SERMÃO 68

A sabedoria dos desígnios de Deus

Como Deus, na sua sabedoria, planta e repara a sua obra.

Rm 11.33, NAA ⏱ 21 min de leituraDeus, criação e providência

“Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus!”

(Rm 11.33, NAA)

Antes de ler

Este sermão é, ao mesmo tempo, um louvor à sabedoria de Deus e um exame franco da própria obra que Wesley via nascer e envelhecer. Ele começa contemplando essa sabedoria na criação, na providência e no governo das nações, mas concentra a atenção onde ela mais reluz: na Igreja — plantada como grão de mostarda, corrompida ao longo dos séculos, restaurada por Lutero, e reavivada, no seu próprio tempo, na Grã-Bretanha. E o diagnóstico central volta com força: o que arruína a obra de Deus, em toda era, é a prosperidade. Não a perseguição, mas a riqueza — que esfria o coração e prende ao mundo o que antes suspirava pelo céu. O longo §16 é um dos mais penetrantes exames de consciência que Wesley já escreveu sobre o dinheiro, e a máxima que o atravessa é a mesma dos sermões sobre "o uso do dinheiro": ganhe tudo o que puder, poupe tudo o que puder — mas tudo o que puder, ou o próprio dinheiro o afundará.

Duas notas de leitura. Primeira, o acento arminiano no §4: Deus poderia abolir todo pecado por um decreto absoluto e poder irresistível — mas isso "não implicaria sabedoria alguma"; a sua sabedoria está justamente em salvar o homem sem destruir a natureza e a liberdade que lhe deu. Segunda, uma provocação teológica no §9: Wesley faz um reparo ousado à figura de Agostinho e chega a meio defender Pelágio — mas atenção ao que ele de fato afirma. Ele não abraça o pelagianismo (a negação da graça); pelo contrário, define a "heresia" de Pelágio como a tese de que os cristãos podem, pela graça de Deus (e não sem ela), "avançar para a perfeição". Isto é, no fundo, a própria doutrina wesleyana da perfeição cristã. Leia essa passagem como o desabafo polêmico de um homem que sentia a sua doutrina caluniada, não como um juízo histórico equilibrado sobre Pelágio.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1. Alguns entendem que a sabedoria e o conhecimento de Deus significam uma só e mesma coisa. Outros creem que a sabedoria de Deus se refere mais diretamente ao seu determinar os fins de todas as coisas, e o seu conhecimento, aos meios que ele preparou e tornou conducentes a esses fins. A primeira parece ser a explicação mais natural, pois a sabedoria de Deus, no seu sentido mais amplo, há de incluir uma e outra coisa — os meios tanto quanto os fins.

2. Ora, a sabedoria, bem como o poder de Deus, é abundantemente manifestada na sua criação, na formação e disposição de todas as suas obras, no céu acima e na terra abaixo, e em adaptá-las todas aos vários fins para que foram projetadas. Tanto que cada uma delas, à parte das demais, é boa; mas todas juntas são muito boas, todas conspirando, num só sistema conexo, para a glória de Deus na felicidade das suas criaturas inteligentes.

3. Assim como esta sabedoria aparece até aos homens de vista curta na criação e disposição de todo o universo, também igualmente aparece na sua preservação, no seu “sustentar todas as coisas pela palavra do seu poder”. E não menos eminentemente aparece no governo permanente de tudo o que criou. Quão admiravelmente a sua sabedoria dirige os movimentos dos corpos celestes! Como ele superintende todas as partes deste mundo inferior, este “pontinho da criação”, a terra! De modo que todas as coisas continuam, como no princípio, “belas no seu tempo”; e o verão e o inverno, a sementeira e a colheita, seguem-se regularmente uns aos outros. Sim, todas as coisas servem ao seu Criador: “o fogo e o granizo, a neve e o vapor, o vento tempestuoso cumprem a sua palavra”; de modo que bem podemos dizer: “Ó Senhor, Soberano nosso, quão magnífico é o teu nome em toda a terra!”

