SERMÃO 101
O dever da comunhão constante
“Isto é o meu corpo, dado por vocês; façam isto em memória de mim” — por que comungar da Ceia do Senhor com a maior frequência possível.
“E, pegando um pão, tendo dado graças, o partiu e lhes deu, dizendo: — Isto é o meu corpo, que é dado por vocês; façam isto em memória de mim.”
(Lc 22.19, NAA)Antes de ler
Neste sermão, escrito inicialmente para seus alunos em Oxford, Wesley defende aquilo que chama de “comunhão constante”: participar da Ceia do Senhor em todas as oportunidades razoavelmente disponíveis. Não estabelece uma frequência universal baseada no calendário, mas sustenta que o cristão não deve recusar deliberadamente a mesa quando ela lhe é oferecida.
Seu argumento possui duas bases. A Ceia é mandamento de Cristo — “façam isto em memória de mim” — e também meio da graça, por meio do qual Deus fortalece, renova e sustenta seu povo no caminho da santidade. Wesley rejeita a ideia de que somente cristãos que se consideram dignos devam participar. Todos são indignos da misericórdia divina; a preparação necessária é arrependimento sincero, fé em Cristo, propósito de obedecer a Deus e amor ao próximo.
Algumas referências ao Livro de Oração Comum, às regras da Igreja da Inglaterra e às promessas batismais refletem a identidade anglicana de Wesley. O princípio central, porém, é claramente wesleyano: a Ceia não é prêmio para pessoas perfeitas, mas meio de graça oferecido a discípulos arrependidos que desejam receber força para amar e obedecer a Deus.
— Bispo Ildo Mello
Nota de John Wesley, 1788
O discurso seguinte foi escrito há mais de cinquenta e cinco anos para uso de meus alunos em Oxford. Acrescentei muito pouco, mas retirei bastante, pois naquela época utilizava mais palavras do que utilizo atualmente. Agradeço, porém, a Deus porque ainda não encontrei razão para alterar minha compreensão sobre qualquer ponto apresentado aqui.
Não é surpreendente que pessoas que não temem a Deus jamais pensem em fazer isso. É estranho, porém, que a Ceia seja negligenciada por alguém que teme a Deus e deseja salvar a própria alma. Apesar disso, nada é mais comum. Uma das razões pelas quais muitos a negligenciam é que sentem tanto medo de “comer e beber indignamente” que nunca consideram quanto é maior o perigo de não comer nem beber de modo algum. Para fazer aquilo que estiver ao meu alcance a fim de conduzir essas pessoas bem-intencionadas a uma compreensão mais justa, procurarei:
I. Demonstrar que é dever de todo cristão participar da Ceia do Senhor sempre que puder;
II. Responder a algumas objeções.
Demonstrarei que é dever de todo cristão participar da Ceia do Senhor sempre que puder.
1. A primeira razão pela qual é dever de todo cristão agir assim é que se trata de um mandamento claro de Cristo. Isso aparece nas palavras do texto: “Façam isto em memória de mim.” Assim como os apóstolos foram obrigados a abençoar, partir e entregar o pão a todos aqueles que se uniam a eles nas coisas santas, todos os cristãos são obrigados a receber esses sinais do corpo e do sangue de Cristo. Portanto, o pão e o vinho devem ser recebidos em memória de sua morte até o fim do mundo. Observem também que esse mandamento foi apresentado por nosso Senhor quando estava prestes a entregar a vida por nós. Essas palavras são, por assim dizer, suas últimas palavras dirigidas a todos os seus seguidores.
2. A segunda razão pela qual todo cristão deve fazer isso sempre que puder é que os benefícios recebidos por aqueles que participam em obediência a Cristo são muito grandes: o perdão dos pecados passados e o fortalecimento e a renovação atuais da alma. Neste mundo, nunca estamos livres das tentações. Qualquer que seja nosso modo de vida e qualquer que seja nossa condição, estando enfermos ou saudáveis, enfrentando sofrimento ou tranquilidade, os inimigos de nossa alma permanecem atentos, procurando conduzir-nos ao pecado. Muitas vezes, conseguem prevalecer sobre nós. Quando estamos convencidos de ter pecado contra Deus, que caminho mais seguro possuímos para buscar o perdão do que anunciar a morte do Senhor e suplicar-lhe, por causa dos sofrimentos de seu Filho, que apague todos os nossos pecados?
