SERMÃO 112
O rico e Lázaro
“Se não ouvem Moisés e os Profetas, também não se convencerão” — a parábola do rico e de Lázaro e a realidade eterna depois da morte.
“Se não ouvem Moisés e os Profetas, também não se deixarão convencer, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos.”
(Lc 16.31, NAA)Antes de ler
Neste sermão, John Wesley interpreta a narrativa do rico e Lázaro como relato de acontecimentos reais, e não apenas como parábola. Essa compreensão não é compartilhada por todos os intérpretes cristãos, mas foi fundamental para a maneira como Wesley desenvolveu seu argumento.
Wesley também apresenta sua doutrina do estado intermediário. Para ele, depois da morte, as almas dos justos são conduzidas ao paraíso, chamado “seio de Abraão”, onde aguardam a ressurreição e o juízo final. As almas dos ímpios são conduzidas a outra região do Hades, onde experimentam sofrimento enquanto aguardam o julgamento definitivo. Essas afirmações são preservadas por fidelidade histórica, ainda que o leitor adote outra interpretação bíblica sobre a condição dos mortos.
O ponto central do sermão é que milagres extraordinários, aparições ou mensagens vindas do mundo dos mortos não produzem necessariamente arrependimento. A transformação verdadeira depende da ação de Deus por meio de sua Palavra. A revelação bíblica já oferece luz suficiente para conduzir a pessoa à fé, à santidade e à vida eterna.
— Bispo Ildo Mello
1. Como é estranho este paradoxo! Como é contrário à opinião comum das pessoas! Quem está tão confirmado na incredulidade que não pense: “Caso alguém viesse dos mortos até mim, eu seria efetivamente convencido a me arrepender”? Esta passagem, porém, apresenta-nos outra declaração ainda mais surpreendente: “Vocês não podem servir a Deus e às riquezas” (Lucas 16.13). “Não? Por que não? Por que não poderíamos servir aos dois?”, perguntará um verdadeiro servo das riquezas. Consequentemente, os fariseus, que imaginavam servir a Deus enquanto serviam sinceramente às riquezas, zombavam de Jesus. A palavra utilizada pelo evangelista expressa o mais profundo desprezo. Cristo, porém, lhes disse: “Vocês são os que se justificam diante das pessoas, mas Deus conhece o coração de vocês; pois aquilo que é elevado entre os seres humanos é abominação diante de Deus” (Lucas 16.15). Nosso Senhor acrescenta, no restante do capítulo, uma terrível demonstração dessa verdade.
2. A narrativa seguinte é somente uma parábola ou uma história verdadeira? Muitos acreditaram e afirmaram categoricamente que fosse apenas parábola, por causa de uma ou duas circunstâncias difíceis de explicar. Em particular, é difícil compreender como alguém no Hades poderia conversar com outra pessoa no paraíso. Admitindo, porém, que não saibamos explicar isso, essa dificuldade poderia superar uma afirmação expressa de nosso Senhor? “Havia”, diz nosso Senhor, “certo homem rico.” Não havia? Tal homem nunca existiu? “Havia também certo mendigo, chamado Lázaro.” Existia ou não existia? Não é ousadia excessiva negar categoricamente aquilo que nosso bendito Senhor afirma categoricamente? Não podemos, portanto, duvidar razoavelmente de que toda a narrativa, com todas as suas circunstâncias, seja exatamente verdadeira. Teofilato, um dos antigos comentaristas das Escrituras, observa sobre o texto que, segundo a tradição dos judeus, Lázaro havia vivido em Jerusalém.
Pretendo, com a ajuda de Deus:
I. Explicar esta história;
II. Aplicá-la;
III. Demonstrar a verdade da importante declaração com a qual termina: “Se não ouvem Moisés e os Profetas, também não se deixarão convencer, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos.”
1. Primeiramente, procurarei, com a ajuda de Deus, explicar esta história. “Havia certo homem rico” e, sem dúvida, por esse mesmo motivo, era altamente estimado pelas pessoas. “Vestia-se de púrpura e de linho finíssimo” e, consequentemente, recebia ainda maior consideração, tanto por apresentar-se de modo correspondente à sua fortuna quanto por incentivar o comércio. “Todos os dias se regalava esplendidamente.” Esta era outra razão pela qual recebia grande estima: sua hospitalidade e generosidade, tanto por parte daqueles que frequentemente se assentavam à sua mesa quanto dos comerciantes que a abasteciam.
