SERMÃO 57
Sobre a queda do homem
A origem do mal — e o remédio universal em Cristo.
“Você é pó e ao pó voltará.”
(Gn 3.19, NAA)Antes de ler
Este sermão é o par teológico do anterior: se o 56 mostrou a criação "muito boa", este explica como ela se desordenou. A pergunta que abre tudo é a mais antiga do coração humano: por que há dor no mundo, se Deus é amor? A resposta de Wesley é límpida — há dor porque há pecado; e há pecado porque o homem foi criado livre. A liberdade que nos faz à imagem de Deus é a mesma que tornou possível a queda; sem ela não haveria virtude nem santidade, mas também não haveria a possibilidade do mal. Repare no acento profundamente wesleyano e arminiano: Deus não retirou a liberdade que dera; o homem "não foi enganado" — Adão pecou de olhos abertos. Mas o coração do sermão está no fim, e é pura esperança. Wesley não para na queda: mostra o remédio universal para o mal universal — o segundo Adão que morre por todos os que morreram no primeiro. E vai além, com aquela ousadia que chamamos felix culpa, a "culpa feliz": onde o pecado abundou, superabundou a graça; podemos, em Cristo, ganhar mais do que perdemos, pois sem a queda não teria havido Redentor a amar. Uma nota de leitura: a fisiologia do §5 (o endurecimento das artérias pelo acúmulo de "terra") é a ciência do século XVIII; leia-a como ilustração, não como manual. O hino de Charles Wesley encerra em louvor ao Cordeiro.
— Bispo Ildo Mello
1. Por que há dor no mundo, visto que Deus é “bondoso para com todos, e a sua misericórdia está sobre todas as suas obras”? Porque há pecado. Não houvesse pecado, não haveria dor. Mas a dor (suposto que Deus é justo) é o efeito necessário do pecado. E por que há pecado no mundo? Porque o homem foi criado à imagem de Deus: porque ele não é mera matéria, um torrão de terra, um bloco de barro sem sentido nem entendimento, mas um espírito semelhante ao seu Criador, um ser dotado não só de sentido e entendimento, mas também de uma vontade que se manifesta em vários afetos. E, para coroar tudo, foi dotado de liberdade — o poder de dirigir os próprios afetos e ações, a capacidade de determinar-se, de escolher o bem ou o mal. De fato, se o homem não tivesse recebido isto, todo o resto de nada serviria: se não fosse um ser livre, além de inteligente, o seu entendimento seria tão incapaz de santidade, ou de qualquer virtude, quanto uma árvore ou um bloco de mármore. E, tendo esse poder de escolher o bem ou o mal, ele escolheu o mal. Assim, “o pecado entrou no mundo”, e com ele toda espécie de dor, como preparação para a morte.
2. Mas este relato simples da origem do mal, natural ou moral, toda a sabedoria humana não conseguiu descobrir, até que aprouve a Deus revelá-lo ao mundo. Até então o homem era um enigma para si mesmo, um mistério que só Deus podia decifrar. E de que modo pleno e satisfatório ele o decifrou neste capítulo! De maneira que não serve para satisfazer a vã curiosidade, mas é mais que suficiente para um fim mais nobre: “justificar os caminhos de Deus para com os homens”. Para este grande fim, considerarei, primeiro, brevemente a parte anterior deste capítulo; e, segundo, pesarei mais de perto as solenes palavras já citadas.
