SERMÃO 89
O caminho mais excelente
Não basta o caminho comum: Wesley aponta a vida cristã em seu grau mais elevado.
“Procurem, com zelo, os melhores dons. E eu passo a mostrar-lhes um caminho ainda mais excelente.”
(1Co 12.31, NAA)Antes de ler
Neste sermão, Wesley utiliza a expressão “caminho mais excelente” em dois sentidos relacionados. Primeiramente, seguindo o contexto de 1 Coríntios 12 e 13, afirma que o amor é superior a todos os dons espirituais extraordinários. Sem amor, eloquência, conhecimento, fé, obras e sofrimentos não possuem valor para a salvação.
Em seguida, Wesley aplica a expressão à vida cristã cotidiana. Ele distingue entre uma maneira legítima, mas inferior, de viver a fé e um caminho mais elevado de inteira dedicação a Deus. Esse caminho inclui disciplina no sono, oração adaptada à condição da alma, trabalho realizado para a glória de Deus, gratidão nas refeições, conversas edificantes, recreações úteis e o emprego de todos os recursos como propriedade divina.
Alguns conselhos sobre duração do sono, alimentação, diversões e atividades sociais refletem conhecimentos médicos e costumes do século XVIII. O princípio central é que nenhum aspecto da vida é espiritualmente neutro. Tudo pode ser vivido de maneira comum ou transformado em serviço, comunhão e adoração a Deus.
— Bispo Ildo Mello
1. Nos versículos anteriores, Paulo havia falado sobre os dons extraordinários do Espírito Santo, como curar os enfermos, profetizar — no sentido próprio da palavra, isto é, anunciar acontecimentos futuros —, falar em línguas desconhecidas que o falante nunca havia aprendido e interpretar milagrosamente essas línguas.
O apóstolo admite que esses dons são desejáveis. Sim, exorta os coríntios, pelo menos os mestres entre eles — aos quais esses dons eram concedidos principalmente, se não exclusivamente, nos primeiros tempos da Igreja — a procurá-los com zelo, para que, por meio deles, estivessem capacitados a ser mais úteis aos cristãos ou aos pagãos.
“E, contudo”, diz ele, “mostro-lhes um caminho ainda mais excelente”: muito mais desejável do que todos esses dons reunidos, pois certamente os conduzirá à felicidade neste mundo e no mundo futuro. Por outro lado, alguém poderia possuir todos aqueles dons, até mesmo no grau mais elevado, e continuar miserável tanto no tempo quanto na eternidade.
2. Parece que esses dons extraordinários do Espírito Santo não permaneceram comuns na Igreja por mais de dois ou três séculos.
Raramente ouvimos falar deles depois daquele período desastroso em que o imperador Constantino se declarou cristão e, imaginando inutilmente que promoveria dessa maneira a causa cristã, acumulou riquezas, poder e honra sobre os cristãos em geral e, particularmente, sobre o clero cristão.
A partir desse período, esses dons quase desapareceram completamente. Pouquíssimos exemplos dessa espécie foram encontrados.
A causa não foi — como geralmente se imaginou — não existir mais necessidade deles porque todo o mundo havia se tornado cristão.
Esse é um erro lamentável. Nem sequer a vigésima parte do mundo era nominalmente cristã naquele tempo.
A verdadeira causa foi que “o amor de muitos” — quase todos os que eram chamados cristãos — havia esfriado.
Os cristãos não possuíam maior medida do Espírito de Cristo do que os outros pagãos.
Quando o Filho do Homem examinou sua Igreja, dificilmente encontrou fé sobre a terra.
Essa foi a verdadeira causa de os dons extraordinários do Espírito Santo deixarem de ser encontrados na Igreja cristã: os cristãos haviam voltado a ser pagãos e conservavam apenas uma forma morta.
3. No momento, porém, não pretendo falar desses dons extraordinários do Espírito Santo, mas dos dons comuns.
Também podemos procurá-los com zelo, a fim de sermos mais úteis em nossa geração.
Com esse propósito, podemos desejar o dom de uma palavra convincente, capaz de atingir o coração incrédulo, e o dom da persuasão, para mover os afetos, assim como iluminar o entendimento.
Podemos desejar conhecimento tanto da Palavra quanto das obras de Deus, sejam obras de providência, sejam de graça.