4. Igualmente conspícua é a sabedoria de Deus no governo das nações, dos estados e reinos; aliás, mais conspícua ainda. Pois toda a criação inanimada, sendo totalmente passiva, não pode opor-se à sua vontade; por isso, no mundo natural, tudo corre num curso uniforme e ininterrupto. Mas é bem diferente no mundo moral. Aqui, homens maus e espíritos maus continuamente se opõem à vontade divina e criam inumeráveis irregularidades. Aqui, portanto, há pleno campo para o exercício de todas as riquezas da sabedoria e do conhecimento de Deus, em contrariar toda a maldade e insensatez dos homens, e toda a astúcia de Satanás, para levar adiante o seu próprio glorioso desígnio — a salvação da humanidade perdida. De fato, se ele fizesse isto por um decreto absoluto e pelo seu próprio poder irresistível, isso não implicaria sabedoria alguma. Mas a sua sabedoria se mostra em salvar o homem de tal maneira que não lhe destrua a natureza, não lhe tire a liberdade que lhe deu.

5. Mas as riquezas da sabedoria e do conhecimento de Deus se manifestam do modo mais eminente na sua Igreja: em plantá-la como um grão de mostarda, a menor de todas as sementes; em preservá-la e continuamente aumentá-la, até crescer em grande árvore, apesar da ininterrupta oposição de todos os poderes das trevas. A isto o apóstolo chama, com justiça, a “multiforme sabedoria de Deus” — palavra singularmente expressiva, que sugere que esta sabedoria, no modo de operar, se diversifica de mil maneiras e se exerce com infinitas variedades. Nestas coisas os mais altos “anjos desejam atentar”, mas nunca as podem compreender plenamente. É sobretudo a respeito destas que o apóstolo profere aquela forte exclamação: “Quão insondáveis são os seus juízos!” — os seus conselhos e desígnios, impossíveis de sondar; “e quão inescrutáveis os seus caminhos” para realizá-los! Segundo o salmista, “os teus caminhos vão pelo mar, e as tuas veredas, pelas grandes águas, e não se conhecem os teus passos”.

6. Mas um pouco disto ele se dignou revelar-nos; e, atendo-nos ao que ele revelou, comparando ao mesmo tempo a palavra e a obra de Deus, podemos entender uma parte dos seus caminhos. Podemos, em certa medida, traçar esta multiforme sabedoria desde o princípio do mundo — de Adão a Noé, de Noé a Moisés, e de Moisés a Cristo. Mas agora quero considerá-la (depois de apenas tocar na história da Igreja nas eras passadas) somente quanto ao que ele operou na presente era, durante o último meio século; sim, e neste pequeno canto do mundo, apenas as ilhas britânicas.

A sabedoria de Deus na história da Igreja

7. Na plenitude dos tempos, exatamente quando pareceu melhor à sua infinita sabedoria, Deus trouxe ao mundo o seu Primogênito. Lançou então o fundamento da sua Igreja, embora ela quase não aparecesse até o dia de Pentecostes. E era então uma Igreja gloriosa, estando todos os seus membros “cheios do Espírito Santo”, sendo “de um só coração e de uma só alma, e perseverando na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações”. Em comunhão — isto é, tendo tudo em comum, ninguém considerando exclusivamente sua coisa alguma que possuísse.

Mansos e singelos seguidores do Cordeiro,

viviam, pensavam e falavam o mesmo;

eram todos de um só coração e alma,

e só o amor inspirava o todo.

