SERMÃO 73

Do inferno

A advertência solene de Jesus sobre o castigo dos que rejeitam a Deus.

Mc 9.48, NAA ⏱ 21 min de leituraMorte, juízo e eternidade

“onde não lhes morre o verme, nem o fogo se apaga.”

(Mc 9.48, NAA)

Antes de ler

Neste sermão, John Wesley apresenta sua compreensão do castigo futuro dos impenitentes. Ele distingue entre a “pena da perda”, isto é, a privação definitiva da presença e das bênçãos de Deus, e a “pena dos sentidos”, relacionada ao sofrimento descrito biblicamente pelas imagens do verme que não morre e do fogo que não se apaga.

Wesley interpreta essas imagens de forma bastante literal e defende expressamente a duração interminável do sofrimento consciente. Essa posição deve ser preservada com fidelidade, ainda que o editor ou o leitor adotem outra compreensão acerca da natureza do castigo final.

O sermão também contém referências à ciência, à medicina, à literatura clássica e às práticas penais conhecidas no século XVIII. Essas afirmações pertencem ao contexto histórico de Wesley e não devem ser confundidas com conclusões científicas ou médicas atuais.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

Toda verdade revelada nos oráculos de Deus é, sem dúvida, de grande importância. Pode-se admitir, porém, que algumas das verdades neles reveladas sejam mais importantes do que outras, por contribuírem mais diretamente para o grande objetivo de todas elas: a salvação eterna dos seres humanos. Podemos avaliar sua importância até mesmo por esta circunstância: elas não são mencionadas apenas uma vez nos escritos sagrados, mas repetidas muitas vezes.

Temos um exemplo notável disso na terrível verdade que agora está diante de nós. Nosso bendito Senhor, que não usa palavras desnecessárias nem faz “vãs repetições”, repete essa verdade várias vezes no mesmo capítulo e, por assim dizer, de uma só vez.

Assim, em Marcos 9.43-44: “Se a sua mão leva você a tropeçar” — isto é, se alguma coisa ou pessoa, tão útil quanto uma mão, torna-se ocasião de pecado, e não existe outra maneira de evitar esse pecado —, “corte-a. É melhor você entrar na vida aleijado do que, tendo as duas mãos, ir para o inferno, para o fogo que nunca se apaga”, onde o verme não morre e o fogo não se apaga.

Novamente, em Marcos 9.45-46: “Se o seu pé leva você a tropeçar, corte-o. É melhor você entrar na vida manco do que, tendo os dois pés, ser lançado no inferno”, onde o verme não morre e o fogo não se apaga.

E, mais uma vez, em Marcos 9.47-48: “Se um dos seus olhos leva você a tropeçar” — isto é, se alguma pessoa ou coisa tão preciosa quanto seu olho impede você de correr a carreira que lhe está proposta —, “arranque-o. É melhor você entrar no Reino de Deus com um só olho do que, tendo os dois olhos, ser lançado no inferno”, onde o verme não morre e o fogo não se apaga.

Ninguém pense que a consideração dessas terríveis verdades seja apropriada apenas para pecadores extremamente perversos. Como essa suposição poderia ser conciliada com aquilo que nosso Senhor disse aos que eram, naquela ocasião, sem dúvida, os homens mais santos da terra?

Quando milhares de pessoas se reuniram, ele disse primeiramente aos seus discípulos, os apóstolos: “Digo a vocês, meus amigos: não temam os que matam o corpo e, depois disso, nada mais podem fazer. Eu, porém, mostrarei a quem vocês devem temer: temam aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno. Sim, digo a vocês: a esse vocês devem temer” (Lucas 12.4-5).

Sim, temam-no precisamente sob esse aspecto: como aquele que tem poder para lançar no inferno. Isso significa, na realidade, temer que ele lance vocês naquele lugar de sofrimento. Esse temor, mesmo nos filhos de Deus, é um excelente meio de preservá-los desse destino.