Podemos desejar uma medida daquela fé que, em ocasiões particulares nas quais a glória de Deus ou a felicidade das pessoas estejam profundamente envolvidas, ultrapassa em muito o poder das causas naturais.
Podemos desejar facilidade para falar, uma maneira agradável de nos dirigir às pessoas, com submissão à vontade de nosso Senhor; sim, tudo aquilo que nos capacite, conforme tivermos oportunidade, a ser úteis onde quer que estejamos.
Podemos desejar inocentemente esses dons. Existe, porém, “um caminho mais excelente”.
4. O caminho do amor — amar todas as pessoas por causa de Deus, com amor humilde, manso e paciente — é aquilo que o apóstolo descreve de modo tão admirável no capítulo seguinte.
Sem esse amor, ele nos garante que toda eloquência, todo conhecimento, toda fé, todas as obras e todos os sofrimentos não possuem diante de Deus maior valor do que um metal que ressoa ou um sino barulhento. Nada contribuem para nossa salvação eterna.
Sem esse amor, tudo o que conhecemos, tudo o que cremos, tudo o que fazemos e tudo o que sofremos de nada nos aproveitará no grande dia da prestação de contas.
5. No momento, porém, desejo considerar o texto de outra perspectiva e indicar “um caminho mais excelente” em outro sentido.
Um antigo escritor observou que, desde o princípio, existiram duas categorias de cristãos.
A primeira levava uma vida inocente, conformando-se, em todas as coisas não pecaminosas, aos costumes e modas do mundo. Praticava muitas boas obras, abstinha-se dos males grosseiros e participava das ordenanças de Deus.
Essas pessoas procuravam, de modo geral, conservar a consciência livre de ofensa em seu comportamento exterior, mas não buscavam nenhum rigor particular. Na maioria das coisas, eram semelhantes aos seus vizinhos.
A segunda categoria de cristãos não apenas se abstinha de toda aparência do mal, era zelosa por boas obras de toda espécie e participava de todas as ordenanças de Deus, mas também empregava toda diligência para alcançar toda a mente que houve em Cristo e trabalhar para andar, em todos os aspectos, como seu amado Mestre.
Para alcançar isso, seguia um curso constante de completa negação de si mesma, rejeitando todo prazer que não tivesse consciência de prepará-la para encontrar prazer em Deus.
Essas pessoas tomavam diariamente a própria cruz. Esforçavam-se e agonizavam sem interrupção para entrar pela porta estreita.
Uma coisa faziam: não poupavam esforço algum para alcançar o ponto mais elevado da santidade cristã, deixando os princípios elementares da doutrina de Cristo para avançar em direção à perfeição; para conhecer todo o amor de Deus que ultrapassa o conhecimento e serem preenchidas por toda a plenitude de Deus.
6. Com base em longa experiência e observação, inclino-me a pensar que todo aquele que encontra redenção no sangue de Jesus, todo aquele que é justificado, recebe então a escolha entre caminhar pelo caminho superior e pelo inferior.
Creio que, naquele momento, o Espírito Santo coloca diante dele “o caminho mais excelente” e o estimula a caminhar por ele, escolhendo a trilha mais estreita dentro do caminho estreito e aspirando às alturas e profundezas da santidade, à completa imagem de Deus.
Caso, porém, não aceite essa oferta, desce imperceptivelmente à categoria inferior dos cristãos.
Continua caminhando por aquilo que pode ser chamado de bom caminho, servindo a Deus segundo sua medida, e encontra misericórdia no fim da vida, por meio do sangue da aliança.
7. Não desejo apagar o pavio que ainda fumega nem desanimar aqueles que servem a Deus num grau inferior.
Também não desejaria, porém, que parassem nesse ponto. Eu os encorajaria a subir mais alto.
Não pretendo fazer isso proclamando o inferno e a condenação aos seus ouvidos, nem condenando o caminho no qual se encontram ou dizendo-lhes que é o caminho da destruição.
Procurarei mostrar-lhes aquilo que, em todos os aspectos, é “um caminho mais excelente”.
8. Deve-se lembrar claramente que não afirmo que todos os que não caminham por esse caminho estejam na estrada larga para o inferno.
Preciso, porém, afirmar isto: não possuirão no céu um lugar tão elevado quanto teriam caso tivessem escolhido a melhor parte.
Seria essa uma pequena perda: possuir um número muito menor de estrelas na coroa da glória?