8. Mas este feliz estado não durou muito. Veja Ananias e Safira, pelo amor ao dinheiro (“a raiz de todos os males”), fazendo a primeira brecha na comunhão dos bens! Veja a parcialidade, a injusta acepção de pessoas de um lado, o ressentimento e a murmuração do outro, enquanto os próprios apóstolos presidiam a igreja em Jerusalém! Veja as graves manchas e rugas achadas em toda parte da Igreja, registradas não só nos Atos, mas nas cartas de Paulo, Tiago, Pedro e João. Relato ainda mais completo temos no Apocalipse; e, segundo este, em que condição estava a Igreja cristã, mesmo no primeiro século, mesmo antes de João ser tirado da terra — se podemos julgar (como sem dúvida podemos) do estado geral da Igreja pelo estado das igrejas particulares (todas, exceto as de Esmirna e Filadélfia) a que o Senhor dirigiu as suas cartas! E, desde então, por mil e quatrocentos anos, ela foi corrompida cada vez mais, como toda a história mostra, até quase não restar nem o poder nem a forma da religião.

9. Contudo, é certo que as portas do inferno nunca prevaleceram totalmente contra ela. Deus sempre reservou para si um remanescente, uns poucos que o adoravam em espírito e em verdade. Muitas vezes duvidei se estes não seriam justamente as pessoas que os cristãos ricos e honrados, que sempre terão o número e o poder do seu lado, estigmatizaram, de tempos em tempos, com o título de hereges. Aliás, cheguei a duvidar se aquele arqui-herege, Montano, não teria sido um dos homens mais santos do segundo século. E não afirmaria que a verdadeira heresia de Pelágio fosse mais que isto: sustentar que os cristãos podem, pela graça de Deus (não sem ela — o contrário tenho por mera calúnia), “avançar para a perfeição”, ou, em outras palavras, “cumprir a lei de Cristo”. “Mas Agostinho diz o contrário” — quando as paixões de Agostinho se inflamavam, a sua palavra não vale um caniço. E eis o segredo: Agostinho estava irado com Pelágio; daí caluniá-lo e maltratá-lo, ao seu modo, sem temor nem vergonha. E Agostinho era então, no mundo cristão, o que Aristóteles foi depois: para provar qualquer afirmação, não era preciso outra prova senão “Agostinho o disse”.

10. Mas voltemos. Quando a iniquidade cobrira a Igreja como uma cheia, o Espírito do Senhor levantou um estandarte contra ela. Suscitou um pobre monge, sem riqueza, sem poder e, naquele tempo, sem amigos, para declarar guerra, por assim dizer, ao mundo inteiro — contra o bispo de Roma e todos os seus aderentes. Mas esta pequena pedra, sendo escolhida por Deus, logo cresceu em grande monte, e aumentou cada vez mais, até cobrir parte considerável da Europa. Contudo, mesmo antes de Lutero ser recolhido ao lar, o amor de muitos se esfriara. Muitos, que um dia correram bem, voltaram atrás do santo mandamento que lhes fora entregue; sim, a maior parte dos que um dia experimentaram o poder da fé fizeram naufrágio da fé e da boa consciência. Supõe-se que a observação disto foi a ocasião daquela enfermidade de que Lutero morreu, depois de proferir estas melancólicas palavras: “Gastei a minha força em vão! Os que se chamam pelo meu nome estão, é verdade, reformados nas opiniões e nos modos de culto; mas no coração e na vida, no temperamento e na prática, não são um átimo melhores que os papistas!”

11. Por volta do mesmo tempo, aprouve a Deus visitar a Grã-Bretanha. Uns poucos no reinado de Henrique VIII, e muitos mais nos três reinados seguintes, foram verdadeiras testemunhas do cristianismo bíblico. O número destes cresceu extraordinariamente no início do século seguinte. E, no ano de 1627, houve um assombroso derramamento do Espírito em várias partes da Inglaterra, bem como na Escócia e no norte da Irlanda. Mas, desde o tempo em que a riqueza e a honra se derramaram sobre os que temiam e amavam a Deus, o coração deles começou a alienar-se dele e a apegar-se ao mundo presente. Mal cessou a perseguição, e os pobres, desprezados e perseguidos cristãos foram investidos de poder e postos em posição de conforto e abundância, a mudança de circunstâncias trouxe uma mudança de espírito. A riqueza e a honra logo produziram os seus efeitos habituais. Tendo o mundo, logo amaram o mundo; já não suspiravam pelo céu, mas se apegaram cada vez mais às coisas da terra.