2. “Havia também certo mendigo”, pertencente à condição considerada mais desprezada pela sociedade, “chamado Lázaro”, segundo a terminação grega; em hebraico, Eleazar. Pelo nome, podemos concluir que não pertencia a família insignificante, embora aquele ramo dela estivesse naquele momento reduzido a extrema pobreza. Provavelmente, era conhecido na cidade, e não havia desonra para ele em ser mencionado pelo nome.
3. Ele “jazia à porta daquele rico”, embora não oferecesse visão agradável, de modo que alguém poderia admirar-se de que lhe permitissem permanecer ali; estava “coberto de feridas” e desejava alimentar-se das migalhas que caíam da mesa do rico. As aflições combinadas da pobreza, da dor e da falta de alimento pesavam simultaneamente sobre ele. Não parece, porém, que pessoa alguma prestasse a menor atenção àquele homem desprezado. Somente “os cães vinham lamber-lhe as feridas”. Esse era todo o conforto que o mundo lhe oferecia.
4. Observem, porém, a transformação! “O mendigo morreu.” Ali terminaram a pobreza e a dor. “E foi levado pelos anjos”, servos mais nobres do que quaisquer empregados do homem rico, “para o seio de Abraão”. Era assim que os judeus geralmente chamavam aquilo que nosso bendito Senhor chama de paraíso: o lugar onde “os maus deixam de perturbar, e ali repousam os cansados”; o lugar de acolhimento das almas santas desde a morte até a ressurreição.
5. Geralmente se supõe que as almas das pessoas justas, assim que são libertas do corpo, vão diretamente para o céu. Essa opinião, porém, segundo Wesley, não possuiria fundamento nos oráculos de Deus. Pelo contrário, depois da ressurreição, nosso Senhor disse a Maria: “Não me detenha, porque ainda não subi para o meu Pai” (João 20.17). Entretanto, havia estado no paraíso, de acordo com sua promessa ao criminoso arrependido: “Hoje você estará comigo no paraíso” (Lucas 23.43). Para Wesley, portanto, o paraíso não é o céu propriamente dito. Seria, caso se permita a expressão, a antecâmara do céu, onde as almas dos justos permanecem até serem recebidas na glória depois do juízo geral.
6. Observem novamente a mudança da cena! “O rico também morreu.” O quê? Os ricos também precisam morrer? Precisam cair “como qualquer pessoa”? Não existe recurso algum? Alguns anos antes, quando o médico comunicou a um homem rico de Londres que ele morreria, o homem cerrou os dentes, fechou os punhos e gritou violentamente: “Deus! Deus! Eu não morrerei!” Morreu, porém, com aquelas palavras na boca. O homem rico da narrativa “foi sepultado”, sem dúvida com pompa suficiente, correspondente à sua posição, embora Wesley observe que naquela época ainda não existia aquilo que chamou de demonstração extrema da insensatez humana: a exposição pública e cerimonial do corpo de uma pessoa falecida.
7. “No Hades, estando em tormentos, levantou os olhos.” Que transformação! Como caiu aquele que era poderoso! A palavra traduzida por “inferno” nem sempre significa o lugar do castigo definitivo. Literalmente, significa o mundo invisível e possui sentido muito amplo, incluindo o lugar de acolhimento dos espíritos separados do corpo, bons ou maus. Aqui, porém, significa claramente a região do Hades onde residem as almas dos ímpios, conforme demonstram as palavras seguintes: “estando em tormentos”. Alguns afirmavam que esses sofrimentos serviriam para compensar os pecados cometidos durante a vida e purificar a alma do pecado interior. O antigo poeta pagão Virgílio havia expressado ideia semelhante muitos séculos antes, descrevendo almas que passavam por diversas punições para serem purificadas das manchas adquiridas no corpo.
8. Observem a grande semelhança entre o antigo purgatório pagão e o purgatório moderno! No antigo purgatório, o fogo, a água e o ar eram empregados para compensar o pecado e purificar a alma. No purgatório místico, supunha-se que o fogo fosse suficiente tanto para purificar quanto para expiar. Esperança inútil! Nenhum sofrimento, além do sofrimento de Cristo, possui poder para expiar o pecado; e fogo algum, além do fogo do amor, poderá purificar a alma, seja no tempo, seja na eternidade.
