SERMÃO 67
Sobre a providência divina
Deus cuida de cada criatura — e até os cabelos estão contados.
“Até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados.”
(Lc 12.7, NAA)Antes de ler
Poucas verdades consolam tanto e são tão pouco cridas quanto esta: Deus cuida de cada detalhe da sua vida. Wesley parte da imagem de Jesus — os cabelos da cabeça contados — para defender o que os deístas do seu tempo negavam: a providência particular. Muitos admitiam de bom grado uma providência "geral" (Deus mantém o universo em ordem), mas achavam indigno do Criador ocupar-se dos "pequenos" assuntos de cada pessoa. Wesley desmonta essa ideia com lógica implacável: não existe geral sem particular, assim como não há um "todo" sem partes; e, diante do Altíssimo, "grande" e "pequeno" são termos relativos que nada significam — nada é pequeno se toca o bem de uma alma. Ele dialoga o tempo todo com o poeta Alexander Pope, cujos versos famosos ("a Causa Universal age não por leis parciais, mas por leis gerais") ele cita e refuta, mostrando que negar a providência particular é, no fundo, negar os milagres e a própria oração — pois toda oração atendida é, a rigor, um milagre.
Guarde dois tesouros. Primeiro, os "três círculos" da providência (§§16–18): o amor de Deus abraça toda a humanidade, cuida de modo mais próximo dos que se chamam cristãos e, no círculo mais íntimo, vela sobre cada detalhe da vida dos que o servem em espírito e em verdade. Segundo, e muito nosso, o §15: por que Deus não elimina de uma vez o pecado e a dor do mundo? Porque fazê-lo destruiria a liberdade — a imagem de Deus no homem — e aboliria, junto com o vício, a própria possibilidade da virtude. "O próprio Todo-Poderoso não pode fazer isto", diz Wesley com reverência: não pode contradizer-se. Deus governa o homem como homem — espírito livre —, oferecendo-lhe todo socorro sem jamais forçá-lo. A conclusão é pastoral: confiança, gratidão e humildade — pôr toda a esperança naquele diante de quem nenhum fio de cabelo se perde.
— Bispo Ildo Mello
1. A doutrina da providência divina foi recebida pelos homens sábios de todas as eras. Foi crida por muitos pagãos eminentes, não só filósofos, mas oradores e poetas. Inumeráveis são os testemunhos a seu respeito espalhados pelos seus escritos, de acordo com aquele conhecido dito de Cícero: “todas as coisas, todos os acontecimentos deste mundo, estão sob o governo de Deus.” Poderíamos trazer uma nuvem de testemunhas para confirmá-lo, se alguém fosse tão ousado a ponto de negá-lo.
2. A mesma verdade é reconhecida hoje na maior parte do mundo, sim, até por nações tão simples que não conhecem o uso das letras. Assim, quando se perguntou a um chefe indígena da América do Norte: “Por que você pensa que os Amados (assim chamam a Deus) cuidam de você?”, ele respondeu, sem hesitação: “Estive na batalha com os franceses; e a bala passou deste lado; e este homem morreu, e aquele morreu; mas eu ainda estou vivo; e por isso sei que os Amados cuidam de mim.”
3. Mas, embora os pagãos, antigos e modernos, tivessem alguma noção da providência divina, as concepções que a maioria deles nutria eram obscuras, confusas e imperfeitas; e os relatos que os mais esclarecidos davam eram, em geral, contraditórios entre si. Acrescente-se que não estavam de modo algum certos da verdade desses próprios relatos: mal ousavam afirmar coisa alguma, mas falavam com a maior cautela e desconfiança. Tanto que o que o próprio Cícero, autor daquela nobre declaração, ousa afirmar a sangue-frio, ao fim da sua longa disputa sobre o assunto, não passa desta conclusão frouxa e impotente: “o discurso de Cota” (o personagem que defendia a existência e a providência de Deus) “me pareceu mais verossímil do que o que o seu opositor alegara em contrário.”
4. E não admira: pois só o próprio Deus pode dar um relato claro, coerente e perfeito (isto é, tão perfeito quanto o nosso fraco entendimento pode receber neste estado infantil de existência) do seu modo de governar o mundo. E isto ele fez na sua palavra escrita: todos os oráculos de Deus, todas as Escrituras, do Antigo e do Novo Testamento, descrevem outras tantas cenas da providência divina. É bela a observação de um fino escritor: “Os que objetam ao Antigo Testamento, em particular, que ele não é uma história conexa das nações, mas apenas um amontoado de eventos avulsos e desconexos, não atentam na natureza e no desígnio destes escritos. Não veem que a Escritura é a história de Deus.” Os que trazem isto na mente facilmente perceberão que os escritores inspirados nunca o perdem de vista, mas mantêm uma cadeia una e conexa, do princípio ao fim.
