SERMÃO 88
Sobre o vestuário
A beleza do ser interior — e o que a simplicidade no vestir tem a ver com o coração.
“Que a beleza de vocês […] esteja no ser interior do coração […] um espírito manso e tranquilo, que é de grande valor diante de Deus.”
(1Pe 3.3–4, NAA)Antes de ler
Neste sermão, John Wesley trata do modo como os cristãos devem se vestir. Sua preocupação não é estabelecer um uniforme religioso nem condenar o asseio, a limpeza ou uma distinção moderada entre pessoas de diferentes posições sociais. O que ele combate é o uso de roupas e adornos caros como instrumentos de ostentação, vaidade, sensualidade e conformidade com os valores do mundo.
O sermão reflete costumes sociais e convenções de vestuário da Inglaterra do século XVIII. Algumas referências específicas — chapéus, rendas, sedas, penteados e adornos — pertencem diretamente àquele contexto. O princípio defendido por Wesley, porém, é mais amplo: o cristão deve administrar os recursos como propriedade de Deus, evitando gastos destinados apenas à exibição pessoal quando esses mesmos recursos poderiam aliviar o sofrimento dos necessitados.
Wesley não apresenta a simplicidade exterior como substituta da santidade interior. Pelo contrário, afirma que o verdadeiro ornamento cristão é “um espírito manso e tranquilo”, acompanhado de boas obras. A simplicidade no vestir deve ser expressão de humildade, amor ao próximo, domínio próprio e inteira dedicação a Deus.
— Bispo Ildo Mello
1. Paulo exorta todos os que desejam ser “transformados pela renovação da mente” e experimentar “qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” a não se conformarem com este mundo (Romanos 12.2). Essa exortação relaciona-se mais diretamente à sabedoria do mundo, que é completamente contrária à boa, agradável e perfeita vontade de Deus. Entretanto, também se refere aos costumes e comportamentos do mundo, que naturalmente procedem de sua sabedoria e de seu espírito e correspondem perfeitamente a eles. Não foi indigno da sabedoria de Deus conceder-nos orientações específicas também a esse respeito.
2. Algumas dessas orientações, especialmente a apresentada no texto, chegam até mesmo ao vestuário dos cristãos. Tanto essa passagem quanto a passagem paralela de Paulo são tão claras quanto possível. Paulo diz:
“Que as mulheres se vistam com traje decente, com modéstia e bom senso, não com cabelos trançados, ouro, pérolas ou roupas caras, mas com boas obras, como convém a mulheres que professam ser piedosas” (1 Timóteo 2.9-10).
3. Algumas pessoas dizem:
“Não é estranho que o Espírito de Deus, infinitamente sábio, se digne a prestar atenção a coisas tão insignificantes? Por que se preocupar com questões de tão pouca importância, ou melhor, sem importância alguma? Desde que cuidemos da alma, que diferença faz aquilo com que o corpo está coberto, seja seda, seja pano grosseiro? Que mal pode existir no uso de ouro, prata, pedras preciosas ou de qualquer outra coisa bela com que Deus nos supriu tão abundantemente? Não podemos aplicar a isso aquilo que Paulo disse em outra ocasião: ‘Tudo que Deus criou é bom, e, se recebido com gratidão, nada deve ser rejeitado’?” (1 Timóteo 4.4).
4. É certo que muitos que sinceramente temem a Deus abraçaram de coração essa opinião. A prática deles corresponde a ela. Não sentem qualquer escrúpulo em conformar-se com o mundo, usando, sempre que surge oportunidade, ouro, pérolas ou roupas caras.
Na verdade, não ficam satisfeitos com aqueles que consideram seu dever rejeitar essas coisas. Entendem que seu uso constitui um aspecto da liberdade cristã.
Alguns foram consideravelmente mais longe. Chegaram ao ponto de procurar convencer aqueles que, durante algum tempo, haviam deixado de usá-las a voltar a fazê-lo, garantindo-lhes que imaginar existir algum mal nessas coisas era mera superstição.
Mais ainda: uma pessoa muito respeitada afirmou expressamente:
“Não desejo que alguém que se vista com simplicidade faça parte de nossa sociedade.”