I. O relato da queda
1. Consideremos, primeiro, a parte anterior deste capítulo. “A serpente era mais astuta”, ou inteligente, “que todos os animais do campo que o Senhor Deus tinha feito” (Gn 3.1) — dotada de mais entendimento que qualquer outro animal da criação. Não é improvável a conjetura de um homem engenhoso, de que a serpente fosse dotada da razão que hoje é propriedade do homem. E isto explica uma circunstância que, sob qualquer outra suposição, seria de todo ininteligível: como não se espanta Eva — sim, como não se assusta e aterroriza — ao ouvir a serpente falar e raciocinar, a menos que soubesse que a razão, e a fala que dela decorre, eram propriedades originais da serpente? Por isso, sem mostrar surpresa alguma, ela entra logo em conversa com ela. “E a serpente disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comam de toda árvore do jardim?” Veja como aquele que “foi mentiroso desde o princípio” mistura verdade e falsidade! Talvez de propósito, para que ela se inclinasse mais a falar, a fim de defender Deus da acusação injusta. E a mulher respondeu: “Do fruto das árvores do jardim podemos comer; mas do fruto da árvore que está no meio do jardim disse Deus: Dele não comam, nem toquem, para que não morram.” Até aqui ela parece isenta de culpa. Mas por quanto tempo assim permaneceu? “Então a serpente disse à mulher: É certo que vocês não morrerão; porque Deus sabe que, no dia em que dele comerem, se abrirão os olhos de vocês e serão como Deus, conhecedores do bem e do mal” (Gn 3.4–5). Aqui começou o pecado: a incredulidade. “A mulher foi enganada”, diz o apóstolo. Ela creu numa mentira; deu mais crédito à palavra do diabo que à palavra de Deus. E a incredulidade gerou o pecado de fato: “Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e desejável para dar entendimento, tomou do fruto e comeu”, e assim completou o seu pecado. Mas “o homem”, observa o apóstolo, “não foi enganado”. Como, então, veio a unir-se à transgressão? “Ela deu também ao marido, e ele comeu.” Ele pecou de olhos abertos. Rebelou-se contra o seu Criador, ao que tudo indica, não movido por razão mais forte, mas cedendo por afeição aos encantos da mulher. E, se assim foi, não há absurdo na afirmação de um grande homem: que “Adão pecou no coração antes de pecar por fora, antes de comer do fruto proibido” — a saber, por uma idolatria interior, amando a criatura mais que o Criador.
2. Logo a dor seguiu o pecado. Ao perder a inocência, ele perdeu a felicidade. Passou a temer, com dor, aquele Deus em cujo amor antes consistia a sua suprema felicidade. “Ele disse: Ouvi a tua voz no jardim e tive medo” (Gn 3.10). Fugiu daquele que era, até então, o seu desejo, a sua glória e a sua alegria. “Escondeu-se da presença do Senhor Deus, entre as árvores do jardim.” Escondeu-se! De quem? Do olho que tudo vê, que num relance percorre o céu e a terra! Veja como o seu entendimento também se corrompeu! Que espantosa insensatez foi esta! Tão pavorosamente foi o seu “coração insensato entenebrecido” pelo pecado, pela culpa, pela tristeza e pelo medo. Perdeu a inocência e, ao mesmo tempo, a felicidade e a sabedoria. Eis a resposta clara e inteligível àquela pergunta: “Como entrou o mal no mundo?”
3. Não se pode deixar de observar, em toda esta narração, a indizível ternura e brandura do Criador todo-poderoso, contra quem eles se haviam revoltado. “E o Senhor Deus chamou o homem e lhe perguntou: Onde você está?” — chamando-o assim graciosamente a voltar, quando ele, de outro modo, teria fugido de Deus para sempre. “Ele respondeu: Ouvi a tua voz no jardim e tive medo, porque estava nu.” Ainda aqui não há reconhecimento da falta, nem humilhação por ela. Mas com que assombrosa ternura Deus o conduz a esse reconhecimento! “Quem lhe fez saber que estava nu? Você comeu da árvore de que lhe ordenei que não comesse?” “E o homem”, ainda não humilhado, antes lançando indiretamente a culpa sobre o próprio Deus, disse: “A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e eu comi.” “E o Senhor Deus”, ainda para levá-los ao arrependimento, “perguntou à mulher: Que é isto que você fez?” “E a mulher respondeu”, declarando a coisa como era: “A serpente me enganou, e eu comi.” “Então o Senhor Deus disse à serpente”, para testemunhar o seu absoluto horror ao pecado: “Você é maldita entre todos os animais. E porei inimizade entre você e a mulher, entre a sua descendência e o descendente dela; este lhe ferirá a cabeça, e você lhe ferirá o calcanhar.” Assim, no meio do juízo, Deus se lembrou da misericórdia, desde o princípio do mundo, ligando a grande promessa de salvação à própria sentença de condenação!
