SERMÃO 59

O amor de Deus ao homem caído

A "culpa feliz": por que a queda nos abriu um bem maior do que o mal que trouxe.

Rm 5.15, NAA ⏱ 18 min de leituraDeus, criação e providência

“Mas o dom gratuito não é como a ofensa.”

(Rm 5.15, NAA)

Antes de ler

Este sermão leva ao ponto máximo o argumento que Wesley esboçou no anterior. Todos culpam Adão — e, muitas vezes, por trás dele, culpam Deus: por que o Criador permitiu a queda, se a previa? A resposta de Wesley é ousada e consoladora: Deus a permitiu porque, no todo, dela resultaria muito mais bem do que mal. É a antiga intuição da felix culpa, a "culpa feliz". Ele a desenvolve em duas frentes. Na terra, a queda tornou possível uma santidade e uma felicidade que de outro modo não existiriam: sem a queda, Cristo não teria morrido, e não haveria como amar a Deus Redentor, nem fé no sangue de Cristo, nem as virtudes que só nascem no sofrimento — paciência, mansidão, resignação, misericórdia para com o próximo. No céu, essa mesma santidade e essas mesmas obras se converterão em glória maior. Guarde, porém, a chave que fecha tudo e que nos é tão cara: Wesley nega frontalmente qualquer decreto que condene multidões ao fogo eterno por causa do pecado de Adão — "tal decreto jamais existiu", diz ele; "ninguém jamais foi ou pode ser perdedor, senão por sua própria escolha". A queda abre a possibilidade de um bem imenso; quem se perde, perde-se por recusar a graça, não por decreto. O sermão é entremeado de hinos de Charles Wesley, que preservei.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1. Quão comum, e quão amargo, é o clamor contra o nosso primeiro pai pelo dano que não só trouxe sobre si, mas legou à sua mais tardia posteridade! Foi pela sua deliberada rebelião contra Deus que “o pecado entrou no mundo”. “Pela desobediência de um só homem”, como observa o apóstolo, “muitos” — quantos estavam então nos lombos do seu antepassado — “foram feitos”, ou constituídos, “pecadores”: não só privados do favor de Deus, mas também da sua imagem, de toda virtude, justiça e verdadeira santidade; e afundados, em parte, na imagem do diabo — no orgulho, na malícia e em todos os demais ânimos diabólicos —, em parte na imagem do bruto, caídos sob o domínio de paixões brutais e apetites rasteiros. Daí também a morte entrou no mundo, com todos os seus arautos e cortejos: a dor, a doença e toda uma sequência de paixões inquietas, além de ímpias.

2. “Por tudo isto podemos agradecer a Adão” — assim se repete, de geração em geração. A mesmíssima acusação foi repetida em toda era e nação onde os oráculos de Deus são conhecidos. Não terá o seu coração, e provavelmente também os seus lábios, se unido à acusação geral? Quão poucos há, dos que creem no relato bíblico da queda, que não tenham nutrido o mesmo pensamento a respeito do nosso primeiro pai, condenando-o severamente por, pela deliberada desobediência ao único mandamento do seu Criador, ter “trazido a morte ao mundo, e toda a nossa desgraça”!

3. Aliás, ainda bem seria se a acusação parasse aí; mas é certo que não para. Não se pode negar que ela muitas vezes desliza de Adão para o seu Criador. Não terão milhares, mesmo dos que se chamam cristãos, tomado a liberdade de pôr em questão a misericórdia de Deus — se não também a sua justiça — por esta mesma razão? Alguns perguntaram sem rodeios: “Não previu Deus que Adão abusaria da sua liberdade? E não conhecia as funestas consequências que isto naturalmente teria sobre toda a sua posteridade? Por que, então, permitiu aquela desobediência? Não era fácil ao Todo-Poderoso impedi-la?” Ele certamente previu tudo. Isto não se pode negar, pois “conhecidas são de Deus, desde a eternidade, todas as suas obras”. E estava sem dúvida em seu poder impedi-la, pois tem todo o poder no céu e na terra. Mas ao mesmo tempo lhe era conhecido que, no todo, era melhor não impedi-la. Ele sabia que “não é assim o dom gratuito como a ofensa”; que o mal resultante desta não se compara ao bem resultante daquele. Viu que permitir a queda do primeiro homem era, de longe, o melhor para a humanidade em geral; que muito mais bem do que mal adviria à posteridade de Adão por sua queda; que, se por ela “o pecado abundou” sobre toda a terra, “muito mais superabundou a graça” — sim, e a cada indivíduo da raça humana, a menos que fosse por sua própria escolha.