Vale a pena, portanto, examinar cuidadosamente o assunto e perguntar seriamente se existe algum mal no uso de ouro, joias ou roupas caras.
5. Antes de entrarmos no assunto, porém, deve-se observar que a falta de asseio não faz parte da religião. Nem essa passagem nem qualquer outro texto das Escrituras condena o cuidado e a limpeza no vestir.
Isso certamente é um dever, e não um pecado. “A limpeza está, de fato, próxima da piedade.”
Em concordância com isso, o bom senhor Herbert aconselha a todo aquele que teme a Deus:
Que a doçura de sua mente se manifeste Em sua pessoa, roupa e habitação.
Certamente, todos deveriam prestar atenção a isso, caso não desejem que o bem existente neles seja difamado.
6. Outro erro relacionado ao vestuário tornou-se comum no mundo religioso. Algumas pessoas imaginaram que não deveria existir diferença alguma entre as roupas dos cristãos.
Nem esses textos nem qualquer outra passagem da Palavra de Deus, porém, ensinam semelhante coisa ou orientam que as roupas do patrão ou da patroa não sejam de modo algum diferentes das roupas dos empregados.
Pode existir, sem dúvida, uma diferença moderada no vestuário de pessoas pertencentes a posições sociais diferentes. Quando os olhos estão voltados unicamente para Deus, isso poderá ser facilmente determinado pelas regras da prudência cristã.
7. Pode-se até mesmo questionar se alguma passagem das Escrituras proíbe — pelo menos, não conheço nenhuma — que aqueles que, em determinada nação, estão investidos da autoridade suprema usem ouro e roupas caras ou adornem da mesma maneira seus auxiliares imediatos, magistrados ou oficiais.
Não é improvável que nosso bendito Senhor pretendesse aprovar esse costume quando disse, sem qualquer sinal de censura ou desaprovação:
“Os que vestem roupas finas e vivem no luxo estão nos palácios dos reis” (Lucas 7.25).
8. Qual é, então, o significado dessas passagens? O que elas proíbem?
Proíbem claramente que os cristãos comuns, pertencentes às classes inferiores ou intermediárias da sociedade, adornem-se com ouro, pérolas ou roupas caras.
Mas por quê? Que mal existe nisso?
Isso merece séria consideração. É extremamente conveniente, ou melhor, absolutamente necessário que todos os que desejem considerar o assunto com proveito se libertem, na medida do possível, de todo preconceito e permaneçam abertos à convicção.
Também não é necessário, no mais elevado grau, que supliquem sinceramente ao Pai das Luzes que, por sua santa inspiração, possam pensar corretamente e, por sua direção misericordiosa, colocar em prática aquilo que é correto?
Então não dirão, nem mesmo no coração — como receio que muitos tenham feito —, aquilo que o famoso judeu disse ao cristão:
“Você não me convencerá, embora já tenha me convencido.”
9. A pergunta é esta: que mal existe em nos adornarmos com ouro, pérolas ou roupas caras, supondo que possamos pagar por elas, isto é, que isso não prejudique nem empobreça nossa família?
O primeiro mal produzido é gerar orgulho e, onde ele já existe, aumentá-lo.
Quem observar atentamente aquilo que acontece no próprio coração perceberá isso facilmente.
Nada é mais natural do que pensarmos que somos melhores porque estamos vestidos com roupas melhores. É quase impossível alguém usar roupas caras sem, em alguma medida, valorizar a si mesmo por causa delas.
Um dos antigos pagãos compreendia tão bem esse fato que, quando desejava prejudicar um homem pobre e fazê-lo perder o equilíbrio, presenteava-o com um conjunto de roupas finas:
Eutrapelus, cuicunque nocere volebat, Vestimenta dabat pretiosa.
Eutrapelo, quando desejava arruinar alguém, Vestia essa pessoa com roupas caras.
O homem dificilmente deixaria de imaginar que era tão melhor do que seu vizinho quanto suas roupas eram mais finas do que as dele.
E quantos milhares de pessoas, não apenas senhores e nobres da Inglaterra, mas também comerciantes honestos, raciocinam da mesma maneira, deduzindo o valor superior de sua pessoa pelo valor de suas roupas!
10. Alguém pergunta:
“Um homem vestido de pano grosseiro não pode ser tão orgulhoso quanto outro vestido com tecido de ouro?”