9. “Viu ao longe Abraão.” Realmente longe: tão distante quanto o Hades se encontra do paraíso! Talvez a uma distância muitas vezes maior do que toda a extensão da Terra. Como poderia enxergá-lo? Não sei, mas isso de maneira alguma é inacreditável. Quem sabe a distância que um anjo ou espírito separado da carne e do sangue consegue enxergar? Viu também “Lázaro junto dele”. É bem conhecido que, nos antigos banquetes judaicos e romanos, os convidados não se assentavam à mesa como atualmente, mas reclinavam-se sobre divãs, cada um possuindo uma almofada à esquerda, sobre a qual apoiava o cotovelo. Aquele que se encontrava à sua direita era descrito como estando em seu seio. Foi nesse sentido que o apóstolo João esteve reclinado junto ao peito de seu Mestre. A expressão “Lázaro no seio de Abraão” indica, portanto, que se encontrava na mais elevada posição de honra e felicidade.
10. “Então, clamando, disse: ‘Pai Abraão, tenha misericórdia de mim!’” Insensato! O que Abraão poderia fazer? O que alguma criatura ou toda a criação reunida poderia fazer para quebrar as barreiras do abismo? Todo aquele que deseja escapar do lugar de sofrimento deve clamar a Deus, Pai de misericórdias. Para aquele homem, porém, o tempo havia passado. A justiça ocupava agora seu lugar. “Mande Lázaro molhar em água a ponta do dedo e refrescar a minha língua, porque estou atormentado nesta chama.” Como é moderado seu pedido! Não diz: “Retire-me desta chama.” Não pede que Lázaro lhe traga um copo de água ou sequer a quantidade que pudesse carregar na palma da mão, mas apenas que molhasse a ponta do dedo e refrescasse sua língua. Isso, porém, não poderia ser feito. Segundo Wesley, já não havia possibilidade de misericórdia naquela região.
11. “Mas Abraão respondeu: ‘Filho, lembre-se de que você recebeu os seus bens durante a vida, enquanto Lázaro recebeu os males; agora, porém, ele está consolado, e você está em tormentos.’” Talvez essas palavras respondam a uma pergunta importante: como aquele rico chegou ao Hades? Não parece ter sido uma pessoa perversa no sentido comum da palavra. Não há indicação de que fosse embriagado, blasfemador, profanador do sábado ou que vivesse em algum pecado exterior conhecido. Provavelmente, era fariseu e, como tal, irrepreensível em todos os aspectos exteriores da religião. Como, então, chegou ao lugar de sofrimento? Mesmo que não existisse outra razão, uma razão suficiente encontra-se implícita nestas palavras — “quem tem ouvidos para ouvir, ouça”: “Durante a vida, você recebeu os seus bens”, isto é, as coisas que havia escolhido como sua felicidade.
12. Você havia colocado seu afeto nas coisas terrenas e recebeu sua recompensa. Recebeu a parte que havia escolhido e já não poderia possuir parte alguma no alto. “Lázaro, igualmente, recebeu os males.” Não seus próprios males, pois ele não os havia escolhido. Foram permitidos para ele pela sábia providência divina. “Agora, porém, ele está consolado, e você está em tormentos.”
13. “Além de tudo isso, está posto um grande abismo entre nós e vocês.” Seria uma grande abertura, um imenso espaço vazio? Quem poderá dizer qual é sua natureza e quais são seus limites? Nenhum filho dos seres humanos; somente alguém que habitasse o mundo invisível. “De modo que os que querem passar daqui para vocês não podem, nem os de lá passar para nós.” Sem dúvida, um espírito separado do corpo conseguiria atravessar qualquer espaço. A vontade de Deus, porém, determinando que ninguém atravesse aquele abismo, constitui limite que criatura alguma pode ultrapassar.
