneira mais clara e profunda, que estamos fazendo aquilo que lhe agrada.

12. Alguém ainda poderá perguntar:

“Como o Espírito de Deus confirma ao nosso espírito que somos filhos de Deus de modo a remover toda dúvida e demonstrar a realidade de nossa filiação?”

A resposta pode ser compreendida a partir do que já foi dito.

Primeiramente, quanto ao testemunho de nosso espírito: a alma percebe tão íntima e claramente quando ama, alegra-se e encontra prazer em Deus quanto percebe quando ama e aprecia qualquer coisa deste mundo.

A pessoa não pode duvidar de que ama, alegra-se e encontra prazer em Deus, assim como não pode duvidar de que existe.

Portanto, o raciocínio é este:

Aquele que agora ama a Deus, alegra-se nele com alegria humilde, encontra nele santo prazer e demonstra amor obediente é filho de Deus.

Eu amo, alegro-me e encontro prazer em Deus dessa maneira.

Portanto, sou filho de Deus.

Um cristão não precisa permanecer em dúvida quanto à sua condição de filho de Deus.

Ele possui plena certeza da primeira afirmação porque ela se fundamenta nas Escrituras.

Quanto à segunda, possui uma evidência interior tão clara que não pode ser razoavelmente negada.

Dessa maneira, o testemunho de nosso espírito manifesta-se ao coração com profunda convicção e confirma, além de qualquer dúvida razoável, a realidade de nossa filiação.

13. Não pretendo explicar a maneira exata pela qual o testemunho divino se manifesta ao coração.

Esse conhecimento é maravilhoso demais para mim e está além de minha capacidade.

“O vento sopra onde quer, você ouve o seu som, mas não sabe de onde vem nem para onde vai.”

(Jo 3.8, NAA)

Assim como ninguém conhece as coisas de uma pessoa, a não ser o espírito dessa pessoa, ninguém conhece profundamente as coisas de Deus, a não ser o Espírito de Deus.

Entretanto, conhecemos o fato: o Espírito de Deus concede ao crente um testemunho de sua adoção.

Enquanto esse testemunho está presente na alma, a pessoa não consegue duvidar de que é filha de Deus, assim como não consegue duvidar de que o sol está brilhando quando se encontra sob a plena luz de seus raios.

II. Como distinguir o verdadeiro testemunho da presunção e do engano

1. Consideremos agora como esse testemunho conjunto do Espírito de Deus e de nosso espírito pode ser clara e seguramente distinguido da presunção da mente natural e dos enganos do diabo.

Todos os que desejam a salvação de Deus devem considerar essa questão com a mais profunda atenção, para não enganarem a própria alma.

Um erro nesse ponto geralmente produz consequências extremamente perigosas, especialmente porque aquele que se engana muitas vezes só descobre o erro quando já é tarde demais para repará-lo.

2. Primeiramente, como distinguir esse testemunho da presunção da mente natural?

É certo que uma pessoa que nunca foi convencida do pecado está sempre disposta a lisonjear a si mesma e a pensar a respeito de sua condição espiritual de maneira muito mais elevada do que deveria.

Não é surpreendente, portanto, que alguém cheio de vaidade, ao ouvir sobre esse privilégio dos verdadeiros cristãos — entre os quais naturalmente inclui a si mesmo — convença-se rapidamente de que já o possui.

Exemplos desse tipo são numerosos atualmente e sempre existiram.

Como, então, podemos distinguir o verdadeiro testemunho do Espírito e de nosso espírito dessa presunção destrutiva?

3. Respondo que as Escrituras apresentam muitas características pelas quais um pode ser distinguido do outro.

Elas descrevem com clareza as circunstâncias que precedem, acompanham e seguem o verdadeiro testemunho do Espírito de Deus ao espírito do crente.

Quem examina cuidadosamente essas características não precisa chamar a escuridão de luz.

Perceberá uma diferença tão grande entre o testemunho verdadeiro e o falso que não haverá perigo — poderíamos dizer, nem mesmo possibilidade — de confundir um com o outro.

4. Por meio dessas marcas bíblicas, uma pessoa que presume possuir o dom de Deus poderia reconhecer, caso realmente desejasse, que esteve entregue a um forte engano e acreditou em uma mentira.