Portanto, não apenas os que são considerados a escória da humanidade, mas também vocês, amigos de Deus, vocês que o temem e o amam, devem considerar profundamente aquilo que os oráculos de Deus revelam a respeito do estado futuro de punição.

Como isso é diferente das descrições mais elaboradas apresentadas pelos autores pagãos! Seus relatos são, pelo menos em muitos aspectos, infantis, fantasiosos e contraditórios. Não é de admirar que nem eles mesmos acreditassem no que escreviam, mas apenas repetissem as histórias populares.

Virgílio dá uma forte indicação disso. Depois da trabalhosa descrição que fez das regiões dos mortos, envia aquele que a contou pela porta de marfim, através da qual, segundo ele, passam apenas os sonhos. Desse modo, permite-nos compreender que toda a descrição anterior não passava de um sonho.

Ele apenas insinua isso. Juvenal, porém, seu companheiro na poesia, fala de maneira direta:

Esse aliquos manes, et subterranea regna,
Nec pueri credunt, nisi qui nondum aere lavantur.

“Nem mesmo as crianças acreditam nas histórias sobre um mundo subterrâneo.”

Aqui, ao contrário, tudo é digno de Deus, o Criador e Governador da humanidade. Tudo é terrível e solene, apropriado à sabedoria e à justiça daquele por quem Tofete foi preparado desde a antiguidade, embora originalmente não tenha sido preparado para os filhos dos seres humanos, mas “para o diabo e os seus anjos” (Mateus 25.41).

A punição daqueles que, apesar de todas as advertências de Deus, decidem compartilhar o destino do diabo e de seus anjos será, segundo uma antiga e apropriada divisão, ou poena damni, “aquilo que perdem”, ou poena sensus, “aquilo que sentem”.

Depois de considerar essas duas partes separadamente, mencionarei algumas circunstâncias adicionais e concluirei com duas ou três aplicações.

Consideremos, em primeiro lugar, a poena damni, “a punição da perda”. Ela começa no exato momento em que a alma se separa do corpo. Naquele instante, a alma perde todos os prazeres cujo desfrute depende dos sentidos exteriores.

O olfato, o paladar e o tato já não proporcionam prazer. Os órgãos que serviam a esses sentidos estão destruídos, e os objetos que costumavam satisfazê-los foram afastados para sempre.

Nas sombrias regiões dos mortos, todas essas coisas são esquecidas; ou, caso sejam lembradas, são lembradas apenas com dor, porque desapareceram para sempre.

Todos os prazeres da imaginação chegam ao fim. Não existe grandeza nas regiões infernais; nada há de belo naquelas moradas escuras; não existe outra luz além da luz pálida das chamas.

Nada existe de novo, mas apenas uma cena invariável de horror após horror! Não há música, exceto a dos gemidos e gritos, do choro, da lamentação e do ranger de dentes; das maldições e blasfêmias contra Deus ou das acusações cruéis dirigidas uns contra os outros.

Também não existe coisa alguma capaz de satisfazer o senso de honra. Não! Eles são herdeiros da vergonha e do desprezo eterno.

Assim, ficam completamente separados de todas as coisas das quais gostavam no mundo presente. No mesmo instante, começa outra perda: a perda de todas as pessoas que amavam.

São arrancados de seus parentes mais próximos e queridos: esposas, maridos, pais, mães e filhos; e, o que para alguns será pior do que tudo isso, daquele amigo que era como sua própria alma.

Todo o prazer que alguma vez desfrutaram nessas pessoas está perdido, desapareceu e se desfez, porque não existe amizade no inferno.

Até mesmo o poeta que afirmou — embora eu não saiba com base em que autoridade —

“Demônio com demônio condenado
Mantém firme união”,

não afirmou que exista qualquer união entre os seres humanos transformados em demônios que habitam o grande abismo.

Eles, porém, perceberão uma perda ainda maior do que a perda de tudo aquilo que desfrutaram na terra. Perderam seu lugar no seio de Abraão, no paraíso de Deus.