12. A pouca religião que restava na terra recebeu outra ferida mortal na Restauração, por um dos piores príncipes que já se assentaram no trono inglês e pela corte mais dissoluta da Europa. E a incredulidade irrompeu então em massa e cobriu a terra como uma cheia. É claro que toda espécie de imoralidade veio com ela, e cresceu até o fim do século. Alguns débeis esforços se fizeram para conter a torrente no reinado da rainha Ana; mas ela ainda cresceu, até cerca de 1725, quando o sr. Law publicou o seu “Tratado prático sobre a perfeição cristã” e, pouco depois, o seu “Sério chamado a uma vida devota e santa”. Aqui foi lançada a semente, que logo cresceu e se espalhou por Oxford, Londres, Bristol, Leeds, York e, em poucos anos, pela maior parte da Inglaterra, da Escócia e da Irlanda.

O avivamento e o perigo das riquezas

13. Mas de que meios se serviu a sabedoria de Deus para efetuar esta grande obra? Ele lançou na sua seara tais trabalhadores como a sabedoria humana jamais teria imaginado. Escolheu as coisas fracas para confundir as fortes, e as loucas para confundir as sábias. Escolheu uns poucos homens jovens, pobres e sem instrução, sem experiência, saber ou arte; mas simples de coração, dedicados a Deus, cheios de fé e zelo, não buscando honra, lucro, prazer ou comodidade, mas somente salvar almas; não temendo a necessidade, a dor, a perseguição, nem o que os homens lhes pudessem fazer; sim, não tendo a própria vida por preciosa, contanto que terminassem a sua carreira com alegria. Do mesmo espírito era o povo que Deus, pela palavra deles, chamou das trevas para a sua maravilhosa luz, muitos dos quais logo concordaram em unir-se, para fortalecer as mãos uns dos outros em Deus.

14. Mas, à medida que esses jovens pregadores avançavam em anos, nem todos avançavam em graça. Vários deles, de fato, cresceram em outros conhecimentos, mas não proporcionalmente no conhecimento de Deus. Tornaram-se menos simples, menos vivos para Deus, menos dedicados a ele. Alguns começaram a desejar o louvor dos homens, e não só o de Deus; alguns a cansar-se da vida itinerante e a buscar comodidade e sossego. Alguns tornaram a temer a face dos homens, a envergonhar-se da sua vocação, a não querer negar-se a si mesmos e tomar cada dia a sua cruz, e “suportar as aflições como bons soldados de Jesus Cristo”. Onde quer que estes pregadores trabalhassem, não havia muito fruto: a palavra deles já não vinha revestida de poder.

15. Mas, assim como alguns pregadores declinaram do seu primeiro amor, também muitos do povo. Foram igualmente assaltados por todos os lados, cercados de múltiplas tentações; e, enquanto muitos triunfaram sobre tudo, sendo “mais que vencedores por meio daquele que os amou”, outros deram lugar ao mundo, à carne ou ao diabo, e assim “entraram em tentação”. Alguns “fizeram naufrágio da fé” de uma só vez; alguns por graus lentos e imperceptíveis. Não poucos, carecendo do necessário à vida, foram sufocados pelos cuidados do mundo; muitos recaíram nos “desejos das outras coisas”, que “sufocaram a boa semente, e ela ficou infrutífera”.