Como esse argumento aparece em toda parte e é considerado irrespondível, vale a pena respondê-lo de uma vez por todas e mostrar como é completamente vazio.
“Uma pessoa vestida de pano grosseiro”, você pergunta, “não pode ser tão orgulhosa quanto outra vestida com tecido de ouro?”
Respondo: certamente pode. Suponho que ninguém duvide disso.
Que conclusão, porém, você pode extrair daí? Considere um caso paralelo.
Uma pessoa que bebe um copo de vinho saudável pode ficar tão doente quanto outra que bebe veneno. Isso prova que o veneno não possui maior tendência para prejudicar uma pessoa do que o vinho? Ou serve de desculpa para que alguém tome uma substância que possui tendência natural para causar enfermidade?
Aplicando a comparação: a experiência demonstra que roupas finas possuem tendência natural para adoecer a pessoa com orgulho. Roupas simples não possuem essa tendência.
É verdade que você também pode ficar enfermo de orgulho usando roupas simples. Elas, porém, não possuem tendência natural para causar ou aumentar essa enfermidade.
Portanto, todos os que desejam revestir-se de humildade devem afastar-se desse veneno.
11. Em segundo lugar, o uso de roupas vistosas ou caras possui tendência natural para produzir e aumentar a vaidade.
Por vaidade, refiro-me aqui ao amor e ao desejo de ser admirado e elogiado.
Todos vocês que gostam excessivamente de roupas possuem uma testemunha disso no próprio coração. Confessem ou não diante das pessoas, estão convencidos disso diante de Deus.
Sabem no íntimo que se adornam dessa maneira para serem admirados. Não teriam todo esse trabalho caso ninguém os visse, exceto Deus e seus santos anjos.
Quanto mais satisfazem esse desejo insensato, mais ele cresce.
Vocês já possuem vaidade suficiente por natureza. Ao alimentá-la dessa maneira, aumentam-na cem vezes.
Parem! Procurem agradar somente a Deus, e todos esses adornos cairão.
12. Em terceiro lugar, o uso de roupas vistosas e caras possui tendência natural para produzir ira e todas as paixões turbulentas e inquietas.
É exatamente por essa razão que o apóstolo coloca o “adorno exterior” em oposição direta ao “ornamento de um espírito manso e tranquilo”.
Como é notável que ele acrescente: “que é de grande valor diante de Deus”!
Mais precioso do que ouro ou pérolas E mais brilhante do que a estrela da manhã.
Ninguém consegue compreender facilmente, a menos que realize essa triste experiência, a profunda oposição existente entre o adorno exterior e essa tranquilidade interior do espírito.
Você jamais desfrutará plenamente dessa tranquilidade enquanto estiver apegado ao outro. Somente quando estiver desprendido do adorno exterior poderá possuir sua alma com paciência.
Somente depois de abandonar o apego ao vestuário, a paz de Deus reinará no seu coração.
13. Em quarto lugar, as roupas vistosas e caras possuem tendência direta para produzir e inflamar a sensualidade.
Fiquei em dúvida se deveria mencionar esse apetite brutal ou, para poupar ouvidos delicados, expressá-lo por meio de alguma descrição mais suave.
Seria como aquele deão que, alguns anos atrás, disse aos ouvintes em Whitehall:
“Caso vocês não se arrependam, irão para um lugar que sou educado demais para mencionar diante desta boa companhia.”
Considero melhor, porém, falar claramente. Quanto mais a palavra ofender seus ouvidos, mais poderá proteger seu coração.
O fato é claro e inegável: esse vestuário produz semelhante efeito tanto naquele que o usa quanto naquele que o contempla.
Ao primeiro, nosso elegante poeta Cowley dirige estes belos versos:
Adornar você com tamanha arte É apenas uma habilidade cruel; É como envenenar uma flecha Que já era capaz de matar.
Em palavras simples, sem qualquer enfeite: você envenena quem o contempla com uma medida muito maior desse desejo indigno do que experimentaria de outra maneira.
Você não sabia que essa seria a consequência natural de seu vestuário elegante?
Levando a pergunta ainda mais longe: você não desejava e não planejava que isso acontecesse?