Seria pouca coisa ocupar um lugar inferior àquele que poderiam ter ocupado no Reino do Pai?
Certamente não existirá tristeza no céu. Ali, Deus enxugará dos nossos olhos toda lágrima.
Caso fosse possível a tristeza entrar ali, porém, lamentaríamos aquela perda irreparável.
Irreparável naquele momento, mas não agora.
Agora, pela graça de Deus, podemos escolher o caminho mais excelente.
Comparemos esse caminho, em alguns aspectos, com aquele pelo qual caminha a maioria dos cristãos.
Comecemos pelo início do dia.
A maioria dos cristãos, caso não seja obrigada a trabalhar para viver, costuma levantar-se, especialmente no inverno, às oito ou nove horas da manhã, depois de permanecer na cama durante oito ou nove horas, quando não mais.
Não digo agora — como provavelmente teria dito cinquenta anos atrás — que todos os que se entregam a esse hábito estejam no caminho do inferno.
Também não posso dizer, porém, que estejam no caminho do céu, negando a si mesmos e tomando diariamente a própria cruz.
Estou convencido de que existe um caminho mais excelente para promover tanto a saúde do corpo quanto a da mente.
Depois de mais de sessenta anos de observação, aprendi que homens saudáveis necessitam, em média, de seis a sete horas de sono; e mulheres saudáveis, de um pouco mais, entre sete e oito horas em cada período de vinte e quatro horas.
Sei que essa quantidade de sono é mais vantajosa para o corpo e também para a alma.
É preferível a qualquer medicamento que conheci, tanto para prevenir quanto para remover transtornos nervosos.
Portanto, o caminho mais excelente, apesar da moda e do costume, é dormir exatamente aquilo que a experiência demonstra que nossa natureza necessita, visto que isso contribui indiscutivelmente para a saúde física e espiritual.
Por que não caminhar por esse caminho? Porque é difícil?
Sim, para os seres humanos é impossível. Para Deus, porém, todas as coisas são possíveis, e, pela graça dele, todas as coisas serão possíveis para vocês.
Permaneçam firmes na oração, e descobrirão que isso não apenas é possível, mas fácil.
Na verdade, será muito mais fácil levantar cedo constantemente do que fazê-lo apenas algumas vezes.
Precisam, porém, começar pelo lado correto: caso desejem levantar cedo, precisam dormir cedo.
Estabeleçam para si mesmos, exceto quando alguma situação extraordinária acontecer, a obrigação de deitar-se numa hora determinada.
A dificuldade logo passará, mas a vantagem permanecerá para sempre.
A maioria dos cristãos, assim que se levanta, costuma fazer algum tipo de oração. Provavelmente continua utilizando a mesma forma aprendida aos oito ou dez anos de idade.
Não condeno aqueles que agem dessa maneira — embora muitos os condenem — como pessoas que zombam de Deus, ainda que utilizem a mesma forma de oração, sem mudança alguma, durante vinte ou trinta anos.
Certamente existe, porém, “um caminho mais excelente” para organizar nossas devoções particulares.
E se vocês seguissem o conselho apresentado sobre esse assunto por aquele grande e bom homem, o senhor Law?
Considerem tanto sua condição exterior quanto a interior e adaptem as orações a elas.
Suponham, por exemplo, que sua condição exterior seja próspera; que desfrutem saúde, tranquilidade e abundância; que vivam entre parentes bondosos, bons vizinhos e amigos agradáveis, que os amam e são amados por vocês.
Sua situação exterior evidentemente exige louvor e ação de graças a Deus.
Por outro lado, caso se encontrem numa situação de adversidade; caso Deus permita que enfrentem tribulações; caso estejam em pobreza, necessidade ou sofrimento exterior; caso se encontrem em perigo imediato, dor ou enfermidade, então são claramente chamados a derramar a alma diante de Deus em orações apropriadas às circunstâncias.
Da mesma maneira, podem adaptar as devoções à condição interior, ao estado presente da mente.
Sua alma está abatida, seja pela consciência do pecado, seja por diversas tentações?
Então, que sua oração seja formada por confissões, petições e súplicas apropriadas à sua condição interior de sofrimento.
Por outro lado, sua alma está em paz? Vocês estão se alegrando em Deus? As consolações divinas não lhes parecem pequenas?
Então digam com o salmista:
“Tu és o meu Deus, e eu te amarei; tu és o meu Deus, e eu te louvarei.”