16. Mas, de todas as tentações, nenhuma feriu tanto toda a obra de Deus quanto “a sedução das riquezas”, de que vi mil melancólicos exemplos nestes últimos cinquenta anos. Enganadoras, de fato! Pois quem crerá que elas lhe fazem o menor mal? E, contudo, não conheci sessenta pessoas ricas — talvez nem a metade — em sessenta anos que, tanto quanto posso julgar, não fossem menos santas do que teriam sido se fossem pobres. Por “riquezas” não entendo milhares de libras, mas tudo o que exceda o necessário para as comodidades da vida. Assim, tenho por homem rico aquele que tem alimento e roupa para si e para a família, sem contrair dívidas, e algo de sobra. E quão poucos há nessas circunstâncias que por isso não sejam prejudicados, se não destruídos! Contudo, quem atenta ao aviso? Quem considera seriamente aquela solene declaração do apóstolo: os “que querem ficar ricos caem em tentação, em cilada e em muitos desejos insensatos e perniciosos, que afundam os homens na ruína e na perdição”? Veja quantos dos que um dia foram simples de coração, nada desejando senão a Deus, agora satisfazem “o desejo da carne”, empenhando-se em agradar aos sentidos, particularmente ao paladar. Você não é desse número? De fato, não é bêbado nem glutão; mas não se entrega a uma espécie de sensualidade regular? Não são o comer e o beber os maiores prazeres da sua vida, a parte mais considerável da sua felicidade? Se assim é, receio que Paulo lhe daria um lugar entre aqueles “cujo deus é o ventre”! Quantos deles agora tornam a satisfazer “o desejo dos olhos”, buscando a felicidade em roupas ou móveis elegantes, em quadros ou jardins? “Ora, que mal há nisto?” Há este mal: que gratificam “o desejo dos olhos” e, com isso, o fortalecem e aumentam, tornando-o cada vez mais morto para Deus e mais vivo para o mundo. Quantos satisfazem “a soberba da vida”, buscando a honra que vem dos homens, ou “ajuntando tesouros na terra”! Ganham tudo o que podem, honesta e conscienciosamente. Poupam tudo o que podem, cortando toda despesa desnecessária. E até aqui tudo está certo — é o dever de todo o que teme a Deus. Mas não dão tudo o que podem; e, sem isto, hão de tornar-se cada vez mais terrenos. Não é este o seu caso? Não busca você o louvor dos homens mais que o de Deus? Não ajunta, ou ao menos deseja ajuntar, tesouros na terra? Não está você então (trate com fidelidade a sua própria alma!) cada vez mais vivo para o mundo e, por consequência, cada vez mais morto para Deus? Não pode ser de outro modo, a menos que você dê tudo o que pode, assim como ganha e poupa tudo o que pode. Não há outro caminho debaixo do céu para impedir que o seu dinheiro o afunde mais baixo que a sepultura! Pois, “se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele”.

17. E talvez haja algo mais contido naquelas palavras: “Não ameis o mundo, nem as coisas que há no mundo.” Aqui somos expressamente advertidos contra amar o mundo, tanto quanto contra amar “as coisas do mundo”. O mundo são os homens que não conhecem a Deus, que nem o amam nem o temem. Amá-los com amor de complacência, pôr neles os nossos afetos, é aqui absolutamente proibido; e, pela mesma razão, conviver com eles além do que o negócio necessário exija. A amizade ou intimidade com eles, Tiago não hesita em chamar de adultério: “Adúlteros e adúlteras, não sabeis que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto, quem quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus.” Não tentem contornar ou evadir o sentido dessas fortes palavras. Elas claramente nos exigem manter distância deles, não ter comércio desnecessário com homens ímpios. Do contrário, certamente escorregaremos para a conformidade com o mundo — com as suas máximas, o seu espírito e os seus costumes. Pois não só as suas palavras, por inofensivas que pareçam, “corroem como câncer”, mas o seu próprio hálito é infeccioso: o espírito deles influencia imperceptivelmente o nosso. Infiltra-se “como água nas nossas entranhas, e como óleo nos nossos ossos”.