Apesar disso, durante todo o tempo, apresentava publicamente:
Uma aparência atraente De inocência e virtude!
Enquanto isso, você mesmo não escapa da armadilha preparada para os outros.
A flecha retorna e você é contaminado pelo mesmo veneno com que os contaminou.
Você acende uma chama que, ao mesmo tempo, consome você e seus admiradores. Será uma grande misericórdia se não lançar ambos nas chamas do inferno!
14. Em quinto lugar, o uso de roupas caras é diretamente contrário ao ornamento das boas obras.
Nada poderia ser mais evidente. Quanto mais você gasta com as próprias roupas, menos lhe resta para vestir quem está sem roupa, alimentar quem tem fome, hospedar o estrangeiro, socorrer os enfermos e os presos e diminuir as inúmeras aflições às quais estamos expostos neste vale de lágrimas.
Aqui não existe espaço para a desculpa apresentada anteriormente:
“Posso ser tão humilde usando tecido de ouro quanto usando pano grosseiro.”
Mesmo que você pudesse ser tão humilde escolhendo roupas caras quanto escolhendo roupas simples — o que nego completamente —, não poderia ser igualmente generoso nem abundante em boas obras.
Cada moeda economizada em suas roupas pode ser utilizada para vestir os necessitados e aliviar as diversas necessidades dos pobres, que vocês “sempre têm com vocês” (João 12.8).
Portanto, cada moeda gasta desnecessariamente com roupas é, na prática, roubada de Deus e dos pobres!
De quantas preciosas oportunidades de fazer o bem você privou a si mesmo!
Quantas vezes tornou-se incapaz de praticar o bem porque comprou aquilo de que não necessitava!
Com que finalidade comprou esses adornos? Para agradar a Deus? Não, mas para satisfazer a própria fantasia ou conquistar a admiração e o aplauso de pessoas que não eram mais sábias do que você.
Quanto bem poderia ter realizado com esse dinheiro!
Que perda irreparável você sofreu ao deixar de fazê-lo, caso seja verdade que se aproxima o dia em que cada pessoa receberá sua recompensa segundo seu próprio trabalho!
15. Peço que considerem cuidadosamente isso. Talvez nunca tenham visto a questão sob essa perspectiva.
Ao gastarem com roupas caras o dinheiro que poderiam ter separado para os pobres, vocês os privam daquilo que Deus, Proprietário de tudo, havia colocado em suas mãos para benefício deles.
Se isso é verdade, aquilo que colocam sobre si mesmos é, na prática, arrancado das costas de quem está sem roupa. Do mesmo modo, a comida cara e delicada que consomem é retirada da boca dos famintos.
Por misericórdia, por compaixão, pelo amor de Cristo e pela honra do evangelho, detenham a mão!
Não joguem esse dinheiro fora!
Não gastem em algo inútil — sim, pior do que inútil — aquilo que poderia vestir seu semelhante pobre, sem roupa e tremendo de frio!
16. Muitos anos atrás, quando eu estava em Oxford, durante um dia frio de inverno, uma jovem empregada — uma daquelas que mantínhamos na escola — veio falar comigo.
Eu disse:
“Você parece estar quase congelada. Não possui nada para cobri-la além desse vestido fino de linho?”
Ela respondeu:
“Senhor, isso é tudo o que tenho.”
Coloquei a mão no bolso, mas descobri que quase não possuía dinheiro, pois acabara de pagar aquilo que tinha.
Imediatamente, este pensamento me atingiu:
“Seu Mestre dirá: ‘Muito bem, servo bom e fiel’? Você adornou as paredes com o dinheiro que poderia ter protegido essa pobre criatura do frio! Ó justiça! Ó misericórdia! Esses quadros não são o sangue dessa pobre jovem?”
Considere suas roupas caras da mesma maneira: seu vestido, chapéu e penteado!
Tudo aquilo que existe sobre você e custou mais do que o dever cristão exigia que fosse gasto é o sangue dos pobres!
Seja sábio daqui em diante! Seja mais misericordioso, mais fiel a Deus e aos seres humanos e mais abundantemente adornado — como convém a homens e mulheres que professam a piedade — com boas obras!
17. É verdade que devemos fazer grande concessão àqueles que nunca foram advertidos a respeito dessas coisas e talvez nem saibam que existe na Bíblia uma palavra que proíbe roupas caras.