4. “À mulher disse: Multiplicarei sobremaneira o sofrimento da sua gravidez; em meio a dores dará à luz filhos” — sim, acima de qualquer outra criatura; maldição original que vemos recair sobre a sua mais tardia posteridade. “O seu desejo será para o seu marido, e ele a governará.” Parece que a última parte desta sentença explica a primeira. Havia, até então, outra inferioridade da mulher em relação ao homem, senão a que podemos conceber entre um anjo e outro? “E ao homem disse: Visto que você deu ouvidos à voz de sua mulher e comeu da árvore de que lhe ordenei que não comesse, maldita é a terra por sua causa; espinhos e abrolhos ela lhe produzirá” — produções inúteis, e até nocivas, ao passo que nada capaz de ferir ou causar dor tinha, no princípio, lugar algum na criação. “Você comerá a erva do campo” — grosseira e vil, comparada aos deliciosos frutos do paraíso! “No suor do rosto comerá o seu pão, até que volte à terra, pois dela foi tomado; porque você é pó e ao pó voltará.”
II. “Pó és tu” — o peso destas palavras
1. Pesemos agora estas solenes palavras mais de perto. “Você é pó.” Mas quão assombrosa e maravilhosamente esse pó foi trabalhado em inúmeras fibras, nervos, membranas, músculos, artérias, veias e vasos de vários tipos! E quão espantosamente esse pó se conecta com a água, com fluidos que circulam encerrados, diversificados de mil modos por mil tubos e filtros! Sim, e quão maravilhosamente o ar está impelido em cada parte, sólida ou fluida, da máquina animal — ar não elástico, que a despedaçaria, mas fixo. Nada disso, porém, valeria, se o fogo etéreo não estivesse intimamente misturado com esta terra, este ar e esta água. E todos esses elementos estão combinados na mais exata proporção, de modo que, enquanto o corpo está com saúde, nenhum deles predomina, no mínimo grau, sobre os outros.
2. Tal era o homem, quanto à parte corpórea, ao sair das mãos do seu Criador. Mas, desde que pecou, ele não é apenas pó, mas pó mortal e corruptível. E por triste experiência achamos que este “corpo corruptível oprime a alma”. Com muita frequência estorva a alma nas suas operações e, na melhor das hipóteses, a serve muito imperfeitamente. Contudo, a alma não pode dispensar o seu serviço, por imperfeito que seja: pois um espírito encarnado não pode formar um só pensamento senão pela mediação dos órgãos do corpo. Pois pensar não é, como muitos supõem, o ato de um espírito puro, mas o ato de um espírito ligado a um corpo, tocando um teclado material. Não pode, portanto, produzir melhor música do que a natureza e o estado dos seus instrumentos permitem. Por isso, toda desordem do corpo, sobretudo das partes mais diretamente ligadas ao pensar, levanta uma barreira quase intransponível ao pensar com retidão. Daí a máxima recebida em todas as eras: errar e ignorar é próprio do homem. Não só a ignorância (que pertence, em maior ou menor grau, a toda criatura, pois nenhuma é onisciente, exceto o Criador), mas também o erro é herança de todo filho de homem. O engano, tanto quanto a ignorância, é, no nosso estado presente, inseparável da humanidade. Todo filho de homem está em mil enganos, e sujeito a novos enganos a cada momento. E um engano no juízo pode ocasionar um engano na prática. Engano-me, e talvez não possa evitar enganar-me, quanto ao caráter deste ou daquele homem: suponho-o melhor ou pior do que realmente é; e, sobre essa suposição errada, comporto-me mal com ele. Tal é a condição presente da natureza humana, de uma mente dependente de um corpo mortal.
3. “E ao pó voltará.” Quão admiravelmente o sábio Criador assegurou a execução desta sentença sobre toda a descendência de Adão! É verdade que se dignou fazer uma exceção a esta regra geral, numa era muito antiga, em favor de um homem eminentemente justo. Assim lemos (Gn 5.23–24) que, depois de Enoque haver “andado com Deus” trezentos e sessenta e cinco anos, “já não era, porque Deus o tomou para si” — isentou-o da sentença passada sobre toda carne e o levou vivo ao céu. Muitas eras depois, aprouve-lhe fazer uma segunda exceção, mandando o profeta Elias ser arrebatado ao céu num carro de fogo, muito provavelmente por um cortejo de anjos. E não é improvável que tenha julgado bom fazer uma terceira exceção na pessoa do discípulo amado. Chegou-nos um relato particular da velhice do apóstolo João, mas não temos relato algum da sua morte, nem a menor indicação a respeito. Daí podermos razoavelmente supor que ele não morreu, mas que, terminada a sua carreira, o Senhor o tomou, como fizera a Enoque.
