SERMÃO 90

Um verdadeiro israelita

O elogio de Jesus a Natanael — a religião do coração, sem falsidade.

Jo 1.47, NAA ⏱ 16 min de leituraVida cristã prática

“Eis um verdadeiro israelita, em quem não há falsidade!”

(Jo 1.47, NAA)

Antes de ler

Neste sermão, Wesley examina o significado da declaração de Jesus sobre Natanael: “em quem não há falsidade”. Ele apresenta o verdadeiro israelita como uma pessoa cujo coração é inteiramente voltado para Deus, cujas palavras correspondem ao coração e cujas ações correspondem às palavras.

Wesley dialoga inicialmente com duas propostas filosóficas de sua época. Francis Hutcheson identificava a essência da virtude com a benevolência, enquanto William Wollaston a identificava com a conformidade à verdade. Wesley considera ambas insuficientes quando separadas do amor a Deus. Para ele, a verdadeira virtude consiste na verdade unida ao amor, sendo o amor ao próximo fundamentado no amor a Deus que nasce da fé.

Na parte prática, Wesley condena toda mentira intencional, inclusive aquela contada com a finalidade de alcançar algum bem. Também distingue sinceridade de ingenuidade. O cristão pode permanecer em silêncio, falar com prudente reserva e recusar-se a revelar tudo o que sabe. O que não pode fazer é representar como completo um relato parcial, fingir ser aquilo que não é ou utilizar a verdade com o propósito de enganar.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1. Alguns anos atrás, um homem muito inteligente, o professor Hutcheson, de Glasgow, publicou dois tratados: A origem de nossas ideias de beleza e virtude.

No segundo deles, sustentou que a própria essência da virtude é o amor aos nossos semelhantes.

Procurou provar que virtude e benevolência são exatamente a mesma coisa; que determinada disposição somente é virtuosa na medida em que participa da natureza da benevolência; e que nossas palavras e ações somente são virtuosas quando procedem do mesmo princípio.

“Mas ele não supõe que a gratidão ou o amor a Deus seja o fundamento dessa benevolência?”

De modo algum. Semelhante suposição jamais entrou em sua mente.

Na realidade, supõe exatamente o contrário.

Não hesita em afirmar que, caso alguma disposição ou ação seja produzida pela consideração a Deus ou pela esperança de receber recompensa dele, não é virtuosa de modo algum.

Caso uma ação proceda em parte da benevolência e em parte da consideração a Deus, quanto maior for a consideração a Deus, menor será a virtude existente nela.

2. Não consigo considerar esse belo ensaio do senhor Hutcheson de outra maneira senão como um ataque moderado — e, exatamente por isso, mais perigoso — contra toda a revelação cristã.

A revelação cristã afirma que o amor a Deus é o verdadeiro fundamento tanto do amor ao próximo quanto de todas as demais virtudes.

Por isso, coloca como “o primeiro e grande mandamento”, do qual todos os outros dependem:

“Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de toda a sua força.”

Segundo a Bíblia, portanto, a benevolência ou amor ao próximo é apenas o segundo mandamento.

Supondo que as Escrituras procedam de Deus, está muito longe de ser verdade que somente a benevolência seja o fundamento e a essência de toda virtude.

A própria benevolência não é virtude alguma, a menos que proceda do amor a Deus.

3. Não se pode negar, porém, que o próprio escritor apresenta uma observação marginal em favor do cristianismo:

“Quem não desejaria”, diz ele, “que fosse possível provar que a revelação cristã procede de Deus, visto ser, indiscutivelmente, a instituição mais benevolente que já apareceu no mundo?”

Entretanto, caso seja cuidadosamente examinada, essa afirmação não representa outro golpe contra a própria raiz da revelação?

Não equivale a dizer:

“Desejaria que fosse possível prová-la, mas, na realidade, isso não pode ser feito”?

4. Outro escritor inteligente apresenta uma hipótese completamente diferente.

O senhor Wollaston, no livro intitulado A religião da natureza delineada, procura provar que a verdade, ou a conformidade com a verdade, é a essência da virtude.

Parece, porém, que o senhor Wollaston se distancia ainda mais da Bíblia do que o próprio senhor Hutcheson.

O sistema do senhor Hutcheson rejeita apenas um dos dois grandes mandamentos: “Ame o Senhor, seu Deus.”

O senhor Wollaston rejeita ambos, pois sua hipótese não coloca a essência da virtude nem no amor a Deus nem no amor ao próximo.