5. Nos versículos que precedem o texto, o nosso Senhor armava os seus discípulos contra o temor dos homens: “Não tenham medo”, diz ele, “dos que matam o corpo e, depois disto, nada mais podem fazer.” Ele os precavém contra esse temor, primeiro, lembrando-lhes o que era infinitamente mais terrível que qualquer coisa que o homem pudesse infligir: “Temam aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno.” E os precavém ainda pela consideração de uma providência soberana: “Não se vendem cinco pardais por dois asses? E nenhum deles está esquecido diante de Deus.” Ou, como as palavras são repetidas por Mateus, com variação muito pequena: “Nenhum deles cairá em terra sem o consentimento do Pai de vocês. E até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados.”
6. Devemos observar que esta forte expressão, embora repetida pelos dois evangelistas, não precisa implicar (ainda que, se alguém pensar que sim, pode pensá-lo muito inocentemente) que Deus literalmente conte os cabelos da cabeça de todas as suas criaturas; mas é uma expressão proverbial, que implica que nada é tão pequeno ou insignificante aos olhos dos homens que não seja objeto do cuidado e da providência de Deus, diante de quem nada é pequeno, se toca a felicidade de alguma das suas criaturas.
7. Quase não há doutrina em todo o âmbito da revelação que seja de mais profunda importância que esta. E, ao mesmo tempo, quase não há nenhuma tão pouco considerada, e talvez tão pouco entendida. Esforcemo-nos, então, com o auxílio de Deus, por examiná-la a fundo, para ver sobre que fundamento ela repousa e o que propriamente implica.
Deus cria, sustenta e conhece tudo
8. O Deus eterno, todo-poderoso, sapientíssimo e clementíssimo é o Criador do céu e da terra. Ele chamou do nada, pela sua palavra todo-poderosa, o universo inteiro, tudo o que existe. “Assim, foram acabados os céus e a terra, e todo o seu exército.” E, depois de haver posto tudo o mais em ordem, as plantas segundo as suas espécies, os peixes e as aves, os animais e os répteis segundo as suas espécies, “criou o homem à sua imagem”. E o Senhor viu que cada parte distinta do universo era boa. Mas, quando viu tudo o que fizera, todas as coisas em conexão umas com as outras, “eis que era muito bom”.
9. E, assim como este Ser sapientíssimo e clementíssimo criou todas as coisas, também sustenta todas as coisas. Ele é o Preservador, tanto quanto o Criador, de tudo o que existe. “Sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder.” Ora, é necessário que ele conheça tudo o que fez e tudo o que preserva, de momento a momento; do contrário, não poderia preservá-lo. E não é estranho que aquele que é onipresente, que “enche o céu e a terra”, esteja intimamente presente a tudo. Se o olho do homem discerne as coisas a pequena distância; o olho da águia, o que está a distância maior; o olho de um anjo, o que está a distância mil vezes maior — como não haveria o olho de Deus de ver tudo, por toda a extensão da criação? Sobretudo considerando que nada está distante daquele em quem todos nós “vivemos, e nos movemos, e existimos”.
10. É verdade que o nosso estreito entendimento apenas imperfeitamente compreende isto. Mas, quer o compreendamos, quer não, temos certeza de que assim é. Tão certo como é que ele criou todas as coisas e que ainda sustenta tudo o que criou, tão certo é que ele está presente, em todos os tempos e lugares; que está acima e abaixo; que nos “cerca por trás e por diante” e, por assim dizer, “põe sobre nós a sua mão”. Admitimos que “tal conhecimento é maravilhoso demais” para nós; “não o podemos atingir”. O modo da sua presença nenhum homem pode explicar, nem, provavelmente, anjo algum no céu. Talvez o que o antigo filósofo diz da alma, quanto à sua presença no corpo — que ela é “toda no todo, e toda em cada parte” —, pudesse, em certo sentido, dizer-se do Espírito onipresente quanto ao universo: que ele não só é “todo no conjunto”, mas “todo em cada parte”. Seja como for, não se pode duvidar de que ele veja cada átomo da sua criação, e isto mil vezes mais claramente do que nós vemos as coisas que nos estão próximas: destas vemos apenas a superfície, ao passo que ele vê a essência mais íntima de tudo.