4. Mas, postas de lado essas duas ou três exceções, quem foi capaz, no curso de quase seis mil anos, de escapar à execução desta sentença passada sobre Adão e toda a sua posteridade? Por mais senhores que sejam da arte de curar, podem os homens impedir ou curar os graduais declínios da natureza? Pode toda a sua propalada perícia curar a velhice, ou impedir que o pó volte ao pó? Aliás, quem, entre os maiores mestres da medicina, foi capaz de acrescentar um século aos próprios anos, ou de prolongar a própria vida algum espaço considerável além do termo comum? Os dias do homem, por mais de três mil anos, foram fixados, por um cálculo médio, em setenta anos. Quão poucos chegam aos oitenta! Talvez um em quinhentos. Tão pouco vale a arte do homem contra o decreto de Deus!
5. Deus, de fato, proveu a execução do seu próprio decreto nos próprios princípios da nossa natureza. É bem sabido que o corpo humano, ao vir ao mundo, consiste em inúmeras membranas finíssimas, cheias de fluido circulante, em relação ao qual as partes sólidas guardam proporção muito pequena. Nos tubos formados por essas membranas, o alimento deve ser continuamente infundido, do contrário a vida não pode continuar. E, embora esse alimento seja líquido e, ao fluir por esses finos canais, os dilate continuamente, ele contém inúmeras partículas sólidas que aderem sem cessar à superfície interna dos vasos por onde passam; de modo que, na mesma proporção em que um vaso se dilata, também se enrijece. Assim o corpo se torna mais firme à medida que cresce, da infância à idade adulta. Em vinte, vinte e cinco ou trinta anos, atinge a plena medida da sua firmeza. Nos vinte ou trinta anos seguintes, embora mais e mais partículas de terra continuem a aderir, o enrijecimento daí resultante é pouco perceptível. Mas, depois dos sessenta anos (mais ou menos, conforme a constituição e mil circunstâncias), a mudança se percebe facilmente, até na superfície do corpo. As rugas mostram que a proporção dos fluidos diminuiu, como também a secura da pele. As extremidades esfriam, à medida que os vasos menores se entopem e já não admitem o fluido circulante. Na velhice extrema, as próprias artérias, grandes instrumentos da circulação, pela contínua deposição de terra, tornam-se duras e como que ósseas, até que, perdido o poder de contrair-se, já não podem impelir o sangue nem pelos maiores canais; e disto resulta naturalmente a morte. Assim estão semeadas as sementes da morte na nossa própria natureza! Assim, desde a hora em que aparecemos no palco da vida, viajamos rumo à morte, preparando-nos, queiramos ou não, para voltar ao pó de onde viemos!
6. Façamos agora uma breve revisão do todo, tal como é narrado com inimitável simplicidade — o que uma pessoa sem preconceito poderia, só por isto, inferir ser a palavra de Deus. Naquele momento da duração que ele viu ser o mais próprio (do qual só ele podia ser juiz, cujo olhar abrange toda a possibilidade das coisas de eternidade a eternidade), o Todo-Poderoso, erguendo-se na grandeza da sua força, saiu a criar o universo. “No princípio, criou” — fez do nada — “a matéria dos céus e da terra.” Depois, “o Espírito”, ou sopro, “do Senhor”, isto é, o ar, “movia-se sobre a face das águas”. Eis terra, água e ar, três dos elementos do mundo inferior. “E disse Deus: Haja luz; e houve luz.” Pela sua palavra criadora, a luz, isto é, o fogo, o quarto elemento, saltou ao ser. Destes, variamente modificados e proporcionados entre si, ele compôs o todo. “A terra produziu a erva, e as árvores frutíferas segundo a sua espécie”; e então as várias tribos de animais, para habitar as águas, o ar e a terra. Mas faltava ainda uma criatura de posição superior, capaz de sabedoria e santidade. E “criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou”! Note a repetição enfática. Deus não o fez mera matéria, um pedaço de barro insensível, mas um espírito semelhante a si, embora revestido de um veículo material. Como tal, foi dotado de entendimento, de vontade com vários afetos, e de liberdade — o poder de usá-los de modo reto ou errado, de escolher o bem ou o mal. De outro modo, nem o entendimento nem a vontade teriam finalidade alguma, pois ele seria tão incapaz de virtude quanto o tronco de uma árvore. Adão, em quem toda a humanidade estava então contida, livremente preferiu o mal ao bem. Escolheu fazer a própria vontade, e não a do seu Criador. “Não foi enganado”, mas rebelou-se consciente e deliberadamente contra o seu Pai e Rei. Naquele instante perdeu a imagem moral de Deus e, em parte, a natural: tornou-se ímpio, insensato e infeliz. E “em Adão todos morreram”: ele transmitiu a toda a sua posteridade o erro, a culpa, a tristeza, o medo, a dor, as doenças e a morte.