14. “Então ele disse: ‘Pai, eu peço que mande Lázaro à casa de meu pai, porque tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de não virem também para este lugar de tormento’” (Lucas 16.27-28). Duas motivações inteiramente diferentes foram apresentadas para esse pedido extraordinário. Alguns o atribuem exclusivamente ao egoísmo, ao medo das severas acusações que seus irmãos poderiam lançar contra ele caso, por causa de seu exemplo e talvez de seus conselhos, chegassem ao mesmo lugar. Outros atribuem o pedido a motivação mais nobre. Supõem que, assim como a miséria dos ímpios não estará completa antes do juízo final, sua maldade também não terá alcançado sua plenitude. Consequentemente, acreditam que até aquele momento poderão conservar algumas faíscas de afeição natural e imaginam que isso tenha provocado seu desejo de impedir que seus irmãos participassem de seu sofrimento.
15. “Abraão respondeu: ‘Eles têm Moisés e os Profetas; que os ouçam’” (Lucas 16.29). “Mas ele insistiu: ‘Não, pai Abraão; se alguém dentre os mortos for até eles, irão arrepender-se.’” Quem não teria a mesma opinião? Alguém não poderia razoavelmente imaginar que uma mensagem solenemente transmitida por uma pessoa vinda dos mortos possuiria força irresistível? Quem não pensaria: “Eu mesmo não conseguiria resistir a semelhante pregador do arrependimento”?
Este me parece ser o sentido das palavras. Procurarei agora, com a ajuda de Deus, aplicá-las. Enquanto faço isso, irmãos, peço que suportem esta palavra de exortação. Quanto mais diretamente essas coisas forem aplicadas à alma de vocês, maior será o proveito recebido.
1. “Havia certo homem rico.” Não é mais pecaminoso ser rico do que ser pobre. É, porém, indescritivelmente perigoso. Por isso, lembro a todos vocês que pertencem a esse número, que possuem as condições adequadas da vida e alguma coisa além disso, que caminham sobre terreno escorregadio. Pisam continuamente em armadilhas e perigos. Encontram-se a cada momento na fronteira do juízo. “É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que vocês entrarem no Reino dos Céus.” Aquele homem “vestia-se de púrpura e de linho finíssimo”. Algumas pessoas poderiam apresentar alguma justificativa para isso. Nosso Senhor menciona aqueles que habitam nos palácios reais como pessoas que utilizam roupas esplêndidas e não as condena por esse motivo. Isso, porém, certamente não oferece justificativa àqueles que não habitam em palácios.
2. Todos devem, portanto, tomar cuidado para não seguir o exemplo daquele que posteriormente levantou os olhos no Hades. Sigamos o conselho do apóstolo, sendo adornados com boas obras e com o ornamento de um espírito manso e tranquilo.
3. “Todos os dias se regalava esplendidamente.” Quem consegue reconciliar isso com a religião? Sei como os profetas que anunciam coisas agradáveis conseguem falar de modo convincente a favor da hospitalidade, de receber bem os amigos, de manter uma mesa abundante para honrar a religião, promover o comércio e coisas semelhantes. Deus, porém, não se deixa enganar. Não aceitará esses pretextos.
4. Quem quer que participe do pecado daquele rico, ainda que fosse somente o de se regalar esplendidamente todos os dias, participará também de seu castigo, a menos que se arrependa, tão certamente como se já estivesse pedindo uma gota de água para refrescar a língua.
5. “Havia também certo mendigo, chamado Lázaro, que jazia à porta daquele rico, coberto de feridas, desejando alimentar-se das migalhas que caíam da mesa do rico.” Parece, porém, que tanto o rico quanto seus convidados eram religiosos demais para ajudar mendigos comuns! Wesley refere-se a um escritor piedoso que advertia seus leitores contra ajudá-los e a uma orientação semelhante que havia lido no portão da cidade de Winchester. Desejava que os responsáveis por aquela orientação tivessem testemunhado um pequeno acontecimento ocorrido alguns anos antes.
6. Em Epworth, no condado de Lincoln, cidade onde Wesley nasceu, uma mendiga chegou a uma casa na praça do mercado e pediu um pedaço de pão, dizendo que estava com muita fome. O dono mandou-a embora, chamando-a de preguiçosa. Na segunda casa, pediu um pouco de cerveja fraca, dizendo estar com muita sede, e recebeu resposta semelhante. Numa terceira porta, pediu um pouco de água, dizendo estar muito fraca. Aquele homem também se considerava consciencioso demais para incentivar mendigos comuns. Alguns meninos, vendo a mulher vestida de trapos ser rejeitada de porta em porta, começaram a atirar bolas de neve contra ela. Ela olhou para cima, deitou-se e morreu.