11. O Deus onipresente vê e conhece todas as propriedades dos seres que fez. Conhece todas as conexões, dependências e relações, e todos os modos pelos quais um deles pode afetar outro. Em particular, vê todas as partes inanimadas da criação, no céu acima ou na terra abaixo. Sabe como as estrelas, os cometas e os planetas influenciam os habitantes da terra; que influência têm os céus inferiores, com os seus arsenais de fogo, granizo, neve, vapores, ventos e tempestades, sobre o nosso planeta; e que efeitos podem produzir-se nas entranhas da terra pelo fogo, pelo ar ou pela água. Tudo isto jaz nu e patente aos olhos do Criador e Preservador do universo.
12. Ele conhece todos os animais do mundo inferior, sejam feras, aves, peixes, répteis ou insetos; conhece todas as qualidades e potências que lhes deu, do mais alto ao mais baixo. Conhece todo anjo bom e todo anjo mau em cada parte dos seus domínios, e olha do céu sobre os filhos dos homens em toda a face da terra. Conhece todos os corações dos filhos dos homens e entende todos os seus pensamentos. Vê o que qualquer anjo, qualquer demônio, qualquer homem pensa, fala ou faz; sim, e tudo o que sentem. Vê todos os seus sofrimentos, com cada circunstância deles.
13. E estará o Criador e Preservador do mundo indiferente ao que nele vê? Olhará essas coisas com olho malévolo ou descuidado? Será um deus epicurista, sentado à vontade no céu, sem atentar nos pobres habitantes da terra? Não pode ser. Ele nos fez, e não nós a nós mesmos, e não pode desprezar a obra das suas mãos. Somos seus filhos; e pode uma mãe esquecer-se dos filhos do seu ventre? Ainda que ela se esqueça, Deus não se esquecerá de nós! Pelo contrário, declarou expressamente que, assim como os seus “olhos abrangem toda a terra”, também “é bondoso para com todo homem, e a sua misericórdia está sobre todas as suas obras”. Por consequência, ele se importa, a cada momento, com o que sucede a cada criatura na terra, e mais especialmente com tudo o que sucede a qualquer dos filhos dos homens. É difícil, de fato, compreender isto; aliás, é difícil crê-lo, considerando a complicada maldade e a complicada miséria que vemos por toda parte. Mas crê-lo devemos, a menos que queiramos fazer de Deus um mentiroso. Cabe-nos, pois, humilhar-nos diante de Deus e reconhecer a nossa ignorância. Pois como se pode supor que um homem compreenda a Deus? Como pode o finito medir o infinito?
14. Ele é infinito em sabedoria, tanto quanto em poder; e toda a sua sabedoria está continuamente empregada em conduzir todos os assuntos da sua criação para o bem de todas as suas criaturas. Pois a sua sabedoria e a sua bondade andam de mãos dadas: estão inseparavelmente unidas e agem de contínuo em concerto com o poder todo-poderoso, para o bem real de todas as suas criaturas. E a ele todas as coisas são possíveis: faz tudo o que lhe apraz, no céu, na terra, no mar e em todos os abismos.
15. Só que aquele que pode fazer todas as demais coisas não pode negar a si mesmo: não pode contrariar-se, nem opor-se à própria obra. Não fosse por isto, ele destruiria todo pecado, com a dor que o acompanha, num só momento. Aboliria a maldade de toda a sua criação e não deixaria dela traço algum. Mas, fazendo isto, contrariaria a si mesmo; subverteria por completo a sua própria obra e desfaria tudo o que tem feito desde que criou o homem sobre a terra. Pois criou o homem à sua imagem: um espírito semelhante a si, dotado de entendimento, de vontade e de liberdade — sem a qual nem o entendimento nem os afetos teriam serventia alguma, nem ele seria capaz de vício ou virtude. Não seria agente moral, mais do que uma árvore ou uma pedra. Se, portanto, Deus exercesse assim o seu poder, certamente não haveria mais vício; mas é igualmente certo que tampouco poderia haver virtude alguma no mundo. Removida a liberdade humana, os homens seriam tão incapazes de virtude quanto as pedras. Portanto (com reverência se diga), o próprio Todo-Poderoso não pode fazer isto. Não pode contradizer-se, nem desfazer o que fez. Não pode destruir da alma do homem aquela imagem de si em que o fez; e, sem fazer isto, não pode abolir o pecado e a dor do mundo. Mas, se o fizesse, isto não implicaria sabedoria alguma, apenas um golpe de onipotência. Ao passo que toda a multiforme sabedoria de Deus (bem como todo o seu poder e bondade) se manifesta em governar o homem como homem — não como um tronco ou uma pedra, mas como espírito inteligente e livre, capaz de escolher o bem ou o mal. Nisto aparece a profundidade da sabedoria de Deus na sua adorável providência: em governar os homens de modo a não destruir-lhes o entendimento, a vontade ou a liberdade. Ele ordena a todas as coisas, no céu e na terra, que auxiliem o homem a alcançar o fim do seu ser, a desenvolver a sua própria salvação — até onde isto se pode fazer sem coação, sem dominar-lhe a liberdade. Um investigador atento facilmente discerne que toda a estrutura da providência divina está de tal modo constituída que oferece ao homem todo socorro possível para fazer o bem e evitar o mal, sem transformá-lo numa máquina.