5. Embora de maneiras diferentes, esses dois autores concordam em separar aquilo que Deus uniu.

Paulo, porém, une essas coisas, ensinando-nos a falar “a verdade em amor” (Efésios 4.15).

Sem dúvida, a verdade e o amor estavam unidos naquele a respeito de quem aquele que conhece o coração de todas as pessoas apresentou este belo testemunho:

“Eis um verdadeiro israelita, em quem não há falsidade!”

6. Quem é a pessoa a respeito da qual nosso bendito Senhor apresenta esse testemunho glorioso?

Quem é esse Natanael, sobre quem recebemos uma descrição tão notável na parte final do capítulo diante de nós?

Não é estranho que não seja novamente mencionado em nenhuma parte do Novo Testamento?

Não é novamente mencionado por esse nome. Provavelmente, porém, possuía outro pelo qual era mais conhecido.

Os antigos acreditavam geralmente que era a mesma pessoa chamada em outros lugares de Bartolomeu, um dos apóstolos de nosso Senhor e aquele que, nas listas apresentadas por Mateus e Marcos, é colocado imediatamente depois de Filipe, que inicialmente o conduziu ao Mestre.

É bastante provável que seu nome pessoal fosse Natanael, um nome comum entre os judeus, e que seu outro nome, Bartolomeu — que significa simplesmente “filho de Ptolomeu” —, tivesse sido derivado de seu pai.

Esse costume era extremamente comum entre os judeus e também entre os pagãos.

7. Pelo pouco que é dito a seu respeito no contexto, parece ter sido um homem de espírito excelente.

Não acreditava precipitadamente, mas estava aberto à convicção e disposto a receber a verdade, independentemente do lugar de onde procedesse.

Assim lemos:

“Filipe encontrou Natanael” — provavelmente por aquilo que chamamos de acaso — “e lhe disse: Achamos aquele de quem Moisés escreveu na Lei e a quem se referiram os Profetas: Jesus, o Nazareno” (João 1.45).

Natanael respondeu:

“De Nazaré pode sair alguma coisa boa?”

Moisés falou ou os profetas escreveram sobre algum profeta procedente daquele lugar?

Filipe respondeu:

“Venha e veja”, e você logo poderá julgar por si mesmo.

Natanael aceitou seu conselho sem parar para consultar carne e sangue.

Jesus viu Natanael aproximar-se e disse:

“Eis um verdadeiro israelita, em quem não há falsidade!”

Natanael perguntou, sem dúvida com grande surpresa:

“De onde o senhor me conhece?”

Jesus respondeu:

“Antes de Filipe chamar você, eu já tinha visto você debaixo da figueira.”

Natanael respondeu — tão rapidamente todo o preconceito desapareceu:

“Mestre, o senhor é o Filho de Deus! O senhor é o Rei de Israel!”

O que está incluído na descrição apresentada pelo Senhor: “em quem não há falsidade”?

Ela pode incluir todo o conteúdo deste conselho:

Conserve sempre seu coração fiel a Deus, Suas palavras fiéis ao coração E suas ações fiéis a ambos.

1. Podemos observar, primeiramente, o que está incluído em possuir um coração fiel a Deus.

Isso significa alguma coisa inferior àquilo que está incluído nesta bondosa ordem:

“Meu filho, dê-me o seu coração” (Provérbios 23.26)?

Nosso coração somente é fiel a Deus quando o entregamos a ele.

Entregamos o coração a Deus, no grau mais elementar, quando buscamos nossa felicidade nele.

Isso acontece quando não a buscamos na satisfação do desejo da carne, em qualquer dos prazeres dos sentidos; nem na satisfação do desejo dos olhos, nos prazeres da imaginação produzidos por objetos grandiosos, novos ou belos, sejam da natureza, sejam da arte; nem na soberba da vida, na honra procedente das pessoas, no fato de sermos amados, estimados e elogiados por elas; nem mesmo naquilo que algumas pessoas, com igual insolência e ignorância, chamam de “o principal objetivo”: acumular tesouros na terra.

Quando não buscamos felicidade em nenhuma dessas coisas, mas somente em Deus, então, em algum sentido, entregamos o coração a ele.