Até então, realmente não havia entrado em seu coração imaginar o que as almas santas desfrutam no jardim de Deus, na companhia dos anjos e dos homens mais sábios e melhores que viveram desde o princípio do mundo — sem mencionar o enorme aumento de conhecimento que, sem dúvida, receberão ali.

Naquele momento, porém, compreenderão plenamente o valor daquilo que desprezaram e rejeitaram.

Por mais felizes que sejam as almas no paraíso, elas estão sendo preparadas para uma felicidade muito maior. O paraíso é apenas a entrada do céu. É ali que os espíritos dos justos são aperfeiçoados.

Somente no céu existe plenitude de alegria e prazeres eternos à direita de Deus. A perda dessa felicidade completará a miséria daqueles espíritos infelizes.

Então saberão e sentirão que somente Deus é o centro de todos os espíritos criados e que, consequentemente, um espírito criado para Deus não pode encontrar descanso fora dele.

Parece que o apóstolo tinha isso em vista quando falou daqueles que sofrerão “penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor” (2 Tessalonicenses 1.9). Ser banido da presença do Senhor é a própria essência da destruição para um espírito que foi criado para Deus. Se esse banimento durar para sempre, será uma “destruição eterna”.

Essa é a perda sofrida pelas criaturas infelizes contra as quais será pronunciada a terrível sentença: “Afastem-se de mim, malditos!” Que maldição indescritível seria essa, mesmo que nenhuma outra existisse!

Mas, infelizmente, isso está longe de ser tudo. À punição da perda será acrescentada a punição dos sentidos. Aquilo que perdem implica uma miséria indescritível, mas ainda inferior àquilo que sentem. É isso que nosso Senhor expressa nestas palavras enfáticas: “onde não lhes morre o verme, nem o fogo se apaga”.

Desde que foi pronunciada contra o ser humano a sentença: “Você é pó e ao pó voltará” (Gênesis 3.19), tornou-se costume de todas as nações, até onde sabemos, entregar o pó ao pó. Parecia natural devolver os corpos dos mortos à terra, mãe comum de todos.

Com o passar do tempo, surgiu outro método, principalmente entre os ricos e poderosos: queimar os corpos de seus parentes, muitas vezes de maneira grandiosa e magnífica. Para isso, levantavam enormes fogueiras funerárias, com grande trabalho e despesa.

Por qualquer um desses métodos, o corpo humano logo retornava ao pó de onde veio. Ou os vermes ou o fogo consumiam rapidamente aquela estrutura cuidadosamente formada; depois disso, os próprios vermes morriam e o fogo se apagava completamente.

Existe, porém, um verme pertencente ao estado futuro: um verme que nunca morre! E existe um fogo mais quente do que o da fogueira funerária: um fogo que nunca será apagado!

A primeira coisa representada pelo verme que nunca morre parece ser uma consciência culpada, incluindo autocondenação, tristeza, vergonha, remorso e percepção da ira de Deus.

Não podemos ter alguma ideia disso por meio daquilo que, às vezes, é sentido ainda neste mundo? Não é principalmente disso que Salomão fala quando diz: “O espírito firme sustém a pessoa na sua doença, mas o espírito abatido, quem o pode suportar?” (Provérbios 18.14)?

Quem pode suportar a angústia de uma consciência despertada, penetrada pelo sentimento de culpa, sentindo as flechas do Todo-Poderoso cravadas na alma e consumindo seu espírito? Quantos dos mais corajosos sucumbiram sob esse peso!

Entretanto, o que são essas feridas e toda essa angústia da alma enquanto ainda está neste mundo, comparadas ao que sofrerão quando suas almas estiverem plenamente despertas para sentir a ira de um Deus ofendido?

Acrescentem a isso todas as paixões profanas: medo, terror, fúria e desejos malignos, desejos que jamais poderão ser satisfeitos.

Acrescentem todas as disposições profanas: inveja, ciúme, malícia e vingança, que estarão continuamente corroendo a alma, assim como se dizia que o abutre devorava o fígado de Tício.