3. A graça de Deus concedida nessa ordenança confirma em nós o perdão dos pecados, capacitando-nos a abandoná-los. Assim como o corpo é fortalecido pelo pão e pelo vinho, a alma é fortalecida por esses sinais do corpo e do sangue de Cristo. Esse é o alimento da alma. Ele nos concede força para cumprir o dever e nos conduz em direção à perfeição. Portanto, caso possuamos alguma consideração pelo mandamento claro de Cristo, caso desejemos o perdão dos pecados e caso queiramos receber força para crer, amar e obedecer a Deus, não devemos negligenciar oportunidade alguma de participar da Ceia do Senhor. Nunca devemos virar as costas para o banquete que nosso Senhor preparou. Não devemos desprezar ocasião alguma que a boa providência de Deus nos ofereça com essa finalidade. Esta é a verdadeira regra: devemos participar sempre que Deus nos concede oportunidade. Portanto, aquele que não participa e se afasta da mesa santa quando todas as coisas estão preparadas ou não compreende seu dever, ou não se importa com o último mandamento do Salvador, com o perdão dos pecados, com o fortalecimento da alma e com sua renovação mediante a esperança da glória.
4. Todo aquele que possui algum desejo de agradar a Deus ou algum amor pela própria alma deve, portanto, obedecer a Deus e buscar o bem da própria alma, participando da Comunhão todas as vezes que puder, assim como faziam os primeiros cristãos, entre os quais o sacrifício cristão era parte constante do culto no Dia do Senhor. Durante vários séculos, participavam quase diariamente: sempre quatro vezes por semana, além de cada dia dedicado à memória dos santos. Consequentemente, aqueles que se uniam às orações dos fiéis nunca deixavam de participar do bendito sacramento. Podemos conhecer a opinião que possuíam sobre alguém que lhe virava as costas por meio deste antigo cânon: “Caso algum crente participe das orações dos fiéis e se retire sem receber a Ceia do Senhor, seja excluído da comunhão, por trazer confusão à Igreja de Deus.”
5. Para compreender a natureza da Ceia do Senhor, seria útil ler cuidadosamente as passagens dos Evangelhos e da Primeira Carta aos Coríntios que falam de sua instituição. Por meio delas, aprendemos que a finalidade desse sacramento é a contínua recordação da morte de Cristo mediante o ato de comer o pão e beber o vinho, sinais exteriores da graça interior, o corpo e o sangue de Cristo.
6. É altamente recomendável que aqueles que pretendem participar, sempre que o tempo permitir, preparem-se para essa ordenança solene por meio do exame pessoal e da oração. Isso, porém, não é absolutamente necessário. Quando não possuímos tempo para semelhante preparação, devemos verificar se possuímos a preparação habitual, que é absolutamente necessária e não pode ser dispensada em qualquer situação ou ocasião. Essa preparação consiste, primeiramente, num pleno propósito de coração de guardar todos os mandamentos de Deus e, em segundo lugar, num desejo sincero de receber todas as suas promessas.
Responderei, em segundo lugar, às objeções comuns contra a participação constante na Ceia do Senhor.
1. Refiro-me à “comunhão constante”, pois a expressão “comunhão frequente” é extremamente absurda. Caso signifique alguma coisa inferior à participação constante, significa mais do que pode ser provado como dever de alguém. Caso não sejamos obrigados a participar constantemente, por qual argumento se pode provar que somos obrigados a participar frequentemente? Por que mais de uma vez por ano, uma vez em sete anos ou uma vez antes de morrer? Todo argumento apresentado em favor da participação frequente demonstra que devemos participar constantemente ou não demonstra coisa alguma. Portanto, essa maneira indefinida e sem significado de falar deve ser abandonada por todas as pessoas de entendimento.