4. É muito estranho que quase nada se tenha escrito, ou ao menos publicado, sobre este assunto; que tão pouco tenha sido pesado ou compreendido pela generalidade dos cristãos — sobretudo considerando que não é matéria de mera curiosidade, mas verdade da mais profunda importância, sendo impossível, sob qualquer outro princípio, “afirmar uma Providência bondosa e justificar os caminhos de Deus para com os homens”. Que o Amigo dos homens abra os olhos do nosso entendimento, para percebermos com clareza que, pela queda de Adão, a humanidade em geral ganhou a capacidade, primeiro, de ser mais santa e mais feliz na terra, e, segundo, de ser mais feliz no céu, do que de outro modo poderia ser.

I. Mais santos e mais felizes na terra

1. Primeiro, a humanidade em geral ganhou, pela queda de Adão, a capacidade de alcançar mais santidade e felicidade na terra do que lhe teria sido possível se Adão não houvesse caído. Pois, se Adão não tivesse caído, Cristo não teria morrido. Nada pode ser mais claro, mais inegável do que isto. A menos que todos os participantes da natureza humana tivessem recebido aquela ferida mortal em Adão, não teria sido necessário que o Filho de Deus assumisse a nossa natureza. Não vê você que este foi o próprio fundamento da sua vinda ao mundo? “Por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte; e assim a morte passou a todos” (Rm 5.12). Não foi para remediar exatamente isto que “a Palavra se fez carne”, para que “assim como em Adão todos morreram, também em Cristo todos” fossem “vivificados”? A menos, então, que muitos tivessem sido feitos pecadores pela desobediência de um, pela obediência de um muitos não teriam sido feitos justos (Rm 5.19). Não teria havido lugar para aquele assombroso mostruário do amor do Filho de Deus à humanidade; não teria havido ocasião para ele ser “obediente até a morte, e morte de cruz”. Não se poderia então ter dito, para o assombro de todas as hostes do céu: “Deus amou o mundo de tal maneira” — sim, o mundo ímpio, que não tinha pensamento nem desejo de voltar para ele — “que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” Nem poderíamos então dizer: “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo”; ou que ele “o fez pecado” — isto é, oferta pelo pecado — “por nós, aquele que não conheceu pecado, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus”.

2. Qual é a consequência necessária disto? Esta: não poderia então haver tal coisa como fé em Deus que assim ama o mundo, dando o seu único Filho por nós, homens, e para a nossa salvação. Não poderia haver fé no Filho de Deus, como aquele que “nos amou e se entregou por nós”. Não poderia haver fé no Espírito de Deus, como aquele que renova em nós a imagem de Deus, levantando-nos da morte do pecado para a vida da justiça. Aliás, todo o privilégio da justificação pela fé não poderia existir; não poderia haver redenção no sangue de Cristo, nem Cristo poderia ter sido “feito por Deus, para nós, sabedoria, justiça, santificação e redenção”.

3. E o mesmo grande vazio que haveria na nossa fé haveria também no nosso amor. Poderíamos ter amado o Autor do nosso ser, o Pai dos anjos e dos homens, como nosso Criador e Preservador; poderíamos ter dito: “Ó Senhor, Soberano nosso, quão magnífico é o teu nome em toda a terra!” Mas não poderíamos tê-lo amado sob a mais chegada e querida relação — como aquele que entregou o seu Filho por todos nós. Poderíamos ter amado o Filho de Deus, como “o resplendor da glória do Pai, a expressão exata do seu ser”; mas não poderíamos tê-lo amado como aquele que “levou os nossos pecados no seu corpo, sobre o madeiro”. Não poderíamos ter sido “feitos conformes à sua morte”, nem conhecer “o poder da sua ressurreição”. Não poderíamos ter amado o Espírito Santo, como aquele que nos revela o Pai e o Filho, que abre os olhos do nosso entendimento, que nos traz das trevas para a sua maravilhosa luz, que renova em nós a imagem de Deus e nos sela para o dia da redenção. De modo que, na verdade, aquilo que agora é, “diante de Deus, o Pai, a religião pura e sem mácula”, então não teria existência alguma, visto que depende inteiramente daqueles grandes princípios: “Pela graça sois salvos, mediante a fé”; e: “Cristo Jesus foi feito por Deus, para nós, sabedoria, justiça, santificação e redenção.”