7. Você desejaria ser o homem que recusou àquela pobre mulher um pedaço de pão ou um copo de água? “Até os cães vinham lamber-lhe as feridas”, demonstrando maior compaixão do que seu dono. “Aconteceu morrer o mendigo, e ele foi levado pelos anjos para o seio de Abraão.” Ouçam isso, todos vocês que são pobres neste mundo; que muitas vezes não possuem alimento para comer nem roupas para vestir; que não possuem lugar onde repousar a cabeça, a não ser um sótão frio ou um porão úmido e insalubre. Vocês foram reduzidos a pedir auxílio à mão fria da caridade. Levantem, porém, a cabeça. Isso não durará para sempre. Eu amo vocês, tenho compaixão de vocês e admiro sua perseverança quando possuem a alma em paciência. Eu, porém, não consigo ajudá-los plenamente. Existe alguém que pode: o Pai dos órfãos e defensor das viúvas.
8. “O pobre clama, e o Senhor o ouve e o livra de todas as suas angústias.” Dentro de pouco tempo, caso se voltem verdadeiramente para ele, seus anjos os levarão para o seio de Abraão. Ali, já não terão fome nem sede; já não sentirão tristeza nem dor, mas o Cordeiro enxugará dos olhos de vocês todas as lágrimas e os conduzirá às fontes das águas da vida.
9. Observem, porém, a transformação da cena! “O rico também morreu.” O quê? Apesar de suas riquezas? Provavelmente, morreu antes daquilo que desejava, pois como é verdadeira a declaração: “Ó morte, como você é amarga para a pessoa que vive tranquilamente no meio de suas propriedades!” Caso isso pudesse oferecer algum consolo, “foi sepultado”. Pouco importava, porém, se seu corpo havia sido colocado debaixo de monumento grandioso ou numa sepultura simples e sem nome. O que aconteceu depois? “No Hades, levantou os olhos.” Vocês não precisam fazer isso. Deus não exige semelhante coisa de vocês. Ele não deseja que pessoa alguma pereça. Vocês não poderão chegar ali, a menos que escolham deliberadamente entrar naquela região de sofrimento que Deus não preparou para vocês, mas “para o diabo e seus anjos”.
10. Observem novamente a mudança da cena! “Viu ao longe Abraão e Lázaro junto dele.” Reconheceu Lázaro, embora talvez somente tivesse lançado sobre ele um rápido olhar enquanto permanecia à sua porta. Algum de vocês duvida de que conheceremos uns aos outros no outro mundo? Aqui, suas dúvidas poderão encontrar resposta completa. Caso uma alma no Hades reconhecesse Lázaro no paraíso, apesar de tão grande distância, certamente aqueles que estiverem juntos no paraíso reconhecerão perfeitamente uns aos outros.
11. “E, clamando, disse: ‘Pai Abraão, tenha misericórdia de mim!’” Não me recordo de outra oração dirigida a um santo em toda a Bíblia, além desta. Caso observemos quem a realizou — um homem no Hades — e qual foi seu resultado, dificilmente desejaremos seguir seu exemplo. Clamemos por misericórdia a Deus, e não às pessoas! É sábio clamar agora, enquanto estamos na terra da misericórdia. Caso contrário, será tarde demais. “Estou atormentado nesta chama!” Observem: atormentado, não purificado. É esperança inútil imaginar que o fogo possa purificar um espírito. Seria tão razoável esperar que a água lavasse a alma quanto esperar que o fogo a purificasse. Deus nos livre de comprovar semelhante coisa!
12. “Abraão, porém, respondeu: ‘Filho, lembre-se.’” Observem com que linguagem Abraão se dirige a um espírito condenado. Deveríamos tratar com menor ternura qualquer filho de Deus simplesmente porque não possui nossa opinião? “Durante a vida, você recebeu os seus bens.” Tenha cuidado para que esse não seja seu caso! As coisas do mundo não são “seus bens”, os principais objetos de seu desejo e de sua procura? Não constituem sua principal alegria? Caso sejam, você se encontra numa condição extremamente perigosa, na mesma situação em que o rico se encontrava na Terra. Não imagine que tudo esteja bem simplesmente porque é altamente estimado pelas pessoas, não prejudica ninguém, realiza muitas boas obras ou participa de todas as ordenanças de Deus. O que vale tudo isso caso sua alma esteja apegada ao pó, seu coração esteja no mundo e você ame a criatura mais do que o Criador?