2. Para provar que é nosso dever participar constantemente, podemos observar que a Santa Comunhão deve ser considerada: primeiro, como mandamento de Deus; segundo, como misericórdia de Deus para os seres humanos. Consideremo-la, primeiramente, como mandamento de Deus. Deus, nosso Mediador e Governante, de quem recebemos a vida e todas as coisas e de cuja vontade depende se seremos perfeitamente felizes ou completamente infelizes deste momento até a eternidade, declara que todos aqueles que obedecem aos seus mandamentos serão eternamente felizes e aqueles que não obedecem serão eternamente infelizes. Um desses mandamentos é: “Façam isto em memória de mim.” Pergunto, então: por que você não faz isso quando pode fazê-lo, caso deseje? Quando possui diante de si uma oportunidade, por que não obedece ao mandamento de Deus?
3. Talvez você diga: “Deus não me manda fazer isso sempre que posso.” Em outras palavras, a expressão “sempre que puder” não foi acrescentada nessa passagem específica. E daí? Não devemos obedecer a cada mandamento de Deus sempre que pudermos? Todas as promessas de Deus não são feitas àqueles, e somente àqueles, que empregam toda a diligência, isto é, que fazem tudo aquilo que podem para obedecer aos seus mandamentos? Nossa capacidade é a regra de nosso dever. Aquilo que podemos fazer é aquilo que devemos fazer. Em relação a esse ou a qualquer outro mandamento, aquele que poderia obedecer, caso desejasse, mas não obedece não terá lugar no Reino dos Céus.
4. A grande verdade de que somos obrigados a guardar todo mandamento na medida em que podemos é claramente provada pelo absurdo da opinião contrária. Caso admitíssemos que não somos obrigados a obedecer a cada mandamento de Deus sempre que pudermos, não teríamos argumento algum para provar que alguém deve obedecer a qualquer mandamento em algum momento. Por exemplo, caso eu perguntasse a uma pessoa por que não obedece a um dos mandamentos mais claros de Deus, por que não ajuda seus pais, ela poderia responder: “Não farei isso agora, mas farei em outro momento.” Quando esse momento chegasse, eu lhe recordaria novamente o mandamento de Deus, e ela diria: “Obedecerei algum dia.” Não seria possível provar que deve obedecer agora, a menos que se demonstrasse que deve obedecer sempre que puder. Portanto, deve obedecer agora, porque pode fazê-lo, caso deseje.
5. Considere a Ceia do Senhor, em segundo lugar, como misericórdia de Deus para os seres humanos. Deus, cuja misericórdia está sobre todas as suas obras e especialmente sobre os filhos dos seres humanos, sabia que existia somente um caminho para que a pessoa fosse feliz como ele: tornar-se semelhante a ele em santidade. Sabendo que, por nós mesmos, não poderíamos realizar coisa alguma para alcançar isso, concedeu-nos determinados meios para recebermos sua ajuda. Um deles é a Ceia do Senhor, que, em sua infinita misericórdia, entregou-nos exatamente para essa finalidade: para que, por esse meio, sejamos auxiliados a alcançar as bênçãos que preparou para nós, recebendo santidade na terra e glória eterna no céu. Pergunto, então: por que você não aceita sua misericórdia sempre que pode? Deus lhe oferece agora sua bênção. Por que a recusa? Possui agora uma oportunidade de receber sua misericórdia. Por que não a recebe? Você é fraco. Por que não aproveita cada oportunidade para aumentar suas forças? Resumindo: considerando a Ceia como mandamento de Deus, aquele que não participa sempre que pode não possui piedade; considerando-a como misericórdia, aquele que não participa sempre que pode não possui sabedoria.
6. Essas duas considerações oferecerão resposta completa a todas as objeções comuns apresentadas contra a comunhão constante, sim, a todas aquelas que já foram ou poderão ser apresentadas. Na realidade, coisa alguma poderá ser objetada contra ela, a não ser com a suposição de que, nessa ocasião específica, ou a Comunhão não seria misericórdia, ou eu não possuo a ordem de recebê-la. Mesmo que admitíssemos que não seria uma misericórdia, isso não seria suficiente, pois a outra razão permaneceria: produza ou não algum benefício, você deve obedecer ao mandamento de Deus.