Mas o que isso tem a ver com vocês?
Vocês foram advertidos repetidas vezes e da maneira mais clara possível.
Que benefício receberam dessas advertências?
Não continuam se vestindo como as outras pessoas que possuem a mesma condição financeira?
Suas roupas não são tão vistosas e caras quanto as daqueles que nunca receberam semelhante advertência?
Não são tão caras quanto seriam se vocês nunca tivessem ouvido uma só palavra a respeito?
Como responderão a isso quando vocês e eu estivermos juntos diante do tribunal de Cristo?
Muitos de vocês não se tornaram mais elegantes à medida que se tornaram mais ricos?
À medida que seus bens aumentaram, suas despesas com roupas também não aumentaram?
Vejam a abundância de fitas, gaze e linho ao redor da cabeça!
Que vantagem receberam, então, por suportar a vergonha de Cristo e serem chamados metodistas?
Não estão vestidos de maneira tão elegante quanto outras pessoas da mesma posição que não são metodistas?
Vocês perguntam:
“Não podemos comprar artigos da moda da mesma maneira que compramos os que não estão na moda?”
Respondo: não, caso eles lhes proporcionem uma aparência ousada e imodesta, como fazem aqueles enormes chapéus, toucas e penteados.
Também não, caso custem mais.
“Mas posso pagar.”
Abandone para sempre essa expressão inútil e insensata!
Nenhum cristão pode desperdiçar qualquer parte dos bens que Deus lhe confiou.
Quanto tempo você permanecerá aqui?
Talvez amanhã, ou ainda nesta noite, não seja chamado a levantar-se e partir, para prestar contas desse e de todos os seus talentos ao Juiz dos vivos e dos mortos?
18. Como, depois de tantas advertências, vocês continuam praticando a mesma insensatez?
A razão não seria esta? Ainda existem entre vocês algumas pessoas que não aproveitam aquilo que ouvem e não desejam que outros aproveitem.
Caso alguns de vocês estejam quase convencidos a vestir-se como cristãos, essas pessoas argumentam, zombam e riem até afastá-los dessa convicção.
Ó pessoas que brincam com coisas sérias, peço-lhes que deixem de fazer a obra do diabo!
Independentemente daquilo que façam, não endureçam o coração dos outros.
E vocês que possuem melhor disposição, evitem esses tentadores com todo o cuidado possível. Caso cheguem a algum lugar onde estejam presentes, peçam-lhes que permaneçam em silêncio sobre esse assunto ou deixem o ambiente.
19. Em sexto lugar, o uso de roupas caras é diretamente contrário àquilo que o apóstolo chama de “ser interior do coração”, isto é, a toda a imagem de Deus segundo a qual fomos criados e que é novamente gravada no coração de todo cristão que crê.
É contrário à mente que houve em Cristo Jesus e a toda a natureza da santidade interior.
Durante todo o tempo em que vocês estudam esse adorno exterior, toda a obra interior do Espírito permanece paralisada ou, melhor, retrocede, embora por graus suaves e quase imperceptíveis.
Em vez de adquirirem uma mente cada vez mais celestial, tornam-se cada vez mais terrenos.
Caso em algum momento tenham experimentado comunhão com o Pai e com o Filho, ela diminui gradualmente. Sem perceber, afundam cada vez mais no espírito do mundo, nos desejos insensatos e prejudiciais e nos apetites degradantes.
Todos esses males, e milhares de outros, nascem de uma única raiz: satisfazer a si mesmo por meio de roupas caras.
20. Por que, então, todos os que amam ou temem a Deus não fogem disso como fugiriam da presença de uma serpente?
Por que continuam conformados aos costumes irracionais e pecaminosos de um mundo enlouquecido?
Por que ainda desprezam o mandamento expresso de Deus, apresentado nos termos mais claros?
Vocês veem a luz. Por que não seguem a luz presente em sua própria mente?
Sua consciência lhes diz a verdade. Por que não obedecem às orientações da própria consciência?
21. Vocês respondem:
“O costume universal está contra mim, e não sei como resistir a uma corrente tão poderosa.”
Não apenas o mundo profano, mas também o mundo religioso corre violentamente na direção contrária.