2. Num sentido mais apropriado, entregamos o coração a Deus quando não apenas buscamos, mas encontramos felicidade nele.

3. Essa felicidade começa, sem dúvida, quando começamos a conhecê-lo pelo ensinamento de seu próprio Espírito; quando agrada ao Pai revelar o Filho em nosso coração, de modo que podemos dizer humildemente: “Meu Senhor e meu Deus”; e quando agrada ao Filho revelar o Pai em nós por meio do Espírito de adoção, que clama em nosso coração: “Aba, Pai!”, e testemunha ao nosso espírito que somos filhos de Deus.

É então que o amor de Deus também é derramado em nosso coração.

E o grau de nossa felicidade corresponde ao grau de nosso amor.

4. Questionou-se, porém, se é propósito de Deus que a felicidade inicialmente desfrutada por todos os que o conhecem e amam continue além, por assim dizer, do dia de seu casamento espiritual.

Precisamos admitir que, em muitos, ela não continua. Em alguns meses, talvez semanas ou até mesmo dias, a alegria e a paz desaparecem de uma só vez ou diminuem gradualmente.

Caso Deus deseje que a felicidade deles continue, como podemos explicar isso?

5. Creio que a explicação é muito simples.

A exortação de Judas — “mantenham-se no amor de Deus” (Judas 21) — certamente significa que alguma coisa precisa ser realizada de nossa parte para que esse amor continue.

Isso não corresponde à declaração geral de nosso Senhor a respeito desse e de todos os demais dons de Deus?

“Ao que tem, mais será dado, e terá em abundância; mas ao que não tem” — isto é, não utiliza nem desenvolve aquilo que recebeu — “até o que tem lhe será tirado” (Lucas 8.18).

Parte desse versículo é traduzida em nossa versão como “aquilo que parece ter”.

É difícil, porém, encontrar sentido nisso. Caso apenas pareça possuir esse ou qualquer outro dom de Deus, realmente não o possui.

E, caso não o possua, não poderá perdê-lo, pois ninguém pode perder aquilo que nunca teve.

É claro, portanto, que a expressão grega deve ser traduzida como “aquilo que certamente possui”.

Pode-se observar que a palavra utilizada em diferentes passagens do Novo Testamento não enfraquece, mas fortalece o sentido da expressão à qual está ligada.

Consequentemente, aquele que desenvolve a graça já recebida e cresce no amor de Deus certamente a conservará.

Deus continuará concedendo-a e a concederá em maior abundância.

Aquele, porém, que não desenvolve esse talento não poderá conservá-lo.

Apesar de tudo aquilo que fizer, ele inevitavelmente lhe será retirado.

1. Enquanto o coração daquele que é um verdadeiro israelita permanece fiel a Deus, suas palavras correspondem ao coração.

Assim como não existe falsidade alojada em seu coração, também nenhuma é encontrada em seus lábios.

A primeira coisa incluída nisso é a veracidade: falar a verdade procedente do coração e eliminar toda mentira voluntária, em qualquer forma e grau.

Uma mentira, segundo uma conhecida definição, é:

Falsum testimonium, cum intentione fallendi:

“Uma afirmação falsa, reconhecida como falsa por aquele que fala e pronunciada com a intenção de enganar.”

Entretanto, até mesmo afirmar algo falso não constitui mentira quando não é dito com o propósito de enganar.

2. A maioria dos estudiosos da moral, especialmente os pertencentes à Igreja de Roma, distingue as mentiras em três categorias.

A primeira é formada pelas mentiras maliciosas.

A segunda, pelas mentiras inofensivas.

A terceira, pelas mentiras destinadas a prestar algum auxílio.

Essas pessoas apresentam julgamentos muito diferentes a respeito delas.

Não conheço alguém tão ousado que procure desculpar, muito menos defender, as mentiras maliciosas, isto é, aquelas contadas com o objetivo de prejudicar alguém.

Elas são condenadas por todos os grupos.

As pessoas apresentam opiniões mais divididas a respeito das chamadas mentiras inofensivas, consideradas incapazes de produzir bem ou mal.

A maioria, até mesmo no mundo cristão, conta essas mentiras sem qualquer escrúpulo e sustenta abertamente que, caso não causem dano a outra pessoa, também não causam dano a quem as conta.

Independentemente de produzirem ou não algum mal, não possuem lugar algum na boca daquele que é um verdadeiro israelita.

Ele não pode mentir em brincadeira mais do que pode mentir seriamente.

Nada além da verdade é ouvido de sua boca.

Recorda-se do mandamento expresso de Deus aos cristãos de Éfeso:

“Deixando a mentira, que cada um fale a verdade com o seu próximo” (Efésios 4.25).