7. Consideremos, porém, as desculpas específicas que as pessoas normalmente apresentam para não obedecer. A mais comum é: “Sou indigno, e aquele que come e bebe indignamente come e bebe condenação para si mesmo. Portanto, não me atrevo a participar da Comunhão, para não comer e beber minha própria condenação.” A questão é esta: Deus lhe oferece uma das maiores misericórdias existentes deste lado do céu e ordena que a aceite. Por que não aceita essa misericórdia em obediência ao seu mandamento? Você diz: “Sou indigno de recebê-la.” E daí? Você é indigno de receber qualquer misericórdia de Deus. Isso é razão para recusar toda misericórdia? Deus lhe oferece perdão para todos os pecados. É certo que você é indigno, e ele sabe disso. Entretanto, visto que se agrada em oferecê-lo apesar disso, você não o aceitará? Ele se oferece para livrar sua alma da morte. Você é indigno de viver, mas recusará a vida por causa disso? Oferece-se para revestir sua alma com novas forças. Por ser indigno delas, recusará recebê-las? Que outra coisa o próprio Deus poderá fazer por nós, caso recusemos sua misericórdia porque somos indignos dela?
8. Suponhamos, porém, que a Ceia não fosse misericórdia para nós — e fazer semelhante suposição significa, na realidade, chamar Deus de mentiroso, afirmando que aquilo que ele estabeleceu intencionalmente para o bem humano não é bom. Ainda assim, pergunto: por que não obedece ao mandamento de Deus? Ele diz: “Faça isto.” Por que você não faz? Responde: “Sou indigno de fazê-lo.” O quê? Indigno de obedecer a Deus? Indigno de realizar aquilo que Deus lhe ordena? Indigno de obedecer ao mandamento divino? O que deseja dizer? Que aqueles que são indignos de obedecer a Deus não devem obedecer-lhe? Quem lhe ensinou isso? Ainda que fosse um anjo do céu, seja amaldiçoado! Caso imagine que o próprio Deus lhe ensinou isso por meio de Paulo, ouçamos suas palavras: “Aquele que come e bebe indignamente come e bebe condenação para si mesmo.” Isso é uma coisa completamente diferente. Não existe palavra alguma sobre ser indigno de comer e beber. Paulo fala sobre comer e beber de maneira indigna, coisa inteiramente diferente, como ele próprio explicou. Nesse mesmo capítulo, somos informados de que comer e beber indignamente significava participar do santo sacramento de maneira tão grosseira e desordenada que uma pessoa permanecia com fome enquanto outra se embriagava. O que isso possui a ver com você? Existe algum perigo de que faça semelhante coisa, de que coma e beba dessa maneira indigna? Por mais indigno que seja de participar, não existe perigo de participar dessa maneira. Portanto, qualquer que seja o juízo relacionado a esse modo indigno de participar, ele não diz respeito a você. Esse texto não lhe oferece razão maior para desobedecer a Deus do que ofereceria caso nem sequer existisse na Bíblia. Caso empregue as palavras “comer e beber indignamente” no sentido utilizado por Paulo, poderia dizer com a mesma razão: “Não me atrevo a participar, por medo de que o edifício da igreja desabe”, e: “Por medo de comer e beber indignamente.”
9. Caso tenha medo de trazer condenação sobre si por meio disso, teme onde não existe motivo para temer. Não tenha medo de comer e beber indignamente, pois, no sentido de Paulo, você não poderá fazer isso. Eu lhe direi, porém, por qual motivo deve temer a condenação: por não comer e beber de maneira alguma; por não obedecer ao seu Criador e Redentor; por desobedecer ao seu claro mandamento; por desprezar dessa maneira tanto sua misericórdia quanto sua autoridade. Tema isso, pois ouça aquilo que seu apóstolo diz: “Pois quem guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos” (Tiago 2.10).