Não digo que olhem para os teatros, mas para as igrejas e para as reuniões de todas as denominações — exceto alguns quakers antiquados e o povo chamado morávio.
Olhem para as congregações, em Londres ou em outros lugares, daqueles que são chamados ministros do evangelho.
Olhem para a capela de Northampton, para o Tabernáculo ou para a capela de Tottenham Court Road.
Olhem até mesmo para a capela da West Street ou da City Road.
Observem as próprias pessoas sentadas debaixo do púlpito ou ao lado dele.
Aqueles que possuem condições — dificilmente consigo deixar de lhes prestar a honra de mencionar seus nomes — não estão adornados de modo tão elegante quanto as pessoas da mesma posição em outros lugares?
22. Essa é uma verdade profundamente triste. Sinto vergonha dela, mas não sei como corrigi-la.
Hoje, chamo o céu e a terra como testemunhas de que isso não é culpa minha!
Durante quase cinquenta anos, a trombeta não produziu um som incerto.
Ó Deus, tu sabes que apresentei um testemunho claro e fiel!
Por escrito, na pregação e nas reuniões da sociedade, não deixei de anunciar todo o conselho de Deus.
Portanto, estou livre do sangue daqueles que não desejam ouvir. A responsabilidade recai sobre a própria cabeça deles.
23. Advirto-os mais uma vez, em nome e na presença de Deus, de que o número daqueles que se rebelam contra Deus não serve de desculpa para sua rebelião.
Ele nos disse expressamente:
“Não siga a maioria para fazer o mal” (Êxodo 23.2).
A respeito de um homem grande e bom, foi dito:
Não temeria, caso o céu assim determinasse, Permanecer contrário ao mundo e sozinho ser bom.
Quem entre vocês deseja participar desse caráter glorioso e permanecer contrário ao mundo?
Caso milhões os condenem, será suficiente que sejam absolvidos por Deus e pela própria consciência.
24. Algumas pessoas dizem:
“Penso que poderia suportar o desprezo ou a censura de todo o restante do mundo. Não me importo com ninguém além dos meus parentes, especialmente os da minha própria casa. Meu pai, minha mãe, meus irmãos e irmãs — e talvez alguém ainda mais próximo do que todos eles — incomodam-me continuamente.”
Essa é realmente uma provação. Pouquíssimas pessoas conseguem avaliá-la, exceto aquelas que a suportam.
“Não tenho forças para suportá-la.”
Não, não possui em si mesmo. Certamente não possui.
Existe, porém, força preparada para você naquele que é poderoso!
A graça dele é suficiente. Ele vê agora sua situação e está pronto para concedê-la.
Enquanto isso, lembre-se de sua solene declaração a respeito daqueles que consideram as pessoas mais do que a Deus:
“Quem ama pai ou mãe, irmão ou irmã, marido ou esposa mais do que a mim não é digno de mim.”
25. Não existem entre vocês algumas pessoas que anteriormente haviam renunciado a essa conformidade com o mundo e se vestiam, em todos os aspectos, de maneira limpa e simples, coerente com sua profissão cristã?
Por que não perseveraram nisso?
Por que voltaram atrás no bom caminho?
Talvez tenham iniciado um relacionamento ou uma amizade com alguma pessoa que ainda gostava excessivamente de roupas?
Não é de admirar que, mais cedo ou mais tarde, tenham sido levados a refazer seus passos em direção à terra.
Não se poderia esperar coisa diferente. Um pecado os conduziu a outro.
Foi pecado estabelecer amizade com alguém que não conhecia a Deus, pois “a amizade do mundo é inimizade contra Deus” (Tiago 4.4).
Isso os conduziu novamente a outro pecado: aquela conformidade com o mundo da qual haviam escapado completamente.
O que devem fazer agora?
Caso sejam sábios, escapem para preservar a vida!
Não demorem. Não olhem para trás!
Sem perder tempo, renunciem simultaneamente à causa e ao efeito.
Agora, hoje, antes que seu coração seja endurecido pelo engano do pecado, eliminem com um único golpe aquela amizade pecaminosa com pessoas que não temem a Deus e aquela conformidade pecaminosa com o mundo!
Decidam-se hoje! Não adiem até amanhã, para que não adiem para sempre.