Acrescentemos ainda o ódio contra Deus e contra todas as suas criaturas. Todas essas coisas reunidas podem nos dar uma ideia pequena e imperfeita do verme que nunca morre.

Podemos observar uma diferença notável na maneira como nosso Senhor fala das duas partes da punição futura. A respeito de uma, ele diz: “o verme deles não morre”; a respeito da outra: “o fogo não se apaga”.

Isso não pode ser por acaso. Qual seria, então, a razão dessa diferença de expressão?

Não parece ser esta? O fogo será o mesmo, essencialmente o mesmo, para todos os que forem atormentados nele, embora talvez mais intenso para alguns do que para outros, de acordo com o grau de culpa.

O verme de cada pessoa, porém, não será nem poderá ser o mesmo. Variará infinitamente, de acordo tanto com os diferentes tipos quanto com os diferentes graus de perversidade.

Essa variedade surgirá, em parte, do justo juízo de Deus, que retribui “a cada um segundo as suas obras” (Romanos 2.6). Não podemos duvidar de que essa regra se cumprirá tanto no inferno quanto no céu.

Assim como no céu “cada um receberá a sua própria recompensa” (1 Coríntios 3.8), uma recompensa que lhe pertence particularmente, conforme seu próprio trabalho — isto é, conforme todo o curso de suas disposições, pensamentos, palavras e ações —, cada pessoa também receberá sua própria recompensa má, de acordo com seu trabalho mau.

Essa recompensa será exclusivamente sua, assim como foi seu trabalho.

A diversidade das punições também surgirá da própria natureza das coisas. Assim como aqueles que levam mais santidade ao céu encontram ali maior felicidade, também é verdade não apenas que quanto mais perversidade alguém levar ao inferno, maior será sua miséria, mas que essa miséria variará infinitamente conforme os diferentes tipos de perversidade.

Portanto, era apropriado dizer “o fogo”, de maneira geral, mas “o verme deles”, de maneira particular.

Alguns, porém, têm questionado se existe algum fogo no inferno, isto é, algum fogo material. Se existe fogo, ele é indiscutivelmente material. Pois o que seria fogo imaterial? Seria o mesmo que água ou terra imaterial! Ambas as expressões são absurdas e contraditórias.

Portanto, ou afirmamos que o fogo é material, ou negamos sua existência.

Mas, mesmo que concedêssemos que ali não existe fogo algum, o que ganhariam com isso, visto que todos admitem que existe fogo ou algo ainda pior?

Considerem também o seguinte: nosso Senhor não fala como se fosse fogo verdadeiro? Ninguém pode negar ou duvidar disso.

Seria possível supor que o Deus da verdade falaria dessa maneira se não fosse assim? Pretenderia ele apenas assustar suas pobres criaturas? E faria isso com espantalhos, com sombras vazias de coisas que não existem?

Que ninguém pense assim! Não atribuam tal insensatez ao Altíssimo!

Outros afirmam: “É impossível que o fogo queime para sempre. Pela lei imutável da natureza, ele consome tudo aquilo que é lançado nele. Pela mesma lei, assim que consome seu combustível, o próprio fogo é consumido e se apaga.”

É verdade que, na constituição atual das coisas e sob as atuais leis da natureza, o elemento fogo dissolve e consome tudo o que é lançado nele.

Aqui, porém, está o erro: as atuais leis da natureza não são imutáveis. Quando os céus e a terra fugirem, todo o cenário atual será transformado. Com a constituição presente das coisas, as leis presentes da natureza também cessarão.

Depois dessa grande transformação, nada mais será dissolvido nem consumido.

Portanto, mesmo que fosse verdade que o fogo consome todas as coisas agora, não se seguiria que faria o mesmo depois que toda a estrutura da natureza tivesse passado por aquela vasta e universal transformação.

Eu disse: “Mesmo que fosse verdade que o fogo consome todas as coisas agora.” Na realidade, porém, isso não é verdade.