3. A respeito das mentiras destinadas a prestar algum auxílio, isto é, aquelas contadas com a intenção de produzir algum bem, existiram numerosas controvérsias na Igreja cristã.

Muitos escritores, pessoas conhecidas tanto por sua piedade quanto por sua erudição, publicaram volumes inteiros sobre o assunto e, apesar de todos os opositores, não apenas defenderam sua inocência, mas as elogiaram como merecedoras de recompensa.

O que, porém, dizem as Escrituras?

Uma passagem é tão clara que não existe necessidade de qualquer outra.

Ela aparece no terceiro capítulo da Carta aos Romanos:

“Se, por causa da minha mentira, fica em relevo a verdade de Deus para a sua glória, por que ainda sou condenado como pecador?”

A mentira seria desculpada por causa de seu bom resultado?

“E por que não dizer, como alguns, caluniosamente, afirmam que dizemos: ‘Façamos o mal para que venha o bem’? A condenação destes é justa” (Romanos 3.7-8).

Aqui o apóstolo declara claramente:

Primeiro: o bom resultado de uma mentira não serve de desculpa para ela.

Segundo: afirmar que os cristãos ensinam as pessoas a fazer o mal para que venha o bem é pura calúnia.

Terceiro: caso alguma pessoa realmente faça isso — ensinando os outros a fazer o mal para que venha o bem ou praticando ela mesma semelhante coisa —, sua condenação é justa.

Isso se aplica especialmente àqueles que contam mentiras para produzir algum bem.

Segue-se que as mentiras contadas para prestar auxílio, assim como todas as demais, são abomináveis ao Deus da verdade.

Portanto, não existe absurdo, por mais estranha que pareça, nesta declaração de um antigo Pai da Igreja:

“Eu não contaria voluntariamente uma mentira nem mesmo para salvar as almas de todo o mundo.”

4. A segunda característica incluída no verdadeiro israelita é a sinceridade.

Assim como a veracidade é oposta à mentira, a sinceridade é oposta à astúcia.

Ela, porém, não é oposta à sabedoria ou à prudência, que são perfeitamente compatíveis com ela.

“Qual é a diferença entre sabedoria e astúcia? Não são quase, ou completamente, a mesma coisa?”

De modo algum. A diferença entre elas é extraordinariamente grande.

Sabedoria é a capacidade de discernir os melhores objetivos e os meios mais apropriados para alcançá-los.

O objetivo de toda criatura racional é Deus: desfrutá-lo no tempo e na eternidade.

O melhor — na verdade, o único — meio de alcançar esse objetivo é a fé que atua pelo amor.

A verdadeira prudência, no sentido geral da palavra, é a mesma coisa que sabedoria.

Discrição é apenas outro nome para prudência, caso não seja, antes, uma parte dela quando aplicada ao nosso comportamento exterior. Significa ordenar corretamente nossas palavras e ações.

A astúcia, porém — assim é geralmente chamada entre as pessoas comuns, embora entre os grandes seja chamada de política —, em termos simples, não é coisa melhor nem pior do que a arte de enganar.

Caso seja alguma espécie de sabedoria, é “a sabedoria que vem de baixo”, procedente do abismo e conduzindo ao lugar de onde veio.

5. Os dois grandes meios empregados pela astúcia para enganar são a simulação e a dissimulação.

Simulação é aparentar ser aquilo que não somos.

Dissimulação é aparentar não ser aquilo que somos.

Assim diz o antigo verso:

Quod non est simulo; dissimuloque quod est.

Finjo aquilo que não existe E escondo aquilo que existe.

Geralmente chamamos as duas atitudes de “apresentar uma aparência falsa”.

São incontáveis as formas assumidas pela simulação para enganar.

Quase igualmente numerosas são as formas utilizadas pela dissimulação com a mesma finalidade.

O homem sincero, porém, evita ambas e sempre aparece exatamente como é.

6. “Mas, caso estejamos lidando com pessoas astutas, não podemos permanecer em silêncio ou falar com reserva, especialmente quando fazem perguntas traiçoeiras, sem sermos acusados de astúcia?”

Sem dúvida, podemos.

Na verdade, em muitas ocasiões, devemos permanecer completamente em silêncio ou falar com maior ou menor reserva, conforme as circunstâncias exigirem.

Em muitos casos, não dizer coisa alguma é perfeitamente compatível com a mais elevada sinceridade.