Quando possuírem tempo, poderão acrescentar às demais devoções um pouco de leitura e meditação e, talvez, um salmo de louvor, expressão natural de um coração agradecido.
Certamente percebem que esse é um caminho mais excelente do que aquela forma pobre e seca anteriormente utilizada.
1. A maioria dos cristãos, depois de fazer alguma oração, costuma dedicar-se às atividades de sua ocupação.
Nenhuma pessoa que pretenda ser cristã deixará de fazer isso, pois é impossível que uma pessoa ociosa seja boa. A preguiça é incompatível com a religião.
Mas com qual propósito? Com que finalidade vocês iniciam e realizam seus negócios terrenos?
“Para proporcionar aquilo que é necessário para mim e para minha família.”
Essa é uma boa resposta, até onde alcança, mas não vai suficientemente longe.
Um turco ou pagão também chega a esse ponto, trabalhando exatamente com as mesmas finalidades.
O cristão, porém, pode avançar muito mais.
O objetivo de todo o seu trabalho é agradar a Deus; fazer não a própria vontade, mas a vontade daquele que o enviou ao mundo exatamente para esse propósito: cumprir a vontade de Deus na terra como os anjos a cumprem no céu.
Ele trabalha para a eternidade.
Não trabalha principalmente pelo alimento que perece — essa é a menor parte de sua motivação —, mas por aquele que permanece para a vida eterna.
Não é esse um caminho mais excelente?
2. Novamente: de que maneira vocês realizam seus negócios terrenos?
Espero que seja com diligência, fazendo com todas as forças tudo aquilo que suas mãos encontram para fazer; com justiça, entregando a cada pessoa aquilo que lhe é devido em todas as circunstâncias da vida; e também com misericórdia, fazendo a todos aquilo que desejariam que fizessem a vocês.
Isso é bom.
O cristão, porém, é chamado a avançar ainda mais: acrescentar a piedade à justiça e misturar a oração, especialmente a oração do coração, com todo o trabalho das mãos.
Sem isso, toda a sua diligência e justiça demonstram apenas que é um pagão honesto.
Existem muitas pessoas que professam a religião cristã, mas não avançam além do paganismo honesto.
3. Ainda outra vez: com que espírito vocês realizam seus negócios?
Com o espírito do mundo ou com o Espírito de Cristo?
Receio que milhares daqueles chamados bons cristãos nem sequer compreendam a pergunta.
Caso ajam no Espírito de Cristo, levarão através de todo o trabalho, do princípio ao fim, o objetivo inicialmente proposto.
Farão todas as coisas com espírito de sacrifício, entregando a própria vontade à vontade de Deus.
Seu objetivo constante não será tranquilidade, prazer ou riqueza, nem coisa alguma que este mundo de curta duração possa oferecer, mas unicamente a glória de Deus.
Alguém poderá negar que esse seja o caminho mais excelente para realizar nossos negócios terrenos?
1. Este corpo de barro que carregamos necessita de reparação constante. Caso contrário, retornará à terra da qual foi formado antes daquilo que a natureza exige.
O alimento diário é necessário para impedir isso e reparar o desgaste constante da natureza.
No mundo pagão, quando estavam prestes a comer ou beber, era comum derramar um pouco da bebida em honra ao seu deus, embora, como o apóstolo observa corretamente, os deuses pagãos fossem demônios.
Um escritor recente disse:
“Parece que existiu anteriormente algum costume semelhante em nosso próprio país. Ainda vemos frequentemente um cavalheiro, antes de sentar-se para jantar em sua própria casa, segurar o chapéu diante do rosto e talvez parecer dizer alguma coisa, embora geralmente faça isso de tal maneira que ninguém consiga saber o que está dizendo.”
E se, em lugar disso, cada chefe de família, antes de sentar-se para comer e beber, pela manhã, ao meio-dia ou à noite — pois a razão é a mesma em todas as horas —, pedisse seriamente a bênção de Deus sobre aquilo que está prestes a receber?
E se, depois, agradecesse seriamente ao Doador de todas as bênçãos?
Esse não seria um caminho mais excelente do que utilizar aquela encenação fria, pior do que não fazer coisa alguma, pois constitui, na realidade, zombaria contra Deus e contra as pessoas?
2. Quanto à quantidade de alimento, as pessoas consideradas boas geralmente não comem em excesso, pelo menos não a ponto de adoecer por causa da comida ou embriagar-se por causa da bebida.