4. Vemos, então, que indizível vantagem tiramos da queda do nosso primeiro pai no tocante à fé — fé tanto em Deus Pai, que não poupou o seu próprio Filho, mas o “feriu pelas nossas transgressões” e o “moeu pelas nossas iniquidades”, quanto em Deus Filho, que derramou a sua alma por nós, transgressores, e nos lavou no seu próprio sangue. Vemos que vantagem daí tiramos no tocante ao amor de Deus — tanto de Deus Pai quanto de Deus Filho. O principal fundamento deste amor, enquanto permanecemos no corpo, é declarado claramente pelo apóstolo: “Nós o amamos, porque ele nos amou primeiro.” Mas o maior exemplo do seu amor jamais teria sido dado, se Adão não houvesse caído.

5. E, assim como a nossa fé em Deus Pai e no Filho recebe deste grande acontecimento um incremento indizível, se não o próprio ser, o mesmo se dá com o amor ao próximo, a nossa benevolência para com toda a humanidade, que não pode senão crescer na mesma proporção da nossa fé e do nosso amor a Deus. Pois quem não percebe a força daquela conclusão do apóstolo do amor: “Amados, se Deus assim nos amou, também nós devemos amar uns aos outros”? Se Deus assim nos amou — note, o peso do argumento está neste ponto —, a ponto de entregar o seu único Filho a uma morte maldita pela nossa salvação. Amados, que espécie de amor é este com que Deus nos amou, a ponto de dar o seu único Filho, em glória igual ao Pai? E que espécie de amor é este com que o Filho unigênito nos amou, a ponto de esvaziar-se, tanto quanto possível, da sua eterna divindade, tomando a forma de servo e, achado na forma de homem, humilhando-se ainda mais, “sendo obediente até a morte, e morte de cruz”! Se Deus assim nos amou, como devemos nós amar uns aos outros! Mas este motivo do amor fraterno teria faltado por completo, se Adão não houvesse caído. Nem poderia haver aquela altura e profundidade no mandamento do nosso bendito Senhor: “Assim como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros.”

6. Tais ganhadores podemos ser pela queda de Adão, no tocante ao amor de Deus e do próximo. Mas há outro grande ponto que, embora pouco notado, merece a nossa mais profunda consideração. Por aquele único ato do nosso primeiro pai, não só “o pecado entrou no mundo”, mas também a dor. E, no entanto, aqui reluz não só a justiça, mas a indizível bondade de Deus. Pois quanto bem ele continuamente tira deste mal! Quanta santidade e felicidade tira da dor!

7. Quão inumeráveis são os benefícios que Deus transmite aos filhos dos homens pelo canal do sofrimento! De modo que bem se poderia dizer: “O que na linguagem dos homens se chama aflição, na linguagem de Deus se chama bênção.” De fato, não houvesse sofrimento no mundo, uma parte considerável da religião — sim, em certos aspectos, a mais excelente — não teria nele lugar, pois a sua própria existência depende do nosso sofrer. Sobre este fundamento se edificam todas as nossas graças passivas; sim, a mais nobre de todas as graças cristãs — o amor que tudo suporta. Aqui está o fundamento da resignação a Deus, que nos capacita a dizer do coração, em toda hora de prova: “É o Senhor; faça o que bem lhe parecer”; “Se recebemos o bem da mão de Deus, não receberemos também o mal?” E que glorioso espetáculo é este! Não constrangeu até um pagão a exclamar: “Eis um espetáculo digno de Deus” — um homem bom lutando com a adversidade e superior a ela! Aqui está o fundamento da confiança em Deus. Que lugar haveria para a confiança em Deus, se não houvesse dor nem perigo? É pelo sofrimento que a nossa fé é provada e, portanto, torna-se mais aceitável a Deus. É no dia da angústia que temos ocasião de dizer: “Ainda que ele me mate, nele esperarei.” E isto é agradável a Deus: que o reconheçamos em face do perigo, a despeito da tristeza, da doença, da dor ou da morte.

8. Ainda: não houvesse mal algum, natural ou moral, no mundo, que seria da paciência, da mansidão, da brandura, da longanimidade? É evidente que não poderiam existir, visto que todas têm o mal por objeto. Se, portanto, o mal jamais tivesse entrado no mundo, tampouco estas poderiam nele ter lugar. Pois quem poderia retribuir bem por mal, se não houvesse malfeitor algum no universo? Como seria possível, nessa suposição, “vencer o mal com o bem”? Você dirá: “Mas todas essas graças poderiam ter sido divinamente infundidas no coração dos homens.” Sem dúvida poderiam; mas, se o fossem, não haveria uso nem exercício para elas. Ao passo que, no presente estado das coisas, nunca nos falta por muito tempo ocasião de exercê-las; e, quanto mais são exercidas, mais todas as nossas graças se fortalecem e crescem. E, na mesma proporção em que crescem a nossa resignação, a nossa confiança em Deus, a nossa paciência e fortaleza, a mansidão e a longanimidade, junto com a fé e o amor de Deus e do homem, deve crescer a nossa felicidade, mesmo no mundo presente.