Os três círculos da providência
16. Entretanto, observou um escritor piedoso que há, por assim dizer, um tríplice círculo da providência divina, além daquele que preside todo o universo. Não falamos agora daquela mão soberana que governa a criação inanimada, que sustenta o sol, a lua e as estrelas nas suas estações; nem nos referimos ao seu cuidado com a criação animal, cada parte da qual está, como sabemos, sob o seu governo, “que dá o alimento ao gado e aos filhotes do corvo que clamam a ele”; mas falamos aqui daquela providência que vela sobre os filhos dos homens. O círculo mais externo inclui toda a raça humana, todos os descendentes de Adão, dispersos pela face da terra. Compreende não só o mundo cristão, mas também os maometanos, que superam consideravelmente até os cristãos nominais; sim, e igualmente os pagãos, que de longe superam maometanos e cristãos juntos. “Será Deus”, diz o apóstolo, “o Deus somente dos judeus, e não também dos gentios?” E assim podemos dizer: será ele o Deus somente dos cristãos, e não também dos maometanos e dos pagãos? Sim, sem dúvida, também destes. O seu amor não é confinado: “O Senhor é bondoso para com todo homem, e a sua misericórdia está sobre todas as suas obras.” Ele cuida até dos mais desamparados dos homens.
17. Contudo, pode-se admitir que ele toma cuidado mais imediato dos que estão compreendidos no segundo círculo, o menor, que inclui todos os que se chamam cristãos, todos os que professam crer em Cristo. Podemos razoavelmente pensar que estes, em algum grau, o honram, ao menos mais do que os pagãos; e Deus, do mesmo modo, em certa medida, os honra e tem por eles um cuidado mais próximo. Por muitos indícios se vê que o príncipe deste mundo não tem sobre estes poder tão pleno quanto sobre os pagãos.
18. Dentro do terceiro círculo, o mais interno, estão contidos apenas os cristãos reais, os que adoram a Deus não só na forma, mas em espírito e em verdade. Aqui se compreendem todos os que amam a Deus, ou, ao menos, verdadeiramente o temem e praticam a justiça; todos em quem está o sentir que houve em Cristo, e que andam como ele andou. As palavras do nosso Senhor acima citadas referem-se peculiarmente a estes. É a estes, em particular, que ele diz: “Até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados.” Ele vê a alma e o corpo deles; nota particularmente todos os seus temperamentos, desejos e pensamentos, todas as suas palavras e ações. Marca todos os seus sofrimentos, interiores e exteriores, e a fonte de onde brotam. Nada relativo a estes é grande ou pequeno demais para a sua atenção. Ele tem o olho continuamente, tanto sobre cada pessoa que é membro desta sua família, quanto sobre cada circunstância que se refere à alma ou ao corpo deles, ao seu estado interior ou exterior, em que sua felicidade presente ou eterna esteja em algum grau em jogo.