Deus não se agradou em nos dar, desde já, alguma demonstração daquilo que acontecerá no futuro? O linum asbestum, o linho incombustível, não é conhecido em muitas partes da Europa?

Caso se tome uma toalha ou um lenço feito desse material — um exemplar podia ser visto, no tempo de Wesley, no Museu Britânico — e ele seja lançado no fogo mais intenso, ao ser retirado, verificará que não perdeu nem mesmo uma pequena parte de seu peso.

Temos, portanto, diante dos olhos, uma substância que, mesmo na atual constituição das coisas — como se fosse uma representação das coisas futuras —, pode permanecer no fogo sem ser consumida.

Muitos escritores falaram de outros sofrimentos físicos acrescentados ao fato de ser lançado no lago de fogo. Um deles, até mesmo o piedoso Tomás de Kempis, supõe, por exemplo, que ouro derretido seja derramado sobre os avarentos. Supõe também muitas outras punições particulares ajustadas aos pecados particulares das pessoas.

Nosso grande poeta também imagina que os habitantes do inferno sofram diferentes formas de tortura. Não permaneceriam sempre no lago de fogo, mas seriam frequentemente:

“Arrastados por fúrias de pés monstruosos”

para regiões de gelo e, depois, conduzidos novamente através de extremos cuja alternância tornaria o sofrimento ainda mais intenso.

Não encontro, porém, uma palavra ou sequer uma pequena indicação disso em toda a Bíblia. Certamente esse assunto é terrível demais para permitir tais exercícios de imaginação.

Permaneçamos com a Palavra escrita. Já é sofrimento suficiente habitar com as chamas eternas.

Isso é fortemente ilustrado por uma história fabulosa, retirada de um escritor oriental, a respeito de um rei turco. Depois de praticar toda espécie de perversidade, ele fez certa vez uma boa ação.

Vendo um homem pobre caindo em um poço, onde inevitavelmente morreria, empurrou-o para fora com o pé e salvou sua vida.

A história acrescenta que, quando foi lançado no inferno por causa de sua enorme perversidade, permitiu-se que o pé com o qual havia salvado o homem permanecesse fora das chamas.

Mesmo que admitíssemos que esse fosse um caso real, que pequeno consolo seria! E se ambos os pés fossem mantidos fora das chamas, e até as duas mãos, quão pouco isso adiantaria!

Ainda que todo o corpo fosse retirado e colocado onde o fogo não o alcançasse, enquanto somente uma mão ou um pé permanecesse exposto a um fogo intenso, aquela pessoa teria tranquilidade? Certamente não.

É comum perguntar a uma criança: “Você consegue manter o dedo próximo da chama de uma vela por um minuto? Como suportaria, então, o fogo do inferno?”

Uma queimadura grave em uma pequena parte do corpo já causa intenso sofrimento. O que seria, então, ter todo o corpo lançado em um lago de fogo que arde com enxofre?

Resta considerar apenas duas ou três circunstâncias relacionadas ao verme que nunca morre e ao fogo que não se apaga.

Considerem, primeiramente, a companhia pela qual cada pessoa estará cercada naquele lugar de sofrimento.

Não é incomum ouvir até mesmo criminosos condenados dizerem nas prisões públicas: “Eu preferiria que minha sentença fosse logo executada a continuar atormentado por essas pessoas que estão ao meu redor!”

Mas o que são os indivíduos mais perversos da terra comparados aos habitantes do inferno? Nenhum deles ainda está completamente corrompido, destituído de toda centelha de bem. Certamente isso não ocorre antes que esta vida termine; e provavelmente não antes do dia do juízo.

Nenhum deles pode exercer sem qualquer limitação toda a sua perversidade contra seus semelhantes. Às vezes são impedidos por pessoas boas; às vezes, até mesmo por pessoas más.

Até mesmo os sofrimentos impostos pela Inquisição Romana eram limitados pelos próprios responsáveis, quando julgavam que a vítima não conseguiria suportar mais. Ordenavam, então, aos executores que parassem, porque era contrário às regras daquela instituição que alguém morresse durante o suplício.