O mesmo acontece com falar de maneira reservada, declarando apenas uma parte — talvez uma pequena parte — daquilo que sabemos.

Caso, porém, afirmemos ou deixemos entender que essa pequena parte constitui tudo aquilo que sabemos, agiremos contrariamente à sinceridade.

7. Uma pergunta mais difícil é esta:

“Não podemos falar a verdade com o propósito de enganar, como aquele homem da Antiguidade que exclamou, elogiando a própria inteligência:

Hoc ego mihi puto palmarium, ut vera dicendo eos ambos fallam.

‘Considero esta minha obra-prima: enganar os dois falando a verdade’?”

Respondo: um pagão poderia orgulhar-se disso, mas um cristão não pode.

Embora não seja contrário à veracidade, é certamente contrário à sinceridade.

Portanto, o caminho mais excelente, caso julguemos apropriado falar, é abandonar tanto a simulação quanto a dissimulação e falar a verdade sem disfarces, procedente do coração.

8. Talvez isso seja propriamente chamado de simplicidade.

Ela avança um pouco além da própria sinceridade.

Implica não apenas:

Primeiro, não afirmar deliberadamente coisa alguma que sabemos ser falsa;

Segundo, não procurar intencionalmente enganar alguém;

Mas, terceiro, falar de maneira clara e sem artifícios com todas as pessoas, sempre que falarmos; falar como crianças, de maneira infantil no melhor sentido, mas não imatura.

Isso não exclui completamente o uso de elogios falsos e bajulações sociais?

Essa é uma palavra desprezível, cujo próprio som abomino, concordando plenamente com nosso poeta:

Nunca foi um bom dia Quando a bajulação servil foi chamada de cortesia.

Aconselho os homens sinceros e simples a jamais utilizarem essa palavra insensata e a trabalharem para permanecer à maior distância possível tanto do nome quanto da prática.

9. Não muito antes daquele conhecido período:

Quando estadistas enviaram um prelado para além dos mares, Por meio do famoso ato de penas e punições,

vários bispos abordaram simultaneamente o bispo Atterbury, então bispo de Rochester, e perguntaram:

“Meu senhor, por que não permite que seus empregados digam que o senhor não está em casa quando não deseja receber visitas? Não é mentira dizer que o senhor não está em casa, pois ninguém é enganado. Todos sabem que significa apenas que o senhor está ocupado.”

Ele respondeu:

“Meus senhores, ainda que isso seja compatível com a sinceridade — coisa de que duvido —, tenho certeza de que não é compatível com a simplicidade apropriada a um bispo cristão.”

10. Voltemos, porém, ao assunto.

A sinceridade e a simplicidade daquele em quem não existe falsidade também influenciam todo o seu comportamento.

Conferem determinada característica a toda a sua conduta exterior.

Embora permaneça muito distante da grosseria, da falta de educação, da aspereza e da hostilidade, seu comportamento é claro, sem artifícios e livre de todo disfarce, sendo verdadeira representação de seu coração.

A verdade e o amor que continuamente reinam em seu interior produzem uma expressão aberta e um rosto sereno.

Não deixam qualquer motivo para repetir aquilo que disse o arrogante rei de Castela:

“Quando Deus criou o ser humano, deixou uma grande falha: deveria ter colocado uma janela em seu peito.”

O verdadeiro israelita abre, por assim dizer, uma janela no próprio peito por meio de toda a orientação de suas palavras e ações.

11. Essa é, portanto, a virtude real, verdadeira e sólida.

Não apenas a verdade nem somente a conformidade com a verdade.

A verdade é uma característica da verdadeira virtude, mas não sua essência.

Também não apenas o amor, embora este se aproxime mais do alvo, pois, em determinado sentido, “o amor é o cumprimento da lei” (Romanos 13.10).

Não. A verdade e o amor unidos constituem a essência da virtude ou da santidade.

Deus exige indispensavelmente a verdade no íntimo, influenciando todas as nossas palavras e ações.

Apesar disso, a verdade separada do amor nada representa diante dele.

Que o amor humilde, manso e paciente por toda a humanidade seja estabelecido sobre seu verdadeiro fundamento: o amor de Deus que nasce da fé, de uma plena convicção de que Deus entregou o Filho único para morrer por meus pecados.

Então tudo se resumirá naquela grande conclusão, digna de ser recebida por todas as pessoas:

“Nem a circuncisão é coisa alguma, nem a incircuncisão, mas a fé que atua pelo amor” (Gálatas 5.6).

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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