9. E mais: assim como a permissão da queda de Adão deu a toda a sua posteridade mil ocasiões de sofrer, e assim de exercer todas aquelas graças passivas que aumentam a santidade e a felicidade, também lhes dá ocasiões de fazer o bem em inúmeros casos, exercitando-se em várias boas obras que de outro modo não existiriam. E que expansões de benevolência, de compaixão, de misericórdia divina teriam sido de todo impedidas! Quem poderia então dizer ao Amigo dos homens: Que a tua mente se mostre em toda a minha vida: ao ouvir o clamor do desvalido, o gemido da viúva ou do órfão, nas asas da misericórdia voo veloz, para socorrer o pobre e o necessitado; a mim mesmo, e a tudo o que tenho, por eles dar. É justa a observação de um homem benevolente: Todas as alegrias do mundo são menores que a única alegria de fazer o bem. Por certo, em “guardar este mandamento há grande recompensa”. “Enquanto temos tempo, façamos o bem a todos”, o bem de toda espécie e em todo grau. Assim, quanto mais bem fazemos (sendo iguais as demais circunstâncias), mais felizes seremos. Quanto mais repartimos o nosso pão com o faminto e vestimos o nu, quanto mais socorremos o estrangeiro e visitamos os doentes e os presos, tanto mais consolo recebemos, já no mundo presente.

10. Resumindo o que se disse sob este ponto: assim como, quanto mais santos formos na terra, mais felizes havemos de ser (pois há conexão inseparável entre santidade e felicidade); assim como, quanto mais bem fizermos aos outros, mais recompensa presente reflui ao nosso próprio seio; e assim como os nossos sofrimentos por Deus nos levam a alegrar-nos nele “com alegria indizível e cheia de glória” — por isso, a queda de Adão, primeiro por nos dar ocasião de sermos muito mais santos, segundo por nos dar ocasião de fazer inúmeras boas obras que de outro modo não se fariam, e terceiro por pôr em nosso poder sofrer por Deus, pelo que “o Espírito da glória e de Deus repousa sobre nós”, pode ser de tal vantagem aos filhos dos homens, já na vida presente, que eles não a compreenderão plenamente até alcançarem a vida eterna.

II. Mais felizes no céu

11. Será então que poderemos compreender plenamente não só as vantagens que, no tempo presente, advêm aos filhos dos homens pela queda do seu primeiro pai, mas as vantagens infinitamente maiores que dela poderão colher na eternidade. Para formar alguma noção disto, lembremos a observação do apóstolo: “Uma estrela difere de outra estrela em glória; assim também a ressurreição dos mortos.” As estrelas mais gloriosas serão, sem dúvida, os mais santos, os que mais trazem aquela imagem de Deus em que foram criados; os seguintes em glória serão os que mais abundaram em boas obras; e, depois destes, os que mais sofreram segundo a vontade de Deus. Mas que vantagens, em cada um desses aspectos, os filhos de Deus receberão no céu, por Deus ter permitido a entrada da dor na terra em consequência do pecado! Por ocasião disto alcançaram muitos ânimos santos que de outro modo não existiriam — a resignação a Deus, a confiança nele nos tempos de aflição, a paciência, a mansidão, a brandura, a longanimidade e todo o cortejo das virtudes passivas; e, por causa dessa santidade superior, gozarão então de felicidade superior. Além disso, cada um então “receberá o seu galardão segundo o seu próprio trabalho”. Mas a queda deu origem a inúmeras boas obras que de outro modo jamais existiriam — como socorrer as necessidades dos santos e aliviar os aflitos de toda espécie; e por isto inúmeras estrelas serão acrescentadas à sua coroa eterna. E ainda: haverá no céu abundante recompensa tanto por sofrer quanto por fazer a vontade de Deus, pois “esta leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória acima de toda comparação”. Portanto, aquele acontecimento que ocasionou a entrada do sofrimento no mundo ocasionou, por isso mesmo, a todos os filhos de Deus, um acréscimo de glória por toda a eternidade. Pois, embora os próprios sofrimentos venham a ter fim —

Cessará então a dor da vida,

a angústia e o cuidado que atormenta;

ali a tristeza não mais chorará,

e o pecado jamais entrará —

as alegrias por eles ocasionadas nunca terão fim, mas fluirão à direita de Deus para todo o sempre.