Com muita frequência, quando não existe auxílio humano, essas pessoas são limitadas por Deus, que lhes estabelece limites que não podem ultrapassar e diz: “Até aqui você virá e não mais adiante” (Jó 38.11).

Deus também determinou misericordiosamente que o próprio excesso de dor possa produzir uma suspensão da sensação. A pessoa perde a consciência e, pelo menos durante algum tempo, deixa de perceber o sofrimento.

Os habitantes do inferno, porém, são completamente perversos, não lhes restando nenhuma centelha de bondade.

Ninguém os impede de exercer até o limite toda a sua perversidade. Não são impedidos por seres humanos, pois nenhum dos que compartilham a condenação procurará restringir seus companheiros.

Também não são impedidos por Deus, pois foram entregues aos seus atormentadores. Os demônios não precisam temer, como seus instrumentos na terra, que as vítimas morram sob o sofrimento. Elas já não podem morrer.

Possuem força para suportar tudo o que a malícia, a habilidade e a força reunidas dos anjos possam lhes impor.

Seus atormentadores angelicais também possuem tempo suficiente para variar seus sofrimentos de inúmeras maneiras. Quão terríveis poderiam ser, por exemplo, as aparições assustadoras pelas quais um espírito mau, caso recebesse permissão, poderia levar ao desespero até mesmo o homem mais corajoso da terra!

Considerem, em segundo lugar, que todos esses sofrimentos do corpo e da alma não possuem interrupção. Não existe descanso para sua dor, pois “a fumaça do seu tormento sobe pelos séculos dos séculos” e “não têm descanso nem de dia nem de noite” (Apocalipse 14.11).

“Dia e noite” é uma maneira de falar baseada na constituição do mundo presente, no qual Deus, em sua sabedoria e bondade, determinou que o dia e a noite se sucedessem. Assim, a cada vinte e quatro horas chega:

“Um sábado diário, criado para dar descanso
Ao homem que trabalha e ao animal cansado.”

Por isso, raramente passamos por muito trabalho ou sofremos muita dor antes que:

“O doce restaurador da natureza cansada, o suave sono”,

aproxime-se de nós sem ser percebido e nos proporcione um intervalo de alívio.

Embora os condenados experimentem uma noite contínua, ela não traz interrupção alguma de sua dor. Nenhum sono acompanha aquela escuridão.

Não importa o que poetas antigos ou modernos, como Homero ou Milton, tenham imaginado: não existe sono no inferno nem no céu.

Por mais extremo que seja seu sofrimento e por mais intensa que seja sua dor, não existe possibilidade de perderem a consciência, nem mesmo por um instante.

Além disso, os habitantes da terra são frequentemente distraídos daquilo que os aflige pela alegre luz do sol, pela mudança das estações, pelo movimento das pessoas e pelos milhares de objetos que os cercam em infinita variedade.

Os habitantes do inferno, porém, não possuem coisa alguma capaz de desviar sua atenção de seus sofrimentos, nem mesmo por um instante:

“Eclipse total: nenhum sol, nenhuma lua!”

Não existe mudança de estações nem de companheiros. Não existe ocupação, mas uma única cena ininterrupta de horror, à qual precisam dedicar toda a atenção.

Não possuem nenhum intervalo de desatenção ou insensibilidade. São inteiramente olhos, ouvidos e sentidos.

Em cada instante de sua existência, pode-se dizer de toda a sua estrutura:

“Terrivelmente vivos em toda parte,
Sofrem e agonizam em cada poro!”

E essa duração não tem fim! Que pensamento é esse! Somente a eternidade marca a duração de seu sofrimento!

Quem pode contar as gotas da chuva, os grãos de areia do mar ou os dias da eternidade?

Todo sofrimento se torna mais leve quando existe alguma esperança, ainda que distante, de libertação. Ali, porém, a esperança jamais chega, embora alcance todos os habitantes do mundo superior.

O quê? Sofrimentos que nunca terminarão?