Quanto à maneira de comer, geralmente é inocente, misturada com um pouco de alegria, que, segundo dizem, ajuda a digestão.
Até esse ponto, tudo está bem.
Desde que consumam apenas uma quantidade adequada de alimento simples, barato e saudável, que promova ao máximo a saúde do corpo e da mente, não existirá motivo de censura.
Também não posso exigir que sigam este conselho do senhor Herbert, embora fosse um bom homem:
Receba sua comida; pense que é pó; coma um pedaço E diga: “Terra à terra entrego.”
Isso é melancólico demais. Não corresponde à alegria profundamente apropriada a uma refeição cristã.
Permitam-me ilustrar o assunto com uma pequena história.
Certo dia, o rei da França, perseguindo uma caça, distanciou-se de todos os seus companheiros.
Depois de procurá-lo durante algum tempo, encontraram-no sentado numa pequena casa, comendo pão e queijo.
Ao vê-los, exclamou:
“Onde vivi durante toda a minha vida? Nunca havia provado alimento tão bom!”
Um deles respondeu:
“Majestade, nunca havia experimentado um tempero tão bom, porque nunca havia sentido fome.”
É verdade que a fome é um bom tempero. Existe, porém, um ainda melhor: a gratidão.
Certamente, o alimento mais agradável é aquele temperado por ela.
Por que o seu alimento não seria assim em cada refeição?
Não precisam fixar os olhos na morte, mas podem receber cada porção como garantia da vida eterna.
O Autor de sua existência concede-lhes por meio desse alimento não apenas uma suspensão da morte, mas a certeza de que, dentro de pouco tempo, “a morte será tragada pela vitória” (1 Coríntios 15.54).
3. O momento das refeições geralmente também é um momento de conversa, pois é natural refrescar a mente enquanto refrescamos o corpo.
Consideremos brevemente de que maneira a maioria dos cristãos costuma conversar.
Quais são os assuntos comuns de suas conversas?
Caso sejam inofensivos — como esperamos que sejam —; caso não exista neles nada profano, indecente, falso ou cruel; caso não exista intriga, difamação ou maledicência, possuem razão para louvar a Deus por sua graça restritiva.
Existe, porém, mais do que isso na expressão “ordenar corretamente a nossa conversa”.
Para isso, é necessário, primeiramente, que suas palavras sejam boas, boas em seu conteúdo, relacionadas a assuntos bons, em vez de passarem de maneira superficial por qualquer coisa que apareça.
O que vocês possuem a ver com tribunais e reis?
Não é responsabilidade de vocês:
Lutar novamente as guerras e reformar o Estado,
exceto quando algum acontecimento extraordinário exige o reconhecimento da justiça ou da misericórdia de Deus.
Realmente, precisamos falar algumas vezes sobre as coisas do mundo. Caso contrário, teríamos de sair dele.
Isso, porém, deve acontecer apenas na medida necessária. Depois, devemos voltar a um assunto melhor.
Em segundo lugar, que sua conversa seja útil para a edificação, calculada para edificar quem fala ou quem ouve, ou ambos, segundo a necessidade particular de cada pessoa, seja na fé, seja no amor, seja na santidade.
Em terceiro lugar, cuidem para que a conversa não apenas proporcione entretenimento, mas, de alguma maneira, transmita graça aos que ouvem.
Não é esse um caminho mais excelente de conversar do que a maneira meramente inofensiva mencionada anteriormente?
1. Vimos qual é o caminho mais excelente para organizar nossa conversa e também nossos negócios.
Não podemos, porém, permanecer constantemente concentrados no trabalho. Tanto o corpo quanto a mente necessitam de algum descanso.
Precisamos de intervalos de distração em relação aos negócios.
Será necessário falar com muita clareza sobre esse assunto, pois é uma questão profundamente mal compreendida.
2. As diversões são de diferentes espécies.
Algumas pertencem quase exclusivamente aos homens, como os esportes no campo: caça, tiro e pesca, dos quais poucas mulheres — deveria dizer, senhoras — participam.
Outras são praticadas igualmente por pessoas de ambos os sexos.
Algumas delas são mais públicas: corridas, bailes de máscaras, peças teatrais, reuniões sociais e bailes.
Outras acontecem principalmente nas casas: jogos de cartas, danças e música.