10. Percebemos, portanto, como é fraca a objeção: “Não me atrevo a receber a Ceia do Senhor porque sou indigno.” Ela não se torna mais forte quando a razão pela qual alguém se considera indigno é ter caído recentemente em pecado. É verdade que nossa Igreja proíbe aqueles que cometeram alguma ofensa grave de participar sem arrependimento. A única conclusão que procede disso, porém, é que devemos arrepender-nos antes de aproximar-nos, e não que devemos deixar de aproximar-nos. Dizer que alguém poderá virar as costas para o altar por ter caído recentemente em pecado, impondo essa penitência sobre si mesmo, significa falar sem qualquer autorização bíblica. Onde a Bíblia ensina a reparar a violação de um mandamento de Deus violando outro? Que espécie de conselho é este: “Pratique um novo ato de desobediência, e Deus perdoará com maior facilidade aquele que praticou anteriormente”?
11. Outros, para justificarem a desobediência, afirmam que são indignos em outro sentido: “Não conseguem viver de maneira correspondente; não podem pretender levar a vida santa à qual a participação constante os obrigaria.” Expresse isso com palavras claras. Pergunto: por que não aceita a misericórdia que Deus lhe ordena aceitar? Você responde: “Porque não consigo viver de acordo com a profissão de fé que preciso realizar quando a recebo.” Nesse caso, fica claro que nunca deveria recebê-la. Não é mais legítimo prometer uma única vez aquilo que você sabe que não consegue cumprir do que prometer mil vezes. Você sabe também que é exatamente a mesma promessa, quer a faça uma vez por ano, quer todos os dias. Promete exatamente a mesma coisa, independentemente de fazê-lo com muita ou pouca frequência. Portanto, caso não consiga viver de acordo com a profissão realizada por aqueles que participam uma vez por semana, também não poderá viver segundo a profissão realizada por você ao participar uma vez por ano. Realmente não consegue? Nesse caso, seria melhor nunca ter nascido. Tudo aquilo que professa na mesa do Senhor precisa tanto professar quanto cumprir, ou não poderá ser salvo. Ali, não professa coisa alguma além disto: que procurará diligentemente guardar os mandamentos de Deus. Não consegue viver de acordo com essa profissão? Então não poderá entrar na vida.
12. Pense naquilo que diz antes de afirmar que não consegue viver segundo aquilo que se exige dos participantes constantes. Não se exige deles coisa alguma além daquilo que se exige de qualquer participante, sim, de todo aquele que possui uma alma a ser salva. Portanto, dizer que não consegue viver de acordo com isso não é coisa melhor nem pior do que renunciar ao cristianismo. Significa, na prática, renunciar ao seu batismo, no qual prometeu solenemente guardar todos os mandamentos de Deus. Agora, procura fugir dessa profissão. Viola deliberadamente um dos mandamentos e, para justificar-se, diz que não consegue guardar os mandamentos de Deus. Nesse caso, não poderá esperar receber as promessas feitas somente àqueles que os guardam.
13. Aquilo que foi dito sobre esse pretexto contra a comunhão constante aplica-se àqueles que dizem a mesma coisa com outras palavras: “Não nos atrevemos a participar porque isso exige posteriormente uma obediência tão perfeita que não podemos prometer realizá-la.” Não. A Ceia não exige obediência mais perfeita nem menos perfeita do que aquela que você prometeu no batismo. Naquele momento, comprometeu-se a guardar, com a ajuda divina, os mandamentos de Deus. Não promete coisa alguma além disso quando participa da Comunhão.
14. Uma segunda objeção frequentemente apresentada contra a comunhão constante é possuir tantos negócios que não exista tempo para a preparação necessária. Respondo: toda a preparação absolutamente necessária está contida nestas palavras: “Arrependam-se verdadeiramente dos pecados passados; tenham fé em Cristo, nosso Salvador” — observem que a palavra “fé” não é utilizada aqui em seu sentido mais elevado —; “corrijam a vida e vivam em amor com todas as pessoas; assim estarão preparados para participar destes santos mistérios.” Todos aqueles que estão preparados dessa maneira poderão aproximar-se sem medo e receber o sacramento para seu consolo. Que atividade poderia impedi-lo de preparar-se dessa maneira, de arrepender-se dos pecados passados, crer que Cristo morreu para salvar os pecadores, corrigir sua vida e viver em amor com todas as pessoas? Nenhuma atividade poderá impedi-lo, a menos que seja uma atividade que o impeça de permanecer no estado de salvação. Caso esteja decidido e pretenda seguir a Cristo, está preparado para aproximar-se da mesa do Senhor. Caso não possua semelhante intenção, está preparado apenas para a mesa e para a companhia dos demônios.