7. Quão exatamente os fatos, tudo o que nos rodeia, até a face do mundo inteiro, concordam com este relato! Abra os olhos! Olhe em volta! Veja trevas que se podem apalpar; veja a ignorância e o erro; veja o vício em dez mil formas; veja a consciência da culpa, o medo, a tristeza, a vergonha e o remorso a cobrir a face da terra! Veja a miséria, filha do pecado. Veja, por toda parte, a doença e a dor, habitantes de toda nação debaixo do céu, empurrando os pobres e desamparados filhos dos homens, em toda era, para as portas da morte! Assim têm feito quase desde o princípio do mundo; assim farão até a consumação de todas as coisas.
8. Mas pode o Criador desprezar a obra das suas próprias mãos? Por certo isto é impossível! Não terá ele, então, sendo o único que pode, provido um remédio para todos esses males? Sim, providenciou-o! E um remédio suficiente, adequado em tudo à doença. Cumpriu a sua palavra: deu “o descendente da mulher para ferir a cabeça da serpente”. “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” Eis o remédio para toda a nossa culpa: ele “levou os nossos pecados no seu corpo, sobre o madeiro”. E, “se alguém pecar, temos um Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo”. E eis o remédio para toda a nossa doença, toda a corrupção da nossa natureza. Pois Deus também, pela intercessão do seu Filho, nos deu o seu Espírito Santo, para nos renovar tanto “no conhecimento”, na sua imagem natural — abrindo os olhos do nosso entendimento —, quanto na sua imagem moral, a saber, “na justiça e na santidade da verdade”. E, uma vez feito isto, sabemos que “todas as coisas cooperam para o nosso bem”. Sabemos, por feliz experiência, que todos os males naturais mudam de natureza e se convertem em bem; que a tristeza, a doença e a dor se tornarão remédios para curar a nossa enfermidade espiritual, tornando-nos mais largamente “participantes da sua santidade” enquanto estamos na terra, e acrescentando outras tantas estrelas àquela coroa que nos está reservada no céu.
9. Contemple, então, a justiça e a misericórdia de Deus! A sua justiça, ao punir o pecado sobre Adão e toda a sua posteridade; e a sua misericórdia, ao prover um remédio universal para um mal universal, designando o segundo Adão para morrer por todos os que haviam morrido no primeiro — para que, “assim como em Adão todos morreram, também em Cristo todos” fossem “vivificados”; para que, “assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação que dá vida” — “justificação que dá vida”, por estar ligada ao novo nascimento, o começo da vida espiritual, que nos conduz, pela vida de santidade, à vida eterna, à glória.
10. E cabe observar particularmente que, “onde o pecado abundou, superabundou a graça”. Pois o dom gratuito não é como a condenação; podemos ganhar infinitamente mais do que perdemos. Podemos agora alcançar graus mais altos de santidade e de glória do que nos teria sido possível alcançar. Se Adão não tivesse pecado, o Filho de Deus não teria morrido; por consequência, aquele assombroso exemplo do amor de Deus ao homem jamais teria existido — o que, em todas as eras, despertou a mais alta alegria, amor e gratidão nos seus filhos. Poderíamos ter amado a Deus Criador, Preservador e Governador; mas não haveria lugar para o amor a Deus Redentor. A mais alta glória e alegria dos santos, na terra e no céu — Cristo crucificado —, teria faltado. Não poderíamos, então, louvá-lo por, “sendo em forma de Deus, se ter esvaziado, tomando a forma de servo, e se ter feito obediente até a morte, e morte de cruz!” Este é agora o mais nobre tema de todos os filhos de Deus na terra; sim, podemos afirmar sem escrúpulo, até dos anjos e de toda a multidão do céu:
“Aleluia!”, clamam eles,
“Ao Rei do céu,
ao grande e eterno EU SOU;
ao Cordeiro que foi morto
e vive outra vez —
aleluia a Deus e ao Cordeiro!”
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.