Meus Sermões · Volume 1 · Providência e liberdade

Será que Deus é o criador do mal? Se não, por que ele não interrompe a sua ocorrência?

Capítulo 11 de 14 · 894 palavras

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Textos base: Gênesis 1.31; Tiago 1.13; Salmo 32.9

1. As indagações

A questão da existência do mal no mundo, diante de um Deus todo-poderoso e bom, levanta indagações profundas. Será que Deus existe? E, se ele existe, ele é o criador do mal? Se não, por que ele não acaba com o mal? Por que permite a sua ocorrência? Há aqueles que dizem que isso é sinal de que Deus não existe. Outros, por sua vez, afirmam que Deus existe e que ele é bom, mas que não é onipotente — portanto, ainda não reuniu forças suficientes para combater o mal. Outros tantos dizem que Deus existe, que ele é todo-poderoso e que predeterminou tudo o que existe e o desenrolar de todos os acontecimentos, sendo, portanto, o autor do mal.

No entanto, qual é a perspectiva da Bíblia sobre essa importante questão? Jesus declara que Deus é perfeito e santo (Mt 5.48); o apóstolo João enfatiza que Deus é luz e nele não há treva alguma (1Jo 1.5); e Tiago afirma que Deus nem sequer é a origem das tentações (Tg 1.13). Após a criação, é dito que Deus viu tudo quanto havia feito, "e eis que era muito bom" (Gn 1.31). Portanto, se Deus, sendo todo-poderoso e bom, criou o mundo intrinsecamente bom, não é plausível chegar à conclusão de que ele é o autor do mal, de que ele criou o mal.

2. De onde veio o mal, então?

Como foi que o mal surgiu neste mundo, se não foi Deus que o criou? As Escrituras indicam que o mal é oriundo da liberdade humana, das escolhas humanas. O autor de Eclesiastes diz que Deus criou o ser humano reto, mas ele se meteu em cada enrascada (Ec 7.29): rebelou-se contra Deus, envolveu-se em más ações.

Deus tinha a capacidade de criar seres angelicais e humanos incapazes de desobedecer, sempre prontos a seguir todas as regras por ele estabelecidas. Mas isso resultaria num universo habitado por seres automatizados, robôs programados para obedecer. Embora tudo parecesse tão harmonioso e belo, os gestos de adoração e de amor a Deus, as expressões de amor, seriam todos superficiais; faltaria aquela autenticidade. Deus escolheu, então, conceder livre-arbítrio tanto aos seres humanos quanto aos seres angelicais, mesmo ciente das possíveis consequências, incluindo a presença do pecado e suas ramificações. Essas consequências representam, de fato, o preço para que Deus encontre adoradores verdadeiros, genuínos em sua devoção, que o busquem, que o amem sobre todas as coisas, que o adorem em espírito e em verdade (Jo 4.23-24).

3. Liberdade, amor e adoração

Deus permite a existência do mal em razão da valorização da liberdade humana. Se ele interrompesse todas as ações malignas e pecaminosas, nos transformaria em seres radicalmente distintos daqueles que somos — criados à imagem e semelhança de Deus. O livre-arbítrio está intimamente vinculado ao amor. O amor é a essência de Deus, representa a mais profunda ética, é o maior de todos os mandamentos: "Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração" (Mc 12.30). Isso é a essência da vida de ser cristão; esse é o testemunho de que somos de Deus. Deus procura verdadeiros adoradores, que o adorem em espírito e em verdade, como destacou o nosso Senhor Jesus Cristo na conversa que teve com a mulher samaritana (Jo 4.23-24).

Se a nossa vontade fosse controlada, nós não seríamos capazes de expressar, de externar um amor genuíno, tornando todas as nossas formas de adoração e de expressão de amor muito artificiais. O Salmo 32 diz que o ser humano não é como o cavalo ou o burro, que precisam ser controlados por cabresto (Sl 32.9). Logo, os resultados das escolhas humanas, incluindo o mal, representam o preço necessário para preservar o valor supremo, que é o amor — que só é possível por meio do livre-arbítrio.

Assim como Abraão foi testado em sua fidelidade e amor por Deus, sendo capaz de oferecer o seu filho Isaque (Gn 22.1-12), e Jó, que enfrentou tremendas provações e se manteve firme no seu amor e devoção a Deus, em nada pecando (Jó 1.22), todos nós encaramos desafios nesta vida, não é mesmo? E é uma prova, um teste, para expressar o nosso amor e a nossa devoção a Deus.

4. O mal está com os dias contados

Com base nas passagens bíblicas analisadas aqui, ainda que rapidamente, é evidente que a Bíblia reforça a natureza divina como sendo boa, justa, amorosa, santa, perfeita. A presença do mal no mundo surge das escolhas feitas pelos seres angelicais e também humanos. Deus concedeu o livre-arbítrio, incluindo a liberdade de escolher amá-lo de maneira voluntária. As consequências do mal são uma parte intrínseca desse processo, mas não refletem de maneira alguma a essência de Deus.

Deus, com sua sabedoria incomparável, orienta o curso da história para um desfecho desejado, conduzido pela sua soberana vontade. Deus tem um caminho na tormenta, onde o bem vai, no final, prevalecer. Esse propósito magnífico e redentor de Deus triunfará; o Senhor vai levar a bom termo a história da humanidade. Ele é o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim (Ap 22.13). Confiemos no Senhor. Eu diria: o mal está com os dias contados. Em breve o Senhor virá, e haverá novo céu e nova terra — terra onde reinarão a paz, a felicidade, a justiça, o bem, e não haverá mais lugar para a tristeza, para a injustiça, para o mal (Ap 21.1-4). Bendito seja o Senhor!

Parte IV

Capítulo 12

Bispo Ildo Mello
De Meus Sermões, Volume 1: Deus — pessoa, atributos e providência. Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).