15. Nenhuma atividade, portanto, poderá impedir alguém de possuir a única preparação necessária, a não ser que o torne despreparado para o céu e o retire do estado de salvação. Toda pessoa prudente, quando possuir tempo, examinará a si mesma antes de receber a Ceia do Senhor: se verdadeiramente se arrepende dos pecados anteriores; se crê nas promessas de Deus; se possui o firme propósito de caminhar em seus caminhos e viver em amor com todas as pessoas. Sem dúvida, empregará nisso e na oração particular todo o tempo que razoavelmente puder. O que isso possui a ver, porém, com você, que não possui tempo? Como isso serve de desculpa para não obedecer a Deus? Ele ordena que você se aproxime e se prepare mediante oração, caso possua tempo; caso não possua, aproxime-se mesmo assim. Não utilize a reverência pelo mandamento divino como pretexto para violá-lo. Não se rebele contra Deus por medo de ofendê-lo. Independentemente daquilo que fizer ou deixar de fazer, cuide para realizar aquilo que Deus lhe ordena. Examinar a si mesmo e utilizar a oração particular, especialmente antes da Ceia do Senhor, é bom. Entretanto, obedecer é melhor do que o exame pessoal, e ouvir é melhor do que a oração de um anjo.
16. Uma terceira objeção contra a comunhão constante é que ela diminui nossa reverência pelo sacramento. Suponha que isso acontecesse. E daí? Você concluirá, por essa razão, que não deve participar constantemente? Essa conclusão não procede. Deus ordena: “Faça isto.” Você pode fazê-lo agora, mas não deseja, e, para justificar-se, diz: “Caso o faça com tanta frequência, diminuirá a reverência com que atualmente o realizo.” Suponha que isso acontecesse. Deus alguma vez lhe disse que, quando a obediência ao seu mandamento diminuísse sua reverência por ele, você poderia desobedecer-lhe? Caso tenha dito, você está inocente. Caso contrário, aquilo que diz não possui relação alguma com a questão. A lei é clara. Demonstre que o Legislador apresentou essa exceção, ou você é culpado diante dele.
17. A reverência pelo sacramento pode ser de duas espécies: aquela que nasce simplesmente da novidade da experiência, como a reverência que as pessoas naturalmente sentem diante de alguma coisa à qual não estão acostumadas; ou aquela que procede da fé, do amor ou do temor de Deus. A primeira não é propriamente reverência religiosa, mas inteiramente natural. A participação constante na Ceia do Senhor necessariamente diminuirá essa espécie de reverência. Não diminuirá, porém, a verdadeira reverência religiosa. Pelo contrário, irá confirmá-la e aumentá-la.
18. Uma quarta objeção é: “Participo constantemente há muito tempo, mas não encontrei o benefício que esperava.” Isso aconteceu com muitas pessoas bem-intencionadas e, por isso, merece consideração especial. Considere, primeiramente, que devemos realizar tudo aquilo que Deus ordena porque ele ordena, encontremos ou não benefício nisso. Deus ordena: “Façam isto em memória de mim.” Portanto, devemos fazê-lo porque ele ordena, encontremos ou não benefício imediato. Sem dúvida, porém, encontraremos benefício mais cedo ou mais tarde, embora talvez de maneira imperceptível. Seremos fortalecidos pouco a pouco, tornando-nos mais preparados e constantes no serviço de Deus. Pelo menos, somos impedidos de retroceder e preservados de muitos pecados e tentações. Certamente, isso deveria ser suficiente para levar-nos a receber esse alimento sempre que pudermos, ainda que não percebamos imediatamente seus felizes efeitos, como algumas pessoas perceberam e como nós mesmos poderemos perceber quando Deus considerar melhor.