As Escrituras apresentam características claras e evidentes que precedem, acompanham e seguem o verdadeiro testemunho.

Uma reflexão sincera seria suficiente para convencer essa pessoa de que essas características nunca estiveram presentes em sua vida.

Por exemplo, as Escrituras ensinam que o arrependimento, ou a convicção do pecado, precede constantemente o testemunho do perdão:

“Arrependam-se, porque está próximo o Reino dos Céus.”

(Mt 3.2, NAA)

“Arrependam-se e creiam no evangelho.”

(Mc 1.15, NAA)

“Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos seus pecados.”

(At 2.38, NAA)

“Arrependam-se e se convertam, para que sejam cancelados os seus pecados.”

(At 3.19, NAA)

De acordo com essas passagens, nossa própria Igreja coloca continuamente o arrependimento antes do perdão ou do testemunho do perdão.

Deus perdoa e absolve aqueles que verdadeiramente se arrependem e creem sinceramente no evangelho.

5. A pessoa presunçosa, porém, não conhece esse arrependimento.

Nunca experimentou um coração quebrantado e contrito.

A lembrança de seus pecados nunca lhe causou verdadeira tristeza, nem o peso deles se tornou insuportável.

Talvez tenha repetido palavras de arrependimento, mas nunca falou sinceramente. Apenas apresentou a Deus uma expressão religiosa vazia.

Mesmo que faltasse apenas essa obra anterior da graça, ela já teria razões suficientes para concluir que abraçou uma sombra e ainda não conheceu o verdadeiro privilégio dos filhos de Deus.

6. As Escrituras também descrevem o novo nascimento, que precede o testemunho de que somos filhos de Deus, como uma transformação profunda e poderosa.

É uma passagem das trevas para a luz e do poder de Satanás para Deus.

É uma passagem da morte para a vida, uma verdadeira ressurreição espiritual.

O apóstolo escreve aos efésios:

“Ele lhes deu vida, quando vocês estavam mortos em suas transgressões e pecados.”

(Ef 2.1, NAA)

E ainda:

“Estando nós mortos em nossas transgressões, nos deu vida juntamente com Cristo […] e juntamente com ele nos ressuscitou.”

(Ef 2.5–6, NAA)

Mas o que a pessoa presunçosa sabe a respeito de uma transformação como essa?

Ela desconhece completamente essa realidade e não compreende essa linguagem.

Diz que sempre foi cristã e que nunca houve um tempo em que necessitasse de tal mudança.

Por isso também, caso se permita refletir seriamente, poderá reconhecer que não nasceu do Espírito, que ainda não conheceu verdadeiramente a Deus e que confundiu a voz da natureza com a voz de Deus.

7. Mesmo deixando de lado aquilo que uma pessoa experimentou ou deixou de experimentar no passado, podemos distinguir facilmente um filho de Deus de alguém que engana a si mesmo pelas características atuais.

As Escrituras descrevem a alegria no Senhor que acompanha o testemunho do Espírito como uma alegria humilde.

É uma alegria que rebaixa o pecador perdoado até o pó e o leva a declarar:

“Eu sou indigno! Quem sou eu? Agora meus olhos te veem; por isso, desprezo a mim mesmo e me arrependo no pó e na cinza.”

Onde existe humildade, também encontramos mansidão, paciência, bondade e perseverança.

Existe um espírito suave, disposto a ceder, uma ternura de alma que as palavras não conseguem expressar adequadamente.

8. Esses frutos acompanham o suposto testemunho do Espírito na pessoa presunçosa?

Ocorre justamente o contrário.

Quanto mais confiante ela se torna no favor de Deus, mais se enche de orgulho.

Quanto mais acredita possuir um testemunho poderoso, mais autoritária se torna com aqueles que estão ao seu redor.

Fica cada vez menos capaz de receber uma correção e mais impaciente diante de qualquer discordância.

Em vez de se tornar mais mansa, bondosa e disposta a aprender, mais pronta para ouvir e mais lenta para falar, torna-se lenta para ouvir e rápida para falar.

Não aceita aprender com ninguém.

Sua disposição torna-se inflamada e agressiva, e suas conversas são marcadas pela impetuosidade.

Às vezes, surge até uma espécie de ferocidade em sua aparência, em sua maneira de falar e em toda a sua conduta, como se estivesse prestes a tomar o juízo das mãos de Deus e destruir pessoalmente seus adversários.