Podemos acrescentar a leitura de peças teatrais, romances, histórias de ficção, jornais e poesia da moda.
3. Algumas diversões anteriormente muito procuradas caíram em descrédito.
A nobreza e as pessoas de posição — pelo menos na Inglaterra — parecem desprezar completamente a antiga e elegante diversão da falcoaria.
Até mesmo o povo comum já não se diverte vendo homens cortarem uns aos outros com espadas largas.
O nobre jogo do bastão também é atualmente praticado por poucas pessoas.
Até mesmo as lutas com porretes perderam sua honra no próprio País de Gales.
A luta com ursos também é vista raramente, e a luta com touros não acontece com frequência.
Parece que as brigas de galos desapareceriam completamente da Inglaterra, não fosse a proteção de dois ou três patronos muito ilustres.
4. Não é necessário falar mais sobre esses repugnantes restos da barbárie gótica, além de declarar que são uma vergonha não apenas para toda religião, mas para a própria natureza humana.
Não apresentaríamos uma condenação tão severa aos esportes praticados no campo.
Que aqueles que não possuem coisa melhor a fazer continuem perseguindo raposas e lebres até que fiquem sem forças.
Também não precisamos falar muito sobre as corridas de cavalos, até que alguma pessoa sensata decida defendê-las.
Parece que muito mais pode ser dito em defesa de assistir a uma tragédia séria.
Eu não conseguiria fazê-lo com a consciência limpa, pelo menos não num teatro inglês, que é um depósito de toda profanação e devassidão. Talvez outras pessoas consigam.
Não posso dizer o mesmo em defesa dos bailes e reuniões sociais. Embora sejam mais respeitáveis do que os bailes de máscaras, toda pessoa imparcial precisa admitir que possuem exatamente a mesma tendência.
O mesmo acontece, sem dúvida, com todas as danças públicas.
Elas necessariamente possuem essa tendência, a menos que entre os cristãos modernos fosse observada a mesma cautela dos antigos pagãos.
Entre eles, homens e mulheres nunca dançavam juntos, mas sempre em ambientes separados.
Isso era invariavelmente observado na antiga Grécia e, durante vários séculos, em Roma. Uma mulher que dançasse na companhia de homens seria imediatamente considerada prostituta.
Sobre os jogos de cartas, digo o mesmo que disse sobre assistir às peças teatrais: eu não poderia praticá-los com a consciência limpa.
Não sou obrigado, porém, a condenar aqueles que possuem outra compreensão.
Entrego-os ao próprio Mestre. Diante dele permanecerão em pé ou cairão.
5. Mesmo supondo que todas essas diversões, assim como a leitura de peças teatrais, romances, jornais e coisas semelhantes, sejam completamente inocentes, não existem caminhos mais excelentes de recreação para aqueles que amam ou temem a Deus?
Os homens que possuem recursos desejam divertir-se ao ar livre?
Podem fazê-lo cultivando e melhorando suas terras, plantando seus terrenos e planejando, desenvolvendo e aperfeiçoando seus jardins e pomares.
Em outras ocasiões, podem visitar e conversar com os vizinhos mais sérios e sensatos.
Ou podem visitar os enfermos, os pobres, as viúvas e os órfãos em suas aflições.
Desejam distrair-se dentro de casa?
Podem ler uma história útil, poesia piedosa e elegante ou diferentes ramos da filosofia natural.
Caso possuam tempo, poderão divertir-se com música e talvez com experiências filosóficas.
Acima de tudo, depois de aprenderem a utilizar a oração, descobrirão que, assim como:
Aquilo que preenche todo o espaço, O ar que nos cerca, amplamente difundido, Envolve esta terra florescente,
também a oração, difundida através de todos os momentos da vida e misturada a todas as ocupações, envolverá vocês por todos os lados, onde quer que estejam e independentemente daquilo que façam.
Então poderão dizer com segurança:
Não existe em mim vazio melancólico; Nenhum momento permanece desocupado Ou deixa de ser aproveitado neste mundo. Desapareceu meu cansaço da vida, Pois vivo para servir somente a Deus E conhecer apenas a Jesus.
Resta considerar apenas um assunto: o uso do dinheiro.
De que maneira a maioria dos cristãos utiliza esse recurso? Não existe um caminho mais excelente?
1. A maioria dos cristãos geralmente separa alguma coisa todos os anos — talvez a décima ou até mesmo a oitava parte de sua renda, seja procedente de rendimentos anuais, seja do comércio — para finalidades de caridade.