“NUNCA! — Onde afunda a alma ao ouvir esse som terrível?
Em um abismo tão escuro e tão profundo!”

Suponhamos que tenham passado milhões de dias, anos e eras. Ainda estarão apenas no limiar da eternidade!

Nem a dor do corpo nem a dor da alma estará mais próxima do fim do que estava milhões de eras antes.

Quando são lançados no to pyr to ásbeston — expressão tão enfática: “o fogo, o inextinguível” —, tudo está decidido: “o verme deles não morre, e o fogo não se apaga”.

Esse é o relato que o Juiz de todos apresenta a respeito da punição que estabeleceu para os pecadores impenitentes.

Que contrapeso a consideração disso pode oferecer diante da violência de qualquer tentação! Isso se aplica especialmente ao medo das pessoas, exatamente o uso que o próprio Senhor faz dessa verdade:

“Não temam os que matam o corpo e, depois disso, nada mais podem fazer. Temam aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno” (Lucas 12.4-5).

Que proteção essas considerações podem proporcionar contra qualquer tentação relacionada ao prazer!

Você perderá, por causa desses pobres prazeres terrenos, que desaparecem enquanto são usados — para não mencionar os prazeres sólidos que a religião proporciona já no presente —, os prazeres do paraíso, que “nem olhos viram, nem ouvidos ouviram” (1 Coríntios 2.9)?

Perderá os prazeres do céu, a companhia dos anjos e dos espíritos dos justos aperfeiçoados, a comunhão face a face com Deus, seu Pai, seu Salvador e seu Santificador, e o privilégio de beber eternamente dos rios de prazer que estão à direita de Deus?

Você é tentado pela dor, seja do corpo, seja da mente? Compare as coisas presentes com as futuras!

O que é a dor física que você sofre ou poderá sofrer comparada à de permanecer em um lago de fogo que arde com enxofre?

O que é qualquer dor da mente — qualquer medo, angústia ou tristeza — comparada ao “verme que nunca morre”?

Que nunca morre! Esse é o aguilhão de tudo!

Quanto aos nossos sofrimentos na terra, bendito seja Deus, eles não são eternos. Existem intervalos de alívio e existe um momento em que chegam ao fim.

Quando perguntamos a um amigo doente como está, ele responde: “Estou sofrendo agora, mas espero sentir alívio em breve.” Essa esperança suaviza a aflição presente.

Como seria terrível, porém, se ele respondesse: “Todo o meu ser está tomado pela dor, e jamais sentirei alívio. Sofro intensamente no corpo e experimento horror na alma, e sentirei isso para sempre!”

Essa, segundo Wesley, é a condição dos pecadores condenados no inferno. Portanto, suportem qualquer sofrimento antes de chegar àquele lugar de tormento!

Concluo com mais uma reflexão, retirada do doutor Watts:

“Exige nossa mais elevada gratidão o fato de nós, que há muito tempo merecemos essa miséria, ainda não termos sido lançados nela.

Enquanto milhares foram condenados àquele lugar de punição antes de terem permanecido no pecado tanto tempo quanto muitos de nós, que demonstração da bondade divina é o fato de ainda não estarmos debaixo dessa vingança ardente!

Não vimos muitos pecadores, à nossa direita e à nossa esquerda, morrerem em seus pecados? O que, senão a terna misericórdia de Deus, nos preservou semana após semana, mês após mês, concedendo-nos tempo para o arrependimento?

O que ofereceremos ao Senhor por toda a sua paciência e longanimidade para conosco até hoje?

Quantas vezes trouxemos sobre nós a sentença de condenação por nossas repetidas rebeliões contra Deus! Apesar disso, ainda estamos vivos em sua presença e ouvimos palavras de esperança e salvação.

Olhemos para trás e tremamos ao pensar naquele terrível precipício à beira do qual caminhamos por tanto tempo!

Corramos para o refúgio da esperança que está diante de nós e demos mil graças à misericórdia divina por ainda não termos sido lançados nessa perdição!”

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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