13. Como são impressionantes as palavras seguintes! “Além de tudo isso, está posto um grande abismo entre nós e vocês, de modo que os que querem passar daqui para vocês não podem, nem os de lá passar para nós.” Esse foi o texto que deu origem a um epitáfio escrito para um conhecido incrédulo e jogador:
Aqui jaz um jogador que, em dúvida, viveu, Sem saber se a morte a alma destruiu. Sua dúvida terminou; está convencido afinal, Mas o dado foi lançado — e o resultado é fatal!
Bendito seja Deus, porém, porque seu dado ainda não foi lançado. Vocês ainda não atravessaram o grande abismo. Ainda podem escolher se, quando a alma abandonar sua habitação terrena, serão acompanhados por anjos ou por espíritos malignos. Estendam agora a mão para a vida eterna ou para a morte eterna! E Deus diz: “Aconteça com você segundo aquilo que escolher.”
14. Rejeitado nesse pedido, o rico apresenta outro: “Peço que o mande à casa de meu pai, porque tenho cinco irmãos, para que lhes dê testemunho.” Não é impossível que outros espíritos infelizes desejem o bem dos parentes que deixaram. Este, porém, é o tempo aceitável para eles, assim como para nós. Falemos, portanto, pessoalmente com nossos parentes. Peçamos aos amigos vivos que nos ofereçam toda ajuda possível, sem esperar auxílio dos habitantes de outro mundo.
15. Exortemos seriamente nossos familiares a utilizarem os recursos que possuem, a ouvirem “Moisés e os Profetas”. Na realidade, somos inclinados a pensar como aquele espírito infeliz: “Caso alguém dentre os mortos vá até eles, irão arrepender-se.” Abraão, porém, respondeu: “Se não ouvem Moisés e os Profetas, também não se deixarão convencer, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos.”
1. Em terceiro lugar, demonstrarei a verdade dessa importante declaração, primeiramente de maneira breve e, depois, com maior desenvolvimento. Resumindo a questão: é certo que nenhum espírito humano, enquanto permanece no corpo, consegue convencer outra pessoa a se arrepender; consegue produzir nela transformação completa do coração e da vida, passando da perversidade universal para a santidade universal. Suponham que esse espírito seja libertado do corpo: não possuirá maior capacidade de realizar isso do que possuía anteriormente. Nenhum poder inferior àquele que criou inicialmente a alma conseguirá criá-la novamente.
2. Nenhum anjo, muito menos um espírito humano, dentro ou fora do corpo, consegue conduzir uma alma “das trevas para a luz e do poder de Satanás para Deus”. Uma aparição poderia assustá-la profundamente ou convencê-la de alguma verdade intelectual, mas não conseguiria assustá-la até que recebesse vida espiritual. Somente Deus consegue ressuscitar aqueles que estão “mortos em suas transgressões e pecados”.
3. Para demonstrar mais amplamente que, caso as pessoas não ouçam “Moisés e os Profetas”, não serão efetivamente convencidas a se arrepender, ainda que alguém ressuscite dentre os mortos, apresentarei um caso imaginário com todas as vantagens possíveis. Suponham que uma pessoa que não ouve Moisés e os Profetas, isto é, que não acredita que as Escrituras procedam de Deus, esteja profundamente adormecida. De repente, acorda exatamente quando o relógio marca uma hora.
4. Fica surpresa ao observar que seu quarto está tão iluminado quanto ao meio-dia. Olha para cima e vê ao lado da cama alguém que conhecia perfeitamente. Embora inicialmente fique assustada, logo recupera a coragem e pergunta: “Você não é meu amigo, que morreu em determinada data?” A figura responde: “Sou eu. Vim da parte de Deus com uma mensagem para você. Frequentemente, você desejou ver alguém que tivesse ressuscitado dos mortos e afirmou que, nesse caso, se arrependeria.”