Contra a providência apenas geral
19. Mas que dizem a isto os sábios do mundo? Respondem, com toda a prontidão: “Quem duvida disto? Não somos ateus. Todos reconhecemos uma providência — isto é, uma providência geral; pois a providência particular, de que alguns falam, não sabemos o que fazer dela. Por certo os pequenos assuntos dos homens estão muito abaixo da consideração do grande Criador e Governador do universo!” E citam o poeta: “Ele vê com olhos iguais, como Senhor de tudo, um herói perecer ou um pardal cair.” Vê mesmo? Não posso crê-lo; pois (faça o que fizer aquele fino poeta) eu creio na Bíblia, na qual o próprio Criador e Governador do mundo me diz justamente o contrário. Que ele tem terno cuidado dos brutos, eu sei: “provê o alimento para o gado, tanto quanto as plantas para o uso do homem”; “os leões, rugindo pela presa, buscam de Deus o seu alimento”; “abre a mão e sacia todo vivente”. O nosso Pai celeste alimenta as aves do céu. Mas atente: “Não valem vocês muito mais do que elas?” Não os alimentará “muito mais”, a vocês, que os excedem por tão grande margem? Ele não os olha, nesse sentido, “com olhos iguais”; muito menos os põe no mesmo nível dos brutos quanto à vida e à morte: “Preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos.” Você realmente pensa que a morte de um pardal é igualmente preciosa aos olhos dele? Ele nos diz, de fato, que “nenhum pardal cai em terra sem o Pai”; mas pergunta, ao mesmo tempo: “Não valem vocês mais do que muitos pardais?”
20. Mas, em apoio de uma providência geral, contra a particular, o mesmo elegante poeta assenta como máxima indiscutível: “A Causa Universal age não por leis parciais, mas por leis gerais” — querendo dizer que Deus nunca se desvia dessas leis gerais em favor de pessoa alguma. Esta é suposição comum, mas de todo incompatível com todo o teor da Escritura. Pois, se Deus nunca se desvia dessas leis gerais, então nunca houve milagre algum no mundo, visto que todo milagre é um desvio das leis gerais da natureza. Confinou-se o Todo-Poderoso a essas leis gerais quando dividiu o mar Vermelho, quando ordenou às águas que se pusessem num montão e abrissem caminho para os seus remidos passarem? Agiu por leis gerais quando fez o sol parar por um dia inteiro? Não; nem em nenhum dos milagres registrados no Antigo ou no Novo Testamento.
21. Mas é sobre a suposição de que o Governador do mundo nunca se desvia dessas leis gerais que o poeta acrescenta, em pleno triunfo, os seus belos versos, como se tivesse agora ganho a questão: “Esquecerá o Etna ardente de trovejar e recolherá os seus fogos, se um sábio o pedir? Cessará a gravitação, se você passa por baixo do monte que treme? Ou reservará o velho templo a parede pendente para a cabeça do celerado?” Respondemos: se aprouver a Deus continuar a vida de algum dos seus servos, ele suspenderá aquela ou qualquer outra lei da natureza — a pedra não cairá, o fogo não queimará, as águas não fluirão; ou dará ordem aos seus anjos, e nas mãos deles o levarão, através de todos os perigos e acima deles!
22. Admitindo, então, que, no curso comum da natureza, Deus age por leis gerais, ele nunca se privou de fazer exceções a elas sempre que lhe apraz — seja suspendendo aquela lei em favor dos que o amam, seja empregando os seus poderosos anjos. Por qualquer desses meios pode livrar de todo perigo os que nele confiam. “Como! Você espera milagres, então?” Certamente que sim, se creio na Bíblia. Pois a Bíblia me ensina que Deus ouve e responde à oração; e toda resposta à oração é, a rigor, um milagre. Pois, se as causas naturais seguem o seu curso, se as coisas seguem o seu caminho natural, não há resposta alguma. A gravitação, portanto, cessará — isto é, cessará de operar — sempre que o seu Autor o quiser. Não conseguem os homens do mundo entender estas coisas? Não admira: já se observou há muito que “o homem néscio não atenta nisto, e o insensato não o entende”.
23. Mas ainda não terminei com essa tal providência geral. Pela graça de Deus, vou peneirá-la a fundo. Você diz: “Admito uma providência geral, mas nego a particular.” E que é uma providência geral, de que espécie for, que não inclua particulares? Não é todo geral necessariamente composto dos seus vários particulares? Diga-me um gênero, se puder, que não contenha espécie alguma. Que é que constitui um gênero, senão tantas espécies somadas? Que é, pergunto, um todo que não contém partes? Puro absurdo e contradição! Todo “todo” há de compor-se, pela própria natureza das coisas, das suas várias partes; de tal modo que, se não há partes, não pode haver todo.