18. Mas todo homem rico está sob contínua tentação de conviver com os homens do mundo. Está igualmente sob contínua tentação ao orgulho, a ter de si conceito mais alto do que convém. É fortemente tentado à vingança, quando levemente ofendido; e, tendo os meios nas mãos, quão poucos resistem à tentação! É continuamente tentado à preguiça, ao amor ao conforto, à delicadeza; à aversão à abnegação e ao tomar da cruz, mesmo a do jejum e do madrugar, sem os quais é impossível crescer na graça. Se você aumentou em bens, não sabe que estas coisas são assim? Você não contrai intimidade com homens do mundo? Não está em perigo de orgulho, de julgar-se melhor que o seu pobre próximo? Nunca se ressente, nem se vinga de uma afronta? Nunca retribui mal por mal? Não dá lugar à indolência ou ao amor ao conforto? Nega-se a si mesmo e toma cada dia a sua cruz? Levanta-se tão cedo como um dia se levantava? Por que não? Não é a sua alma tão preciosa agora como era então? Com que frequência você jejua? E, se falha nisto, ou em qualquer outro respeito, quem lho dirá? Quem ousa dizer-lhe a verdade nua, senão os que nada esperam nem temem de você? E, se alguém ousa tratá-lo com franqueza, quão difícil lhe é suportá-lo! Não é você muito menos repreensível, muito menos aconselhável do que quando era pobre? Já será bom se você puder suportar a repreensão até de mim; e, dentro de poucos dias, não me verá mais. Uma vez mais, portanto, digo: tendo ganho e poupado tudo o que pode, dê tudo o que pode; do contrário, o seu dinheiro devorará a sua carne como fogo e o afundará no mais profundo inferno! Ó, cuidado com “ajuntar tesouros na terra”! Não é isso entesourar ira para o dia da ira? Senhor, eu os adverti! Mas, se não quiserem ser advertidos, que mais posso fazer?

Como Deus repara a sua obra

19. Por não acatarem este aviso, é certo que muitos dos metodistas já caíram; muitos estão caindo neste mesmo momento; e há grande razão para recear que muitos mais caiam, e a maioria não se levante mais! Mas que método podemos esperar que o sapientíssimo Deus tome para reparar a decadência da sua obra? Se não remover o candelabro deste povo e levantar outro que seja mais fiel à sua graça, provavelmente ele procederá do mesmo modo que no passado. E este tem sido, até aqui, o seu método: quando algum dos velhos pregadores abandonou o seu primeiro amor, perdeu a simplicidade e o zelo e se afastou da obra, ele levantou jovens que são o que aqueles foram, e os enviou à seara em lugar deles. O mesmo fez quando lhe aprouve recolher algum dos seus fiéis trabalhadores ao seio de Abraão. É altamente provável que tome o mesmíssimo método no tempo por vir.

20. Ouçam isto, todos vocês, pregadores que já não têm a mesma vida, a mesma comunhão com Deus, o mesmo zelo pela sua causa, o mesmo ardente amor às almas que um dia tiveram! “Olhem por vocês mesmos, para não perderem o fruto do seu trabalho, mas receberem completo galardão.” Cuidem para que Deus não jure na sua ira que vocês não levarão mais o seu estandarte! Fiquem certos de que o Senhor não precisa de vocês; a sua obra não depende do socorro de vocês. Assim como ele é capaz “de das pedras suscitar filhos a Abraão”, também é capaz, das mesmas pedras, de suscitar pregadores segundo o seu coração! Ó, apressem-se! Lembrem-se de onde caíram; arrependam-se e voltem às primeiras obras!

21. Não provocaria o Senhor da seara a pôr vocês inteiramente de lado, se desprezassem os trabalhadores que ele levantou, meramente por causa da sua juventude? Isto comumente nos foi feito, quando fomos enviados pela primeira vez, entre quarenta e cinquenta anos atrás. Homens velhos e sábios perguntavam: “Que farão estas cabeças jovens?” Mas havemos de adotar a linguagem deles? Deus nos livre! Havemos de ensinar aquele a quem ele há de enviar, a quem há de empregar na sua própria obra? Somos nós, então, os únicos homens, e conosco morrerá a sabedoria? Ó, humilhem-se diante de Deus, para que ele não os arranque, e não haja quem os livre!