9. As Escrituras também ensinam:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos.”

(1Jo 5.3, NAA)

Nosso Senhor declara:

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama.”

(Jo 14.21, NAA)

O amor encontra alegria na obediência e procura fazer tudo aquilo que agrada à pessoa amada.

Quem verdadeiramente ama a Deus apressa-se em realizar sua vontade na terra como ela é realizada no céu.

Mas essa é a característica daquele que presume possuir o amor de Deus?

Não.

O amor imaginário que possui lhe concede, segundo sua própria compreensão, liberdade para desobedecer e quebrar os mandamentos de Deus.

Talvez, enquanto temia a ira de Deus, ainda procurasse fazer a vontade divina. Agora, porém, considerando-se “livre da lei”, pensa que já não precisa obedecer-lhe.

Por isso, torna-se menos zeloso pelas boas obras, menos cuidadoso em evitar o mal, menos vigilante sobre o próprio coração e menos atento às palavras que pronuncia.

É menos disposto a negar a si mesmo e tomar diariamente a própria cruz.

Em resumo, sua vida muda completamente depois que imagina ter encontrado liberdade.

10. Ele já não se exercita na prática da piedade.

Já não luta contra os poderes espirituais do mal, não suporta dificuldades nem se esforça para entrar pela porta estreita.

Encontrou um caminho mais fácil para o céu: uma estrada larga, tranquila e agradável, na qual pode dizer à própria alma:

“Você tem muitos bens acumulados para muitos anos; descanse, coma, beba e aproveite a vida.”

(Lc 12.19, NAA)

É evidente, portanto, que essa pessoa não possui o verdadeiro testemunho do próprio espírito.

Ela não pode ter consciência de características que não possui: humildade, mansidão e obediência.

Também o Espírito do Deus da verdade não pode testemunhar a favor de uma mentira nem declarar que alguém é filho de Deus quando vive claramente como filho do diabo.

11. Reconheça sua verdadeira condição, pobre pessoa que engana a si mesma!

Você afirma com confiança que é filho de Deus. Diz que possui o testemunho dentro de si e, por isso, desafia todos os seus adversários.

Entretanto, foi pesado na balança do santuário e encontrado em falta.

A Palavra do Senhor examinou sua alma e demonstrou que você é como prata rejeitada.

Você não é humilde de coração. Portanto, ainda não recebeu o Espírito de Jesus.

Não é bondoso nem manso. Portanto, sua alegria não possui valor, pois não é alegria no Senhor.

Você não guarda os mandamentos de Deus. Portanto, não o ama nem participa do Espírito Santo.

É tão certo quanto as Escrituras podem tornar qualquer coisa que o Espírito de Deus não confirma ao seu espírito que você é filho de Deus.

Clame ao Senhor para que as escamas caiam de seus olhos, para que você conheça a si mesmo como é conhecido e receba dentro de si a sentença de morte, até ouvir a voz que ressuscita os mortos:

“Tenha bom ânimo; os seus pecados estão perdoados. A sua fé salvou você.”

12. Alguém poderá perguntar:

“Como uma pessoa que possui o verdadeiro testemunho pode distingui-lo da presunção?”

Como você distingue o dia da noite?

Como distingue a luz das trevas ou o brilho de uma pequena vela da luz do sol ao meio-dia?

Não existe entre essas coisas uma diferença evidente, essencial e inerente?

Você não percebe essa diferença de maneira imediata, desde que seus sentidos estejam funcionando corretamente?

Da mesma maneira, existe uma diferença essencial entre a luz espiritual e as trevas espirituais; entre a luz com a qual o Sol da Justiça ilumina nosso coração e o brilho fraco produzido pelas faíscas de nossa própria imaginação.

Essa diferença também é percebida de maneira imediata e direta quando nossos sentidos espirituais estão funcionando corretamente.

13. Exigir uma explicação filosófica mais detalhada sobre o modo como distinguimos essas coisas e sobre os critérios interiores pelos quais reconhecemos a voz de Deus é exigir algo que não pode ser explicado, nem mesmo por alguém que possua profundo conhecimento de Deus.