Por amor de Deus e por amor à própria alma, tomem sua decisão agora!
26. Suplico a todos os que possuem alguma consideração por mim que me demonstrem, antes de eu partir deste mundo, que não trabalhei inutilmente, nem mesmo nesse aspecto, durante quase meio século.
Permitam-me ver, antes de morrer, uma congregação metodista vestida de maneira tão simples quanto uma congregação de quakers.
Sejam, porém, mais coerentes com vocês mesmos. Que suas roupas sejam baratas, além de simples. Caso contrário, apenas brincarão com Deus, comigo e com a própria alma.
Peço que não existam entre vocês sedas caras, por mais discretas que sejam.
Não exista o chamado “linho dos quakers”, conhecido proverbialmente por sua extraordinária finura; nem rendas de Bruxelas; nem chapéus ou toucas enormes, aqueles escândalos contra a modéstia feminina.
Sejam inteiramente coerentes, vestidos da cabeça aos pés como pessoas que professam a piedade e declaram fazer todas as coisas, pequenas e grandes, com o único propósito de agradar a Deus.
27. Nenhum de vocês que seja rico neste mundo procure desculpar-se falando absurdos.
É completo e evidente absurdo dizer:
“Posso pagar por isso ou por aquilo.”
Caso possuam alguma consideração pelo bom senso, jamais permitam que essa expressão insensata saia de sua boca.
Nenhuma pessoa viva pode desperdiçar qualquer parte daquilo que Deus confiou à sua administração.
Ninguém pode lançar ao mar qualquer parte do alimento e das roupas que lhe foram confiados exatamente para alimentar os famintos e vestir aqueles que estão sem roupa.
É muito pior do que simples desperdício gastar qualquer parte disso com roupas vistosas ou caras.
Isso significa transformar alimento saudável em veneno mortal.
É entregar dinheiro para envenenar tanto a si mesmo quanto aos outros, até onde se estende seu exemplo, com orgulho, vaidade, ira, sensualidade, amor ao mundo e milhares de desejos insensatos e nocivos, que conduzem a muitos sofrimentos.
E não existe mal em tudo isso?
Ó Deus, levanta-te e defende tua própria causa!
Não permitas que seres humanos ou demônios continuem cegando nossos olhos e conduzindo-nos, vendados, ao abismo da destruição!
28. Suplico a cada homem aqui presente diante de Deus, a cada mulher, jovem ou idosa, casada ou solteira, e até mesmo a cada criança capaz de distinguir o bem do mal, que aplique isso a si mesma.
Cada um de vocês aceite o conselho do apóstolo. Pelo menos, não impeça os outros de aceitá-lo.
Suplico a vocês, pais: não impeçam seus filhos de seguir as próprias convicções, mesmo que imaginem que ficariam mais bonitos adornados com as mesmas inutilidades usadas por outras crianças!
Suplico a vocês, maridos: não impeçam suas esposas!
E vocês, esposas: não impeçam seus maridos, por palavras ou ações, de agir exatamente segundo aquilo de que estão convencidos em sua própria mente!
Acima de tudo, suplico a vocês, metodistas pela metade, que permanecem divididos entre nós e o mundo; vocês que ouvem frequentemente, talvez constantemente, nossa pregação, mas não possuem qualquer outra ligação conosco; e também todos aqueles que anteriormente estavam plenamente ligados a nós, mas agora já não estão:
Independentemente daquilo que façam, não digam uma só palavra para impedir os outros de receber e praticar o conselho que foi apresentado!
Dentro de pouco tempo, já não necessitaremos dessas pobres coberturas, porque este corpo corruptível se revestirá de incorruptibilidade.
Dentro de poucos dias, este corpo mortal se revestirá de imortalidade.
Enquanto isso, que nosso único cuidado seja abandonar a velha natureza, corrompida e inteiramente inclinada para o mal, e revestir-nos da nova natureza, criada segundo Deus em justiça e verdadeira santidade.
Em particular, revistam-se, como eleitos de Deus, de profunda compaixão, bondade, humildade, mansidão e paciência.
Sim, resumindo tudo em uma só expressão: “Revistam-se de Cristo”, para que, quando ele se manifestar, vocês também se manifestem com ele em glória.
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.