22. Consideremos, a seguir, que método a sabedoria de Deus tomou, nestes quarenta e cinco anos, quando milhares do povo que um dia correu bem, um após outro, “recuaram para a perdição”. Ora, tão depressa quanto algum dos pobres era sufocado pelos cuidados do mundo, e tão depressa quanto algum dos ricos recuava para a perdição, dando lugar ao amor ao mundo, aos desejos insensatos e perniciosos, ou a qualquer outra das inumeráveis tentações inseparáveis das riquezas, Deus constantemente, de tempos em tempos, levantou homens dotados do espírito que aqueles haviam perdido. Sim, e geralmente esta troca se fez com vantagem considerável: pois os últimos eram, na maioria das vezes, não só mais numerosos que os primeiros, mas mais vigilantes, aproveitando o exemplo deles; mais espirituais, mais celestiais, mais zelosos, mais vivos para Deus e mais mortos para tudo o que há aqui embaixo.

23. E, bendito seja Deus, vemos que ele faz agora a mesma coisa em várias partes do reino. No lugar dos que caíram da sua firmeza, ou estão caindo neste dia, ele continuamente suscita, das pedras, outros filhos a Abraão. Faz isto num ou noutro lugar, segundo a sua própria vontade, derramando o seu Espírito vivificante sobre este ou aquele povo, exatamente como lhe apraz. Suscita pessoas de toda idade e condição — jovens e virgens, velhos e crianças — para serem “raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamarem as virtudes daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”. E não temos razão para duvidar de que continuará a fazê-lo, até que se cumpra a grande promessa; até que “a terra se encha do conhecimento da glória do Senhor, como as águas cobrem o mar”.

24. Mas terão todos os que sucumbiram às múltiplas tentações caído de tal modo que não possam mais levantar-se? Terá o Senhor rejeitado a todos para sempre, e não mais se deixará aplacar? Deus nos livre de afirmá-lo! Por certo ele é capaz de curar todas as suas recaídas, pois para Deus nenhuma palavra é impossível. E não estará ele também disposto? Ele é “Deus, e não homem; por isso as suas misericórdias não se esgotam”. Que nenhum desviado desespere. “Volte-se para o Senhor, e ele terá compaixão dele; para o nosso Deus, porque é rico em perdoar.” Entretanto, assim diz o Senhor a vocês que agora ocupam o lugar deles: “Não sejam soberbos; antes, temam!” Se “o Senhor não poupou” os irmãos mais velhos, “cuidem para que não deixe de poupar vocês também!” Temam — não com temor servil e atormentador —, para não caírem por alguma das mesmas tentações: os cuidados do mundo, a sedução das riquezas ou o desejo das outras coisas. Tentados vocês serão de dez mil modos diferentes, talvez enquanto permanecerem no corpo; mas, enquanto continuarem a vigiar e orar, não “entrarão em tentação”. A graça dele lhes tem sido suficiente até aqui, e assim será até o fim.

25. Vocês veem aqui, irmãos, um breve e geral esboço do modo como Deus opera na terra, reparando esta obra da graça onde quer que decaia pela astúcia de Satanás e pela infidelidade dos homens. Assim ele leva agora adiante a sua própria obra, e assim fará até o fim do tempo. E quão maravilhosamente claro e simples é o seu modo de operar, no mundo espiritual como no natural! — isto é, o seu plano geral de operar, de reparar o que quer que esteja decaído. Mas, quanto a inumeráveis pormenores, ainda devemos exclamar: “Ó profundidade! Quão insondáveis são os seus conselhos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!”

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

Ver todos os sermões