Suponha que, enquanto Paulo apresentava sua defesa diante de Agripa, algum romano instruído lhe perguntasse:

“Você afirma ter ouvido a voz do Filho de Deus. Como sabe que era a voz dele? Por quais critérios internos distingue a voz de Deus de uma voz humana ou angelical?”

Você imagina que o apóstolo tentaria responder a uma pergunta dessa natureza?

Sem dúvida, no momento em que ouviu aquela voz, Paulo soube que era a voz de Deus.

Mas quem pode explicar exatamente como ele soube?

Talvez nem seres humanos nem anjos consigam fazê-lo.

14. Aproximemos ainda mais a questão.

Suponha que Deus diga agora a uma pessoa: “Seus pecados estão perdoados.”

Deus certamente deseja que essa pessoa reconheça sua voz; caso contrário, estaria falando inutilmente.

Ele também possui poder para produzir esse reconhecimento, porque tudo o que deseja realizar está ao seu alcance.

E ele realmente o faz.

A pessoa recebe plena certeza de que aquela é a voz de Deus.

Entretanto, quem possui esse testemunho dentro de si não consegue explicá-lo completamente para quem nunca o experimentou. Nem deveríamos esperar que conseguisse.

Se existisse um recurso meramente natural para provar ou explicar as coisas de Deus àqueles que nunca as experimentaram, a pessoa natural poderia compreender as coisas do Espírito de Deus.

Isso, porém, contradiz diretamente a declaração do apóstolo de que ela não pode compreendê-las, porque são discernidas espiritualmente, por meio de sentidos espirituais que a pessoa natural ainda não possui.

15. Alguém poderá perguntar:

“Como saberei se meus sentidos espirituais estão funcionando corretamente? Como posso ter certeza de que não estou enganado e confundindo outra voz com a voz do Espírito?”

Essa é uma questão de enorme importância, pois quem se engana nesse ponto pode permanecer indefinidamente no erro.

A resposta é: por meio do testemunho de seu próprio espírito, da resposta de uma boa consciência diante de Deus.

Você reconhecerá o testemunho do Espírito de Deus pelos frutos que ele produz em sua vida.

Os frutos imediatos do Espírito governando o coração são:

“Amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio.”

(Gl 5.22–23, NAA)

Os frutos exteriores são fazer o bem a todas as pessoas, não praticar o mal contra ninguém e caminhar na luz por meio de uma obediência zelosa e constante aos mandamentos de Deus.

16. Pelos mesmos frutos, você distinguirá a voz de Deus de qualquer engano do diabo.

Aquele espírito orgulhoso não pode produzir humildade diante de Deus.

Ele não pode nem deseja suavizar seu coração, levando-o primeiramente a uma profunda tristeza por sua distância de Deus e, depois, ao amor filial.

Não é o adversário de Deus e dos seres humanos quem o capacita a amar o próximo ou a revestir-se de mansidão, bondade, paciência, domínio próprio e de toda a armadura de Deus.

Satanás não está dividido contra si mesmo nem destrói o pecado, que é sua própria obra.

Somente o Filho de Deus veio:

“Para destruir as obras do diabo.”

(1Jo 3.8, NAA)

Portanto, assim como a santidade procede de Deus e o pecado é obra do diabo, o testemunho que produz santidade dentro de você não vem de Satanás, mas de Deus.

17. Você pode, então, declarar:

“Graças a Deus pelo seu dom indescritível!”

(2Co 9.15, NAA)

Graças a Deus, que me permite saber em quem tenho crido; que enviou o Espírito de seu Filho ao meu coração, clamando: “Aba, Pai!”; e que agora confirma ao meu espírito que sou filho de Deus.

Tenha cuidado, porém, para que não apenas seus lábios, mas toda a sua vida manifeste o louvor de Deus.

Ele colocou seu selo sobre você como propriedade dele. Portanto, glorifique-o em seu corpo e em seu espírito, que pertencem a Deus.

Amado, se você possui essa esperança, purifique-se assim como Cristo é puro.

Enquanto contempla o grande amor que o Pai lhe concedeu, permitindo que seja chamado filho de Deus, purifique-se de toda impureza da carne e do espírito, aperfeiçoando a santidade no temor de Deus.

Que todos os seus pensamentos, palavras e ações sejam um sacrifício espiritual, santo e agradável a Deus por meio de Jesus Cristo.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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