5. “Seu desejo foi atendido. Fui enviado para informar-lhe que está procurando a morte por meio do erro de sua vida. Caso morra na condição atual, morrerá eternamente. Advirto-o, em nome de Deus, de que as Escrituras são verdadeiramente sua Palavra; de que, desde o momento da morte, você será profundamente feliz ou indescritivelmente infeliz; de que não poderá ser feliz depois da morte, a menos que seja santo aqui; e de que não poderá ser santo, a menos que nasça de novo. Receba este chamado de Deus! A eternidade está próxima. Arrependa-se e creia no evangelho!” Depois de pronunciar essas palavras, a figura desaparece, e o quarto volta a ficar escuro.
6. É fácil acreditar que seria impossível a pessoa não ficar convencida naquele momento. Não voltaria a dormir naquela noite e, assim que possível, contaria à família aquilo que havia visto e ouvido. Não satisfeita com isso, ficaria ansiosa para comunicá-lo aos antigos companheiros. Provavelmente, observando a seriedade com que falava, eles não a contradiriam imediatamente. Diriam uns aos outros: “Dê-lhe tempo para se acalmar; depois, voltará a ser uma pessoa racional.”
7. Verifica-se constantemente, porém, que as impressões produzidas na memória diminuem gradualmente. Tornam-se cada vez mais fracas com o passar do tempo, e seus vestígios ficam progressivamente menos perceptíveis. O mesmo aconteceria nesse caso. Percebendo isso, seus companheiros aproveitariam a oportunidade. Diriam: “Foi estranho o relato que você nos apresentou algum tempo atrás, especialmente porque sabemos que é uma pessoa sensata e não possui inclinação para o fanatismo. Talvez, porém, não tenha considerado plenamente como, em algumas situações, é difícil distinguir os sonhos dos pensamentos que experimentamos enquanto estamos despertos. Alguém conseguiu descobrir critério infalível para distingui-los? Não seria possível que você estivesse dormindo quando aquela impressão tão viva foi produzida em sua mente?”
8. Depois de levá-la a pensar que talvez tivesse sido um sonho, logo a convenceriam de que provavelmente fora sonho e, pouco depois, de que certamente fora sonho. Tão pouco adiantaria alguém ter vindo dos mortos!
9. Não se poderia esperar resultado diferente. Qual foi o efeito produzido sobre essa pessoa? Primeiramente, ficou profundamente assustada. Em segundo lugar, o medo abriu caminho para convicção mais profunda da verdade anunciada. Seu coração, porém, não foi transformado. Somente o Todo-Poderoso conseguiria realizar isso. Consequentemente, a inclinação de sua alma continuaria voltada para a direção errada. Ainda amaria o mundo e, por isso, desejaria que as Escrituras não fossem verdadeiras. À medida que o medo diminuísse, como seria fácil voltar a acreditar naquilo em que desejava acreditar! A conclusão é clara e inegável: caso as pessoas não ouçam Moisés e os Profetas, não serão convencidas a arrepender-se e crer no evangelho, ainda que alguém ressuscite dentre os mortos.
10. Podemos acrescentar mais uma consideração que resolve completamente a questão. Antes ou aproximadamente no mesmo período em que o Lázaro da narrativa foi levado ao seio de Abraão, outro Lázaro, irmão de Marta e Maria, realmente ressuscitou dentre os mortos. Aqueles que acreditaram nesse fato foram convencidos a se arrepender? Estiveram tão distantes disso que “resolveram matar também Lázaro”, juntamente com seu Mestre. Abandonemos, portanto, a imaginação sem fundamento de que aqueles que não ouvem Moisés e os Profetas seriam convencidos, ainda que alguém ressuscitasse dentre os mortos!
11. De todo o assunto, podemos extrair esta conclusão geral: a revelação permanente das Escrituras é o melhor meio para produzir convicção racional, sendo muito superior a todos os meios extraordinários que algumas pessoas imaginam ser mais eficazes. Nossa sabedoria consiste em aproveitar plenamente essa revelação, fazendo com que seja lâmpada para os nossos pés e luz para todos os nossos caminhos. Cuidemos para que todo o coração e toda a vida estejam em conformidade com ela; para que seja regra constante de todas as nossas disposições, palavras e ações. Assim conservaremos em todas as coisas o testemunho de uma boa consciência diante de Deus e, quando nossa carreira terminar, também seremos levados pelos anjos para o seio de Abraão.
Birmingham, 25 de março de 1788.
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.