19. Suponha, porém, que alguém tenha participado muitas vezes do sacramento e não tenha recebido benefício algum. Isso não ocorreu por culpa da própria pessoa? Ou não estava devidamente preparada, disposta a obedecer a todos os mandamentos e receber todas as promessas de Deus, ou não participou corretamente, confiando em Deus. Cuide apenas para estar devidamente preparado e, quanto mais frequentemente se aproximar da mesa do Senhor, maior benefício encontrará nela.
20. Uma quinta objeção apresentada por alguns contra a comunhão constante é que “a Igreja ordena a participação somente três vezes por ano”. As palavras da Igreja são: “Observe-se que cada membro da paróquia deverá participar da Comunhão pelo menos três vezes no ano.” Respondo, primeiramente: ainda que a Igreja não a tivesse ordenado de maneira alguma, não é suficiente que Deus a ordene? Obedecemos à Igreja por causa de Deus. E não obedeceremos ao próprio Deus? Caso participe três vezes por ano porque a Igreja ordena, participe todas as vezes que puder porque Deus ordena. Caso contrário, sua prática de uma orientação, em vez de desculpar a negligência da outra, provará sua insensatez e seu pecado e o deixará sem desculpa. Em segundo lugar, não podemos concluir dessas palavras que a Igreja desculpa aquele que participa somente três vezes por ano. Seu sentido claro é que aquele que não participar ao menos três vezes será excluído da Igreja. Elas, porém, não desculpam de maneira alguma aquele que não participa com maior frequência. Esse nunca foi o julgamento de nossa Igreja. Pelo contrário, ela utiliza todos os meios para que o sacramento seja devidamente administrado, onde quer que o Livro de Oração Comum seja lido, em todos os domingos e dias santos do ano. A Igreja apresenta uma orientação específica a respeito daqueles que receberam as ordens sagradas: “Em todas as catedrais, igrejas colegiadas e faculdades onde houver muitos sacerdotes e diáconos, todos participarão da Comunhão com o sacerdote pelo menos todos os domingos.”
21. Foi demonstrado, primeiramente, que, caso consideremos a Ceia do Senhor como mandamento de Cristo, nenhuma pessoa poderá apresentar pretensão alguma de piedade cristã caso não participe — não apenas uma vez por mês, mas — sempre que puder. Em segundo lugar, caso consideremos sua instituição como misericórdia para nós, ninguém que deixe de participar sempre que puder poderá apresentar pretensão alguma de prudência cristã. Em terceiro lugar, nenhuma das objeções normalmente apresentadas poderá servir de desculpa para aquele que não obedece a esse mandamento e aceita essa misericórdia em todas as oportunidades.
22. Foi demonstrado especificamente, em primeiro lugar, que a indignidade não constitui desculpa, pois, embora todos sejamos indignos num sentido, nenhum de nós precisa temer ser indigno no sentido utilizado por Paulo, de “comer e beber indignamente”. Em segundo lugar, a falta de tempo suficiente para a preparação não pode constituir desculpa, pois a única preparação absolutamente necessária é aquela que nenhuma atividade poderá impedir, nem coisa alguma na terra, exceto na medida em que nos impeça de permanecer no estado de salvação. Em terceiro lugar, a possibilidade de diminuir a reverência não constitui desculpa, pois aquele que apresentou o mandamento “Façam isto” não acrescentou: “a menos que isso diminua sua reverência”. Em quarto lugar, não receber o benefício esperado não constitui desculpa, pois isso acontece por nossa própria culpa, por negligenciarmos a preparação necessária que se encontra ao nosso alcance. Finalmente, o julgamento de nossa própria Igreja encontra-se inteiramente a favor da comunhão constante. Caso aqueles que até agora a negligenciaram por algum desses pretextos recebam essas coisas no coração, pela graça de Deus mudarão de compreensão e jamais abandonarão as misericórdias que lhes pertencem.
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.