Conheci poucas pessoas que dissessem como Zaqueu:
“Senhor, resolvo dar aos pobres a metade dos meus bens” (Lucas 19.8).
Que Deus multiplique esses amigos da humanidade, esses benfeitores de todos!
2. Além daqueles que possuem uma regra estabelecida, existem milhares de pessoas que oferecem grandes valores aos pobres, especialmente quando alguma situação comovente de sofrimento lhes é apresentada com descrições intensas.
3. Louvo a Deus por todos vocês que agem dessa maneira.
Que jamais se cansem de fazer o bem!
Que Deus devolva sete vezes ao coração de vocês aquilo que oferecem!
Ainda assim, mostro-lhes um caminho mais excelente.
4. Vocês podem considerar a si mesmos como pessoas em cujas mãos o Proprietário dos céus, da terra e de tudo aquilo que neles existe depositou parte de seus bens, para que seja utilizada segundo suas orientações.
A orientação dele é que vocês se considerem integrantes de determinado grupo de pessoas necessitadas, cujas necessidades devem ser atendidas pela porção dos bens divinos que lhes foi confiada.
Vocês possuem duas vantagens sobre as demais pessoas.
A primeira é que “mais bem-aventurado é dar do que receber” (Atos 20.35).
A segunda é que vocês devem atender primeiramente às próprias necessidades e, depois, às dos outros.
É dessa perspectiva que devem considerar a si mesmos e às outras pessoas.
Para falar mais detalhadamente:
Primeiramente, caso não possuam família, depois de atender às próprias necessidades, distribuam tudo aquilo que restar, de modo que:
A cada Natal, suas contas estejam encerradas E terminem o ano sem qualquer saldo.
Essa era a prática de todos os jovens de Oxford chamados metodistas.
Um deles, por exemplo, recebia trinta libras por ano. Vivia com vinte e oito e distribuía duas.
No ano seguinte, recebeu sessenta libras, continuou vivendo com vinte e oito e distribuiu trinta e duas.
No terceiro ano, recebeu noventa libras e distribuiu sessenta e duas.
No quarto ano, recebeu cento e vinte libras. Continuou vivendo com vinte e oito e entregou aos pobres noventa e duas.
Não era esse um caminho mais excelente?
Em segundo lugar, caso possuam família, considerem seriamente diante de Deus quanto cada integrante necessita para possuir aquilo que é necessário à vida e à piedade.
De modo geral, não lhes concedam menos, nem muito mais, do que concedem a vocês mesmos.
Em terceiro lugar, depois de fazer isso, estabeleçam o propósito de não adquirir mais.
Ordeno-lhes, em nome de Deus: não aumentem seus bens!
Assim como o dinheiro chega diariamente ou anualmente, permitam que seja distribuído.
Caso contrário, estarão acumulando tesouros na terra.
Nosso Senhor proíbe isso tão claramente quanto proíbe o homicídio e o adultério.
Praticando isso, acumulariam para si mesmos ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus.
5. Mesmo supondo que não fosse proibido, como poderiam, de acordo com os princípios da razão, gastar seu dinheiro de uma maneira que Deus talvez perdoe, em vez de empregá-lo de uma maneira que ele certamente recompensará?
Vocês não receberão no céu recompensa alguma por aquilo que acumularem. Receberão recompensa por aquilo que distribuírem.
Cada libra depositada num banco terreno está perdida: não produz juros no mundo superior.
Cada libra oferecida aos pobres, porém, é depositada no banco do céu.
Produzirá juros gloriosos, juros que continuarão aumentando por toda a eternidade.
6. Quem, portanto, é sábio e possui conhecimento entre vocês?
Decida hoje, nesta hora, neste momento, com a ajuda do Senhor, escolher em todos os aspectos mencionados o caminho mais excelente.
Permaneça firmemente nele quanto ao sono, à oração, ao trabalho, à alimentação, à conversa e às diversões; e, particularmente, quanto ao emprego daquele importante talento: o dinheiro.
Que seu coração responda ao chamado de Deus:
“A partir deste momento, sendo Deus meu ajudador, não acumularei mais tesouros na terra.
Uma coisa farei: acumularei tesouros no céu.
Entregarei a Deus aquilo que pertence a Deus.
Darei a ele todos os meus bens e todo o meu coração.”
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.