24. Sendo este ponto da maior importância, consideremo-lo um pouco mais. Que quer você dizer com providência geral, distinta da particular? Quer dizer uma providência que vela apenas sobre as partes maiores do universo — o sol, a lua, as estrelas? Não atenta ela também na terra? Você admite que sim. Mas não atenta igualmente nos seus habitantes? Do contrário, que significa a terra, massa inanimada de matéria? Não vale um só espírito, um só herdeiro da imortalidade, mais que toda a terra — sim, ainda que a ela se acrescentem o sol, a lua e as estrelas, e toda a criação inanimada?
25. Ou quer dizer, ao afirmar uma providência geral distinta da particular, que Deus atenta apenas em algumas partes do mundo, e não noutras? Que partes? Onde traçará você a linha? Antes, diga: “O Senhor é bondoso para com todo homem, e o seu cuidado está sobre todas as suas obras.”
26. Ou quer dizer que a providência de Deus se estende, de fato, a todas as partes da terra quanto aos grandes acontecimentos, como a ascensão e a queda dos impérios, mas que os pequenos assuntos deste ou daquele homem estão abaixo da atenção do Todo-Poderoso? Então você não considera que grande e pequeno são termos meramente relativos, que só têm lugar em relação aos homens. Para com o Altíssimo, o homem e todos os assuntos dos homens são nada, menos que nada, diante dele. E nada é pequeno aos seus olhos, se em algum grau afeta o bem-estar dos que o temem e praticam a justiça. Que resta, então, da sua providência geral sem a particular? Seja ela para sempre rejeitada por todo homem racional, como absurdo que se contradiz. Podemos, pois, resumir toda a doutrina bíblica da providência naquele belo dito de Agostinho: “Ele preside a cada um como ao todo, e ao todo como a cada um.”
Pai, quão largas resplandecem as tuas glórias,
Senhor do universo — e meu!
A tua bondade vela sobre o todo,
como se o mundo inteiro fosse uma só alma;
e, contudo, guarda cada fio sagrado dos meus cabelos,
como se eu fosse o teu único cuidado!
Aplicações
27. Desta breve vista da providência de Deus podemos aprender, primeiro, a pôr toda a nossa confiança naquele que nunca faltou aos que o buscam. O próprio Senhor faz este uso da grande verdade diante de nós: “Não tenham medo, portanto.” Se você verdadeiramente teme a Deus, não precisa temer mais ninguém. Ele será torre forte para todos os que nele confiam, diante da face dos seus inimigos. Que há, no céu ou na terra, que possa prejudicá-lo, enquanto você está sob o cuidado do Criador e Governador do céu e da terra? Que toda a terra e todo o inferno se unam contra você; não poderão prejudicá-lo enquanto Deus estiver do seu lado: a sua benevolência o cobre como um escudo.
28. De perto ligada a esta confiança em Deus está a gratidão que lhe devemos pela sua bondosa proteção. Deem graças os que o Senhor assim livra da mão de todos os seus inimigos. Que bênção indizível é ser o cuidado peculiar daquele que tem todo o poder no céu e na terra! Como poderemos louvá-lo o bastante, enquanto estamos sob as suas asas, e a sua fidelidade e verdade são o nosso escudo?
29. Mas, entretanto, devemos ter o maior cuidado de andar humilde e estreitamente com o nosso Deus. Andar humildemente: pois, se de algum modo você roubar a Deus a sua honra, ou atribuir algo a si mesmo, aquilo que devia ser para o seu bem se tornará “ocasião de queda”. E andar estreitamente: cuide de ter uma consciência sem ofensa diante de Deus e dos homens. É enquanto você faz isto que é o cuidado peculiar do seu Pai que está nos céus. Mas não deixe que a consciência do cuidado dele o torne descuidado ou preguiçoso; pelo contrário, embora penetrado daquela profunda verdade — “o socorro que se faz na terra, Deus mesmo o faz” —, seja tão fervoroso e diligente no uso de todos os meios como se você fosse o seu próprio protetor. Por fim: em que melancólica condição estão os que não creem haver providência alguma, ou — o que dá exatamente no mesmo — nenhuma providência particular! Enquanto estão no mundo, ficam expostos a inumeráveis perigos que sabedoria humana alguma pode prever, nem poder humano algum pode resistir. E não há socorro! Se confiam nos homens, acham-nos “um sopro”. Quão desconfortável é a situação do homem que não tem esperança maior que esta! Mas, por outro lado, quão indizivelmente “feliz é o homem que tem por seu auxílio o Deus de Jacó, cuja esperança está posta no Senhor, seu Deus!” — que pode dizer: “O Senhor está sempre diante de mim; estando ele à minha direita, não serei abalado!” Portanto, “ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam.”
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.