12. Há ainda uma vantagem mais que colhemos da queda de Adão, não indigna da nossa atenção. Se não fosse verdade que em Adão todos morreram, estando nos lombos do primeiro pai, cada descendente de Adão teria de responder pessoalmente por si a Deus. Parece consequência necessária disto que, uma vez caído, uma vez violado qualquer mandamento de Deus, não haveria possibilidade de tornar a levantar-se; não haveria socorro, mas ele pereceria sem remédio. Pois aquele pacto não sabia mostrar misericórdia: a palavra era “A alma que pecar, essa morrerá.” Ora, quem não preferiria estar no pé em que agora está — sob um pacto de misericórdia? Quem quereria arriscar toda uma eternidade num só lance? Não é infinitamente mais desejável estar num estado em que, embora cercados de fraquezas, não corremos risco tão desesperado, mas, se caímos, podemos tornar a levantar-nos — em que podemos dizer:

A minha transgressão cresceu até o céu;

mas, bem acima dos céus,

em Cristo abundantemente perdoado,

vejo erguer-se a tua misericórdia!

13. Em Cristo! Rogo a toda pessoa séria que fixe aqui, mais uma vez, a sua atenção. Tudo o que se disse, tudo o que se pode dizer sobre estes temas, converge para este ponto: a queda de Adão produziu a morte de Cristo. Ouçam, ó céus, e escuta, ó terra! Sim,

Concordem terra e céu,

unam-se anjos e homens,

para celebrar comigo

o Salvador da humanidade;

para adorar o Cordeiro que tudo expia,

e bendizer o som do nome de Jesus!

Se Deus tivesse impedido a queda do homem, “a Palavra” nunca se teria “feito carne”, nem jamais teríamos “contemplado a sua glória, glória como do unigênito do Pai”. Aqueles mistérios nunca teriam sido revelados, “nos quais os próprios anjos desejam atentar”. Parece-me que esta consideração absorve todas as demais, e nunca deveria sair dos nossos pensamentos. A menos que “por um só homem o juízo tivesse vindo sobre todos os homens para condenação”, nem anjos nem homens poderiam jamais ter conhecido “as insondáveis riquezas de Cristo”.

14. Veja, então, no conjunto, quão pouca razão temos de lamentar a queda do nosso primeiro pai, visto que dela podemos derivar vantagens tão indizíveis, no tempo e na eternidade. Veja quão pouco pretexto há para pôr em questão a misericórdia de Deus em permitir que aquele acontecimento se desse, já que nele a misericórdia, por graus infinitos, triunfa sobre o juízo. Onde está, então, o homem que presume culpar a Deus por não impedir o pecado de Adão? Não deveríamos antes bendizê-lo do fundo do coração, por nele ter lançado o grande plano da redenção do homem? Se, de fato, Deus tivesse decretado, antes da fundação do mundo, que milhões de homens habitassem no fogo eterno, porque Adão pecou centenas ou milhares de anos antes de eles existirem, não sei quem lhe poderia agradecer por isto, a não ser o diabo e os seus anjos — visto que, nessa suposição, todos aqueles milhões de espíritos infelizes seriam lançados no inferno pelo pecado de Adão, sem nenhuma vantagem possível dele. Mas, bendito seja Deus, não é este o caso. Tal decreto jamais existiu. Pelo contrário, todo o que nasce de mulher pode ser, por isso, um ganhador indizível; e nenhum jamais foi ou pode ser perdedor, senão por sua própria escolha.

15. Vemos aqui uma resposta cabal àquela plausível explicação da origem do mal, publicada anos atrás e tida por irrefutável: que ele “resultou necessariamente da natureza da matéria, que Deus não pôde alterar”. É muito gentil este orador de língua doce em inventar uma desculpa para Deus! Mas não há real necessidade dela: Deus respondeu por si mesmo. Fez o homem à sua imagem, um espírito dotado de entendimento e liberdade. O homem, abusando dessa liberdade, produziu o mal, trouxe o pecado e a dor ao mundo. Isto Deus permitiu, para uma mais plena manifestação da sua sabedoria, justiça e misericórdia, concedendo a todos os que o recebessem uma felicidade infinitamente maior do que a que poderiam ter alcançado se Adão não houvesse caído.

16. “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria quanto do conhecimento de Deus!” Embora mil pormenores “dos seus juízos e dos seus caminhos” sejam insondáveis para nós, podemos, contudo, discernir o plano geral que corre pelo tempo adentro da eternidade. “Segundo o conselho da sua vontade”, o plano que traçara antes da fundação do mundo, ele criou o pai de toda a humanidade à sua imagem; e permitiu que todos os homens fossem feitos pecadores pela desobediência daquele um só homem, para que, pela obediência de um só, todos os que recebem o dom gratuito sejam infinitamente mais santos e mais felizes por toda a eternidade.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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